Verdade Ou Pesadelo
35 We Stitch These Wounds
Notas iniciais
– Se você demorar mais, quem sabe nós não nos atrasamos o suficiente pra dar tempo de dar um oi pros policiais que já devem estar chegando? – Andy ironizou, parado do lado de fora do quarto dos pais de Scout.
– Dá um tempo, praga! – respondeu Scout do outro lado da porta.
Eles tinham que tratar de sair dali logo. Já passava das 7h00min, a essas horas com certeza já teriam dado falta de Scout no orfanato e contatado a polícia. Mesmo que sua casa não fosse o primeiro lugar a ser vasculhado por ser tão óbvio, não demoraria para que os homens vestidos de fardas viessem verifica-la.
Como ela levara todas as suas coisas para o orfanato e as deixara lá, seu guarda-roupa estava vazio, tal como suas gavetas. Com um pouco de sorte, as roupas de sua mãe ainda estariam no mesmo lugar de sempre: no closet do quarto de casal dos pais. E bingo, não haviam sido doadas e nem sequer tocadas, estavam todas na mais perfeita desordem costumeira. Melinda nunca tivera uma estatura das mais altas, o que permitia que Scout lhe roubasse algumas peças de roupa vez ou outra. Ela estava prestes a ir embora com Andy sabe-se lá pra onde ou por quanto tempo, talvez pra sempre, correndo o risco de ter Andy tirado de si. Ela precisava, pelo menos, de algumas roupas pra sobreviver! O único jeito era pegar as de sua mãe.
Scout sabia que eles não podiam perder tempo se não quisessem ser pegos pelos policiais, mas ela não conseguia evitar olhar e contemplar os porta-retratos que ainda estavam presentes no quarto dos pais. Um turbilhão de lembranças se fazia presente na mente de Scout ao rever todas aquelas fotografias, as quais ela sempre olhara com indiferença mas que agora lhe eram de extremo valor.
Ela adentrou o closet dos pais e começou a revirar – mais ainda – a parte que continha as antigas roupas da mãe, procurando algo que lhe caísse bem. Foi uma procura demorada, pois ela apertava levemente e observava triste cada peça que tocava. Separava-as em uma pilha desarrumada para coloca-las em uma mochila depois. Nada havia sido retirado do quarto dos pais ainda, o que significava que as malas continuavam lá.
Enquanto deslizava os cabides que seguravam as roupas pelo cano de metal no qual ficavam pendurados, Scout deparou-se com um vestido pelo qual ela tinha um carinho especial. Sua mãe nunca se importara em empresta-lo, ela dizia que Scout ficava linda usando-o. Embora nunca fora muito fã de vestidos, ela sempre gostara daquele. Ela desenganchou o cabide que o segurava do cano de metal e examinou-o. Lembrou-se da gargantilha que sue pai lhe dera de aniversário no ano passado e pegou-a de dentro de uma caixinha de joias que ficava numa das prateleiras do closet. Em seguida, virou-se para o comprido espelho na parede e segurou a gargantilha em uma das mãos e o vestido na outra em frente ao corpo para relembrar como ficava quando o vestia. Sorriu involuntariamente.
O vestido preto tomara que caia que batia um pouco acima de seus joelhos estampado por bolinhas pretas combinava com a gargantilha de strass prateada.
– Espero que você ainda me ache bonita usando esse vestido, mãe – ela retirou-o do cabide, despiu-se da camiseta cinza que Andy lhe entregara e da jeans suja que usava desde o dia anterior e colocou-o.
Apesar de estar usando um vestido, ela não abria mão de seu fiel all star velho por nada, então calçou-o (http://www.polyvore.com/cgi/set?id=63783753&.locale=pt-br), pegou uma velha mochila de costas da mãe com estampa de oncinha e colocou dentro as roupas que há pouco estavam jogadas na pilha desordenada no chão do closet.
O vestido que Scout usava tinha o cheiro de Melinda. Ela fechou os olhos e se concentrou no delicioso e reconfortante perfume materno que o tecido emanava e novamente sorriu, abrindo os olhos. Poderia ser estranho, mas o simples cheiro conhecido e calmante de sua mãe a fazia sentir menos solitária e vazia.
