Veni Vidi Vici
14 Just A Little Bit Of Your Heart
Notas iniciais
Eduarda não encarou tão mal de início quando soube a verdade.
Ela estava aqui em casa para posar quando eu falei, uma jogada arriscada, mas tinha medo que se falasse antes ela simplesmente iria embora, queria que ela fosse obrigada a ficar, não poderia sair no meio da madrugada daqui. Eduarda sabia como meus pais eram e ela era a única pessoa no mundo que eu não me importava de ver eles.
Eu conhecia ela praticamente a minha vida toda, e ela era a pessoa que eu mais confiava no mundo, e eu era a dela, porém eu destruí essa confiança, construída em anos, destruída em apenas uma noite.
Quando comecei a falar as coisas que Richard falou dela naquela noite que dormi lá, ela ficou chocada.
Ele havia dito coisas do tipo.
“Eu estaria mais feliz com a Fernanda do que com ela.”
“Ela é muito imatura as vezes.”
“Eu fico com ela porque eu sei que a vida dela é difícil e eu quero cuidar dela.”
Mas ele não afirmou amar ela.
Você deve me perguntar por que eu contei isso pra ela.
“Ah, porque você conhece ela a mais de 10 anos e essa era a coisa certa a se fazer.”
Gostaria de dizer que era esse o motivo, mas não era.
Eu estava me vingando de Richard, porque minutos antes, Eduarda me contava coisas que ele disse de mim.
Frases como:
“Eu estou de saco cheio dele.”
“Ele é uma bixa escrota.”
Faziam parte de um catálogo de outras frases que ela me mostrou ele falando em conversas do Facebook.
Eu estava triste e com raiva ao mesmo tempo, esse era particularmente um dos piores sentimentos do mundo.
Eu havia confiado tanto em Richard, me abri para ele no dia em que dormi na casa dele, ele mesmo se abriu pra mim, disse que eu era como um irmão pra ele, que ele sempre estaria ali pra mim, para depois chegar e dizer isso de mim pra minha melhor amiga e namorada dele.
A raiva tomou conta de minhas atitudes e eu contei tudo que ele tinha me falado sobre ela naquela noite, com intuito de que eles terminassem, porém, isso não foi suficiente, e foi aí que eu vi que eu não podia mais esconder dela, eu teria que jogar pesado.
Eu cairia, mas Richard cairia junto comigo.
Dia sim, dia não.
Era basicamente isso que eu estava fazendo em relação à escola. Eu realmente não aguentava ficar muito tempo naquele lugar, não aguentava cada partícula do meu corpo querer abraçar Vinicius, querer simplesmente tocar seus lábios. Era a pior tortura.
Eu estava à um fio de me cortar.
Era idiota, era estúpido e era sem sentido.
Mas eu queria, queria muito a lâmina contra a minha pele.
A breve dor e o fio de sangue escorrendo.
Eu me controlava todos os dias para não fazer isso, eu tentava mais do que tudo por o meu lado altruísta para agir, mas cada dia longe de Vinicius tornava isso mais difícil, uma parte – extremamente grande e forte – dentro de mim gritava desesperadamente por deixar Amanda de lado e me entregar à ele, e era essa parte minha que eu odiava, ela que tinha feito eu perder tudo.
Eu estava deitado na cama, numa certa tarde de quinta-feira quando minha mãe deu leves batidas na porta de madeira velha do meu pequeno quarto. Abro a porta e encontro o rosto magro de Rosana na porta, os cabelos que um dia foram pretos, agora cheio de fios brancos embaralhados.
— Que foi, mãe? – pergunto, sem interesse.
— Eu estava indo no mercado e encontrei um garoto aqui na frente, dizendo que quer falar com você. – ela responde baixinho, sem me olhar nos olhos.
Meu coração gela e antes que eu possa pensar em algo, uma mensagem chega no meu celular, abro e está escrito: Vou ficar aqui até você falar comigo. Trouxe uma barraca.
Minha mãe continua parada na porta esperando uma resposta, então decido por deixa-lo entrar, apesar da vergonha da bagunça da casa, que não chega nem perto de ser comparada com o apartamento classe média-alta de Vinicius. E olhe só, ele realmente trouxe uma barraca debaixo do braço.
