Notas iniciais
É aqui que começa o ritual de verdade >:3 Espero que corresponda às expectativas de vocês ><'

O fogo negro que antes ocupava o interior do pentagrama agora dava lugar a uma garotinha de 9 anos de cabelos negros lisos e compridos, com duas órbitas vazias das quais escorria um rastro de sangue, rachaduras na pele e vestindo um uniforme xadrez sujo e rasgado.

– Então, vocês acreditam mesmo que esse ritual vai me deter? – disse ela. – Pobres coitados iludidos. Sabem, está realmente desconfortável nesse maldito triângulo.

– Acostume-se, Mary – falou Andy. – Desconforto é o mínimo que você sentirá.

– O que você vai acha que pode fazer, Andrew? Dizer as palavras mágicas e me mandar pro inferno? – Mary subestimou-o.

– É exatamente isso o que eu acho – Andy deu uma piscadela irônica e ficou na mesma posição de cruz de antes, fechando os olhos para se concentrar melhor. – Imperat tibi Deus altissimus , cui in magna tua superbia te similem haberi adhuc præsumis; Imperat tibi Deus Pater. (O Deus Altíssimo comanda a quem, na tua grande insolência, ainda reclamas ser considerado similar; Deus Pai ordena-te, ouça-o) – enquanto Andy pronunciava as palavras, Mary parecia conter-se para não se contorcer, porém não conseguia evitar alguns espasmos os quais tentava disfarçar revirando o pescoço.

– Não diga nem mais uma palavra... – sibilou ela. A voz de Mary começara a mudar. Pareciam haver duas vozes roucas saindo de dentro dela ao mesmo tempo. Enquanto Andy se mantinha concentrado sem interromper-se, Mary parecia cada vez mais furiosa, ao mesmo tempo em que contorcia-se em agonia. Sua expressão era de dor e raiva. Cortes começavam a se abrir em seus braços e pernas, como se sua pele estivesse sendo corroída, e a cada novo corte Mary gritava mais alto, como se eles estivessem sendo feitos por uma lâmina especial mergulhada em ácido fluorídrico.

Scout assistia às cenas perturbadoras já com um dos braços esticados e com a manga da blusa dobrada, com a adaga posicionada.

– Você está com medo, Scout? – Mary provocou, numa voz sofrida. – Sim, você está. Você quer correr pro colo da sua mãe? É uma pena que aquela vadia esteja queimando no inferno enquanto você está tremendo de medo – Scout sentiu seu sangue ferver.

– Cala a boca... – avisou ela, tentando se conter.

– Ignore, Scout – disse Andy, e prosseguiu com o ritual.

– E o que me diz do seu pai? Ah, ele foi o mais divertido de todos! Você tinha que ver o quão alto ele gritou quando o matei, o quanto eu prolonguei seu sofrimento! A boa notícia é que o medo em seus olhos não permaneceu por muito tempo, já que eu os arranquei da forma mais dolorosa que consegui.

– EU MANDEI CALAR A BOCA! – Scout gritou com todas as cordas vocais.

– Regnum redire pateretur Redire ad lacrimarum valle. Reverte in profundum inferni. (Ele sofreu, ele voltou ao seu reino para retornar a um vale de lágrimas. Volte para as profundezas do inferno.)

– Então prefere falar da Taylor e da dor insuportável e angustiante que ela aturou em seus últimos momentos, com uma rocha atravessada no peito? Mas espere, quem a jogou do abismo mesmo? Ah, mas é claro, fui eu – foi a gota d’água.

– In nomine Domini, amen! (Em nome do Senhor, amém!) Agora, Scout! – gritou Andy.

– VAI PRO INFERNO, VAGABUNDA! – sem pensar duas vezes, Scout largou a adaga de marfim, sacou o punhal de prata e avançou em Mary, desconsiderando completamente o fato de que ele era inútil contra ela. Naquele momento, Scout era uma máquina movida pelo ódio, incapaz de pensar racionalmente.

– NÃO, SCOUT! – Andy tentou inutilmente impedi-la, porém ela já havia enterrado o punhal no peito de Mary.

Instantes apavorantemente silenciosos estabeleceram-se até Mary se recompor e sorrir com superioridade e crueldade.

– Obrigada, Scout – ela agradeceu, deixando uma Scout confusa à sua frente.

Mary olhou para baixo e Scout direcionou o olhar para o mesmo lugar, só então percebendo que o impacto havia empurrado Mary para fora do pentagrama e do triângulo da pirâmide, libertando-a.

No segundo seguinte, Scout se viu no ar sendo lançada em direção a uma árvore em alta velocidade, como se tivesse sido atirada contra esta por algum tipo de força invisível. O impacto foi forte o suficiente para causar-lhe uma forte náusea e tontura, além da intensa dor na caixa toráxica que indicava que provavelmente ela devia ter quebrado alguma costela.

Com esforço, Scout levantou a cabeça até onde pôde e viu Mary retirando o punhal de si e caminhando em direção a Andy, que por sua vez estava completamente desarmado.

Ela levantou-se rapidamente e correu em direção à Mary para tentar impedi-la, mesmo sem ter um plano em mente e sem ter idéia de onde conseguira reunir forças para tal ato, mas antes que pudesse alcança-la foi lançada novamente para longe, sentindo uma forte pontada na área supostamente fraturada ao aterrissar bruscamente no chão. Não adiantava, ela era totalmente impotente, e suas condições não ajudavam em nada.

– Espera a sua vez – disse Mary.

Mary sentiu uma presença atrás de si e tornou a se virar rapidamente, deparando-se com Andy no meio de uma tentativa frustrada de tomar o punhal de sua mão. Ela o golpeou no pulso e arremessou-o longe da mesma forma que fez com Scout.

