Verão Verde-Azulado
6 Capítulo 06
Notas iniciais
“por favor por favor POR FAVOR vem pra cá, tô te implorando.”
“Tá tão chato assim?”
“não é que ta chato, é só que... eu não falo com ninguém aqui.”
“E aquele seu amigo, o Armin?”
“eu não sei, tá estranho com ele... como se nós não tivéssemos mais nada em comum e o ensino médio estivesse em um passado distante.”
“Que triste.”
“... diz o cara que não tem amigos.”
“O que queria que eu dissesse?”
“Diz que sim e vem cá.”
“A Mikasa não me convidou. Que parte disso você não entendeu?”
“mas ela deixou eu te trazer. aw, por favor, vem cá. por mim.”
“Ela não quis nem te convidar na minha frente.”
“Levi, por favor... vem cá, eu quero tanto te ver.”
Levi lê a minha mensagem e para de responder, o que me faz ficar preocupado. Talvez eu estivesse o enchendo o saco demais, ele nem gosta desse tipo de coisa.
Até porque, o que eu estou fazendo? Convidando ele para a festa de aniversário da prima que ele nem conversa? Eu estou realmente passando dos limites.
Logo antes de eu digitar uma mensagem pedindo desculpas para ele, noto que ele enviou uma.
“Ok, eu vou dar uma passada ai. Só pra te ver, do lado de fora.”
“SIM SIM SIM vem aqui agora eu vou ficar esperando”
“você tá tão necessitado, cabeça de merda”
“também te amo ♥”
Devolvo meu celular para o bolso com um sorriso enorme em meu rosto, por algum motivo.
“Com quem você tava conversando?” Armin nota, rindo de leve.
“Ah, só um amigo do trabalho.” Olho para ele.
“O primo da Mikasa?” Ele arqueia uma sobrancelha.
“S-Sim...” Pendo a cabeça para o lado.
“Hm. Vocês dois ficaram bem próximos, né?” Algo em seu tom soa bastante suspeito, mas eu decido ignorar.
“Sim, ele é legal.”
Como uma chamada dos céus, um colega de classe antigo aparece para nos cumprimentar e começa a conversar fiado com o Armin, me fazendo respirar aliviado. E alguns minutos depois eu recebo uma mensagem do Levi, dizendo que ele está lá fora. Peço licença aos dois e quase corro até lá, o encontrando parcialmente escondido atrás de uma árvore.
“O que você tá fazendo?” Eu rio, caminhando até ele.
“Evitando que alguém da minha família me veja aqui.” Ele se esconde completamente quando eu paro ao seu lado.
“Seria um problema?”
“Eu não sou a pessoa mais amada na família. Mas eu não sei ao certo qual seria a reação deles.”
“Por que você não descobre hoje?” Abro um sorriso e puxo seu braço.
“Nem morto.” Ele dá um tapa em minha mão. “Eu disse que eu vou ficar aqui fora.”
“Tem comida de graça.”
“Não, Eren.” Ele me lança um olhar assassino.
“Okay, desculpa.” Balanço as mãos no ar.
Encaramo-nos por alguns segundos. Levi parece um pouco mais triste do que o normal, o que me faz ficar um pouco preocupado.
“Alguma coisa aconteceu?” Decido perguntar.
“Há sempre alguma coisa acontecendo, Eren.” Ele responde, indiferente.
“Sim, mas, uh, você pode me contar, se quiser.”
“É só a mesma merda de sempre com meu tio, nada de mais.” Ele suspira. “Bom, pra que você me chamou aqui mesmo?”
“Pra se divertir.” Sorrio feito bobo. “Vem cá, vamos lá pra festa. Se alguém perguntar, eu digo que você foi convidado por mim.”
“Eren, é sério, não é uma boa idéia. Se você acha que a festa tá chata, podíamos só ir pra outro lugar.”
“Cinco minutos.” Levanto minha mão na frente de seu rosto. “Só por cinco minutos. Pegamos algumas comidas, vemos qual vai ser a reação das pessoas com a sua presença e vamos embora.”
Levi suspira fundo, revirando os olhos, e olha para os fundos da casa. Nós conseguíamos escutar a música e a conversa vinda de lá.
“Você vai mesmo me fazer ir lá?”
“Você tá comigo. Vai ficar tudo bem.”
Ele volta a me encarar, arqueando uma sobrancelha, e eu sorrio. “Vem cá.”
Espero que minha insistência para fazê-lo se juntar à festa não tenha o deixado chateado. Não é como se eu não fosse embora com ele caso eu note que as pessoas estão agindo estranhamente com ele ou se ele não quiser ficar mais lá. Enquanto caminhamos dentre algumas pessoas, ele pega meu braço e caminha perto de mim, como se ele estivesse desconfortável.
