Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)

35 Uma de vocês está mentindo


Notas iniciais
Cometi um equívoco no capítulo anterior. Escrevi que os Azumabitos vão visitar Paradis na primeira semana de outubro. Na verdade, eles vão vir à ilha na primeira semana de novembro. O erro já foi corrigido.

Leona não voltou para casa com os amigos naquele dia. Em vez disso, teve a companhia desconcertante e dispensável da diretora da escola. A mulher levou Leona para casa por duas razões: porque os outros alunos já tinham ido embora, e para delatar o crime inafiançável cometido no banheiro. Contudo, Hange almoçava no quartel-general. Somente Minnie estava em casa. A babá se surpreendeu ao ver Leona ensopada e estranhou a presença da diretora. Leona passou correndo pela babá, lambendo os beiços ante o cheiro delicioso da refeição.

— Bolinha, vá se secar. Você está toda molhada.

Leona largou a mochila e os brinquedos na cozinha e subiu as escadas. As duas mulheres ficaram conversando na porta. Quando Minnie se despediu da diretora, Leona já almoçava um prato gigante de repolho refogado. A menina enfiava garfadas generosas na boca, como se nunca tivesse visto comida na vida. Minnie serviu-se e sentou em frente à filha da patroa.

— A diretora quer conversar com a sua mãe.

— Eu sei. — Leona deu de ombros.

— O que você fez?

Leona contou sobre o barco, Diana, a guerra d'água e o banheiro alagado. Em certo ponto, Leona perguntou à Minnie se brincar na pia era, por um acaso, alguma violação contra os direitos humanos. A babá negou com sinceridade, embora entendesse o lado da diretora – secar um banheiro não é lá uma tarefa tão divertida

— E aquele urso?

Minnie indicou o urso de pelúcia na outra cadeira, junto com o barco e a mochila. Leona levantou as sobrancelhas num lampejo de realização, e abandonou a comida pela metade. Pegou o urso com o mesmo cuidado destinado aos animais feridos, e fez tsc-tsc-tsc para o bumbum molhado do pobre brinquedo.

— É o urso da Diana. — Leona suspirou de tristeza. — Pobrezinho, está todo molhado aqui em baixo. Vou colocá-lo no sol.

Minnie pigarreou. Leona parou no meio do caminho e encarou Minnie. A babá apontou para a louça suja. Leona deixou os braços caírem ao lado do corpo, rosnando de frustação.

— Ahhh, Minnie! — Leona bateu o pé.

— Hoje é o seu dia de lavar a louça, mocinha.

— Eu lavo depois.

— Não. Lave a louça primeiro e depois você dá um jeito no urso.

Leona pôs o brinquedo na cadeira, apanhou os pratos e saiu resmungando e chutando o chão. Detestava lavar a louça. Gostava de arrumar o quarto e há muitos anos não dependia da ajuda de Minnie ou da mãe. Agora, lavar a louça... minha Santa. Água gelada, pratos engordurados, restos de comida no ralo, blegh. E quando Minnie resolvia fazer feijão... nossa, que nojeira.

Lavou a louça na força do ódio. Só parou de reclamar depois de guardar o último copo. Terminou a tarefa com uma bela mancha escura na parte inferior da camisa, onde se molhou enquanto enxaguava a porcaria da panela. Leona correu até a cadeira onde deixou o barquinho, o urso e a mochila da escola. Pegou apenas o ursinho de pelúcia, como se o brinquedo fosse o único do conjunto a lhe pertencer. Já nos fundos da casa, empurrou as roupas no varal a fim de abrir espaço para o urso de Diana, escolhendo o ponto mais ensolarado do quintal.

Leona pendurou o urso pelas orelhas. Ela se afastou e observou de longe, vendo o corpo robusto balançar conforme o sopro suave do vento. O ursinho parecia triste e deplorável pendurado daquela forma cruel. Leona fitou as costuras na cabeça do bicho, perguntando a si mesma se corria o risco de as orelhas rasgarem. Fantasiou o urso estirado com tufos de espuma no lugar das orelhas, e as ditas cujas presas no varal. Imagina só a cara de Diana descobrindo que seu urso voltou sofrendo de microtia.

Leona não queria fazer Diana chorar. Pediu desculpas ao urso pela ideia terrível. Resolveu trazer uma cadeira da cozinha. Colocou o brinquedo de cabeça para baixo.

— Agora está melhor, senhor Urso?

O senhor Urso discordava.

— Por quê?

Uma andorinha pousou no espaço vazio do varal, cantou e levantou voo. O brinquedo encarava Leona com o ar de grandeza insolente digno das pessoas metidas a sabichonas. Os olhos de botão diziam: tem muitos pássaros aqui, eles vão fazer cocô em mim.

— Nesse caso, senhor Urso, só tem um lugar onde posso colocar o senhor.

Leona levou o brinquedo para o seu quarto, o cômodo com a melhor posição solar da casa. O senhor Urso ia adorar. E o brinquedo de fato amou ficar com a bunda molhada na janela.

Depois de dar um jeito no urso, Leona foi até a ala de internação do seu consultório veterinário caseiro não autorizado pelo governo. Ou, em outras palavras: a salinha dos fundos. Cabiam apenas três gaiolas, e duas estavam vazias. A terceira era ocupada por um coelhinho preto chamado Pernalonga.

