Verde é a cor mais quente
6 Capitulo seis: Tom
Na primeira aula da segunda-feira eu já percebi que os alunos e, principalmente, as alunas estavam prestando mais atenção na aula. Claro que ainda havia alguns comentários sobre a minha aparência e sobre o fato de que eu não estava usando terno, mas estava usando roupas mais descontraídas. Eu resolvi usar o terno apenas quando eu fosse em alguma audiência, o que seria difícil, já que eu estava voltando a atuar agora, depois de anos longe da advocacia, mas voltar aos tribunais seria bom para mim, não apenas para ter uma renda extra, mas também para poder explicar melhor aos alunos sobre como era a prática jurídica.
Conforme os alunos prestavam mais atenção nas aulas eu não pude deixar de me sentir grato pela ajuda que Elizabeth e Victoria tinham me dado na sexta-feira, já que foi graças a essa ajuda que consegui preparar melhor as aulas. O fato delas terem me ajudado tanto me fez querer ser mais aberto com os alunos, talvez até criar um grupo de estudos com os alunos depois das aulas. Sei que na biblioteca tem um espaço para grupos de alunos, para que eles se reúnam para fazer os trabalhos e gostaria de usar esse espaço para fazer esse grupo de estudos.
Quando apresentei essa ideia para a coordenadora do curso ela ficou encantada e disse que se eu precisar de mais espaço para fazer esse grupo de estudo eu poderia usar uma sala desocupada na faculdade, mas que precisaria levar uma lista dos alunos que iriam participar dos grupos de estudos para ela poder disponibilizar o espaço para as reuniões. Expliquei que gostaria de começar com grupos pequenos com, no máximo, dez alunos em cada grupo. Eu acredito que, no começo, o espaço que tem na biblioteca será o bastante, já que quero dividir os grupos de estudos pelas turmas que dou aula e sei que nem todos os alunos poderão participar, já que muitos trabalham durante a tarde e outros alunos simplesmente não terão interesse em participar. O que eu realmente não esperava era que tivesse tantos alunos que gostariam de participar e foi surpreendente para mim ver que, em todas as salas que falei sobre esse assunto, a grande maioria dos alunos estava disposta a participar do grupo de estudos pelo menos uma vez por semana e a pergunta que mais escutei era se esse projeto seria exclusivo para os meus alunos. Em toda turma eu tinha que explicar que, no momento, não seria possível que alunos de outras turmas participassem por causa do espaço que tinha disponível e também do tempo, já que eu não poderia ficar durante a tarde inteira todos os dias, já que precisava ir nas audiências.
No final da aula de sexta-feira eu tinha uma lista com 220 alunos interessados em participar do grupo de estudos e não tinha a menor ideia de como dividi-los em grupos pequenos para que a bibliotecária não reclamasse por ter um grupo tão grande de alunos usando a biblioteca juntos, principalmente porque teria bastante conversa. Talvez a biblioteca não seja o melhor lugar para fazer isso.
— Tom – Uma voz feminina me chamou, me assustando e me tirando dos meus devaneios. Era Elizabeth.
— Ah! Oi Elizabeth – falei um pouco assustado.
— Desculpa ter te assustado. Eu queria saber mais sobre o grupo de estudos – ela disse.
— Não tem problema. Eu estava pensando em um lugar para o grupo de estudos se reunir sem ser incomodado e sem incomodar ninguém – falei para ela.
— Na biblioteca tem espaço para grupos se reunirem, mas se for um grupo muito grande tem algumas salas no segundo andar que estão desocupadas. Acho que a coordenação pode liberar uma dessas salas para o grupo de estudos – ela me disse.
— Achei que as salas desocupadas ficavam no sétimo andar – falei. — No sétimo andar tem algumas que, teoricamente, estão desocupadas, mas você não vai querer fazer o grupo de estudos lá – ela disse.
— Por que? – Perguntei curioso, pois achei que, por ser o andar mais desocupado da faculdade, seria o lugar ideal para fazer as reuniões do grupo de estudos.
— Por que alguns alunos vão ao sétimo andar para transar. Isso quando não estão na escada de incêndio – ela disse sorrindo para mim.
Elizabeth tinha um sorriso tão bonito. Hoje ela estava usando uma blusa social verde escuro, que combinava muito bem com seus olhos verdes. Reparei que hoje ela estava usando maquiagem, coisa que nunca tinha visto Elizabeth usando antes e ela estava muito bonita. Não era nada muito forte ou extravagante, mas que a deixou mais bonita ainda. Eu definitivamente estou perdendo o juízo, achando uma aluna bonita. Pior! Eu estava atraído por essa aluna. Se descobrissem isso eu seria demitido sem dúvida nenhuma. Bom, o que aconteceu semana passada não poderia se repetir em hipótese alguma, principalmente porque, tanto eu como Elizabeth tínhamos que lidar com nossos próprios demônios.
