Vergo

2 Perguntas e mais peguntas


Notas iniciais
Capítulo na visão do Gordon

Ele tinha um belo carro! E parecia ser muito rico. Muito melhor que pegar aquele ônibus imundo, que não tem banco de couro.

– Obrigado por me levar. — eu disse

– Não tem problema.

Ele parecia ser um cara legal. Nunca me viu na vida, e mesmo assim se ofereceu para me levar até minha casa. Bem que a Less tinha razão.

– Eu soube que você se mudou faz pouco tempo. Deve ser chato se adaptar.

– É. Tecnicamente eu só tenho falado com a Less e a Kate. Aí a Kate sugeriu a gente se encontrar hoje, pois ela disse ter um primo e que eu poderia te conhecer.

– Sei. Conheço os papos da Kate muito bem!

– Talvez seja por isso que ela e Leslie se deram tão bem.

– É. Pode ser.

E, então, o silêncio constrangedor apareceu de novo.

– Você já tinha ido ao restaurante mexicano ou foi sua primeira vez? — eu perguntei, tentando voltar ao assunto.

Por que nas piores horas você nunca tem nada a dizer? Me senti ridículo por fazer uma pergunta tão idiota.

– Sim, eu costumo ir lá às vezes. É um lugar animado. Você gostou?

– Claro! É bem diferente do que tinha na minha cidade. E a comida também é muito boa, principalmente os nachos, eles são maravilhosos!

– Ah. São mesmo.

O que eu estava fazendo? Falando de nachos?

Já sou gordo. Leslie me apresentou como Gordo. Agora isso? Ele, com certeza, acharia que só penso em comida! Mas também não é assim...

– Você está gostando da cidade?

– Ah, não conheci nada ainda. Kate se ofereceu para levar Less e eu para conhecê-la. Mas eu fico sem graça ao sair com meninas. É como segurar vela.

Verne me olhou assustado.

– Pareceu meio lésbico. Nada contra

– Segurar vela, mas de um jeito diferente, claro. — eu disse, desesperado para concertar as besteiras que havia falado.

– E na sua escola ... não tem garotos não?

– Na verdade, tem sim. Toda escola tem garotos.

– Sim, mas você não fez amizade com nenhum deles?

– Bom, as aulas começaram só faz um mês...

– E até agora você não fez amizade com ninguém?

– Bem, é que eu sou um pouco tímido.

– É, deu pra perceber. — ele falou baixo para eu não escutar. Uma tentativa falha.

– O quê?

– Nada.

Fizemos o resto do percurso em silêncio, e ele só voltou a falar para perguntar qual era minha casa.

– É aquela de muro amarelo. — eu disse, meio envergonhado pela casa com as paredes descascando, devido a uma infiltração. — As paredes estão assim porque pegamos a casa sem reformar e ainda não tivemos tempo para pintá-las.

– Entendi.

– Bom, mais uma vez, obrigado. A gente se vê.

– Tá. Pode ser.

Desci do carro e fui encarar a triste realidade lá de casa, e uma Leslie enjoada me enchendo o saco.

***

–Como foi lá? Eu vi que ele te trouxe!

– Você não devia ter me deixado lá sozinho, com esse garoto que eu nem conheço!

– E o que ele poderia fazer? Te agarrar? Aposto que você ia gostar!

– Leslie! Você enlouqueceu?

– Ah! Para de enrolar! Conta logo os detalhes!

– Não aconteceu nada. Okay?!

Fui para o meu quarto pisando duro. Ao entrar, bati a porta com toda a força possível. O que diabos ela estava pensando? Minha vida não pertencia a ninguém!

De repente, a porta se abriu e a mãe de Less botou a cara para dentro.

– Por que você bateu a porta? Não recebeu educação não? Gordo nojento!

– Pelo visto você chegou mais cedo do trabalho hoje!

– E você chegou tarde demais! Onde você estava? Comendo, só pode!

– Cadê meu pai?

– Meu marido está no trabalho. Mas não fuja do assunto não, onde diabos você estava?

– Acho que você não precisa saber da minha vida, não é minha mãe. Ou melhor, você não é nada para mim.

Pude ver o ódio estampado em seus olhos. A frase dita por mim era, com certeza, um pedido de morte. A boca dela se abriu, pronta para me xingar, amaldiçoar e ofender das mais diversas e ridículas formas possíveis. Mas não aconteceu. Provavelmente, minha madrasta tinha um plano melhor. Antes que eu pudesse descobrir esse novo plano, fuás mãos, de dedos longos e unhas afiadas, agarraram meu braço, me empurrando contra a parede. Caí no chão.

– Aprenda a respeitar os mais velhos, Gordon. Seu papai não estará sempre aqui para te ajudar.

"Mas ele sempre chega nas melhores horas", pensei. Neste momento, meu pai entrou pela porta cantando uma música qualquer enquanto dava oi. Não sei até hoje como ele faz isso.

Então a farsa voltou. Minha madrasta estendeu o braço para me ajudar a levantar e sorriu como se estivesse tudo bem.

– Oi, querido. Tudo bem? Como foi o serviço? Já vou servir o jantar. — e, virando-se para mim — Você me paga.

E foi embora, arrumar o jantar. Mais tarde, eu precisei mesmo pagar. Na mesa, ela voltou ao interrogatório, e, dessa vez, não tinha como escapar.

– Onde você passou a tarde, Gordon? — ela disse meigamente — Demorou tanto para chegar em casa...

Dessa vez, eu precisava inventar alguma coisa. Algo clichê serviria.

– Ahh ... eu estava passeando no shopping com alguns amigos, e, depois, fomos ao cinema.

– Só amigos? — perguntou Less

Odiava quando ela se intrometia nas nossas conversas. Principalmente para arruinar minhas desculpas.

– Só. Me passa o alface, pai?

– Claro.

Meu pai sorriu enquanto me entregava o pote de salada. Era bom saber que ele não se importava com as minhas preferências. Leslie me olhou, decepcionada e, aparentemente, desejando saber mais sobre minha conversa com seu novo amigo. Em resposta, levantei as sobrancelhas e ri. Não ia dar esse gostinho de vitória para ela. Mesmo porque não aconteceu nada além de uma carona.

Depois da janta, fui para o meu quarto e, é claro, Leslie me seguiu. Será que ela nunca desiste?

–Você não vai me falar mesmo, né? Tudo bem! Talvez você conte para a Kate, já que ela é sua nova melhor amiga. Mas tudo bem. Não tem problema! Porque, quando ela te esquecer, eu estarei aqui e...

–Ah! Para de reclamar! Não vou falar nada pra ela e nem pra você! — eu disse.

E, para finalizar aquela encenação barata, ela fez uma carinha de cachorro abandonado. Ah, como eu odiava vê-la fazendo isso!

– Gordon! Por favor! Custa falar que não aconteceu nada? Você deve é estar escondendo alguma coisa!

O celular de Less vibrou e uma mensagem de Kate apareceu na tela:

"Conseguiu alguma coisa? Nada por aqui."

– Leslie, que diabos...?

Antes que eu começasse meu longo questionário, ela se jogou sobre o celular e tentou escondê-lo de mim.

– Não é nada. Conversa de menina. — explicou, mas era óbvio que estava mentindo.

Não sabia qual era a intenção delas, mas tive a impressão de que Verne estava passando pela mesma coisa.

Notas finais
Um review não mata ninguém!