Verdade Ou Pesadelo
28 Knives and Pens
Notas iniciais
A falta de coordenação de Andy rendeu-lhe longas horas aparando e varrendo o vasto gramado do orfanato, sem contar que ainda teria que lavar as roupas de cama de todos da ala leste. Ótima maneira de começar o dia, não?
Ao terminar de juntar as folhas que espalhara, Andy foi direto para a grande e espaçosa lavanderia, que ficava no subsolo do orfanato. Nela haviam várias máquinas de lavar roupa, das quais apenas uma estava sendo usada naquele momento. Lá ele encontrou pilhas e mais pilhas de lençóis e fronhas esperando por ele.
Só havia um pequeno problema em ter que lavar todas aquelas roupas de cama: Andy não tinha a menor ideia de como fazer isso. Bom, não podia ser tão difícil.
Andy abriu as máquinas que não estavam em uso e colocou os lençóis e fronhas dentro delas, espremendo-os um pouco para que coubessem todos.
Foi até o armário, abriu-o e encontrou um estoque de amaciante, sabão em pó e tira-manchas de diversos tipos.
– Qual deles? – perguntou para si mesmo. Pegou algumas caixas de sabão em pó e outras de amaciante. Examinou-as e disse por fim: – É, isso deve dar – fechou o armário e foi até a primeira máquina. – Quanto será que eu devo colocar? – ele virou a caixa de sabão em pó do outro lado à procura de alguma orientação.
“Usar uma medida do produto por lavagem”.
Andy abriu a caixa e encontrou um tipo de medidor por cima do sabão em pó.
– Que porra é essa? – ele pegou o objeto e analisou-o de todos os ângulos. Constatou que era inútil e jogou-o para trás, deixando-o de lado enquanto despejava quase a caixa inteira dentro da máquina. – Acho que já está bom – disse, fechando a máquina e ligando-a, observando pela tampa de vidro os lençóis se deixarem levar pelo tubo giratório interno da máquina.
Repetiu o processo nas outras máquinas, e assim se foram nove caixas de sabão em pó e de amaciante.
– Meu trabalho aqui está acabado – concluiu Andy, orgulhoso, colocando a última caixa vazia de sabão em pó em cima de uma das máquinas e deixando a lavanderia. – E agora, a melhor parte: encontrar minha anjinha ruiva no banheiro feminino – disse, com um sorriso maroto no rosto e subindo as escadas, indo em direção à ala leste.
Scout’s POV
Eu daria tudo pra ver como Andy está se saindo na lavanderia. Porém, graças ao diabo a que me refiro, estou parecendo uma árvore ambulante e cheirando à terra, portanto o melhor que tenho a fazer é tomar um banho rápido e aproveitar que estou aqui para limpar os boxes.
Passei no dormitório para pegar uma troca de roupas que consistia numa calça jeans mesclada e uma blusa de manga ¾ cinza e lisa. Coloquei-a devidamente dobrada em cima da pia, despi-me de minhas roupas, peguei uma toalha e entrei num dos boxes, pendurando-a na porta de vidro.
Mal terminei de lavar os cabelos e ouvi o barulho de algo se quebrando ali perto. Andy. Só podia ser ele tentando me espiar no banho e acabara esbarrando em alguma coisa e quebrando-a, desastrado do jeito que é! O que mais falta ele quebrar? Desse jeito esse garoto vai me custar um dia todo trabalhando!
Desliguei o chuveiro e rapidamente me enrolei na toalha.
– Andy! – chamei, abrindo a porta e procurando Andy com os olhos pelo imenso banheiro aparentemente vazio. – Se estiver aí, é melhor correr! – avisei, e tive como resposta o mesmo barulho de antes. – Droga, o que você quebrou dessa vez?! – perguntei impaciente, saindo do boxe e indo na direção dos espelhos da qual viera o barulho, espelhos estes que encontrei rachados e quebrados. Quando vi os cacos no chão, abaixei-me um pouco para olha-los um pouco mais de perto, ao mesmo tempo que minha expressão ia de impaciente à assustada.
– Não é o "Andy" – virei-me para encara-la. – Sou eu.
– Nós não acabamos de conversar, Mary? O que você quer agora?
– Me dei conta de que não te expliquei como se mata um... – ela parecia estar pensando na palavra certa para continuar sua fala. – “Fantasma”, chamemos assim.
– Não precisa se dar ao trabalho, eu já disse que não estou interessada na sua proposta.
