Vergo
14 Blefe
Notas iniciais
Os amigos do Verne não gostaram de mim. Isso era óbvio.
Verne só não percebeu porque ele queria muito que nós nos déssemos bem, mas não foi isso que aconteceu, infelizmente.
Não por minha causa, mas porque eles simplesmente não iriam me aceitar com eles. Eu era totalmente diferente do que eles consideravam como "amigos".
É, pois no caso deles, eles avaliavam e consideravam se as pessoas eram dignas para serem parte do seu grupo.
Grande bosta.
E sim. Só porque eu era gordo.
Porque tudo sempre tem que estar relacionado ao fato de eu ser gordo? Parece que eu tenho uma doença contagiosa. Parece que andar perto de gente gorda vai deixá-los gordos também.
Ou simplesmente, não vão ser tão "descolados".
Mas eles também poderiam ser que nem o Verne. Talvez era só uma forma de esconderem o que eles realmente eram. Principalmente Charlie. Acho que ele foi a pessoa mais simpática comigo naquele grupo. Já do Justin eu não posso dizer o mesmo.
Ele não tinha gostado de mim logo de cara, mas pode-se dizer que temos um sentimento recíproco. Eu também não fui com a cara dele.
Agora o Nathan nada mais era do que um macaco de imitação. Se o Charlie ria, ele ria. Se o Justin fazia alguma gracinha, ele fazia também. Eu só me esqueci de pedir pra ele fazer malabares.
Eu estava sendo muito crítico, eu sei, e até um pouco cruel, mas eu estava irritado. Por isso que eu não queria conhecer os amigos do Verne, fiz de tudo pra evitar que ele comentasse sobre isso e quando eu menos espero ele me conta que chamou os amigos para o nosso encontro, que nunca tinha sido um encontro na verdade!
Se ele ao menos tivesse me falado antecipadamente, que nem ele fez com os pais, talvez tivesse sido diferente. Eu teria me preparado psicologicamente para isso. Mas eu fui pego completamente de supresa, logo após ter passado por uma prova muito difícil que foi falar com o pai do Verne e conhecê-lo.
E com isso eu lembro que o pai dele gostou de mim, e da cara de um Verne desesperado (mesmo que ele tentasse esconder eu sabia que ele estava assim) tentando me convencer de ir treinar com ele, e que eu iria amarrar uma corda no meu próprio pescoço aceitando aquilo.
Soquei o volante do carro, quando parei no sinal vermelho. Esfreguei minhas mãos no rosto.
Foi golpe baixo do Verne. Baixíssimo. Ele me fez conhecer todas as pessoas importantes na vida dele hoje. De uma vez. Num intervalo menor que duas horas.
O sinal abriu e eu voltei a dirigir.
Estava nervoso, irritado mas eu sabia que se eu estivesse no lugar dele teria feito a mesma coisa. Eu jamais iria sair com ele e com os amigos se ele marcasse algo. Só acho que não precisava ser tudo num mesmo dia.
Isso foi insano para qualquer pessoa ansiosa e tímida como eu.
Mas eu sabia que o Verne não queria fazer por mal. Ele só não tinha pensado nisso.
Ou talvez foi melhor. Como arrancar um band-aid de uma vez.
Cheguei em casa. Eu estava levemente atrasado.
Todos já me aguardavam na sala, completamente arrumados. Meu pai vestia uma camisa social simples e uma calça de tecido, Leslie usava o clássico vestidinho preto com cara de “eu-fui-arrastada-pra-uma-festa-de-gente-velha-sem-querer” e, a bruxa má, um vestido roxo sisudo que nem ela.
— Sua roupa já está separada em cima da cama, Gordon, mas ande logo. — disse meu pai.
Segui as instruções e fui rápido para me trocar, vestindo uma camisa social azul e um jeans preto.
Quando chegamos na festa, sentamos em uma mesa no canto, e com “sentamos” me refiro a Leslie e eu, porque papai e a bruxa já tinham nos abandonado.
— Como foi lá com o Verne?
— Legal. Os pais dele gostaram de mim. E… O pai dele meio que me convidou pra treinar junto com ele.
— Você 'tá me zoando? Gordon, seu sogro super homofóbico te chamou pra treinar junto com o filhinho dele?
— Digamos que sim… —eu disse enquanto coçava a nuca e encarava o chão.
— Okay, okay. E depois?
— A gente foi para o shopping e eu tive que conhecer uns amigos dele.
— E…?
— São todos uns babacas. Os clássicos filhinhos-de-papai. Não conseguiam falar uma palavra sem se afogarem no próprio ego. Aí a gente foi ver um filme. É claro que tinha que ser de terror, eles devem achar que filme de terror exala masculinidade.
— Ah, não.
— Pois é! E o Verne tem medo dessas coisas!
— Ele tem medo de filme de terror? Meu Deus! Primeiro você chorando com comédia romântica, agora isso! — disse Less, entre risos.
— Ei!
— Pelo visto nenhum dos dois exala masculinidade.
— Claro que exalamos. — eu disse, em tom de ironia — Olha minha cara de machão.
