Vergo

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Notas iniciais
Olá pessoas. Dizer que vocês querem nos xingar é pouco. Eu sei. Acabamos entrando em um hiatus um pouco grande demais (3 meses. Sorry) mas estamos DE VOLTA! Olha que legal! Vamos celebrar que voltamos! Eu sei. Vocês não querem celebrar. Você querem vergo. E vocês vão ter vergo. Boa leitura. P.S: Como dissemos antes, nos sumimos por um tempo, mas não abandonamos vergo, e nem vocês —Tris

— Bate com mais força Verne!

Minha mão doía, mas eu não podia ligar. Soquei mais uma vez conseguindo finalmente fazer o que o meu pai queria.

Parei ofegante. Aqueles treinos me deixavam acabado.

— O que está acontecendo, Verne? Você está muito lerdo, não ‘tá acertando nada de primeira e ‘tá completamente desinteressado nos treinos... Logo agora que o torneio está chegando.

Torneio.

Desde o dia que oficializaram o dia D, meu pai só conseguia falar naquilo. Os treinos ficaram mais pesados e mais longos demorando umas três, quatro horas mais ou menos, o que eu fazia antes em uma hora e meia.

E infelizmente eu sabia que esse era só o começo. Faltavam uns três meses ainda e quanto mais perto se aproximasse, minha situação só tendia a piorar.

— Eu só estou um pouco cansado, pai. — Eu disse, indo pegar minha garrafa de água.

— Só tem dezenove anos na cara e tem coragem de dizer que está cansado. Olha minha idade e vê se eu estou reclamando de "cansaço". Você está com a cabeça em outro lugar que eu sei.

E ele estava certo. Tinha uma certa pessoa que vinha tirando minha atenção nesses últimos dias, mas eu estava adorando ficar meio avoado.

Desbloqueei o telefone enquanto virava a garrafa, fazendo com que as últimas gotinhas de água caíssem na minha boca.

Tinha três mensagens. Todas do Gordon.

"Verne? Posso passar aí? Já ‘tá na hora?"

"Eu acho que já está na hora. Você combinou às quatro e já são dez para as cinco, então eu acho que eu vou"

"Eu sei que eu estou parecendo aquelas pessoas chatas e ansiosas que não param de mandar mensagens até que o outro responda, mas... ‘Tá, eu estou ansioso, e estou indo."

Mal terminei de ler as mensagens e a campainha tocou.

Merda.

Gordon tinha me chamado para sair, como estávamos fazendo nas últimas semanas, só que dessa vez eu pedi para ele me buscar em casa para que ele e meus pais se vissem pela primeira vez.

Não seria uma apresentação do tipo "pai, este é o Gordon, ele é meu namorado e estamos saindo para um encontro. Ah, à propósito, eu sou gay”. Seria algo mais para "Gordon, esses são meus pais. Pais, esse é o Gordon, estamos indo encontrar uns amigos para irmos em uma festa pegar algumas garotas enquanto enchemos a cara. Tchau".

Apesar de estar gostando da tranquilidade que eu estava tendo com o Gordon, só com três pessoas sabendo sobre nós, eu tinha que começar a inserir o Gordon na minha vida e na dos meus pais, uma forma de facilitar a resolução do "x" da questão.

O único problema é que tinha perdido a noção do tempo.

Eu tinha avisado para o Gordon que eu teria treino e que depois estava tranquilo, que poderíamos sair. Porém meu pai extrapolou e eu acabei não percebendo que já tinha passado da hora que tínhamos combinado.

Falar para meu pai que ele tinha ultrapassado o tempo do treino? Ah, era algo que eu nem podia pensar em fazer, principalmente se eu quisesse sair naquele resto tarde com o Gordon.

— Quem será? — Meu pai perguntou.

— Gordon. — Murmurei enquanto bloqueava o telefone.

— Quem é Gordon?

E eu pude perceber que eu tinha falado um pouco alto, ou era só meu pai que tinha uma ótima audição nos piores momentos.

— É meu amigo pai. Eu combinei de sair com ele.

— Combinou de sair quando o treino acabar, não é, Verne? — Ele perguntou, algo que parecia mais ser um lembrete.

— Posso pelo menos abrir a porta?

— Sua mãe está lá em cima. — Ele disse, mas depois de uma pausa completou — Vai logo então.

Subi a escada que dava para a sala e fui em direção à porta da entrada.

— Verne? — Minha mãe disse, descendo a escada do segundo andar. — Ah, você veio abrir a porta.

— Sim, um amigo meu chegou, pode deixar.

— Ah ‘tá. Qualquer coisa estou aqui em cima. — Ela disse, e subiu as escadas novamente.

— Tudo bem, mãe.

Coloquei a chave na fechadura e girei até ouvir o clique para abrir a porta.

Não podia brigar com o Gordon por ele está ansioso porque eu também estava e sempre ficava quando marcávamos de nos encontrar. Parecíamos duas crianças, mas eu não ligava, gostava da sensação de frio que ficava no meu estômago toda vez.

— Oi, Gordon. — falei sorrindo.

— Oi, Verne. —disse ele e depois olhou para mim e completou — Eu acho que eu deveria ter esperado mais ou marcado pra outro dia.

