Verdade Ou Pesadelo
11 All Your Hate
Notas iniciais
Scout se lembrou do atalho que pegara com Taylor para ir ao cemitério Morgantown daquela vez, e foi correndo pra lá. Não demorou muito para que ela avistasse a entrada macabra do cemitério.
Aparentemente estava tudo deserto. Ela se aproximou do portão para ver se Andrew estava dentro do cemitério, mas não viu nada a não ser as inúmeras lápides que vira da outra vez.
– Procurando por mim? – Scout conhecia aquela voz rouca bem perto de seu ouvido, se ele estivesse vivo ela poderia ter sentido seu hálito quente.
Scout se afastou e se virou para encará-lo.
– Que visita agradável, eu estava mesmo me sentindo um pouco sozinho. Depois que a lenda do cemitério começou a se espalhar, esse lugar não tem mais muitos visitantes. Mas o que a traz aqui?
– Olá de novo, Andrew.
– Andy, por favor – ele se aproximou de Scout e beijou-lhe a mão.
– Quero que me conte tudo o que sabe sobre Mary Worth – disse ela, fria, puxando a mão.
– HAHAHAHA – ele ria como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo. – Scout, olhe bem para mim. Eu tenho cara de ser alguém que faz alguma coisa de graça? Sem exigir algo em troca? O meu forte é negociação. Faça-me alguma oferta tentadora e eu lhe conto tudo o que sei sobre Mary Worth.
– O que você quer? Eu faço qualquer coisa – disse Scout.
– O que eu quero? – Andy começou a se aproximar de Scout, e à medida que ele chegava mais perto ela se afastava, até que ele a encurralou no portão do cemitério e disse com um sorriso malicioso, encarando-a com aqueles olhos cinza azulados: – Eu quero você, meu anjo ruivo.
– O-O que?!
– Quero que fique aqui comigo pelo resto da eternidade, só eu e você.
– Quer que eu fique presa à esse cemitério com você?! Sem chance!
– Achei que tivesse dito que faria qualquer coisa.
– Eu não posso deixar meu pai sozinho, ele só tem a mim e eu só tenho a ele!
– Errado, minha querida. Agora, você tem a mim – Andy acariciava as bochechas rosadas de Scout com as costas do indicador, descendo até seu queixo. – Sua alma em troca de vingança. Esse é meu preço.
– Feito – disse Scout, decidida. Ela havia prometido a si mesma que iria acabar com Mary, não importando qual fosse o preço a ser pago.
– Boa garota.
– Como selamos o pacto?
– Assim – Andy encaixou seus lábios nos de Scout formando um beijo.
Quando se separaram, Scout abriu os olhos e se viu sozinha num beco sem saída. Ela conhecia aquele lugar, já havia sonhado com ele antes.
Haviam alguns caras bêbados perto de uma escadinha de três degraus que dava numa porta. Eles riam alto e davam soquinhos uns nos outros. Mas espera... Andy?! Sim, ele estava no meio daqueles caras!
– Iaê, Campbell, como vai ser? A pirralha vem ou não? – perguntou um dos caras, virando uma garrafa de vodka na boca.
– Fica de boa aê, Zacky, ela nunca falta – Andy respondeu.
– Se ela não aparecer, vou comer sua bunda – disse um.
– E enquanto isso eu faço você chupar meu pau – completou o outro.
– Calem a boca Jack e Sam, suas bichas, já disse que ela vai- Vejam só quem chegou! Há quanto tempo, Mary! – disse Andy com um ar sarcástico e com a voz alta devido à embriaguez, jogando a garrafa de vodka no chão e olhando em direção à Scout, porém seu olhar não estava fixo nela, parecia que ele estava olhando para outra coisa.
Scout olhou para trás e viu uma criança vindo. Era ela, a menina com quem Scout vinha sonhando! Mary Worth! O uniforme xadrez, os sapatos pretos de verniz, os cabelos pretos, lisos e compridos, o rosto, tudo, era idêntico!