Uma senhorinha veio perguntar se a gente já tinha comido alguma coisa. Eu tinha uma lembrança muito vaga dela, acho que era do emprego do meu pai. Já estava na época de se aposentar, mas ela precisava de dinheiro pra manter os filhos preguiçosos que não queriam trabalhar ou algo assim. Dissemos que não e ela nos levou até uma mesa com alguns pratos empilhados e bandejas com comida de gente velha. Leslie e eu pegamos uma quantidade grande o suficiente para aguentarmos a noite toda sem comer mais nada e pequena o suficiente pra não sermos mal-educados.
Voltamos para a mesa e, entre garfadas, contei para Less sobre as roupas de emo, os broches e sobre os pãezinhos horríveis que Verne me fez comer. Era bom tê-la por perto. Era uma boa irmã, menos quando sumia sem me avisar pra ir atrás de macho junto com Kate.
— Sabe... — disse ela — eu acho tão injusto isso.
— Isso o quê?
— Você e o Verne não poderem ficar juntos. Vocês são tão lindos, tão bonzinhos, parece até as histórias que eu leio.
— É, mas a gente nasceu em um mundo em que ser hétero é considerado normal.
— Eu só queria que vocês pudessem escancarar para Deus e o mundo o quão lindos vocês são. Fala sério, eu mesma teria inveja.
— Mas não é assim que funcionam as coisas…
— Eu não ligo para como funcionam as coisas. Eu ligo pra um casal ser bonito ou não, e vocês deixam muita gente no chinelo.
Era engraçado pensar que alguém aprovasse nosso relacionamento. Tudo bem que foi por causa dela e da Kate que nós ficamos juntos, mas ainda me surpreendia a existência de pessoas que não condenassem a gente de toda e qualquer forma.
— Eu acho que você deveria contar para o nosso pai. E para minha mãe também. Eles são legais, não iam fazer nada.
— Eu já pensei em contar para o papai. Mas eu nunca vi sua mãe expressar a opinião dela sobre isso... Eu tenho um pouco de medo.
— Certeza que não dá nada. Ela gosta mais de você do que de mim, se brincar. Você e o Verne poderiam ser pegos gravando um pornô gay no sofá da sala e ela nem iria se importar. Eu é que não posso sair com menino nenhum que já sou apedrejada.
E eu desejei que fosse assim mesmo. Não que eu quisesse que Leslie fosse apedrejada, claro que não. Mas eu queria que a mãe dela gostasse de mim. De verdade. Não só na frente dos outros, como ela sempre fazia. Eu não queria odiar minha madrasta, mas ela fazia um esforço muito grande pra conseguir que eu a odiasse.
x.x.x.
Estava quase na hora de ir pra casa do Verne, para mais um dia de treino. Já era a terceira semana que eu ia na casa dele e saia de lá suado que nem um condenado.
Verne me mandou uma mensagem dois dias depois do nosso "encontro" em grupo (eu ainda não tinha superado aquele episódio), e perguntou se eu podia ir lá no sábado.
Eu fui. E como o senhor Robert tinha falado anteriormente, ele fez uma avaliação minha, e pelo visto eu acabei passando.
Verne disse que era outro milagre também o pai dele ceder logo os sábados para mim poder ir lá, já que era nos sábados que ele costumava ter os treinos mais pesados.
Agora eles foram para as segundas. Ele não gostou muito. Disse que começar a semana sendo massacrado, e passar o final dela todo dolorido não era muito agradável. No entanto, o tal do torneio estava chegando.
Apesar de me contar que participava de algumas competições, Verne não tinha me falado que tinha uma tão próxima. Tentei usar essa desculpa com o pai dele (ainda me sentia culpado por enganá-lo), de que o Verde tinha que se concentrar mais. Entretanto, ele veio me dizer que ele ia se concentrar melhor comigo lá.
Até que ele não estava de todo errado.
Estava no meu quarto procurando alguma roupa pra vestir, e ouvi a porta da sala se abrindo.
Alguém entrou conversando. Provavelmente a mãe da Leslie tinha voltado da casa de sua amiga, e a Leslie deveria ter chegado em casa também, porque eu conseguia ouvir duas pessoas conversando.
Ignorei e continue olhando para minha gaveta pensando em qual blusa preta usar.
Peguei o short de sempre (mesmo eu odiando usá-lo. Não gostava de usar short), e uma camiseta da Nike, que tinha sido do meu pai, mas ele acabou me dando, e ela ainda parecia nova.
Estava ótimo.
Peguei meu telefone que estava do lado da minha cama, e eu vi que já estava um pouco atrasado.
Merda. Mas a culpa era do Verne. Ele me avisava quando era para ir.
Tínhamos uma horário fixo, tudo bem, mas mesmo assim, ele sempre me mandava uma mensagem. E não tinha nada ali até o momento.
Comecei a ouvir risadas vindo da sala. Mas que diabos a Leslie e a mãe dela tanto falavam?
Aquilo me deixou intrigado, e como quem não quer nada, sai do meu quarto.