— Seu pai vai chegar logo... – ela sussurra e me dá as costas, isso era um aviso, de que coisas ruins aconteceriam se ele chegasse e me visse com um garoto aqui.
Aguardei na sala, e logo Vinicius passou pela porta envergonhado.
Mal consegui encará-lo, já ele, me fitava com os olhos arregalados.
— Eu sei de tudo. – ele disse enfim.
— Tudo o que? – perguntei, um pouco confuso, mas a resposta veio alguns segundos depois de eu fechar a boca.
— Sobre a Amanda. – ele confirma. – Eu já conversei com ela.
Fico calado por outros segundos que parecem se arrastar.
— Como você soube?
— Ouvi ela falando com um amigo lá do colégio.
Silêncio novamente.
— Porra, o que eu preciso fazer? – Vinicius diz exasperado.
— Nada, Vinicius. – respondo triste. – Eu quero mais que tudo ficar com você, mas eu já perdi muitas pessoas por ser egoísta e pensar só em mim, eu não posso continuar fazendo isso, eu quero ser uma pessoa boa. – as palavras soam bobas até para mim, mas são a mais pura verdade.
Vinicius me encara com as sobrancelhas juntas.
— Você não vai ser egoísta, nós vamos pensar em algo, juntos! – ele exclama, aproximando-se de mim. – Você me fez prometer que eu nunca deixaria você ir, e é isso que eu vou fazer. – ele acrescentou. – Ninguém nunca fez eu me sentir tão eu mesmo quanto você faz, se você permitir eu quero passar todos os dias que puder ao seu lado.
Nesse momento ele está à apenas uns 20cm de mim e meu rosto está de frente para seu pescoço, levanto a cabeça e miro seus olhos.
Não resisto.
Meus lábios encontram os de Vinicius e ele me abraça forte enquanto nos beijamos. E eu me sinto livre, e me sinto culpado por me sentir livre.
Ficamos nos beijando por tanto tempo que não sei ao certo quanto tempo se passou.
— Eu não deveria fazer isso, Vinicius, a Amanda tem sido ótima para mim. – digo, enquanto estamos com as mãos entrelaçadas.
— Juntos, não ouviu? – ele me repreende com um sorriso, o sorriso que eu mais senti falta em toda a minha vida. – Nós pensaremos em algo, se ela gosta tanto de você e de mim, vai ficar feliz.
Tento concordar com o que ele diz.
— Vini, agora você tem que ir embora, sério. – aviso, com muita relutância. – Daqui a pouco minha mãe volta e meu pai chega em casa.
— Que problema tem? – ele pergunta, inocente. – A propósito, você nunca me falou deles.
— Há uma razão... – respondo envergonhado.
— Vem comigo! – ele diz de imediato. – Pra minha casa! Por favor! – ele suplica, fazendo uma carinha fofa, a qual eu não resisto.
— Tá bom, vou deixar um bilhete pra minha mãe. – digo, e saio a procura de um papel e uma caneta depois que Vinicius me dá um beijo de agradecimento muito empolgado.
Aí estava o antigo eu de novo, imprudente e sem pensar nas consequências, aquele que perdia tudo no final.
Saímos de casa em direção à parada, Vinicius me abraça carinhosamente enquanto esperamos o ônibus e pela primeira vez eu não me importo com os olhares enviesados das pessoas que passam, não me importo com o que estejam pensando ou comentando, eu estou feliz, e isso é tudo que importa. Provavelmente mais feliz do que qualquer um dos que nos encaram.
Mas algo acontece, do outro lado da rua, o ônibus indo no sentido contrário do que queremos pegar para e dele desce uma pessoa.
Amanda.
Antes que Vinicius e eu possamos tomar qualquer reação ela nos encara e abre a boca.
Rapidamente nos separamos e tentamos chegar até ela, porém, uma grande dúzia de carros passando – que parece surgir do asfalto – nos bloqueia, e Amanda continua nos encarando até que, com lágrimas nos olhos sai correndo para o mais longe que pode do seu pior pesadelo. Vinicius com outra pessoa, com outro homem.
Comigo.
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