Vergo

15 Beijinhos de sobremesa


Notas iniciais
Escutem "The Sound" do 1975.

Até que tinha sido fácil sair de casa naquela noite, eu pensava enquanto estacionava o carro em frente a casa do Gordon e recapitulava os minutos anteriores.

Depois de me arrumar, desci as escadas e fui em direção ao porta-chaves que ficava pendurado na parede da cozinha. Minha mãe estava pegando os pratos no armário, e sorriu assim que me viu.

— Eu vou servir a janta daqui a pouco. — falou, pensando que eu tinha descido para isso.

— Ah, eu não vou jantar em casa hoje... — respondi um pouco sem graça por não ter falado antes.

—Vai sair? — foi a vez do meu pai perguntar, enquanto pegava os talheres.

Outro fato engraçado sobre ele. Meu pai não gostava desses trabalhos domésticos, pois sempre que estava só nos dois ele sempre me obrigava a fazer essas tarefas, como por exemplo lavar a louça, arrumar a mesa e até mesmo arrumar o porão era uma tarefa que sobrava para mim. No entanto, quando era minha mãe fazendo, ele sempre ia ajudar. Acho que ele fazia isso para ficar com ela por mais tempo e poder conversar, porque para deixar a casa em ordem eu tinha certeza que não era.

—Sim. — Confirmei. — Vou jantar na casa de uma amiga.

A verdade é que eu não queria mais mentir para eles quando não fosse necessário. Sabia que se eu inventasse muitas coisas ia acabar me perdendo nas minhas próprias mentiras, então disse a verdade. Mesmo porque a Leslie era minha amiga, e a casa do Gordon também era a casa dela.

O único problema é que eu não tinha percebido o duplo sentido em que essa frase acarretava, e ao contrário de mim, meus pais perceberam.

— Uma amiga, é? — meu pai perguntou com um sorriso malicioso.

— Deixa o menino em paz, Robert. — protestou minha mãe, mas ela também tinha um sorriso no rosto.

— Não, não é o que vocês estão pensando... — Falei de forma apressada, tentando consertar a situação na qual eu tinha me metido — É só uma amiga mesmo. Foi aniversário dela ontem e os pais quiseram chamar alguns amigos para cantarem parabéns. Só isso — dei de ombros e completei. — O Gordon vai também.

E eu fui obrigado a mentir de novo. É, pelo visto não tinha jeito. Eu só esperava que minha bola de neve de mentiras não tivesse alcançado a altura dos meus joelhos, porque aí eu ia começar a me enrolar.

— Ah, então não vai ser um jantar, vai ser uma festa de aniversário. — meu pai retrucou.

— É, mais ou menos. Os pais dela são meio sério e eles gostam mais de coisas tradicionais. Dizem que jantares são melhores do que festas.

Outra mentira. (não muito bem elaborada, mas eu não conseguia pensar em nada melhor sobre pressão)

— Então Gordon vai? Adoro ele. É um ótimo menino. — Minha mãe emendou.

— Sim. — Confirmei, feliz por ouvir minha mãe falando bem do Gordo —Bom, eu tenho que ir, já estou atrasado.

— Aproveita. — Ela recomendou.

Meu pai só acenou. Eu sorri para eles e fui para a garagem tirar o carro, rezando para que o que eu tinha comprado mais cedo, ainda estivesse em perfeito estado.

Abri a porta do motorista e inspecionei as flores. Peguei a caixa de bombons também e balancei levemente para ver se eles não tinham derretido.

Eu tinha tido aquela ideia mais cedo. Passei numa floricultura e comprei umas margaridas. No caminho de volta para casa, vi uma bomboniere muito chique e os doces estavam muito bem decorados, logo resolvi comprar uma caixa de chocolates também. Só que eu não tinha parado para pensar que eu não tinha como entrar em casa com aquilo. Eu teria que dar muitas explicações se eles vissem minhas compras, mas nenhuma seria boa o suficiente, e eles acabariam desconfiando que eu estava saindo com alguém.

Então a melhor opção era deixar no banco do carona, com a janela um pouco aberta para as flores não murcharem e o chocolate não derreter. E também rezar para que isso desse certo.

Bom, até que deu. Voltei para o momento presente, pois eu não podia passar a noite toda naquele carro. Eu estava com um pouco de medo de não causar uma boa impressão, mas não tinha escapatória. Peguei as flores, que ainda estavam muito cheirosas e fui em direção aquela casinha familiar

Mas o perfume das flores e minha aflição rapidamente sumiram com o cheiro de comida caseira que invadiu meu nariz assim que apertei a campainha. A madrasta dele, pelo visto, cozinhava muito bem.

