Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
37 Difícil de engolir
Passaram-se três dias desde a chegada de Hizuru. O aviãozinho que Levi comprou para Leona não sobreviveu aos tombos da bicicleta. Em compensação, o trazido pelos Azumabitos sobrevoou o céu de Paradis mais duas vezes. Agora, o aeroplano encontrava-se no porto, resguardado sob a vigília de sete soldados paradisianos.
Paradis era obsoleta em comparação aos outros países. A nação eldiana não possuía estrutura e tecnologia para estudar e construir aeroplanos. Dessa maneira, careciam de força aérea. Em tempos sombrios, o atraso no desenvolvimento bélico deixava Paradis vulnerável. Aí entrava Kiyomi e seu grupo.
Uma assembleia aconteceria naquela tarde. O foco da reunião era o papel de Hizuru no futuro da ilha. O clima no palácio da Capital era de ansiedade e inquietude. Escutava-se os murmurinhos dos soldados em todo canto do castelo. Os paradisianos, antes os orgulhosos últimos-seres-humanos-do-planeta, compreendiam agora o quão insignificantes eram naquele mundo gigante.
Mesmo assim, os presentes se mostravam esperançosos. Alguns andavam para lá e para cá se gabando; "como Marley vai temer a gente quando souber dos aviões", diziam. Mas não eram todos. Hange, por incrível que pareça, não estava lá tão otimista quanto achou que estaria. E parte das razões para seu abatimento se devia a questões pessoais.
A menstruação de Hange desceu na viagem, precedida por uma cólica incômoda e surda. Hange anotava o ciclo menstrual, portanto usava absorvente quando a menstruação deu as caras. Hange continuava menstruada. Acabara de trocar o absorvente, na verdade. A aparição do sangue a deprimiu. Foi uma surpresa algo tão bobo frustrá-la tanto. Bem, a razão por trás da aflição não era boba, para ser honesta. Entretanto, Hange tentava ver com esses olhos. Quem sabe assim, a cisma fosse embora.
— Os seus espermatozoides são fracos. Pensei que eu estava namorando o homem mais forte da humanidade, não o mais frouxo.
Foi o que Hange disse a Levi no hotel. A voz brincalhona e o sorriso zombeteiro travestiam a decepção. A resposta do capitão, rude e direta, no entanto também de tom cômico, fez Hange rir, embora não com honestidade:
— É a sua boceta que mata tudo.
Ele não mentiu, Hange refletiu. A comandante ocupava a mesma carteira na sala de reuniões onde, um dia, enfrentou Zackly e Weber. Naquela tarde desconcertante, Hange conquistou o direito de permanecer no exército por causa do nome de Erwin Smith. Se engravidasse agora, contudo, ninguém iria se intrometer. Uma porque os generais reconheciam sua dedicação ao posto, e duas porque seu próximo filho ou filha teria pai.
Claro, se a boceta de Hange não desintegrasse os espermatozoides de Levi.
Qualquer um diria que não há motivos para se preocupar. Levi e Hange vinham tentando há pouco tempo. Engravidar não é tão fácil quanto parece, apesar de Hange ter sido premiada só de levar umas toradas de Erwin. Todavia, Hange não era mais uma jovenzinha. Ela fez quarenta anos em setembro. Nessa idade não só é complicado engravidar, como levar a gestação até o fim também.
Hange ofereceu o coração à Paradis; batalhou contra titãs, desenvolveu armas, deu um golpe no governo, perdeu amigos, fez coisas que não queria e deixou de fazer as que gostaria de ter feito, em prol de Eldia e seu povo. Paradis, além de ser o seu lar, também era o terreno que cultivou, cuidou e protegeu, a fim de transformar a nação desolada num país de verdade, como os para lá do oceano. Hange queria construir sua família nessa terra. Levi era perfeito — a cada dia estava mais convicta de que o capitão chato e ranzinza era o homem com quem ia passar o resto de sua vida. E Leona desejava tanto uma irmãzinha...
Hange tinha um pouco de mágoa da primeira gestação. Não de Leona, mas de si mesma. Descobrir a gravidez foi difícil, o parto foi difícil, e os primeiros meses também foram. Olhando para trás, Hange se perguntava, com a voz da consciência embravecida, como pôde ter sido uma mãe tão desnaturada. Praticamente abandonara Leona após o parto. Depois de aceita-la, aproveitou toda e qualquer oportunidade de livrar-se dela, além de impacientar-se e, por vezes, gritar com uma criancinha recém-nascida como se estivesse brigando com outra mulher adulta.
Desprezou Leona, e seu corpo fez a mágica. Nada mais justo. Era bem merecido. Muito bem feito. Você não queria filhos, não é? Espero que você esteja satisfeita, Hange, sua seca. Entre a ansiedade da reunião com Kiyomi e as dúvidas sobre o futuro do país, Hange se martirizava pelo absorvente entre suas pernas, que enchia a cada mínima movimentação.
Zackly, a rainha e o general Weber entraram na sala de reuniões. Em vez de sentarem em seus lugares costumeiros, o grupo de superiores sentou junto aos militares de baixa patente. Hoje, o palanque da realeza era dos hizuruneses. Hange se empertigou. Pare de se preocupar com besteiras e preste atenção na reunião, repreendeu-se.
