Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
38 Não foi assim que aconteceu
Notas iniciais
Após a construção da ferrovia, a lista de interessados na tecnologia estrangeira cresceu. O preconceito para com o estilo de vida dos forasteiros começava a enfraquecer. Engenheiros marleyanos eram barrados por entusiastas eldianos em busca de conhecimento. Currículos e mais currículos e cartas de apresentação chegavam no prédio da Tropa de Exploração todos os dias. A quantidade de voluntários paradisianos era demais para Hange administrar. Dessa forma, a Capital criou um setor exclusivo para o controle do desenvolvimento da ilha.
Os hizuruneses acertaram a data do início das obras do aeroporto paradisiano. Zackly elegeu os mesmos engenheiros da ferrovia para trabalhar com os Azumabitos. O aeroporto seria construído numa área remota da ilha. Ao mesmo tempo, os aprendizes desses engenheiros estudavam maneiras de expandir a ferrovia. O objetivo era conectar as linhas férreas intercalando o porto, as muralhas, e o futuro aeroporto.
No dia seguinte à volta de Hange, os documentos da permissão para a construção do aeroporto e a abertura da aeronáutica chegaram em seu escritório. Ambos os documentos dependiam de sua assinatura. Sobretudo o segundo, que também requisitava os aceites de Nile, Pixis e Kayle – polícia, guarda e marinha.
As turmas de cadetes mal davam para a quatro divisões. A Tropa Estacionária pagava o pato. A cada ano, menos recrutas levantavam a mão na chamada do comandante Pixis. Na verdade, com a extinção dos titãs, vigiar a muralha se tornou... dispensável, para dizer o mínimo. Até a polícia não recebia tantos soldados, mesmo após aquela besteira dos "somente-os-dez-melhores" ser abolida. Os campos mais disputados eram a Tropa de Exploração e a Marinha, sendo que para entrar na marinha era necessário um curso extra ministrado por um marinheiro marleyano — sob os olhares vigilantes de policiais paradisianos.
A essa altura, a menstruação de Hange passara por completo. A estabilização dos hormônios a fez se sentir como si mesma; e andar por aí sem um absorvente entre as pernas cooperou para a rabugice passar. Não obstante, com planos tão grandiosos a frente, Hange pouco pensava na infertilidade. A comandante focava suas expectativas na viagem prometida.
Hange estava prestes a realizar o seu maior sonho: conhecer o mundo para lá do oceano. Era a primeira vez que moradores das muralhas sairiam da ilha. Até então, tudo o que Hange sabia sobre Marley, Hizuru, a Inglaterra e outros países, aprendeu por meio das histórias de Onyankopon e Yelena. Agora, Hange ganhava a chance de conhecer o mundo através de seus próprios olhos. A missão principal da Tropa de Exploração é explorar o terreno além das muralhas. Hange estava feliz em voltar às explorações, embora de um jeitinho moderno e diplomático. Viajariam de avião e portariam passaportes, em vez de cavalgar e levantar espadas.
Porém, o dia grandioso só chegaria daqui a pouco. Alguns preparativos eram necessários. Entre eles, o cuidado com a saúde. Como o povo paradisiano não tem contato direto com outros países, há inúmeras doenças que não existem na ilha. O sistema imunológico dos paradisianos é inábil; um vírus que causa espirros e fadiga num hizurunês pode ser fatal para um eldiano de Paradis.
Parece óbvio quando dito agora, porém, Hange admitia, não pensou nesse possibilidade até Kiyomi Azumabito comentar. Nossa, como foram sortudos. Caso qualquer um dos navios de Marley estivesse carregado de doentes, Marley extinguiria a população paradisiana sem mover um dedo. Tal como a estrutura da ilha na época, a medicina também era primitiva. Os médicos não dariam conta de criar um antídoto.
