Notas iniciais
Olá, Estamos em setembro! Como vocês sabem, o aniversário da Leona é no dia 20 desse mês. Em comemoração, comprei um character concept e fiz um carrd para ela. Gente, tá uma fofura só! Quem quiser conferir, está aqui: https://guidiverse.carrd.co/#leona. Futuramente, vou completar esse carrd com novas informações. Ah, outra novidade: vocês lembram quando eu disse que iria fazer um post sobre a VMP e dar dicas de escrita? Então, não vou precisar colocar dicas de escrita porque me convidaram para dar uma entrevista justamente sobre isso. Quem quiser ler, ou só conhecer a minha cara gorda e feia, aqui está o link: https://comoeuescrevo.com/ingrid-machado-contreira/ Se você ainda não respondeu o meu formulário de leitores, por favor, seja legal e me ajude a conhecer o público-alvo da minha história. LINK DO FORMULÁRIO: https://forms.gle/1siu5axAFzaJn9LB6

Há um calendário no escritório do comandante. Hange arrancou a folha do mês de outubro, a jogou no lixo e esfregou as mãos. Lá no outro lado do quartel, Armin escreveu em seu diário que a visita da embaixada asiática se aproximava. Não tão longe dali, Leona confidenciou à Peter que algo importante aconteceria naquela semana, mas não podia contar porque era um segredo da sua mãe. Na Capital, a quilômetros de distância de Trost, Zackly mandou limpar os castelos do porão até a última torre — os hizuruneses estão vindo, e eles vão querer conhecer a arquitetura paradisiana.

A embaixada chegou no porto de Paradis no dia três de novembro. A Tropa de Exploração, a Policia Militar, a Tropa Estacionária e a Marinha se organizavam em enormes quadrados verdes-militar. A diferenciação se dava pelo desenho nas costas dos uniformes. Asas para a Tropa de Exploração, cavalo para a Policia Militar, rosas para a Tropa Estacionária, e âncora para a Tropa Marítima.

A trupe da Capital, o grupinho seleto de generais, nobres e subordinados da rainha, aguardava no cais. Vossa majestade se encontrava entre os ricos. A rainha vestia o casaco do exército por cima do vestido real. Tal qual Historia, os generais também estavam arrumados. Até Hange se enfeitou para a ocasião especial. Todos repararam na maquiagem leve. Na verdade, a maquiagem que o capitão Levi passou nela, porque a feita por Hange ficou um horror. Leona não gostou de ver a mãe maquiada, aliás. Os subordinados e os voluntários, sim.

— Puxa, comandante, é a primeira vez que vejo você maquiada. Você está muito bonita.

Hange ouviu essa frase trinta vezes mesmo a maquiagem sendo só base e batom. Alguns homens e mulheres inconvenientes acrescentaram bem-intencionados "você devia usar maquiagem mais vezes". Hange ignorou as "sugestões" e agradeceu os elogios. No fundo, mal podia esperar para lavar a cara e chupar os lábios até arrancar aquela camada seca e rosada.

Avistaram o navio asiático. O barco hizurunês era pequeno em comparação aos de Marley. A atenção dos eldianos foi drenada pelo enorme reboque atrelado ao barco. O objeto tinha a forma de um pássaro. Não dava para ver o que era porque uma lona grossa o cobria. Não importa; para bom entendedor, a fisionomia basta.

Hange ouviu a agitação entre os soldados. Ela própria se inquietou. Hange inclinou o corpo, encarou Levi e sorriu com alegria ansiosa. Levi retribuiu o olhar. A inexpressividade de Levi mudou sutilmente, dando apenas um vislumbre de seu nervosismo. Quem dera Leona estivesse aqui. A menina ia amar ver o avião.

O navio atracou no porto. Os militares se puseram em formação, eretos feito estátuas. O coração de Hange batia rápido. Sentiu vontade de fitar Levi de novo. No entanto, não seria capaz de vê-lo sem girar a cabeça. Os hizuruneses começaram a desembarcar. A soldada Mikasa perdeu o fôlego ao ver pessoas tão semelhantes a sua família materna. Kiyomi, a matriarca, uma senhora elegante e de aspecto importante, liderava o grupo de forasteiros. Eram trinta ao total, e dez seguiam Kiyomi tal qual patinhos atrás da mãe. Aqueles deviam ser os membros da família Azumabito.

— Senhora Kiyomi, é um prazer conhecer você. — Saudou Historia.

As duas representantes apertaram as mãos. Depois, foi a vez dos generais mensurarem a nova aliada. Em seguida, um por um, cumprimentaram os demais integrantes da comitiva – políticos, engenheiros, subordinados, pilotos e cientistas.

Os comandantes foram chamados e apresentados à embaixadora e seus familiares. Hange deu um aperto de mão tão firme em cada um. Porém, para ser honesta, estava mais interessada nos outros convidados. Morria de vontade de perguntar sobre o avião. Por sorte, seu momento chegou ali mesmo.

— Nós trouxemos um presentinho... — Disse Kiyomi, fingindo mistério. — ...e gostaríamos de fazer uma demonstração antes de irmos ao hotel. Vocês já devem imaginar o que é.

— Um avião? — Insinuou Hange, sorrindo.

— Sim e não. — Kiyomi retribuiu o sorriso. — Onde podemos colocá-lo?

Hange entendia o bastante sobre aviões para saber que essas máquinas precisam de pistas extensas. Tirando a ferroviária e o porto, aquela parte da ilha continuava vazia. Hange tomou a iniciativa de mostrar aos hizuruneses aonde poderiam colocar o avião. A comandante apontou para um espaço de terra ampla, coincidentemente o mesmo lugar onde Eren Yeager se transformou na inauguração da ferrovia. Um hizurunês calvo avaliou a área. Ele concluiu que o local não era o ideal, mas serviria como improviso.

— O senhor é o responsável pelo avião? — Questionou Hange, interessada.

— Sim. Sou eu quem realizo a manutenção.

— Como funciona?

A pergunta veio na lata. Hange adorava aprender coisas novas. O homem explicou que a invenção no reboque não apenas voava, como também podia ser usada como barco. Algumas pessoas chamavam o hidroavião de BARCO VOADOR, embora fosse mais avião do que barco. Essa espécie de aeroplano requer manutenção e acompanhamento frequente, pois são máquinas em estado experimental. A manutenção leva cerca de seis horas. Por conseguinte, o no reboque fora preparado antes de sair de Hizuru. Já estava pronto para voar.