Minha situação? Bom, eu me encontrava completamente suado, com as roupas colando no corpo, um pouco fedido também, e eu não tinha decidido se era bom ou não o Gordon me encontrar daquele jeito.

— Não, você chegou na hora certa. Esperou até demais. Eu que acabei ficando enrolado.

— Se quiser eu volto depois sem problema.

— Não, entra. — eu disse, me afastando da porta, e ele entrou.

— Se importa de ficar no porão ou você prefere ficar aqui em cima? — eu disse indo em direção à escada que dá pro porão

—Você que sabe. Posso ficar lá embaixo com você, sim, se o seu pai não achar ruim.

—Não. Não vai não. — e eu esperava que aquilo fosse verdade. — Desculpa não ter lido suas mensagens mais cedo.

—Ah não, sem problema! Você estava ocupado. — Gordon disse enquanto descia as escadas atrás de mim. — Eu que fiquei enchendo saco e... Minha nossa!

Tínhamos chegado no porão e eu não esperava uma reação diferente dele, porque quando as pessoas diziam que eu tinha um pequeno ringue de luta, ou uma mini academia, elas não estavam exagerando.

Meu pai tinha se preocupado com basicamente tudo! Vários sacos de bancada estavam pendurados no teto, tínhamos um tatame profissional no centro e um lugar para pendurar luvas de tamanhos diferentes. Em um cantinho, ficava uma prateleira onde eu deixava faixas para enrolar nas mãos e, eventualmente, meu celular. Era um pouco escuro, iluminado apenas por poucas lâmpadas amareladas. Alguns pesos eram deixados no chão, encostados na parede. Era levemente bagunçado, levemente sombrio.

— Nossa... É... é bem grande aqui embaixo. — Gordon disse impressionado.

— Sim.

— Ah, ainda bem que você desceu! Achei que ia ficar lá em cima até amanhã. — meu pai disse saindo de algum canto da sala e se deparando comigo e com o Gordon.

Os olhos do meu pai focaram logo no Gordon e eu não precisaria ler mentes para saber o que meu pai estava pensando em relação ao meu novo "amigo".

Gordon não era obeso, que nem ele se enxergava ou como passava a ideia de ser. Tudo bem que eu ainda não tinha visto ele sem roupa para saber, mas ele era normal. Era gordo? Era. E daí?

E isso acabava quebrando com o estereótipo que meu pai tinha, que eu só deveria ter amigos "parecidos" comigo, principalmente no quesito físico.

Meu pai era muito escroto, e de tanto conviver com ele, eu estava ficando também. Ainda bem que alguém abriu meus olhos na hora certa.

— Pai... É... Esse é o Gordon. —disse de forma cautelosa. — eu o chamei para ficar aqui embaixo, até o treino acabar.

Acabando de dizer isso, Gordon estendeu a mão em direção ao meu pai.

— Prazer, Senhor Robert.

Pôde-se dizer que eu gelei um pouco, mas meu pai esticou a mão e apertou a mão de Gordon.

— Desculpa incomodar. Sabia que Verne estava treinando, mas eu achei que já tinha acabado. Se quiser eu fico lá em cima, ou eu saio com o Verne outro dia mesmo, só não quero arrumar problema e atrapalhar o treinamento dele.

Eu estava chocado, e mais chocado do que eu, só meu pai, que eu aposto que jamais pensou que algum dos meus amigos pudessem ser tão formais e/ou educados como o Gordon foi.

— Não. — meu pai disse, depois de uma pausa, tentando processar o que Gordon dissera — você pode ficar sim. Verne já está terminando.

Pelo seu tom de voz, pude perceber que ele tinha adorado ser tratado daquele jeito. Foi chamado de "senhor", rolou um aperto de mão, e o Gordon ainda "reconheceu" que chegou em uma hora ruim, pela visão do meu pai, completamente diferente de quando os outros meninos iam lá em casa.

Quando Justin, Nathan ou Charlie iam lá em casa, desde o primeiro dia eles já se sentiram "em casa" e não lembro de em nenhum momento eles terem sido tão polidos desse jeito, e eu sabia que meu pai não gostava disso. Mas o Gordon não. Ele fez meu pai se sentir reconhecido como o "dono da casa", a figura de respeito no ambiente familiar e ele tinha gostado muito daquilo.

Gordon foi procurar um lugar para se sentar e meu pai voltou sua atenção para mim.

—Verne, faz aquela série de novo, já que agora você já deve ter descansado um pouco, né...

E então meu pai interrompeu sua fala porque um som encheu o ambiente.

Viramos nossos rostos simultaneamente em direção ao ponto onde Gordon se encontrava, e ele estava muito vermelho.

—Err... Desculpa... E-eu prometo que vou ficar quieto...

E então eu entendi o que ele estava falando. Um dos sacos de areia que estavam bem próximos do Gordon agora estava mais de um metro de distância dele.

— Foi você que fez isso? — meu pai perguntou sério

— Foi. — Gordon disse conseguindo ficar mais vermelho do que já estava— Me desculpa, eu acho melhor esperar lá em cima porque eu já fiz muita...

— Faz de novo — meu pai falou

— Quê? — Gordon perguntou olhando para mim de forma rápida.

— Faz de novo o que você fez quando não estávamos olhando.