Então, eu pude ouvir a risada de novo, e não era da Leslie.
Na verdade, eu já sabia muito bem a quem pertencia aquela risada. Eu comecei a suar de nervoso, atravessando aquele corredor quase correndo, e então eu pude ver que o meu pior pesadelo tinha acabado de se concretizar na sala da minha própria casa.
A cena que eu presenciei em estado de choque? A mãe da Leslie conversando com um Verne que não estava mais só rindo, estava gargalhando de algo que ela tinha acabado de falar para ele.
— Olá, Gordon. — ela disse, porque provavelmente notou minha presença ali.
— Verne? — eu disse, saindo do meu estado de inércia — O que você está fazendo aqui?
— Oi Gordon. — Verne respondeu, se recompondo e secando os olhos.
Ele tinha chorado de rir, e eu estava quase chorando também, só que de desespero.
— Bom — ele disse, focando em mim agora — Eu estava passando aqui por perto, meu pai tinha que ir no mercado mas ele acabou me convencendo a ir no lugar dele, e como eu sabia que hoje você ia lá pra casa, eu pensei: por que não passar na casa do Gordon e levá-lo? E eu estou aqui, e nós estamos atrasados. — ele finalizou, olhando para o relógio de marca que estava em seu pulso e que ele não o tirava mais.
— Ah, sim. É, eu sei. Você não me mandou mensagem, então achei estranho.
— É que eu já estava aqui. — ele deu de ombros.
— E eu não ouvi a campainha tocar.
— Ah, ele acabou chegando comigo, não é querido? — a Cruela disse, se intrometendo na conversa.
— Sim. — ele disse rindo para ela. — Nós começamos a conversar, eu disse que conhecia a Less, e ela acabou me contando umas coisas que a Leslie fazia quando era pequena.
— Ah, por isso que você não entrou. — eu conclui, tentando não parecer seco, ou que eu me importava com aquilo.
— É. Mas eu já ia te chamar de qualquer jeito.
— Entendi. Mas a Leslie não mudou muito, ela faz coisas surreais até hoje.
— Pior do que ela só você, né, Gordon? — Miriam alfinetou — Deve ser por isso que a Leslie é assim. Foi de tanto andar com você.
— Você aprontava quando era pequeno, Gordon? — Verne perguntou curioso.
— Quem não fazia travessuras quando era pequeno, né? — eu disse, tentando cortar o assunto. — Bom, então... Vamos?
— Ah, claro. — ele disse se levantando.
— Eu só não estou com a roupa. Posso trocar lá na sua casa? — perguntei. Não queria que VERNE ficasse mais ali. Não sabia o que aquela mulher pretendia falar para ele a meu respeito. Pelo visto, do jeito que ela contava as histórias, ele iria acreditar em qualquer coisa.
— Sim. É até melhor, porque agora estamos bem atrasados.
— Eu só vou pegar minha mochila. — eu disse me virando e indo em direção ao meu quarto.
Pude ouvir que a bruxa má retomou a conversa com VERNE e isso foi motivacional para me fazer pegar minhas roupas mais rápido, e jogar na primeira mochila que eu achei no meu armário.
Eu não usava uma roupa tão "caseira". Estava usando um jeans que já estava meio gasto, e uma blusa dos Rolling Stones básica. Estava apresentável.
— Estou pronto. — falei, com a mochila nas costas.
— Sério? — Verne disse, mas não foi pra mim. Ele ria de novo.
— Sim! Depois disso, eu tive uma dor de cabeça pra resolver isso tudo e dizer que minha filha não tinha pego nada de ninguém, e que ela era uma criança!
— Não sabia que Leslie tinha passado por ladra.
— Sim. E ela tinha seis anos. E não fez absolutamente nada.
Eu sabia do que ela estava falando.
Foi assunto de um dos nossos jantares em família a alguns anos atrás.
O que aconteceu foi que Leslie tinha o mesmo bichinho de pelúcia que uma coleguinha dela, só que ambas não sabiam. O bichinho era de uma coleção, acho que você juntava na época alguns cards e depois trocava por um daqueles. Quanto mais cards você conseguia, "melhor" era o bichinho, e mais difícil era de encontrar alguém com um igual ao seu.
Então, certa vez, essa menina levou a pelúcia para a escola e no final do dia ele sumiu. Acharam um igual na mochila da Leslie, só que aquele era dela mesmo (ela levava o dela, mas não mostrava. Tinha ciúmes dele), e ela não tinha absolutamente nada a ver com o furto do outro.
A porra do bicho fico uma semana desaparecido e simplesmente surgiu junto com as almofadas e roupas de camas da horinha de dormir. Ou seja, a menina dormiu com o urso (eu acho que era um urso, não sei), esqueceu ele, e as professoras simplesmente juntaram todos os lençóis e travesseiros que eram usados na hora de dormir, empilharam e guardaram.
Descobriram uma semana depois porque foram lavar e viram um urso com olhos de botão e roupinha amarela.