Soldados se voluntariaram para ajudar a trazer o hidroavião para fora d'água. No entanto, não havia jeito de puxá-lo sem cavalos. Uma grande quantidade de cavalos, pelo visto. Sendo assim, como foi projetado para decolar e pousar na água, decidiram que o avião decolaria no mar.

Apenas três asiáticos participariam do passeio. Afinal, a curta viagem era destinada aos amigos paradisianos. Uma cortesia para os eldianos ignorantes conhecerem a tecnologia avançada de Hizuru. A permissão foi concedida à rainha, aos generais, aos nobres, e aos quatro comandantes, sendo que cada um poderia convidar um subordinado. Hange, é claro, não pensou duas vezes sobre quem levaria.

— Vem, Levi.

Hange arrastou Levi na direção do avião encostado no cais. Levi a seguiu sem reclamar. O capitão estava entusiasmado, porém, sua experiência com o trem já não foi muito boa, imagina um avião? O trem, pelo menos, anda na terra. Aquela coisa voa.

Era preciso dar um pequeno salto para alcançar a entrada do hidroavião. Zackly, sendo gordo e velho, pediu a ajuda de outro general. Hange, logo atrás dele, tremia de tanta euforia. A comandante saltou como se estivesse pulando a distância entre dois precipícios. Por pouco não derrubou Zackly. Levi veio em seguida, dando um pulo felino.

O interior do hidroavião não discernia tanto assim da parte interna do trem, com a diferença de ser claustrofóbico. O capitão já sentia o estômago borbulhando. Escolheram um assento no meio da aeronave/embarcação. Hange, óbvio, sentou na janela. Nesse momento, o asiático calvo perguntou se alguém gostaria de ir na cabine do piloto. Hange ergueu a mão. Entretanto, um nobre jovem levantou primeiro.

— Eu quero. — Ofereceu-se o rapaz.

A comandante abaixou a mão, decepcionada por perder a oportunidade de voar na cabine do piloto. Hange jamais descobriria, mas aquele milésimo de segundo de atraso evitou uma fatalidade.

O hizurunês calvo guiou o nobre até a cabine. O asiático responsável pelo comando do aeroplano conferia o painel de controle. O piloto espirrou. Foi um espirro tão forte que a cabeça do homem doeu. O asiático limpou o nariz, pediu desculpas e apertou a mão do rapaz nobre. O eldiano sentou na cadeira livre e começou a fazer perguntas sobre o painel de controle. Antes de responder, o piloto puxou o ranho para dentro do nariz numa fungada audível; ele vinha se sentindo mal nos últimos dias.

Através do rádio, o piloto cumprimentou os passageiros e os instruiu a pôr o cinto. Hange colocou o seu sem demoras. Levi se atrapalhou; aquelas tecnologias eram demais para o pobre capitão. O piloto anunciou a decolagem. O hidroavião deslizou na direção do mar aberto. Dava para ouvir o barulho da turbina, e pela janela só era possível ver a onda que a máquina poderosa levantava.

Num passe de mágica, o barco voador abandonou o mar. Agora, não era mais barco. Borboletas agitadas nasceram na barriga dos paradisianos desacostumados com tamanha magnitude. Levi tampou a boca, segurando o vômito. Os passageiros gritavam. Os que sentavam na janela mal podiam acreditar na visão privilegiada. Hange deu um berro exaltado e espalmou as mãos no vidro. O porto se tornava cada vez menor conforme subiam. E continuaram subindo, e subindo, e subindo...

O avião voou pela muralha. Os civis pararam tudo o que estavam fazendo para contemplar o pássaro de metal. Muitos em Paradis leram o artigo publicado no jornal sobre aviões, numa edição especial chamada O MUNDO ALÉM DO OCEANO E SUAS ARMAS. Todavia, só os de boa memória e raciocínio rápido fizeram a associação. As pessoas supersticiosas entraram em pânico e berraram que o fim do mundo começava. Alguns céticos puseram a mão reta na testa para tampar o sol, miraram o avião e quase acertaram ao supor ser uma nova tecnologia do governo. Outros, no entanto, erraram feio com as mais diversas teorias, desde ser um titã voador até se tratar de alienígenas. Isso no caso dos adultos. Entre as crianças, o sentimento predominante foi uma espécie de curiosidade aterrorizada. Entretanto, algumas não sentiram medo. Entre elas, Leona.

A filha de Hange conhecia as aeronaves por fotografias. Uma vez, Yelena lhe mostrou imagens de aviões de guerra e de aviões de viagem. Em uma das fotos, dois asiáticos bigodudos posavam ao lado de um Fokker D.XXI. Esse avião era DE CAÇA. Leona ficou impressionada pela robustez do pequeno aeroplano. Em outra foto, pessoas subiam numa escada-móvel para entrar num imenso avião branco de passageiros. Leona perguntou à Yelena quando poderia ver um avião ao vivo. A espiã estourou a bola do chiclete que mascava e respondeu que em breve aeronaves voariam no céu da ilha.

O "em breve" chegou. Quando o avião passou, Leona e Peter jogavam taco-e-bola. Leona, a rebatedora, perdeu a força dos braços. A cabeça do taco caiu na grama, e o cabo ficou solto em seus dedos frouxos. Peter empalideceu; de sua boca arreganhada não saia palavrinha.

O aeroplano deixava dois rastros de fumaça branca. Uma nuvem disforme se encontrava logo à frente do pássaro de aço, e Leona deixou o taco cair de vez quando o avião desapareceu dentro da nuvem. Leona não sabia que era possível entrar em nuvens. A vida inteira acreditou que as nuvens fossem sólidas, e que os anjos e os mortos as usassem como camas. O avião reapareceu no outro lado. O semblante surpreso mudou para felicidade pura. Leona saiu correndo e uivando atrás do aeroplano.

Peter pediu para Leona esperar. Leona não lhe deu importância. Sem ter o que fazer, Peter seguiu a outra criança. Leona vivia falando das aeronaves, contudo Peter nunca acreditou nela. Quer dizer, ele acreditava em aviões, mas não esperava vê-los na ilha.

