Notas iniciais
A música desse capítulo não tem muito a ver com ele em si, e sim com a matéria estudada, whatever... A música é linda e vocês deveriam ouvir u.u https://www.youtube.com/watch?v=VbNEuLQVgMI

Eu sempre invejei meus amigos quando conversávamos sobre infância, e todas as histórias que eles contavam de como foi uma época boa e cheia de aventuras e boas lembranças, eu geralmente ficava calado ouvindo as histórias, com um tempo eu desenvolvi a habilidade de inventar histórias, e eu tive que praticar isso tantas vezes que me tornei muito bom em mentir, em fingir... E isso não é algo que eu me orgulhe.

Mentir foi o que me levou à perder todos.

Eu não fui obrigado a mentir.

Eu menti por que quis.

Eu menti de várias formas diferentes, mas nenhuma delas é pior que outra, eu simplesmente devia ter pensado mais nos outros, devia ter feito a coisa certa, devia ter feito tanta coisa diferente...

Não importa, isso é tudo o que eu tenho agora e tenho que fazer algo que eu aprendi desde muito cedo, achar o melhor na pior das situações. O que nem de longe é uma tarefa fácil, mas eu sou bom nisso também, mas dessa vez é diferente, está sendo difícil, mais difícil do que nunca.

Eu tenho a lâmina nas mãos, coloco ela contra minha pele mas não pressiono, vou ser forte, tenho que ser forte, eu posso ser forte, as lágrimas escorrem em meu rosto até que eu afaste a lâmina afiada do meu braço.

Eu estava nervoso enquanto ia para a escola, mas ao mesmo tempo eu estava feliz, era uma sensação estranha de se sentir, não completamente boa, mas até que era agradável.

Era estranho ver a Fernanda conversando com outras pessoas, se dando bem, fazendo novos amigos, e eu sentia uma pontinha de raiva, de algum jeito eu queria que al sentisse a minha falta, talvez ela sentisse, e assim como eu fazia o máximo para não demonstrar. Ou talvez ela simplesmente me odiasse mesmo, e quisesse me ver o mais longe possível e começar de novo. Para ela era mais fácil, não é? Ela não tinha erros dos quais se arrependia cada segundo do dia.

Às vezes eu a observava na sala de aula, falando com uma garota chamada Brenda, ela não parecia triste, muito pelo contrário, parecia tão feliz quanto quando erámos amigos. Bom, talvez de longe eu também parecesse feliz falando com Jorge, eu não queria demonstrar fraqueza.

Vou pular toda a manhã monótona no colégio, onde nada demais aconteceu, inclusive que Vinicius passou o recreio com outros de seus amigos, ele era bem popular, percebi, e Cris não estava com ele, na saída, Vinicius me esperava no portão, ele me cumprimentou e disse que estava ansioso pelas aulas. Não podia negar, eu também estava.

— Estou preparado, aprender química. É um desafio e tanto você conseguir me ensinar... – ele brincou enquanto caminhávamos para a sua casa.

— Te garanto que vou fazer parecer fácil.

Vinicius soltou uma gargalhada.

— Ah, isso eu duvido.

— Veremos... – desafiei com um sorriso. Às vezes, tipo agora, eu ficava um pouco envergonhado de ficar perto de Vinicius por ele ser tão mais bonito que eu, eu era bem normal, cabelo cacheado curto, pele morena e olhos castanhos, e ainda era baixinho. Vinicius era mais do tipo, sendo bem sincero, olhar para ele era como olhar pornô.

Chegamos à sua casa, que na verdade era um apartamento bem bonito.

— Ah, olá, tudo bem? – a mãe de Vinicius me cumprimenta, vindo da cozinha com luvas de cozinhar.

Ela não era nem um pouco parecida com Vinicius, apesar de ser bem bonita. Tinha cabelo loiro e curto, quase sem chegar nos ombros, era magra e baixinha, surpreendentemente menor que eu e devia ter uns 40 anos, apesar disso ela tinha uma espécie de presença intimidadora, mesmo sendo amigável.

— Vini me avisou que você viria então eu preparei uma lasanha, eu não sou 100% na cozinha, mas eu tento meu melhor, okay? – ela brincou, falando com a gente, Vinicius parecia completamente à vontade, já eu... – A propósito, sou Diana. Prazer.

Digo meu nome à ela e a cumprimento.

— O prazer é meu.

— Mãe, onde está o meu chinelo? – Vinicius procurava pela sala enquanto sua mãe voltava para a cozinha.

— Onde você deixou garoto! – ela grita impaciente. Abro um sorriso tímido.

— Eu deixei aqui embaixo! Eu sempre deixo aqui embaixo pra chegar da maldita escola, tirar esses malditos tênis e calçar o maldito chinelo! – Vinicius retruca impaciente, mas não totalmente sério.

— Então é melhor você mover sua maldita bunda pela casa e procurar! – Diana retruca voltando da cozinha sorrindo.

Em suas mãos, uma grande forma, e eu estava com muita fome mesmo, eu não comia muito bem em casa, porque na maioria do tempo estava deprimido com a situação de lá, mas era minha primeira vez na casa do garoto, eu não ia comer igual um porco, então me servi um pedaço considerável e comemos meio que em silêncio. Achei que ela almoçaria conosco, mas ela avisa que tem que sair, nos deixando a sós.