O coelho não era um paciente, mas um inquilino. Pernalonga pertencia à vizinha. A mulher e o marido viajaram e pagaram vinte pratas para Leona cuidar do coelho. Leona aceitou o trabalho e guardou a nota de vinte no cofrinho — vinha juntando dinheiro para comprar um avião.

Soltou o coelho. O animal se ergueu em duas patas e observou o terreno, curioso. Leona achava maldade trancafiar um animal saudável. Por Leona, Pernalonga ficava solto o dia inteiro. No entanto, sua mãe a alertou sobre os altos riscos de fuga. Todavia, nem a pau deixaria o Pernalonga torrando na saleta. Assim sendo, pôs a gaiola numa sombra quadriculada que ia perseverar-se ali pelo resto da tarde.

— Bolinha! — Minnie abriu a porta dos fundos. — O Peter está aqui.

— Já vou.

Leona pediu desculpas à Pernalonga por devolvê-lo à gaiola tão cedo. Mas agora a jaula ficaria no quintal, pelo menos. Depois de trancar a gaiola, Leona saiu pulando ao encontro de Peter. O garoto a aguardava no portão.

— Duvido você acertar qual é a certa.

Disse Peter em tom de instigação, esticando os dois punhos fechados. Leona pôs a mão na boca e fez hummm.... Após refletir, indicou a mão esquerda do garoto. Peter revelou o segredo: uma almofadinha de doce de leite.

— Para você!

Declarou Peter, sorrindo. Ele abriu a outra mão, e nela tinha outra almofadinha. As duas crianças sentaram no muro e beberam o doce de leite, ambos balançando as perninhas e gemendo de satisfação. De tempos em tempos davam risada sem motivo, e sempre em uníssono.

Peter era um garoto legal. Leona o conheceu aos quatro anos de idade, num dia em que ela e a mãe foram na mercearia do pai de Peter. Leona viu o menino magrelo ajudando o pai a separar as moedas, e Peter viu a menina serelepe falando sobre mil assuntos ao mesmo tempo. Foi amizade à primeira vista. O pai de Peter também era legal, às vezes ele dava pãezinhos doces para Leona quando ela ia comprar chá. "Leva esses pãezinhos pra você e sua mãe tomarem chá, Bolinha", sorria o comerciante. Peter era uma das poucas crianças do bairro que tinham PAI. Leona sentia um pouco de pena dele, porque embora tivesse PAI, Peter não tinha MÃE. Bem, seu pai era casado com a TIA FILOMENA, e ela era a MADRASTRA de Peter. No entanto, MADRASTRA e MÃE não são a mesma coisa, na humilde opinião de Leona.

— Você quer ir brincar no terreno do Tacílio?

Peter se referia a um canteiro de obras. O dono, um homem chamado Tacílio, proibia as crianças de brincar no esqueleto do futuro conjunto habitacional. As crianças não davam a mínima e brincavam lá mesmo assim. O terreno era perfeito para brincar de esconde-esconde e de guerrinha.

— Só vou avisar a Minnie e podemos ir.

— Você vai ir assim? — Peter fitou os pés descalçados da outra criança.

— O que tem?

— Eu juro, Bolinha, você ainda vai enfiar um prego nesse pé.

— Não sou burra igual o filho do dono da mercearia.

Peter deu um soquinho no ombro de Leona e a chamou de idiota. Leona, dando risada, entrou em casa, avisou aonde ia e instruiu Minnie a pôr a gaiola de Pernalonga para dentro da salinha às quatro da tarde. Após despedir-se da babá, Leona saiu com Peter, e os dois convidaram um milhão de outras crianças pelo caminho até o terreno do Tacílio. Leona chegou a bater na porta da casa de Diana. Entretanto, ninguém atendeu.

Leona, Peter e mais onze crianças passaram a tarde brincando no canteiro de obras. Eles saltavam pelos buracos das janelas, se escondiam atrás das paredes, e perseguiam uns aos outros entre as construções. Os garotos mais velhos, ousados, subiram lá no alto das paredes e desafiaram os menores a imitá-los. Leona bem que tentou. Um saco suas habilidades de escalada não estarem desenvolvidas o bastante. Ela só conseguia subir em árvores de tronco cascudo. Telhados e árvores lisas eram outra história, por enquanto.

Leona abandonou sua forma de menina e se transformou num monstro de areia de tanto rolar no chão brincando de soldado e titã. Ela saltava nos soldados infelizes e os devorava com ferocidade. Nenhum humano intrometido entrava no seu território. "Fiquem nas muralhas", bradava. Quando ela e as outras crianças voltaram para casa lá pelas quatro e meia, ninguém sabia quem era mais sujo: as crianças ou o lixo.

— Pela Santa, que isso?! — Perguntou o pai de Peter, espantado. — Nem parece que vocês têm pai e mãe. Peter, já para o banho.

— A gente está bem sujinho, né, pai?

Peter entrou e Leona se despediu de longe, pois estava imunda demais para entrar no estabelecimento. Ao chegar em sua própria casa, se surpreendeu ao ver o casaco da mãe pendurado no cabideiro. Leona encontrou Hange na cozinha, preparando o chá da tarde no lugar de Minnie.

— Mãe! Que surpresa!

E que baita surpresa. Hange não costumava estar em casa tão cedo assim. Algo deve ter acontecido no trabalho. Pelas roupas leves e o cabelo molhado, Hange chegou em casa há mais de meia hora. Leona a abraçou e roçou o rosto sujo na barriga da mãe. Hange não se importou. Leona poderia estar coberta de merda, Hange não teria nojo de abraçá-la. A comandante acariciou o cabelo duro de areia, sorrindo.