Fiquei esperando alguém vir abrir a porta, até ouvir uma voz conhecida.

— Vai abrir essa porta logo!

Era a Leslie brigando com alguém.

— Por que tem que ser eu? Você já estava aqui na sala! Eu estava terminando de me arrumar.
E esse alguém era o Gordo.

— Porque ele é seu namorado, não o meu. Quando for o meu, eu abro. E você já está muito bem arrumado, agora chega de drama e pare de deixar o menino esperando.

Poucos segundos depois pude ouvir a chave destrancando a porta.

— Oi, Gordon. — Cumprimentei sorrindo.

— Oi, Verne. — Ele disse também.

Sempre nos cumprimentávamos assim e eu gostava dessa simplicidade. Um singelo oi, e nossos nomes. Mesmo porque, se não fosse assim, eu falaria o quê? Acho que o Gordo também não sabia.

— Entra aí. — ele convidou, enquanto saia de frente da porta, me dando passagem.

Gordon usava uma camisa que eu nunca o vira usando antes. Era de flanela, que estava com as mangas dobradas até os cotovelos, com botões de pressão, toda preta com várias listras, algumas vermelhas mais grossas e outras brancas mais finas, formando um belo detalhe xadrez.

Seu cabelo também estava com um penteado diferente, ele tinha repartido na lateral esquerda e estava jogado meio de lado, fazendo com que ele parecesse mais velho.

— Gostei da sua camisa. — falei baixo, para que só ele ouvisse.

— Obrigada. Sua roupa também está legal. — ele disse retribuindo o elogio e olhando para as coisas que eu carregava em minhas mãos.

— Não, é sério. Você fica muito bem com camisa de flanela.

Gordon revirou os olhos em resposta.

— Olá, Verne! Seja bem-vindo. — Dona Miriam veio em minha direção sorridente e com os braços abertos. — O jantar já vai sair. Está com muita fome? — perguntou e me abraçou de forma acolhedora.

— Não. Não precisa correr. Estou bem. — respondi. — Ah, eu trouxe isto para você. Espero que goste – completei e entreguei as flores para ela.

— Quanta gentileza! — ela respondeu mais sorridente do que nunca. — Vou colocá-las num vaso e pôr em cima da mesa para que a gente possa jantar sentido o cheiro delas. Não é uma boa ideia? — ela perguntou olhando para o Gordon e foi para trás do balcão da cozinha, me fazendo lembrar o dia em que eu tinha sentado nele.
Olhei para o Gordo para ver se ele também havia se recordado daquele dia, no entanto ele estava com uma expressão que eu não sabia decifrar.

— Olha só quem chegou!

Me virei e me deparei com uma Leslie sorridente. Cumprimentei de volta e ganhei mais um abraço, só que dessa vez molhado. Ela tinha acabado de lavar o cabelo e pediu desculpa por deixar minha camisa um pouco molhada. Disse que só desculparia se ela me dissesse o segredo pra manter as pontas de seu cabelo sempre da mesma cor e em resposta ela riu da minha cara.

Ela não podia me culpar, era mesmo intrigante como sempre estavam com uma cor intensa. Nunca pude entender isso. As pontas azuladas do cabelo sempre estavam com a mesma tonalidade, um azul forte e brilhante.

— Um mágico nunca revela seus truques. — finalizou depois que eu insisti mais uma vez e mudando de assunto acrescento: — O que é isso que você está segurando?

— Ah, eu já tinha me esquecido! Isso é para você. — Falei entregando a caixa de bombons.

— Mentira, sério!? — Ela exclamou contente e então olhando para o Gordon completou — Viu? São meus! Só meus!

Ela mostrou a língua e se afastou, provavelmente indo esconder a caixa em algum lugar.

Eu comecei a rir e o Gordon também.

— Eu não ganho nada, é isso mesmo? — ele sussurrou no meu ouvido, assim que ela saiu de perto.

— Acho que o mínimo que eu poderia fazer era estar aqui, não é mesmo? — respondi com um sorriso malicioso, usando a mesma frase que ele usara comigo outro dia.

— Eu te odeio. — ele falou, mas continuava sorridente.