Kiyomi entrou acompanhada de dois homens, sendo um deles o asiático calvo com quem Hange conversou no porto. Os voluntários marleyanos se espalhavam pela sala, eretos e com as mãos atrás das costas. Ninguém lhes ofereceu cadeiras. Yelena e Onyankopon misturavam-se aos colegas de terno preto. O olhar atento do grupo de forasteiros fez Hange lembrar-se de uma alcateia de lobos espreitando o gado.
Do alto de sua cadeira, Kiyomi esticou o pescoço. O olhar da embaixadora caiu direto em Mikasa. Kiyomi não precisava de nada além dos próprios olhos para reconhecer alguém de sua linhagem.
— Você é Mikasa Ackerman.
A frase de Kiyomi não era uma pergunta, e sim uma afirmativa. Mikasa quase derrubou a cadeira ao se levantar. O homem sentado à esquerda de Kiyomi entregou um pano preto e comprido à embaixadora.
— Mikasa, você conhece esse símbolo?
Kiyomi mostrou o bordado de um brasão de família. O símbolo era a letra A formada por três espadas. Mikasa recuou, gaguejando. Os oficiais da primeira fila fitaram-na por cima do ombro. Os olhos de Mikasa, que eram dois risquinhos só um pouco mais abertos que os dos hizuruneses puros, se transformaram em ovos de ganso.
— É... aquilo ali é... — Mikasa agarrou o próprio pulso.
— Mostra para ela, Mikasa. — Eren a encorajou.
— Mas é segredo. — Sussurrou Mikasa, relutante.
— Você não mostrou para mim quando nós éramos crianças, porra? — Murmurou Eren, perdendo a paciência. — Mostra para ela.
Mikasa entreolhou Eren e Kiyomi. Então, arregaçou a manga e mostrou a cicatriz antiga aos hizuruneses. A embaixadora cobriu a boca aberta, espantada. Mikasa se explicou:
— Minha mãe fez essa marca em minha pele quando eu era criança. É uma tradição de família. Ela me convenceu a passar o símbolo para os meus filhos.
Essa informação emocionou o trio. Kiyomi teria abraçado Mikasa, caso estivessem próximas. A partir daí, seguiu-se a narrativa sobre a família Azumabito e o clã Shogun. Os presentes já conheciam o passado histórico entre Eldia e Hizuru, e por educação ouviram a história da boca de Kiyomi. A embaixadora chamou Mikasa de "o futuro de Hizuru". Eren só escutava mimimimi. Já Hange e Levi compartilharam um olhar cético – ambos acharam a declaração hiperbólica. Os comandantes duvidavam da benevolência hizurunesa. Numa guerra, ninguém ajuda por bondade.
Kiyomi deu fim a ladainha. A embaixadora adotou a postura vertical e firme digna de sua posição de liderança. Kiyomi fitou os paradisianos, em especial a rainha Historia e seu grupo de subordinados.
— Este é um momento histórico para Paradis e Hizuru. E o único motivo de termos nos encontrado é porque alguém em Marley nos ajudou, além dos voluntários atuando na ilha.
Kiyomi cumprimentou Yelena e Onyankopon com um aceno de cabeça. Levi apertou os braços cruzados e emitiu um resmungo gutural. O capitão já sabia quem era a terceira pessoa.
— Esse homem é Zeke Yeager. Creio que vocês já saibam sobre ele. Zeke me disse...
A partir daí, Kiyomi relatou a história por trás da dupla traição de Zeke. A primeira aos seus pais, e a segunda à Marley. Zeke entregou os pais porque descobriu que a sociedade de pesquisas biológicas de titãs estava prestes a desvendar os cabeças por trás da quadrilha liberiana. Segundo Zeke, ele deu os nomes de Grisha e Dina para proteger os avós, a si mesmo, e para garantir o seguimento da missão da facção.
Eren já sabia dessas histórias e suas versões – o LOUCO contou. Eren sentiu a veia em sua testa tremer quando Kiyomi mencionou a relação entre Zeke e os titãs de sangue real. Eren vinha guardando esse segredinho. O LOUCO disse para esconder as informações sobre o titã fundador, a fim de não colocar o plano do paraíso em risco. Eren obedecia com unhas e dentes. Nunca revelou o segredo dos titãs-reais aos superiores. Não contou nem para Armin e Mikasa.
Como os demais presentes não estavam informados sobre o parentesco de Zeke com a família real, o clima solene transformou-se em tensão. Hange compreendeu o fundamento do plano de Zeke em querer se encontrar com Eren Yeager, o portador do titã fundador, e por que Yelena batia na tecla sobre o plano só ser possível com a colaboração de ambos. Hange sentiu dor de cabeça. Não discerniu se a dor era sintoma da menstruação ou da reunião.
— De acordo com Zeke, se unirmos nossas forças, Paradis se tornará uma nação poderosa. Mais do que Marley. — Kiyomi relaxou na cadeira e fitou os paradisianos com ar sonhador. — Vocês têm uma reserva de recursos inacreditável. Nós vamos modernizar a ilha com grandes indústrias. Ah, os conglomerados de Hizuru lucrarão bastante. Vai ser um belo acordo.