Leona cansou de correr após subir numa colina. Se pudesse, perseguiria o avião para sempre. Ou até o pássaro de aço pousar; o que viesse primeiro. Peter parou ao lado da amiga, ofegante. Leona passou o braço pelos ombros do garoto e começou a saltar, apontando para o avião com a outra mão.

— VOCÊ VIU, PETER?! INCRÍVEL!

— Eu vi sim. Minha nossa.

As crianças contemplaram o rastro de fumaça. O avião se transformou num pontinho cinza. Leona suspirou. Como queria passear naquele negócio. Peter voltou para onde deixaram os brinquedos, e Leona permaneceu observando o céu. O garoto devolveu a bola de Leona.

— Por que tem um avião na ilha?

Questionou Peter, pensativo. A vinda dos hizuruneses era segredo do estado. Bem, agora não devia ser. De qualquer forma, Leona continuaria mantendo sigilo. Se fez de desentendida.

— Não tenho ideia. Os marleyanos devem ter trazido.

— É a única explicação. — Peter deu de ombros. — Vamos falar com os outros.

Leona concordou. Estava entusiasmada para conferir a reação de seus amigos. Se perguntou quantos deles mijaram nas calças e conseguiu pensar em quatro nomes. Os dois voltaram para o vilarejo, Peter com o taco no ombro e Leona quicando a bola. Chegaram no bairro em dez minutos. Encontraram algumas crianças sentadas na calçada. Eram seis ao total, entre elas Rebeca e Otto, seus coleguinhas da escola.

— Bolinha, Peter! Graças à Santa! — Rebeca veio recebê-los. — Estávamos preocupados com vocês.

— Huh? Por quê?

Perguntou Leona, confusa. Rebeca abriu a boca para responder, porém, Otto a empurrou. O garoto pálido e virado em olho apontou o braço trêmulo para o céu.

— É O NOSSO ÚLTIMO DIA NA TERRA! NÓS NÃO PROTEGEMOS A MURALHA, DEIXAMOS OS FORASTEIROS ENTRAREM NA NOSSA CASA, E AGORA A SANTA ENFRAQUECEU! O DIABO ESTÁ MANDANDO SEUS LACAIOS PARA NOS MATAR! PRECISAMOS REZAR PEDINDO PIEDADE PELOS NOSSOS PECADOS!

A voz atropelada implicava medo. Otto vinha de uma família religiosa. Ele acreditava na Santa como se sua vida dependesse disso. Na verdade, na opinião do garoto, dependia mesmo. Leona gargalhou até a barriga doer, e Peter riu entredentes.

— DO QUE VOCÊS ESTÃO RINDO? — Otto agitava o braço esticado. — ORA, VOCÊS VÃO SER OS PRIMEIROS A IREM PRO INFERNO.

Declarou o garoto em fúria desesperada. Essa era outra característica de Otto. Ele vivia falando que todo mundo ia para o inferno, menos ele.

— Calma, Otto, não é nada disso. — Leona abaixou o braço do garoto. — Eu explico.

Leona falou sobre aeroplanos por cerca de meia hora. "Os aviões são pássaros gigantes feitos de aço e voam com a força de um poderoso motor", relatou Leona. As outras crianças ouviam em silêncio. Leona foi um pouquinho longe demais na explicação, sobretudo na parte dos aviões voarem tão alto que é possível cumprimentar os mortos.

Otto, intransigente, balançava a cabeça em negação. Não acreditou em nem uma palavra. E quando Peter entrou na conversa dando razão à Leona, o garoto fez um gesto de desdém e deu as costas aos amigos, retrucando:

— Baboseira. Vocês vão engolir essas palavras quando a Santa vier resgatar os fiéis e deixar vocês para o diabo comer.

Nesse momento, dois garotos mais velhos que comiam maçãs direto da macieira do quintal da vizinha se intrometeram na conversa dos menores com risadas e ofensas. Otto parou de cacarejar e fitou os garotos risonhos. Otto já sabia ser ele próprio o motivo das risadas. Todas as turmas têm um bode expiatório. Otto era o deles.

— Moleque, você está sempre com o diabo na boca. Desse jeito, ele vai pegar é você.

Provocou o menino na árvore, um xexelento chamado Adam. O melhor amigo dele, Sandler, um garoto de boca tão suja quanto a roupa do corpo, cuspiu perto dos pés de Otto e desceu da árvore. Otto manteve a pose. O que aquele garoto tinha de franzino, tinha de corajoso.

— O diabo não vai me pegar. Eu rezo todas as noites e vou na igreja aos domingos e às quartas.

Otto cuspiu de volta. Contudo, o vacilo em sua voz mostrava que a sementinha da dúvida foi plantada. Sandler se pôs de joelhos, uniu as mãos como se fosse rezar e ergueu a cabeça forjando uma expressão de dor. Adam pegou duas maçãs e as enfiou dentro da camisa, na região do peito. Adam, fingindo inocência santifica, acariciou a cabeça raspada de Sandler.

— Oh, meu súdito fiel... — A voz de Adam era exageradamente afeminada. As crianças caíram na gargalhada, exceto Otto. Adam continuou: — ...lamba as muralhas e você terá a minha proteção.

Sandler levou ao pé da letra e lambeu a mão de Adam. Em resposta, o garoto deu um tapa na cabeça do amigo. Depois, tirou as maçãs da camisa e as jogou nele. Leona, Peter, Rebeca e os outros deram risada. Otto, em contrapartida, estava vermelho de raiva. O menino empurrou os dois maiores e saiu pisoteando as folhas e as pedras.

— VOCÊS VÃO VER SÓ! VÃO VER SÓ! EU VOU CONTAR AO PASTOR SOBRE VOCÊS.

Adam e Sandler fizeram nhé-nhé-nhé, reviraram os olhos e repetiram a fala do garoto menor. Leona mal se aguentava de tanto rir. Ela gostava de Otto, mas admitia que o menino era esquentado demais. Ninguém podia falar da igreja perto de Otto ou o garoto se transformava num pregador. Otto devia levar a vida menos a sério.

— Você vai escrever a sua cartinha de fim de ano para a Santa, Otto? — Provocou Sandler, pondo a mão em concha ao lado da boca para a voz sair mais alto.