Gordon me levou até o sofá onde estava seu pai, Julian, que me cumprimentou. Less já tinha se sentado no braço e sorria para o padrasto, enquanto balançava as pernas, como se fosse uma criança. Nos juntamos a eles e, logo, Miriam também chegou. Na televisão passava um dvd do show do Little Richard, mas o volume estava muito baixo para se ter ideia de qual música ele estava cantando. Após mil elogios feitos àquele fóssil musical, acabamos lembrando o motivo pelo qual eu tinha aparecido na casa deles àquela hora da noite: o jantar.

Nos sentamos todos à mesa. Era de madeira com um tampo circular de pedra e tinha um forro branco de renda, muito bonito. Uma jarrinha azul com as margaridas que eu dei enfeitava o centro.

Miriam foi terminar o suco que estava preparando. O pai de Gordon agora me observava, como se analisasse minha capacidade de ser um bom namorado para o filho dele.

— Então, Verne, você luta boxe, não é?

Aquela pergunta me deixava desconfortável. Sim, eu lutava boxe, mas era cansativo ter que ouvir a mesma coisa toda vez que conhecia alguém. “Olha, é o Verne das competições”. “Aquele não é o menino que tem uma academia em casa?” “Nossa, você deve ser muito forte”. Aquilo me irritava. Eu não queria ser tarjado como o menino prodígio esportivo do meu pai. Não mesmo.

— Sim, meu pai é treinador… Mas… — disse, coçando a nuca, — Para ser sincero com o senhor, não é o meu hobbie preferido. Eu gosto muito de videogames, basquete e, modéstia à parte, eu também cozinho um pouco.

Nessa hora, Gordo cresceu um pouco na cadeira.

— Vocês tinham que experimentar as comidas dele! — falou, com um leve brilho nos seus olhos, cor de avelã. E que olhos. — São maravilhosas!

— Poxa, Verne, podia ter me avisado, agora eu vou ficar com vergonha se você não gostar do que eu preparei hoje! — A madrasta dele entrou, antes mesmo que eu tivesse tempo de ficar com vergonha do elogio. Ela carregava uma jarra de suco enorme e parecia muito bom

— Ah, eu só sei algumas receitas básicas. Tenho certeza que a senhora me supera!

Ela sorriu e foi de volta à cozinha, não sem antes levantar uma sobrancelha pra Less, que se levantou e foi junto. As duas voltaram com um purê de batatas muito bonito e um frango que chegava a refletir a luz do ambiente.

O gosto realmente era tão incrível quanto a aparência e eu acabei repetindo. Gordon não comeu muito, o que eu estranhei. Não que ele comesse muito, pelo contrário, ele sempre comia pouco, mas naquela noite tinha sido menos ainda. Ele parecia inquieto, e eu não saberia dizer porquê. O suco também era perfeito, bem gelado.

Leslie não parava de contar histórias engraçadas sobre seu dia e sobre alguns “amigos dela”, dos quais o senhor Julian não gostava muito. Acabou se empolgando um pouco. Um pouco até demais. Foi com essa empolgação que, depois de todos termos terminado, ela conseguiu esbarrar o braço na jarra de suco que estava do seu lado, derramando o que sobrara do suco no braço do Gordo.

— Ah, droga. —disse ela, com um sorriso meio amarelo

— Não tem problema, eu vou lá limpar. — ele respondeu, se levantando.

Meu mais novo sogro sugeriu que eu fosse junto para conhecer a casa, e eu também não fiz questão de dizer que já tinha visto grande parte dela.

Nós fomos entrando para o quarto do Gordon e ele seguiu para o banheiro, me deixando sozinho.

Voltou com o braço ainda meio molhado.

— Less e suas travessuras. — Eu sorri sem graça. Não sabia se ela tinha feito de propósito ou sem querer para que tivéssemos um momento a sós.

— De todos os tipos.

E nós sabíamos muito bem o “tipo” de travessura ao qual ele se referiu.

— Ah, Kate é outra que sempre encheu seu saco, né?

— Desde que eu me entendo por gente. — falei levantando as sobrancelhas.

—É por isso que as duas se dão tão bem.

— Sim.

— Imagina se elas fossem parentes?

—Deus me livre. — disse me benzendo. — Se bem que se não fossem por elas...

— Você não teria acabado de conhecer seu sogro. — ele completou.

— Exato.