Graças a Santa os hizuruneses andavam três passos à frente. Os asiáticos trouxeram de antemão uma maleta de vacinas contra doenças virais comuns não existentes em Paradis – catapora, gripes, viroses.... Foram trazidos dezesseis frascos, sendo oito de primeira dose e oito de segunda. Os paradisianos selecionados deveriam tomar a primeira dose naquela semana, e a segunda no fim de novembro.
Hange podia escolher sete subordinados para levar à Hizuru. Ela resolveu levar seus soldados mais antigos. Em outras palavras, os sobreviventes da batalha em Shiganshina: Armin, Mikasa, Jean, Eren, Sasha, Connie, Levi, e, claro, Floch. Com ela, são nove. Sobrava um. Hange estava esperando problemas, entretanto, Floch se ofereceu para permanecer na ilha, desdenhando em seu clássico tom de voz brando "comandante, eu não vou me misturar com essa gentalha". Deixando Floch e seu preconceito de lado, deu tudo certo. Os outros sete e Hange estavam empolgados para sobrevoar o oceano. A viagem era segredo. Apenas os presentes na reunião na Capital sabiam da novidade.
Hange designou um dos seus subordinados de maior confiança para buscar as vacinas. E, para não desperdiçar a viagem, esse mesmo soldado deveria passar na fazenda da rainha e executar um servicinho extra. Um pré-requisito para o projeto de Hange que, diga-se de passagem, era crucial. Dependendo do resultado, poderiam salvar a rainha.
XXX
Armin aceitou a incumbência. A primeira missão era simples: viajar até o hotel aonde os hizuruneses estavam hospedados e pegar as vacinas. A parte mais complicada era o deslocamento. Contudo, Armin adorava passear, então o transtorno foi recebido como benção. A maleta descansava em seu colo. Armin a segurava firme. Seria uma desgraça se essa mala despencasse.
A segunda missão, a que ele estava indo cumprir, já era menos fácil, porém incomplexa. Aos seus pés jazia uma bolsa gorda. Além de uma muda de roupa, lá Armin guardava um kit contendo uma seringa e cinco tubos de ensaio finos. Armin devia se encontrar com a rainha e coletar amostras de sangue. Embora a rainha não fosse transformada, Hange queria explorar o poder do sangue real. Hange explicou que precisavam analisar o sangue independentemente do prospecto de resultados insatisfatórios. Armin apoiou a comandante e ofereceu-se para participar do experimento. Hange avisou que iria chama-lo caso precisasse de ajuda.
A parte difícil dessa tarefa era o local. Diferente dos homens e mulheres antes dela, Historia não vive no luxo. Pelo contrário. Historia vive no campo, numa fazenda espaçosa, barulhenta, cheia de insetos, lama e trabalho braçal. E ela não mora sozinha. Na fazenda residem funcionários das mais diversas idades, policiais e, sobretudo, crianças. Tirando os policiais, a maioria dos moradores veio da extinta cidade subterrânea. Historia mora com eles, come com eles e se veste como eles. Entre a nobreza, corria o comentário pejorativo de que a rainha de Paradis faz jus a suas origens bastardas convivendo com a plebe.
Armin nunca ouviu tamanho absurdo. Viver num castelo, ou num lixão, não faz de alguém mais ou menos rei, e Historia era a rainha que Paradis sempre precisou. Bondosa, atenciosa, e dura quando a ocasião pedia. Se os nobres a subestimavam, o povo a adorava. O mesmo se aplicava aos militares e, pelo visto, aos hizuruneses.
A construção daquela fazenda-meio-orfanato por si só já era um exemplo de como Historia governava a ilha. Se não fosse por ela, os nobres teriam papado a economia paradisiana como vinham fazendo nos governos anteriores. A rainha administrou o dinheiro favorecendo os trabalhadores, os comerciantes pequenos e os estudantes. Os nobres pouco se beneficiaram do novo governo e das maravilhas conquistadas nos últimos anos. Armin achava muito bem feito. A nobreza não fazia nada além de dar emprego aos próprios parentes e receber heranças.