Miriam gostava de contar aquela história e Leslie não se importava. Ela dizia que 1º) ela era uma criança e não lembrava, 2º) ela não tinha roubado nada mesmo e 3º) contar aquilo para os outros, fazia parecer que ela era uma delinquente desde seus seis anos de idade, apesar dela não ter roubado nada (e de não ser uma delinquente de qualquer jeito).
— Caham. — eu pigarreei
— Ah, sim. Vamos. — Verne disse voltando sua atenção para mim.
Não só o fato dele estar conversando com a minha madrasta me deixava irritado, como também eu sentia pontadas de ciúmes por ela estar recebendo mais atenção do que eu. Logo ela.
Verne se levantou do sofá.
— Até mais, dona Miriam.
— Tchau, querido. — ela disse se levantando e depois me olhou, sabendo que eu não tinha gostado daquela forma de tratamento com o Verne.
Fomos caminhando até a porta. Faltava pouco para abri-la e sair. Até que ela não tinha falado nada de mim, nem me constrangido até o momento. Ela se comportou bem.
Esses foram os pensamentos que surgiram na minha mente milésimos de segundos antes dela colocar a mão nos nossos ombros, e sorrir.
— Aproveitem. Bom encontro. — ela completou.
Eu sabia que ela tinha sido legal demais.
Ninguém lá em casa sabia do Verne, a não ser a Leslie e ela sabia muito bem como guardar segredo.
Era um blefe dela. Ela tinha desconfiado da minha amizade com ele e jogou essa carta.
— É... Bem não é bem um encontro. Olha isso pode ficar só entre nós? — Verne falou.
E ele tinha caído como um pato na jogada dela. Porra, Verne.
— Ah, sim. Não vou falar pra ninguém. — e então ela passou o dedo pela boca, como as crianças fazem pra dizer que passou um zíper ali.
— Obrigada. — Verne disse e eu percebi um certo alívio em sua voz.
— Que isso. — ela retrucou, e por mais que ela tentasse parecer sincera, eu sabia que não estava sendo.
Agora, eu simplesmente não podia fazer mais nada. Nem imaginar o que ela iria fazer com aquela informação. Não queria também.
Sentei no banco do carona e enquanto Verne dirigia para a sua casa.
— Sua madrasta é muito legal.
Era o destino se vingando comigo por estar sendo um cretino com o pai do Verne. Só podia ser.
— Você achou? — eu perguntei, com medo.
— Sim. Ela é muito simpática, e conta as histórias de uma forma cômica. — ele disse sorrindo.
E eu tinha acabado de perder a única pessoa com quem eu poderia contar tudo.
Senti um incômodo no peito e uma sensação de vazio, enquanto Verne me contava sobre o que eles tinham conversado.
Pensei que eu iria conseguir confiar no Verne, ter alguém do meu lado, pelo menos uma vez, mas ela chegou mais rápido do que eu. Como sempre.
Não era uma sensação de vazio. Era um vazio mesmo.
Eu estava sozinho quando o assunto era minha madrasta.
— Você não contou para ela sobre a gente né?
— Não — eu disse.
— Então como ela...
— Ela não sabia, Verne. Ela blefou, e você acreditou. — minha voz saiu cansada.
— Você está brincando!?
— Não.
— Ah, eu não acredito! — ele disse batendo no volante, do mesmo jeito que eu tinha feito outro dia.
Tínhamos algo em comum. Descontávamos nossa raiva no volante. Aquilo me animou um pouco. Saber que fazíamos algo em comum.
— Agora já foi.
— É. — ele disse pensativo — Mas acho que ela não vai falar nada.
— Não sei.
— Não. Acho que ela só estava curiosa. Se preocupa com você.
Não sabia mais se eu segurava o riso ou a ânsia de vomito.
Chegamos na casa do Verne, e não era mais minha vez de me preocupar com o ambiente que estava. Bom, parcialmente.
O Senhor Robert me cumprimentou e eu fui me trocar num lavabo que ficava do lado da sala, antes de descer e começar mais um treino.
x.x.x.
Verne desferia socos e chutes no saco de areia ao meu lado, e eu tentava não observar enquanto fazia o mesmo. O cabelo dele grudava na testa e na nuca por causa do suor, mas balançava levemente cada vez que ele acertava o “alvo”. De alguma forma, conseguíamos fazer barulho o suficiente com nossos socos e chutes para que Robert precisasse gritar de forma a fazer a gente entender o que ele falava.
— Seu soco é bem forte, Gordon. Isso é bom. — o pai do Verne disse me elogiando.
Agora, dávamos socos mais de perto, com menos tempo entre um e outro, numa velocidade insana. Tão rápido que o cabelo do Verde não conseguia mais ficar muito tempo grudado.
— Eu sei como é forte. — Verne disse, parando o que estava fazendo e olhando para mim completou — Ou seja, naquele dia que você me deu um soco, você sabia que ia sangrar?
— Talvez...
— Seu filho da mãe! — ele disse rindo.
— Espere aí. Você deu um soco no meu filho?
E então lembramos que não estávamos sozinhos.
