Verdade Ou Pesadelo
26 Deal
Notas iniciais
– Eu sei onde está a faixa da Mary.
– O que estamos esperando então? – disse Andy indo em direção à porta e abrindo-a. – Vamos pegá-la e dar o fora daqui!
– Temos que seguir os nossos horários, e já estamos atrasados, já deveríamos estar na capela há quase meia agora – disse Scout. – Se alguém nos vir teremos problemas. É melhor esperarmos até de noite e irmos escondido até o quarto da Dolores outra vez. Pegamos a faixa e saímos daqui.
– Sério que eu só vou ter um dia pra curtir meu belo e desenvolvido corpo feminino? – Andy parecia decepcionado.
– Vou ignorar isso, ok? Ok. Vamos logo pra capela, antes que você comece a assediar a Akira na minha frente – Scout falou, passando por Andy e saindo do dormitório.
– Tecnicamente não pode ser considerado assédio, já que o corpo é temporariamente meu – defendeu-se ele, saindo do dormitório e fechando a porta, acompanhando Scout.
– Vou ignorar isso também – disse ela, encerrando o diálogo.
Como todos estavam na capela, os corredores estavam desertos, exceto por algumas irmãs que cumpriam suas tarefas, das quais Andy e Scout tentavam esconder-se sempre que encontravam-se com uma.
Saíram do prédio e se dirigiram até a capela, que ficava perto do playground. Abriram devagar a porta e entraram sorrateiramente tentando não serem notados, e em seguida fechando-a devagar.
Todas as crianças e adolescentes permaneciam sentados nas duas fileiras de bancos dispostos pela capela, enquanto uma das irmãs lia uma passagem da bíblia lá na frente. Todos estavam tão concentrados que pareciam não ter notado Scout e Andy.
– Vê se não chama a anteção, não faz nenhum barulho. Tem um banco vazio ali – Scout sussurrou para Andy e apontou para um dos últimos bancos da fileira do lado esquerdo. – Vamos pra lá.
Andy assentiu e Scout foi na frente, ambos andando na ponta dos pés.
– ÊPA! – Andy falou alto, e Scout virou-se a tempo de vê-lo esbarrando no vaso de copos-de-leite ao lado da porta, derrubando-o e reduzindo-o a cacos, atraindo a atenção de todos. – Uhm... – disse ele coçando a cabeça em sinal de nervosismo, e em seguida soltando os braços e dando uma risada encabulada.
Scout escondeu o rosto nas mãos por uns segundos e sussurrou para Andy:
– Achei que tinha dito para não fazer barulho, sua besta!
– Scout e Akira, o que significa isso? – perguntou a freira que até há alguns segundos estava lendo algo na bíblia.
– Acho que estou precisando de óculos, minha vista anda péssima – disse Andy, rindo amarelo.
– Estão meia hora atrasadas – informou ela.
– Ah, pois é, é que... – Andy tentou justificar.
– Tivemos alguns probleminhas com... – Scout tentou completar, porém não conseguiu pensar em nenhuma desculpa. – Bem, na verdade é uma história engraçada, sabe? – ela deu uma risada encabulada e coçou a cabeça nervosa.
– Ótimo, por que não a compartilha conosco? Gostaria muito de ouvi-la – disse a freira, fechando a bíblia mantendo a página marcada com o indicador e cruzando os braços.
– Nós... – ela olhou para Andy como se implorasse para que ele dissesse algo.
– Nos perdemos – completou ele, e Scout repetiu o gesto com a mão.
– Se perderam? A senhorita vive aqui há 15 anos e errou o caminho? – suspeitou a freira.
– É, minha memória anda péssima também, sabe? – disse Andy.
– Espero que ela esteja boa o suficiente para que se lembre da punição para quem não segue os horários – disse a freira.
– Ah, sim, a punição para quem não segue os horários, claro, é óbvio que eu sei qual é – Andy tentou disfarçar.
– Então tratem de se dirigir ao depósito depois da missa. Agora sentem-se – ordenou a freira, e Andy e Scout foram sentar-se no banco vazio que haviam visto.
– Que punição é essa? – ele perguntou à Scout num sussurro enquanto dava a volta no monte de terra e cacos que restara do vaso.
– Eu lá vou saber? – respondeu ela, indo se sentar. – Não tem como você vasculhar a memória da Akira? – perguntou.
– Bem que eu gostaria, mas não – respondeu ele, sentando-se ao seu lado.
– Grande chegada a de vocês duas – Erika chegou de surpresa e sentou-se ao lado de Akira. – Por que demoraram tanto?
– Batemos um papo e esquecemos da hora – disse Andy.
– É bem a sua cara fazer isso, Akira – Erika deu um meio sorriso.
– É, né? – Andy forçou uma risada. – À propósito, só pra reforçar, qual é a punição pra quem não segue os horários mesmo, em?
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– Aparar o gramado? Really? – disse Andy, encarando o cortador de grama à sua frente, na entrada do depósito.
– Obrigado por isso, Mr. Desastre – ironizou Scout, pegando um dos cortadores e saindo do depósito.
