Verde é a cor mais quente

5 Capitulo cinco: Valquíria


Sábado de manhã é o melhor dia para ir no parque da Mooca, porque os idosos costumam ficar em casa com a família e quem tem criança pequena ainda não acordou, então quem ia para o parque nesse horário era quem queria paz e tranquilidade para fazer a caminhada ou corrida matinal. Claro que tendo pais controladores, que só sabem te cobrar e que acham que tudo o que você faz está errado, e um irmão mais novo que é extremamente mimado pelos mesmos pais que te tratam como lixo a única coisa que quero é ficar sozinha sem ninguém me julgando pelo que sou. Na faculdade percebo que tem muita pressão, mas que os julgamentos só vão começar mesmo depois das primeiras avaliações, que são os trabalhos em grupo. Aparentemente eu estou com pessoas boas para fazer trabalho, pois, tanto Elizabeth como Christopher, ou apenas Chris, como ele prefere ser chamado, já começaram a fazer os trabalhos que temos, inclusive já me mandaram algumas coisas que encontraram.

Eu nunca espero encontrar ninguém conhecido quando vou ao parque, aliás a minha intenção é justamente não encontrar com nenhum conhecido, pois quero ter meu momento de paz e tranquilidade sozinha, sem ninguém me cobrando, me julgando ou conversando comigo. Hoje pensei que seria igual aos outros sábados, onde nunca encontro ninguém e a única pessoa que fala comigo é o segurança do estacionamento, mas me surpreendi quando encontrei Elizabeth e o professor de civil caminhando juntos e conversando.

— Oi Liz, oi professor – Eu os cumprimentei.

— Por favor me chame de Tom – Ele disse me cumprimentando. Elizabeth me beijou no rosto.

— Eu não esperava encontrar vocês aqui – falei, enquanto caminhávamos juntos.

— Eu costumo vir no final da tarde, quando as crianças já estão indo embora – Elizabeth disse.

— E eu não sabia que tinha um parque tão perto de casa – Tom falou.

— Nossa, mas todo mundo que mora aqui na Mooca conhece esse parque – Falei sem pensar.

— Eu vim de Brasília faz pouco tempo, então conheço muito pouco da cidade – ele me disse.

— E você viveu toda a sua vida em Brasília? — Perguntei.

— Não. Eu nasci em Londres e vim para o Brasil com os meus pais quando tinha onze anos. Meu pai foi, durante anos, embaixador da Inglaterra e depois que ele se aposentou ele preferiu continuar vivendo aqui, então eu fiz quase todos os meus estudos lá em Brasília, menos o pós-doutorado, que fiz na Espanha – Ele respondeu.

Caralho, nem passou pela minha cabeça que ele poderia ser estrangeiro, mas, parando para pensar, ele realmente não parece muito com os brasileiros, tipo, ele tem a pele muito clara se for comparar com as outras pessoas. Claro que lá no sul deve ter muita gente com a pele tão clara quanto a dele, mas não estamos no sul do Brasil, estamos em São Paulo. Também isso não é um comparativo muito forte, já que aqui tem muita gente que descende de imigrantes europeus, o que não é bem o meu caso, já que sou filha de um negro com uma mulher branca. Para ser honesta, eu nunca soube direito de onde a minha família veio. Meu pai sempre disse que os bisavós dele foram escravos libertados pela lei áurea, mas minha mãe sempre falou muito pouco da família dela. O que sei da família da minha mãe é que a minha avó foi uma índia que se casou com um homem branco, mas não sei que meu avô nasceu no Brasil ou se era estrangeiro, pois minha mãe se recusa a falar dele.

— E você não pensa em voltar a morar na Inglaterra? – Elizabeth perguntou.

— Na verdade eu nunca parei para pensar nisso – Tom respondeu.

Passamos duas horas no parque conversando sobre quase todos os assuntos e isso foi bem divertido, pois eu não me lembrava quando tinha sido a última vez que eu tinha dado tanta risada. Na verdade acho que essa foi a primeira vez que eu ri tanto. Tom nos falou de como era a vida dele na Inglaterra e o que o levou a ser um advogado e, tanto eu como Elizabeth falamos o motivo de termos escolhido direito. Elizabeth queria ajudar as pessoas mais necessitadas a conhecerem seus direitos e queria trabalhar com mulheres vitimas de estupro, o que era um bom motivo. Eu não tinha um motivo tão nobre assim, já que escolhi fazer direito para irritar os meus pais, que queriam que eu fosse pediatra.

