Verdade Ou Pesadelo
38 A Step Closer to Hell Part II
Notas iniciais
– Detesto a luz do dia. Que horas são? Quatro da tarde? Seria melhor ter me chamado de noite, querido, meu humor estaria melhor – disse Scout. Não, aquela não era Scout falando.
– Foi mal, Lilith, não tenho até de noite – respondi.
– Está tão apressado assim pra nos divertirmos?
– Eu não te chamei pra ficar jogando conversa fora, então vamos direto ao ponto: preciso que faça com que Lúcifer cancele um certo contrato.
– Por acaso você faz parte desse contrato?
– Por acaso isso importa?
– Hmm, garoto mau – ela só pode estar me fazendo de idiota. – Sinto muito, não posso fazer nada por você.
– Eu imaginei que diria algo parecido. E se eu disser que você será recompensada por isso?
– Agora estamos chegando lá. O que você tem pra mim?
– Que tal isso? – mostrei a ela o punhal.
– Um punhal de prata? Espera que eu o aceite, entregue-o a Lúcifer para que ele me recompense e peça para que ele anule seu contrato?
– Que vadia esperta você é – provoquei, fazendo-a soltar uma gargalhada que, admito, conseguiu me assustar.
– Não me provoque, querido. Você não sabe do que sou capaz, e garanto que não quer saber – não me atrevi a responder. – É o seguinte: Lúcifer é bem generoso quando o assunto é me recompensar por algo de bom que fiz a ele, não vou negar que é um de meus maiores prazeres vê-lo todo lisonjeado por minha causa. Mas para isso eu teria que lhe entregar o punhal, e com isso ficarei de mãos vazias. Se quiser minha colaboração, vai ter que oferecer um pouco mais. De preferencia, algo que eu possa guardar para mim.
– Sabe, Lilith – adentrei o círculo e me dirigi até ela, que ainda permanecia no centro do pentagrama. – Coisas materiais não são os únicos meios de se negociar algo – disse, passando os braços por sua cintura e descendo até a lateral de seu quadril. – Você disse que quer uma coisa que possa guardar pra você. Memórias excitantes e prazerosas estariam inclusas nesta categoria também?
– Decidiu, enfim, falar a minha língua? – falou ela, acariciando meu peitoral e mordendo os lábios de uma forma provocante.
– Então, o que me diz? – perguntei, colando nossos corpos e passando as mãos pelo lombar de suas costas.
– O que tenho pra te dizer – ela aproximou os lábios da minha orelha e sussurrou: – é que não é tão fácil assim me enganar, e se você tentar algum truquezinho eu acabo com cada tecido do corpo dessa vadia que eu tô vestindo.
– Olha como fala dela, sua- – tentei reagir, mas Lilith foi mais rápida e me deteve segurando meu pescoço. Sorte que não preciso de ar, mas ainda sinto a sensação de estar sendo estrangulado e a dor de seus dedos apertando meu pescoço.
– Ataquei o ponto fraco, foi? Então você gosta dessa garota? – disse ela, sorrindo, claramente se divertindo.
– Não é da sua conta – respondi, livrando-me de sua mão em meu pescoço.
– Ah, você gosta. E vejo que ela também gosta de você, e gosta muito. E não é só isso. Quer saber a novidade? – ela se afastou um pouco. – Essa garota te deseja. Eu posso sentir a vontade que ela tem de você. Porém, se ela me serve de recipiente significa que ainda é pura, e sem dúvidas não é por falta de vontade da parte de nenhum dos dois. É realmente curioso.
– Cala a boca, você não sabe de nada!
– Você a deseja também? – não assenti pra não dar esse gostinho a ela, mas eu não era nem louco de negar o meu desejo pela Scout, então acabei apenas abaixando o olhar. – Se você a deseja tanto quanto ela te deseja, é o medo que os impede? O que acha de aproveitar a chance agora?
– Já mandei você calar a boca – falei, áspero.
– O que é isso, amorzinho? Vai me dizer que não gosta disso? – ela desfez o laço que prendia a capa e deixou que esta caísse ao chão, ficando totalmente despida. – É, até que é um belo corpo pra uma garota de 17 anos – ela elogiou, passando a mão pelas curvas. Eu não conseguia falar nada por conta do ódio que crescia dentro de mim a cada segundo. Quem essa vagabunda pensa que é pra encostar essas mãos sujas no corpo da Scout?! – Não aja como se não estivesse gostando – ela começou a se aproximar. – Tem uma coisa bem aqui que te denuncia – ela apertou de leve o volume em minhas calças que, mesmo que ainda estivesse pequeno, não consegui evitar que se formasse. Eu abafei um gemido mordendo o lábio inferior, o que pareceu incentiva-la a ir mais longe e abrir o botão e o zíper da calça, começando a acariciar por cima da boxer.