A carruagem corria em alta velocidade pela rua esburacada. Armin mal se atentava a paisagem rural. O soldado agarrava a maleta com as mãos e prendia a bolsa com os pés para não chacoalharem. Ambas as missões eram confidenciais. Armin se preparava para se esquivar dos policiais e funcionários curiosos. As crianças não o preocupavam. Os adultos fofoqueiros, sim.
Armin chegou na fazenda lá pela uma da tarde. O tempo nublado marcava chuva. Armin gostava da chuva. Ele e as plantas imploravam por uma chuvinha. Armin pagou o cocheiro e, trazendo a maleta na mão e a bolsa nos ombros, atravessou o campo até a casa principal. As crianças empoleiradas na cerca o cumprimentaram.
A fazenda era movimentada. Empregados iam e vinham. Armin viu uma mulher sendo seguida por crianças carregando livros escolares. Esse era outro diferencial da fazenda – além de moradia, também oferecia educação. Um policial militar cabeça grisalha recepcionou Armin. Seguindo o protocolo de segurança, o policial pediu a identidade do soldado visitante mesmo sabendo de quem se tratava.
Armin foi colocado para esperar na sala de estar. Ele sentou num sofá desconfortável cujas plaquetas foram destruídas pelas garras de um gato. Havia uma mesa redonda; a toalha verde forrando a mesa era decorada por margaridas. A casa principal era menos povoada e estava longe dos parâmetros de um castelo real. Armin respirou fundo e sentiu o perfume da grama molhada e de biscoitos recém preparados. A mistura de cheiros nostálgicos o fez lembrar-se de Shiganshina.
Uma empregada baixinha apareceu. A sala precisava, convenientemente, ser varrida. A empregada tentou conversar com Armin perguntando como andavam as coisas na Capital. Armin deu corda até a mulher questionar sobre os novos forasteiros. Armin se esquivou puxando assunto sobre a fazenda. A empregada, reparando que não arrancaria nenhuma fofoca, apressou a varrida e foi-se embora.
Sozinho outra vez, Armin divagou sobre o motivo de estar sentado naquele sofá. Como você sabe, a rainha Historia estava com a corda no pescoço. Caso não encontrassem uma solução, Historia, a única com sangue real correndo nas veias, iria herdar o titã bestial.
A ideia de transformar Historia em titã só existia no papel. Só haviam dois transformados na ilha – Armin e Eren – e um deles precisaria se sacrificar para a rainha voltar à forma humana. Caso a herança dos titãs não fosse uma sentença de morte, o próprio Armin teria se voluntariado. O titã colossal é poderoso demais para um fracote como ele, em sua humilde opinião. Historia faria um trabalho muito melhor em posse desse poder.
Eren, o outro transformado da ilha, também não queria ser devorado por Historia. Por nenhum de seus amigos, na verdade. Eren virava um monstro quando a vida de seus companheiros era colocada em jogo. Na reunião com os hizuruneses, Armin recordava ter sentido medo de que Eren saltasse no pescoço de Kiyomi. Até preparou-se para detê-lo caso o amigo iniciasse uma briga. Só agora Armin percebia o absurdo daquela desconfiança.
Nesse momento, uma voz no lado de fora da casa arrancou Armin do devaneio. Armin estava sentado de costas para a janela. As pessoas no outro lado não conseguiam ver a nuca do soldado por causa da cortina florida. A voz pertencia ao policial cabeça grisalha que recepcionou Armin. Havia outro homem com ele, e esse Armin não conhecia.
— Você soube o que aconteceu na Capital?
— O quê? — Respondeu o desconhecido.
— O filho dos Snicket morreu. — Anunciou o policial.
Silêncio indiferente por parte do segundo-policial-ou-fazendeiro. Armin ouviu alguém arrastando a cadeira pela varanda, como que para se aproximar da companhia. A voz ansiosa do policial diminuiu dois tons e adquiriu um timbre instigante.
— A questão não é a morte do pobre rapaz, mas como ele morreu.
Armin não era fuxiqueiro. Ele não tinha o hábito de escutar pelas paredes. Porém, naquela quietude, obrigado a esperar pela rainha, viu-se apurando a audição para ouvir sobre o tal filho dos Snicket.