— Você se divertiu lá fora, filhotinho.

— Muito. Fomos brincar no terreno do Tacilio. E você?

— O meu dia foi ótimo! Chegou uma carta de Hizuru. Eles vão vir visitar a ilha.

Leona não entendia direito a guerra política envolvendo seu país, Marley, Hizuru e outros aí afora. Porém, sabia que a nação asiática é um país muito legal que constrói aviões. Leona achava aviões incríveis. Mal podia esperar para ver um de verdade. Então, Leona pegou as mãos de Hange e as duas rodopiaram celebrando a vinda dos Azumabitos, cada uma comemorando por suas próprias razões.

— Agora, que tal um banho?

Hange sugeriu após pararem de rodar. A comandante mostrou as escadas com o polegar e limpou a blusa suja com a outra mão.

— Só vou ver como o Pernalonga está. Mãe, me espera para o chá?

— Claro. Traga a maleta de remédios quando você voltar.

Minnie havia colocado Pernalonga de volta na saleta, como Leona pediu. A gaiola precisava de uma faxina. Leona entrou na banheira já planejando limpar a jaula depois de se lavar. No andar de baixo, Hange preparou chá para si e leite para Leona.

Leona voltou antes do chá esfriar. Ela colocou a caixa de remédios sobre o balcão e veio se sentar perto da mãe. As duas comeram em silêncio por um tempo, Hange bebericando o chá e Leona molhando biscoitos no leite. Então, a comandante disse em tom casual:

— A Minnie disse que a diretora quer falar comigo.

Leona, contemplativa, encarou a mãe sem entender. Então, lembrou da história do banheiro e soltou uma exclamação.

— Ah, sim! Então, hoje foi o dia do brinquedo. Eu levei o barco que o senhor Onypon me deu. Os meus coleguinhas gostaram bastante dele. Então, a Diana pediu

— Diana é a menina da tiarinha? — Hange interrompeu, tentando se lembrar de quem a filha falava.

— Sim. Ela pediu para ver o meu barco na água. Aí a gente foi para o banheiro brincar com ele. Só que esquecemos a torneira aberta e molhamos o chão um pouquinho.

Hange riu entredentes imaginando o "pouquinho" de Leona. Ah, sim, tão pouquinho. A diretora se enfureceu à toa. A comandante bebeu outro gole de chá, prestando atenção na história da filha. Leona engoliu o biscoito antes de dar seguimento.

— E aí ouvimos a diretora e o vice no lado de fora. A Diana ficou muito nervosa, mãe, ela tremia assim — Leona sacolejou os ombros e as bochechas — e me disse que a avó ia brigar com ela. Aí eu mandei ela se esconder nas cabines. Foi nessa hora que a diretora e o vice entraram.

— Você levou a culpa, Bolinha?

— Sim, por isso querem falar com você. Disseram que eu fiz malcriação. — Leona deu de ombros. — Mas era só água, mãe. — Leona acrescentou meio incerta; Hange assentiu, mostrando que concordava. Sorrindo, Leona continuou o relato: — Pelo menos consegui fazer a Diana escapar. Estou com o urso dela porque ela esqueceu dele no banheiro. Quase falei que o urso não é meu, mas consegui fingir a tempo. Por favor, mãe, não fala da Diana pra diretora.

— Você é uma cara de pau ardilosa igual o seu pai, Bolinha.

Leona não soube se mãe estava a elogiando ou repreendendo. A escolha de palavras soava como ofensa. Geralmente, usam "cara de pau" como xingamento. As pessoas chamam de "cara de pau" os trapaceadores de jogos de cartas, os que prometem dinheiro fácil e não devolvem a grana que você investiu, e as pessoas que roubam os livros dos outros.

No entanto, Hange dava risada e não existiam vestígios de decepção em sua face, tampouco solidariedade para com a diretora. Na verdade, Hange estava orgulhosa do seu filhotinho. Leona teve raciocínio rápido para proteger a amiga e maturidade para enfrentar as consequências. Às vezes, ser cara de pau é bom. Leona sorriu de canto e Hange beijou a testa da filha.

— Não se preocupe, o segredo de vocês está seguro comigo.

— Obrigada, você é a melhor.

— Eu sei. — Se Hange tivesse dois olhos, teria piscado. — Bolinha, tira a mesa, por favor?

Ao contrário da pequena revolta no almoço, Leona não pestanejou para obedecer Hange. A garotinha lavou o copo, a xícara e os talheres, e sem demora guardou os biscoitos e o leite no lugar. Nesse ínterim, Hange vasculhava a maleta de remédios em busca de um antisséptico e antiparasitário caseiro de vinagre e calêndula que ela mesma tinha feito, e logo o encontrou. A comandante se virou com aquele pote familiar em mãos, e a boa vontade de Leona foi-se embora.

— Não, mãe! Eu tenho que limpar a gaiola do Pernalonga. Depois a gente faz isso.

— Sem depois. — Hange fez um gesto convidativo com o dedo indicador. — Vem aqui.

— Não estou com bicho-de-pé. Olhei ontem.

— Você sempre pega bicho-de-pé quando vai brincar no canteiro de obras, filhotinho.

— Tá. Daqui a pouco.

— Agora.

