Notas iniciais
Enquanto temos mais algumas reflexões sobre seu passado e história, Ele e Amanda se aproximam cada vez mais de Vinicius. Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=fDVC_pFMBMM

Não sei se alguém já sentiu isso.

Quando eu estava fazendo as coisas erradas, eu tinha uma inconsciente consciência de que era errado, mas eu realmente nunca parei para pensar nas consequências que as coisas que eu fiz de errado teriam, nas coisas que desmoronariam ao meu redor, na solidão iminente que eu entraria. Digo isso não como justificativa dos erros que cometi, mas isso me leva à conclusão de que eu realmente estava apenas sendo egoísta, pensava apenas no meu bem estar e no momento, principalmente no momento, da satisfação que aquilo me traria, não pensei no amanhã, não pensei no que aconteceria depois, o amanhã chegou, ele se chama Hoje.

Eu sou uma ruína.

Tudo que sobrou de mim são ruínas do que eu era.

Eu tento seguir em frente mas é um movimento em vão.

Palavras são como armas, elas traem, podemos dizer que eu posso ser considerado uma palavra, eu traí, nunca tinha sido traído, muito menos por amigos, não tinha motivos para fazer o que eu fiz, não tinha ao menos uma desculpa descente. Apenas aconteceu. Bum. Tudo caiu.

E então um lembrete na minha pele, dos erros que eu cometi, do que eu perdi, e de que eu nunca mais deveria cometê-los de novo. Dolorosa e permanente.

Tudo aquilo aconteceu numa sexta, e stalkeei Amanda o fim de semana todo atrás do Facebook de Vinicius, mas aparentemente a vadia ou não tinha ele, ou eu simplesmente não achei, até deixei uma mensagem para ela perguntando, mas ela não ficou online.

O fim de semana foi a coisa mais torturante que eu já passava há muito tempo, passei os dias trancados no meu quarto ouvindo música, terminando de ler “A Menina Que Roubava Livros” pela milésima vez e até, pasmem... Estudando. E claro, a ansiosidade aumentando a cada segundo por respostas.

O jeito foi esperar até segunda, já que não tinha visto Vinicius, nem mesmo seu amigo Cris ou a Amanda na saída da escola na sexta.

Segunda-feira.

Eu estava ansioso para ir para o colégio, o que era uma tremenda novidade esse ano depois de tudo que aconteceu. Eu costumava gostar de ir para a escola quando era amigo da Fernanda.

Para completar, cheguei atrasado e tive que aguentar os três primeiros períodos ouvindo o Jorge soltar piadinhas sem graça e Fernanda do outro lado da sala, o mais longe possível de mim. Era estranho pensar que ano passado a primeira coisa que ela fazia quando chegava atrasada – sempre – era sentar-se na classe à frente da minha e virar para trás para conversarmos, o que os professores sempre desgostavam. Nós andando juntos para o intervalo e falando mal de qualquer um. Era estranho que tudo isso tivesse acontecido à apenas alguns meses atrás, parece que fazia anos, ou até que tivesse sido com outra pessoa. Tudo mudou. Nada parecia correto.

Quando o sinal do intervalo tocou, saí apressado porta afora pela primeira vez no ano, ignorando Jorge atrás de mim. Queria encontrar Amanda, queria encontrar Vinicius.

E lá estava Amanda, também descendo a escada do outro prédio, esperei ela chegar até mim e fomos para o pátio.

— Você parece ansioso. – ela comentou, com um sorriso.

— Bobagem, você viu o Vinicius? – Droga, podia ter disfarçado um pouco melhor, né?

Ela deu um sorriso malicioso, e eu a olhei, repreendendo-a e ela fechou a boca forçada.

— Vi, vi sim. – ela sorria, sem se conter. – Hoje na entrada.

Alivio. Até agora não tinha considerado realmente a hipótese dele não aparecer, mas ela estava ali o tempo todo.

Amanda ameaçou falar mais alguma coisa, mas a cortei.

— Olha, só quero saber por que ele fez aquilo sexta, Estou curioso, tá? – atropelei as palavras enquanto procurávamos ele.

Andamos duas vezes todo o pátio, até que encontramos ele, no canto oposto de sexta, do lado da outra quadra, perto do portão para o estacionamento, cercado de outros garotos e algumas garotas, ao ver Amanda e eu, ele sorriu e se desvencilhou dos outros vindo ao nosso encontro.

— Olha se não é o garoto da asma. – ele me cumprimentou, apertando minha mão, elas eram muito macias, não que importe, só para constar, bem...

— Meu salvador! – exclamei brincando, ele e Amanda riram. – Afinal, por que você fez aquilo?

Ele ponderou por um momento, como se nem ele mesmo soubesse a resposta.

