Notas iniciais
(Queer = termo usado para pessoas não-héteros e/ou não-cisgêneros)

Ainda no mesmo dia, porém à tarde, Roronoa se encontrava em seu trabalho na oficina junto com Eustass Kid. Enquanto consertavam carros e mexiam em óleo, para não focarem entediados, ambos gostavam bastante de conversar e naquele momento, Zoro desabafava sobre seus problemas caseiros.

– Cara, desde o acampamento tem acontecido uma parada muito estranha lá em casa.

– Tipo o quê?

– É sobre aquele cozinheiro idiota.

– O viciado em mulher que você vive xingando?

– Esse mesmo. Enfim, nós nunca tínhamos parado pra ter uma conversa até o dia do acampamento. Antes disso nossa relação era baseada em um ódio mútuo sem sentindo.

– O que aconteceu entre vocês dois?

– Sei lá, eu não sei direito. Teve uma noite em que eu contei algumas coisas sobre o meu passado e naquela hora eu esqueci totalmente com quem eu tava conversando. Eu nem me dei conta de que tava falando tanto sobre mim com aquele sobrancelhudo.

– E como ele reagiu, ele ficou tirando sarro de você?

– Não, pelo contrario, ele até me deu uns conselhos, acho que ele entendeu meu lado. E o mais estranho, no dia seguinte as nossas brigas pareciam mais… divertidas.

– Divertidas?

– É! Quando eu xingava ele era só porque ele vivia me irritando, mas agora quando eu discuto com ele eu acho divertido o jeito como ele fica com raiva. Parece briga falsa, sabe?

– Hm, então agora vocês estão brigando mais como melhores amigos do que como duas pessoas que não tem nenhuma ligação?

– Melhores amigos? Também não precisa exagerar, né… eu nunca seria melhor amigo de alguém com sobrancelhas tão ridículas.

– Aham, sei. – Eustass olha pra ele com um tom irônico. – Acho que você tá começando a gostar desse tal de Sanji, hein.

– Pff, gostar? Não é por aí, eu ainda odeio ele.

– Mas odeia menos agora, certo?

– Continua sendo ódio.

– Eu tô achando que esse seu “ódio” pode não ser tanto ódio como você pensa.

– Do que você tá falando?

– Eu só tô dizendo que quando alguém fica se recusando a admitir que tá gostando de alguém, é porque é um sentimento muito além do que você tá dizendo.

– Hã, o que você tá sugerindo? – Zoro retribui o olhar irônico com um raivoso.

– Hahaha, calma, eu não tô duvidando do seu ódio por esse cara, só tô dizendo que a origem dele pode não ser como você pensa.

– Tsc, não dá pra tentar ter uma conversa séria com você. De onde vem a origem dele, então?

– Se eu disser o que eu penso você vai ficar putinho, então é melhor deixar pra lá.

– Que seja, eu não tô afim de ficar falando sobre isso mesmo. Mas e aí, como vai o seu lance com o médico lá?

– Normal. Aquilo não tem muito futuro, eu só vou àquela clínica por um único objetivo, e além disso eu já namoro o Luffy mesmo.

– Você não se sente nem um pouco mal de namorar o Luffy e dormir com esse outro cara?

– Ah, são coisas totalmente diferentes. Eu não gosto do Law do mesmo jeito que eu gosto do Luffy, o Law pra mim é só alguém que... enfim, alguém pra passar o tempo. Se eu não tiver nenhuma ligação a mais com ele acho que não tem problema.

– Não tem problema trair o namorado desde que você não tenha nenhuma afinidade com o amante?

– É que tipo, com Luffy é um namoro real, com sentimentos e tals, já o Law é só uma distração. Eu nem faria questão de lembrar o nome dele, não é como se eu tivesse uma relação amorosa com ele, então não é nada demais.

– Diz isso pro Luffy então.

– Vai se foder, também não é assim! – Kid se defende deboxadamente. – Só porque eu não tenho nenhuma ligação forte com o Law não significa que o Luffy precise saber.

– Tá bom, tá bom, cê que sabe.

– Você acha que isso é tão ruim assim..? Esse lance de ficar com alguém que não seja o Luffy e tal.

– Bom, eu não costumo me meter na relação dos outros, se você não se importa com isso então continue fazendo. Eu só não faria.