A comandante arrastou a filha para o sofá. Leona insistiu para a mãe deixa-la ir trabalhar, e em protesto à ditadura maternal empurrou os joelhos de Hange com o pé solto. Hange ignorou os chutes – Leona não punha força nas pernas, seus empurrões não machucavam. A comandante pôs a agulha na boca e passou o dedo num pontinho preto na sola do pé da filha. A manchinha não cedeu ao contato, e Hange soube se tratar de um parasita. Furou a pele com todo o cuidado do mundo. Leona não sentiu nada além de uma picadinha. Hange matou o parasita no algodão empapado de remédio. Depois, molhou um seco e esfregou o local furado.

— Já chega?

— Você sabe que não.

Hange agarrou o outro tornozelo e deixou o pé desinfetado sobre o colo. O pé direito de Leona tinha alvos mais certeiros e sensíveis que o esquerdo. Não demorou para empurrar a barriga, as costelas e os braços da mãe.

— Você ficava tão quietinha quando menor, e agora faz esse escândalo.

Hange provocou em tom divertido. Em resposta, Leona fez beiço e ameaçou chutá-la no rosto. A comandante nem se mexeu; sabia que Leona não ia machucá-la. Dito e feito. Leona apenas encostou o pé na bochecha da mãe. A esse ponto, estava mais brincando do que teimando.

— É que eu preciso trabalhar.

— Eu sei, você é uma médica de bichos muito ocupada. — Hange esfregou o algodão no calcanhar da filha. — Pronto.

Leona agradeceu e saltou do sofá. Porém, Hange a puxou pela segunda vez. A comandante fez a menina sentar no chão, entre os seus joelhos. Então, atacou a cabeleira dourada. Hange abria espaço entre as mechinhas, dedilhando o couro cabeludo em busca de piolhos.

— MÃE!

Leona esperneava. Hange a prendeu com as pernas. Examinou atrás das orelhas, o topo da cabeça, a parte da frente e a de trás.

— Você anda sentindo coceira, Bolinha? — Perguntou Hange, empurrando a cabeça de Leona com o propósito de inspecionar a nuca. — Hmm, o que é isso aqui?

— Não, mãe, não quero passar aquele troço fedido agora.

Leona já tinha pego pediculose, ou piolho, duas vezes, e Hange lavou sua cabeça com um remédio fedorento e gosmento. Leona entendia que não podia passar o resto da vida servindo de hotel para insetos pequenininhos. Porém, o tratamento a incomodava bastante, porque além de não poder sair de casa, era obrigada a passar horas com aquele negócio nojento "agindo" na cabeça, só podendo tomar banho lá pelas oito da noite.

— Enganei você. — Confessou Hange, gargalhando.

— Que susto.

Leona fez menção de se levantar. Dessa vez Hange a deixou ir. O semblante brincalhão da comandante minimizou, lhe dando uma atmosfera mais sóbria embora ainda sorrisse.

— Agora é sério. Se você sentir coceira, me avise.

Leona aquiesceu e se despediu. Não começara a escurecer, mas por via das dúvidas levou uma pedrinha de luz num lampião. Leona soltou Pernalonga. O coelho saiu cheirando tudo, ansioso. Enquanto Pernalonga se divertia, Leona se ocupava limpando a gaiola. Cantarolando, removeu a serragem e limpou os comedouros na torneira externa.

Enquanto isso, dentro de casa, Hange se ocupava com o livro de ficção que vinha tentando terminar de ler há mil e quinhentos anos. Normalmente, usava o tempo livre para estudar, dar continuidade aos projetos, e cuidar da filha. Com Leona ocupada e nenhum plano em andamento, Hange pôde voltar à leitura.

O livro contava a história de um homem que sofreu um acidente de carroça e perdeu a memória. Uma leitura boa para passar o tempo. Era divertido acompanhar o retorno das lembranças do protagonista. Hange lia encostada no braço do sofá e com as pernas esparramadas. Ela desamarrou o cabelo. A cabeleira castanha servia como travesseiro. Hange não gostava de cabelo comprido. Achava bonito, no entanto, não tinha paciência para lavar e pentear. O comprimento atual a enervava. Amanhã, pediria a Levi para cortá-lo na altura dos ombros.

Mãe e filha aproveitaram a paz da solidão. Leona nos fundos e Hange no sofá. Hange terminou o capítulo quando Leona pôs serragem nova na gaiola. Hange, pensando na carta de Hizuru, lendo os parágrafos do livro sem absorver a narrativa, teve a ideia de levar Leona ao teatro em comemoração à novidade da nação aliada. Talvez desse tempo de mandar um mensageiro ao quartel convidando Levi. Não que a opinião dele importasse – Hange o obrigaria a ir de qualquer maneira.

Batidas na porta a arrancaram de seu devaneio. A comandante olhou o relógio. Em dias normais, teria acabado de chegar em casa. O intruso conhecia a sua rotina. Hange viu a pessoa através do olho mágico. Era uma mulher grisalha, pequena e gorducha. Hange conhecia aquela senhora. Após uma breve consulta no banco de memória, a reconheceu. Se tratava de dona Carminha, a avó da menina da tiarinha. Hange arqueou a sobrancelha. Será que o plano da Leona deu errado?

— Olá, dona Carminha. — Hange abriu a porta e deu um passo para o lado, permitindo a passagem da senhora. — Quer entrar?

— Boa tarde... — Carminha contemplou o céu do entardecer. — ...ou boa noite. — A senhora fez um gesto de deixa-pra-lá. — Ah, é rapidinho, senhorita Hange.