— Mas eu sempre fiquei confuso com algo. — ele me olhou nos olhos. —Por que ela sempre tinha tanta certeza quando falava que você era gay? Ela falava como se soubesse de algo. Não parecia só suposição. Tanto é que a Leslie acreditou nela. E olha que a minha irmã não confia em qualquer coisa...

— Bom, talvez ela soubesse de algumas coisas...

Sentei na cama dele, encostando na parede, e ele sentou na minha frente.

— Talvez? — Gordon perguntou meio cético. Eu presumia que um dia ou outro eu teria que contar aquilo para alguém que não fosse a Kate. E o Gordo estava me ajudando com esse processo então acho que podia confiar nele.

Mesmo porque, se não confiasse nele, confiaria em quem?

— Bem, havia uma época em que eu contava tudo que acontecia para a Kate e ela para mim. Nós éramos muito mais colados do que somos hoje em dia — involuntariamente sorri com aquela lembrança. — E uma vez aconteceu um "acidente" e eu acabei compartilhando minha aflição com ela.

Gordon me olhou com uma cara confusa e pelo visto eu ia ter que contar a história toda.

— Quando eu tinha 15 anos eu comecei a namorar uma menina, Sarah era o nome dela. Tínhamos a mesma idade e foi literalmente a primeira pessoa que eu levei para meus pais conhecerem. A primeira vez que eu assumi um namoro.

Dei uma pausa enquanto a imagem da Sarah de 15 anos era formada em minha mente. Os cabelos castanho-claros cortados na altura do ombro, com uma franjinha lateral, a pele bronzeada, cobrindo o seu rostinho arredondado de queixo pontudo. Era tão delicada quanto uma flor e seus gestos sempre meigos e graciosos não deixavam ninguém dizer que ela não era um doce. Era o tipo de garota que todos os caras do colégio se apaixonavam. Ela usava shorts jeans claros, regatas coloridas e sandálias fininhas. Tinha umas argolinhas de ouro, bem pequenas, nas orelhas. Fofa, era a descrição perfeita para ela.

— Eu gostava dela, porque não era que nem as outras garotas com as quais eu costumava ficar. — continuei — Então, um ano se passou. Ela estava indo direito lá em casa e eu na dela. Trocávamos presentes, saíamos, e a cada dia o relacionamento ficava mais sério. Até que, — eu olhei para o Gordon — você já deve ter desconfiado, e sim é exatamente o que você está pensando. Resolvemos avançar em mais um “estágio”. — Gordon balançou a cabeça afirmativamente — E foi aí que deu tudo errado.

O sorriso sumiu do meu rosto. Eu finalmente tinha chegado na parte complicada da história. Bom, pelo menos para mim era.

— E deu errado por.… minha causa. — abaixei os olhos. — Então, passado o episódio fatídico, eu fui falar com a Kate da vergonha... que... eu tinha passado. Ela disse que não era nada. Me confortou, da mesma maneira que Sarah tinha feito no dia. Disse que esse tipo de coisa acontece quando estamos ansiosos ou nervosos.

Quanto mais eu falava mais patética e vergonhosa aquela situação ficava. Não dei tempo para o Gordon perguntar. Eu precisava falar tudo de uma vez antes que eu perdesse a coragem.

— Então, depois de um tempo tentamos mais duas vezes e nada mudou em relação à primeira experiência e eu fui desesperado desabafar com a Kate mais uma vez. Só que dessa vez ela ficou séria por uns minutos e por fim ela simplesmente disse que não tinha como dar certo e que nunca daria. Eu perguntei o que ela queria dizer com aquilo e sua reposta foi “você é gay, Verne”.

"Eu fiquei indignado, como você já deve imaginar. Poxa, não é o tipo de coisa que você fala assim. Não é uma coisinha qualquer como “ah, você é tímido”. Não! É algo maior. As pessoas não têm noção de como uma palavra mínima de três letras pode te enlouquecer, ainda mais ditas sem um preparo psicológico! — meu tom de voz alterou conforme eu me lembrava daquele dia, então respirei fundo para me acalmar e continuei — Primeiro eu fiquei chocado. E depois muito irritado. Eu lembro que nós brigamos feio e pela primeira vez ficamos muito tempo sem nos falarmos.

Gordon levantou e encostou a porta do quarto um pouco mais, para que os outros não ouvissem minha humilhante estória. E eu aproveitei para tomar um pouco de folego e continuar a narrativa.