Gordon ficou um tempo atônito e depois caminhou em direção ao saco de areia. Ele deu um soco no saco, mas foi bem franco, fazendo com que ele só balançasse.

—Ei! Não! Já falei! Faz como você fez aquela hora. — meu pai disse perdendo um pouco da paciência.

Gordon me olhou, e eu balancei levemente a cabeça para ele ficar confiante e mostrar que estava tudo bem, mesmo não tendo certeza daquilo de novo (meu pai era muito imprevisível).

Gordon então olhou sério para o saco de areia, respirou de um jeito que meu pai tinha me ensinado uma vez, para fazer com que a força do soco fosse maior, e Gordon deu um soco, fazendo com que o saco voltasse para o lugar de origem dele.

— Você luta aonde? — meu pai perguntou.

— Não faço mais aulas. Eu lutava na minha antiga cidade. — Gordon disse caminhando em nossa direção. — Sério, me desculpa, eu não queria tumultuar, eu só vi o saco de areia e pensei que... Eu queria saber se eu ainda sabia fazer algum coisa.

— Espera ai ... — eu disse baixo. — Você sabe lutar?

— Fez luta por quanto tempo? — meu pai perguntou, me cortando.

— Eu acho que eu fiz por uns cinco anos seguidos.

— E parou tem muito tempo? — meu pai disse, ainda me impedido de falar.

— Já tem um ano mais ou menos que eu parei. Eu fiquei doente. Problema de tireoide e o médico disse que eu deveria parar por um tempo com as aulas, pelo menos até a situação se estabilizar. Ele já me mandou voltar a fazer alguma atividade física, mas eu acabei me mudando e, agora que eu estou me acostumando e conhecendo a cidade, estou procurando um lugar para voltar a praticar.

— Olha, Verne, — meu pai disse se virando para mim — de todos os seus amigos que já vieram aqui esse é o primeiro que realmente sabe fazer alguma coisa, e sabe fazer muito bem. Gordon ... É Gordon, né?— ele disse olhando para o Gordo

— Sim.

— Eu gostei de você. Você ‘tá procurando um lugar pra voltar a lutar, né? Então, qualquer dia, hoje não que você ‘tá todo arrumando porque vocês vão sair, mas sei lá. Quero marcar um dia pra você vir aqui e eu quero ver o quanto e o que você sabe fazer ao certo.

— Er... Tá. Tudo bem. Só me dizer quando.

— Ok. E se for do jeito que eu vi agora, acho que você vai poder vir mais vezes.

— Como assim? — Gordon perguntou, meio espantado.

— Não é de hoje que Verne está desatento no treino, totalmente desinteressado. Então acho que se um amigo dele treinar com ele pelo menos algum dia da semana, ele vai ter mais vontade de praticar e vir aos treinos, e pelo o que eu vi você não vai atrapalhar, diferentemente dos outros amigos do Verne, não é? — ele disse me olhando.

— Pai, você quer que o Gordon treine comigo?

— Sim. Você ‘tá precisando de um incentivo.

— Olha, Senhor Robert, eu juro que se for atrapalhar não precisa.

— Não vai atrapalhar, já disse. E pode me chamar só de Robert, não precisa desse senhor não. — meu pai disse sorrindo.

Eu estava morto e não sabia. Era isso. Eu morri do coração no momento que a campainha tocou, só pode. O que tinha acabado de acontecer ainda não tinha entrado na minha cabeça.

Meu pai gostou do Gordon.

Ele foi legal com o Gordon.

Ele chamou o Gordon para treinar comigo.

Ele deixou com que o Gordon só chamasse ele pelo nome.

Ele sorriu para o Gordon. SOR-RIU!

Puta que pariu.

Eu estava muito fodido.

Voltei a fazer à bendita série que meu pai mandou, e logo depois ele disse que eu podia ir, então fui tomar banho e trocar de roupa enquanto Gordon disse que iria me esperar na sala.

Peguei uma camiseta listrada verde e azul-escuro e o jeans de sempre, além de um tênis preto que não usava fazia certo tempo, e desci as escadas.

Pude ouvir que Gordon conversava com alguém.

— ‘Tá falando com quem? — perguntei chegando perto dele e indo pegar um copo de água, porque eu ainda estava morrendo de sede depois daquelas quatros horas no porão.

— Ah, com a mãe da Kate.

Ele estava sentado em uma das banquetas da cozinha, mexendo no celular.

— Minha tia ‘tá aqui? — perguntei, deixando o copo na pia.

— Sim. — Gordon falou, tirando os olhos do telefone e olhando para mim. — E aí? Vamos?

— Aham. — eu disse e virei gritando — Mãe, já ‘to indo, ‘tá?!

Minha mãe surgiu na cozinha logo depois. Ela sempre gostava de falar comigo antes que eu saísse. Coisa de mãe, que eu gostava, e meu pai achava babaca.

— Já? Tudo bem. Bom passeio.

Gordon estreitou os olhos e olhou para mim.

— Por que você chamou a mãe da Kate de “mãe”?

— Ué, porque ela é minha mãe. — eu disse confuso, mas rapidamente eu entendi o que aconteceu — Ah, merda, eu acho que eu esqueci de te contar que minha mãe e a mãe da Kate são gêmeas. — eu disse abrindo um sorriso meio sem graça.

