A reunião acabou depois do meio-dia. Uma mulher chamada Kayle Strauss foi nomeada comandante da marinha. Kayle foi capitã da Tropa Estacionária por onze anos. Seu currículo dava de dez a zero nos outros apresentados. Hange estava contente por ver outras mulheres assumindo cargos importantes no exército.

Antes de saírem do palácio, Armin perguntou a Hange se Leona poderia sair com eles, pedido este aprovado imediatamente. No lado de fora, Hange encontrou Leona na praça. Agradeceu Floch e Hitch por tomarem conta da menina. Levi esteve com a comandante durante esse tempo. Após o reencontro entre mãe e filha, as deixou.

Hange e Leona passaram o resto da tarde juntas. Hange a levou para conhecer o centro, as lojas e os parques. A cidade era toda de paralelepípedo. Não tinha uma única rua de areia na Capital, e não se via cães vadios revirando lixeiras nem mendigos dormindo nos bancos. Leona disse a Hange que até os vendedores de comida eram bem-arrumados, e a comandante concordou. Tudo na Capital é muito chique. Nem parece que até poucos anos atrás existia uma cidade entupida de gente fodida logo abaixo daquele distrito rico.

Mãe e filha foram para o hotel por volta das seis. Tirando policiais militares, que possuem sede na Capital, os demais soldados sempre eram hospedadas no Overlook. Lá, deram de cara com Pixis e uma subordinada da Tropa Estacionária. Pela cara de Pixis, o velho passou a tarde toda enfiado num bar. Pixis cantava a moça no balcão. A jovem tentava dispensá-lo delicadamente.

— Você fica babão quando toma vinho, velhote.

Provocou Hange em voz alta e divertida. Parou na frente do segundo balconista e colocou os antebraços sobre o balcão curvo de madeira escura. O ambiente era bem iluminado e decorado com plantas. Alguns nobres liam jornal nos sofás logo adiante, aguardando carruagens. Ambos os atendentes trajavam ternos caros. Leona parou perto da mãe, observando Pixis.

— Comandante Hange, não tá morto quem peleia.

Respondeu Pixis, gargalhando e soluçando. A subordinada dele, coitada, tentava arrastar o chefe bêbado para o quarto.

— Mocinha, se você quiser mudar de divisão, tem vagas na Tropa de Exploração.

Hange sorriu ardilosa para a subordinada de Pixis. A garota constrangida riu envergonhada. Hange passou o nome completo ao balconista. Geralmente, as malas eram levadas aos quartos na chegada dos soldados. Dessa forma, quando iam pegar as chaves, a bagagem já esperava no aposento.

O atendente prontamente se pôs a buscar a ficha de Hange. Enquanto isso, Pixis reparava na presença de Leona e vinha falar com ela. Leona não se abalou pelo estado alterado de Pixis. O velhote era seu amigo.

— E você, Leona? Está gostando da Capital?

— Bastante, senhor Pixis. Minha mãe me levou num monte de lugares. E daqui a pouco vou sair com meus amigos do quartel.

— É mesmo? — O comandante soluçou. — Isso é muito interessante. — Pixis apertou os olhos e deu um sorrisinho zombeteiro. — Me diga, você tem medo de fantasmas?

Leona arqueou as sobrancelhas.

— Não. — Mentiu.

— Isso é ótimo. Sabe, o Overlook é cheio de fantasmas.

A subordinada de Pixis escondeu o rosto vermelho. Os balconistas reviraram os olhos. Hange sorriu de canto. Leona agarrou o casaco da mãe.

— Mãe, é verdade que tem fantasma aqui?

Hange virou o rosto muito devagar. Os óculos refletiram a luz do aposento.

— Sim.

Leona deu um gritinho de medo. Hange e Pixis deram risada, e nisso Leona percebeu que tiravam sarro da cara dela. A menininha fez beiço, detestava ser feita de burra. Hange fez carinho na cabeça dela.

— É só brincadeira, Bolinha.

O balconista encontrou a ficha de Hange e disse que o quarto alugado só tinha uma cama de casal. Ele perguntou se a comandante queria trocar. Hange deu de ombros.

— Pode deixar assim. A Leona não se importa em dormir comigo.

XXX

Hange pendurou o casaco no cabideiro do lado da porta. Chutou as botas para longe. Enfiou as mãos dentro da camisa e soltou o sutiã, suspirando. Retirou a peça por baixo da camisa e guardou numa das malas. Trouxeram duas, uma para a mãe e outra para a filha. Guardara na de Leona a maleta de higiene pessoal, onde colocou produtos para o cabelo, sabonete, creme para as mãos, remédios para dores (de cabeça, de barriga, de garganta e cólicas) e um saco de absorventes.

