Veni Vidi Vici
22 Veni Vidi Vici
Notas iniciais
Era incrível como tinha se passado um ano desde a morte de Cris, ou melhor, passaria, faltava uma semana para esse triste aniversário.
Mas Cris amava festas, e Vinicius e eu decidimos que seria apropriado dar uma festa em sua homenagem, então essa semana estava sendo particularmente agitada, com todos os preparativos, incluindo local, bebidas, convidados. Não seria apenas uma festa, seria “A Festa”. Cris merecia isso, o único erro era ele não estar aqui para sua própria festa.
Mas muita coisa se decorreu nesse ano que passou, e acho que eu devo à vocês contar as coisas mais importantes.
15 de Agosto de 2015
Foi o fim.
Foi o melhor fim que eu já assistira em minha vida.
Era mais um daqueles fins de semana que meu pai ficava mais insuportável do que o de costume e bebia até cair no chão gritando coisas sem sentido.
Eu me trancava no quarto como sempre com os fones de ouvido tocando música no volume máximo, e minha mãe sabe-se lá que diabos fazia, eu tinha agonia só de imaginar. Mas então eu ouvi gritos sobressaindo os berros masculinos de meu pai, estes eram gritos mais agudos, mas ainda assim fortes. Tirei os fones rapidamente e apurei os ouvidos, o que não era muito preciso, para entender o que estava acontecendo.
– Você vai ir embora! Você vai embora agora! – uma mulher gritava, alguma coisa me dizia que parecia a voz da minha mãe, mas não podia ser. – Se você não for embora agora eu vou acabar com a sua vida! Vou contar pra polícia todas as atrocidades que você fez todos esses anos.
Com certeza era a minha mãe, levantei-me da cama e fui até a porta correndo, quando abri, deparei-me com uma cena, que se não fosse tão grave e inesperada, com certeza seria cômica. Minha mãe, segurando ameaçadoramente uma vassoura na direção do meu pai, que tentava se levantar inutilmente do chão com os olhos arregalados, compartilhávamos da mesma surpresa.
Aquilo definitivamente não podia estar acontecendo, aquela não podia ser minha mãe.
Boquiaberto eu assisti enquanto ela se encaminhava rapidamente ao quarto e começava a pegar as roupas de meu pai e jogá-las para fora do pátio, ele finalmente se levantava, mas tão boquiaberto quanto eu, não era capaz de falar nada.
E então ela o agrediu, dando uma vassourada em suas costas, fazendo com que ele cambaleasse vários passos para fora da casa, os vizinhos começavam a se acumular para ver a cena.
– Mãe! – gritei, correndo até ela. – Para com isso!
Mas minhas palavras me traiam, eu estava amando o que ela fazia, muitas vezes eu imaginei uma cena assim, minha mãe dando um basta em meu pai, eu mesmo já me imaginei fazendo isso, mas nunca fui corajoso o suficiente para fazê-lo, e agora isso se tornava realidade.
Ela fingiu não me ouvir e continuou.
– Eu não te aguento mais, Vladimir! Eu quero você fora das nossas vidas para sempre! – ela gritava com uma raiva gigantesca. – Você já tirou muitos anos da minha vida! Não vou deixar você tirar o resto!
Meu pai até tentou dizer alguma coisa, mas os constantes golpes de vassoura que não o acertavam por pouco o impediram, e ele se foi portão afora, andando em zigue zague na rua, tamanha era sua bebedeira, os vizinhos que observavam encararam minha mãe, e de algum deles começaram os aplausos, e então um coro deles, e eu estava tão feliz, estava tão orgulhoso de minha mãe que a abracei. E eu tinha esquecido o quanto essa sensação era maravilhosa, nem me lembrava da última vez que tinha abraçado ela, e era incrível, eu a amava tanto. Ela parecia prestes a chorar, mas ela permaneceu forte, ela sempre permaneceu forte.
E eu sabia que de agora em diante, por mais que enfrentássemos dificuldades, tudo seria melhor.
– Você tem certeza que chamou todo mundo? – Vinicius me perguntava pelo que parecia ser a milésima vez.
