Verdade Ou Pesadelo
20 Orfanato East Village
Notas iniciais
Scout terminou de guardar suas coisas. Arrumou tudo em uma mala grande de viagem, uma bolsa lateral e uma mochila de costas.
Com um pouco de dificuldade – principalmente para descer a escada – Scout levou a pesada bagagem até a varanda da frente, abaixou o puxador da mala de viagem e se apoiou nesta para recuperar o folego.
– Ei! – Scout chamou a atenção do homem. – Poderia me ajudar com as malas?
O homem foi até Scout, pegou a mala de viagem num dos braços e a mochila de costas no outro e carregou-os até a viatura como quem carrega dois levíssimos travesseiros.
Scout seguiu-o carregando a bolsa lateral. Ele colocou a mala de viagem no banco de trás da viatura e a mochila de costas e a bolsa lateral no porta malas.
– Entre no carro. Vou leva-la até o orfanato – disse o homem fechando a porta malas e indo em direção à porta do banco do motorista.
Scout fez o que o homem disse e eles partiram em direção ao orfanato.
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Ela não estava prestando muita atenção no caminho, quando se deu conta eles já estavam numa estrada rodeada por algumas árvores e mato seco.
Ao final da estrada, o homem fez uma curva à esquerda e estacionou o carro.
– Chegamos – anunciou ele puxando o breque.
Scout olhou pela janela e sentiu um frio na espinha ao reconhecer o lugar. Os muros, o grande portão de entrada, o prédio, tudo, era idêntico ao seu sonho, não fosse pelas crianças que corriam pelo amplo gramado e brincavam no playground.
Eles desceram do carro e caminharam até o portão, de onde pendia a placa com os dizeres Orfanato East Village. Ao lado do portão, do lado de dentro, havia um tipo de cabine com uma placa onde se lia PORTEIRO.
No muro, do lado de fora, havia uma campainha embutida num pequeno alto falante. O homem tocou-a e logo em seguida eles puderam ouvir a voz do porteiro saindo do alto falante.
– Bem-vindos ao Orfanato East Village. Vieram para fazer uma adoção?
– Vim acompanhar a senhorita até seu novo lar – respondeu o homem perto do alto falante.
– Aguardem um momento, por favor – disse o porteiro. Scout olhou para a cabine e pôde ver através do vidro um homem que devia ter entre 45 e 50 anos, cabelos grisalhos e magro telefonando para alguém. Ele colocou o fone de volta no gancho e em seguida apertou algum botão e falou perto de um microfone: – A irmã Tereza está a caminho.
Enquanto Scout esperava em frente ao portão, o homem foi pegar a bagagem no carro. O tempo que ele levou para ir e voltar foi o tempo que a freira que caminhava em direção ao portão levou para chegar até Scout.
– Abra o portão, Chaves – disse a freira para o porteiro. O portão se destrancou e foi alguns milímetros para trás, e logo em seguida foi aberto pela irmã Tereza. – Olá, querida. Você deve ser a Scout, certo? – disse ela com um sorriso bondoso. Ela era jovem e tinha as feições simpáticas de uma professora de jardim de infância.
– Sim – assentiu Scout meio desconcertada.
– Seja bem-vinda, meu bem – disse a irmã colocando as mãos nos ombros de Scout em sinal para que ela entrasse.
– Aqui estão as malas – disse o homem depositando as três malas de Scout no chão, perto do portão. – Agora devo voltar. Adeus, senhorita. – despediu-se, voltou para a viatura e partiu.
– Não se acanhe, vamos – dizia a irmã guiando Scout até o terreno do orfanato. – Chaves, trate de levar as malas até o quarto de Scout, sim? – pediu ela ao porteiro, que se prontificou em sair de sua cabine para ir pegar a bagagem de Scout.
Conforme Scout era guiada pelo caminho de pedra que levava até o prédio do orfanato, ela via as outras irmãs, umas jovens e outras mais maduras, colocando as crianças para dentro.