— Hum, acho que eu estava entediado. – ele respondeu, fingindo limpar as unhas, ri daquilo. – E não queria que você se ferrasse, você não tem cara de que faz coisas erradas, já eu...

A inocência e inverdade daquela frase fez com que eu gargalhasse alto. Amanda e Vinicius pareceram não entender, mas me acompanharam no riso. Óbvio, com meus óculos quadrados, 1,64m e cabelos cacheados, eu realmente não tinha “cara” de que fazia coisas erradas, eu estava mais para cara de nerd, e este é o maior erro das pessoas, julgarem “o livro pela capa”, procurarem medo onde acham que está, e nem consideram esperar de onde acham improvável. Tolos.

Conversamos um pouco, principalmente sobre bandas, Amanda não curtia Arctic Monkeys, o que levou Vinicius à um falso ataque de nervos, indicando para ela as músicas que ela tinha que escutar, reforcei indicando mais umas e fiquei feliz que Vinicius tenha aprovado.

O sinal do fim do intervalo tocou.

— Olha só, eu e o Cris vamos na padaria depois do colégio, vocês querem vir?

— Ah, não sei... – respondi, porque Cris iria, e não sei por que, mas acho que ele não foi muito com a minha cara, principalmente desde que Vinicius se ofereceu para ir no meu lugar para a diretoria.

— É claro que vamos. – Amanda me interrompeu, sorridente.

— Ótimo! – exclamou Vinicius. – Vejo vocês na saída. – e se afastou, se juntando aos outros caras que estavam com ele antes.

— Acho que o Cris não gosta muito de mim. – comentei para Amanda enquanto andávamos até nossas salas.

— Bobagem. – ela riu. – Vejo você na saída, okay? Beijo.

E se dirigiu ao outro prédio, os terceiros anos ficavam no prédio B, enquanto os primeiros e segundos no A, como eu tinha feito a façanha de rodar no primeiro ano dois anos atrás, agora eu estava no segundo, eu podia ser colega da Amanda, seria muito melhor. Voltei para a sala em um misto de animação e desanimação.

Animação porque veria Vinicius e Amanda, e até Cris na saída, na padaria – que mais parecia um bar – e isso era animador porque eu estava fazendo novos amigos, finalmente, talvez eu realmente pudesse recomeçar, talvez a frase que Eduarda tenha me dito era verdade.

“Não adianta você querer mudar de cidade, de colégio ou até mesmo de país, se você não mudar”

Eu queria mudar, eu iria mudar.

* * *

A Padaria estava cheia como de costume.

Muitos dos alunos do colégio iam ali para fumar, comer e conversar depois da aula, e avistamos em uma das mesas, Cris e Vinicius.

Com Amanda do meu lado seguimos até a mesa.

— Vieram! – cumprimentou Vinicius.

— Claro que sim, porque não viríamos? – Amanda perguntou enquanto puxava uma cadeira para sentar.

— Sei lá, já estamos aqui a uns 10 minutos.

— Ah, o professor prendeu a gente na sala, ele já estava me esperando lá embaixo. – ela indicou apontando para mim, sorri.

Conforme a conversa foi avançando, percebia cada vez mais que Cris não ia muito com a minha cara, também percebi que Amanda não era tão amiga assim nem dele e nem do Vinicius, mas como eu, estava ansiosa para se sentir incluída, não que ela tivesse problemas com amigos, até onde eu sei, ela tinha um bom grupo de amigos no colégio.

— Então, você também tá no segundo, Vinicius? – perguntei em meio à uma tragada de cigarro, eu realmente tinha que parar com isso.

— É, mas eu ainda preciso fazer umas provas de química, sabe? Progressão... – ele comentou com ar deprimido. – E eu não sei porra nenhuma de química.

Caso não saibam o que é progressão, é uma espécie de dependência em que o aluno é reprovado em no máximo duas matérias, mas ainda assim passa para o ano seguinte, porém, tem que fazer uma prova para realmente ir para o ano seguinte, caso seja reprovado nas diversas chances, ele volta ao primeiro ano, confuso, eu sei...

— Química é fudida. – Amanda comenta, Vinicius concorda enquanto pega o cigarro.

— Bom, eu não sou nerd nem nada, mas eu tinha notas ótimas em química ano passado. – as palavras meio que escapam da minha boca, mas não me arrependo. Já tendo começado, concluo: — Posso te dar uma ajuda, se quiser.

Vinicius me fita com interesse, como se eu fosse a única pessoa no mundo capaz de salvá-lo, e Cris me olha torto.

— Eu também posso, você sabe... – Cris comenta fingindo não dar importância, uma atuação péssima, se querem minha opinião, já que eu me sinto no direito de julgar depois de tantas vezes fingir alguma coisa para os outros.

Vinicius solta uma gargalhada.

— Valeu, mas sei que suas explicações não ajudam.