(…)

Mais tarde, depois do trabalho, Roronoa Zoro pôde finalmente voltar para sua casa. Apesar de ter que dividi-la com outras duas pessoas, ele não se incomodava, principalmente por um deles ser um ótimo cozinheiro que até mesmo já havia preparado o jantar. Graças a isso, o trio estava sentado à mesa, comendo.

– Nami, pode me passar o Sal? – Sanji diz.

– Claro. – E a ruiva passa o condimento.

– Obrigado.

– Ei, Nami. – Zoro também a chama. – Pode me passar o sal também? Parece que um certo cozinheiro não consegue temperar o próprio prato direito.

– Tsc, o que você tá querendo dizer, maldito? – O loiro logo o lança um olhar de raiva.

– Quis dizer que as suas comidas são muito sem sal, que nem a sua cara, sobrancelhudo.

– Hã? – Sanji fica nervoso e bate a mão na mesa, levantando-se. – Retire já o que disse!

– E quem vai me obrigar? – Zoro faz o mesmo e ambos agora estavam se encarando de frente, com os dentes cerrados.

– Ei, ei, meninos, não briguem! – A ruiva também se levanta, mas apenas para fazer os outros dois se sentarem, os abaixando através dos ombros. – Que coisa, no meio do jantar?

– Esse idiota falou mal da minha comida! – O loiro se defende.

– Eu não falei mal, só disse que ela faz jus ao cozinheiro sem sal que a prepara.

– Disse o brutamontes que só sabe ficar o dia inteiro dormindo.

– Pelo menos eu não fico correndo atrás de mulher o tempo todo achando que isso vai me fazer mais homem.

– Pelo menos eu tenho namorada e não preciso ficar trazendo estrangeiros estranhos pra casa.

– Pelo menos eu consigo fazer as pessoas gostarem de mim sem ser por pena.

– Pelo menos eu não preciso ficar me enchendo de Whein Protein pra atrair as pessoas pelos músculos ao invés de pelo cérebro.

– Pelo menos eu tenho um cérebro, o seu já deve ter morrido pelo tanto que você fuma.

– Algas marinhas não têm cérebros, idiota.

– E ainda sim eu aposto que elas saberiam colocar sal numa comida melhor que você.

– Será que dá pros dois pararem de brigar por um segundo sequer? – A ruiva volta a reclamar. – Mas que coisa!

– A gente não tá brigando, Nami. – Sanji afirma.

– É, relaxa aí. – Zoro concorda.

– Ah, não?

– É, esse troglodita pode até não ser muito inteligente, mas eu sei que ele sabe apreciar uma comida. – O loiro fala.

– Eu tenho que admitir que mesmo vindo de um idiota com sobrancelha estranha, a comida dele é a melhor que eu já provei.

– Oh, até que enfim um elogio vindo de você. Será que o mundo vai acabar?

– Pena que a comida em si perde o gosto por eu ser obrigado a olhar pra essa sua cara de tonto.

– Digo o mesmo, eu preferia estar jantando com a Nami que é uma dama de classe, ao invés de estar alimentando uma besta selvagem.

Mesmo com a ruiva tentando evitar, os dois rapazes sempre encontravam um novo jeito de brigar, mesmo não se tratando de uma rivalidade real, e sim, apenas uma discussão entre amigos. A comida já até mesmo estava fria por prestarem mais atenção à briga do que à ela.

(…)

Mas nem só de rosas nossa querida Alemanha vive. Fugindo um pouco de nossa maravilhosa bolha onde as pessoas de classe média viviam, em uma rua distante, pouco movimentada, pouco iluminada e frequentada por pessoas de caráter duvidoso, algumas mulheres ganhavam sua vida na prostituição.

Já era bem tarde. Todas que estavam nas ruas não tinham condições boas de vida; moravam em zonas periféricas à margem do resto da sociedade e eram mal vistas por todos que passavam por ali, principalmente por serem associadas à drogas e doenças. Mesmo assim, enquanto trabalhavam, distraiam-se do seu jeito.

– Aw! Un, deux, trois! Quando você estiver triste, cante! Quando você estiver feliz, cante também, o importante é cantar e se divertir!

– Ai, você sempre fica com esses papos de felicidade, coisa uó, desse jeito nunca vai sair daqui.