— Até que um dia voltamos a conversar. Não lembro ao certo como foi. Imagino que foi algo gradativo, primeiro com uma troca de cumprimentos e depois um “como foi seu dia”. Ela não pediu desculpas ou algo do tipo. Ela simplesmente não tocou no assunto. Insinuava algumas vezes, mas nada muito direto, mesmo porque se ela fosse direta iriamos ter outra briga. E ela sabia disso. Então veio o dia que fomos no restaurante mexicano, e ela acabou voltando com tudo ao assunto de anos atrás. Como um ultimato. Uma última tentativa de me convencer, o que é um tanto quanto irônico vendo os acontecimentos mais recentes. Mas a única coisa que passava pela minha cabeça naquela hora era se alguma pessoa conhecida estava nos escutando.

"Nunca soube se alguém tinha nos escutado naquele dia. Tirando as meninas estranhas que não paravam de nos observar (e que eu espero não nos conheça) eu acho que não foi aquele dia que me descobriram.

— Bom, daí em diante você já sabe. — disse fitando o Gordo novamente — Nós nos conhecemos, saímos, brigamos e ai teve a Abigail. — Gordon revirou os olhos e eu não podia culpa-lo. — Eu sei que eu não deveria ter feito o que fiz com você, e nem com ela, mas é sério, você não tem noção de quão confuso você me deixou depois daquele beijo. E aquela cena, junto com o que a Kate tinha me falado, foram se misturando na minha cabeça e me deixando louco. Eu tinha que ter uma certeza, eu precisava. Então eu literalmente agarrei a primeira oportunidade que surgiu na minha frente. Só que eu sou um idiota porque era obvio que meu plano não daria certo. — dei um riso sarcástico — Isso aumentou um pouco do meu desespero também, e bem... o final dessa história você já sabe. Sou eu, aqui no seu quarto, depois de um jantar com a sua família, para me conhecerem.

A narração chegou ao fim e eu me senti muito aliviado. Olhava para o Gordo com curiosidade agora, esperando para ouvir o que ele diria.

— Por que você nunca me falou sobre isso? No dia que eu te dei o soco, se você tivesse me contado tudo que contou agora, eu não iria duvidar de você.

— Gordon, eu mal consegui contar agora, você acha mesmo que eu ia conseguir falar naquele dia, logo depois de ter tomado um fora?

— Podia ter falando antes de levar o fora. — Ele deu de ombros. — Mas enfim, agora eu entendo.

— Qual parte?

— Tudo. Não sabia que a Kate te pressionava tanto. Na verdade, acho que ela estava mesmo tentando te ajudar.

— Sim. Ela só não soube como ser sutil. Ou talvez ela tenha sido. Talvez eu que fiquei apavorado demais e tenha sido grosso sem necessidade. Aquilo não era novo só para mim, era para ela também. Deveríamos ter sido mais tolerantes um com o outro.

— E enquanto ao seu relacionamento passageiro com a Abigail, eu já suspeitava que ela tinha sido uma válvula de escape.

— É? — perguntei com meu cenho franzido.

— Aham. Principalmente depois que você veio aqui em casa, no dia que quebrou minha janela.

— Ah sim. — eu ri.

— Então — ele falou, mas sua entonação mudou, estava cauteloso — eu posso chegar a conclusão de que... isso tudo quer dizer... que você é... virgem?

— É né... — respondi sem graça, sentindo meu rosto ficar quente, ainda mais porque eu não esperava aquele tipo de pergunta.

De repente, pude ouvir um som abafado que vinha do Gordon que estava rindo de uma forma discreta.

— É bom saber que minha vida sexual é um tema cômico para você. — falei, passando a mão pelo colcha da cama dele.

— Ei, eu não estou rindo disso. — ele colocou sua mão em cima da minha e ainda tinha o risinho no rosto. — É, talvez eu esteja, mas é mais porque você não passa essa impressão, entende? E eu fiquei...surpreso!

Fiquei em silêncio. A mão dele ainda estava em cima da minha.

— Ah, fala sério, Verne! Quem olha para você, a imagem que você passa de si mesmo para os outros é de um garoto pegador, seguro de si...

— Ah, então deve ser por isso que eu não fico impressionado de você ser virgem também. — tirei minha mão debaixo da dele subitamente, e o encarei. — Você não passa a imagem de nada para ninguém.

Gordon me olhava agora de uma forma que não acreditava no que eu tinha acabado de dizer. Eu sabia que minhas palavras foram cruéis, mas ver ele rindo tinha me irritado profundamente. Como a Kate que ao invés de entender meu lado, simplesmente jogava fatos e esperava que eu pudesse lidar com eles, Gordo simplesmente me perguntou algo que eu sabia que era verdade, mas não gostava de admitir.