— Bem, só porque o seu filho me deu um soco primeiro. — eu disse de forma rápida, pra depois perceber a merda que eu falei.
— Verne, você bateu no Gordon?
— Sim... Mas Er... Já faz tempo isso — Verne disse meio nervoso.
— Por que você bateu nele? — o pai dele perguntou, com a testa franzida.
— Ah, foi numa festa aí...
— Estávamos bêbados, e começamos a discutir, e eu só lembro que ele me deu um soco na boca, e eu retribuiu com um no nariz dele.
— E vocês começaram a discutir do nada?
— Foi por causa de uma garota. — Verne falou, não estando de todo errado.
— E depois vocês se desculparam e agora são amigos?
— É. — dissemos em coro
Então o pai dele começou a rir.
— Aí, eu não acredito que isso aconteceu com você também, Verne.
— Aconteceu o quê?
— Sabe o Stevie?
— Aquele seu amigo de infância? — Verne perguntou.
— Sim! Esse mesmo. — e virando-se para mim completou — Eu tenho um grande amigo, Gordon, e ele sempre vem muito aqui. Nós nos conhecemos quando tínhamos a idade de vocês mais ou menos, e continuamos nos falando até hoje.
— Eles são muito colados. Stevie e a família dele vêm sempre aqui nos fazer uma visita. — Verne me explicou.
— Sim. Só que o mais engraçado é que a nossa amizade começou quase do mesmo jeito. A primeira vez que eu vi Stevie, ele saiu com a sobrancelha cortada e eu com cortes no braços.
— É sério? — Verne disse meio impressionado. — Você nunca me contou isso.— ele disse com um sorriso aparecendo no canto da boca
— Bom, isso não é o tipo de coisa que se fala para adolescente, não é, VERNE? Mas sim. Foi exatamente assim. Da próxima vez que nós nos encontrarmos com ele, pede para ele te contar.
Verne riu.
— Pode deixar.
Era bom ver pai e filho rindo juntos. Ele ficava mais simpático com o Verde quando eu estava por perto.
— Agora chega de conversa. Vamos voltar aos trabalhos.
Voltamos a fazer os clássicos “soquinhos-super-rápidos-anti-cabelo-na-testa”, que era o novo apelido instantâneo que eu dei pro exercício.
— Mas é bom pra vocês saberem que as melhores amizades começam assim e duram muito tempo. — o pai do Verne completou, esfregando uma mancha na parede, pra ver se saía.
Olhei para o Verne e ele olhava para mim também. Sorrimos uma para o outro.
Eu esperava que o senhor Robert estivesse certo e que essa nossa "amizade" também durasse por muito tempo.
x.x.x.
— Fica para a gente ver o jogo!
— Obrigada, senhor Robert, mas eu não quero incomodar. — falei, subindo as escadas.
O treino tinha acabado. Estávamos na cozinha tomando um suco que a mãe do Verde tinha feito.Eu não sabia do que era, mas era gostoso o suficiente para eu tomar não só por educação. Tinha uns biscoitos também, mas eu me forcei a comer só um, mesmo estando com muita fome.
— Ah, para de palhaçada! — ele me retrucou me dando um tapa nas minhas costas. — É bom ter mais gente torcendo. Só espero que você traga sorte pro jogo, né! Por que aí eu não te convido mais.
Ele disse e começou a rir.
— Pára, pai. Ele vai achar que é sério. — Verne apareceu, fechando a porta que dava para o porão.
— Ele sabe que é brincadeira. E que é sempre bem-vindo aqui. Então, vamos logo ver, já vai começar, eu acho.
— Muito obrigada pelo convite, mas eu vou para casa mesmo. Estou fedendo. — eu disse olhando para minha blusa empapada.
— Eu também estou, e dai? — Verne perguntou, virando sua garrafa de água na boca, com umas gotas escorrendo por seu queixo e pingando em sua blusa que já estava encharcada.
Era nesses momentos que eu não me arrependia de ter aceitado as aulas.
— E daí que ele é uma pessoa arrumada, diferente de você, né, Verne?
Era a mãe dele, que apareceu para falar com a gente.
Eu adorava ela. Era pequena, não de altura, mas como um todo. Não que fosse muito magra também. Digamos que era aquele tipo de pessoa normal, mas que parece super frágil e delicada. Mas também não era de ficar demonstrando isso. Pelo contrário, era bem direta no que queria dizer e parecia do tipo que podia te dar um soco no queixo se fosse necessário. Me lembrava bastante a mãe da Kate, só que mais propícia a virar general de um exército de super-mulheres.
— Mãe!
Verne ficava constrangido toda vez que a mãe dele me contava um lado do Verne que eu desconhecia. Era engraçado.
— Mas é verdade, Verne! Você é um porco. — e, virando-se para o pai do Verne, completou. — Acho que se espelhou muito bem em alguém...
— Eu não sei de quem você está falando. — o senhor Robert completou e beijou a senhora Audrey.
Eu observava aquilo e ficava intrigado. Apesar do pai do Verne ser um, como eu posso dizer, um senhor com ideias retrógradas, ele gostava muito da mãe do Verne, e a tratava como uma rainha.