— O que você acha de me ajudar a organizar os grupos de estudos? – perguntei sem pensar.
Droga. Tudo o que eu menos precisava era passar mais tempo com ela. Eu não posso me dar ao luxo de me apaixonar por uma garota que é minha aluna, principalmente uma aluna com um passado tão trágico como Elizabeth tem.
— Por mim tudo bem. Acho que isso vai me ajudar muito com a sua matéria e eu gosto muito da sua companhia – ela respondeu.
A resposta dela me deixou surpreso. Pensei que, depois do nosso beijo na semana passada ela fosse querer distancia de mim e, talvez, de qualquer outro homem que exista no mundo. Bom o fato dela ainda estar traumatizada com o que o padrasto dela fez mostra que ela tem muito medo de que isso possa acontecer de novo e eu também teria medo. Honestamente eu não faço a menor ideia de como seria a minha reação se algo assim tivesse acontecido comigo e acho que nunca vou saber. O fato é que homens adultos não costumam ser estuprados e não tem medo de andar na rua sozinhos, pois dificilmente algo ruim vai acontecer. O pior que pode acontecer é um latrocínio, mas com as mulheres é bem diferente, porque não é só o latrocínio que acontece com elas. Repetidas vezes eu vi nos noticiários casos de mulheres que foram encontradas mortas com sinais de abuso sexual, casos de crianças e adolescentes que são assediadas e abusadas por pessoas da própria família e isso me deixa horrorizado. Essas pessoas deveriam proteger as crianças e as adolescentes e não abusar dessas pessoas. Não consigo entender o que se passa na cabeça de uma pessoa que faz algo assim com outra pessoa, especialmente uma pessoa que deveria ser protegida. Eu acho que nunca vou entender isso e que também nunca vou conseguir saber quanto medo Elizabeth guarda dentro de si, por que passar por algo assim deixa traumas muito profundos e que, talvez, não possam ser superados.
Eu levei Elizabeth até uma sala de reuniões que tinha dentro da coordenação e que era usada pelos professores para conversas particulares com os alunos que os procuravam na coordenação. Pelo que me falaram essas salas eram mais usadas no final do semestre, quando os alunos estavam desesperados por causa de notas e procuravam os professores para tentar conseguir passar de semestre sem ter que fazer nenhuma prova de recuperação. Eu acho que prova de recuperação só serve para deixar o aluno mais apavorado ainda, pois quem precisa fazer essas provas já sabe que foi mal naquela matéria durante o semestre e que vai ser muito difícil ele aprender toda a matéria em alguns dias, então ele acaba decorando a matéria só para tirar uma nota que seja o suficiente para que ele passe sem ter que fazer aquela matéria de novo. Por outro lado, sempre tem aqueles alunos que nunca aparecem nas aulas, os famosos turistas, e que no final do semestre querem nota para passar, pois sabem que dificilmente vão passar. Em qualquer um dos dois casos os alunos ficam apavorados de ter que fazer mais uma prova.
Elizabeth me ajudou durante duas horas, onde definimos que teriam onze grupos de estudos e cada grupo teria 20 alunos e que as reuniões poderiam ser uma vez por semana em dias específicos. Resolvi deixar as tardes de segunda-feira, quarta-feira e sexta-feira livres para isso, assim como dois sábados por mês, caso tenha algum aluno que não possa ir durante a semana. Elizabeth sugeriu então que eu colocasse três grupos em cada dia da semana e dois no sábado, assim atenderia a todos e que esses grupos não precisariam ser divididos por turma, pois em todas as turmas teriam pessoas que não poderiam ir durante a semana ou que não poderiam ir no dia em que eu coloquei o grupo de estudos da sala dela.
— Você tem razão. Será melhor se deixarmos os alunos escolherem o melhor dia para eles, já que não sei o que cada um faz fora da faculdade – falei, aproveitando para elogiar o trabalho que ela estava fazendo.
— Obrigada professor. Você já pensou em quanto tempo durará cada reunião com cada grupo de estudos? – ela me perguntou.
— Pensei em encontros de uma hora, no máximo uma hora e meia. – Respondi.
— Acho que uma hora está bom. Não dá pra ser muito tempo, já que terá mais de um grupo por dia e também o objetivo não é transformar esses grupos de estudos em aulas extras. Creio que sejam grupos mais para tirar dúvidas do que outra coisa. – Ela disse.
— Você está certa. Não são aulas extras. Só quero evitar que meus alunos fiquem de recuperação no final do semestre – falei.
— Isso é preguiça de ter que criar mais uma prova? – Elizabeth me perguntou.