Tento conter o riso pois quero que Cris goste de mim, e apoiar Vinicius nessa não ajudaria em nada, mas isso parece irritá-lo tanto quanto se eu tivesse rido com ele.

Cris força um sorriso e novamente finge não dar bola. Amanda começa a lembrar algumas das minhas notas em química ano passado e conta-as para Vinicius, que parece impressionado, enquanto isso, distraído, eu penso se Cris também seria gay e teria um crush por Vinicius, porque claramente ele tem ciúmes do amigo, não que eu nunca tenha tido ciúmes de amigos só por serem amigos, mas sei lá, acho estranho isso com caras héteros.

— Então... – Amanda e Vinicius me olhavam esperando uma resposta, percebo tarde demais que me distrai muito com os pensamentos sobre Cris.

— O quê? – pergunto, tonto.

Os dois riem, até Cris abre um sorriso, o que me anima, mas acho que é um sorriso pela minha estupidez.

— Quando e onde você pode me ensinar? – Vinicius responde lentamente, sorrindo.

— Ah... – fico confuso. – Qualquer dia, onde você quiser. – respondo, sorrindo.

— Ouvi falar que a mãe dele faz uma comida ótima. – Amanda finge estar cochichando com Vinicius, mas todos ouvem.

— Ótimo, pode ser na sua casa então. – ele bate palmas.

Penso por um momento.

Meu pai.

Minha mãe.

— Algum problema? – Vinicius fica sério de repente ao perceber minha expressão.

Tudo para.

Acho que não mencionei, mas além de todos os problemas com as amizades que eu perdi ainda tem os estupendos problemas familiares, ah... esses são de longe os piores, ou não, porque eu já convivo com eles a tanto tempo – minha vida toda – que apesar deles nunca ficarem mais fácil, eles sempre estiveram ali, então é como se por mais que as coisas fossem ruins, era como elas deviam ser. Sei que não é certo pensar assim, mas é o que me ajuda a seguir em frente, e antes eu tinha meus amigos, meu chão, os que me ajudavam e me faziam superar tudo, agora eu não tinha mais eles, não tinha mais nada, talvez eu voltasse a ter, não queria criar esperanças, tudo sempre dava errado quando eu criava, nem que levasse um tempo, sempre acontecia alguma coisa, e ultimamente, a culpa de toda minha infelicidade tem sido eu mesmo.

Não queria que Vinicius conhecesse minha família estúpida. Não queria que ele visse meu pai alcóolatra bêbado caindo pela sala ou minha mãe deprimida murmurando ao invés de falar, essa era uma parte da minha vida que eu não queria que ninguém visse. Muito menos ele, ele era novo, ele era algum tipo de esperança a qual se agarrar e eu não queria que ele achasse que sou maluco.

— Não, só... sei lá... Não sei se é uma boa ideia lá em casa. – soltei, Vinicius não conheceria minha família, ninguém devia passar pela desastrosa experiência, eu era obrigado, mas ele não.

Ele pareceu entender.

— Bom, pode ser na minha. Eu não moro muito longe daqui, podemos até ir a pé e tal, e a gente pode ir amanhã, minha prova tá chegando... – ele tentou animar a conversa de novo, mas sem querer, tinha feito eu me lembrar do que me esperava daqui algumas horas, talvez minutos, meus pais. Não que eles fossem tão horríveis assim, meu pai chegava em casa depois do meio-dia, almoçava e começava a beber, e assim ia até a noite, praticamente todos os dias, minha mãe não falava mais do que em sussurro à anos devido a depressão que ela tinha, ela tomava vários remédios anti-depressivos, para pressão alta e outras coisas, apesar de ter apenas 45 anos... Quando eu parava para pensar, acabava comigo ver o que aconteceu com ela, perdeu a vida toda ao lado de um homem nojento como meu pai, imagino ela jovem, alegre e com esperança quase como eu agora, e temo em pensar que eu posso acabar como ela, sem esperanças e deprimido, vivendo de remédios.

— Acho que eu devia ir... – anunciei quando não aguentava mais ficar ali. Não por causa de nenhum deles, mas meus pensamentos pareciam gritar comigo implorando pelo meu quarto escuro.

Vinicius olhou com o mesmo olhar preocupado.

— Até mais, Tchau. – Cris acenou para mim falsamente. Obviamente eu fingi não me importar e abri um grande sorriso que enganou à todos, menos Vinicius, seu olhar intrigado não suavizou após eu abrir o sorriso e me despedir, ele continuou me encarando sério, e incapaz de devolver o olhar, eu dou as costas à ele.

Notas finais
Espero que tenham curtido o capítulo, pessoal, por favooor não deixem de comentar, é muito estimulante mesmo. E acompanhem ou favoritem a fic para que sejam notificados quando sair novo capítulo. Vejo vocês dia 15 com o próximo capítulo. Beijos ♥