—São? — Gordon disse assustado.

— Ah, agora faz sentido. — minha mãe falou.

— O que faz sentido? — eu perguntei

— É que ele começou a falar comigo como se já me conhecesse, e eu não lembrava da cara dele e fiquei com vergonha de dizer. Agora faz sentido. Ele me confundiu com a sua tia.

— Eu conheço a mãe da Kate, então eu falo normal, me desculpa, eu devia ter me apresentado e... — Gordon falou.

— Ah, que isso! Acho até melhor assim. Não gosto dessas formalidades não. Gosto que as pessoas se sintam à vontade falando comigo. Meu marido que gosta dessa polidez toda. Relaxa, — minha mãe falou, — mesmo porque a culpa é do Verne né!

— Sim — Gordon disse sorrindo.

— Ei! Eu esqueci ‘tá! Agora... Vamos embora?

— Tudo bem. Então, tchau, dona... — Gordon disse e olhou para mim.

— Não conta para o seu amigo que sua mãe é gêmea e nem nos apresenta depois, né? — minha mãe falou.

— Ah, é. Mãe esse é o Gordon, e Gordon essa é minha mãe, Audrey.

— Prazer, dona Audrey.

— Foi muito bom te conhecer, Gordon. Sempre que quiser, pode vir— e virando pra mim completou — Viu como se faz, Verne? Esse menino não tem jeito. — ela disse rindo e mexendo no meu cabelo. Gordon riu, agradeceu e então, finalmente, saímos de lá.

x.x.x.

Fomos para um shopping que ficava perto da casa minha casa. Eu estava com um pouco de fome, sempre ficava depois dos treinos, então resolvi ir com Gordon num café que tinha inaugurado a pouco tempo, lá dentro.

Gordon aceitou e nós nos sentamos em uma mesa.

— Você ficou calado no carro e está quieto agora, ‘tá preocupado com seus pais né? Da reação deles ao me conhecerem, não é? — Gordon disse enquanto puxava a cadeira para se sentar

Puxei a minha também, e me sentei. A base da mesa era muito larga e eu tinha um espaço mínimo para colocar minhas pernas. Já estava começando a não gostar daquele lugar.

— É... — eu disse ainda olhando para baixo, tentando achar uma posição confortável para ficar. —Não é nem com a reação da minha mãe. Ela gosta de todo mundo que vai lá em casa, e é sempre muito atenciosa. Eu fiquei preocupado com meu pai. Ele gostou de você, Gordon!

Olhei para ele finalmente, e ele, por sua vez, me fitava de forma confusa como se ainda não tivesse percebido que meu pai gostando dele, também era um grande problema.

— Eu não sabia qual seria a reação dele. À propósito, desculpa por meu pai ter ficado olhando para você com aquela cara de desprezo no início.

— Sem problema. — Gordon disse comprimindo os lábios — Já vi essa cara antes, e eu sei como é seu pai ... Você já me falou.

— Eu sei, desculpa — disse abrindo um sorriso fraco. — Enfim, depois disso ele simplesmente caiu de amores por você!

— Ah, Verne, menos. Não foi assim.

— Ah! É claro que foi! — eu disse alto e, logo depois, abaixando a voz, continuei — Sabe quantas pessoas ele já ofereceu pra irem treinarem comigo!? Nenhuma! Ele odeia, odeia muito quando os meninos vão lá para casa e descem e pedem para poder treinar comigo. Ele sempre deixa uma vez ou outra, mas eu sei que ele não gosta. E ele simplesmente deixou você ir lá toda semana, para treinar comigo e isso tudo aconteceu dez minutos depois que vocês se conheceram!

Eu estava exaltado de novo, e não conseguia parar de gesticular enquanto falava.

Um garçom apareceu e perguntou se alguém já tinha ido nos atender. Gordon respondeu por mim, dizendo que não e então o garçom perguntou se poderia trazer uma cestinha com pãezinhos enquanto pensamos em qual café iríamos tomar.

Gordon concordou, fazendo com que o garçom se fosse e nos deixasse a sós de novo.

— É, ele pode ter gostado um pouco de mim. — Gordon disse, voltando ao assunto.

— Eu achei que ele ia ser grosso e seco com você, como ele costuma ser no início com os meus outros amigos que vão lá em casa. Não que eu quisesse isso, mas eu não sei, eu ‘to confuso, Gordon! Eu não esperava essa reação dele, porque imagina quando ele... quando ele...

— Quando ele descobrir que o amiguinho do seu filho, que ele acolheu lindamente na sua casa, para bater num saco de areia enquanto falam merdas, levou o filhinho dele para o lado colorido da vida. — Gordon completou resumindo sabiamente o que me angustiava. — Olha, eu sinceramente não sei se prefiro seu pai me odiando desde o início, e aumentado a raiva por mim quando descobrir, ou dele me amando e adorando, como se eu fosse um outro filho dele, até sentir como se estivesse sendo apunhalado pelas costas, que é justamente o que eu estou fazendo!

Gordon terminou de falar e eu não era mais o único exaltado. Estávamos começando a ver o que o futuro nos aguardava e não parecia ser muito legal. Nem tranquilizador.