— Só não deixa ela saber que você é baixinho e feio, se não ela não vai querer te levar para o paraíso. — Complementou Adam.

Otto mostrou os dedos do meio. Adam e Sandler ameaçaram persegui-lo. A intenção bastou para Otto desaparecer. A coragem de Otto só durava enquanto força bruta não estava em jogo. As crianças menores continuavam rindo. Peter foi o primeiro a parar.

— O que vocês querem dizer com cartinha de fim de ano?

Perguntou Peter. As outras crianças também se interessaram. Leona nunca tinha ouvido sobre essa tal cartinha de fim de ano. Sandler revirou os olhos.

— Eu esqueço que vocês estão na primeira série. — Sandler deu de ombros. — É uma carta que a gente escreve para o nosso melhor amigo, ou para a nossa namorada, ou para algum professor. Bem, o destinatário não importa, desde que seja alguém da escola. A diretora vai ir na classe de vocês falar sobre isso.

— Puxa, que legal. — Empolgou-se Leona. — A gente pode mandar quantas cartinhas quisermos?

— Não, é só uma. — Adam ergueu o dedo indicador, reforçando a informação. — A entrega acontece na festa de fim de ano da escola.

As crianças entraram em êxtase ante a palavra FESTA. Quem diria que aquela porcaria de lugar chato promovia FESTAS? Leona já imaginava os balões, a comilança e as brincadeiras no pátio. A carta era interessante também, e precisava ser para alguém do colégio. Leona já sabia para quem iria escrever.

— E o que tem na festa, meninos? — Perguntou Rebeca, os olhinhos azuis cintilando. — A gente pode levar os nossos pais?

Os garotos se prepararam para responder, no entanto, antes que qualquer som saísse de suas bocas abertas, duas garotas apareceram na extremidade da rua. As meninas eram da mesma idade de Adam e Sandler, com a diferença de terem todo o jeitinho de moça fina, enquanto os meninos mal tomavam banho. As meninas viraram a cara, debocharam dos rapazes e atravessaram a rua de nariz empinado. Adam e Sandler engoliram em seco e abriram caminho entre as crianças, ralhando:

— Não interessa. — Adam esbravejou alto o bastante para as meninas ouvirem. — Vamos indo, Sandler, temos muito assunto de homem pra resolver por aí.

— É. — Concordou Sandler, indo atrás do amigo. — Muita coisa de homem que criancinhas como vocês não entendem.

Leona acenou e desejou-lhes boa sorte com os assuntos de homem. Ah, que dia maravilhoso! Sua mãe estava naquele avião, Leona tinha certeza disso. Pediria para dar uma volta. Comprá-lo, talvez. Leona juntou moedas e notas por meses. Com certeza guardou dinheiro o suficiente para comprar uma aeronave. Depois de voar bastante, Leona ia dá-lo de presente para Diana, junto com a carta.

XXX

Leona passou o resto da tarde aguardando sua mãe. Hange não chegou no horário habitual. Já era noite quando Leona ouviu o barulho do portão abrindo. A menina voou até a porta. Não precisava de olho-mágico para saber quem era. Abriu a porta antes que a pessoa no lado de fora encaixasse a chave na fechadura.

— MÃE, EU VI! EU VI! — Leona atirou-se em Hange. — VOCÊ ESTAVA LÁ, NÃO ESTAVA? COMO FOI? É BONITO? É LEGAL? ME LEVA PRA ANDAR TAMBÉM?

Leona mal reparou no senhor Levi. O capitão vinha trazendo duas sacolas de compras. Levi ergueu as sacolas ao passar por Leona, pois a menina estava tão serelepe e saltitante que acabaria esbarrando nos sacos. Hange respondeu o questionário.

— Sim, foi bom, é bonito, é legal, vou ver se é possível. Ei, calma, Bolinha, para de pular.

Rindo com amabilidade, Hange segurou os ombros da filha e a fez se aquietar. Em contrapartida, a língua de Leona permaneceu indomada. A menina tagarelava:

— Eu vi o avião, mãe. Minha nossa, eu amei. O Peter viu também. Ele amou. Nós estávamos brincando na hora, né, de taco-e-bola. Os meus amigos ficaram com medo, e o Otto achou que era o diabo vindo pegar a gente. — Leona gargalhou. — Como ele é bobo, não é, mãe? Bom, aí o Adam e o Sandler zombaram do Otto e ele saiu todo triste. — Leona sacudiu a cabeça e voltou ao assunto anterior. — Ah, mãe, eu gostei tanto de ver o avião. Eu não sabia que ele voava tão alto. Você sabia?

Levi separava as compras na mesa da cozinha. O capitão olhou mãe e filha de soslaio e se perguntou como Hange não perdia as estribeiras com aquela criança falante embolando três assuntos diferentes. Levi tirou o casaco e o pendurou nas costas da cadeira. Depois, abria os armários de Hange em busca de utensílios. Cozinhou tantas vezes na casa dela que sabia aonde encontrar as panelas, os copos, as tábuas de corte e os talheres.

Minnie, a babá de Leona, desceu as escadas e cumprimentou os dois militares. Hange perguntou se Minnie gostaria jantar peixe ensopado. A babá recusou. Hange insistiu até dizer chega. Hange implorava "ah, Minnie, por favor, o Levi cozinha tão bem". Por fim, Minnie venceu Hange e foi embora, deixando os três à sós.

Levi se distraiu cortando os vegetais do molho. O peixe já viera limpo e cortado em postas da peixaria, então não precisava se preocupar com a proteína por enquanto. Hange e Leona sentaram na mesa.

— Mãe, você viu as nuvens de pertinho?

— Vi. — Hange sorriu. — Na verdade, Bolinha, os aviões voam acima das nuvens. Eu fiquei fascinada.

— Puxa vida! — Leona espalmou as mãos na mesa e se ajoelhou na cadeira. Não conseguia parar quieta. — Você viu o meu pai lá em cima?

O barulho da faca picando a cebola parou abruptamente. Silêncio. Levi encarou a dupla pelo rabo do olho.

— Leona, você devia escrever histórias de fantasia.

Levi resmungou e voltou à cebola. Hange achou graça da pergunta de Leona e não se preocupou em esconder.

— Claro que não. O seu pai está nas estrelas.

— Então só dá para vê-lo durante a noite? — Leona não se contentava.