— Ele pegou uma doença misteriosa. O médico da família não conseguiu diagnosticar. Nenhum remédio ajudou o coitado do garoto. Ah, e o pior não é isso. A família estava mantendo o rapaz trancado no quarto, nem o levaram no hospital.
A voz ansiosa do policial ficou mais e mais baixa até se transformar num sussurro sigiloso. Armin se empertigou. Escutou o segundo-policial-ou-fazendeiro perguntando por que um pai e uma mãe não levariam o filho doente ao médico. Por qual razão, em plena Paradis-pós-titã, um casal deixaria o filho moribundo definhar até a morte. O militar respondeu:
— No dia em que foram buscar o morto, os agentes funerários desmaiaram. O rosto do rapaz Snicket estava deformado. O pescoço dele, meu chapa... parecia que enfiaram uma bola na garganta do garoto. Acho que ele próprio pediu para não ir ao hospital, para não ser visto naquele estado deplorável.
Armin franziu as sobrancelhas, intrigado pela história (ou estória). Armin não sabia, mas ele conhecia o rapaz Snicket, embora só o tenha visto uma única vez. Eles se conheceram na chegada de Kiyomi. Os dois conversaram após o passeio de avião, pois o nobre tinha viajado na cabine e Armin queria saber como foi a experiência de voar ao lado do piloto. Na ocasião, Armin perguntara o nome do jovem nobre, no entanto acabou não fazendo a ligação. No outro lado da parede, o segundo-policial-ou-fazendeiro se mexeu na cadeira.
— Não acredito. — Disse o homem cético.
— Bem, eu ouvi essa história de umas cinco pessoas. Falaram que os olhos do rapaz sangravam, que a cabeça dele estava aberta, que os dentes apodreceram..., não sei se esses exageros são verdadeiros. O elo em comum é a bolota no pescoço. Dizem que o senhor e a senhora Snicket...
A voz do policial virou um murmurinho. Armin tentou escutar, sem sucesso. Se o policial tivesse falado um pouquinho mais alto ou se a audição de Arlert fosse melhor, Armin saberia o rapaz Snicket contaminou o resto da família e o médico. Caso tivesse ouvido, Armin deduziria o óbvio: se a história fosse verídica, uma epidemia se alastrava na Capital.
XXX
— Pode entrar.
Hange já espera encontrar Eren. O dito cujo entra no laboratório e fecha a porta. Hange o cumprimenta com um sorriso de boas-vindas. Eren, vestindo a rotineira expressão entediada e alheia de alguém que só está aqui por obrigação, retribui sorrindo de canto. São quase seis horas. O expediente de ambos já acabou.
Hange o chama com um gesto de mão, convidando Eren para ver a maleta vazia. Hange passou o dia vacinando os subordinados escolhidos para a viagem. Hange os recebeu em horários diferentes. A fila começou por Armin — o soldado que trouxe a maleta -, depois Mikasa, Connie, Jean, Sasha, e, por fim, Levi, que saíra há pouco mais de trinta minutos. Eren é o último da lista. A ordem não foi aleatória. Hange pretende realizar algumas experiências com o sangue da rainha. Já estava mais do que na hora de testar a influência do sangue real em Eren, o portador do titã fundador.
— Eren, eu gostaria que você ficasse um pouco mais.
Hange diz ao inserir a agulha no braço do soldado. Sua frase é sucedida por um trovão. Hange vai pegar uma chuva e tanto na volta para casa. A comandante pressiona o gatilho da seringa e o líquido transparente entra sem causar dor. Eren arqueia a sobrancelha, desconfiado.
— Por quê?
— Tenho umas amostras do sangue da rainha. Quero ver como você reage.
Silêncio. Eren fita Hange sem piscar. A comandante se sente incomodada pelo olhar irascível do subordinado. Ela interpreta a impaciência como má vontade; há muitos anos esse homem cabeludo e barbudo não é o garoto cooperativo que Hange conheceu. Hange puxa a agulha e suspira:
— Se a experiência correr bem, a gente pode salvar a Historia.