Ela deixou o closet e deu uma ultima olhada em todas aquelas fotos espalhadas pelo raque do quarto e pelas mesinhas de cabeceira. Não demoraria muito para que alguém viesse recolher todas essas coisas agora que ninguém morava mais ali, mas todas aquelas lembranças não podiam se perder. Ninguém as levaria a lugar nenhum.
Scout retirou as fotos dos porta-retratos para que ocupassem menos espaço na bolsa e recolheu-as, guardando-as na mochila.
Pela milionésima vez ela pôde ouvir as batidas de Andy soarem na porta.
Scout’s POV
– Toc toc. Quem bate é o cara dos seus sonhos – Andy fez graça.
– Jared Padalecki? É você, meu amor? – brinquei, aproximando um ouvido da porta e com a mão na maçaneta.
– Que Jared Paladecki, o que?!
– Jensen Ackles? Jhonny Depp? Chris Evans? Chad Murray? Ou alguma outra celebridade hollywoodiana que também exale feromônios por todos os poros do corpo?
– Melhor do que isso, minha cara! Quem vos aguarda do lado oposto desta porta é ninguém mais, ninguém menos, que Andrew Prince Campbell, em ectoplasma e osso! – não resisti e soltei uma gargalhada, abrindo a porta. Assim que pousou os olhos sobre mim, Andy adquiriu uma expressão boquiaberta de surpresa e seus olhos quase brilhavam, e se ele não fechasse logo a boca ia começar a babar. – Caraca, você tá linda! – ok, se ele tivesse me falado isso enquanto estivéssemos atravessando a rua, todos os carros parariam achando que minha cara era o sinal vermelho do semáforo.
– P-Para, vai, idiota – falei encabulada, baixando o olhar para esconder a vermelhidão de meu rosto e pra evitar que ela se intensificasse caso mantivéssemos contato visual naquele momento.
– Achei que fossemos sair por aí à esmo, e não que iríamos a uma festa – o palhaço falou.
– Não enche! – dei um empurrãozinho amigável nele e saí do quarto de meus pais. – Vamos embora antes que- – eu não pude terminar a frase, fui interrompida por uma sirene e o barulho de um motor. Um carro estava estacionando em frente à casa. Os policiais.
Eu e Andy nos entreolhamos, ambos com uma luz vermelha imaginária piscando na testa sinalizando DANGER.
– Sabe, é uma ótima hora pra você fazer seu abracadabra ou sei lá o que e tirar a gente daqui, não acha?! – perguntei cochichando para que os policiais não nos ouvissem.
– Se você não tivesse demorado tanto, estaríamos longe daqui a essas horas – ele respondeu no mesmo volume que eu. Droga, o infeliz consegue me deixar de consciência pesada!
– Que tal deixar pra jogar a culpa em mim quando estivermos bem longe daqui?! – apressei ainda mais quando ouvi a porta da sala ser aberta lá embaixo e passos adentrando a casa.
– Tá, estraga prazeres – resmungou Andy, segurando em minha mão e no segundo seguinte nos levando até a o interior do cemitério Morgantown, bem perto da entrada.
Por uma estranha razão eu me sentia meia zonza. De repente senti como se alguém tivesse acabado de esfaquear cada um de meus machucados e fraturas, que começaram a doer intensamente como se alguém os tivesse aberto novamente e quebrado minhas costelas outra vez, o que fez com que eu me curvasse instintivamente, sem conseguir segurar um urro de dor.
– Droga, eu sabia que isso ia acontecer! – Andy pegou-me no colo e correu em direção a um túmulo específico.
Ele parou de súbito e deitou-me de modo que eu ficasse com as costas apoiadas em uma árvore.
– Eu não vou demorar – disse ele, ajeitando-me e indo em direção ao túmulo.
Vi Andy ir até o túmulo de Mary. Tudo ainda estava lá, desde o altar até as manchas de sangue secas no gramado sem vida. Ele agachou-se para pegar algo do pentagrama e logo em seguida veio até mim, ajoelhando-se ao meu lado.
Ele pegou meu braço e habilmente desfez a atadura que, a essas alturas, continha uma marca de sangue do mesmo tamanho e formato do corte que cobria e que agora sangrava.
– O que você tá fazendo? – perguntei respirando aceleradamente devido à dor, observando curiosa.