Literalmente. Tudo que ela queria ele fazia, e sempre que ela precisava de alguma coisa, uma ajuda mínima que fosse ele estava lá, todo disposto.
Ele sabia como ser um cavalheiro com as mulheres. Era romântico, e eu simplesmente não conseguia entender porque mesmo assim ele tratava o Verne daquela forma.
Por que o Verne era um garoto, e ele aprendeu que tem que tratar meninos de forma seca, pra não serem emotivos, porque sentimentalismo é algo muito feminino?
Talvez.
— Gordon, pode tomar banho aqui. Temos um quarto de hóspedes. Pode ficar a vontade. Se quiser, pode pegar uma blusa do Verne emprestada.
— Ah, não. Eu vim com outra roupa.
— Então! — o senhor Robert virou-se para mim e fez um movimento com a mão indicando a escada. — Vão logo se arrumar pra gente ver o jogo em paz.
— Tá. — eu concordei um pouco constrangido.
— Mostra pra ele o quarto de hóspedes, Verne, e pega uma toalha limpa.— a mãe dele disse.
— Pode deixar.
— E vê se toma banho também.
— Tá bom, mãe!
Verne começou a andar em direção da escada e eu o segui, deixando os pais dele sozinhos na cozinha.
Ele não subia os degraus. Ele ia pulando um por um, como uma criança elétrica. Diferente das outras pessoas, ele sempre ficava mais agitado quando acabavam os treinos.
Fomos caminhando por um corredor comprido.
De todas as vezes que eu tinha ido lá, jamais tinha conhecido o andar de cima, nem o quarto do Verne. Ainda.
Simplesmente porque ele esqueceu de me apresentar, e eu sempre ia embora assim que as aulas acabavam (não gostava de chamar de treino, quem treinava era o Verne, eu não iria competir pra nada mesmo). Não queria ficar mais próximo do que eu já estava da família dele.
Verne abriu uma porta que ficava no final do corredor, e entrou.
Eu fui logo atrás, e encostei a porta após entrar.
Era um quarto bem arrumado. A cama ficava no centro, coberta com um edredom branco bem fofinho e algumas almofadas verdes estampadas. As mesas de cabeceira foram substituídas por latões super estilosos pintados de preto com um “x” branco na tampa. Tinha uma escrivaninha de madeira, bem moderna, com alguns porta-lápis brancos e umas folhas de fichário perfeitamente alinhadas no meio. Uma estante guardava algumas medalhas e livros. Tinha uma porta no final e, depois dela, o closet, com armários cinza e um espelho grande de moldura dourada encostado de qualquer jeito na única parede vazia.
Verde foi em direção à um armário, tirou a camisa e agachou para pegar uma das toalhas que estavam empilhadas lá dentro.
E eu não pude deixar de reparar nele.
Eu sabia que o Verne era magro (comparado com os amigos dele, ele nem era tão musculoso), eu só não sabia que ele era todo definido. Não um definido de forma forçada. Era bem natural, como se o corpo dele na puberdade simplesmente quisesse deixar seus braços finos mais marcados quando ele os flexionava para pegar as toalhas. Ou simplesmente que sua barriga sendo lisa, apresentasse pequenas elevações deixando seu abdômen marcado principalmente na região que chegava perto do peito. E, ao mesmo tempo, eu conseguia contar os ossos de sua coluna que ficavam bem aparentes com ele curvado para frente.
Verde se levantou, e estendeu a toalha para mim. Sua bermuda estava levemente frouxa em sua cintura, e eu conseguia ver o pequeno vão que ficava escondido logo atrás dos ossos do abdômen.
— Aqui está a toalha. Tem um sabonete lá dentro do box e... Gordon, está tudo bem?
— O quê? Ah, está sim. Aham. — eu disse piscando e olhando para ele.
O momento de apreciação tinha chegado ao fim.
— Está tudo bem mesmo? — ele disse estreitando os olhos inclinando a cabeça.
— Sim. Por que não estaria?— eu disse tentando disfarçar pegando a toalha.
— Não sei. — ele disse e foi fechar as portas do armário.
Sua pele era um branco meio bronzeado.
— Gordon.
— Quê?
— Você está esquisito.
— Não estou, não.
Ele olhou para seu ombro onde sua blusa repousava.
— É a primeira vez que você me vê sem blusa? — ele perguntou.
— Bom, não sei. Talvez.
Um sorriso malicioso surgiu na cara do Verne. Merda.
— É sim. — ele disse se aproximando. — Não lembro de você ter me visto assim antes.
— Bom, já que você está dizendo.
— E eu não percebi que isso ia te deixar um... Deixa eu ver, desconfortável? — ele continuava se aproximando.
— Eu não estou desconfortável.
— Não, né?
Ele se aproximou mais e antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ele jogou sua camisa suada ao redor do meu pescoço e me puxou para perto. A toalha caiu no chão.
— Verne! O que você está fazendo!? — eu disse baixo, ficando realmente preocupado. Estávamos na casa dele, e eu acho que ele tinha esquecido desse pequeno detalhe.