“Se você me deixar sozinho eu corto sua cabeça fora.”
“Não vou, não se preocupa.”
Guio-nos até a mesa de comida para encher a mão de balas e o dou algumas também. E assim o Armin se aproxima de nós.
“Ei, você sumiu.” Ela me cumprimenta e olha para Levi. “Quem é o seu amigo?”
“Levi.” Ele responde, indiferente.
“Oh, você é o primo da Mikasa!” Ele arfa em surpresa. “Posso ver a semelhança, vocês dois são parecidos.”
“Pelo menos não pareço com meu tio. Nosso tio, aliás.” Levi dá de ombros. “De qualquer forma, já fazem cinco minutos, Eren.”
“Dois e meio.” Dou uma cotovelada de leve nele. “Ainda precisamos de álcool.”
“Por que eu estou achando que essa não é uma boa idéia?”
“Bebidas de graça são sempre uma boa idéia.” Armin se intromete. “Vamos lá, deixa eu levar vocês até elas.”
Levi anda ao meu lado, olhando em volta, e eu noto que algumas pessoas olham de volta para ele. A mãe da Mikasa, por exemplo. E ela não parece feliz em vê-lo ali, o que me deixa preocupado. Mas então eu coloco meu braço em torno de seus ombros, como se estivesse dizendo para as pessoas que ele está comigo, e continuo andando. Assim que chegamos à mesa de bebidas, Mikasa nos vê e vem até nós.
“Uh, oi.” Ela cumprimenta Levi.
“Oi.” Ele a cumprimenta sem jeito. “Feliz aniversário, eu acho.”
“Obrigada.” Ela balança a cabeça.
Sinto uma tensão crescer entre eles, então decido voltar nossa atenção para as bebidas.
“Então, Levi, você quer vodka com o quê?” Eu o pergunto, pegando dois copos plásticos.
“Pode ser refrigerante.” Ele vira para mim.
“Bom, eu vou cumprimentar mais gente. Daqui a pouco vamos abrir espaço pra dançar, então, bom, eu espero que vocês se divirtam.” Mikasa diz. “Vejo vocês por aí!”
“Espera, Mikasa.” Levi a chama. “Se você quer que eu vá embora, eu vou.”
Eu meio que temo a resposta da Mikasa, mas ela apenas sorri com o canto da boca.
“Tudo bem, você é o convidado do Eren.”
Ela, então, se vira e vai embora. Armin a segue e os dois vão conversando, então eu me volto para Levi.
“Tá vendo? Tá tudo bem.”
“Eu sou seu convidado. O que significa que ela nunca iria me convidar.” Ele suspira. “Como se eu não soubesse disso. De qualquer forma, isso prova que eles não me querem aqui.”
“Não pensa muito nisso, ela disse pra gente se divertir, né?” Termino de misturar sua bebida e o entrego o copo. “Então vamos nos divertir.”
Nós não nos divertimos muito, entretanto. Mikasa livra um espaço na grama para deixar as pessoas dançarem, e eu insisto para o Levi ir dançar comigo, mas ele não queria. Então nós continuamos bebendo perto das mesas de bebidas, e logo minha cabeça começa a rodar.
E a cabeça do Levi começa a rodar também, então ele decide que deveria ir pra casa. Claro que eu não o deixaria ir sozinho, então o ofereço uma carona em minha bicicleta.
“Eren, você tá indo tão lento que eu vou dormir aqui.”
“Eu não quero que a gente sofra um acidente.” Eu digo, tentando me concentrar na rua. As linhas estavam borradas e meus sentidos estavam horríveis, então eu tinha que ter cuidado. “Se você soubesse andar de bicicleta nós não precisaríamos passar por isso.”
“Tsc, você quem bebeu demais.” Ele estala a língua, irritado, e descansa a cabeça em minhas costas. “Me acorda quando chegarmos.”
Manter uma linha reta estava super difícil, mas como eu não queria incomodar mais o Levi, dou o meu melhor para pedalar suavemente por todo o caminho até sua casa. Claro que não consigo desviar de alguns buracos no asfalto, mas Levi parecia tão desmaiado nas minhas costas que mal notou o incômodo.
“Chegamos!” Paro a bicicleta perto da calçada, bastante tempo depois.
Levi levanta a cabeça preguiçosamente, reconhecendo seus arredores. “Quantas horas você levou?” Ele ri.
“Menos de meia hora, tá?” Faço beiço. “Desce.”
Ele se segura em meus ombros com cuidado e levanta da bicicleta.
“Ah, eu babei na sua camiseta.” Ele diz enquanto sobe na calçada. “Considere como um presente.”