Hange notou um... fio de saliva? Escorrendo da boca de Kiyomi. A mulher literalmente salivou só de falar em dinheiro. O capitão Levi torceu a cara, sentindo nojo da baba da velha e da ganância hizurunesa. O asiático à esquerda de Kiyomi deu um guardanapo para a embaixadora. Yelena e Onyankopon estavam certos sobre a gula dos hizuruneses. Como Hange supunha, a história sobre Mikasa era só charminho.
— Então, qual é o plano de Zeke Yeager? — Perguntou a rainha.
— Bem, Zeke está mantendo segredo por enquanto. — Kiyomi fez uma pausa. — O que ele dividiu conosco é que seu plano, bem como o papel de Hizuru nele, é crucial para salvar eldianos e não-eldianos.
Eren deu uma risadinha cínica bem baixinha. Mikasa pensou ter escutado alguma coisa, e logo deu a estranha risada perversa como coisa da sua cabeça. Armin escutou e resolveu deixar para lá. Um voluntário marleyano distribuiu os relatórios de Zeke aos militares.
— Existem três tópicos cruciais para protegermos a ilha. A primeira são os experimentos. Por meio destes, vocês podem mostrar seu poder destrutivo ao resto do mundo. Creio que esse objetivo será melhor explorado quando vocês conseguirem entrar em contato com Zeke Yeager. Mas, já dá para fazer algumas coisas caso vocês tenham maneiras de explorar a influência do sangue real em titãs.
Como Eren nunca confessou a história dos titãs-reais, Hange ficou sabendo do sangue real pelos amigos voluntários. No entanto, estavam de mãos atadas quanto àquela questão. Historia era a única herdeira do rei. Não tinham nenhum titã para alimentá-la. Quer dizer, sem que fosse necessário sacrificar Eren ou Armin. Era impensável colocar a única pessoa de sangue real da ilha, que também é a rainha do povo e representante de Paradis, numa missão perigosa de onde por certo não sairia viva a não ser que um dos garotos-titãs se sacrificasse. Às vezes, Hange se questionava se Erwin teria pensado em alguma estratégia. Em todas as reflexões chegava à mesma conclusão: Erwin elaboraria um plano num piscar de olhos.
— A segunda, — continuou Kiyomi — envolve Hizuru. Vamos fortificar o exército de Paradis. Vejo que vocês têm marinha. Ótimo. Falta a força aérea. Para isso estamos aqui. Vamos armar e desenvolver a aviação de vocês. Contudo, vai levar tempo para Paradis se igualar aos outros países. Vamos colocar uns cinquenta anos. Bom, agora entra a parte complicada. Para proteger a ilha, vocês vão precisar considerar a opção de nivelar a terra...
Nivelar a terra significa acordar os titãs colossais dentro das muralhas. Apenas a menção dessa possibilidade arrepiava os cabelos de Hange. Há muitos anos os gigantes não caminhavam na terra. Hange, uma sobrevivente daquele inferno, não queria ver a história se repetindo, independentemente de estar a salvo do perigo. E essa não era a pior parte. Kiyomi jogou uma bomba maior.
— E, por último, vocês vão precisar de um titã com sangue real para herdar o bestial de Zeke. Também é necessário criar outros eldianos de sangue real antes que os treze anos do próximo herdeiro terminem.
Kiyomi evitava encarar Historia. Os paradisianos, em contrapartida, quebraram o pescoço para fitar a reação da rainha. Hange foi a primeira a abaixar a cabeça. A comandante encarou o relatório sem ler o texto. Então, precisavam sacrificar a rainha. Uma garota de vinte e um anos condenada a morrer aos trinta e quatro.
Não obstante, Historia seria obrigada a gerar uma criança e entregá-la ao fardo de herdar o titã bestial. Historia teria que engravidar logo depois de devorar Zeke, e como não era casada, precisaria arrumar um marido ou ter filhos com qualquer homem. Historia amamentaria um bebê que não ia ver alcançar a idade adulta. O filho de Historia devoraria a própria mãe aos doze ou treze anos — uma criança somente seis anos mais velha do que Leona.
Nivelar a terra é uma arma poderosa. Supera qualquer barco ou avião de guerra. Titãs são criaturas formidáveis. Não é à toa que Eldia teve o mundo em suas mãos por décadas. Deveriam abrir mão desse recurso? Se sim, o titã fundador não seria necessário. Os membros da família real não passariam a vida escondidos em identidades falsas e fugindo de espiões e sequestradores. E, o mais importante, Historia estaria livre. Hange passou por uma gravidez. Só uma mulher que já teve filhos sabe como é enfrentar uma gestação. A maneira mesquinha como Kiyomi falou dos filhos de Eldia incomodou Hange. "Criar outros", disse Kiyomi, como se eldianas gerassem objetos, e não seres humanos.
Hange, como comandante e como mulher, gostaria de oferecer uma opção diferente à rainha. É imperdoável amaldiçoar uma garota e sua família em prol da sobrevivência. Não. Deve existir outro jeito. E, se existe, por que Hange não consegue encontra-lo? Se Erwin estivesse aqui...
— Eu entendi.
A voz decidida de Historia fez Hange erguer a cabeça. A comandante encarou a rainha, estarrecida. Historia complementou:
— Eu aceito a herança do titã bestial se isso garantir a sobrevivência de Paradis.