— Sua mãe é legal. – comentei, depois de uma última garfada.

— É, eu sei. – ele respondeu sorrindo, percebi que Vinicius era muito próximo de sua mãe, diferente de mim.

— Vamos à química então? – ele perguntou, sorrindo. Céus, como o sorriso dele era lindo. Era até vergonhoso comparar seu sorriso ao meu, usando este aparelho horrível. Chega, sem suspiros.

Fomos até o quarto que ficava no andar de cima, era enorme, na verdade eram duas peças.

— Nossa, isso é seu quarto ou sua casa? – brinquei, olhando em volta. Vinicius sorriu de volta, um pouco envergonhado e orgulhoso ao mesmo tempo.

Tinha uma TV com um Xbox e um sofá no que parecia uma pequena sala, e um frigobar. Depois de uma passagem, estava uma bela cama de casal, um computador, uma estante de livros com um porta cd embutida ao lado e vários posters nas paredes, de skatistas, bandas, Arctic Monkeys... Ainda tinha uma porta de vidro que levava à uma bela sacada.

— É, até que dá pro gasto, apesar de eu estar insatisfeito com a falta de espaço. – Vinicius finge estar desapontado com seu “modesto” lar e eu ri.

— Química. – lembrei-o.

— Química. – ele concorda, indo até uma pilha de livros e puxando um caderno.

— O que você precisa saber? – perguntei.

— Hummm... – ele folheava as páginas, procurando o nome das matérias.

— Meu Deus, Vini. Você não sabe nem o nome das matérias que tem que estudar? – perguntei espantado, mas ainda assim sorrindo. Porra, o “Vini” escapou, senti o sangue correr para meu rosto, mas felizmente ele pareceu não notar ou não se importou, o que provocou um grande alivio.

— Sei sim. – ele insistiu, achando uma listinha no canto de uma folha. – Olha, Ligações Químicas, NOX, Funções Inorgânicas...

— Bá, que barbada. – exclamei e ele riu.

— Enlighten me, then. – ele imitou Anastacia Steele do filme 50 Tons de Cinza e foi realmente hilário.

— My tastes are very singular... – brinquei de volta e rimos por algum tempo. – Okay, okay, química, concentração srta. Steele.

— Sim, senhor. – ele respondeu, controlando-se para ficar sério, com um sorriso ameaçando escapar a qualquer momento de seus lábios.

— Ligações químicas. Você sabe o que são metais e não-metais? – perguntei, e como Vinicius permaneceu quieto sem nem me olhar, sorri e continuei.

— Bom, os Metais mais usados nas ligações são os das duas torres. Metais alcalinos, e metais alcalinos terrosos. – indiquei em uma tabela periódica meio surrada que ele tinha. – Os Não metais são dessa parte em verde, do grupo 13 ao 18, descendo como uma escada. As ligações são iônicas e covalentes, as iônicas são de Metais com Não metais e as covalentes são de Não metais com outro Não metal. – e continuei explicando para ele como na ligação covalente os elementos compartilhavam elétrons e na iônica doavam, expliquei também sobre a ligação covalente dativa, a qual Vinicius teve um pouco de dificuldade em entender, mas acabou pegando. E ele olhava para mim fixamente, com aqueles olhos negros, aqueles lindos olhos negros...

— Não faz isso, tá fazendo eu me distrair. – censurei-o envergonhado, sem encará-lo de volta.

— O que? – ele pareceu confuso.

— Esse... essa coisa do olhar. – expliquei, sorrindo.

— Ah, desculpe. – ele respondeu sério, e encarou a folha de papel à sua frente.

— Cale a boca. – sorri, para que ele não achasse que era sério, quer dizer, era sério, mas não queria que ficasse um clima pesado nem nada, ele sorriu de volta.

No fim da tarde Vinicius já sabia tudo, eu expliquei da forma mais simples que consegui mas mesmo assim ele tinha que praticar as coisas mais difíceis para se livrar da progressão.

— Nossa, valeu mesmo, não sei o que eu faria sem você! – ele ia agradecendo enquanto me levava até a porta.

— Capaz... Não foi nada mesmo, a lasanha fica como pagamento. – brinquei quando descíamos as escadas.

— Bom, essa foi da minha mãe, tem que ver como eu vou te pagar.

A frase fez eu sentir um frio na barriga e quase me desequilibrar nas escadas, involuntariamente, pensamentos não tão educativos passavam como um filme em minha mente.

— Tenho certeza que vou pensar em algo adequado. – respondi sorrindo.

— Tá bom, me conta quando souber, okay?

— Você vai ser o primeiro.

E com isso, saí pelo portão de encontro à parada do ônibus.

Talvez a vida não fosse tão ruim.

Talvez ainda tivesse coisas boas, pessoas boas.

Eu ainda não estava incluído nessas pessoas, as coisas que eu fiz não são apagadas assim da noite para o dia.

Mas talvez houvesse motivos reais para se ter esperança, para querer seguir em frente.

Talvez o nome disso fosse Vinicius.

Notas finais
Lindoooos, tomara que tenham curtido, pelamooor comentem que estou louco pra responder comentários hahahhah Beijooos e até dia 17 com capítulo novo ♥