– E quem disse que eu quero sair? – Exclama saltitante, correndo pela rua, girando em postes. – Foi aqui que eu conheci todas vocês, conheci várias pessoas! Vamos todas cantar! Un, deux, trois!

– Deixa ela, Evelin. Pelo menos ela vai chamar atenção de mais clientes, isso que importa.

– Tsc, é fácil falar quando se é novata e tem a proteção da Ivan, Inazuma. Depois de três anos na rua eu quero ver ter essa energia toda.

– Se for pra começar a gongação por quem é nova na vida, quero ver barrar meus vinte anos no jogo! Irrá! – Ivan surgiu em meio às outras, já com os braços jogados para o ar e um enorme sorriso no rosto. – E o que tem demais a Bon querer cantar enquanto não bate porta? Tá mais que certa!

Em uma rua cuja energia elétrica vivia pifando, três meninas prostitutas trabalhavam. Uma delas, a mais nova de apenas dezenove anos conhecida por “Bonchan”, sempre estava de bom humor e era bem otimista, apesar de já ter passado por momentos difíceis apesar da pouca idade.

Além das três, havia outra conhecida por “Ivankov” ou apenas “Ivan”, mas que costumava ficar pouco por ali. Na verdade, por já ter uma carreira de vinte anos de trabalho e portanto mais experiência, era ela quem cuidava das outras, apelidada carinhosamente como “cafetina”.

– Ivaaaan! – Bonchan começa a correr em direção a ela com os braços abertos e ao se aproximar, pula em cima e lhe dá um abraço. – Eu senti tanto a sua falta!

– Sentiu minha falta por quê? Nós moramos juntas! Irrá! E não deixe essas recalcadas falarem que você não pode ser feliz.

Bonchan, de cabelos curtos, olhos pretos e rosto quadrado, junto com Ivankov, que usava um afro roxo bem chamativo, são, assim como as outras, duas pessoas trans, ou seja, que nasceram com o gênero em conformidade com o que fora imposto por seus pais no nascimento.

Isso significa que, embora se identifiquem como pertencente ao gênero feminino, vistam as roupas que querem e utilizem pronomes femininos, todas elas que passam a madrugada naquele ponto de rua específico nasceram com o órgão genital e nomes masculinos.

Entretanto, mesmo sofrendo preconceitos diários pela sociedade conservadora, a maior parte sendo expulsas de casa e não conseguindo empregos formais por esses motivos, elas continuavam travando diariamente uma luta para sobreviverem e serem tratadas com o máximo de respeito, mesmo que seja difícil consegui-lo quando se é prostituta.

[Bip bip] – Som de buzina.

– Ah, chegou. – Ivankov afirma ao ver um carro já conhecido parando em seu ponto.

– De novo esse cara? – Inazuma pergunta com tom de voz impaciente.

– Hahaha, certas pessoas não desistem nunca mesmo. – Em seguida, entra no carro. – Tchau gente, beijão, boa sorte aí!

– Tchau, tchau!

A maior parte das cafetinas não trabalham diretamente nas ruas, apenas cuidam da segurança do ponto e administram os clientes das outras; entretanto, Ivankov, em certos dias, encontrava-se com alguém já fixo e era levada por ele até um já também motel fixo. Era como uma rotina, já estavam nessa há meses.

Porém, não é um programa como o que se tem de costume, mas sim, algo totalmente diferente. Monkey D. Dragon, na verdade, apenas pagava algumas horas inteiras para ficar conversando e bebendo algum vinho que ele mesmo trazia, como algo mais pessoal.

– Daí ele chegou achando que poderia vir me atacar de alguma forma e as minhas amigas se juntaram pra atirar pedras nele. Eu nem sei de onde surgiram aquelas pedras, sempre acho que elas brotam quando precisamos! Irrá! – Ivankov contava uma de suas histórias com a taça na mão, deixando Dragon surpreso.

– Nossa, essas histórias que você conta são sempre muito fortes, eu não conseguiria lidar com isso nunca.

– Depois de vinte anos você se acostuma. Aliás, se acostuma não, aprende a lidar pra sobreviver. Pra sua sorte eu tenho várias histórias pra contar.

– E eu quero ouvir todas! Sério, conhecer você foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida inteira, eu jamais imaginaria que alguém tivesse histórias tão ricas.