Ela passou reto por Scout como se não a visse ali e continuou andando em direção à Andy e aos outros caras.
– Isso mesmo, venha para o papai – Andy convidava, com uma expressão pervertida.
– Q-Quem são eles? – a menina perguntou, visivelmente assustada.
– Que indelicadeza a minha, deixe-me lhe apresentar: estes são Zacky, Sam, James e Jack. Eles vão brincar com a gente hoje.
– Não, não, NÃO! – ela gritava desesperada, tentando fugir dos cinco homens que sem dó nenhuma a seguravam e passavam a mão nos lugares íntimos da garotinha que chorava lágrimas que imploravam por piedade, mas de nada adiantava, isso parecia apenas incentivá-los a irem mais longe.
– Cala a boca, vagabunda! – Andy socou-a no rosto e ela caiu.
– Vamos atrair a atenção de alguém desse jeito – disse Sam. – A porta ta aberta, vamos entrar – disse ele, subindo a escadinha, abrindo a porta e entrando seguido de James, Jack e Zacky.
– Anda, vadia! – Andy levantou a garota pelos cabelos e puxou-a para dentro, enquanto ela gritava e chorava.
Scout seguiu-os até uma suíte de casal. Definitivamente ela havia sonhado com aquele lugar antes, ela se lembrava muito bem daquele beco e daquele quarto.
Eles entraram no quarto, trancaram a porta e jogaram-na na cama, rasgando suas roupas e arrancando-as. Scout assistia a tudo horrorizada.
– Fica de quatro, putinha! – Andy batia e socava seu rosto.
A garotinha obedeceu, enquanto Andy e os outros despiam-se de suas calças.
De uma vez só, Andy penetrou-a por trás e Zacky colocou-se por baixo dela, penetrando-a pela frente. Ela urrava de dor enquanto eles faziam movimentos de vai e vem frenéticos.
A garota chorava e implorava para que parassem, mas seus gritos foram calados quando Sam fez com que ela começasse a masturba-lo com a boca, e James obrigava-a a usar uma das mãos para alisar seu penis.
“Parem... Por que estão fazendo isso comigo? Dói... Dói muito, parem, por favor, PAREM! Eu não quero isso, me deixem ir, por favor...” Era como se Scout ouvisse os pensamentos da garota em sua mente, aquilo estava roubando o pouco de sanidade que ainda restara nela.
Andy gemeu alto e levou o quadril para frente. Ele tinha gozado ao mesmo tempo que Zacky e Sam.
Eles se retiraram de dentro da garotinha, que caiu exausta na cama. O lençol estava manchado de gozo e de sangue. O cheiro de sexo impregnava o quarto.
– Ainda não acabou, não se esqueça de mim – disse Jack, que até então estava assistindo a tudo e “tocando uma” ao lado de James. – Abre a boca!
– P-Por favor... Chega... Eu não aguen-
– Eu mandei abrir a boca! – Jack fez com que ela abocanhasse seu membro, e segurando-a pelos cabelos fazia com que ela simulasse movimentos de vai e vem.
– Isso, assim mesmo, isso... AAI! – ele tirou seu falo da boca dela e colocou as mãos em cima. – ELA MORDEU! SUA PUTA! – Jack começou a desferir golpes no rosto de Mary.
– Chega, Jack! Vai mata-la assim! – disse Andy, segurando o punho de Jack, que estava pronto para meter o milésimo soco na garota, que a essa altura estava com o rosto todo inchado e esfolado, nariz e boca sangrando. – Eu preciso dela viva.
– Me solta, Campbell! Essa biscate mordeu meu pinto! – Jack fez Andy soltar seu punho e acertou outro soco na garota.
– O Andy tá certo, Jack, seu imbecil! Se você continuar batendo nela assim, ela vai morrer! – disse Sam, segurando Jack junto com Andy.
