Veni Vidi Vici
21 Summertime Sadness
Notas iniciais
Por mais que minha história com a Fernanda tivesse tido definitivamente seu desfecho, não tão agradável quanto com Eduarda, eu ainda não estava totalmente convencido e muito menos aceitado tudo. Acho que no fim de tudo, eu merecia sentir essa raiva, pois foi a raiva e desprezo que sentiram de mim assim que descobriram meus segredos.
Eu estava na casa de Vinicius, antes eu gostava da solidão, não que eu gostasse, mas já havia me acostumado com ela, agora era o contrário, eu queria ficar o tempo todo que pudesse com ele, como se de um momento para outro eu fosse perde-lo.
— Todo... Todo esse tempo eu passei me culpando e me odiando por tudo que eu fiz para ela... – eu comecei, fitando a vista da rua pela janela da sala de seu apartamento. – E na verdade foi ela que começou tudo isso, ela que mentiu para mim primeiro, ela podia ter evitado tudo isso, Vinicius, tudo podia estar bem.
Vinicius não entendia o que eu estava falando pois eu não havia contado para ele minha conversa com Fernanda, então, assim que consegui me acalmar, resumi da melhor forma possível para ele.
Ele ouviu pacientemente e finalmente disse.
— Talvez ela não seja tão horrível assim.
Suas palavras causaram uma inesperada onda de descrença em mim. Como ele poderia ficar do lado dela?
— Você está a defendendo? – indaguei, me afastando dele bruscamente.
— Não é isso, mas você já parou para se pôr no lugar dela? – ele se aproxima novamente de mim.
— É claro que sim! – exclamo impaciente. – Toda vez que eu me pus no lugar dela me fez ver o quanto eu era uma pessoa horrível, mas agora eu sei de tudo, ela não era nenhuma santa, ela mentiu para mim tanto quanto eu menti para ela, ela não tem direito de me julgar, Vinicius!
Como ela não me entendia?
— Calma, calma, eu te entendo, mas sei lá, do jeito dela, ela estava querendo o seu bem. – justificou-se.
— Mentindo para mim? Deixando eu acreditar naquele nojento falso? – Vinicius me irritava cada vez mais com essa tentativa frustrada de defender os métodos de Fernanda de “Como deixar seu melhor amigo feliz escondendo a verdade dele.”
— Okay, ela está errada. – Vinicius admite, talvez mais para me tranquilizar e não puxar briga do que outra coisa, mas fico grato que seja assim. E o que eu estava fazendo? Não era para estar brigando com Vinicius, então corro e o abraço novamente, ele fica surpreso, mas logo devolve o gesto. – Não quero você pensando nisso, é passado, esquece... – ele dizia gentilmente enquanto fazia carinho no meu cabelo.
Vinicius me encara nos olhos depois de me abraçar, e eu tento sustentar aquele olhar, aqueles profundos olhos negros que poderiam me convencer a fazer qualquer coisa, eu amo tanto seus olhos, eu poderia ficar mirando-os para sempre. Então ele me beija, não muito ternamente, mas como se estivéssemos há vários dias sem nos vermos, e eu não reclamo, estou enlouquecendo, perco noção de espaço e tempo enquanto os lábios de Vinicius abraçam os meus. Ele desce as mãos de meu pescoço pelas minhas costas, provocando-me arrepios com seu toque suave, ele continua descendo e chega na minha bunda, no calor do momento eu não fico surpreso e faço o mesmo, estou tão excitado.
Vinicius começa a andar comigo em direção ao seu quarto, subimos as escadas agarrados e Vinicius quase me derruba com seus beijos incessantes,.
Ele fecha a porta atrás de si, e me beijando, joga-me na cama, tiro os tênis e Vinicius sobe em cima de mim, tirando a minha camisa, ele passa a língua pelo meu peito e barriga magra, eu solto gemidos de puro prazer enquanto ele desce cada vez mais.
E não há medos.
Não há arrependimentos.
Não há limites.
Eu me entrego totalmente à Vinicius.
* * *
Queria ter ficado dormindo para sempre com Vinicius.
Queria que a mãe dele não tivesse batido na porta no final daquela tarde.
Toc Toc Toc
O barulho era suave mas ainda assim incessante. Parecia muito distante, parecia fazer parte do sonho que eu estava tendo segundos antes.
Vinicius desvencilhou-me cuidadosamente de seu peito e saiu em direção à porta, vestindo apenas uma cueca. Escondi-me o máximo que pude sem parecer um idiota nas cobertas, não queria que sua mãe me visse na cama dele.
— Que foi, mãe? – Vinicius perguntou paciente ao abrir uma fresta da porta.
— Vinicius. – ela começou com a voz preocupada. – É o Cris...
A partir daí tudo aconteceu muito rápido e as coisas foram como borrões.
Eu tirei a cabeça debaixo das cobertas, fitando-a nos olhos, Diana nunca parecera tão abalada em todas as ocasiões em que a vi, ela era uma mulher e advogada forte, criou o filho totalmente sozinha depois que o marido a deixou e nunca pareceu reclamar disso, mas agora ela parecia estar arrasada, os olhos cheios de lágrimas. Vinicius olhou para mim e eu não entendia muito bem, ou não queria entender, não queria acreditar.