– E eu já disse que você não está raciocinando direito – ouch, Scout. – Use isso para matar Campbell – ela me ofereceu um punhal prateado reluzente que eu estava um tanto apreensiva quanto a pegar. – Não precisa ter medo, pegue-o – obedeci e constatei que o punhal era mais pesado do que parecia. – Um pouco pesado, não? É porque é feito de prata pura. Um espírito não resiste a um material tão puro quanto a prata. Além de queimar quando entra em contato, tem a mesma eficiência que um facão contra um humano. Talvez, no caso de Andy, seja até mais forte. Quanto mais perturbado e impuro é o espírito, mais vulnerável ele fica contra objetos e produtos puros, e não é nenhuma novidade que ele não é o espírito mais santo do mundo, o que o torna extremamente frágil à prata – enquanto Mary falava, eu fitava o punhal.
– Entendo – disse, ao fim da explicação. – Obrigado, Mary – falei, e no segundo seguinte cravei o punhal no lado esquerdo de seu peito, tentando afunda-lo cada vez mais fundo enquanto ela parecia sufocar. – Vai pro inferno, vadia! – disse com gosto, soltando o punhal e me afastando um pouco para observá-la dar seu ultimo suspiro.
Porém ele não veio.
Quando ela parecia à beira da morte, sua feição mudou de desesperada para neutra, e com naturalidade ela tirou o punhal de si e soltou-o no ar, deixando-o cair.
– Boa tentativa, Scout – zombou ela, e antes que eu pudesse pensar em correr, suas mãos gélidas agarraram meu pescoço e levantaram-me do chão. Como ela podia ser tão forte?! – Você e seus joguinhos estão começando a me irritar.
– Se me matar- Não conseguirá se vingar de Andy – minha voz saiu falhada, quase que numa súplica, porém isso só serviu para fazer com que ela me estrangulasse com mais força, fazendo com que a passagem do ar se tornasse impossível.
– Matar você aqui e agora como consolo não me parece uma má ideia, Andrew não é o único de quem quero me vingar – eu segurava seu braço com força, tentando escapar, porém aos poucos comecei a sentir minhas forças deixando meu corpo, eu já não conseguia mais lutar.
– Ei! – um terceiro alguém entrou no banheiro.
– Você de novo?! – Mary soltou-me e eu caí ao chão, tossindo e com falta de ar, ainda recobrando os sentidos, porém quando os recuperei ela já não estava mais lá.
– An... Andy? – eu ainda ofegava no chão do banheiro.
– Vai me dizer que teria escapado mesmo se eu não tivesse aparecido? – disse ele convencido.
– Quando você vai parar de se gabar e me ajudar a levantar? – perguntei, estendendo uma das mãos.
– Tá, vem cá – ele segurou minha mão e me puxou, fazendo-me levantar. No momento em que me coloquei de pé vi a decepção estampada em seu rosto.
– O que aconteceu? – perguntei... Preocupada?
– Gostei mais da outra vez, quando a sua toalha caiu assim que você levantou – ele fez beicinho.
– Por que eu não suspeitei disso? – revirei os olhos, sarcasticamente.
– Ué? Só isso?
– Só isso o que?
– Eu estava esperando uma reação mais agressiva, uma bofetada quem sabe, ou um “eu te odeio, seu pervertido de merda”, e você me vem com sarcasmo?
– Se você faz questão da bofetada-
– Nãonão, só o sarcasmo está bom – Andy deu um passo para trás e se encolheu, protegendo-se com os braços.
– Preciso me vestir, quer me dar licença? – pedi.
– Só depois que você me contar o que realmente está acontecendo – disse ele.
– Como assim? – perguntei sem entender.
– Você acha mesmo que eu engoli essa história de você ter ido sozinha até o porão aquela hora só pra bancar a exploradora? Logo o mesmo porão no qual Dolores prendeu Mary naquela ocasião? – falando assim parecia mesmo a desculpa mais esfarrapada de todas.
– É a verdade – menti.
– Eu não nasci ontem, ruiva – Andy estava falando sério. – Você encontrou a Mary lá, não é? E depois ela aproveitou que eu não estava por perto e te seguiu até aqui.
– O que? Da onde você tirou isso? – tentei me fazer de desentendida. – Ela apareceu aqui do nada e tentou me matar, você viu!
– Hm – ele assentiu e foi andando em direção ao local onde Mary estava, agachou-se e pegou o punhal que Mary deixara cair. – Então o que é isso?
– Não sei, deve ser da Mary, talvez ela tenha deixado cair.
– Scout, eu não sou tão burro – não restavam dúvidas: Andy estava falando sério. – Isso é um punhal de prata, que por coincidência é a única coisa que pode ferir ou “matar” um espírito. Por que ela deixaria algo tão precioso para trás? Ou será que ela o deixou de propósito para você? Quem sabe, para que você o usasse em mim? – ponto pra você, Campbell.
Fiquei sem reação. Tudo fazia tanto sentido que não havia como contestar.
– Vai me dizer o que está acontecendo? – perguntou ele.
– Quando nos separamos para cortar o gramado, eu ouvi a voz da Mary vindo do porão – comecei. – Fui até lá e ela me ofereceu um acordo: ela libertaria meus pais, Amanda, Lorie e Taylor e sumiria para sempre. A única coisa que eu tinha que fazer em troca era... – eu não conseguia concluir a frase.