— Meus pais estão na cozinha. Estava bem ocupados quando saímos de lá. E da para ouvir o barulho das escadas quando ele sobe. Ele não é uma pessoa muito delicada. — ele disse essas últimas palavras num sussurro.
— Verne, sério me solta. — eu disse, mas meu tom de voz não apresentava autoridade nenhuma.
— Por que eu deveria te soltar? Você mesmo falou que não estava desconfortável.
— E não estou. — falei com a cara virada.
— Então você está tenso? — ele continuava sussurrando e o ar que saia da sua boca fazia cócegas na minha bochecha.
— Antes fosse só tensão...
— E se eu chegar mais perto, o que acontece?
Eu sabia o que ele estava fazendo e o que iria acontecer. Ele literalmente estava fazendo um jogo comigo, e no momento que eu cedesse, ele iria simplesmente sair do quarto rindo e me deixar ali, que nem um idiota.
Se ele se aproximasse mais, nossas barrigas iriaram se tocar, não haveria mas nenhuma distância entre nós e eu simplesmente iria ceder.
Não podia deixar isso acontecer. O Verne não podia ganhar nessa.
Corri meus braços para trás do seu corpo sem tocá-lo, e no momento que ele se aproximou, eu tomei uma medida radical.
Apertei sua bunda.
Ele se afastou na hora com a blusa pendurada em sua mão e não mais ao redor do meu pescoço.
— Ei! — ele exclamou com uma cara confusa.
— Meu Deus! — eu disse surpreso também porque eu não esperava...
— Por que você apertou a minha bunda!? — ele disse exaltado mas de forma baixa, para que seus pais não ouvissem.
Agora ele estava com medo de ser pego no flagra né?
— Porque você estava me sacaneando! E estava muito marrento. Eu tinha que arranjar um jeito de mudar essa situação.
— E você vai e aperta minha bunda?
— Você queria que eu fizesse o que? O único lugar que meus braços conseguir ir era para trás do seu corpo. Você literalmente me prendeu. Não tinha como eu escapar, aí eu fiz isso. O que me deixou muito surpreso porque eu não sabia que você tinha uma bunda tão durinha.
— Gordon!
— É sério! Sua bunda é muito dura. Não sabia que você faz exercício para a fortalecer as nádegas.
— Eu não faço exercício para fortalecer porra nenhuma!
— Não?
— Não! — ele falou levantando os braços.
— Uh. Então... É hidrogel?
— Gordon!
— Mas é verdade. Só pode ser. Se você não faz exercício, só pode ser hidrogel.
— É claro que não!
Verne não sabia o que falar. Ele estava extremamente constrangido. Não sabia que o simples fato de ter minha mão em sua bunda e depois apertá-la levemente o deixaria tão confuso e perdido. Era bom saber disso agora.
— Ah, vai tomar banho. — ele disse meio irritado, pegando a toalha do chão, jogando a toalha na minha cara e indo em direção à porta.
— Verne... Não, volta. Me diz...
Ele bateu à porta e eu comecei a rir.
Fui tomar meu banho.
O jogo era do Spurs contra os Lakers. Aparentemente, todos torciam para os Lakers, o que me deixava um pouco mais confortável. Audrey tinha estourado dois pacotes de pipoca e colocado em um balde bem grande. Nosso time estava perdendo no começo, eles não eram mais os mesmos sem o Bryant. Os Spurs também não eram os melhores do campeonato, mas ainda conseguiam ser melhores que a gente. Verne estava muito tenso, inclinado pra frente no sofá e esfregando as mãos uma na outra. Ele e o pai levantavam do sofá e davam socos no ar toda vez que fazíamos cesta, era um pouco engraçado. De alguma forma, acabamos virando no meio do jogo, com uma cesta de três pontos do Randle. Depois disso, começamos a fazer vários pontos seguidos, surpreendendo as torcidas e os comentaristas.
Acabamos ganhando, e estava todo mundo muito feliz.
Me despedi de Audrey e Robert, Verde ia me levar para casa. Fomos caminhando devagar até o carro.
Abri a porta mas me virei para Verne subitamente.
— O que foi? Esqueceu algo? — ele perguntou olhando para a casa.
— Não, está tudo aqui. — falei tocando na minha mochila e em seguida falei meio relutante — É só que...
Ele me olhou de volta, esperando minha pergunta.
— Fala sério, Verne, é hidrogel não é?
A expressão do Verne mudou de intrigada para irritada, de novo, e eu estava adorando aquilo.
— Vai se foder, Gordon! — ele xingou apontando para a porta do carro que agora se encontrava aberta.
— Só estou esperando você. — respondi rindo, enquanto batia a porta, deixando um Verne furioso e constrangido para trás.
Ele entrou no carro logo em seguida e ligou o rádio. Por algum motivo, músicas de R&B, bem anos 90 estavam tocando.
— Além de hidrogel você tem um bom gosto incrível. — eu não me aguentava mais de tanto rir
— Porra. — ele também ria.