Nos vestimos rápido e já estávamos no carro da mãe de Vinicius, ninguém falava nada, Vinicius ficou com os olhos arregalados todo o caminho, apertei sua mão forte, tentando passar uma coragem que eu não tinha para oferecer.
Chegamos no hospital.
Novamente tudo foi um borrão.
Subimos escadas.
Chegamos em uma sala de espera.
Três pessoas choravam inconsolavelmente.
Uma senhora que devia ter por volta dos 50 anos de cabelos pretos cacheados. Um homem de mesma idade que tentava controlar as lágrimas e parecer forte, e uma mulher que não devia ter mais que 25 anos.
Tudo parecia desconectado, então Diana abraçou a mulher de cabelos pretos, chorando junto com ela. Vinicius e eu estávamos parados boquiabertos, sem compreender ao certo o que era tirado de nossas vidas, a mulher veio até nós, abraçou Vinicius forte, esse permaneceu parado, sem reação alguma, eu já sabia, eu já entendia, e as lágrimas começavam a queimar meus olhos. Não podia ser verdade.
Eles falavam palavras entre seus soluços, coisas que eu não entendia, minha cabeça estava cheia demais, um turbilhão de pensamentos passava por ela. Vinicius lentamente virou-se para mim, os olhos transbordando lágrimas.
— Não... – ele começou, desabando aos poucos. – Não pode ser. Não pode ser!
Abracei-o forte, e ambos precisávamos de força, mas nenhum de nós tinha.
Os gritos de dor de Vinicius partiram meu coração em mil pedaços do mesmo modo que os de Cris fizeram na noite em que Julia se fora, e agora era ele.
Cris se fora.
Diana nos abraçou enquanto também chorava, eu não lembrava quando tinha começado, mas chorava igual uma criança, os soluços balançando violentamente meu corpo contra o de Vinicius e sua mãe, eles faziam o mesmo.
Cris se fora.
Eu queria que tudo fosse um pesadelo horrível, mas que acabaria, que acordaria e Cris estaria ali. Não estivesse sendo mandado para um velório agora mesmo.
Ele foi vencido, não conseguiu conviver consigo mesmo e sua vida, poderia ser eu em seu lugar agora, há algum tempo atrás quando a vida pareceu insuportável e sem sentido, eu cortei meus pulsos, saiu tanto sangue, que eu achei que realmente tinha morrido.
Lembro da agonia que senti com a minha veia jorrando sangue, a dor, e então a bobeira de estar perdendo muito sangue, uma espécie de sono muito pesado abatendo-se sobre mim, muitas memórias passando pelos meus olhos como um filme.
Meu primeiro beijo.
As risadas que dava com a minha mãe há muito tempo atrás, antes dela se perder.
Os pouquíssimos bons momentos com meu pai que eu já havia esquecido.
E eu tive certeza, aquele seria meu fim. Eu adormeci, pensei que estivesse morto, mas acordei horas depois em um hospital, um pesado curativo no braço e minha mãe dormindo ao meu lado. Odiei-me tanto por não ter feito direito e ter que continuar vivendo essa existência patética e sem propósito.
Cris fizera direito, ele ingeriu tantas drogas que teve uma grave overdose e entrou em coma, ficando nesse estado apenas algumas horas antes de partir. Não acredito que ele tenha ido para algum lugar ruim por simplesmente desistir, ele não merecia isso, ele merecia uma vida eterna ao lado de Julia, uma vida que foi tirada dele.
Eu sentia tanta raiva.
Vinicius, sua mãe e eu estávamos sentados na sala de espera ainda, só nós três, os pais de Cris e sua irmã tinham outros assuntos burocráticos para cuidar, o que era uma covardia, submetê-los à todos esses processos nojentos agora que eles estavam devastados pela morte do filho.
Ninguém dizia nada, Vinicius chorava baixinho enquanto sua mãe o abraçava, eu estava ao lado pensando tantas coisas enquanto lágrimas silenciosas desciam por meu rosto.
Era tão injusto.
Primeiro Julia, agora Cris, porque as pessoas boas são tiradas de nós tão cedo. Eu queria ajudar Vinicius, Cris e ele se conheciam a vida toda, mas não tinha absolutamente nada que eu pudesse fazer, porque no meu estado, eu precisava de ajuda tanto quanto ele.
— Acho que devemos ir para casa. – Diana anunciou depois do que pareceu uma eternidade. – Eu levo você. – ela acrescentou para mim.
E fomos, novamente em um silêncio que gritava desespero e tristeza.
Não fui capaz de dizer nada à Vinicius, apenas forcei um sorriso triste para ele e nos abraçamos brevemente antes de eu sair do carro, era incrível como tudo mudou em apenas um dia.