— As estrelas estão muito longe, filhotinho.

— Muito longe quanto?

— Longe demais para um avião alcançar.

Leona mordeu o interior da bochecha. Sabia que seu pai nunca desceria para visita-la, e achou que dava para fazer o caminho reverso utilizando aviões. Uma pena não ser possível. Só conheceria Erwin quando ela própria virasse estrelinha.

— E a mãe do Peter, você viu? Ele me pediu pra perguntar. — A voz de Leona não expressava a mesma empolgação de antes.

— Não, Bolinha. A mãe do Peter também está nas estrelas.

Leona suspirou. O desapontamento mal durou dois segundos. Leona já pulava e falava alto de novo. A menina saltou até a cadeira onde a mãe sentava, abraçou Hange pelo pescoço e tentou subir nas costas dela, querendo brincar. Em certo momento, ainda pendurada na mãe, girou a cabeça e encarou Levi.

— Senhor Levi, o senhor gostou do avião?

— Ele quase vomitou. — Hange respondeu pelo subordinado. — Esse fracote.

Hange e Leona deram risada. Devagar, Levi se virou com a faca suja de tomate e pimentão em mãos. O semblante severo bastou para fazer as duas garotas pararem de rir. Leona e Hange compartilharam um olhar apreensivo, embora o de Hange fosse fingimento. Leona se escondeu no colo da mãe. Hange mostrou a língua para o capitão. Levi revirou os olhos e retomou a preparação do jantar.

— Lembre-se de que eu estou cozinhando. Posso envenenar esse peixe a qualquer segundo.

— Levando em consideração os produtos químicos que eu tenho aqui em casa, você poderia mesmo matar a gente, se quisesse.

A resposta de Levi foi um sorriso de canto dado aos vegetais cortados. Apesar de não ver o rosto dele, Hange soube que Levi sorria. A comandante se voltou para a filha.

— Na próxima vez que eu for andar de avião, vou tentar levar você.

— Não podemos comprar um amanhã?

Perguntou Leona com naturalidade. Hange piscou, transtornada; levou cinco segundos para lembrar do cofrinho. Leona vinha juntando dinheiro para comprar um avião. Hange sempre a encorajou. Fez isso porque imaginava que a filha ia eventualmente esquecer dos aviões e gastar o dinheiro com outra coisa. Engano infeliz.

Hange passou a mão na cabeça, rindo sem achar graça. Leona estava convicta de que podia comprar um avião. E como não? A própria Hange disse que era possível. Ia ralar para convencê-la do contrário. Leona percebeu o constrangimento da mãe e seu largo sorriso vacilou.

— Filhotinho, aviões são muito caros, você não tem din-

— Como você sabe se a gente nem contou? — Leona interrompeu-a, pondo as mãos na cintura. — Eu vou trazer o meu cofrinho.

— Bolinha, espera.

Leona ignorou Hange e correu escada acima. Hange tirou os óculos, esfregou o rosto e apertou o osso entre as sobrancelhas. Levi colocava o peixe e os vegetais no fogo. O capitão sentia pena das duas. A seu modo intratável e ineloquente, ele tentou consolar Hange:

— A Leona tem umas ideias tão burras de vez em quando.

— Eu também tive culpa. — Hange colocou os óculos. — A Leona vai me fazer contar o dinheiro, espere só. Lá vem ela.

Leona voltou trazendo o cofrinho de porcelana e o martelo. O cofre era um urso-pardo obeso. Leona pôs o urso na mesa e levantou o martelo. Hange gritou para a menina esperar, contudo, não deu tempo. Leona desceu martelada no cofrinho. A porcelana emitiu um curto barulho alto – crac — ao ser estilhaçada. Levi encolheu os ombros e trincou os dentes. O capitão olhou para baixo e encontrou a cabeça ursídea entre os seus pés.

A martelada foi tão forte que o rabo do urso voou para a sala. Pedaços de porcelana jaziam no chão e na mesa, enquanto o dinheiro se aglomerava no meio de um morrinho de louça. Leona e Hange observaram os restos mortais do urso. Sem dizer nada, Hange enfiou a mão na gola da camisa e puxou a pata marrom que havia batido em seu peito e resvalado para dentro da roupa. Hange mostrou o pedaço de louça à Leona. A menina deu um riso nervoso. A mãe não riu de volta. Leona abaixou a cabeça.

— Você é louca, Leona? Quase cegou todos nós.

Leona estremeceu perante a forma dura como seu nome foi pronunciado. Ergueu a cabeça só um pouquinho. Viu sua mãe fazendo O OLHAR. Leona se encolheu, submetendo-se à autoridade da mãe sem demoras. Como detestava deixar Hange brava.

— Desculpa, mãe.

— Você precisa tomar cuidado com louça e vidro.

Hange pôs a pata decepada na mesa. A comandante encarou os pés descalços da filha e franziu as sobrancelhas. Leona levantou uma das pernas, de súbito alarmada. Hange tirou as pantufas com os próprios pés e as empurrou.

— E você descalça, como sempre. Vista isso, traga a vassoura e limpe tudo.

Leona, afobada para tirar aquele olhar assustador da cara de Hange, chispou ignorando a passada desconfortável do sapato de adulto.

— Não corra.

Acrescentou Hange, enfatizando a negativa. Leona diminuiu o passo e seguiu caminhando. Hange sacudiu a cabeça e puxou os pés descalços para cima da cadeira, sentando numa posição de lótus desleixada.

— Levi, pega duas luvas naquela gaveta, por favor?

Assim como Leona, Levi se apressou em obedecer. No fundo, achou engraçado Hange ter brigado com Leona por causa da martelada inconsequente, porque a própria Hange conseguia ser ainda mais insensata do que Leona. Bem, isso uns oito anos atrás. Hange mudou muito desde o nascimento da filha. O capitão encontrou as luvas térmicas as quais Hange se referia e entregou-as.

— Você se machucou? — Perguntou Levi.

Hange puxou a gola da camisa e examinou a pele. Encontrou marcas do equipamento de manobras e cicatrizes de batalha. Nenhum corte recente. Hange negou com a cabeça, agradeceu a preocupação, vestiu as luvas e começou a separar as moedas e as notas dos cacos.

— Essa criança maluca quase te fez perder um mamilo.

— Nem me fale. — Hange riu pelo nariz.