Apesar da atitude responsável e corajosa, dava para ver o pavor no semblante de Historia. Hange prestou sua solidariedade através de um olhar suave que a rainha não viu. Hange quis abraça-la e arrancá-la do palácio, tal qual Historia teve vontade de fazer com Hange naquela mesma sala, anos atrás.
— Eu não concordo. — Intrometeu-se Eren. — Se nossa sobrevivência depende da reprodução forçada e de assassinato, então não vou aceitar o plano de Zeke Yeager. — Eren franziu o cenho. — Eu sou o portador do titã fundador. Sem mim, o plano não funciona.
Hange se virou para encarar Eren. O soldado não parecia um homem negociando, mas um ditador impondo sua vontade. Ou uma criança mimada exigindo o brinquedo caro. Hange relevou a atitude do subordinado. A vida de Historia estava em jogo. Se agir com grosseria fosse salvá-la, ótimo.
Como se atingido por um dardo tranquilizante, Eren suavizou o olhar, e a pose agressiva amenizou, dando lugar a uma espécie de calmaria contida. Muito mal contida, por sinal. Eren apoiou as mãos na mesa. Hange reparou nos braços trêmulos. Hange supôs que Eren andava se drogando de novo. O soldado levantou a cabeça, e perguntou:
— É perigoso dependermos do titã fundador. Não é melhor considerarmos todas as nossas opções antes de arriscarmos a Historia?
— Sim, claro. — Respondeu Kiyomi. — Não há necessidade de acelerarmos as coisas. Por enquanto, vamos continuar agindo como mediadores de Zeke.
Eren sentou. Hange o mirou por segundos longos para os parâmetros de uma reunião oficial. Seu instinto dizia que havia alguma coisa errada. Estaria Eren magoado por causa de Historia? A face do soldado não dava espaço para interpretações ou questionamentos. Eren ignorou a comandante ou não a viu.
— Entretanto, temos razões de sobra para acelerarmos o segundo tópico. Meus engenheiros querem se reunir com os de vocês o quanto antes para começarmos os aeroportos e a base da força aérea.
A menção do aeroporto não animou Hange. A comandante continuava com a cabeça em Historia. Por causa de Eren, ganharam tempo para pensar em alguma solução que evitasse o uso do útero da rainha. Perfeito. Agora, cabia a Hange encontrar a saída. Porra, ela nem teve colhões para defender Historia.
Começaram a conversar sobre os aviões. Dessa vez, os dois homens asiáticos comandavam o debate. O general Zackly disse que selecionaria engenheiros paradisianos e voluntários de Marley para trabalhar com os hizuruneses. Kiyomi, bastante satisfeita, disse, empolgada:
— Vamos retornar a Hizuru em breve para conversar com nossos líderes e reunir mais pessoas. Nós vamos voltar à ilha antes de dezembro terminar, e gostaríamos muito que alguns paradisianos fossem conosco para conhecerem nossos políticos e conferir as nossas fábricas e aeronaves. Quem são os embaixadores de vocês?
A Tropa de Exploração era o mais próximo de uma embaixada eldiana. Os militares miraram o grupo de Hange. A comandante não percebeu os olhares. Levi chutou-a na canela. A comandante deu um pulinho e voltou a si rápido o bastante para pegar o contexto da proposta de Kiyomi. Pela cara abobada dos subordinados, os soldados passavam pelo mesmo entusiasmo crescente que se apossou de Hange.
XXX
— Mãe, você voltou.
Hange chegou em Trost após dois dias na Capital. Leona abraçou a mãe, morrendo de saudades. Hange retribuiu. O abraço, porém, não durou tanto quanto Leona gostaria. As duas entraram em casa. Leona saltava ao redor de Hange.
— Como foi na Capital?
— Foi bom. — Respondeu Hange, concisa. — E a escola? Você fez as lições direitinho?
— Claro, mãe. Você quer ver? — Ofereceu Leona, entusiasmada para mostrar os trabalhinhos.
— Depois.
Hange sacudiu a mão como quem diz deixa-para-lá. O sorriso de Leona diminuiu. Aquele comportamento soturno não era do feitio de sua mãe. Nesse momento, Minnie, a babá, apareceu. Hange recebeu de repente, seja do além ou do seu próprio interior, uma grande onda de sociabilidade. Minnie veio cumprimenta-la. Hange a envolveu num abraço cordial. Hange parou de sorrir enquanto abraçava a babá, e retornou à alegria rotineira quando ficaram frente a frente.
— Bom tê-la de volta, comandante. Como foi a viagem?
— Cansativa. — Respondeu Hange, lacônica. — E você, Minnie, como está?
— Estou bem. Não sabia que você ia chegar cedo. Nem comecei a preparar o jantar.
— Não precisa. Pode ir embora, se quiser.
A babá perguntou duas vezes se não tinha problema, e a comandante concordou em ambas. Hange se despediu de Minnie com um aceno de cabeça. Em seguida, Hange começou a despir o uniforme, iniciando pelo casaco, e depois abrindo o sutiã por dentro da blusa. Sentou-se no sofá para retirar as botas. Hange suspirou ao se livrar dos sapatos. A comandante deitou a cabeça para trás e fechou o olho, aproveitando o silêncio e a paz de estar em casa.