— Agora você entendeu porque eu estava tão "calado e quieto"?

— Sim.

Fiquei tamborilando os dedos na mesinha, que era um pouco alta e tinha um tampo verde, que se encontrava à minha frente. Gordon disse que ela combinava com a camiseta. Olhei para o lado de fora do café. Algumas pessoas passavam pela gente, incluindo duas meninas que pareceram muito surpresas em nos ver, até apontaram de leve e cochicharam alguma coisa uma para a outra. Honestamente não entendi o motivo, talvez nem fosse com a gente, mas, ainda assim, foi estranho.

— Eu vou recusar o convite. — Gordon disse depois de um tempo.

— O quê? — eu disse me virando abruptamente.

— É. Não vai ser legal eu abusar da boa vontade do seu pai, Verne, e depois como pagamento dizer que sou viado. — Gordon disse baixo, de forma triste.

— Não! Não, não, não. Você não pode recusar.

— Por quê não? Vai ser melhor! — ele falou levantando as mãos.

— Ah vai! Vai ser muito bom o menino educado virando um garoto esquisito e sem educação, que recusou o convite do meu pai por motivo nenhum! Ele não vai entender nada.

— Eu invento uma desculpa.

— Não! — eu disse, ficando um pouco desesperado. Ele não podia recuar, não mesmo. — Ele vai saber que é falso. Olha, — eu disse respirando fundo e tentando me acalmar— só fica ‘tá. Vai que ele acabe se afeiçoando a você. Pode ser que tenha um lado positivo. As pessoas podem mudar.

Gordon estreitou os olhos

— Você acredita mesmo no que você acabou de falar, Verne?

— Não.

— Que ótimo.

— Mas, por favor, fica. Não sai. Isso nunca aconteceu antes. Os treinos são muito chatos às vezes, eu fico entediado, cansado, desmotivado e ... Bom... com você indo, pelo menos eu tenho um motivo pra te ver toda semana. — completei, abrindo um pequeno sorriso

Gordon me olhou e começou a rir.

— Eu sabia que era por causa disso! — então sua risada aumentou.

— Ei! Ah, para! Vai dizer que você também não gostou?

— ‘Tá bem, é. Eu gostei. — ele disse rindo mais um pouco. — Eu fico, e que a santa purpurina nos proteja do que o futuro nos aguarda.

— Acho que alguém ‘tá andando demais com o Oliver.

— É. Eu também.

E começamos a rir.

O garçom do café onde estávamos apareceu com uma garrafa de água com gás e uns pãezinhos de rico com manteiga de leite para passar. Eram bonitinhos, mas o gosto não era tão bom assim. Para falar a verdade, eu odiei. Nunca tinha ido lá antes, mas resolvi dar uma olhada com Gordon, porque a gente não estava fazendo nada mesmo. Maior decepção da minha vida.

— Mas, o que a gente tá fazendo aqui, vamos pra outro lugar. — Gordon disse.

Ele também não tinha gostado de lá.

— Não, espera.

— Esperar o quê?

— Eles já vão chegar. — eu falei olhando para meu relógio de marca ridículo.

— Quem já vai chegar? — Gordon me olhou sério. — Verne, você chamou alguém para sair com a gente?

— Bom ... — eu comecei de forma cautelosa, porque eu sabia que o Gordon não ia gostar muito do que eu tinha feito. — Lembra quando a gente se conheceu?

— Sim, o que é que tem?

— A Kate me apresentou para você e tudo o mais principalmente porque você era novo na cidade e não tinha amigos.

— Verne...

— E eu fui lá para ser seu amigo, só que... Bem, tivemos muitas confusões e a gente brigou, discutimos, e agora eu sou seu amigo, mas não sou só seu amigo, entende?

— Verne...

— E eu acho que você não deveria ter só eu como amigo. ‘Tá tudo bem, você fala com o Oliver, e a gente acabou de concordar que você anda muito com o Oliver...

— Verne, você não...

— Então eu chamei meus amigos para encontrarem com a gente e você vai conhecê-los. — eu disse de forma rápida.

Eu sabia que o Gordon era tímido e que ele tinha problema em começar amizades. Mesmo as meninas me enganando no início, nisso elas não mentiram, e eu queria ajudar agora.

Queria que ele tivesse amigos, e trazê-lo para o meu grupo seria incrível!

— Porra, Verne, por que você não me falou nada!? E eu não tenho só você e o Oliver como amigos, ‘tá!?

— Não? — eu perguntei com uma cara confusa.

— Não, né, Verne! Eu estudo, e já estamos quase no meio do ano. Acha mesmo que eu ia ficar isolado?

— Eu sei que você é tímido, aí eu pensei que você quase não falava com ninguém. — eu disse meio envergonhando, até eu perceber que ele queria me enrolar, e depois de uns segundos repliquei: — Ah, fala sério Gordon. Você diz que tem, mas eu nunca vi você saindo com esses seus "amigos".

— Eu saio com eles! Eu só não vou pra festas, e lanchonetes e...

— E mais lugar nenhum. Amigos só dentro da escola. A única pessoa com quem você sai é o Oliver! Comigo também, mas nunca vi você saindo com os seus amigos. E eu não te contei nada porque eu sabia que você ia fazer de tudo para evitar sair comigo e com os meninos.

