Notas iniciais
Cap 24 pra vocês o/ Tomara que vocês gostem ^^

A atmosfera era pesada e o cheiro de mofo impregnava o lugar.

Enquanto Scout revirava as gavetas do criado mudo ao lado da cama de solteiro antiga e desgastada com lençóis surrados, Andy procurava no baú em frente à janela sem cortinas e de vidro rachado.

– Achou? – perguntou Andy ainda revirando os objetos dentro do baú.

– Não – respondeu Scout, abaixando-se para olhar debaixo da cama, porém só encontrou mais pó.

– O que será que aconteceu aqui naquele dia? – Andy fechou o baú e foi procurar no guarda-roupa.

– Não pode ter sido coisa boa – Scout levantou-se, foi até a penteadeira e começou a procurar por ali, porém nenhum dos dois achou a tal faixa.

– Não tem nada aqui – disse Andy, fechando a porta do guarda-roupa.

– Nem aqui – suspirou Scout desanimada. – Temos um plano C?

– Sim. Voltar aqui amanhã à noite e continuar procurando – disse Andy.

– Já devem passar das 4:00am, eu preciso dormir, senão não vou ter forças pra continuar a busca à noite – disse Scout. – Seja lá por onde você tiver entrado, é melhor sair, daqui a pouco todos estarão de pé.

– Sem chance.

– Perdão? – ela tinha ouvido direito? Ele ia continuar ali?

– Você só está a salvo de Mary porque eu estou com você. Se eu sair de perto, ela volta a te atacar. Ela tem medo de mim, por isso não te ataca quando eu estou por perto – é mesmo, ele era o que estava mantendo Mary longe. – É, de nada – disse Andy, como se lesse os pensamentos de Scout.

– Não preciso de um escudo, sei me cuidar muito bem sozinha, pode ir embora.

– Ah, jura? – disse Andy arqueando uma sobrancelha sarcasticamente. – Dá pra notar analisando que você quase foi morta quando eu não tava por perto.

– Eu tinha tudo perfeitamente sob controle! – mentiu Scout, atropelando as palavras.

– Claro, tinha tanto controle sobre a situação que quase virou purê.

– Eu teria escapado mesmo se você não tivesse aparecido.

– Orgulho, teu nome é Scout Carter – fez graça Andy.

– Haha, how funny – Scout fingiu uma risada. – Como você vai ficar aqui sem ser notado?

– Vou entrar em alguém de novo – disse ele.

– Agora que você tocou no assunto, o que aconteceu com o outro corpo que você usou?

– Ele provavelmente está no hospital.

– O que você fez?!

– A partir do momento em que eu entrei no corpo daquele cara, ele já estava condenado – disse Andy. – Eu sou um espírito, uma alma. Para que eu me aposse de um corpo, eu devo primeiro expulsar a alma que já estava lá antes. É impossível que duas almas ocupem um único corpo, só há espaço para uma. Porém quando eu deixo o corpo, a alma que antes o habitava não volta, a única coisa que resta é o corpo sem vida.

– Então o homem...

– Ele tá morto – completou Andy.

– Então você usar o corpo de alguém é o mesmo que matar esse alguém?

– Sim.

– E quem você pretende usar?

– Qualquer uma das suas colegas de quarto serve – disse ele indiferente.

– Erika e Akira?

– Se é assim que elas se chamam, sim.

– Mas... – Scout não concordava em usa-las dessa forma, como se fossem objetos sem valor, como se as consequências que isso traria não fizessem a menor diferença, como se suas vidas não valessem nada. Ela não era assim, não era justo com Erika e Akira.

– Por que você está falando com tanto pesar na voz? Você nem as conhece direito, por que se importa tanto com o que acontecerá a elas?

– Elas têm uma vida inteira para viver, saudável e feliz, não é justo tirar isso delas para meu benefício próprio!

– Não me leve a mal, mas a essa altura do campeonato a ultima coisa na qual você deveria pensar é no que é justo e no que não é.

– Eu sei, é que... – ela ainda não estava convencida.

– Você é realmente bondosa – disse Andy, deixando Scout um pouco surpresa. – Achei que não restasse mais nada além de ódio e vingança dentro de você, mas pelo jeito ainda tem espaço para um pouco de ternura. Mesmo sabendo que estará totalmente vulnerável à Mary longe de mim, reluta em aceitar que eu use uma das suas colegas para me manter próximo a você. E se eu prometer que elas ficarão bem mesmo depois que eu sair do corpo?

– Mas você não disse que a alma que habitava o corpo antes de você entrar não volta mais?

– Há um jeito de traze-la de volta, mas é arriscado – disse Andy.

– Que jeito? – quis saber Scout.

– Quando eu expulso o espírito do corpo, ele vaga sem rumo, fica perdido, assim como milhares de outros espíritos que ainda andam entre nós, alguns sem nem ao menos se darem conta de que morreram. É por isso que as almas não retornam ao corpo, elas não conseguem acha-lo. A única coisa que temos que fazer é guia-las até seu corpo e automaticamente serão atraídas para dentro deste – explicou Andy.