“Ótimo, obrigado.” Tento olhar para as minhas próprias costas. “Eu preferiria ter sua baba em outro lugar.”
Okay, eu ainda estava bem bêbado. Depois de dizer isso, olho para Levi e o encontro fazendo careta para mim.
“Espero que você não esteja querendo dizer nada com isso.” Ele diz, sorrindo maliciosamente. “Melhor eu entrar. Te vejo depois.”
Ele não espera minha resposta e se vira para caminhar até a porta de sua casa. Eu contínuo sentado estupidamente na bicicleta, tentando entender também o que eu quis dizer com aquelas palavras. Então eu o observo caminhar, se virando para olhar para mim logo antes de chegar em sua varanda, e eu sinto que tem algo mais sobre esses momentos que compartilhamos por essas semanas. Esses momentos esquisitos e nunca mencionados no qual trocamos olhares até ele entrar em casa.
Por que eu sempre esperava? Por que eu estou aqui ainda, hoje?
Então o álcool age, e eu decido que eu deveria fazer algo sobre isso. Ele me faz acreditar que eu tinha que fazer algo, sem saber o quê direito, mas eu tinha. Então o chamo.
Ele pausa seus passos e se vira lentamente, surpreso, mas tentando manter a calma. “Vai embora, Eren, você tá bêbado.” Ele diz com um sorriso.
“Só espera um segundo.”
Deixo minha bicicleta cair no chão e vou até ele. Ele me encara até eu estar a um passo dele e cruza os braços, como se ele estivesse me desafiando a algo que eu não sabia o que era. Tento pensar em algo para dizer, mas nada vem à minha mente, como se todos meus pensamentos estivessem cobertos por nuvens.
“O que foi, Eren?” Ele suspira, sem quebrar nossa troca de olhares. Ele definitivamente estava me desafiando. O que você vai fazer, Eren?
“Acho que eu tava falando sério. Sobre babar e tal.”
Antes que sua expressão se franzisse, eu o puxo para um beijo. Ele não me empurra.
“O que você tá fazendo?” Ele ri assim que nos separamos. “Você não é gay, Eren.”
“Como você sabe?” Eu pergunto, e ele para de rir. Tomo vantagem disso e o beijo novamente.
Continuamos nos beijando, eu coloco meu braço em torno de sua cintura e o seguro com cuidado, o puxando mais pra perto, e tudo parece um êxtase. Como se não estivesse mesmo acontecendo, como se fosse apenas um sonho ou uma realidade alternativa.
“Okay, você tem que ir pra casa.” Levi interrompe. “Alguém pode nos ver e nós estamos muito bêbados.”
“Eu não quero.” Tento me inclinar para outro beijo, mas ele põe a mão na minha cara.
“Manda uma mensagem quando você chegar em casa. Se não vou achar que você teve um acidente ou dormiu na rua.” Ele diz, me empurrando. “Agora vai.”
Eu não caminho de primeira, o encarando e querendo beijá-lo de novo. Mas então ele cruza os braços e me olha com um olhar tão assassino que eu volto para minha bicicleta.
Não me lembro de meu caminho até minha casa, como se eu tivesse apenas pulado de uma cena para a outra. Assim que chego lá eu vou direto ao meu quarto com minha cabeça rodando. Caio em minha cama e lembro que Levi pediu que eu mandasse uma mensagem quando chegasse, então eu faço isso. Ele responde quase instantaneamente com um curto ok.
Coloco meu celular sobre o criado-mudo e olho para o teto, perdido em pensamentos. Minha mente estava lentamente se livrando da névoa, e tudo que aconteceu naquela noite lentamente começa a parecer menos como um sonho e mais como a vida real.
Até que eu chego ao beijo.
Pego sem jeito o meu celular e penso em mandar outra mensagem pro Levi. Mas eu não queria simplesmente mandar uma mensagem. Eu queria escutar sua voz. Então decido ligar.
“O que foi?” Ele suspira com preguiça.
“Foi um sonho ou eu te beijei mesmo?” Pergunto, confuso.
Ouço sua risada suave do outro lado da linha e algo quente preenche meu peito. “Sim, você me beijou.”
“Oh.” Eu rio com ele. “Acho que temos algo para conversar depois.”
“Sim. Quando estivermos sóbrios.”
“Sim. Amanhã?”
“No parque?”
“Pode ser.”
“Ok.” Ele diz suavemente, bocejando logo depois. “Preciso dormir.”
“Eu também.”
“Boa noite.”
“Boa noite.”
Encerro a ligação e rolo para o lado na cama, escondendo meu rosto no travesseiro.
Eu beijei o Levi.
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