– Não, Vinicius, acho que esqueci de convidar a rainha da Inglaterra. – respondi irônico mas sem raiva. Ele estava deitado no sofá com os pés no meu colo mexendo em seu tablet, conferindo novamente a lista de convidados que estamos planejando desde que tivemos a ideia da festa, já eu estava com um notebook conferindo os preços das bebidas.
– Ah, seria tão foda se ele estivesse aqui. – Vinicius divaga, deixando o tablet de lado.
– Seria mesmo. – e então a imaginação de Cris aqui conosco, talvez sentado no chão entre Vinicius e eu me vem à cabeça, talvez ele falasse para não convidarmos algumas “vadias” que Julia não ia com a cara. Era definitivamente uma merda ele ter partido, sentíamos sua falta todos os dias, por mais que tentássemos seguir suas instruções da carta. Eu imaginava o quanto era mais difícil para Vinicius. Eles se conheciam a vida toda, e então simplesmente... Adeus.
Afastei rapidamente os pensamentos depressivos da minha cabeça para não ser engolido pela tristeza como acontecera várias vezes desde que Cris se fora, agora era julho, faltando uma semana para o dia 10 de julho, quando Cris morreu.
– E sua mãe? Como está o emprego? – felizmente Vinicius puxava um assunto tosco para nos distrair.
– Ah, ela está amando o trabalho, as coisas lá em casas estão perfeitas. – Em parte isso era verdade, em parte não. Bom, a parte que era verdade é que realmente as coisas estavam bem melhores lá em casa, minha mãe tinha conseguido um emprego como ajudante de cozinha um mês depois que meu pai foi embora e percebendo que ela tinha talento, promoveram-na para cozinheira. Meu pai não foi embora tão facilmente, mamãe teve que entrar na justiça e realmente deu parte dele, com várias testemunhas do seu maltrato durante anos, ele foi obrigado a deixar a casa sem direito a nada, e ainda não podia chegar perto dela sem ser preso. Mas o dinheiro escasso ainda era um problema, por isso que eu tinha que rapidamente arranjar um emprego para ajuda-la nas despesas. Mas eu preferia mil vezes isso do que ter que conviver com meu pai constantemente bêbado. Agora era apenas eu e minha mãe, e isso era maravilhoso, aos poucos ela ia deixando de tomar os remédios anti depressivos e sorria com mais frequência, como se não lembrasse bem como fazê-lo, nós nos aproximávamos cada vez mais, porque por mais que morássemos a vida toda na mesma casa nunca fomos nem um pouco próximos, e agora isso finalmente podia acontecer, ela finalmente pôde conhecer Vinicius direito, na verdade, isso também aconteceu...
18 de Outubro de 2015
Eu estava muito nervoso, mil vezes mais nervoso do que quando jantamos com a mãe de Vinicius, isso era diferente, viria Diana e Vinicius aqui, conhecer a minha mãe, e por mais que ela já estivesse muito melhor desde que meu pai tinha realmente ido embora, depois de ter que recorrer aos tribunais, nossas famílias se conheceriam. Isso era sério, e eu tinha muito medo que qualquer coisa desse errado.
Eu vestia uma camisa social branca que eu não vestia há muito tempo e tentei ao máximo arrumar o cabelo, eu já conhecia a mãe de Vinicius, mas de uma forma tola eu queria que ela tivesse uma boa impressão sobre nós. Era até estupido comparar o apartamento classe média alta deles com a nossa casa, que não era de todo ruim, mas era totalmente inferior à de Vinicius, mas essa era a minha menor preocupação.
Era um almoço de domingo o que tínhamos combinado, e minha mãe notou meu nervosismo depois que eu não parava de andar de um lado para outro na sala.
– Ei. – mamãe me chamou, parei, fitando-a de olhos arregalados. – Você não precisa ficar assim. – ela falava em um tom normal agora, sem nenhum sussurro, e só de lembrar como as coisas eram e como estavam agora me animava intensamente.
– Você vai conhecer a família do meu namorado. – Sim, Vinicius e eu entramos em um acordo silencioso de que éramos namorados, simplesmente começamos a chamar e tratar o outro como tal, e isso se tornou verdade.
Rosana ficou em silêncio, mexendo em suas panelas.
– Você já disse que queria se matar por eu ser gay. – Não pude conter, talvez fosse eu a estragar tudo, mas depois daquela infeliz ocasião, nós nunca comentamos o assunto, por mais que eu tivesse a impressão de que ela não pensava mais assim.