Levi retornou ao fogão. Leona apareceu pouco depois trazendo a vassoura e a pá. Hange juntou os cacos de louça sobre a mesa. Foram direto para o lixo. Leona se pôs a caçar cada pedacinho de porcelana. Por alguns minutos, os únicos sons na cozinha eram provenientes do trabalho: o barulho da panela borbulhando, o som das cerdas da vassoura, e o farfalhar das notas de cinco, dez e vinte.

Hange terminou de contar as notas. A comandante anotou o valor nas costas da mão. Em seguida, partiu para as moedas. Leona varria de cabeça baixa, evitando olhar a mãe tanto pela ansiedade de saber o valor total, quanto por temer encontra-la furiosa.

A comandante terminou de contar as moedas e anotou o número logo abaixo do valor em notas. Fez a soma de cabeça e se surpreendeu com o resultado. Leona guardou cada moedinha e notinha que recebeu por tomar conta dos animais dos outros, por ajudar vizinhas idosas a carregar as compras, por varrer calçadas, vigiar carruagens, regar plantas e levar e trazer os cavalos do campo. Sua filha era mesmo uma garotinha determinada. Na idade dela, Hange já teria gasto tudo na primeira oportunidade.

— Puxa vida, Bolinha, estou impressionada. Você está rica.

Hange a parabenizou, orgulhosa. Leona ergueu a cabeça, contente pelo dinheiro e aliviada por sua mãe estar de bom humor. Leona pôs a última pá de cacos no lixo e foi correndo sentar com a mãe. No meio do caminho, tropeçou por causa das pantufas e por pouco não caiu.

— Sua mãe não falou para você não correr? — Ralhou Levi. — Teimosa.

Leona sentou do lado da mãe. Hange havia organizado as notas num bolo e as moedas em torres separadas pelo número no cobre. Leona tremia, ansiosa pelo veredito. Hange deu um sorriso pequeno e meio infeliz. A comandante apertou a mão da filha de levinho, como se pedisse desculpas.

— Bolinha, um avião é muito caro...

Começou Hange, usando a voz mais compreensiva do mundo. O sorriso de Leona sumiu, o brilho no olhar murchou e ela fez beiço. Leona já sabia como a conversa ia terminar.

— ...olha só, você juntou cento e sessenta pratas. Se eu acrescentar mais um pouco, a gente pode comprar uma bicicleta. O que você acha?

— Quanto custa um avião? — Perguntou Leona, sem rodeios. — Posso juntar mais.

Dava para ver a decepção e a frustação abalando a determinação que Leona insistia em preservar. Hange sentiu uma dorzinha no coração vendo aquela carinha persistente. Leona queria respostas completas e concretas do porquê não podiam comprar um avião, e Hange as deu.

— Aviões são caros. Nem a rainha pode compra-los. Se fossem baratos, já teríamos um monte deles voando por aí, e pelo menos uns cinco aeroportos. Nós não temos nem aeronáutica. Tem um avião na ilha agora porque o pessoal de Hizuru quis trazer. Nós não pedimos.

Conforme Hange falava, Leona ia ficando mais e mais desiludida da fantasia infantil. Os ombros cederam e a menina baixou o olhar decepcionado. Os argumentos da mãe a convenceram. Agora, Leona se sentia tola por ter deixado de fazer tantas coisas legais para colocar dinheiro no cofrinho. Ela fitou as moedas e lembrou de quando deixou de comer algodão-doce com os amigos porque preferiu guardar as moedinhas que recebeu por ir ao armazém para a vizinha, em vez de gastá-las.

— Não fica triste, filhotinho. — Disse Hange, dando uma cutucadinha no nariz da filha. — Você vai querer a bicicleta?

— Não. — Leona esfregou o nariz. — Deixa pra lá. Guarda o meu dinheiro, por favor?

— Guardo. Ei, você não vai ficar aqui com a gente?

Leona já se dirigia para as escadas. A menina parou com a mão no corrimão e mirou os dois adultos. O senhor Levi a observava de braços cruzados e portava o clássico semblante inexpressivo. Já Hange implorava para a filha permanecer na cozinha. Porém, Leona queria ficar sozinha.

— Não. Vou desenhar no meu quarto.

— Tudo bem. A gente chama você quando o jantar estiver pronto.

— Obrigada.

Leona subiu as escadas. Hange encarou as cento e sessenta pratas. Leona guardou aquele dinheiro com tanto carinho.... Se ao menos tivesse deixado claro desde o começo que é impossível comprar um avião. Hange não gostava dessa palavra, impossível. Que vocábulo feio. Mas, tê-lo usado antes evitaria a situação atual.

Nesse momento, Levi sentou no lugar antes ocupado por Leona. O capitão pegou o bolinho de dinheiro e sentiu seu peso. Um desconhecido jamais conseguiria ler a expressão insípida de Levi, mas Hange, uma perita na linguagem Levística, entendeu o que o peculiar brilho no olhar do capitão significava.

— O que você está tramando, baixinho?

Perguntou Hange, curiosa e desconfiada. O capitão não sorriu ao responder.

— Você só vai saber amanhã.

XXX

Hange despertou pensando nos hizuruneses. A comandante fitou a parede do quarto e se perguntou como Kiyomi e o resto da família Azumabito passou a noite na Capital. A essa hora, deviam estar tomando chá em algum dos hotéis cinco estrelas da cidade rica de Paradis.

A comandante rolou estendendo o braço, querendo abraçar Levi. Hoje era o dia de folga de ambos. A comandante tateou o espaço vazio na cama, não encontrando nada além do cobertor amarrotado. Hange não estranhou a ausência do capitão. Levi acordava com os galos.

— Bom dia, quatro-olhos.

Hange abriu o olho e encontrou Levi se vestindo. Ele não a visitava todos os dias, porém vinha com frequência o bastante para ter metade de uma gaveta do armário. A comandante resmungou um bom-dia preguiçoso, rolou até deitar de costas e espreguiçou o corpo desde os braços até os dedos dos pés, bocejando e levantando a coluna ao esticar-se. O pijama subiu um pouquinho quando ela fez isso.