— Cuidado pra não bater o carro, vai ser difícil te colocar no caixão com uma bunda tão grande, seu nariz vai ficar raspando na tampa.
— Eu te odeio.
Quando cheguei em casa, ainda estava rindo.
— Tudo bem, filho? — meu pai perguntou da mesa da sala.
— Sim. — respondi puxando uma cadeira e me sentando de frente para ele.
A mesa estava cheia de papéis. Meu pai tinha gostava de organizar as coisas do trabalho na sala quando a casa estava vazia. Ele dizia que era bom trabalhar lá pois a mesa era muito maior do que a do escritóriozinho que ficava do lado do seu quarto, e ele não estava errado.
— Trabalho burocrático? — perguntei.
— Não. São só umas folhas mesmo que estavam jogadas lá na minha gaveta e eu resolvi ver do que são.
Ele estava meio descabelado. Seus fios cinzas começavam a aparecer e sua expressão também estava mais cansada.
Na verdade, meu pai ficou com aquela expressão de cansaço desde a perda de minha mãe. Desde o momento que não sabia como conseguiria lidar com uma criança pequena. Ele não precisava me falar para eu saber.
— Como foi o dia?
— Foi bom. Os Lakers ganharam o jogo de hoje, o Randle fez uma cesta de três pontos.
— Sério? — ele interrogou empolgado.
— Sim!
— Foi na casa do seu amigo?
— É. Foi.
Ele olhou para mim.
— Verne, é o nome dele né?
— Sim. — respondi, começando a estranhar aquelas perguntas.
— Você podia chamar ele para vir aqui em casa qualquer dia. Não sei. — ele disse indiferente.
— Pode ser.
— Se quiser chamar ele para jantar... — meu pai disse e dessa vez me olhou.
E eu entendi o que estava acontecendo.
— Eu pedi para ela não falar nada. Na verdade, nem fui eu, foi o Verne.— respondi, um pouco irritado.
— Não foi porque ela quis, filho. — eu sabia que ele estava errado. — Ela, sem querer, acabou falando. E tudo bem. Se você quiser eu faço de conta que não sei de nada, não tem problema, só pensei que isso fosse facilitar as coisas.
— Não precisa fazer de conta que não sabe. Agora já foi. — respondi dando de ombros.
Então era isso que a minha linda madrasta queria? Contar para o meu pai, antes de mim, que eu estava namorando. Mirabolante, pensei mal-humorado.
— Desculpa te deixar irritado. — meu pai começou.
— O Verne não queria que as pessoas soubessem, ainda.
— Mas saber que o pai do namorado dele apoia não melhora a situação? Isso é, se ele é mesmo seu namorado... Você entendeu o que eu quis dizer.
— Sim, nós estamos namorando, eu acho. É muito recente ainda. — respondi com um sorrisinho aparecendo no canto do rosto. — E talvez o Verne se sinta mais seguro sabendo que você "aprova" ele.
— Bom, ainda não aprovo totalmente. Não o conheci. Por isso que um jantar talvez seja uma boa ideia.
— Quer mesmo chamar ele para um jantar? — perguntei confuso.
— Por que não? — ele deu de ombros. — Fale para ele que ele foi convidado para um jantar aqui na nossa casa e eu não aceito um não.
— Quando? — perguntei, porque sabia que não teria mais como dizer.
— Quando ele puder. Mas logo. Essa semana, talvez.
— Tudo bem. — respondi me levantando e indo em direção ao meu quarto.
— Gordon.
— Eu. — falei me virando.
— Eu disse que mudar seria uma boa ideia.
Revirei os olhos, mas sorri.
Ele estava certo.
Cheguei no meu quarto, joguei minha mochila na cama e disquei o número do Verne no meu celular.
Ele atendeu na segunda chamada.
— Se você estiver me ligando para falar sobre aquilo de novo eu juro que...
Comecei a rir.
— Não. Não te liguei para isso. — respondi, cortando a ameaça dele.
— Que bom.
— Você está livre essa semana?
— Dependendo do dia, sim. Por quê?
— Você foi convidado para um jantar.
— Tudo bem. A gente pode sair na sexta
Então...
— Não, Verne. Nós não vamos sair. O jantar é aqui em casa.
O outro lado da linha ficou mudo por um instante.
— Eu não vou.— verde respondeu e eu pude sentir um pouco de terror na sua voz
— Ah, você vem, sim.
— O quê? Não! Seu pai está sabendo que estamos juntos? Como eu vou lidar com isso?
— Eu tenho que lidar com o seu pai, Verne, que não sabe de porra nenhuma! Por isso, você vai vir sim. É o mínimo que você pode fazer depois de ter me convencido que só "conhecer" seus pais era uma boa ideia.
Verne ficou em silêncio.
— Sexta, né?
— Sim. — eu respondi. — Ele vai gostar de você. — tentei confortá-lo.
— Espero.
— Se o SEU pai gostou de mim, como o meu não vai gostar de você?
— Como uma pessoa pode não gostar de você Gordon? — e eu sabia que ele estava sorrindo do outro lado da linha.
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