– Me matar – completou Andy.
– É...
– E por que você não me falou? – perguntou ele.
– Eu não queria que pensasse que eu estava considerando a alternativa de te matar – respondi, desviando o olhar. – Falando nisso, eu tentei usar o punhal na Mary e não aconteceu nada. Por que ele não tem efeito nela?
– Pelo o que sei, ele deveria funcionar em qualquer espírito – disse Andy examinando o punhal. – A menos que...
– A menos que...?
– Tem um jeito de evitar o efeito que um punhal de prata causaria num espírito – começou ele. – Ela deve ter colocado parte da sua energia espiritual no punhal. Não quer dizer que ele não funcione nela, porém quando alguém a ataca com ele, a energia espiritual contida nele volta para ela e repara os danos causados, o que faz parecer que não houve dano nenhum.
– E você não pode fazer o mesmo?
– Não. É o mesmo esquema da possessão: do mesmo jeito que só há espaço para uma única alma num corpo, só há espaço para um tipo de energia espiritual num único objeto.
– E você não consegue drenar a energia espiritual que a Mary colocou no punhal? Assim você poderia colocar a sua e ela se tornaria vulnerável a ele.
– Uma vez que o objeto foi ocupado com a energia espiritual de alguém, não há como drena-la ou substitui-la, o único que pode fazer isso é o dono da energia contida no objeto.
Levei um tempo para processar aquela enxurrada de informações. Eu tinha a arma perfeita para matar Mary, cheguei tão perto... E no final das contas, como sempre, foi inútil.
– O que você pretende fazer com o punhal? – perguntou Andy.
– Guarda-lo – respondi, tomando o punhal de suas mãos. Andy olhou-me desconfiado. – Calma, eu não vou guardar pra usar em você.
– Que susto – disse ele aliviado. – Pra que você quer isso então? Me assusta saber que a única coisa capaz de acabar comigo está tão próxima de mim, e nas mãos de alguém que recebeu uma proposta tentadora que envolve me matar.
– Vou usa-lo para outra coisa, mas só mais tarde – garanti.
– Pra que? – perguntou ele, curioso.
– Na hora você verá – disse, misteriosa. – Agora, dá licença pra eu me vestir. Por que você não vai dar uma olhada nas roupas de cama?
– Ok – concordou Andy, saindo do banheiro e fechando a porta.
Finalmente sozinha, desenrolei-me da toalha e sequei-me, logo em seguida jogando-a em qualquer lugar.
– Ér, ruiva? – ouvi a porta se abrir e vi Andy aparecer, e assim que me viu aquela mesma expressão pervertida de sempre dominou seu rosto. – Agora sim está igual a outra vez.
– PORRA, ANDY! – corei e corri até a toalha, pegando-a do chão e enrolando-me nela às pressas novamente enquanto ele sorria, visivelmente se divertindo com aquilo. – O que você quer?!
– A-Ah, é mesmo... Uhm... Será que você pode vir comigo um minuto? – toda a malicia de um segundo atrás se transformou em nervosismo e o sorriso pervertido se transformara num sorriso encabulado.
– Acho que você se esqueceu que temos uma lista inteira de tarefas para cumprirmos até o almoço e eu ainda nem comecei a limpar os boxes, porque um certo alguém não deixa nem ao menos eu me vestir.
– É só um minutinho – insistiu ele.
– Tá, vai – me rendi. – Deixa eu colocar uma roupa, pelo menos?
– Ok – disse ele, fechando a porta.
Me vesti o mais rápido que pude para evitar que o ocorrido se repetisse, saí do banheiro e encontrei Andy andando de um lado para o outro no corredor.
– Andy? – chamei, trazendo-o de volta à realidade.
– Ah, você já se trocou, ótimo, vem comigo – pediu ele, pegando minha mão e puxando-me ao longo do corredor. Antes que eu pudesse protestar, ele virou no corredor principal do primeiro andar da ala leste e seguiu até a escada que dava para a lavanderia, e enquanto descíamos os últimos degraus Andy parou de súbito com a mão na maçaneta da porta da lavanderia, hesitante em abri-la, e virou-se para mim.
– Espera. Só pra confirmar, não tem mesmo chance de você me mandar pro beleléu com aquele punhal, né?
– Já disse que não – garanti. – Por que está perguntando de novo?
– Porque é bem provável que você queira me matar depois de ver isso – assim que concluiu sua fala, Andy girou a maçaneta e abriu a porta.
Eu não conseguia falar nada. A única reação que consegui ter foi arregalar os olhos e abrir a boca na tentativa de dizer algo, mas as palavras não saíam.
– O QUE ACONTECEU AQUI?! – foram as únicas palavras que consegui pronunciar.
Fale com o autor