Levi não conseguiu evitar sorrir de canto. Hange era linda até quando não pretendia. O capitão não resistiu. Ele avançou e beijou o rosto da comandante, demorando-se na cicatriz facial. Lá em baixo, fez carinho na cintura e na barriga dela, amando sentir a pele quentinha na palma da mão. Hange ronronou e buscou os lábios do capitão. Eles se beijaram até Levi ter coragem de larga-la.

— Aonde você vai todo arrumado assim?

— Todo arrumado? Ora, estou usando uma roupa velha.

A resposta de Hange foi um sorriso molenga, e ela acomodou o lado do rosto sem olho no travesseiro. O capitão calçou os sapatos. Após isso, Hange e ele deram um beijinho de despedida. Levi disse que voltaria antes do almoço e não contou aonde ia. O capitão saiu e deixou uma Hange entorpecida para trás. Eram sete horas em ponto. Leona dormia em seu quartinho. Levi desceu as escadas sem fazer barulho.

Na rua, Paradis acordava. Um galo cantava em alguma casa distante. Uma senhora de idade abria as janelas. Uma carruagem passou em velocidade lenta, e o condutor dava bocejos tão lerdos quanto o cavalgar do cavalo. Levi não se apressou para chegar na mercearia do bairro. Pelo horário, o dono sequer devia ter aberto as portas. Dito e feito. Levi chegou quando o homem estendia o tapete de boas-vindas.

— Bom dia, capitão Levi. — Cumprimentou o comerciante, bem-humorado. — Como posso ajudar?

— Olá. Você tem caixas que não esteja usando?

— Tenho algumas. Quantas você quer?

— Todas.

Levi saiu da mercearia se sentindo um burro de carga. A calçada começava a encher e Levi andava pedindo licença. Em certo momento, acabou atrás de um homem lento. O velho caminhava a passos de tartaruga, contemplando os arredores, pensando em como a vida era linda. Levi precisou de todas as suas forças para não chutar o homem pelos ares. No meio do caminho, encontrou um garotinho vendendo jornais. Levi pediu para o moleque lhe entregar um exemplar. O garoto atirou o jornal em cheio numa das caixas.

Levi chegou ao seu destino secreto às oito horas. O local misterioso era a oficina de bicicletas. O dono não parecia totalmente desperto. A face cansada dizia que o homem desejava voltar para a cama. Levi entrou e largou as caixas no chão, fazendo bastante barulho de propósito. O mecânico acordou de vez.

— Bom dia.

— Bom dia. — Respondeu o mecânico.

Levi analisou a oficina. Apenas bicicletas de adulto estavam no mostruário, e muitas aguardavam reparo.

— Você vende bicicleta de criança?

— Quantos anos a criança tem?

— Sete.

— O senhor tem preferência de cor?

— Traz qualquer uma. — Levi deu de ombros.

O mecânico pediu para Levi aguardar. O homem voltou trazendo uma bicicleta de aro 20. O quadro era de um prata brilhoso. O dono da oficina perguntou se Levi preferia outra cor. O capitão negou. Gostou bastante da cor prateada, e algo dentro dele dizia que Leona também iria gostar.

— Essa está perfeita. Você faz personalização?

— Não sou muito bom, mas faço. Do que o senhor precisa?

— Eu quero transformar essa bicicleta num avião.

O mecânico fez cara de paisagem. Levi viu pontos de interrogação sobre a cabeça do homem barbudo. O capitão revirou os olhos. Nem todos em Paradis leem o jornal. Por isso trouxe um. O capitão o largou sobre a mesa do mecânico, com a manchete virada para cima.

Letras de fôrma negras e grossas berravam HIZURUNESES DESEMBARCAM EM PARADIS. No entanto, o que de fato chamava atenção era a fotografia preto-e-branca do avião logo abaixo do título. A matéria começava desse jeito: o povo de Hizuru, os pioneiros da aviação, trouxeram um de seus aviões para a ilha. Quantos civis se assustaram ao ver esse monstro sobrevoando o céu paradisiano? Os olhos do mecânico brilharam.

— Ah, sim, avião... — Divagou o mecânico.

O homem estudou a foto e depois examinou as caixas. O mecânico pôs a mão no queixo e emitiu um audível som gutural. O dono da oficina achou a ideia maravilhosa. Caso desse certo, faria mais umas vinte bicicletas iguais e venderia feito droga. O homem mal conseguia esconder o entusiasmo capitalista.

— Olha, não sei se vai ficar bom, mas podemos tentar.

XXX

Se você já ganhou de seus pais, ou de qualquer outro familiar, algum presente inesquecível, então você pode imaginar a reação de Leona ao ver a bicicleta customizada. Ela experimentou a mesma alegria que você sentiu ao receber aquela magnífica boneca que fala palavrão. O júbilo que faz você bater palmas e dar gritos finos de felicidade.

Leona já tinha desistido da ideia do avião, e embora permanecesse meio decepcionada, superara a desilusão em partes. Como a menina pediu, Hange guardou o dinheiro numa caixa de biscoitos e devolveu para a dona. Nem um centavo do dinheiro de Leona foi usado. Levi pagou a bicicleta do próprio bolso, e embora tenha chorado um pouquinho o preço salgado, não se arrependeu.

Leona não fazia ideia de que ia ganhar uma bicicleta, quanto mais uma tão única. Portanto, quando Hange a chamou, Leona desceu as escadas sem expectativas ou anseios. A bicicleta esperava por ela na sala. O mecânico fez um ótimo trabalho com o material dado e suas limitações. O homem usou a caixa maior para fazer o corpo do avião; uma parte removível que encaixa por cima, tal qual uma pecinha de montar. Era larga o bastante para a criança caber, e sua altura não chegava aos pedais. As asas de papelão provinham da caixa maior, e foram unidas com cola forte. O estabilizador vertical na cauda do avião – Levi chamava de barbatana – erguia-se logo atrás.

Não foi possível fazer as hélices. Leona, contudo, não reparou nesse detalhe, tampouco no CUIDADO OVOS FRAGÉIS, no COMPANHIA DE ALIMENTOS MURALHA ROSE e na palavra BOLACHA cortada abruptamente no C. Como você sabe, caixas de mercadoria foram usadas na construção do avião. Leona não se importava com essas coisinhas tão supérfluas.

— MINHA SANTA! É O MEU AVIÃO! MÃE, OLHA, É UM AVIÃO DIREITINHO.