A explicação amansa Eren. O soldado assente. A comandante pressiona o algodão na ferida da vacina. Depois, Hange dá as costas a Eren e abre as portas da bancada. Quando Hange se levanta, ela põe outra maleta ao lado da de vacinas. Os cinco tubos de ensaio estão lá. Hange, no entanto, retira só três.
Hange ergue o tubo de ensaio na altura do olho e dá uma batidinha no vidro. Ela mira o balanço do sangue, e Eren faz o mesmo. O olhar de ambos se encontram. A comandante dá as costas a Eren outra vez.
— Sabe uma coisa que sempre me deixou curiosa?
Pergunta Hange em tom casual enquanto mergulha o conta-gotas no sangue. Ela não consegue ver a expressão de Eren. E, se visse, não faria diferença. Eren não demonstra nada. Sua cara é uma folha em branco. O soldado percebe que a pergunta não é retórica e resmunga. Hange retoma a fala:
— Como você conseguiu comandar os titãs para atacarem o titã encouraçado e Bertholdt. Eu não estava na batalha. — Hange se vira. — Aquele titã que você socou era um titã-real?
A resposta de Eren vem no mesmo tom informal utilizado pela comandante. Estão apenas conversando, afinal. Dois aliados discutindo a fisiologia dos titãs.
— Não sei, comandante. Imagino que sim. Do contrário, não ia dar certo. Eu acho.
Hange não sabe que Eren está mentindo.
— Eu não entendo por que Marley transformou um descendente do rei em titã e largou em Paradis. Será que não sabiam?
Pergunta Hange, sincera e interessada. Ela espera ouvir as considerações de Eren sobre o caso e debater o assunto. Eren, contudo, se tornou um homem de poucas palavras. O soldado dá de ombros e concorda. O titã devia ser algum fugitivo. Talvez nem o próprio titã soubesse suas origens. O homem ou mulher por trás dele, no caso. Hange suspira e pega o pulso do subordinado sem pedir permissão. Eren não se move.
— Vou pingar um pouco na sua mão, tudo bem? Me avise se você sentir alguma coisa.
— Certo.
As gotas vermelhas caem na palma da mão de Eren. Uma. Duas. Três. A linha do coração é preenchida pelo vermelho. A linha da vida de Eren é curta, Hange repara. Ambos veem o sangue se espalhar. Eren ergue a cabeça e encolhe os ombros.
— Não estou sentindo nada, comandante.
— Sério?
Hange coça o próprio queixo. As engrenagens em seu cérebro trabalham em busca de esclarecimentos para a falha do teste. A única explicação se dá ao fato de Historia não ser transformada. De acordo com as informações obtidas, só é possível ativar o poder do titã fundador caso a pessoa que entre em contato com o portador seja um transformado. Pensando agora, isso explica o porquê de Eren ter ativado o fundador ao tocar o titã-real sem obter o domínio total. Pode-se concluir que os titãs-puros de sangue real ativam o fundador por um curto período de tempo. Agora, quanto aos humanos de sangue real...
Mesmo assim, Hange está disposta a continuar tentando. A esperança é a última que morre.
— Abra a boca.
A voz de Hange soa como um comando direto. Eren obedece e põe a língua para fora. Os dentes de Eren são amarelos e seu hálito faz Hange torcer o nariz. Eren e Hange costumavam ser da mesma altura. Agora, Eren é muito mais alto. Hange puxa o cabelo do soldado de leve, o fazendo deitar a cabeça.
— Tenta não engolir.
Hange pinga o sangue na língua do soldado. Eren repugna o sabor ferruginoso. Os óculos de Hange se transformam em dois clarões de luz quando ela move a cabeça num questionamento mudo. Eren balança a cabeça em negação. Hange lhe dá mais sangue, e dessa vez o instrui a engolir.