Ela parou o que estava fazendo e fitou algum ponto do fogão, pensativa.
– Meu filho, e essa é a coisa que eu mais me arrependo de ter dito na vida. – os sussurros estavam ali de novo, mas eu sabia que era porque ela estava envergonhada do que fizera.
Meus olhos se encheram de lágrimas, era maravilhosa aquela confirmação.
Ignorando a voz baixa, ela ergueu o tom e continuou.
– Eu sou tão orgulhosa de você, e tenho certeza que vou ficar orgulhosa da escolha que você fez de parceiro, você não vai cometer o mesmo erro que eu, sei disso.
Suas palavras eram como gasolina para a faísca que estava minha coragem.
– Eu te amo, mãe. – deixei sair, e fui tomado pela veracidade daquelas palavras, que estiveram tanto tempo dentro de mim sem serem ditas, elas sempre foram verdade, mesmo quando eu tinha raiva dela por aceitar tudo que meu pai fazia, mesmo quando tinha raiva de mim mesmo por não poder ajudar, elas sempre estiveram ali, e esse sentimento sempre foi sólido e verdadeiro.
– Eu também te amo, meu filho. – ela confirmou, abrindo um tímido sorriso, então eu não precisava mais ouvir mais nada, o nervosismo e receio de que qualquer coisa pudesse dar errado não existia mais em mim, ela terminou seu almoço, que com certeza seria fantástico e esperamos Diana e Vinicius chegarem.
Por volta das 11:30min eles chegaram, Vinicius estava impecável em uma calça justa preta, uma camisa também social azul marinha e tênis preto. Diana, mas baixa até que eu, estava imponente como sempre, com o cabelo preso e uma maquiagem leve, a roupa era normal, mas aquela mulher realmente emanava um poder.
Minha mãe estava normal, abriguei-a a pôr um pouco de maquiagem no rosto, mas aprendemos que eu sabia maquiar melhor que ela, o que gerou algumas risadas enquanto eu a enfeitava, foi uma experiência interessante e ela gostou, eu nunca tinha visto minha mãe tão linda, quando saiu do quarto, usava um vestido verde comum e solto, que deixava ela bem, mesmo que ela tivesse alguns quilos à mais.
– Ah, olá! – Diana cumprimentou ela com um beijinho no rosto, elas eram praticamente da mesma altura. Vinicius cumprimentou-a um pouco menos à vontade, por mais que ele fosse confiante, não podia evitar de ficar nervoso, e esse compartilhamento de sentimentos entre nós fez com que eu me sentisse aliviado.
– A comida já está pronta, vamos, vamos. – minha mãe tentou ser convidativa, o que soou bem forçado e não natural, mas eu estava contente por ela tentar, afinal ela não estava acostumada a receber visitas em casa, mas ela parecia contente com essa novidade.
Tudo ocorrera perfeitamente, a mãe de Vinicius era ótima em puxar assunto, e ela e minha mãe se deram bem, por mais que Rosana tivesse dificuldades em responder certas coisas ou dar respostas mais longas, ou entender brincadeiras, acho que realmente não poderia ter sido muito melhor do que foi, além do mais, Diana sabia dos problemas de minha mãe, já que foi para ela que eu pedi auxílio quando minha mãe entrou com um processo contra meu pai. Vinicius parecia muito tímido, e respondia as coisas com poucas palavras e ficava constantemente vermelho, o que foi muito fofo. Eu queria abraça-lo o tempo todo que fiquei sentado do seu lado, mas tínhamos que manter os modos.
A tarde também foi agradável, mamãe e Diana ficaram na cozinha lavando a louça e depois foram pra sala, em passo que eu e Vinicius fomos para o quarto, deixando a porta aberta, para que não pensassem que estávamos fazendo coisas...impróprias para um encontro em família.
Agora eu podia abraça-lo, e foi isso que fiz, abracei Vinicius pelas costas enquanto olhávamos pela janela do meu quarto, que tinha a vista para o jardim bem cuidado do vizinho.
– Eu te amo. – ele sussurrou em meu envolvido.