Numa fração de segundo Mary atacou-o, mirando certeiro em sua garganta, porém Andy conseguiu reagir rápido o suficiente para deter o golpe, segurando as mãos de Mary e impedindo-a de concluir o movimento. O corte fundo feito há pouco em seu pulso queimava e doía devido à prata, debilitando parte de sua força.

– Você ficou mais forte desde a última vez – disse ele, esforçando-se para manter o punhal longe de seu pescoço.

– Você não sabe o quanto, Campbell – respondeu Mary, colocando mais força e aproximando cada vez mais o punhal da garganta de Andy.

Scout’s POV

Com muita dificuldade, ergui a cabeça e, apesar de minha visão estar turva, pude ver Mary ao longe à beira de atravessar a garganta de Andy com o punhal.

O que eu havia feito? Aquilo era culpa minha! Se eu tivesse dado ouvidos ao Andy e ignorado tudo, não estaríamos aqui agora! Será que eu não conseguia fazer nada direito?! Eu tinha que estragar tudo sempre?!

Mas eu ainda tinha a chance de fazer algo útil.

Eu perdi tudo. Minha família, meus amigos, minha casa, minha sanidade, minha dignidade, não me restara nada. Exceto por Andy.

Ele esteve do meu lado durante todo esse tempo, me ajudando e encorajando, mesmo que do jeito dele. Talvez o motivo de eu ter resistido até aqui, aguentado tudo de cabeça erguida e lutado contra tudo, seja Andy. Quando eu me feri ele estava lá. Quando eu estive em perigo ele estava lá. Sem ele eu não teria chegado até aqui. Mais que isso, sem ele eu não teria descoberto como é amar alguém. Agora era minha vez de fazer algo por ele, era chegada a hora de eu retribuir o favor.

Eu precisava salvá-lo, eu devia isso a ele. Era a minha vez de bancar o anjo da guarda.

Juntei todas as forças que ainda me restavam e me coloquei de pé, porém não consegui manter o mínimo de estabilidade e minhas pernas cederam novamente, parecendo não aguentar o peso do meu corpo.

– Por favor... Por favor... – eu dizia com a voz embargada de choro. – Eu não consegui salvar ninguém... Se existe um Deus me ouvindo agora, só não deixe que nada de mal aconteça, eu imploro... Por favor... – tentei levantar novamente, caindo logo em seguida. – Droga, vocês são minhas pernas, me obedeçam!

Olhei para Andy e vi que ele tinha cada vez mais dificuldades em manter o punhal afastado de sua garganta. Na mesma direção, um pouco mais abaixo, avistei a adaga de marfim que eu havia soltado perto do altar. Eu sabia exatamente o que fazer.

Andy’s POV

– Resistir é inútil, Andrew – disse a cachorra. – Eu sou mais forte, você está imobilizado e machucado, desista.

– Não me diga o que fazer – respondi, ainda fazendo força para manter o punhal afastado.

Por mais que eu quisesse negar, ela estava certa. Eu não resistiria por muito tempo, o punhal estava cada vez mais próximo de meu pescoço, dali a pouco começaria a sentir a ponta afiada roçando minha pele.

Àquela altura, eu estava convencido de que já havia perdido. Mas se aquele era o fim, pelo menos eu perderia com dignidade, eu não desistiria até minhas últimas forças me abandonarem. Eu daria qualquer coisa pra poder congelar o tempo e ver Scout uma última vez. Olhar nos olhos dela, sentir sua pele alva e macia, com certeza não há preço que eu não pagaria pra poder correr os dedos por aqueles cabelos ruivos antes de dar adeus.

Durante o tempo que passamos juntos eu mudei muito. Ela me ensinou coisas boas, muito boas, e a melhor delas foi o amor.

Senti a ponta do punhal encostar no meu pescoço.

– Acabou, Andrew. Eu venci – disse Mary.

Fechei os olhos com força, esperando pelo pior.

E então... Nada.

Abri os olhos e deparei-me com Mary saindo de cima de mim às pressas.

Ela deixou o punhal cair e levou as duas mãos até o pescoço em sinal de sufoco. O que estava acontecendo?

Arrastei-me para trás com os braços, afastando-me dela, e logo em seguida olhei em direção ao altar e vi Scout com o braço ensanguentado estendido em cima do pentagrama, deixando que o sangue que escorria do corte recém aberto em seu braço caísse sobre o símbolo da espiritualidade, cobrindo-o, enquanto segurava a adaga na outra mão.

Olhei para Mary e a vi ser carbonizada por chamas negras, desaparecendo sem deixar nem cinzas para trás. Tudo ficou quieto por um momento.

Ambos nos levantamos e fomos um ao encontro do outro.

– Você tá bem? – perguntou ela.

– Graças a um certo anjo ruivo, sim – respondi, sorrindo.

Ela me retribuiu o sorriso e no segundo seguinte seu corpo pareceu perder a sustentação e ela tombou em cima de mim.

– Ei, Scout! Tudo bem?! – perguntei preocupado, segurando-a.

– Eu só estou exausta – respondeu ela, deitando a cabeça em meu peitoral e fechando os olhos. – Acabou... Finalmente acabou... – ela sussurrava, enquanto pegava no sono.

– É, ruiva – sorri e a abracei, afagando sua cabeça. – Acabou. Nós vencemos.

Notas finais
Pelo amor de Deus, não esqueçam de deixar um review nesse cap, vocês não sabem como eu tô nervosa pra saber se vocês curtiram ou não esse ritual >