Vento nas Folhas
1 O abismo encarando de volta.
Estou sentada ao lado de fora de casa.
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Não é difícil retornar a velhos hábitos quando você está cansado, há meio copo de vinho. Um cigarro já fumado.
É noite e há finalmente um pouco de silêncio externo e um vento agradável.
Parece que a tempestade acabou e há apenas calmaria.
Quando você finalmente decide, toda a confusão da tempestade cessa imediatamente.
Não quero contar como acaba. Nem como inicia, talvez o meio do caos traga mais entretenimento.
Mas, esse é meu ponto de vista.
Não sei o que a outra parte envolvida pensa. Nunca soube.
O fim se resume a ausência.
Ausência de inúmeras coisas.
E o meio se tornou caos por conta dela.
Eu com certeza tenho minha dose de culpa. Mas, sou boa com as palavras e escrever mantém minha sanidade, mesmo que apenas um pouquinho.
Faz duas noites que tenho sonhos de que me recordo ao abrir os olhos, ainda sentindo o gosto do prazer no corpo.
Não prazer carnal.
O prazer de me sentir vivo.
Parece que estou apenas em automático há tempos.
Os sonhos não me incomodam porque as pessoas nele são reais, mas, por que me lembram que há vida fora do caos.
E se há algo que eu amei, foi essa vida.
As risadas, compartilhar a festa que é estar vivo com o máximo de pessoas possível. O vento no rosto, o cheiro da chuva, as madrugadas insones cheias de canções que cantei sozinha ou acompanhada, o sentimento de acordar para um novo dia cheio de surpresas incríveis…
No meu sonho de hoje, eu estava sentada na beira de uma cama usando uma camisola preta e a voz atrás de mim sussurrou, beijando o meio das minhas costas e me subindo as mãos pelos braços.
“Depois de tanto tempo, finalmente, provar você, valeu cada ano de espera”
Eu sorri, soltando o ar pelo nariz.
“Não te assusta a minha condição?”
“Foi uma longa viagem para deixar que me assuste.”
Então olhei para o visitante da minha cama.
“Eu tô sonhando com você de novo, não tô?”
“Sempre que você percebe o que podia ter sido, você sonha… mas, aqui no seu sonho eu te amo livremente e você pode provar meu beijo. E você se apaixona por mim novamente”
Ele faz carinho nos meus cabelos. Eu choro e nos beijamos.
“Viu?” Ele sussurra nos meus lábios “vale cada segundo de espera.”
E ele tem razão.
Cada beijo seu, arrepia meus braços, faz com que todos os sons cessem.
Ainda agora, descrevendo a cena, ainda sinto seu toque, tão real, tão humano.
Enquanto na vida real, sinto que amei alguém que me odeia esse tempo todo.
Esse tempo que eu podia ter sido amada.
Ter me sentido amada, parece ter me sido tomado. A impressão que tenho, é que travei durante anos a vida de outra pessoa.
A arrastei e a algemei a um destino que ela não queria mas, por comodidade, foi ficando, ficando e ficando…
Só queria não chorar mais, não ter que viver esse papel de vítima e vilã.
Nesse exato momento, gostaria de ter onde passar a noite, mas, outros quatro destinos dependem de mim, de meu exemplo, caráter e força.
E como é difícil continuar completamente danificado. Sem peças de reposição, sem certeza de futuro. Sem um propósito fixo.
Encarei tanto tempo o abismo, que ele está me encarando de volta, doido para me encher de perguntas que certamente não saberei responder.
Sinto muita falta de escrever.
De ser criativa, ler. Ir a museus. Ir ao teatro. Sentar e saborear o gosto do que coloquei na boca. Inspirar PROFUNDAMENTE quando sinto o cheiro de árvores molhadas, para guardar o cheiro em minhas memórias. Para lembrar daquele momento, como sendo um momento de imenso prazer em estar vivo.
O momento que o vento tocava a copa das árvores e eu estava embaixo.
Eu fechava os olhos. Respirava fundo e apenas ouvia o som do vento nas folhas e sentia o vento no meu rosto.
Que nome eu me atreveria a dar para tal sensação?
Quando fecho os olhos, agora. Posso reproduzir o som, sei de todos os sentimentos envolvidos naquele momento. Eu poderia abrir meus braços e sentir o vento em tudo de mim.
Que lembrança excelente.
Serve para apaziguar um pouco do medo e da angústia. Trazer à tona sentimentos que ainda estão vivos. Apenas adormecidos.
Fico pensando apenas que, logo mais terei tempo de sentir isso novamente, mas, tenho medo de sucumbir no meio do caminho e que sentir isso novamente me seja tomado, novamente. E que eu pereça sem poder ter me sentido viva o suficiente.
O que me leva a máxima: — Se eu não matar essa situação, certamente ela me matará.
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Mas, ela já me matou.
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Estou tentando ressuscitar.
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Esse é um de meus gritos.
Mas, ele não é de socorro.
É de fera furiosa acuada e encurralada.
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Fera protegendo sua cria.
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Gravemente ferida,
Mas, não abatida.
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Quando o calor do momento passar.
Preciso avaliar as feridas.
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Se eu não sobreviver,
Preciso renascer.
💔
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