Mesmo sendo "rapidinho", Carminha aceitou o convite. A senhora varreu a casa de Hange tal qual uma águia em busca da presa. Uma habilidade visual poderosa que só detetives competentes e vizinhas pós-graduadas na arte da fofoca desenvolvem.

— Eu vim perguntar se a Bolinha está com o ursinho de pelúcia da minha neta. É um ursinho pequeno, marronzinho, de olhos de botão...

Hange não sabia se Leona tinha previsto a busca de Carminha pelo urso e elaborado alguma saída. Se sim, Leona teria contado. Pelo relato da filha, a família de Diana é meio... inflexível, para dizer o mínimo. Nesse caso, mentiria pelas duas. Ia responder que Leona não estava em casa.

— Não sei. A Leona não es...

Nesse momento, Leona apareceu. A menina cumprimentou a visita com um aceno simpático, o qual Carminha retribuiu com um sorrisinho tênue. Leona pegou a vassoura e voltou para os fundos. Ótimo, e agora?

— ...não me falou de urso nenhum.

Hange se arrependeu. Se ao menos tivesse feito Carminha aguardar na porta, conseguiria conversar com Leona e ajudá-la a mentir. Agora, Leona estava em apuros. Carminha acompanhou Hange até os fundos da casa. Lá, encontraram Leona varrendo a saleta onde punham os animais. O coelho viu Hange e se escondeu, apavorado.

— Bolinha, a dona Carminha veio atrás do urso de pelúcia da Diana. Você está com ele?

Leona parou de varrer e, de olhos arregalados, fitou a face enrugada da avó de Diana. Responda, Bolinha, responda, pensou Hange, torcendo por sua filha. Após engolir em seco, Leona sorriu e respondeu, na voz mais natural possível:

— Estou sim, dona Carminha. Eu pedi emprestado.

— Ah é, querida?

O sorriso de dona Carminha expressava tudo, menos complacência. Hange não gostou, e entrou em estado de alerta.

— Está lá no meu quarto. Vou pegar. Mãe, cuida do Pernalonga?

Hange assentiu. Ao perceber que Carminha pretendia seguir Leona, Hange puxou assunto falando sobre a escola das meninas. Notou a decepção de Carminha em permanecer no quintal. Nem pelo demônio ia deixar aquela velha fuxiqueira bisbilhotar o quarto de sua filha.

Lá em cima, Leona se despedia do urso. Disse que foi um prazer cuidar dele, e esperava vê-lo de novo. Quem sabe chamasse Diana para brincar de casinha. Diana tem cara de quem gosta de brincar de casinha. Leona e Diana seriam duas colegas de quarto muito muuuito amigas e trabalhadoras. O senhor Urso poderia ser o vizinho – ele bem passava a impressão de ser um velho rabugento.

Leona sorria na descida da escada e no caminho para o quintal onde sua mãe e a dona Carminha aguardavam. A avó de Diana parecia legal. Leona não entendeu por que Diana temia a pobre senhora inofensiva. Não viu nada de errado. Na verdade, ver Carminha a fez sentir saudade da vovó Sophie.

— Toma, dona Carminha.

Leona estendeu o brinquedo. Dona Carminha arrancou o urso como se a menina estivesse fingindo devolvê-lo após horas de teimosia, e não o entregando de boa vontade. Leona deu um passo para trás, confusa e sem saber o que pensar sobre o puxão. Hange pôs a mão no ombro da senhora, a guiando para a saída.

— Desculpe, se a senhora puder ir agora, por favor. Eu estou ocupada.

Carminha virava e revirava o brinquedo, examinando cada costurinha e remendo em busca de estragos recentes. Leona não compreendeu a desconfiança. Nunca estragou brinquedos e cuidava das coisas dos amigos como se fossem suas.

— Você deixou a minha neta chateada, mocinha. — Disse Carminha em falsa amabilidade. — A gente não rouba as coisas dos nossos amigos.

Leona emudeceu e Hange só não arrancou os dentes da velha porque ela já usava dentadura. Carminha endureceu os ombros, adotando uma pose prepotente que não abria espaço para interpretações. Ela estava, de fato, insinuando que Leona era uma ladra. Hange retrucou:

— A senhora vê bem como fala da minha filha. A Leona não é nenhuma ladra.

— E a minha neta não é mentirosa. Ela disse que a sua filha roubou o ursinho, e aqui está.

Nenhuma das duas sabia como reagir à acusação injusta. Leona por estar chocada e magoada demais por Diana ter pensado algo tão vil de sua pessoa, e Hange por temer interferir na mentira que Leona sustentava. Uma coisa é certa: Hange não ia deixar aquela velha mesquinha chamar sua filha de ladra.

— Então pegue esse urso e enfie no

— DIGA À DIANA QUE EU TENHO MUITOS ANIMAIS DE PELÚCIA E NÃO PRECISO ROUBAR O DE NINGUÉM.

Leona gritou enfurecida, a voz adquirindo aquele timbre sutilmente esgoelado que só Hange era capaz de identificar e entender. A menina deu as costas às duas adultas e fugiu com o antebraço por sobre os olhos, como fazia quando não queria chorar e/ou ser vista chorando. Carminha deu um sorriso diplomático.

— Essas coisas acontecem. Criança acha que pode fazer tudo. Uma vez, o meu filho roubou uma laranja. Quando chegamos em casa, minha amiga... foi a primeira e última vez que ele comeu laranja.