Berrava Leona com as mãos na cabeça, exaltando felicidade sincera. Morrendo de amores, sentia medo de tocar no presente e estraga-lo. Por isso, tocou no avião só com a pontinha do dedo. Deslizou o dedinho pelas asas e pela cauda do avião. Ao terminar, saltou, gritou e bateu palmas. Sua mãe deu um jeito de fazer um avião para ela e somente para ela. Existe mãe melhor do que essa?

— MÃE, EU AMEI! OBRIGADA! OBRIGADA!

Leona abraçava Hange, roçava-se nela, gritava e a beijava onde conseguia alcançar. Hange a fez parar. Leona obedeceu, ofegante pela agitação. A comandante apontou para a estátua humana perto da escada.

— Agradeça ao Levi, filhotinho.

O queixo de Leona caiu. Perguntou três vezes se sua mãe falava sério. Leona virou-se para Levi, desorbitada e surpresa; quem diria? Leona o abraçou. Levi se sobressaltou, incerto se retribuía ou empurrava Leona.

— Senhor Levi, muito obrigada.

Leona agradeceu e deitou a cabeça na barriga do capitão. Levi buscou o olhar de Hange, perguntando o que fazer. Não recebeu nenhuma dica. Hange não fazia nada além de rir. Sem saber como reagir, Levi se limitou a dar tapinhas na cabeça da criança. Tapinhas curtos e meio hesitantes, da mesma forma como você tocaria num precioso objeto desconhecido ou acariciaria um cão sarnento.

— Por nada.

— Bem. — Intrometeu-se Hange. — Que tal nós experimentarmos o avião?

Leona entrou em êxtase. O capitão precisou aumentar a voz três notas para ser ouvido em meio aos gritos infantis.

— Precisamos colocar as rodinhas, Hange. O mecânico me cobrou os olhos da cara para instalar, então resolvi trazer para nós mesmos colocarmos.

— Rodinhas? — Hange fez descaso. — Rodinhas é para os desajeitados.

— Eu não sou desajeitada.

Declarou Leona, inflando o peito. Levi perguntou à Hange se a comandante tinha algum tipo de problema mental. Hange respondeu que alguém que anda a cavalo pode andar de bicicleta. Levi revirou os olhos e bufou "isso não faz sentido nenhum". Hange começou uma palestra sobre equilíbrio, e Levi interrompeu a chamando de doente. Hange rebateu dizendo que o capitão era paranoico. Os dois brigaram até Leona bater o pé.

— SILÊNCIO! — Leona esbravejou. — Senhor Levi, mãe, vamos logo.

Leona não deixou Levi retirar a customização. Ela queria que todos vissem o avião. A bicicleta fez sucesso entre os vizinhos. As crianças admiravam espantadas e salivantes, e as acompanhadas pelos pais pediam uma igual. Peter, varrendo a calçada da mercearia do pai, acenou e elogiou a bicicleta. Adam e Sandler ficaram loucos para tocar no avião, mas a presença de Levi os amedrontava.

— Vamos num lugar com grama. — Sugeriu Levi. — Assim a Leona não vai se quebrar toda quando cair.

— Ora, quem disse que eu vou cair?

— Eu já estava pensando nisso. — Comentou Hange.

— Ei, eu não vou cair!

Os três foram para o campo onde Leona e Peter viram o avião. Era um espaço aberto, largo e com poucas árvores. Famílias costumavam fazer piqueniques ali. Entretanto, naquela manhã de sábado, o campo era todo deles. Levi apreciou a imensidão vazia. O lugar perfeito para ensinar uma criança a andar de bicicleta.

— Vamos lá. Vem, filhotinho.

Só era possível subir na bicicleta por cima. Levi segurou a bicicleta. Hange levantou Leona pelas axilas e a pôs no banco. Leona deu gritinhos satisfeitos, adorando estar dentro do quadrado de papelão. Se sentia numa cabine de piloto.

— Pronta para a decolagem, capitã Bolinha?

— Sim.

Leona pôs os pés nos pedais. Por um segundo achou que perderia o equilíbrio. Por sorte, sua mãe a ajudava. Na frente, o senhor Levi segurava o guidão.

— Preparando para a decolagem... — Hange imitava um rádio. — Três... dois...

Levi largou o guidão. Leona pôs força nos pedais. Hange soltou os ombros da filha e segurou o banco por dentro da abertura de papelão. A bicicleta começou a andar.

— Mãe, eu vou cair. — Apavorou-se Leona, assustada pela instabilidade. — Socorro!

— Não vai, estou segurando você. Pedala. Rápido!

Leona pedalou. A bicicleta ganhou velocidade. Hange corria junto, sem lagar o banco. Levi acompanhava as duas, correndo tão depressa quanto a bicicleta. Leona conseguiu estabilizar o equilíbrio. Os pedais giraram mais rápido. Leona saiu em disparada pelo campo. A menina pedalava de boca aberta, engolindo o vento. As asas de papelão tremiam. É óbvio que aquelas asas eram inúteis. Aviões de papelão não voam. No entanto, ninguém poderia impedir Leona de fingir que o seu aviãozinho decolava.

— ESTOU VOANDO! ESTOU VOANDO! ZUUUM ZUUUM! MÃE, MÃE, VOCÊ ESTÁ ME SEGURANDO?

— Estou, filhotinho. Continua andando.

Só que Hange não a segurava. Leona não precisava de ajuda. Hange tinha largado o banco há bastante tempo. Agora, a comandante batalhava para acompanhar a velocidade da bicicleta. Levi passava menos dificuldade. O capitão corria à esquerda de Leona, atento a possíveis quedas. Leona imitava os sons que ela imaginava que os aviões fazem. Hange corria com os braços abertos, imitando os aeroplano à sua maneira. Levi, embalado pela felicidade das duas, aumentou a corrida e desafiou Leona:

— Você não me passa. Lerda.

— PASSO SIM!

Levi correu como se estivesse numa missão. Leona pedalou, pedalou, pedalou e pedalou até emparelhar o capitão. Hange gritava "esperem por mim", e os dois respondiam "alcança a gente se for capaz". Nenhum deles, sobretudo Levi, esqueceria aquela manhã de sábado em que correram juntos, sem nenhuma preocupação ou pensamento pertinente a não ser a iminente queda do aviãozinho.