– Agora que vai passar a morar aqui, precisa seguir algumas regras – começou Tereza. – Todos devem estar acordados pontualmente às 6:00am e se dirigirem à capela para rezarmos a missa. O café da manhã é servido às 7:00am, ao final do culto. Das 8:00am à 12:00pm é o horário de aula. O almoço é servido às 12:30pm. O lanche da tarde é servido às 4:00pm. Às 6:00pm, todos devem se reunir novamente na capela para rezarmos a ultima missa do dia. Depois, todos se dirigem ao refeitório para o jantar. O toque de recolher é às 8:30pm. Depois do toque de recolher, é estritamente proibido perambular pelos corredores, todos devem permanecer em seus quartos. A maioria por aqui são crianças, mas não se preocupe, há pessoas da sua idade também, porém eles raramente saem do prédio quando está perto do toque de recolher. Adolescentes de 13 a 18 anos ficam alojados na ala leste do prédio; crianças de 13 anos pra baixo ficam na ala oeste. Assim como é proibido para crianças adentrarem a ala leste, é proibido para os adolescentes adentrarem a ala oeste. Essas alas são divididas entre os dormitórios femininos e masculinos. É proibida a entrada de meninos nos dormitórios femininos e vice-versa.
Scout não estava prestando muita atenção nas regras que a irmã Tereza citava, no momento ela estava ocupada pensando num jeito de conseguir algo da Mary para o ritual. Onde ela poderia arranjar alguma coisa dela? Segundo Andy, uma foto bastava. Devia ter um registro de todos que já passaram por aquele orfanato, um arquivo, livro ou qualquer coisa do tipo, mas onde ele estaria? E como Scout ia conseguir procura-lo sem ser percebida? Ainda mais com todos esses horários, como ela arranjaria tempo para procura-lo?
– Por aqui – disse a irmã Tereza entrando no enorme prédio seguida por Scout e algumas outras crianças que entravam e seguiam para a ala oeste.
Tereza guiou-a por um largo e extenso corredor no qual Scout já havia estado antes em seus sonhos. Ao final do corredor, havia uma escada média cujo ultimo degrau era mais largo do que os outros e dava para mais dois lances de escada que iam para lados opostos: uma dava na ala leste e outra na a ala oeste. A irmã subiu pela escada que ia para a ala leste levou Scout até a metade do corredor.
– Esse é o seu dormitório – disse Tereza parando em frente ao dormitório de número 3. Na porta, havia uma placa pendurada onde lia-se “Dormitório 3: Erika Johnson, Akira Matsui e Scout Carter”.
– São minhas colegas de quarto? – perguntou Scout ao ler a placa.
– Sim. Erika tem 16 anos e Akira tem 15. Acho que vocês vão se dar bem – disse a irmã, e Scout respondeu com um sorriso forçado.
Não importava se ela ia ou não se dar bem com suas novas colegas de quarto, ela não estava ali pra fazer amizade e não pretendia ficar por muito tempo.
Tereza abriu a porta do quarto e deixou que Scout entrasse. Assim que ela adentrou o dormitório, duas meninas a encararam. Uma delas tinha traços asiáticos; olhos um pouco puxados e cabelo escuro e liso, que Scout deduziu ser Akira. A outra era americana, dotada de pele morena e cabelos cortados acima do ombro, repicados e castanho-escuros. Essa devia ser Erika. Ambas estavam sentadas no pé da cama que ficava no centro do quarto, no meio de outras duas, e pelo visto deviam estar conversando quando foram interrompidas pela irmã Tereza e por Scout.
– Meninas, essa é a Scout, sua nova colega de quarto – disse a irmã. – Ela acabou de chegar, sejam boazinhas – as duas meninas assentiram. – Ótimo. Bem, Scout, espero que passe bem sua primeira noite aqui. Boa noite, meninas – disse Tereza, saindo do quarto e fechando a porta.
Nenhuma das três disse nada, apenas se entreolharam por alguns segundos.
– Então... – Scout quebrou o silêncio. – Com qual cama eu fico?
– Pode ficar com a cama da ponta – disse Erika, apontando para a cama ao lado. – A cama do meio é minha e a da parede é a da Akira.
– Certo – disse Scout, sentando-se na cama que lhe fora designada.
– Quantos anos você tem? – perguntou Akira.
– 17 – respondeu Scout.
– Eu tenho 15, e a Erika 16 – disse Akira.
– Eu sei, a irmã Tereza me disse – disse Scout forçando um risinho sem graça.
– Por que alguém vem pra um orfanato com 17 anos? – perguntou Erika. – Quer dizer, a maioria de nós está aqui desde que éramos pequenos.