Eu sabia que tinha que dizer o mesmo, mas eu fiquei boquiaberto, nunca tinha tido tanta verdade em três palavras, e eu prendi a respiração com a surpresa de ouvi-las.
– Tudo bem? – Vinicius perguntou.
– Eu te amo. – confirmei, apertando mais o abraço. E eu estava certo, muitos meses atrás, sobre dizer que existem coisas que vale a pena ter esperança, que vale a pena seguir em frente.
O nome disso era Vinicius.
A semana passava cada vez mais rápido e parecia que nunca íamos terminar os afazeres da festa de Cris, Vinicius, minha mãe e eu estávamos na frente do clube que alugamos recebendo as bolas infláveis e logo saímos para comprar os copos que brilham no escuro, tudo tinha que estar perfeito. Aquela seria a noite de Cris, a festa perfeita que ele gostaria de estar.
19 de Dezembro de 2015
Tinha chegado o dia da festa de Cris.
Vinicius e eu já estávamos lá, junto de alguns outros amigos nossos, mas tinha muito mais gente para chegar, uma música tocava um pouco baixo enquanto a festa não começava de fato.
– Ele estaria feliz se estivesse aqui. – falei à Vinicius, que parecia que ia chorar à qualquer momento.
– Sim, ele estaria. Queria que ele tivesse conseguido superar, queria... – e então eu o abracei, porque era isso que eu devia fazer, estava implícito, eu estaria sempre ali quando Vinicius precisasse, e eu sei que poderia contar com ele para qualquer coisa também, essa era a maior certeza que tínhamos sobre o outro.
E então ela chegou, com uma blusa preta degotada e um short muito curto.
Amanda.
Acompanhada de sua namorada, Andressa.
As coisas entre nós só melhoraram depois que ela se arrependeu e voltamos a nos falar, tudo estava como sempre deveria ser.
“Cansei de homens.” Amanda nos disse quando nos apresentou para Andressa, meses atrás. Esta era o oposto dela, alta, loira e magra, parecia uma boneca de tão meiga. E realmente ela parecia mais feliz do que nunca estivera antes, com qualquer outro garoto, e eu estava mais do que feliz por ela, todos mereciam ser felizes, e Amanda merecia alcançar essa felicidade depois de tudo que passara com Junior, que até agora estava atrás das grades.
A festa tinha começado de fato, o salão estava lotado, pessoas dançavam aqui e ali com copos brilhantes nas mãos, outras jogavam as levíssimas bolas infláveis rosas uns nos outros, todos estavam se divertindo, imaginei Cris ali, beijando Julia em algum lugar, eles deveriam estar juntos, a tragédia não devia ter os separado.
Antes de subir no palco, apertei a mão de Vinicius, encorajando-o a subir lá.
– Olá. – Vinicius pigarreou assim que a música foi parando. – Hã... Eu queria dizer umas palavras, porque como todos sabem, essa festa é dedicada ao Cris, que nos deixou exatamente um ano atrás. – todos prestavam atenção em silêncio. – Eu tenho muita coisa para dizer sobre o Cris, e felizmente, acho que todas elas eu disse enquanto ele estava vivo. – uma pausa, tomando coragem novamente. – Cris era um amigo fiel, um pouquinho ciumento, ele tinha medo de ser substituído, mas mal sabia ele que ele era completamente insubstituível. Ele ficou do meu lado até o fim, e eu fiquei do lado dele, eu queria ter feito mais por ele, mas acho que infelizmente não tinha nada que eu pudesse fazer. – Vinicius parecia estar um pouco enrolado e nervoso, e me olhou, na frente do palco, olhando-o orgulhoso. – Ele foi uma das pessoas mais sinceras que eu conheci e eu só queria dizer que estamos fazendo isso por você, Cris, mas nenhuma festa vai ser a mesma sem você. Eu te amo, irmão, onde quer que você esteja. Ao Cris! – Vinicius propõe o brinde quando as lágrimas estão quase vencendo a batalha, e todos repetem em coro “Ao Cris!” e saímos do salão, para um lugar mais privado. O teto.
O ar lá fora está maravilhoso e refrescante, em contrapartida com o ar abafado de dentro da festa. Vinicius seca as lágrimas do rosto e eu seguro sua mão.