Então, Hange se sentiu observada. A comandante abriu o olho e encontrou Minnie e Leona paradas perto da escada. Leona desconfiada, e Minnie inquieta. A babá brincava com os próprios dedos e fitou o chão ao ser encarada por Hange. Minnie parecia constrangida. Hange levou cinco segundos para fazer a associação.
— Ah, sim. — Hange pegou a carteira. — Desculpe, esqueci que hoje é dia de pagamento.
— Não tem problema. — Minnie guardou o dinheiro. — Obrigada, comandante. Até amanhã. Até logo, Bolinha.
Leona fechou a porta após a saída da babá, pois Hange não se levantou para trancá-la. Leona estranhou a taciturnidade. Hange nunca voltava triste da Capital. Quer dizer, não nos últimos anos. Hange já chegava enchendo os ouvidos de Leona com novidades políticas, e a menina passava o tempo todo fazendo perguntas cujas respostas não compreendia. Contudo, hoje, sua mãe não queria conversar.
Hange fitava um ponto invisível. As sobrancelhas apertadas e o olhar concentrado denunciavam a imersão numa linha de raciocínio. Hange sacudiu a cabeça e murmurou um palavrão, como se chegasse numa conclusão insatisfatória. Em seguida, enfiou as mãos dentro da blusa e se contorceu na tarefa árdua de tirar o sutiã por baixo da camisa, torcendo a cara numa expressão de esforço e sussurrando reclamações.
Leona parou na frente da mãe. Hange arrancou o sutiã para fora da blusa tal qual puxaria uma cobra não peçonhenta.
— O que aconteceu, filhotinho?
— Nada. Eu só quero conversar. Me conta sobre a reunião.
— Ah, bom, nós vamos ter mais aviões. Hizuru quer construir um aeroporto na ilha, e nos ajudar com a força aérea.
Leona bateu palmas e celebrou a novidade. Hange também se alegrou. A comandante ergueu os punhos em comemoração, balançando o sutiã para lá e para cá. Todavia, a festividade acabou cedo. Enquanto Leona girava, Hange arremessou o sutiã nela.
— Coloca no cesto de roupa suja, por favor?
— Claro, mãe. — Leona amarrou o sutiã na cabeça com as taças para cima, o transformando num capacete. — Puxa, mal posso esperar para ver outros aviões.
— Eu também estou louca para vê-los. Ah, e eu vou visitar Hizuru junto com outros soldados.
Leona, que corria de um lado para o outro imitando um avião, paralisou no meio da sala. O choque durou pouco tempo. Logo, Leona pulava no sofá, berrando "incrível, incrível", perguntando quando sua mãe iria, se viajaria de avião ou de navio ou de carruagem ou de trem ou a cavalo ou de bicicleta, quando Hange ia voltar, e, se podia ir junto. Hange segurou os braços da criança.
— Desculpe, Bolinha. Não posso levar você. — Hange enfatizou a negativa. — Mas em breve poderei.
Apesar das palavras diretas, foi a postura esgotada da mãe que fez Leona se acalmar. Leona perguntou, numa voz delicada:
— Mãe, por que você está triste?
Hange, é claro, não ia encher Leona com os seus problemas de adulto. Leona não entenderia a história envolvendo a família real e seus descendentes, tampouco as questões políticas de Hizuru. E contar sobre estar tentando engravidar estava fora de questão. Se Leona ficasse sabendo, não descansaria até seu irmãozinho ou irmãzinha nascer. Para que dar falsas esperanças?
Hange deu um sorriso tranquilizante e abaixou o sutiã na cabeça da criança, transformando o capacete improvisado em óculos.
— Eu só estou cansada da viagem. — Hange se levantou. — Você se importa de jantar leite e biscoitos hoje, filhotinho? Não estou com pique para cozinhar.
— Tudo bem. — Leona tirou o sutiã da cabeça.
— Perfeito. Eu vou tomar banho, e acho que vou me deitar depois. Pode comer sem mim.
Leona assentiu. Hange subiu as escadas de cabeça baixa. Leona assistiu a mãe desaparecer no segundo andar. O vislumbre de uma ideia surgiu na mente engenhosa. A menina martelou o espaço entre a boca e o nariz. Hange não estava se sentindo bem. Leona não ia deixar por isso mesmo, não senhora. Cuidaria de sua mãe.
Assim sendo, além de separar leite e biscoitos para seu próprio jantar, Leona pegou uma panela a fim de preparar o de Hange. Era a primeira vez que Leona cozinhava. Ela não entendia nada sobre cortar legumes ou carnes, nem sobre tempo de cozimento, ou quantidade de água. Para ser honesta, sequer sabia como acender o fogão. Contudo, de vez em quando, Leona observava Minnie cozinhando, e sua grande capacidade de observação a ajudaria agora.
Dentro da despensa, Leona pôs a pontinha da língua para fora ao contemplar o acervo de alimentos. Grãos, vegetais, temperos, enlatados... todo o tipo de coisa. Tantas opções. Leona escutou o barulho da torneira da banheira – o banheiro ficava acima da cozinha. Droga, precisava se apressar para aprontar tudo antes de sua mãe terminar o banho.