Eram 23hrs, eu havia mandado uma mensagem para minha mãe avisando que chegaria tarde, ela não perguntou onde eu estava nem por que meus olhos estavam vermelhos e inchados, e isso me deu mais raiva, não que fosse algo inesperado, mas mesmo assim, eu queria chorar para alguém que pudesse me dar forças. Eu não conhecia Cris há muito tempo, e boa parte desse tempo nós fomos inimigos, mas no final estávamos nos dando tão bem, seríamos bons amigos.
Nunca mais teríamos essa chance.
* * *
Aguentar o funeral de Julia já foi insuportável o bastante, mas o de Cris parecia ultrapassar todos os limites de dor que um ser humano pode aguentar. O caixão marrom era levado por homens de terno e óculos escuros da família, Vinicius, Diana e eu íamos atrás, tentando ao máximo controlar as lágrimas que gritavam para escorrer de nossos rostos.
Foi tudo terrível e ainda não parecia real.
Quando acabou e estavam todos indo embora. A mãe de Vinicius, a qual eu descobrira a pouco tempo que se chamava Luciana, veio até Vinicius e eu.
— Meu filho deixou isso para vocês. – e de dentro da bolsa puxou um envelope branco simples. A curiosidade sobre o conteúdo me deixou inquieto, o que Cris teria dito em suas últimas palavras?
Vinicius e eu nos distanciamos para um espaço do cemitério onde não houvesse mais ninguém, e nem túmulos, embaixo de uma grande e velha árvore, sob uma grama verde, nos sentamos lado a lado e Vinicius abriu o envelope. Como previsto, nele estava uma carta, escrita a mão e extensa, ambos lemos silenciosamente.
“Antes de tudo, quero pedir perdão.
Espero que de alguma forma consigam me perdoar pelo que fiz, pois se existe alguma coisa depois dessa suja e inexplicável vida, eu vou precisar do perdão de vocês para seguir em frente. Escreverei isso em todas as cartas, porque eu tenho sim em mente a quantidade de pessoas que vou deixar tristes. E peço inutilmente que não fiquem, pois o estado que eu estava vivendo sim era triste, deplorável. Eu simplesmente não consegui mais aguentar a minha existência, sim, eu fui fraco, sei que tem milhares de pessoas que passam pela mesma coisa, ou até pior e conseguem superar, me perdoem se eu não estou incluído nessas pessoas...
Agora, à vocês, meu casal favorito de todos os tempos...
Vinicius Oliveira, você foi o irmão que eu sempre quis ter, eu te amei incondicionalmente cara, se você precisasse que eu literalmente botasse minha mão no fogo por você, eu faria sem pensar duas vezes. Porque você sempre esteve do meu lado, sempre iluminando minha vida. E eu me senti triste quando não soube que você era gay, porra, eu estava a vida toda com você e nunca percebi... Me perdoa por isso também? Vini, não quero que você sofra, por mais que eu saiba que é inútil pedir isso porque óbvio que você vai sentir minha falta, eu sou o máximo! Mas sério, você vai ser feliz, você já é feliz, e eu te garanto que provavelmente estou melhor morto. Não acabei com a minha vida só por conta da morte da Julia, mas sim porque eu sei que as coisas nunca mais seriam as mesmas para mim, eu a amaria para sempre, e isso seria injusto com qualquer outra garota que eu ficasse, e eu não queria mais ficar sozinho, Vini. Não quero em hipótese alguma que você se sinta culpado por eu ter cometido suicídio, como se você não tivesse feito o suficiente para me deixar bem, você fez mais do que o suficiente. Ninguém poderia me ajudar, aceite isso, e se você continuar se culpando, juro que volto para assombrar você.
E agora, Sr. Oliveira, quem diria... O cara que eu odiei desde praticamente a primeira vez que eu vi seria o namorado do meu melhor amigo, e eu achando que você estava tentando tomar meu lugar como melhor amigo dele... Eu sinto tanto que não pudemos aproveitar mais dessa amizade, sinto tanto que tudo teve que ser tão injusto, eu queria ter mais tempo com você do que eu tive, nós poderíamos ter sido grandes amigos. Sinto muito mesmo, queria que as coisas fossem diferentes, mas elas não são. Sei que você merece o Vinicius do mesmo modo que sei que vocês vão estar juntos por muito tempo, como estão agora, provavelmente chorando e dando risos tristes com as coisas idiotas que estou dizendo.
Vocês são incríveis, vocês animaram tantos dias meus, meus amigos, meus irmãos de outros pais... Vou levar vocês para sempre comigo, aonde quer que eu vá, e quero que vocês façam isso comigo, não como o garoto que se matou, mas sim as boas lembranças, as memórias que nunca vão morrer, quero que as levem com vocês para sempre, e quando meu nome passar pela mente de vocês lembrem: “Esse foi aquele garoto chato que estava sempre sorrindo.”
Com todo amor do mundo, e
Para sempre,
Cris.”
Cris estava certo, choramos feito crianças e rimos tristes de suas piadas escritas, ele conseguira manter parte de seu bom humor mesmo no final, por nós. Cris fora extraordinário, e assim ele seria lembrado.
Em meio às lágrimas e com a voz falha, Vinicius confirma o incontestável.
— Você pode me assombrar se quiser, Cris.
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