– Erika! – Akira repreendeu-a. – Que pergunta indelicada!
– Eu não quero falar sobre isso – Scout baixou o olhar.
– Aconteceu alguma coisa com seus pais e você veio parar aqui por causa disso? – continuou Erika.
– Erika, ela já disse que não quer falar disso, não força a barra – disse Akira, dando uma leve cotovelada em Erika.
– Calma, eu só queria saber – respondeu Erika, massageando o local no qual levara a cotovelada de Akira.
– Não, tudo bem – disse Scout. – É só que me dói muito lembrar do porquê vim parar aqui, por isso prefiro não falar disso.
– Você é quem sabe – disse Erika.
– Vem cá com a gente – convidou Akira, dando um tapinha no colchão em sinal para que Scout viesse se sentar e indo um pouco para o lado.
– Na verdade eu estava indo dormir, estou cansada – disse Scout.
– Vai dormir com essas roupas? – perguntou Erika. – Você não tem um pijama?
– Tenho, mas está na minha mala. O porteiro, Chaves né? Ficou de trazê-la pra cá. Estou só esperando ele chegar para me trocar e ir dormir.
– Fica aqui com a gente enquanto ele não chega então – disse Erika.
Scout não queria criar laços com ninguém ali. Já que no final das contas ela iria ter que rompê-los era melhor que eles nem fossem criados.
– Acho melhor eu ir tomar banho, estou um pouco soada – disse Scout.
– A essas horas? – disse Akira, olhando no despertador em cima de um criado mudo que ficava entre sua cama e a cama de Erika, e que dizia que já eram 8:10pm. – É melhor ser rápida, o toque de recolher é daqui a vinte minutos.
– Tudo bem, não costumo tomar banhos longos – disse Scout levantando-se e indo em direção à porta. – Pra que lado fica o banheiro?
– Vá reto e vire à direita no final do corredor. Ultima porta à esquerda – indicou Erika.
– Obrigada – agradeceu Scout, saindo do dormitório e fechando a porta.
O corredor estava escuro por já ser de noite, porém haviam alguns abajures no topo das paredes ao longo do corredor que o deixavam um pouco iluminado, sem contar a enorme janela que havia no final do corredor que deixava que a luz da lua entrasse.
Scout foi até o final do corredor, como Erika disse, virou à direita e andou até o final de um outro corredor um pouco menor, deparando-se com uma grande porta dupla de madeira escura. Empurrou um dos lados da porta – que era mais pesada do que aparentava –, entrou e se viu num amplo banheiro com chão e paredes de azulejos brancos reluzentes, um teto de vidro esculpido lembrando o formato de uma redoma enfeitada, algumas cabines sanitárias enfileiradas, prateleiras repletas de toalhas brancas impecavelmente limpas e dobradas empilhadas uma em cima da outra, dois grandes espelhos e alguns boxes.
Scout tirou suas roupas, colocou-as dobradas no chão perto da porta, pegou uma toalha de uma das prateleiras e entrou num dos boxes.
Ela girou o registro e deixou que um pouco de água escorresse antes de entrar embaixo do chuveiro, testando a temperatura com a mão. Quando a temperatura da água ficou boa ela começou a se lavar.
Quando terminou o banho, desligou o chuveiro, pegou a toalha pendurada no box e começou a se secar. De repente as luzes piscam duas vezes e depois se apagam, porém o banheiro não ficara totalmente escuro devido ao teto de vidro.
Scout ouviu um ruído.
– Oi? – ela chamou, abrindo uma fresta da porta do box e dando uma olhada no banheiro, porém não viu ninguém. – Tem alguém aí? – ela continuou chamando, porém ninguém respondia. Talvez já tivesse dado o toque de recolher e as luzes tivessem se apagado automaticamente.
Convencida disso, Scout se enrolou na toalha e saiu do box. Pegou outra toalha da prateleira e começou a esfregá-la no cabelo para tirar o excesso da água enquanto andava de um lado para o outro em meio ao vapor de água quente que começava a se esvair.
De repente, Scout ouve um barulho estranho, como se alguém estivesse passando o dedo num vidro embaçado. Ela olha para trás e se depara com letras surgindo no espelho embaçado.
Quando as letras param de aparecer e Scout pode ler a mensagem e o medo tomou conta de si.
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