Leona decidiu fazer uma sopa. Sua mãe adorava sopa. Agora, sopa de quê? Leona viu as batatas, a couve, as maçãs e o açúcar, e resolveu preparar uma sopa DE TUDO QUE HÁ DE BOM NA DESPENSA DE CASA. Sim, grande decisão, chef Leona Zöe Smith! Leona continuava segurando o sutiã. O amarrou firme na cabeça e começou a cozinhar sua sopa maravilhosa.
Leona encheu a panela de água até a boca. Pôs duas batatas inteiras, com casca e tudo, pois toda sopa que se preze leva batata. Acrescentou queijo e orégano, pois queijo e orégano são deliciosos. E, se queijo e orégano são bons, canela é melhor ainda. No mingau fica uma delícia, quanto mais numa sopa! Leona pôs metade do vidrinho. Então, pensou melhor e despejou o conteúdo inteiro.
Tomate? Meh. Tomate é ruim; dispensado. Minnie dizia que a cebola é o tempero universal, portanto Leona pôs cinco. Encarou a caixinha de ovos. Ah, ovos são uma barbada de quebrar! Leona quebrou três dentro da panela. Adicionou couve, chuchu, e, o toque final, amido de milho – para sua sopa ficar bem grossinha. Ótimo. Agora precisava pôr no fogo.
Leona riscou o fósforo. A chama nasceu sibilando — um fogo pequeno, laranja e quente. Leona não temia o fogo. Ela ria na cara do fogo. Porém, aplica-lo no fogão parecia perigoso, de acordo com a sua voz da consciência. Leona fitou a lenha. Engoliu em seco, hesitando. Sua mãe não gostava de vê-la mexendo com fogo. Talvez não fosse uma boa ideia correr o risco de deixá-la brava. Não percebeu a chama consumindo o palito do fósforo. O fogo beijou a ponta de seus dedos. Leona sacudiu a mão, guinchando. De lá de cima, veio a voz de Hange, quase em uníssono com o berro da criança:
— Está tudo bem aí em baixo? — Gritou Hange.
— Está, mãe. — Leona gritou de volta. — Eu bati o meu dedinho na bancada.
Leona esfregou a testa. Por pouco seu plano não foi por água abaixo. Leona voltou à panela. As batatas afundaram e a couve boiava. Leona suspirou, decepcionada. Espero que a minha mãe goste de sopa fria. Na próxima, cozinharia melhor.
Começou a mexer a sopa. Os vegetais rodavam para lá e para cá no caldo amarronzado. As gemas de ovo misturaram-se ao amido de milho. As batatas ficaram invisíveis por sob o caldo grosso. Leona mexeu, mexeu, mexeu até cansar, e depois de cansar, mexeu mais um pouco. Para agradar sua mãe, era capaz de continuar mexendo até o fim dos tempos.
Leona cheirou sua obra de arte. Tinha cheiro de canela e de orégano – mais de canela do que de orégano. Nada mal para sua primeira vez. Leona pôs três porções generosas num prato fundo. Depois, resolveu fazer chá. Escolheu duas folhas aleatórias na despensa e jogou numa xícara com água gelada. Chá é horrível. Leona não entendia por que sua mãe e o senhor Levi gostavam tanto dessa porcaria.
Hange continuava no banheiro. Perfeito. Leona subiu até o quarto da mãe. Hange nunca arrumava a cama, tampouco o guarda-roupa. A cama era uma confusão de lençóis, e um cobertor jazia no chão desde a semana passada. Leona pôs a sopa e o chá na mesa de cabeceira. Em seguida, arrumou a cama, deixando-a lisinha. Procurou um pijama limpo e o colocou sobre o cobertor arrumado, para sua mãe ter o que vestir após sair do banho – Hange só se vestia no banheiro quando o senhor Levi vinha visita-las.
Por fim, Leona fugiu correndo para o próprio quarto. Lá, vasculhou a mochila em busca de um livro didático, pois sua mãe preferia não-ficção. Leona largou o livro na outra mesa de cabeceira, e depois desceu as escadas em alta velocidade. Pelo caminho, desamarrou o sutiã da cabeça e o jogou no cesto de roupa suja. De volta à cozinha, Leona pegou seu leite e seus biscoitinhos de aveia, e subiu ao quarto de Hange pela terceira vez.
Dessa forma, quando Hange abriu a porta, encontrou a cama arrumada, o pijama estendido, e sua filha sentada em posição de lótus. A comandante não usava tapa-olho ou óculos, e o corpo seco estava envolto numa toalha. Leona a cumprimentou com um sorriso soberbo. Hange riu pelo nariz.
— Você fez tudo isso, Bolinha?
— Sim, mãe. Separei a sua roupa, arrumei a cama e fiz o seu jantar.
Leona apontou para o prato e a xícara. Hange ficou sem palavras. Emudeceu tanto pela surpresa quanto pelo medo do que ia encontrar naquele prato.
— Obrigada, filhotinho. Já vou aí ver o que você fez.
Hange sentou-se aos pés da cama e começou a se vestir. A impaciência de Leona reinava no quarto. Hange riu consigo mesma; lembrou-se de quando haviam acabado de se mudar. Leona ainda dormia com a mãe naquela época. Toda noite, Leona sentava naquele mesmo lugarzinho e esperava Hange. Agora, há quantos anos não dormiam juntas? Até onde Hange se lembrava, a última vez foi na Capital.