— Não é preguiça, pois sempre vai ter um que vai ter que fazer essa prova de recuperação. Eu penso que provas de recuperação só servem para deixar o aluno desesperado, seja por que ele é turista e não aprendeu nada durante o semestre, seja porque ele tem dificuldade me aprender a matéria e por isso vai mal na prova. Eu não posso fazer nada em relação aos turistas, mas posso ajudar quem tiver dificuldade em aprender a minha matéria, assim serão menos alunos de recuperação no final do semestre – respondi com sinceridade.
— Gostaria que todos os professores fossem iguais a você – Ela disse.
— Por que? – Perguntei.
— Você se preocupa com os alunos. A grande maioria dos professores tem outras coisas para fazer fora da faculdade, principalmente por que muitos trabalham em escritórios, então eles não disponibilizam muito tempo para tirar as dúvidas dos alunos e não estão nem aí se o aluno tem ou não dificuldade na matéria que eles lecionam, mas você está todo preocupado em não deixar ninguém com dúvidas e em ajudar quem tem dificuldade na sua matéria e isso é bem legal da sua parte – Ela respondeu.
Eu fiquei feliz em saber que tinha alunos que consideravam toda essa minha preocupação um ponto positivo, pois eu ainda me sentia um pouco inseguro sobre ser professor. Nós dois conversamos sobre mais algumas coisas antes da coordenadora vir falar conosco. Explicamos para ela como estávamos planejando os grupos de estudo e ela adorou a forma como organizamos as coisas. A coordenadora ficou de disponibilizar uma sala próxima da biblioteca para os grupos de estudos, mas fez isso a contragosto, pois ela queria que ficássemos no sétimo andar e não quero ter fama de ser empata foda. Terminamos a conversa com a coordenadora prometendo uma das salas livres no segundo andar e nos acompanhando até a saída da coordenação ou melhor, acompanhando Elizabeth até a saída da coordenação.
— Professor eu posso conversar com o senhor em particular? – A coordenadora me perguntou.
— Claro professora. Nos falamos depois Elizabeth. Tenha um bom final de semana – Eu disse me despedindo de Elizabeth.
— Bom final de semana professor – Ela disse e vi pelo olhar dela que ela estava curiosa sobre essa conversa particular que a coordenadora queria ter comigo. Era como se ela torcesse para que não fosse nada de ruim.
Eu acompanhei a coordenadora até a sala dela, onde ela me perguntou o motivo da Elizabeth estar me ajudando a organizar os grupos de estudos.
— Eu pedi a ajuda dela por que ela tem um bom relacionamento com os colegas de classe e, como a sala dela foi a que menos demonstrou interesse, eu pensei que ela me ajudando pudesse mudar isso e também por que ela demonstra muito interesse pela área cível – eu respondi contando meias verdades, pois eu não sabia como era o relacionamento de Elizabeth com os colegas de classe e também por que isso não faria muita diferença, já que a turma dela demonstrou tanto interesse quanto as outras turmas. Na verdade, eu não queria falar que eu pedi a ajuda dela por que estou a fim dela.
— Neste caso não vejo problemas desta aluna te ajudar, mas espero que o senhor não tenha nenhum tipo de segundas intenções com esta e nem com nenhuma outra aluna – a coordenadora disse antes que eu saísse da sala dela.
Cheguei em casa sabendo que eu estava muito fodido. Eu estava interessado em uma aluna e minha chefe notou isso e agora minha chefe prestaria dez vezes mais atenção em mim só para garantir que eu nunca teria nenhum caso com nenhuma aluna daquela faculdade, muito menos com Elizabeth. Não sei se teve alguma coisa que eu fiz que fez a coordenadora suspeitar que eu e Elizabeth tenhamos alguma coisa. Não pode ser isso por que eu não tenho nada com Elizabeth, sei que estou interessado nela, mas não tenho como saber se tem algum interesse da parte dela. Acho que estou confundindo as coisas e que ela só está interessada em aprender. O mais provável é que a coordenadora só queira garantir que não ocorra nenhum caso de assedio dentro da faculdade e é justo que ela se preocupe com isso.
— Tom? – Victoria me chamou da porta do quarto. – Está tudo bem?
— Tá. Tá tudo bem sim, porque? – Perguntei.
— Você não me esperou pra jantar e achei isso estranho – Ela respondeu.
— Só estou cansado. Tive um dia longo no trabalho – Menti
— Tudo bem então, estou na sala se você quiser me contar como foi o seu dia ou se quiser falar sobre qualquer outra coisa – Ela disse, saindo do quarto.
Mas que merda! Agora eu comecei a mentir para todo mundo. Pior. Estou mentindo para uma das poucas pessoas que realmente se importam comigo. Isso não pode continuar assim. Eu vou manter a relação com Elizabeth apenas como uma relação entre professor e aluna e vou esquecer daquele maldito beijo. Vai ser melhor para todo mundo se eu fizer isso e, com certeza, será melhor para Elizabeth. Ela já tem problemas demais para se envolver com um monstro que consegue matar a esposa em um acidente de carro.
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