– Andy, tem certeza que isso não vai te trazer problemas? Afinal, você quebrou o contrato – disse James.
– É só essa daqui não me dedurar, certo? – disse Andy, segurando o rosto da garota e fazendo com que ela o encarasse.
– Vai se foder – disse a garota, com o pingo de voz que ainda lhe restava, e usando o pouco de energia que ainda tinha para cuspir na cara de Andy.
– Então não me resta escolha – Andy pegou-a pelos cabelos e arrastou-a até o banheiro do quarto.
– NÃO! POR FAVOR, ME DEIXA IR EMBORA! EU QUERO SAIR DAQUI! SOCORRO! – ela suplicava.
– Cala a boca! – Andy bateu com a face de Mary no espelho, fazendo com que este ficasse em pedaços.
A garota no chão estava com a face completamente cortada e sangrando, nada parecida com o que era antes.
Andy pegou um pedaço grande de espelho quebrado do chão e examinou-o bem para ter certeza de que era afiado o bastante para o que pretendia.
– Por favor... Não... – ela tentava convence-lo, quase sem voz, mas ele continuava com a mesma expressão psicótica.
– Andy, espera! – Zacky veio interromper.
– O que você quer?! – perguntou Andy, irritado por Zacky tê-lo interrompido.
– Vou com os caras pra um leilão clandestino daqui a alguns meses, e descobri que alguns órgãos têm alto valor no mercado negro.
– E daí? Desenvolve, Zacky!
– Eu quero ficar com os olhos dela pra vende-los no leilão.
– Fique à vontade – Andy saiu do banheiro e entregou o pedaço do espelho que tinha em mãos à Zacky.
– Bonitos olhos azuis, criança – disse Zacky, agachando-se perto da Mary e levando o caco aos seus olhos.
– NÃO! POR FAVOR, NÃO FAÇA ISSO! AAAAAAH! – ela gritava e chorava, tinha espasmos involuntários de tão insuportável que era a dor que estava sentindo. Zacky usava o pedaço do espelho para arrancar seus olhos das órbitas.
– Perfeito, um já foi. Agora, o outro – disse ele, e sem qualquer traço sequer de piedade, usou o pedaço quebrado do espelho para desprender o outro olho. – Pronto. Vamos ficar ricos, seus viados! – disse Zacky, voltando para o quarto com os dois olhos nas mãos ensanguentadas.
Mórbido.
Não há palavra que descreva melhor aquela cena.
Mary ainda agonizava no chão do banheiro.
– Acabe logo com o sofrimento dela, Andy – disse Sam.
Andy voltou para o banheiro, pegou o caco ensanguentado do espelho, ergueu-o e disse suas últimas palavras à Mary:
– Durma para sempre agora, minha querida – e começou a atravessá-la com o pedaço de espelho diversas vezes. Por fim, enquanto ela dava seus últimos suspiros, Andy corta sua garganta de uma ponta à outra, matando-a de vez.
“Por que? Por que fizeram isso comigo? O que eu fiz a vocês? Por que não tiveram piedade de mim? Por que me torturaram e me mataram de um jeito tão brutal?” Novamente era como se a voz da garotinha ecoasse na mente de Scout, que permanecia sentada no chão abraçando os joelhos e com a cabeça abaixada entre eles.
– Está vendo, Scout? – de novo aquela voz perto de seu ouvido. Andy.
Quando Scout levantou a cabeça e olhou em volta viu que estava de novo na frente do cemitério Morgantown.
– Por que? – Scout disse num tom quase inaudível.
– Desculpe meu amor, eu não ouvi – disse ele.
– Por que fez isso com ela?! Por que a estuprou e a matou?! Por que?! – disse Scout, se levantando e avançando em direção a Andy.