Leona explorava o quarto. Abriu os armários, fuxicou o banheiro – mãe, tem uma banheira gigante aqui! – e a mesa de cabeceira repleta de panfletos e material de papelaria. Havia uma estante cheia de livros de capa dura, a grande maioria sendo romances famosos.

— Olha, mãe!

Leona fazia da cama trampolim. Saltava feito um lêmure maluco. Girava, abria as pernas no ar, tentava dar cambalhota, sempre falhando e caindo de costas. Como você consegue ter tanta energia, filhotinho? Hange se questionou assistindo a criança serelepe destruindo a cama do hotel. Bem, era o sujo falando do mal lavado. Hange, em seu estado normal, conseguia superar Leona em entusiasmo e disposição. No entanto, não se sentia bem. Hange tendia a ficar preguiçosa e manhosa durante o período menstrual, e um tanto aborrecida também. Ver Leona pulando pra lá e pra cá deu gastura.

— Olha, olha, olha! — Leona saltava a cada vírgula. — Dá pra pular bem alto, mãe!

— Já vi, Bolinha. Vou encher a banheira pra você, ok?

— Beleza.

A banheira do hotel luxuoso era larga e quadrada, em vez de estreita e retangular. Hange a encheu até a água bater nos joelhos de Leona. A garotinha revirou os olhos ao sentar na louça aquecida pela água, suspirando de alegria. Embora os banhos de Hange fossem rápidos e às vezes incompletos, ela era zelosa na hora de banhar a filha. A pele de Leona corava de tanto ser esfregada.

No entanto, Leona chegava na idade de tomar banho sozinha. Por isso, Hange pouco a ajudava agora. Começou devagar, primeiro a incentivando a lavar o cabelo, depois o rosto, acrescentando partes do corpo semana após semana. Não foi uma evolução complicada. Leona era independente por natureza — gostava de fazer as coisas por si mesma.

Hange colocou o sabonete, os produtos capilares, o baldinho e a esponja no suporte da banheira. No armário, encontrou algumas cortesias do hotel — shampoos, cremes para o corpo, perfumes e outras coisinhas interessantes — entre eles um produto de fazer bolhas de sabão. Despejou-o na banheira. A espuma densa preencheu a superfície da água. Leona começou a brincar imediatamente, pondo espuma na cabeça e no queixo, fingindo ser um homem idoso. Hange pegou um pouco de espuma e soprou. Bolhas de sabão voaram banheiro afora, poucas escaparam pela janelinha e muitas estouraram pelo caminho.

Leona enjoou da brincadeira em poucos minutos. Ela pegou o shampoo sem haver necessidade de ser ordenada. Enfiava os dedinhos no couro cabeludo como sua mãe ensinou, massageando na raiz do cabelo dourado. Espuma começou a escorregar para o rostinho da menina, e Hange alertou:

— Fecha os olhos, se não vai arder.

Disse sem mover um dedo para ajudar, seu único papel era supervisionar. Em breve, pararia de acompanhá-la no banho. Seu filhotinho estava crescendo. Essa noção a deixava melancólica... e também aliviada. Leona apertou os olhos e cerrou os lábios – não conseguia fechar os olhos sem fazer o mesmo com a boca. Após espalhar o shampoo pela cabeça, Leona deixou o produto agindo, pegou o sabonete e passou-o na esponja. Em seguida, esfregava o pescoço.

Enquanto a filha se lavava, Hange abria a maleta de higiene, pegava o saco de absorventes, arreava as calças e sentava na privada. Leona se animou. A garotinha se pôs de joelhos e colocou as mãos na borda da banheira, espalhando espuma no chão.

— Leona, cuidado, você pode escorregar.

Alertou Hange num timbre não tão preocupado assim. Apoiava o cotovelo no joelho, deixando o rosto descansar na palma da mão.

— Você vai entrar, mãe?

Perguntou Leona agitada e contente, interpretando a nudez parcial da mãe como sinal de que ela ia participar do banho. Hange negou com a cabeça, e logo a meneava para o absorvente colado na calcinha. Uma linha de sangue escuro, mais gorda no centro, destacava-se no algodão branco.

— Não posso tomar banho com você porque estou menstruada.