Hange queria arrastar aquela velha pelos cabelos, obriga-la a pedir desculpas à Leona e depois fazê-la engolir o urso de pelúcia. Carminha percebeu o desejo de vingança e desmanchou o sorrisinho.

— Bem, eu vou indo. Obri

— Você já recebeu o que veio buscar. — Não dava para saber se Hange falava do urso ou da confusão. — Nunca mais dirija a palavra a mim ou à minha filha.

A avó de Diana engoliu em seco e concordou, gaguejando, incapaz de encarar a anfitriã. A senhora chispou rapidinho e Hange seguiu logo atrás. Amou vê-la cabisbaixa e irrequieta, como se temesse um ataque pelas costas. Depois que a visita indesejada saiu, Hange bateu a porta com tanta violência que as dobradiças tremeram.

XXX

Hange subiu os degraus de dois em dois. Encostou a orelha na porta do quarto de Leona e escutou o chorinho. Todo o seu ser reagia à tristeza daquela criança. O coração pesou numa dor tão profunda que a própria Hange quis chorar. É engraçado como sentia o mesmo anseio de enchê-la de amor, abraços e consolos, da época em que sua filha era bebê e chorava quando a babá aparecia no quartel. Mesmo tão pequena, já entendia que a presença da mulher de uniforme preto e branco significava a ausência da mãe. Aquela espertinha.

Hange abriu a porta e o choro parou abruptamente. Hange fitou os brinquedos, a estante e a janela aberta, sem ver Leona em nenhum canto. A comandante suspirou, fechou a porta e sentou no tapete. Mirou a escuridão em baixo da cama e chamou, naquela voz doce e baixinha que acalmava Leona nos momentos de raiva, medo e ressentimento:

— Filhotinho, a sua mãe está aqui. Vem cá.

A voz de Hange bastou para atiçar o choro de Leona. A menina engatinhou para fora do esconderijo uivando um pranto forte, como fazemos quando estamos sensíveis e a pessoa em que mais confiamos chega para cuidar da gente. Aquele parente, amigo ou amante que a mera presença liberta a criança chorona que todos nós temos dentro do peito.

As palavras de Leona saiam entrecortadas e confusas no meio dos soluços. Aquela devia ser a primeira vez que Leona sofria uma injustiça verdadeira, até onde Hange se lembrava. Ser acusado de algo que não fez é uma das situações mais frustrantes que um ser humano pode passar. Apesar de tudo, Hange não se importava com Carminha espalhando mentiras sobre a suposta má índole de sua família. Os vizinhos, os colegas e os amiguinhos de Leona não acreditariam.

— A... Diana... falou... que... eu... roubei... o... urso.

As palavras vieram cortadas por soluços raivosos. Hange afastou a franja da testa quente e acariciou a bochecha úmida. Leona enfiou-se entre os braços da mãe, buscando o seu amor reconfortante. Hange alisou as costas trêmulas, e a filha se acalmou sob seus consolos.

— Amanhã você tira essa história a limpo, Bolinha.

— Não quero olhar para a cara da Diana, mãe, nunca mais na minha vida. Eu levei a culpa pela história do banheiro e ela falou para avó que roubei o urso. Ela não é minha amiga. Se essa doente aparecer na minha frente, vou bater nela. Vou dar uma surra que ela vai ver só. É bom que tenha gente perto para separar quando eu a pegar, senão eu vou

Leona continuou falando sobre suas ideias homicidas, e muitas das ameaças eram imitações da cacofonia que Levi ralhava quando aborrecido. Hange, porém, estava indignada demais para achar a referência engraçada. Todo o seu bom-humor tinha ido para o inferno. Nem se a carta de Hizuru chegasse agora, amenizaria a fúria.

Leona falou, falou e falou, os soluços cessando, sendo substituídos por murmúrios. Como Diana pôde? Isso não era certo. Leona vomitou a raiva até as declarações de guerra se transformarem num choro baixo e magoado. Se sentia triste por alguém ter pensado algo tão baixo a seu respeito.

Hange deixou Leona extravasar o desgosto. Sua filha não estava dizendo aquelas coisas com o coração. Crueldade e vingança não fazem parte da personalidade de sua filha. Hange a beijou nos olhos, na cabeça e no nariz, a acalmando com sua presença, dizendo através de gestos que estava tudo bem. Às vezes, essas coisas acontecem. Não dá para prever o que os outros pensam de nós.

— Você acha que eu devo falar com ela, mãe?

Perguntou Leona, fungando. Chorar ajudou. Leona estava sossegada, mansa e cooperativa entre os braços da mãe.

— Acho. Você não roubou o urso. Precisa dizer isso a ela, ou aí mesmo a Diana vai pensar que você roubou.

A menina assentiu, concordando tanto com o argumento quanto com a sugestão. Hange ainda não tinha terminado. A comandante abraçou Leona e lhe deu um beijo longo e molhado na bochecha. Leona gemeu pelo desconforto de estar sendo apertada, e tentou se afastar. Hange a manteve presa, e sussurrou:

— Estou orgulhosa de você.

— Por quê? — Perguntou Leona, sufocada.

— Porque você manteve a sua mentira até o fim.

Leona não tinha pensado por esse lado. Na verdade, sequer reparou, de tão fiel que era aos pactos feitos com os amigos.

— Você é a única mãe que não briga quando vê uma criança mentindo.

Hange apertou o rosto de Leona até a menina fazer bico. Olhou fundo nos olhos da filha, deu um sorriso travesso e respondeu:

— É porque a minha filha só mente para o bem.