Eles fazem tentativas até o conta-gotas acabar. Então, Hange o enche de novo. Em algumas experiências, Eren precisa ir ao banheiro do laboratório e aplicar o sangue em si mesmo, pois ele se recusa a ficar nu na frente de Hange. Em todas as vezes Eren volta do banheiro balançando a cabeça e fazendo beicinho, tão decepcionado quanto Hange.
— Acho que só funciona com transformados e titãs-puros, comandante.
Lamenta Eren ao devolver o conta-gotas vazio. Os tubos de ensaio, antes cheios até o gargalo, estão secos. Hange, cabisbaixa, encara os vidros sujos. Ela bate o lápis na mesa do laboratório. Parte dela aceita a realidade, mas a outra se recusa a ver as mãos atadas.
— Argh, que raiva! QUE RAIVA!
Hange bate os punhos na mesa. Os equipamentos laboratoriais tremem. Eren põe a mão outrora ensanguentada no ombro da comandante. Hange coloca a mão sobre a dele e suspira para as anotações no caderno. A página é um monte de xis vermelhos.
— Tudo bem. — Hange ergue a cabeça e sorri de canto. — Obrigada, Eren. Vou continuar pesquisando. Se eu precisar de você, te chamo.
Eren sorri e afaga o ombro da superior. Hange põe a mão na cabeça e resmunga. Seu cérebro dói. Sim, o cérebro. Não a cabeça, e sim o cérebro. Uma dor lancinante no hipocampo. É engraçado como ela sabe que a dor vem de lá. O laboratório gira. Eu vou cair, Hange se agita. A comandante se apoia no subordinado. Eren a ajuda.
— Nossa, acho que minha pressão caiu. — Hange vê tudo em dobro. — Ai, minha cabeça.
— Está tudo bem? Sente-se.
Eren a faz sentar. Hange demora para controlar a tontura. A dor de cabeça, contudo, se esvai tão rápido quanto apareceu, embora deixe marcas. Hange nunca sentiu uma dor tão forte como aquela. Quer dizer, não até onde ela se lembra. É possível lembrar uma dor? Bom, Hange agradece por essa aqui ter sido breve. A comandante pisca. O laboratório para de girar. Todavia, ela ainda se sente estranha.
— Quer que eu pegue um copo d'água? — Eren oferece.
— Por favor.
Hange levanta a cabeça para agradecer. Nisso, vê uma coisa estranha na face de Eren. Ela se pergunta como uma marca tão berrante passou despercebida. Hange, por instinto, toca no arranhão na bochecha do subordinado e examina o ferimento. Eren permite.
— Nossa, que arranhão feio. E é recente.
— Você não tinha visto? — Eren se surpreende. — Eu mesmo fiz. Quero ver quanto tempo aguento sem regenerar.
Aprender a controlar o poder de regeneração, tanto do corpo do titã quanto do humano, é uma habilidade que Eren praticava com regularidade. Ele estava ficando bom. Já conseguia focar a regeneração em partes específicas do corpo do titã. Entretanto, retardar a regeneração do corpo humano é complicado, pois é fácil esquecer os ferimentos. Até durante o sono deve-se tomar cuidado.
— Vejo que você está fazendo suas lições direitinho.
Hange tenta rir, mas dar risada faz sua cabeça latejar. Hange dá um sorriso lânguido e provoca Eren:
— Você não podia se machucar num lugar menos chamativo?
— É que na cara eu não esqueço.
Eren ri. Hange não se arrisca a fazer o mesmo.
— Vou pegar sua água.
— Obrigada, Eren.
Hange se volta para as anotações vermelhas. Eren sai do laboratório. O soldado fecha a porta com a maior delicadeza do mundo, e encosta a testa na madeira. Ele ouve o clique da fechadura. Eren se vira. O LOUCO está parado no corredor vazio, de mãos nos bolsos e cabelo amarrado.
— Bom trabalho, bonitão.