Leona apoiou o queixo na borda, e nisso as bochechas já redondas se tornaram maiores. Mirou o sangue, parecendo desapontada. Não era a primeira vez que Leona via Hange menstruada. Esse assunto sempre foi tratado com naturalidade, e por isso a garotinha não sentia nojo, medo ou estranhamento. Curiosidade, contudo, tinha de sobra.

— Mãe, por que você metua?

— Toda mulher menstrua. Você também vai.

Leona era filha de dois estudiosos viciados em desvendar o desconhecido. A menina esperava uma resposta mais completa e Hange sabia disso. A comandante continuou falando, e durante a explicação pegava papel higiênico.

— Dentro da gente tem uma coisa chamada útero. Uma vez por mês, esse negócio se renova. Ele descama todo e foge pela nossa perereca. No caso, em forma de sangue...

Leona não piscava. Hange sabia discernir quando sua filha entendia informações ou não. No caso, a garotinha não compreendia muito bem. Hange sorriu pequeno e continuou a aula.

— ...então, uma nova camada nasce no lugar da antiga. É como se fosse uma cobra trocando de pele, só que dentro da gente.

Após a exemplificação, a face infantil clareou. Leona assentiu freneticamente. Todavia, os informes oferecidos não a satisfizeram.

— Isso é bom, mãe?

O papel higiênico reapareceu manchado de sangue. Leona não reagiu. Hange pôs o papel no lixo, jogando-o com o sangue para cima – o próximo a levantar a tampa daria de cara com os restos do útero de Hange.

— Sim. Significa que o seu corpo está funcionando direito.

— Machuca?

— Depende. No meu caso, só dói no primeiro dia.

Leona fez careta ante essa informação, e no próximo segundo olhinhos grandes e preocupados encaravam Hange.

— Em mim vai doer?

A comandante riu entredentes. Sorriu para tranquilizar a filha impressionada e explicou, num tom descontraído:

— Quem sabe? Não é uma dor insuportável. Você vai descobrir quando chegar o momento.

— E quando vai ser esse momento?

Hange retirou o absorvente sujo e o pôs no lixo sem dobrá-lo – a vida é muito curta para se atentar a esses pequenos detalhes. Depois, pegou outro limpo e o colocou nos fundilhos da calcinha. Os óculos se desalinharam quando ela baixou a cabeça. Hange os arrumou ao erguê-la.

— Também depende. A maioria começa aos quatorze.

Leona olhou as próprias mãos abertas. Os dedinhos foram, um a um, fechados na palma da mão. Hange deu um sorriso cheio de amor. Teve vontade de responder o número correto, no entanto essa intromissão irritaria Leona.

— Faltam nove anos pra eu metuar.

— Isso mesmo. Bastante tempo, não? Agora termine o banho pra você sair com os meninos.

Leona prontamente recomeçou a ensaboar o corpo. Hange se levantou, afivelando o cinto da calça. Após terminar a esfregação, Leona pegou o balde e o usou para jogar água na cabeça.

— Mãe, homens metuam?

Perguntou Leona, baixando o balde para enchê-lo de novo. Hange sentou na privada fechada.

— Não. O corpo dos homens é diferente. Eles não têm útero.

— Ah, verdade. Eles têm torneirinha.

Leona referia-se ao genital masculino. Hange assentiu. Leona por fim se contentou, já tinha aprendido bastante. O banho durou mais cinco minutos. No término, Hange a instruiu a soltar o ralo da banheira. Após sair do banho, a menina foi envolvida numa toalha branca, felpuda e quentinha.

A roupa que Hange escolheu para Leona usar esperava na cama. A menina vestiu a camisa listrada sozinha. Porém, ficou confusa sobre como vestir o macacão amarelo. A comandante leu a dúvida no rosto da filha e a ajudou. Após isso, Hange desfez os nós no cabelo loiro e penteou a franja para a esquerda.

— Pronto. Agora é só esperar a Mikasa vir pegar você.

— Vamos desenhar enquanto isso?

Hange não era exatamente uma grande apreciadora das artes. Entretanto, precisou aprender a desenhar para desenvolver projetos e estratégias. Moblit, seu antigo assistente, adorava ilustrações. O parceiro de Hange conseguia fazer todo tipo de coisa, desde titãs até cenários complexos. No fim, por influência dele, Hange acabou pegando gosto pela prática como passatempo. Leona gostava dos rascunhos da mãe e tentava imitá-los. O desenho acabou virando uma atividade entre mãe e filha.

— Claro.