A comandante engatinhou para baixo dos cobertores. Hange achava inútil arrumar a cama. Entretanto, precisava admitir, era gostoso deitar num leito organizado. Respirando fundo, pegou o prato trazido por Leona. Hange mirou a gororoba. Se Leona achou o cheiro de canela agradável, Hange só conseguia prestar atenção no cheiro de ovo. Céus, o que ia achar no meio daquele caldo escuro? Ao seu lado, Leona tremia de expectativa, ansiosa pelo veredito da cliente.
Por estar no ponto cego, Leona não conseguia ver o olhar desconfiado da mãe. Porém, a menina viu Hange torcendo a boca e franzindo as sobrancelhas. Hange era expressiva demais. A comandante não foi capaz de segurar o semblante, e só foi dar-se conta da careta quando a perna de Leona parou de tremer.
— Está tudo bem se você não quiser comer, mãe. — Falou Leona, humilde. — Sopa fria é ruim. Eu sei.
Leona coçou a nuca, envergonhada. De fato, não foi uma boa ideia servir sopa fria. Se ao menos tivesse coragem de acender o fogão, teria feito um jantar de verdade. Leona deu um sorriso constrangido e fitou o espaço entre as pernas. Hange morreu de dó.
— Amanhã eu venho almoçar em casa, e nós duas preparamos algo bem gostoso. O que acha?
— Vai me ensinar a acender o fogão? — Perguntou Leona, de súbito empolgada.
Hange não teve dúvidas sobre a permissão. Já estava na hora de Leona aprender algumas coisinhas de cozinha. Como ferver o leite, como cortar vegetais, como preparar mingau e outros doces simples... coisas adequadas para a idade dela.
— Sim. Mas você promete que só vai usar o fogão com supervisão?
— Eu prometo, mãe!
— Ótimo.
Ambas ficaram contentes pela resolução do problema. Leona estava feliz e Hange não precisou se envenenar comendo a sopa misteriosa. A menina se serviu de leite. Hange pegou a xícara de chá já esperando encontrar folhas flutuando numa água em temperatura ambiente. Hange deu de ombros e bebeu.
— Você gostou do chá, mãe?
— Maravilhoso, Bolinha. Me dá biscoito?
As duas dividiram o saco de biscoitos. O estômago de Hange roncava. A comandante devorava um biscoito após o outro. Leona, respeitosamente, permitiu que a mãe matasse a fome. Leona ofereceu o leite e Hange aceitou. As duas dividiram o copo e beberam até a garrafa terminar. Enquanto comiam, conversavam sobre a escola. Leona contou sobre Peter, Otto e Rebeca, mas falou muito mais de Diana, porque as duas fizeram o trabalhinho do dia juntas.
A essa altura Hange já se sentia melhor, e contou um pouquinho de sua estadia na Capital. Relatou detalhes da viagem, falou de Levi, e disse à Leona que Armin e Mikasa sentiam saudades dela. Leona perguntou sobre a reunião com Kiyomi. Nesse ponto, a descontração de Hange vacilou. Hange desviou o olhar para o outro lado, pondo Leona de novo no ponto cego. A menina apertou as sobrancelhas.
— Mãe, você está triste, não está? — Sussurrou Leona. — Por quê?
Hange girou a cabeça, e viu seu filhotinho usando um bigode de leite. O enfeite deixava a carinha preocupada de Leona cômica. Hange riu, lambeu a manga do pijama e esfregou o rosto da filha.
— Estou. Mas só um tiquinho.
Leona avaliou a expressão da mãe. Depois, lambeu a própria manga e limpou o rosto de Hange, pois a mãe também estava com o buço sujo de leite. Hange aceitou o cuidado, sorrindo pelo cantinho da boca. Leona empurrou a mãe de levinho, a incentivando a se deitar. Hange obedeceu. Leona a cobriu até o pescoço.
— Não se preocupe, mãe, eu vou cuidar de você. Vou ler uma historinha para você dormir.
— Huh? Você vai ler para mim?
— Claro, mãe, você lia os livrinhos quando eu era pequena, já está na hora de eu retribuir o favor.
Leona mostrou a capa do livro didático. Hange piscou; e seu coração adoecido derreteu de tanto amor. Leona sabia que sua mãe preferia obras de não-ficção e escolheu trazer um livro de estudos para entretê-la. Hange acomodou o lado sem olho no travesseiro e afundou-se no cobertor, preparada para ouvir a historinha.
Leona abriu o livro. Caça-palavras, textinhos infantis e exercícios de interpretação e alfabetização desenrolavam-se em páginas e mais páginas. A maioria deles Leona respondeu no caderno — como todo mundo sabe, é proibido escrever nos livros da escola. Nas últimas folhas existia uma espécie de manual para professores, que nada mais era do que dicas pedagógicas do autor para os mestres. Leona não entendia nada dessas páginas extras, mas sua mãe iria gostar. Leona pigarreou.
— Este documento apresenta esclarecimentos e sugestões para fortalecer a interação entre professores e estudantes. Reforçamos que o objetivo não é indicar uma receita pronta, mas mostrar caminhos possíveis – para inspirar diretores, pedagogos e professores a atuarem de acordo com suas necessidades, considerando também suas experiências, práticas, histórias e seus contextos.