– Deve realmente ser melhor ser o ouvinte e saber as histórias dos outros do que ter que passar por elas.

– Mas te incomoda ficar relembrando esse tipo de coisa?

– Não, até que não. Por mais que sejam coisas ruins serviram por amadurecimento, e desse jeito, conversando com você, eu me distraio. Pelo menos você parou com aquele papo de relacionamento.

– Eu parei porque você não gostava, mas o meu pedido ainda fica. Eu quero de verdade que você saia das ruas e venha morar comigo.

– Morar na mesma casa dos seus filhos, da sua família?

– Sim.

– Chega até a ser piada...

– Não sei porquê. Na minha visão, os meninos precisam mesmo de uma figura materna agora que a mãe faleceu, e seria melhor ainda se essa figura tivesse uma experiência de vida tão forte como a sua.

– Você gosta de mim, das minhas histórias ou me quer como babá?

– Eu me apaixonei por você pelas suas histórias e quero te apresentar aos meus filhos. Qual é o problema?

– Em vinte anos de trabalho eu conheci muitos homens casados e com filhos, mas você é o primeiro a querer juntar o programa com a família.

– Eu não vejo isso como um programa, eu te vejo como amiga, só te pago porque você me vê como cliente.

– Você quer casar comigo pra não ter mais que pagar?

– Eu quero casar com você porque eu gosto de você! Qual é o problema com isso? Apesar do dinheiro estar acabando...

– Casar com uma travesti prostituta por amor? Pff.

– Qual é o problema?!

– Problema nenhum, isso só não existe na vida real. Esse papo é antigo, nos prometem que vão nos amar, dizem que vão nos tirar das ruas e que são exceções. Esse amor todo acaba rápido, basta sair na rua de dia com alguma de nós, é pura experiência.

– Já viu muitos casos assim?

– Diariamente, as mais novinhas costumam acreditar achando que vão poder ter uma vida fora das ruas. É inocência. Eu mesma já me casei algumas vezes.

– Nem adianta dizer que comigo seria diferente, né?

– Não, e eu nem quero isso, eu tenho as minhas meninas pra cuidar, principalmente a Bon, que mora comigo. Fora que é diferente você levar facada de quem você não conhece e levar de alguém que você acreditou que seria diferente e se apegou, não é algo que eu queira correr o risco de novo.

– Facadas no sentido literal?

– Eu tenho oitenta e sete cicatrizes pelo corpo.

– Wow...

– Mas também já dei muita facada nessa vida! Irráá!

– Eu consigo entender porquê você não aceita me dar uma chance... você não quer mesmo deixar as ruas?

– E o que mais eu vou fazer da vida? Agora com trinta e sete eu só posso cuidar das minhas meninas pra que elas não passem por tudo o que eu vivi, apesar disso ser inocência também. Elas ainda acham que vão poder conseguir um emprego um dia, sabia?

– E você acha que não vão?

– Eu não acho nada, até gosto de ver que algumas conseguem ter tempo de estudar, não sou eu quem vai tirar as esperanças de alguém em ter uma vida de verdade, a força do otimismo tem seu valor.

Após, o alarme do celular de Ivankov toca, indicando que o horário já havia terminado.

– Nossa, já acabou o tempo? – Dragon fica triste.

– Duas horas. Vai querer mais uma?

– Eu queria, mas...

– Precisa ver seus filhos.

– Pois é, e você suas garotas. Vamos, eu te deixo no ponto.

Notas finais
LEIAM ESTA MERDA! Vamos iniciar com um shipp novo e um assunto muito pouco debatido no mundo das fanfics: transgeneridade no âmbito social e no mercado de trabalho. Já que o titio Oda introduziu (de um jeito meio bosta mas vamo q vamo) os Okamas na obra dele, eu também vou introduzir as pessoas trans na minha. Então, por mais que lá fora seja "o" Bonclay e "o" Ivankov, aqui dentro elas vão ser mulheres trans (ou travestis, como quiserem chamar) e quem for tratar no masculino terá a conta hackeada e o comentário editado. u_u Brigado pela atenção :3 OBS: Crocodile vai voltar a aparecer em breve tbm PS: Feliz dia do combate à HIV! Já fizeram seus exames hj?