– E como fazemos isso? – perguntou Scout.

– Indo atrás do espírito e mostrando o caminho, dã – Andy falava como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.

– Só isso? Tipo, pegar na mão dele e leva-lo até o corpo? Como quem atravessa a rua com uma criança?

– Isso mesmo.

– Ah, sim, é um ótimo e bem estruturado plano, só esquecemos de um pequenino detalhe... Almas são invisíveis!

– Não aos meus olhos, afinal eu sou uma também. Mas eu não posso guia-la até o corpo.

– Por que não?

– Como eu disse, muitos dos espíritos que vagam por aí não têm nem consciência de que já partiram desse mundo, continuam achando que estão vivos e que ainda são humanos, o que significa que continuam agindo como tal. Quando você vê um estranho na rua, por acaso você o segue para qualquer lugar? – perguntou Andy, porém não esperou a resposta de Scout e continuou com a aula de espiritualidade. – Mesmo que eu fosse atrás do espírito dela, ela não viria comigo, precisa ser alguém que ela conheça. Tem que ser você.

– Mas como eu vou acha-la e guia-la se eu não consigo vê-la?

– Quando os humanos dormem, o espírito ou corpo astral se desprende do corpo, é por isso que a maioria sempre faz uma reza antes de dormir pedindo para que o cara lá de cima olhe por seu corpo astral quando ele se desprender de você e permita que ele passe longe de lugares com trevas e caminhe por lugares iluminados, porém quando acordam raramente se lembram de algo do que fizeram enquanto dormiam. Enquanto seu corpo astral estiver andando por aí, ele pode ver todo e qualquer espírito. Eu posso fazer com que você fique metade adormecida e metade acordada, o suficiente para que tenha controle sobre seu corpo astral, para que consiga achar suas colegas de quarto e guia-las até o corpo. Será como se você estiver sonhando.

– E onde está o risco nisso tudo?

– Os outros espíritos não deixarão você leva-la até o corpo tão fácil assim, eles vão tentar te prender lá. Se você demorar muito, seu corpo astral esquecerá o caminho e ficará preso lá para sempre, você não poderá mais retornar, assim como os outros. É como se você entrasse em coma permanente.

– Se eu falhar eu não volto mais de lá?!

– Sim, além de que você vai estar no mesmo plano que Mary, será como se vocês fossem vizinhas. Falhar será sua sentença de morte – aquelas palavras atingiram em cheio Scout.

Se Scout falhasse em buscar o corpo astral de Erika ou Akira, Mary a mataria. Se ela não fosse atrás do espírito de suas colegas e fosse direto fazer o ritual, ela mataria Mary antes que ela a matasse.

Uma parte de Scout, a que só se importava com a vingança, dizia para ela escolher a última alternativa. Porém, a outra parte, a que restara da antiga Scout, essa gritava para que pensasse sobre a primeira.

– Então que seja – decidiu ela. – Faremos isso. Pode usar uma delas, mas quando tudo acabar me prometa que elas ficarão bem, que será como se nada nunca tivesse acontecido, e que elas não vão lembrar de nada.

– Eu prometo – disse Andy, levantando uma das mãos como se estivesse fazendo um juramento. – Elas não lembrarão de nada.

– E como você vai fazer pra disfarçar enquanto estiver dentro do corpo de uma delas? Quer dizer, como você vai conseguir agir igual a elas?

– Isso é o de menos.

– Se você diz. Vamos voltar ao dormitório, hoje à noite voltamos pra cá e continuamos procurando.

Andy assentiu e eles deixaram o antigo cômodo e o quinto andar do orfanato. Se dirigiram ao primeiro andar da ala leste, entraram sorrateiramente no dormitório 6 e Scout acendeu o abajur em cima da mesinha de cabeceira ao lado de sua cama.

A fraca luz do abajur iluminou Erika dormindo serenamente, bem ajeitada no colchão e cobrindo do nariz para baixo com o edredom. Na cama ao lado, onde a luz do abajur batia menos, Akira dormia completamente desarrumada. Parte de sua coberta estava no pé da cama e a outra parte – a maior parte – estava no chão. Um de seus braços estava pendurado, assim como sua perna.

– Qual das duas?

– Não vou dizer.

– E por que não?!

– Porque eu quero ver se você consegue descobrir sozinha – respondeu ele.

– Que idiotice! – disse ela, mas Andy já havia sumido.

Droga! Ele já deve estar dentro de uma delas agora, pensou Scout, mas ela não estava com cabeça pra tentar adivinhar qual delas agora se transformara em Andy. Tudo o que Scout queria naquele momento eram algumas horas de sono, então tratou logo de se deitar. Apagou o abajur, se cobriu e assim que fechou os olhos pegou no sono.

Notas finais
Fim do cap 24.Mas alto lá, ainda teremos o cap 25 o/Antes de ir pro próximo cap, voces já sabem: reviews, críticas, sugestões, opiniões, estou a espera de todos ^^Agora sim, cap 25, here we go /o/