Quando eu disse isso Tom me disse que eu estava certa em escolher o curso que gosto e que nem sempre dá para atender as vontades dos nossos pais. Era bom ouvir de alguém que não estou errada, mas, para os meus pais, não ter entrado em medicina foi uma péssima escolha e tive que ouvir mais alguns absurdos deles, já que eles pensam que não vou ser ninguém na vida se eu não fazer tudo o que eles mandam e não é bem assim. E eu sei que vou faze-los engolir cada absurdo que já tive que ouvir deles durante toda a minha vida.

Eu fui arrancada da conversa pelo celular tocando e vi que minha mãe estava ligando. Ela devia achar que já estava na hora de voltar para casa, assim ela poderia passar mais tempo falando que sou uma inútil.

— Você não vai atender? – Perguntou Tom.

— Não. É a minha mãe e eu já sei que ela vai me falar para voltar para casa só para passar o restante do dia me chamando de inútil – respondi.

— Fala para ela que você vai para a biblioteca da faculdade para fazer os trabalhos, assim ela não vai poder falar nada – sugeriu Elizabeth.

— Se eu falar isso ela vai até a faculdade só para ver se estou realmente lá – falei desanimada.

— Então vamos para lá, eu tenho que consultar alguns livros e posso ajuda-las com os trabalhos – disse Tom.

Depois que ele disse isso eu peguei o celular e liguei de volta para minha mãe.

— Onde você está? – perguntou minha mãe, sem nem ao menos dizer um oi ou perguntar se estou bem.

— Estou na biblioteca da faculdade fazendo o trabalho de direito civil – respondi.

— Volta pra casa agora por que você tem que fazer o dever de casa e o trabalho de biologia do seu irmão – ela exigiu quase gritando.

— Na verdade eu tenho é que fazer o meu trabalho. Ele que faça o dever de casa e o trabalho dele, afinal são deles e não meus – respondi irritada.

— Você é muito egoísta e não dá a mínima para o seu irmão, que precisa de ajuda – ela gritou no telefone.

— Eu não sou egoísta. Meu irmão não passa de um moleque mimado que não tem responsabilidade com nada e você e meu pai o incentivam a ser cada vez mais irresponsável. Eu só vou voltar quando terminar de fazer os trabalhos que eu tenho que fazer e ele que se foda para fazer os trabalhos dele – gritei para ela, descontando toda a minha raiva com os mimos que meu irmão recebe.

— Olha bem como você fala comigo por que sou sua mãe e não sou suas amiguinhas vagabundas, que só querem saber de abrir as pernas para macho e querem te levar para o mesmo caminho que elas estão – ela me disse em tom de ameaça.

— Não enfia minhas amigas no meio da conversa porque você não sabe nada sobre elas. Aproveita que você está com tempo para dar sermão nos outros e vai dar um sermão no vagabundo do seu filho que sai todo final de semana para ir em boate gay se oferecer para os outros em troca de dinheiro pra comprar maconha – gritei, jogando toda a merda que eu tinha descoberto no ventilador.

— Como você ousa falar esse tipo de coisa do seu irmão? Ele é um garoto muito esforçado e nunca se ofereceria para nenhum outro homem em troca de dinheiro, muito menos dinheiro para comprar drogas. E, se você não aparecer aqui em dez minutos, não precisa mais voltar – ela me disse antes de desligar o telefone na minha cara.

Depois que eu guardei o telefone eu comecei a chorar no meio do parque. Eu não aguentava mais essa situação.

— O que sua mãe te disse? – Perguntou Elizabeth preocupada.

— Basicamente que, se eu não chegar em casa em dez minutos para fazer o trabalho de biologia do irresponsável do meu irmão, eu não preciso mais voltar – respondi chorando.

— Mas quem tem que fazer o trabalho é ele, já que o trabalho é dele – Falou Tom indignado.

— Foi o que eu disse, mas minha mãe não quer nem saber. Eu não aguento mais isso. Meus pais só passam a mão na cabeça do meu irmão e sou eu que tenho que fazer todos os trabalhos dele e, se eu não faço, eu sou chamada de vadia inútil e de outras coisas – desabafei.

— O que você vai fazer? Você tem para onde ir? – Perguntou Elizabeth.

— Eu não sei o que vou fazer, só sei que não volto para aquela casa nunca mais. Acho que vou morar nesse parque. Aqui é tão tranquilo. – Respondi tentando parar de chorar.

Elizabeth não disse nada, mas pegou o celular e ligou para o pai dela perguntando se eu poderia ficar um tempo na casa deles, até achar onde morar.

— Vamos até a casa dos seus pais pegar as suas coisas e você vem comigo para a minha casa. Lá não é muito grande e vamos ter que dividir o quarto, mas, pelo menos, você não vai ficar na rua – disse Elizabeth.

— Eu ajudo vocês com as coisas – Tom se ofereceu.

— Ótimo. Toda ajuda será bem-vinda. Vamos? – Disse Elizabeth.