– Qual é, até quando você vai ficar brava comigo? – perguntou Andy, pegando o outro cortador e indo atrás de Scout. – Já disse que foi sem querer.
– Tudo bem, tudo bem. Você fica aqui e apara a área da capela e do playground, eu vou aparar perto do porão – decretou ela, deixando Andy sozinho e indo para perto do porão.
De longe ela observava Andy tendo dificuldades para ligar o cortador. Ele é realmente desajeitado, pensou ela. Quando ele finalmente conseguiu ligar o cortador, este saiu desgovernado gramado afora, e Andy foi correndo atrás da máquina descontrolada. Ao ver a cena, Scout não pôde conter uma risada.
Com o tempo, ela se acostumara a conviver com Andy. Até que ele não era tão insuportável, nojento e repugnante quanto ela pensava. Pode até ter sido um dia, porém ela sentia que aquele Andy não era igual o de antigamente. Talvez só um pouco – muito – pervertido, porém nada que ela não conseguisse escapar, pelo menos por enquanto.
Naquela hora, quando eles estavam no banheiro feminino, Scout se sentira bem nos braços de Andy. Era uma sensação boa, as mãos dele nela, a intimidade dela na dele... Afinal, o que ela estava pensando quando o empurrou? Ah, claro, o irritante Lado Racional e São de Scout decidira entrar em ação justo naquela hora.
Poderia ela estar sentindo algo por Andy? Estaria Scout se sentindo atraída por ele? Ou seria mais que uma simples atração? Mesmo que ela odiasse admitir, isso podia ser verdade. Mas mesmo que fosse, seria um sentimento estúpido, já que Andy só estava interessado “se divertir” com ela. Não, ela não ia alimentar nenhum sentimento por ele. Pelo menos era o que ela tentaria fazer.
– Scout – uma voz interrompeu seus devaneios. Sim, aquela voz. A voz de Mary.
– Onde você está? – perguntou Scout, olhando para os lados em busca da garota.
– Por aqui – a voz parecia vir de dentro do porão. – Venha, não vou te machucar.
Andy estava, digamos assim, ocupado no momento, ele não notaria se Scout sumisse por alguns instantes. Ela então desligou o cortador, aproximou-se da porta do porão e ficou hesitante quanto a abrir a tranca.
– Não tenha medo – disse Mary.
Scout abriu a porta e deparou-se com uma escuridão densa que não lhe permitia ver nada no porão além do inicio da escada de madeira que dava acesso a ele, pela qual ela desceu e acendeu seu bom e velho amigo, o isqueiro, para poder enxergar alguma coisa lá embaixo. O lugar era um pouco maior do que um quarto de casal, cheio de tábuas de madeira jogadas no chão, empilhadas ou apoiadas nas paredes, teias de aranha e alguns ratos que ela tentou ignorar.
– Mary? – Scout novamente olhou para os lados, mas não viu ninguém.
– Estou aqui – ela virou-se de costas e viu Mary a alguns passos de distância. – Oi, Scout.
– O que você quer? – Scout foi direta. – Por que me chamou aqui?
– Eu não vou te machucar, só quero conversar – disse Mary. – Tinha que ser num lugar onde o Andrew não visse.
– Aqui estou eu, pode falar – apressou Scout.
– Quero te fazer outra proposta.
– Foi mal, não vai rolar. Tenta outra hora – disse Scout, dando uma piscadela sarcástica.
– Está tão confiante a ponto de recusar minha oferta antes mesmo de ouvi-la? – Mary começou a andar em círculos em volta de Scout. – É uma pena, achei que você iria gostar.
– Não estou interessada em nenhuma de suas propostas – Scout bradou.
– É mesmo? Acho que isso significa mais tempo de sofrimento para seus pais e amigos. É triste, não?
– Pode ir parando por aí, eu sei o que está tentando fazer, e não vai funcionar comigo – garantiu Scout, com ar de superioridade.
– Tem certeza? – ela parou em frente à Scout novamente. – Pobre papai e mamãe... Neste exato momento estão passando por torturas pelo menos cem vezes piores do que as torturas às quais você me submeteu. O tempo todo ouço os gritos de dor e desespero deles em minha cabeça, ouço os choros rezando por vida, por luz, por salvação. Isso é música para meus ouvidos – ela falava com gosto.
Scout sentiu sua raiva dobrar, se é que era possível, fazendo-a segurar o isqueiro com mais força.
– Cala a boca – avisou ela, entredentes.
– Está interessada em ouvir minha proposta agora, Scout?
– Desembucha.
– É o seguinte: quer que eu liberte todos os que joguei no inferno? Seus pais e amigos? É só fazer uma coisa pra mim, é algo simples. Se o fizer, garanto que todos eles irão para um lugar bonito e pacífico, e eu desapareço da sua vida, você nunca mais verá um rastro sequer de mim.
– Isso é a última coisa que eu quero. Acha que vou deixar barato o que fez aos meus pais? À Amanda e Lorie? À Taylor? Não, não vou deixa-la fugir. Eu não quero que desapareça da minha vida, eu mesma quero ter o prazer de fazer você desaparecer de vez.