— Quando você fala que quer que eu faça amigos, quer que eu tenha amigos héteros? — Gordon perguntou estreitando os olhos.

— O quê? Não! Só quero que você conheça eles, e aí você vai poder sair com a gente. Sai todo mundo junto.

Gordon esfarelou um daqueles pãezinhos e colocou na boca, e eu percebi que ele estava nervoso, e sabia que não era comigo. Ele estava nervoso em conhecer meus amigos.

— Vai ser legal. — eu disse tentando deixá-lo mais relaxado.

— ‘Tá, pode ser. — ele respondeu num muxoxo: — Mesmo porque— completou, levantando os olhos para mim — eu não tenho mais escapatória, né? Eles já estão chegando.

— Sim.

— Eu te odeio. — ele disse, jogando uma migalha de pão em mim.

— Você vai gostar deles. — abri um sorriso. — Eles são gente boa. São estranhos, mas são legais.

Gordon me lançou um sorrisinho, mas ele não estava contente com a situação. Mas eu sabia que ele ia gostar.

Meus pais gostaram dele, é óbvio que os meninos também iriam gostar.

Eu queria introduzir mais o Gordon na minha vida, e eu acho que estava conseguindo.

x.x.x

Como o café ficava no shopping onde combinei de encontrar meus amigos, resolvi que seria uma boa ideia pagar a conta logo e ir dar uma volta. (Concordamos que não era uma boa ideia experimentar o café de lá, ainda mais depois daquele bando de massa que eles chamavam de pão).

Passamos por algumas vitrines nada interessantes, até pararmos em frente a uma Hot Toppic. Gordon me forçou a entrar.

Ele me fez experimentar roupas de emo enquanto ria histericamente. Depois, me mostrou camisetas das bandas que Oliver gostava, e me comprou um broche baratinho que gostei, mesmo eu pedindo para não gastar seu dinheiro comigo. Coloquei o broche na camiseta, na altura do peito. Comprei um para ele, também, em agradecimento, mas, diferente de mim, guardou no bolso.

Comprei sorvetes para a gente se livrar do gosto horrível dos pãezinhos. Isso me fez lembrar a sorveteria onde fui com Gordo, que, claramente, era mil vezes melhor. Bom, aquele dia tinha sido mil vezes melhor. Não estávamos nervosos com nada e nem preocupados com nada ainda, a não ser não sermos pegos por nenhum conhecido enquanto nos beijávamos em algumas ruas sem saída.

Fomos andando até chegar em uma das entradas, na qual Charlie, Nathan e Justin já deveriam estar, mas não estavam. Tudo bem que eu tinha chegado mais cedo, queria um tempo a sós com o Gordon, para que conversássemos só nós dois, mas já tinha dado a hora do combinado. Sentamos em um banquinho de madeira.

— Você daria um emo muito bonito, não vou mentir, não. —disse Gordon rindo.

— Tem tanta certeza disso?

Encarei ele no fundo dos olhos e ele riu ainda mais alto, se inclinando para traz.

— É, talvez não. — disse Gordo.

x.x.x

Já estávamos cansados de esperar quando meus amigos chegaram. Eles me olharam de uma forma diferente por causa da camisa. Não era a clássica gola-polo-de-hétero-rico, e eles sabiam disso. Também repararam em Gordon, e eu sabia o porquê.

— Ei, Verne, tênis legal. Combina com a camisa. — disse Justin enquanto ria.

— Cara, me faz um favor e cala essa boca. — respondi.

Nathan e Charlie riram. Gordon deu uma risada falsa também.

— E você é o… Gordon? —perguntou Nat.

Gordo assentiu com a cabeça.

— Eu sou o Nathan. Esses são Charlie e Justin. E o Verne aqui, que você já conhece. — disse ele, enquanto apontava para si mesmo e, depois, para cada um de nós.

Era engraçado olhar para mim e Gordon no meio dos outros. Pela primeira vez, eu parecia extremamente deslocado ao lado dos meus próprios amigos.

— 'Ce já conheceu os pais do Verne, né? — perguntou Charlie — A mãe dele não é uma gata?

Levantei a sobrancelha para ele.

— Por isso que você nasceu essa gracinha, Verne, não reclama, não. —falou Nathan em tom de ironia enquanto apertava minha bochecha.

Os três estavam irritantes como sempre, e olha que nem estavam bêbados. Só eu mesmo para aturar aqueles idiotas.

Meu celular vibrou, era uma mensagem do Gordon. Não sabia como ele tinha feito para digitar sem que os outros percebessem. “Seus amigos são horríveis para puxar assunto, credo”, dizia ele.

Eu ri, o que gerou perguntas em relação a com quem estava falando.

— Uma menina aí. — menti.

— Uma menina aí chamada Abigail? — Justin provocou.

— Não! — disse de forma firme. — Já disse que eu não quero mais falar sobre isso.

— Ele está certo, cara. — Charlie falou, batendo no ombro de Justin.

— É, ‘tá. Foi mal.

Olhei de relance para o Gordon e ele balançou a cabeça, como quem diz que não ligava para aquela situação.