O fato dessas duas pessoas que eu conhecia a tão pouco tempo estarem me ajudando tanto me fez me sentir tão bem. Pela primeira vez eu não me senti uma inútil. Eu me senti amada, que finalmente eu tinha com quem contar. Toda essa ajuda me fez me sentir segura e amparada, algo que raramente eu tinha sentido antes. Durante todo o caminho até a minha casa eu fui agradecendo aos dois por toda a ajuda que eles estavam me dando. Eles falaram que não era nada demais, mas para mim aquilo foi tudo. Quando cheguei na casa dos meus pais a minha mãe estava assistindo um filme na televisão da sala e pude ouvir o barulho do jogo de videogame vindo do quarto do meu irmão.

— Ah, você resolveu ouvir a voz da razão e ajudar o seu irmãozinho – disse minha mãe.

— Eu ouvi a voz da razão sim e essa voz me disse para mandar meu irmão enfiar o trabalho dele bem no meio do cu, já que ele gosta tanto de dar o cu não vai ser muito difícil fazer isso e também me disse para pegar as minhas coisas e mandar todo mundo que mora nessa porra de casa ir se foder – falei para ela. Meu irmão pausou o jogo e foi até a sala para assistir a briga, como ele sempre fazia, mas dessa vez ele não estava rindo, porque sabia que eu iria contar, ou já teria contado que ele anda se prostituindo em boates gays.

Minha mãe se levantou do sofá, me deu um tapa na cara e disse: “você vai morrer logo nas ruas, sua preta fedida.”

— Ela não é uma preta fedida e não vai morrer nas ruas porque ela tem um lugar para onde ir – disse Elizabeth muito irritada.

— Para onde ela vai? Para o puteiro onde você mora? – Minha mãe perguntou ironicamente.

— É, sua filha vai para o puteiro onde moramos e vai ficar rica lá, enquanto você vai apodrecer na miséria, sua racista de merda – Tom disse em um tom de voz baixo – agora, se a madame nos dá licença, temos que pegar as coisas da Valquíria para que ela se acomode melhor no puteiro.

Fomos até o meu quarto, onde peguei minha mala de viagem e comecei a jogar qualquer roupa que eu via pela frente. Peguei também meu material da faculdade, o meu notebook e o carregador do celular e tranquei o quarto, só para garantir que meus pais não jogassem nada fora depois que eu saísse. Na portaria do prédio Tom chamou um táxi e Elizabeth deu o endereço da casa dela para o motorista.

Quando chegamos na casa da Elizabeth, que, por enquanto, seria a minha casa também, ela nos apresentou para o pai dela e Tom fez questão de levar as minhas coisas até o quarto. Enquanto eu resumia para o sr. Nelson o que havia acontecido entre eu e a minha mãe, nós tomamos café. O sr. Nelson também ficou muito interessado em conhecer Tom e Tom disse que havia nos encontrado no parque e que acabou testemunhando a discussão pelo telefone e achou que deveria me ajudar dentro do possível. Tom não disse nada sobre estar dividindo apartamento com uma amiga da Elizabeth a pedido dela. Quando perguntei o motivo ela me disse que o pai dela não deixava ela passar a noite em lugares que tinha outros homens, por achar que ela poderia ser estuprada e achei que os motivos dele eram bem razoáveis, afinal ele estava se preocupando com a segurança da filha. Tom não ficou muito tempo, pois ele tinha que terminar de preparar as aulas e tinha que enviar os trabalhos para os alunos fazerem. Elizabeth se ofereceu para mandar o trabalho para a nossa turma e deixou o e-mail dela com Tom para que ele enviasse o que tínhamos que fazer. Depois que nos despedimos dele, Elizabeth foi me ajudar a arrumar minhas coisas no quarto dela, que tinha um beliche. Eu fiquei com a cama de cima porque Elizabeth tinha medo de cair da cama no meio da noite. Achei que era um medo bobo, mas não falei nada.

A casa de Elizabeth não era muito grande, mas era bem aconchegante e o pai dela fez de tudo para que eu me sentisse acolhida naquela casa. Ele era tão diferente do meu pai. Meu pai só se preocupava em falar comigo se fosse para dar razão para minha mãe e enfatizar que eu era uma inútil, já o pai da Elizabeth se preocupava em saber se ela estava bem, está certo que era uma preocupação até um pouco exagerada, mas ele perguntava como tinha sido o dia dela e prestava bastante atenção enquanto ela falava. Nós falamos das matérias da faculdade e chagamos a conclusão de que Direito Civil era muito legal, porque o professor era um fofo e era muito atencioso com os alunos e que Direito Penal era muito legal porque o professor explicava muito bem, embora fosse um pouco arrogante ao responder as dúvidas dos alunos.