Hange soltou Leona apenas para jogar-se sobre ela, a convidando para brincar de luta. Leona, é claro, entrou na brincadeira. A comandante a encheu de cócegas na barriga, nas orelhas e nas axilas. Rindo, Leona batia na mãe e tentava virar o jogo. Resolvendo jogar sujo, atacou os óculos de Hange. A comandante se encolheu, dando risada.

— Ai, os óculos não! É covardia.

Sem outra alternativa, Hange deixou Leona ficar por cima. Foi a vez da menina atacar a mãe com cócegas.

— Grrr, sou um titã e vou devorar você.

— Você sempre quer ser o titã. — Hange firmou os pés nos flancos da criança e a levantou. — O que você está querendo dizer com isso, Bolinha? Ser soldado não é legal?

— Ser titã é mais divertido.

Leona deu um rugido baboso. As gotas de saliva pingaram nos óculos de Hange e ela virou a cara, rindo. Logo, ambas esqueceram de Carminha e seu intrometimento. As duas brincaram um pouquinho intercalando cócegas, mordidas e puxões de cabelo indolentes. Quem interrompeu a brincadeira foi Leona.

— Mãe, você colocou o Pernalonga na gaiola?

Leona perguntou sem estar ofegante pela brincadeira enérgica. Nem precisou ouvir a resposta para saber que a mãe esqueceu do coelho. Leona saiu em disparada, deixando uma Hange fatigada para trás. A comandante ficou estirada no chão, sorrindo e fitando o teto, aproveitando a temperatura fria do piso. Lá em baixo, Leona encontrou Pernalonga na gaiola, comendo as verduras que Hange pôs para ele. Sua mãe não tinha esquecido do coelho, afinal.

XXX

Naquela noite, Leona teve dificuldade para dormir. Diana ocupou seus pensamentos. Por mais de uma hora, refletiu sobre os possíveis desfechos da iminente discussão. Ou continuariam amigas, ou a amizade estaria acabada para sempre. Apesar de ainda estar magoada, Leona não queria perder Diana. Gostou tanto de brincar com ela, e de ouvi-la rir...

Por sorte, Hange ficava acordada até tarde. Leona levantou e pediu para a mãe lhe ajudar a dormir. Bastou um copo de leite fervido e uma pequena palestra sobre a vegetação de Paradis para Leona adormecer.

Leona sonhou com Diana. Um sonho meio estranho. Uma espécie de pesadelo que não dá medo, mas torna o sono inquieto e te faz acordar cansado. No sonho, em vez de ser acusada de molhar o banheiro, a diretora e o vice a incriminavam pelo desaparecimento do urso. Leona chamava Diana pedindo para ela contar a verdade aos adultos. Saiu abrindo cada uma das cabines do banheiro, e quanto mais portas empurrava, mais portas apareciam, até Leona se perder no interminável corredor.

Leona acordou antes de Hange. Esqueceu do sonho antes de sair para ir à escola, mas a ansiedade continuou pendurada em seu ombro. Mal podia esperar para resolver o problema. No entanto, Leona não encontrou Diana na porta da escola, tampouco na fila de alunos da primeira série. Leona se agitou. Por que Diana não veio? Será que estava fugindo? Leona cogitou Diana ter mudado de escola. Então, na hora da aula, quando todas as crianças já estavam sentadas em suas classes, uma tímida batida soou na porta.

— Desculpe o atraso, professor.

Era Diana. A menina entrou na sala sem olhar para ninguém, e sentou-se em seu lugar. Leona a encarou por mais de dois minutos, sua expressão mostrando um misto de preocupação e curiosidade. Diana se esforçou para suportar o peso do olhar e fingir que Leona não existia. Contudo, em certo momento, Diana girou a cabeça um pouquinho para ver se Leona ainda a fitava, e ao encontrar os olhos da filha da comandante da Tropa de Exploração, virou a cara aflita.

Leona interpretou esse gesto como desdém. A raiva de ontem subiu por seu estômago, embora numa intensidade menos perigosa. Leona apertou o lápis, mirou a folha em branco e começou a riscar a lição do professor com força o bastante para marcar a página seguinte. Diana não ia a ignorar. Não mesmo.

O recreio foi esperado com impaciência. Não apenas por Leona, como por todas as crianças. Os alunos mal podiam esperar para se verem livres do mestre por quinze minutos. Leona, todavia, só tinha uma coisa em mente. Quando o sino do intervalo tocou e as crianças saíram eufóricas porta afora, Leona levantou de sua carteira e foi direto na classe de Diana. A menina da tiarinha percebeu a aproximação de longe, e seus olhos assustados buscaram por uma rota de fuga. Sem ter como fugir, acabou encolhida na cadeira.

Vê-la retraída daquela maneira sensibilizou Leona. Parou a poucos centímetros de distância, e ao falar, sua voz não expressava nem dez por cento da energia imbatível de segundos atrás.

— Diana, o que aconteceu ontem?

— Bolinha, eu tentei. — Murmurou Diana, vermelha feito um tomate. — Eu juro que tentei te acobertar, mas a minha avó não gosta que eu tenha amigos.

Leona arqueou a sobrancelha. Não entendeu nem uma palavra, e duvidava de ter escutado direito. Sabe uma biblioteca? Se você não sabe o que é uma biblioteca, aqui está: é um lugar chato onde a gente precisa falar o mínimo e o mais baixo possível para não atrapalhar a leitura dos outros. Pois bem, Diana agia como se o mundo inteiro fosse uma biblioteca.