— Mas nós não marcamos de nos encontramos pra ficarmos na entrada do shopping, né ? — Charlie disse. — Vamos entrar.

— Nós não marcamos de sair para ficarmos andando no shopping. — Justin reclamou.

— Tem uma ideia melhor para o que fazer às cinco e meia da tarde? — Nathan perguntou cruzando os braços.

— Tenho muitas, mas não acho que seja apropriado falar isso nesse horário — Justin falou com um riso de escárnio.

Os garotos começaram a rir e, claro, isso abriu espaço para inúmeros comentários machistas, que eu com certeza aprovaria uns meses atrás. Gordo deveria estar odiando eles completamente, e eu não sabia o que fazer em relação a isso.

Fomos andando em direção ao shopping enquanto Justin girava a chave do carro no indicador esquerdo. Ele sempre tinha que deixar claro para Deus e o mundo que era ambidestro.

— Se eu fosse você guardava essa chave. — Charlie recomendou.

— Você disse bem, "se você fosse eu." Mas você não é. — ele disse girando na cara do Charlie, que se assustou com a possibilidade da chave bater na sua cara e deu um passo para trás, pisando no meu pé.

— Aí.

— Foi mal, cara. Culpa do sem educação do Justin.

— Ah, gente, fala sério. A gente anda com essa criatura a tantos anos e vocês ainda não aprenderam como lidar com ele? É só deixar ele acertar a própria cara. — e dizendo isso, Nathan bateu no cotovelo de Justin que acabou acertando a chave em sua própria bochecha.

— Seu filho da...

Comecei a rir com Charlie. Já Nathan, começou a correr, se afastando de um Justin irritado.

Olhei de relance e vi que o Gordon estava rindo também.

Pelo visto, as coisas começavam a caminhar bem.

— Então, que merda que a gente vai fazer aqui? Compras? — Justin disse enquanto esfregava a bochecha, que ainda estava vermelha.

— Você já fez, né, Verne? — Gordon disse baixo, mas Charlie, que estava perto, acabou escutando.

— Você fez compras? — ele perguntou confuso.

— Ele me fez chegar muito cedo, ai eu fiz ele entrar naquela loja emo que tem aqui. Ele adorou. — Gordon disse em tom de deboche.

— Ah, então foi lá que você comprou esse broche horrível. Foi uma aposta, né? Porque só assim para o Gordon fazer você comprar isso. — Nathan disse rindo.

Dessa vez eu não olhei para o Gordon.

— Dane-se o broche cafona do Verne. Vão arranjar algo para gente fazer nesse shopping ou não?

— A gente pode ir no cinema... — Charlie sugeriu.

— Ou a gente pode ir num daqueles locais que tem jogos eletrônicos. — Nathan falou. — Se o Senhor Justin quiser.

— Pode ser. Já estou aqui mesmo né? Agora, temos que saber o que o nosso mais novo colega aqui vai querer.

Todos olharam para o Gordon e ele não estava preparado para ser o centro das atenções. Ele nunca estava.

— Bem... Er... Pode ser. Eu não me importo não. — ele disse coçando a nuca.

— Gordon deve ser uma pessoa muito legal para ter que aturar vocês dois — Charlie disse apontando para os outros meninos.

— Por aturar o Verne também, né! Porque quem é a pessoa que marca de encontrar a outra num shopping?

— É, eu acho que as pessoas costumam fazer isso, Justin. — falei.

— As pessoas. Não a gente. — ele respondeu, como se eu tivesse algum problema.

— Então, como vocês se conheceram? — Nathan perguntou.

— Foi numa festa aí. — Gordon falou.

— Ah, você gosta de festas? —Charlie perguntou.

— E quem não gosta!? —Justin se intrometeu de novo e aquilo estava começando a me irritar.

— Gosto sim.

— Quando tiver alguma a gente chama você para ir com a gente.

— Pode ser. —Gordon concordou balançando a cabeça e sorrindo.

Ele tinha um sorriso fofo que me dava vontade de apertar suas bochechas.

Não tinha apertado ainda. Provavelmente vou fazer isso ... Na próxima vez que estivermos sozinhos.

Os meninos começaram a conversar com o Gordon. Na verdade, estava sendo mais um interrogatório, como as pessoas sempre fazem quando conhecem umas às outras. Eu sabia que muitos desses ainda iriam vir, principalmente quando Gordo me apresentar para a família dele.

Não queria pensar nisso agora.

Ele tinha acabado de conhecer meus pais. Posso esperar muito bem uns meses antes de conhecer os pais dele. Ou anos.

Se bem que não são os pais. É só o pai.

Sabia que Gordon não tinha mãe. Ele nunca me falou sobre ela diretamente, mas pelo que ele falou deu para entender que ele perdeu a mãe quando era bem pequeno.

Não sabia do que foi, doença ou acidente, mas eu não ia perguntar. Era um assunto delicado, e eu sei que quando ele se sentir confortável, vai me falar.

Acabou que os meninos escolheram ver um filme de terror, antes de irmos no parque de jogos.

Foi a vez de Gordon olhar para mim de relance, quando os garotos escolheram o filme. Ele lembrava que eu não me dava muito bem com terror.

Eu não podia fazer nada. Justin já estava chato demais, e eu não queria dar uma oportunidade para ele e nem para os outros meninos me sacanearam, eles não sabiam que eu era uma pessoa assustada.