– Você foi incrível. – elogio-o e ele sorri de volta, e eu sou tomado por uma das melhores memórias.
26 de Dezembro de 2015
O natal foi incrível, como há anos não fora. Mamãe e eu viajamos para Santa Maria, onde moravam uns parentes meus que eu nem lembrava direito, mas estar cercado pela família da minha mãe, que ria de qualquer coisa era confortante depois de muitos natais desastrosos em minha casa com meu pai.
Mas o mais incrível aconteceu um dia depois, quando retornamos para Porto Alegre.
Vinicius e eu estávamos no teto do seu prédio, eu ia dormir lá nessa noite, e o céu estava coberto por nuvens escuras, como se fosse chover a qualquer momento, mas nós não nos importávamos, estávamos conversando há um tempão, quando as gotas pesadas começaram a cair.
Vinicius e eu ríamos um do outro enquanto a água nos encharcava, então ele parou na minha frente, segurando meus braços.
– Tem uma coisa que quero dar para você.- ele falta alto, sobrepondo o barulho da chuva,
– Hum... – abro um sorriso malicioso. – Acho que vou gostar.
– Cale a boca. – ele diz sorrindo, e então se ajoelha, e do bolso tira um anel. Meu queixo cai.
– Calma, não estou te pedindo em casamento, isso é só um anel de compromisso, porque eu quero que você seja meu de todas as formas possíveis, e em breve eu quero sim te pedir em casamento e te fazer meu para sempre, mas nenhum anel, e nenhum papel vão ser suficientes para me fazer pertencer à você, mas vamos começar com isso.
Eu não tenho palavras, as lágrimas de emoção se misturando com a chuva que escorre no meu rosto, e assim que Vinicius põe o anel no meu dedo, eu coloco outro no seu, ele é simples e dourado, mas é perfeito. E então eu o puxo para cima e nos beijamos.
Por um longo tempo eu perco a noção de onde estamos e o que estamos fazendo, é meu primeiro beijo na chuva, e ele não podia ser mais épico. Vinicius é perfeito, e eu que pedirei ele em casamento, o mais rápido o possível, eu entendo o que ele quer dizer, e eu quero o mesmo, quero que ele fique comigo para sempre, eu não preciso de mais ninguém, ele me faz feliz como nenhum outro garoto fez.
Talvez eu seja jovem demais para dizer isso, mas não me importo, pois eu estou feliz com a certeza de que Vinicius é meu, e eu sou dele.
Agora estamos novamente no teto, talvez não tão altos como da outra vez, e também não está chovendo, mas a sensação é a mesma, instintivamente, olho para a aliança em meu dedo, eu a amo como se fizesse parte de mim.
– Isso me lembrou quando você me deu isso. – digo à Vinicius, que está apoiado no muro nos limites do teto, fitando a cidade abaixo, agora praticamente deserta.
– Foi um dos melhores dias da minha vida. – ele olha para mim sorrindo e eu me junto à ele num abraço, ambos fitando os prédios envolta.
– A vida é louca, não é? – divago.
– É, mas tudo vai ficar bem desde que estejamos juntos.
E aquela é toda a verdade, nós podemos passar por qualquer coisa, sei que vamos superar porque nós nos amamos, e nós não só precisamos um do outro, nós nos completamos.
E o momento implora, e eu cedo e beijo Vinicius, e não há mais ninguém no mundo, a música abafada agora não existe mais, nem a multidão abaixo de nós, Vinicius e eu somos um só, e talvez a grande lua cheia e o céu estrelado, e até aquele prédio, eram um só, porque onde um estava o outro gostaria de estar, e encontraríamos amor e esperança em qualquer lugar, desde que estejamos juntos.
E nesse momento eu sei que venci,
Fui um guerreiro.
Eu aguentei firme todos os meus erros e minhas perdas, por mais que eu tenha fraquejado, e feito coisas estúpidas.
Eu venci meus demônios, eles não podem me derrotar.
Eles podem quebrar qualquer coisa, mas eu posso aguentar tudo.
E eu achei Vinicius. Eu acreditei que posso me tornar uma pessoa boa, uma pessoa confiável, posso ser quem eu quero ser.
“Prazer, o meu nome é o nome do autor o qual os escreve”.
E Eu vim.
Eu vi.
Eu venci.
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