Odiava quando as pessoas se importavam mais com as respostas, do que com quem iriam respondê-las, e se ao menos se elas queriam responder.

— Em primeiro lugar — Gordon retomou a conversa e sua expressão estava séria — eu não estava sendo grosso. Eu só estava sendo realista e te dizendo algo que você sabe muito bem que é verdade. — ele deu uma pausa e então continuou— E em segundo lugar, você não é meu primeiro namorado, Verne.

Olhei para ele e todo o acesso de raiva que eu senti, foi substituído por um sentimento de surpresa.

— Não?

— Não.

Ele se levantou e foi verificar o telefone em cima da escrivaninha.

— Por que você não me contou isso antes? — Perguntei seguindo ele com o olhar.

— Ué, eu não sabia muito bem como encaixar isso num contexto. — ele deu de ombros e sua expressão tinha mudado de séria para desconfortável.

— E você acha que esse era o contexto?

— Bom, é melhor do que estarmos nos pegando e de repente eu virar e falar “Ah Verne, à propósito, você não é meu primeiro namorado. Agora podemos voltar para onde estávamos?”. — ele disse levantando os braços.

Um silêncio constrangedor se instaurou no quarto e de repente a vida sexual do gordon virou alvo da minha curiosidade.

— Já que eu não sou o primeiro, posso saber pelo menos em que posição eu estou na sua lista de namorados?

— Você é o segundo, Verne. — sua voz soava cansada.

Eu levantei da cama e caminhei em sua direção. Não me sentia mais irritado, ou surpreso. Me sentia como uma criança que tinha acabado de fazer merda. E como sempre uma grande.

— Você devia ter me falado antes. Eu teria evitado de fazer esse papel estúpido que eu acabei fazendo.

— Talvez esse não tenha sido o melhor momento para revelar uma parte do meu passado, mas se eu tivesse te falado antes, provavelmente você não teria me contado sobre seu caso com a Sarah.

— Eu com certeza não teria contado. — minha voz baixou. — Desculpa ter falado daquele jeito.

— Tudo bem.

— Você não passa a impressão de “nada”. — eu ainda estava bem envergonhado mas olhei para ele mesmo assim. — Pelo contrário, você passa a impressão de um garoto...

— Eu entendi o que você quis dizer Verne. Já disse, está tudo bem. Sei muito bem que você não é bom com palavras. — ele abriu um pequeno sorriso. — É que eu achei fofo saber que você ainda é virgem.

— Fofo!?

— É. — um sorriso doce preencheu seus lábios — É bom saber que o Verne não é que nem um daqueles super-heróis que são invulneráveis e nada os detêm. Se até o Super-Man tem a kryptonita, você também tinha que ter um ponto fraco.

Ele não tinha noção de que esse era apenas um dos pontos que compunham um suéter que servia para encobrir minhas aflições, ocultá-las do mundo, e que estavam todos frouxos, esperando só um movimento inoportuno para rasgar.

Estendi a mão e ele segurou.

— Temos que voltar pra sala. — ele falou.

— Eu sei.

Sua mão era macia e muito sedosa. Diferente da minha que era seca e com alguns calos de anos treinando com meu pai. Talvez eu devesse comprar um creme para as mãos, pensei, e o Gordon não ia precisar sentir elas ásperas mais.

Comecei a puxá-lo em direção a porta, até ele me fazer parar.

— Ah, e eu também não precisava dizer aquilo tudo na sua cara.

— Ah, mas todo mundo sabe que eu sou um babaca metido mesmo. — Falei tentando não soar magoado comigo mesmo.

— Mas tem uma coisa no qual as pessoas não sabem. Que você, além de tudo é um cretino que vai jantar na casa do namorado e não traz nada para ele.

Ele me empurrou e eu me vi obrigado a rir.

— Não parou para pensar que o que eu te trouxe não poderia ser entregue perto dos seus familiares? — o sorriso malicioso invadiu meu rosto novamente.

Gordon se aproximou e me puxou pela gola da camisa.

— Mas é claro. E foi justamente por isso que eu te arrastei para meu quarto. — disse beijando o canto do meu lábio e me empurrando novamente.

Começamos a rir, pois sabíamos muito bem que naquele momento não íamos passar de insinuações.