– Eu sugiro que você abaixe o tom de voz – ele falou, segurando Scout pelo pescoço e apertando-o não muito forte, apenas o suficiente para segurá-la e trazê-la para perto de si, deixando seus rostos a centímetros de distância para olhar bem no fundo de seus olhos. Ele usava um tom de ameaça. – Paciência não é uma das minhas virtudes, e minha fome não tem senso de humor – ele sorriu um sorriso macabro, lambendo os lábios e olhando Scout de cima a baixo como se a desejasse. – Vai ser uma boa menina?
– Eu... – Scout sentia vontade de cuspir na cara de Andy, mas ela precisava obedecê-lo. Ela precisava dele. Precisava arrancar o máximo que pudesse dele. – Vou ser uma boa menina... – respondeu, relutante, e por um momento odiando a si mesma por entrar no jogo de Andy.
– Assim que eu gosto – ele sorriu novamente, soltando o pescoço de Scout e ela se afastou, levando as mãos ao pescoço e tossindo um pouco até recuperar o fôlego. – Mary era uma órfã que vivia no orfanato East Village – começou Andy. – Porém, o orfanato estava indo à falência. Uma conhecida minha era freira de lá, e com medo de ter que fechar o orfanato que fora seu lar durante toda a sua vida, veio me procurar e pediu para que eu ajudasse mensalmente o orfanato com uma taxa de US$5.000. Mesmo em vida, nunca fui de fazer algo se eu não ganhasse algo em troca, então fizemos um acordo: eu ajudaria o orfanato com uma taxa mensal, e em troca ela me enviava uma órfã de minha preferencia para que eu pudesse “brincar” com ela um pouco, se é que me entende. Esse era o nosso contrato. Mas naquele dia eu acabei bebendo um pouco demais e esqueci do contrato, e levei meus amigos junto comigo quando fui encontra-la. A bebedeira nos fez perder a noção, e acabamos passando dos limites. Sim, eu matei Mary Worth. Mas eu não podia deixa-la lá, eu tinha que limpar a bagunça para que não descobrissem que tinha sido eu.
– O que você fez? – perguntou Scout, lançando-lhe um olhar de desprezo. Seu estômago revirava enquanto ela ouvia a doentia história de Andy.
– Coloquei o corpo num saco de lixo e trouxe até aqui enquanto os caras limpavam os vestígios daquela suíte. Eu a enterrei e fiz um túmulo. Mas a fúria que ela guardava dentro de si era tão grande que tomou sua forma em espírito quando ela morreu. Naquela noite, eu ouvi a voz dela dizendo que eu ia pagar pelo o que fiz, eu e todos os outros, ela disse que nós estávamos condenados a passar a eternidade no inferno. Depois disso, ela começou a me perseguir e fui perdendo minha sanidade aos poucos. Todas as noites sonhava com ela me matando, cada noite uma morte mais violenta que a anterior. Eu ficava cada vez mais assustado, virei escravo do medo. Um dia sonhei que ela me disse para vir até o cemitério desenterra-la, e que se eu o fizesse ela me deixaria em paz. Incapaz de pensar racionalmente, eu obedeci. Vim até aqui para desenterra-la, mas antes que eu tivesse a chance de começar a cavar eu a vi, ela apareceu bem na minha frente. Seu rosto estava igual a quando eu a matei: repleto de cortes fundos, sem os olhos e sangrando. Ela foi tão fria comigo quanto eu fui com ela quando a matei. Devorou minha face e metade dos meus órgãos. Desde então, estou preso a esse cemitério pelo túmulo dela. Não posso sair daqui.
– Ainda tem algo que eu não entendo nessa história – disse Scout. – Por que ela está atrás de mim? Eu não tenho nada a ver com essa história, nunca fiz nada pra ela!
– Achei que fosse se lembrar quando eu contasse tudo – disse Andy.
– Lembrar de que?
– A freira que mandava Mary para que eu abusasse dela todo mês sem dó, era você Scout.
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