— Eu não entendi.

Leona sentou na cadeira da classe da frente, apoiou os braços no encosto e deu uma rápida analisada no material escolar de Diana – livros e cadernos em perfeito estado, e a caligrafia de uma dama. Ao erguer os olhos, a encontrou encarando o próprio colo.

— A vovó Carminha não gosta que eu empreste os meus brinquedos. Ela diz que brinquedos são muito caros, e por isso não posso andar com eles na rua e nem emprestar. O senhor Bilú, o meu ursinho, é meu desde que eu tinha três aninhos, e ele está todo sujo e remendado porque minha avó não pode me comprar outros. — Diana suspirou, e no segundo seguinte os olhos tão escuros quanto o cabelo fitaram os de Leona. — Eu contei para a vovó que emprestei o ursinho para você, Bolinha, e a minha avó ficou uma fera comigo e disse que ia dar um jeito de fazer eu nunca mais emprestar brinquedos para você.

— Então você não disse que eu roubei o seu urso?

Os olhos de Diana se transformaram em duas bolas de bilhar negras. Pela primeira vez na vida, Leona era encarada diretamente por Diana por mais de vinte segundos. A menina da tiarinha sacudia a cabeça, parecendo chateada e, sobretudo, furiosa.

— Não, Bolinha! A vovó Carminha disse isso!? Eu jamais diria algo assim! Ela mentiu para você pegar raiva de mim! Ela faz isso quando não gosta dos meus amigos!

Diana exclamava numa raiva quase desesperada, desolada pelas maldades de sua avó, que não era má pessoa, mas sabia ser cruel quando queria, seja para proteger a neta das más influências do bairro ou por prazer. Leona, por outro lado, não precisava conhecer o dia a dia de Diana para acreditar. Bastava observar o comportamento tímido, desajeitado e acautelado.

Afinal, as três eram grandes mentirosas. A diferença é que a mentira de Carminha saiu pela culatra, e agora Leona e Diana eram amigas de novo. No fim, Leona fez bem em proteger Diana, tanto no banheiro quanto de Carminha. Sua mãe tinha dito que ela contava mentiras para o bem. Na opinião de Leona, valia a pena mentir para cuidar de Diana.

— Eu não sabia que a sua avó era assim, Diana. Me desculpe por ter pensado mal de você. E obrigada por tentar me proteger.

— Eu que agradeço, Bolinha. Digo, por você ter mentido para a diretora. Eu nem sei o que minha avó faria caso descobrisse...

Leona concordou. Decerto, não estariam conversando agora caso Carminha soubesse do banheiro. A menina da tiarinha deu um sorriso pequeno, e Leona retribuiu dando um muito mais largo e alegre. Lá na frente, o professor berrou para as meninas se apressarem, porque ele queria trancar a sala. Se ontem foi Leona quem arrastou Diana pela escola, dessa vez foi o oposto.

— Vem, Bolinha, vamos brincar de pega-pega.

— Posso convidar o Peter para brincar com a gente?

A menina da tiarinha ficou tímida pela inclusão de uma terceira criança, mas consentiu, sorrindo de canto. Então, Leona se desvencilhou dela, lhe deu um empurrãozinho no ombro e disse:

— Não me pega!

Leona saiu em disparada, ágil e veloz feito um animal selvagem. Diana foi atrás, tropeçando na saia e conferindo se a tiara rosa continuava no lugar. Enquanto corria, Leona pensava em como foi tola. Diana nunca quis prejudicá-la. Muito pelo contrário. É incrível como podemos julgar as pessoas quando não conhecemos a história completa por trás de acontecimentos que nem sempre são factuais.

Talvez nunca pudessem brincar de chazinho, correr no terreno do Tacílio, nem dormir na casa uma da outra. Uma pena. Porém, a vida não é tão injusta. Elas tinham a manhã inteira para ficarem juntas, e assim ficariam. Essa certeza aqueceu o coraçãozinho jovem. Leona olhou por cima do ombro, vendo Diana sofrendo para alcançá-la, e depois olhou para frente e viu seus outros companheiros no pátio da escola, rindo e brincando entre si. Leona pensou, grata, que amigos de verdade são o melhor presente que uma criança pode ter.

Notas finais
Olá, Pessoal, preciso de um favor. Eu quero conhecer o meu público-alvo. Sempre imaginei que, por gostar de escrever crianças, eu fosse me tornar uma escritora de infantojuvenil. Entretanto os leitores que conquistei APARENTAM ter mais de 18 anos. Fiz um questionário de cinco questõezinhas, e eu gostaria MUITO que vocês me ajudassem respondendo o formulário - incluindo os leitores fantasmas/que não possuem conta no site. Todas as questões são de múltipla escolha e o anonimato é garantido. O questionário não tem prazo, então você pode responder quando quiser. Estou postando esse capítulo no dia 24/08/2021. Não sei em qual data você está lendo essa mensagem, mas independente se for 2021 ou 2030, por favor, responda o questionário, se for possível. LINK: https://forms.gle/1siu5axAFzaJn9LB6 É isso. Agradeço a todos que leram até aqui. No próximo capítulo vamos conhecer a nossa querida amiga Kiyomi Azumabito. Curiosidade: a Hange estava lendo “can we always be this close?”, da @iamlosingtouch. Abraços.