– Você não lembra disso? – ele me mostrou a ágata lilás que segurava entre o polegar e o indicador.
Ele pressionou o corte para que sangrasse em cima da pedra, fazendo com que eu fechasse violentamente os olhos e cerrasse os dentes para não gritar feito uma criança. Eu sabia exatamente o que ele ia fazer, e já havia me acostumado àquilo, então toda aquela dor não se prolongaria por muito mais tempo. Assim que Andy terminou a prece de sempre, senti a dor diminuir gradativamente e vi o corte se fechar ao mesmo tempo em que minhas costelas paravam de doer.
– Se eu fosse você tratava logo de tirar os outros curativos agora que eles são inúteis. Eles não combinam com o vestido – ele falou, jogando a ágata para trás em qualquer lugar.
– Quem é você? Jacques Leclair? – perguntei, já arrancando os curativos e me levantando.
– Sou mais como um Victor Valentim.
– Deus, eu me apaixonei por um gay!
– Gay?! – ele me prensou contra a mesma árvore na qual eu estava apoiada e prendeu minhas mãos acima de minha cabeça usando as suas próprias. – Você não devia ter dito isso, ruiva. Se tem uma coisa que eu não admito é que duvidem da minha masculinidade. Vou te mostrar quem é gay – alerta vermelho de malícia! Andy começou a traçar um caminho de beijos pelo meu pescoço, descendo até meu busto desnudo, quase alcançando a parte do corpete do vestido que cobria meus seios.
Tá, eu confesso, eu tava gostando! Eu suspirava e mantinha os olhos fechados para me concentrar melhor no toque de seus lábios em minha pele. Foi aí que, como se criasse vida própria, meu joelho foi parar nas partes baixas de Andy, que imediatamente me soltou e levou as mãos até o local, curvando-se por causa da dor. O que foi agora?! Eu não tinha mais controle sobre mim mesma?! Recomponha-se, Scout!
– Porra, ruiva! – ele esbravejou, curvando-se para frente com as mãos entre as pernas. – Você vai acabar me deixando estéril assim!
– N-Não é hora pra isso, Andy! – o que tinha dado em mim?! Como se eu não soubesse. Na verdade, eu não tinha certeza se era o que eu estava pensando...
– Um empurrão teria sido menos doloroso – respondeu Andy, se recuperando.
– Vamos falar de coisas mais importantes, pode ser? O que aconteceu com os meus ferimentos quando chegamos aqui? Por que eles se abriram do nada? Você falou como se já esperasse por isso.
– Tá lembrada de todas as vezes que você me pediu pra usar teletransporte e eu me recusei? Bom, era porque eu tinha medo de que isso acontecesse – ele respondeu. Notando minha expressão confusa, ele começou a explicar: – Se teletransportar de um lugar para o outro exige energia. Você já estava fraca quando viemos pra cá, e por causa disso o teletransporte absorveu as poucas forças que ainda te sobravam, interrompendo a cicatrização dos ferimentos e fazendo com que eles se abrissem de novo, já que sem energia o corpo não pode se recuperar.
– E por que da última vez isso não aconteceu?
– Da última vez você não estava coberta de cortes e machucados, muito menos estava tão debilitada. Agora é diferente, o teletransporte absorveu o pouco de energia que ainda restava em você depois de ter ficado exausta do ritual.
– Entendo – disse. – Ainda precisamos pensar num jeito de te livrar do Xólotl.
– Eu já disse que é perda de tempo, ruiva – Andy falou, pessimista.
– Não interrompe meu raciocínio – levantei a mão, fazendo sinal para que ele parasse de falar enquanto eu encarava o vácuo, como se isso me ajudasse a pensar em algo. – O que acontece com os contratos depois que você os sela?
– Se você tá querendo saber que fim eles levam, vou te adiantar que eu não os guardo comigo. Quando eu fecho um contrato, ele é redirecionado para o meu... Chefe, digamos assim. Ele guarda todos os contratos. Um contrato simples como o nosso eu pude anular, mas anular um contrato com um deus asteca vai muito além do meu alcance. O único com poder o suficiente pra isso é meu chefe.
– E quem seria o seu “chefe”?
– Lúcifer é meu chefe.
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