Não é o LOUCO quem parabeniza, mas Eren. O Eren do presente. Modificar a memória de Hange foi obra do LOUCO. O poder do titã fundador pertence a ele. O Eren do presente ainda não tinha alcançado tamanha magnitude, porque não se encontrou com Zeke. Aonde está seu irmão, por falar nisso? Pelo visto, o LOUCO o poupou de ver essa lembrança.
— Esse machucado está feião, hein?
O LOUCO repara. Eren põe a mão no ferimento. O sangue se transforma em vapor. A regeneração é silente. O arranhão desaparece. A pele volta à aspereza de sempre. Não tem problema regenerar. A essa altura, Hange já esqueceu a marca no rosto de Eren. O soldado mentiu ao dizer que fez o ferimento em si mesmo. Na verdade, quem o arranhou foi Hange. No entanto, a comandante não sabe disso, e jamais saberá.
A experiência foi incrível. Uma peninha Hange não lembrar. Eren reagiu assim que a primeira gotinha do sangue de Historia pingou em sua mão aberta. Ah, senhoras e senhores, Eren viu estrelas. Que droga poderosa é o sangue do rei. Ele poderia ter levado Hange direto para a terra de areia, se quisesse.
Eren contou tudo a Hange. Tudinho mesmo. Sobre Grisha, sobre Dina, sobre Zeke, sobre o assassinato da família real, sobre a terra de areia, sobre o LOUCO e sobre o plano do paraíso – que Hange chamou de genocídio (vejam só!). Ele se sentia leve após dividir seus projetos com alguém. E Hange é uma psicóloga e tanto; vai seguir o sigilo entre doutor e paciente direitinho.
Hange disse que o poder de ver o futuro já bastava para ajuda-los a escapar da guerra e salvar Historia. "Puxa vida", ela cambaleou, "se o titã fundador pode fazer qualquer coisa, então podemos acabar com a maldição dos titãs". E logo em seguida, dando-se de conta do silêncio de Eren, perguntou, enfurecida: por que você não nos contou?
Eren não estava aberto ao diálogo. Hange não precisou de muito para deduzir que não ia lembrar dessa conversa no dia seguinte. Hange partiu para cima de Eren com unhas e dentes. Literalmente. E aí está o motivo daquele ferimento em sua bochecha. Porém, a violência física não adiantou, tampouco a imploração que veio depois; Hange se pôs de joelhos e rogou para Eren não apagar sua memória. Ela suplicou "a gente pode ajudar, a gente pode salvar Paradis, podemos salvar a rainha" etc etc etc.
Ele se sentiu um pouco mal, para ser honesto. Eren conhece Hange desde os quinze anos. Ele a ama assim como ama Armin, Mikasa, Sasha, Connie, Levi, Floch, e até o retardado do Jean. Então, não. Não sentiu prazer em modificar a memória de Hange para fazê-la pensar que foi diferente; que o sangue real por si só não tem influência no portador do titã fundador caso o eldiano da realeza não for um transformado. Hange seguirá achando que precisavam sacrificar Historia para obter o poder do fundador.
E Eren e o LOUCO sabem que Hange não será capaz de sacrificar ele ou Armin para transformar a rainha.
— Você pode devolver as memórias para ela a qualquer momento.
O LOUCO sugere, dando de ombros. Eren recusa a proposta. Hange iria enlouquecer caso descobrisse a traição. Eren não se importa em ser odiado, contudo, o amor nutrido por ela e pelos outros o faz querer privar Hange desse desgosto. Ela jamais viveria em paz consigo mesma sabendo que chegou perto de descobrir a chave para parar a guerra.
— Deixa assim.
Eren passa pelo LOUCO. Ele dá as costas para seu Eu do futuro e não tem coragem de olhar por cima do ombro. O LOUCO, sabendo disso, declara, sem se virar:
— Em breve não teremos mais como voltar atrás.
Eren concorda. Seria conveniente se a tempestade piorasse agora. Entretanto, não há trovões, relâmpagos ou chuva. Eren olha pela janela do corredor. A lua brilha entre as estrelas. As poças d'água secarão pela manhã.
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