"A interação entre estudantes e professores é essencial para o desenvolvimento da aprendizagem. Assim pode-se identificar os principais avanços e as dificuldades de aprendizagem, bem como realizar ações para que os estudantes tenham um melhor aproveitento... ops. — Leona apertou os olhos. — Apro... veitaaa... mento. — Aqui, Leona fez outra pausa. — É importante elaborar um plano de comunicação que alcance todos os envolvidos e evidencie as formas de participação dos estudantes. Além da prioridade e garantia do direito a aprender, as ações realizadas junto aos estudantes devem ter como preocupação a manutenção e fortalecimento do vínculo dos educados. Ai, não. Dos educandos... às escolas e suas respectivas comunidades."
— Você lê tão bem, filhotinho.
Hange, apaixonada, prestava mais atenção na dedicação da filha do que no conteúdo do texto. Leona sorriu com orgulho e deu seguimento à leitura:
— Planejar o "COMO" certamente é um dos maiores desafios da docência. Sem a pretensão de esgotar a complexidade e a diversidade de realidades, é sabido que temos estudantes de diferentes perfis, que se encontram em diversas situações...
Leona continuou lendo sobre docentes e discentes. Hange aprendeu o básico sobre técnicas pedagógicas e relacionamento entre professor e aluno. De tempos em tempos, Leona se atrapalhava com alguma palavra e a repetia até conseguir pronunciá-la. A menina lia, lia e lia, dando a entender que só ia parar quando a mãe adormecesse, embora a própria criança já bocejasse.
Devagar, Hange coçou o meio das costas da filha, indo até onde o braço alcançava. O carinho amoleceu Leona. A menina largou o livro para deitar-se com a mãe. Hange a abraçou com um empenho fora do comum.
Hange sentia a toxicidade evaporando de seu corpo naquele abraço longo. O cheirinho característico de sua filha a apaziguou. Leona, percebendo a carência da mãe, acariciou o cabelo recém-lavado. Logo, ambas estavam imersas naquele conforto puro e familial que só encontravam nos braços da outra. Hange, entorpecida pelo cansaço e exausta de guardar segredos, suspirou na pele da filha e murmurou numa voz tão baixa que Leona não escutaria caso estivesse três centímetros mais distante:
— Ah, filhotinho, às vezes eu não gosto de ser comandante.
— Por que você diz isso, mãe? — Perguntou Leona, em aparente confusão.
— Porque eu não sei se estou fazendo um bom trabalho. São tantos problemas para resolver, e todas as opções parecem erradas. — Hange suspirou. Sua próxima fala foi uma confissão. — Eu me pergunto o que o seu pai iria pensar.
Leona ficou estarrecida. Hange nunca falou de Erwin daquela forma, digo, como uma pessoa a quem devesse impressionar. Não obstante, viu a mãe poucas vezes naquele estado: perdida e melancólica. Sua mãe sempre sabia o que fazer, e vê-la daquela maneira fez o coraçãozinho confuso doer.
Sem pensar duas vezes, Leona abraçou a cabeça de Hange e a encheu de beijos. A beijou no nariz, na testa, no olho, na cicatriz, nas bochechas, nas orelhas e no cabelo. Hange se contorceu, rindo risadinhas abafadas pelo abraço da criança. De súbito, Leona segurou o rosto de Hange com as duas mãos, a obrigando a encará-la, e disse, muito séria:
— Mãe, você é a comandante mais legal do mundo. Você é muito mais legal do que o senhor Pixis, o senhor Nile, a senhora Kayle, e mais legal do que o meu pai. Nenhum exército no mundo tem uma comandante tão incrível quanto você.
Clamava Leona de cenho franzido e voz decidida. Hange a fitava de olho arregalado, absorvendo o carinho sincero colocado naquela declaração infantil e exagerada. Leona acreditava que sua mãe era a melhor do mundo. Não só a melhor mãe como a melhor comandante, cientista, soldada, desenhista, cozinheira... para Leona, Hange era a maioral. Leona era sua maior fã, além de sua filha e melhor amiga.
A comandante coçou o olho, limpando a lágrima teimosa. Toda vez que pensava que a existência de Leona nunca esteve em seus planos, Hange agradecia por ter sido diferente. Não estava sozinha, e jamais estaria enquanto seu filhotinho estivesse consigo. Hange a abraçou, agora a trazendo para o peito, querendo niná-la e dormir abraçada nela, igual a quando moravam no quartel. Hange beijou o cabelo da criança, embriagada pelo calorzinho da presença de seu filhote e pelo amor mútuo.
— Eu amo você. Eu amo tanto você.
— Também amo você, comandante. — Leona pôs força na forma de tratamento.
Hange gargalhou a seu modo descontrolado. Leona sorriu de orelha a orelha, tremendo de alívio por ver sua mãe contente. Hange puxou o cobertor por cima da cabeça de ambas, escondendo-se com Leona numa toca delas e apenas delas. Se Leona a achava a melhor mãe do mundo, Hange tinha a mesma opinião sobre sua filha. Se pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo. Não só isso, engravidaria em todas as próximas vidas, se isso significasse conhecer Leona mais uma vez.
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