Eu não sabia ao certo se queria que ela parasse com aquilo ou se queria que ela continuasse indo cada vez mais longe.
Retomei o controle sobre mim e empurrei-a, fechando minha calça.
– Qual o problema, querido? – perguntou, cínica.
– Para de me chamar assim, sua cadela – eu não ia me aproveitar da Scout, não desrespeitaria ela desse jeito. Eu não sou esse monstro... Não mais.
– Tem alguém estressadinho aqui – ela zombou. – Que tal isso: eu vou falar com Lúcifer sobre o contrato, o que é uma garantia de que ele será desfeito. Em troca disso, eu quero o punhal, e... – ela fez uma pausa e levantou o pulso, fitando o pingente pendurado pelo cordão – ...esse amuleto.
– O jaspe indiano? Sem chance! Se tirá-lo dela ela pode acabar virando pó! – não sei por que disse aquilo, não era como se Lilith se importasse muito com o que aconteceria à Scout.
– Aí só depende dela – disse Lilith. – Se ela for forte o suficiente pra me suportar aqui, nada de ruim vai acontecer. Caso contrário, eu não posso garantir que ela ficará bem – ela sorriu com crueldade. – Vamos lá, é um desafio. Está disposto a arriscar a vida de sua preciosa paixão virgem? – eu não podia correr o risco de perder a Scout, não agora, não depois de tudo, não assim... Ódio é pouco pra definir o que eu estava sentindo naquele momento – Negócio fechado?
– ...Faça – respondi. Eu tinha que confiar um pouco em Scout.
Lilith desenrolou o cordão do pulso de Scout vagarosamente, me torturando com aquilo. Ela o tirou completamente, segurou-o na outra mão e... O corpo de Scout continuava intacto.
Suspirei aliviado.
– Rapariga metida à fortona – murmurou Lilith, e no segundo seguinte Scout novamente caiu sobre seus joelhos e permaneceu assim por alguns segundos. Eu não me movi, esperando uma reação da parte dela.
– Andy? – ela disse num tom quase inaudível levantando a cabeça.
– Sco- – antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o corpo de Scout começou a flutuar e um urro de dor ensurdecedor saiu de sua boca. O que estava acontecendo?!
A pele de Scout começou a corroer-se, camada por camada foi se desfazendo até que ela ficasse completamente esfolada e só então caisse novamente ao chão.
– SCOUT! – corri desesperado até ela e coloquei sua cabeça em meu colo.
– A-Andy... – ela falou fraco.
– Meu Deus, olha pra você! – as partes menos afetadas eram o rosto e o pescoço, do busto pra baixo Scout praticamente tivera a pele arrancada. – Lilith! Foi ela quem fez isso! MALDITA!
Embaixo de Scout se via uma enorme mancha de sangue que se destacava na coloração bege da vegetação morta do cemitério e que se expandia cada vez mais.
– Andy... Tudo bem – ela segurou em minha mão com o que restara da sua. – Eu... Quero poder ficar com você – disse ela, sorrindo. – Se passar por isso é o preço... Então eu o pagarei com prazer.
– Scout... – merda, eu não podia estar chorando! Controle seus sentimentos, Campbell!
– Por que você tá chorando, besta? – como ela conseguia rir numa hora dessas?! – Quando isso passar... Vamos ficar juntos.
– Você não tinha que sofrer tanto pra isso, você não merecia – disse, deixando algumas lágrimas rolarem.
– Nem tudo corre de acordo com o plano. Faz parte – disse ela. Forcei um sorriso que não consegui manter por muito tempo. Vê-la daquele jeito era a pior das piores coisas que poderiam acontecer comigo. – Te vejo do outro lado – senti o peso de sua cabeça tombar para o lado e vi seus olhos se fecharem enquanto ela caía num sono profundo, um sono do qual eu sabia que ela nunca mais iria acordar.
– Tenha certeza de vir me encontrar, sua idiota – a abracei e depositei um beijo em sua testa.
Deitei-a no gramado ensanguentado e a cobri com a capa de seda.
Agora só me restava esperar. Dependia dela qual escolha fazer.
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