– É muito corajosa por tomar essa decisão – elogiou Mary. – Por outro lado, muito burra também. Scout, veja quantos já morreram, quantos sacrifícios já houveram nessa luta, mesmo pessoas que não têm nada a ver com essa história foram envolvidas, como Akira por exemplo. Tem certeza de que o preço a ser pago vale a pena por vingança? Quantos mais terão de morrer para que você tenha sua tão desejada vingança, Scout?
– Eu... – Mary tinha razão, mesmo que Scout detestasse admitir. Até agora, a única coisa que Scout conseguira com essa história de vingança foi causar mortes e mais mortes. – Diga-me o que você quer.
– É simples – disse ela, sorrindo. – Eu quero que mate Andrew Campbell.
– O que?!
– Só existe uma pessoa da qual eu desejo me vingar mais do que de você, e essa pessoa é Andrew. Não posso me aproximar dele, então não posso mata-lo.
– Você tem medo de se aproximar dele – corrigiu Scout.
– Não é da sua conta. Se mata-lo e entrega-lo a mim, eu liberto todos, sumo para nunca mais aparecer, e a batalha acaba. O que me diz? Andrew em troca da liberdade de seus pais e amigos.
– Eu... Não posso matar o Andy...
– Por que não? Que diferença ele faz? – perguntou Mary. – Não entendo por que se importa tanto com ele, Scout. Acha mesmo que ele se importa com você? Acha que toda essa proteção que ele te dá tem algum outro propósito a não ser cumprir o contrato de vocês e partir pra sacanagem? Inverta os papéis, se fosse ele no seu lugar, acha que ele pensaria duas vezes antes de mata-la para satisfazer um desejo próprio? – provocou ela. – Se mata-lo, seus pais vão para um lugar feliz, as mortes acabam, eu desapareço, você não tem mais que cumprir o contrato que fez com Andrew, eu tenho minha vingança... Todos saem ganhando.
– Eu não posso... – Scout baixou o olhar.
– Entendo – disse Mary. – Não é que você não possa mata-lo, você não consegue, não tem coragem de matar Andrew. Realmente devo concordar com ele, você é bondosa e gentil. Há muito mais gentileza e bondade dentro de você do que raiva e ódio.
– Ouviu quando ele me disse isso? – Scout semicerrou os olhos. – Tem me observado?
– É claro. Não posso me aproximar de você por causa dele, mas posso te observar de longe, monitorar cada passo seu. Sim, eu sei sobre o que quase aconteceu entre vocês no banheiro feminino da ala leste, naquela noite em que eu quase consegui te matar. Eu sei que você estava gostando, que você queria ter ido até o fim, e devo dizer que fiquei surpresa com a sua reação de empurra-lo. O que foi aquilo? Talvez, medo?
– Isso não é da sua conta – disse Scout, encerrando aquele assunto.
– Tem razão, não é. Acabei fugindo do ponto. Estávamos falando sobre você matar Andrew, entrega-lo a mim e em troca disso eu libertaria todos os que matei e joguei lá embaixo.
– Eu já disse que não estou interessada em suas propostas – reforçou Scout.
– E que tal isso: ou você me entrega Andrew Campbell morto, ou todos os que você ama passarão o resto da eternidade queimando no inferno. O que me diz?
– Você não pode fazer isso.
– Sim, eu posso.
– Não se eu te impedir primeiro.
– E como pretende fazer isso? Com um simples ritual? Acha que um ritual tosco vai me parar, Scout? Já é hora de deixar as brincadeiras de criança de lado e ver qual é a coisa certa a se fazer.
– Supostamente, a coisa certa a se fazer é eu matar Andy e dá-lo a você em troca da liberdade dos meus pais e amigos?
– Você não entende, Scout? Não é uma simples proposta, é uma escolha. Ou é um, ou o outro. Se não me entregar Andrew morto, todos continuarão no inferno. Caso contrário, eu os liberto.
Scout estava confusa, ela não sabia o que fazer. Se matasse Andy, o sofrimento de seus pais acabaria, mas ela não tinha coragem, além disso ela nem sabia como mata-lo, afinal ele era uma alma, ele supostamente já estava morto, certo? Mas se ela não o matasse, ela tinha uma chance de libertá-los e de dar um fim à Mary, porém segundo Mary se ela escolhesse a segunda opção eles nunca sairiam de lá, seria uma eternidade de sofrimento no inferno, e a culpa seria dela.
– Está confusa? – perguntou Mary.
– Você está tentando jogar comigo, bagunçar minha mente, mas não vai conseguir, eu não vou deixar você roubar minha sanidade. E quer saber? Vá pro inferno com a sua proposta, eu não preciso dela!
– Você não está raciocinando direito. Vou te dar uma semana para pensar. Se até lá Andrew não estiver em minhas mãos, pode ir dando adeus às esperanças de salvar seus pais – foi a ultima coisa que Mary disse antes de desaparecer no ar, deixando Scout sozinha com seus pensamentos naquele porão escuro e imundo.
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