Na verdade, acho que era a primeira vez que eu ia num shopping e, principalmente, num cinema com eles. Não era o tipo de programa de fim de semana que costumávamos fazer.

Nem o que eu mesmo costumava fazer, diferentemente de Gordon, que não perdia nenhum lançamento com a Leslie (eles sempre sabiam as histórias dos filmes em cartaz, porque iam nas pré-estreias. Era um hobbie que os dois tinham. Cinéfilos.)

Percebi naquela hora que era disso que eu gostava. De como não precisava abandonar minha "vida normal" para ficar com ele. Eu sempre tive a impressão de que para um relacionamento dar certo era preciso "acrescentar" algo e não "retirar" da sua vida. No entanto, por sinal, não foi assim que aconteceu com nenhuma das garotas que eu tentei amar. Com Gordon, isso ficava claro para mim. Deve ser porque elas eram garotas.

Acabou que ele sentou numa cadeira ao meu lado (o que eu sabia que ia acontecer), ficando do lado oposto dos meninos, propositalmente. Pelo menos onde ele estava sentando, podia pegar na minha mão, sem ninguém ver, e apertar de leve antes da próxima cena assustar todo mundo na sala de cinema. Eu tinha duvidado quando ele disse que sempre adivinhava as cenas de susto. Não deveria.

Jogamos bastante no tal "parque de jogos" e mesmo com todo mundo reclamando, todos se divertiram, inclusive Justin, que ganhou vários tickets e trocou por uma arminha de plástico que espirra água, que ele usou para bater no Nathan. Ele era uma pessoa vingativa.

Basicamente, era um espaço bem grande com várias máquinas eletrônicas, bem parecida com o fliperama que Gordon me levou quando nós nos conhecemos. A diferença é que nesse você ganha brindes, no outro você ganha uma cantada barata do vendedor de fichas (Kate e Leslie que o digam).

Eu tinha odiado aquele lugar no dia referido. Mas, agora, considerava seriamente voltar lá com o Gordo. Não era muito cheio, e provavelmente não vai ninguém que eu conheço lá. Seria bom para fugir.

Para falar a verdade, queria fazer muitas coisas com o Gordon. A cada hora a minha lista ficava maior e eu só queria poder realizar tudo que estava inserido nela.

E uma estava acontecendo bem na minha frente. Porque durante o jogo, os meninos começaram a interagir mais com o Gordon e ele também estava correspondendo.

Não querendo parecer meloso ou uma pessoa velha falando, mas fiquei muito orgulhoso de vê-los juntos e se dando bem.

Eu não falava que nem velho. Eu falava que nem meu pai.

Erg.

x.x.x.

Começava a escurecer e a luz da lua batia nas mechas de cabelo de Gordon. Tentei não reparar, mas o efeito era incrivelmente legal. Falhei miseravelmente.

— Que foi? — Gordon perguntou se virando.

— Nada. — Provavelmente eu olhei tanto que ele sentiu sua nuca queimar.

Já tínhamos nos despedido dos meninos, e caminhávamos pelo estacionamento do shopping que ficava a céu aberto.

— Desculpa ter que ir embora agora. — Gordon disse sem graça. — É que meu pai insistiu em ir nessa festa e...

— Sem problema. Você já tinha me falado que tinha um compromisso hoje de noite.

— É.

Era aniversário de um amigo do pai do Gordon, e se ele não fosse seria falta de educação. Eu entendi perfeitamente. Quantas vezes já tinha ido em festas com meus pais só para não passar de filho rebelde e mostrar que eles me deram uma boa educação.

— Obrigado.

— Pelo quê? — Gordon disse quando entramos no carro dele.

— Você sabe o porquê...

— Sei? Foi por eu ter te dado esse broche? Ou por ter sido uma pessoa simpática hoje, ou por ter segurado sua mão assim? — ele disse pegando minha mão e entrelaçando os dedos no meu, do mesmo jeito que ele fez algumas horas atrás.

Eu dei um sorriso, olhei rápido pelo retrovisor. Não tinha ninguém. Eu o beijei. E ele me beijou também.

— Então... — voltei ao assunto, enquanto ele dirigia para minha casa.

— Quer saber se eu gostei deles né?

— É.— eu disse cauteloso.

Estava com medo da resposta.

Ele esperou um tempo, fez uma curva e disse.

— Eles são legais.

— Gostou deles?

— Sim. Bem, são um pouco diferentes das pessoas que conheço e que já conheci. Mas são legais. O Charlie é bem maneiro. O Nathan e o Justin são engraçados.

— Sim. Eles são diferentes, mas eles são boas pessoas.

— Eles parecem que são legais. — Gordon sorriu, e apertou minha mão. —Chegamos.

— Único problema de você me trazer em casa é que não dá pra ter beijo de despedida.

— Por um lado é bom. Você vai ficar querendo um e vai marcar de me ver logo, logo. — ele disse piscando.

— Tecnicamente já temos algo marcado toda semana. — lembrei.

— Aff.

Eu ri. Me despedi e fui em direção a minha casa. Estava feliz com tudo.

E principalmente porque meus amigos gostavam do Gordon.