Como as melhores ideias aparecem quando menos esperamos, Hange levava o caderno de rascunhos para tudo quanto é lugar. O pegou da mala maior, arrancou duas folhas, prendeu-as na planilha e entregou o resto do caderno à Leona. Ambas subiram no colchão. Sentaram uma de frente para a outra, em posição de lótus. Leona ficou com as canetas, os lápis e a borracha, enquanto Hange se limitou a usar apenas um lápis comum de caligrafia.

Hange observou a folha vazia. Nada nos primeiros segundos. Então, visualizou a ideia perfeita. Desenhou um círculo oval. Começou a preenchê-lo com formas geométricas e linhas. Em pouco tempo, a figura simples tomava a forma do rosto de uma criança. Assobiava baixinho, riscando para lá e para cá. Forçava o grafite nas partes errôneas a fim de corrigir linhas equivocadas. A criança no papel escancarava a boca e apertava os olhos. Hange caprichou nos caninos, dando aos quatro uma aparência pontiaguda dentro dos limites da espécie humana. Erguia a cabeça da planilha apenas para conferir se o rascunho condizia com a referência. Enquanto isso, Leona, de sobrancelha franzida e língua para fora, concentrava-se no caderno.

Hange desenhou os ombros. Duas mãozinhas surgiram com dedos torcidos imitando garras. Fez o cabelo e pôs os detalhes na roupa, nas unhas e nos traços faciais. Hange fitou o rascunho pronto. Resolveu acrescentar uma pequena coroa flutuando sobre a cabeça da criança, inclinada para acompanhar a movimentação do desenho. No espaço em branco sugerindo a continuidade do corpinho, Hange escreveu, em letra de fôrma: leãozinho.

— Acabei, mãe.

— Eu também. Olha só, desenhei o meu filhotinho.

Hange mostrou a planilha. Leona sorriu de orelha a orelha, pegou o desenho e deu gritinhos de felicidade. Em seguida, apanhava o caderno. Entretanto, de súbito parou a mão no ar. Leona abraçou o caderno contra o peito pondo o desenho virado para baixo. Os olhinhos castanhos ficaram desconfiados de repente.

— Promete que não vai rir?

Hange piscou, aturdida. Leona nunca hesitara em mostrar suas coisas para os adultos, principalmente se tratando da mãe. Estranhou o comportamento. Se apressou para ocultar a incredulidade. O sorriso gentil teve sucesso em acalmar Leona. A menina moveu, muito devagar, o caderno do peito.

— É claro que eu não vou rir. Por que eu riria?

— O Floch e o Eren riram.

Ah, então esse era o motivo do receio. Hange fez carinho no cabelo da filha, e aproveitou para ajeitar aquele redemoinho rebelde que insistia em permanecer despenteado.

— O Floch e o Eren são dois bobalhões. Nem sabem desenhar.

O fim da frase saiu num sussurro, como se contasse um segredo. Leona, ainda meio incerta, estendeu o caderno. Hange analisou o desenho. Dava para ver o esforço vão do desenhista tentando acertar as proporções do animal ali retratado. Feio de doer, concluiu Hange, bom, pelo menos dá pra ver o que é. É óbvio que não verbalizaria o pensamento. Forjou orgulho.

— Que urso lindo, Bolinha. Se continuar assim, você vai me superar.

— Acha mesmo?

Antes de Hange assentir, alguém bateu na porta. A comandante esperava ver Mikasa ou Armin. Entretanto, quem entrou foi Levi. O capitão vinha trazendo uma caixa embalada em papel-presente. Leona pulou da cama.

— É pra mim, senhor Levi?

— É. O Nile esteve aqui e deixou na recepção.

Levi entregou o pacote para Leona. A garotinha eufórica se pôs a rasgar o papel. Porém, ao encontrar o conteúdo, o sorriso contente evaporou. Leona, fazendo gestos de desdém, desprezou:

— Bleh, é roupa.

Se tratava de um vestido rosa entupido de babados e lacinhos. Uma coisinha pomposa e mesquinha. Hange viu o vestido de longe e pensou: a coitada da criança não deve conseguir andar direito dentro desse troço. Pelo deboche implícito na cara de Levi, compartilhavam a mesma opinião.

— Vem, Bolinha, vamos experimentar.

— Não quero.

— É rapidinho.

A garotinha tentou argumentar, entretanto, a mãe era insistente. Leona resmungava e Hange pedia paciência. Começou a despi-la do macacão. Leona segurou os pulsos da comandante antes da roupa ser retirada totalmente.

— Mãe, o senhor Levi está aqui.

— Bem lembrado.

A comandante olhou Levi por cima do ombro, e Leona ergueu a cabeça para vê-lo também. O capitão viu autoridade e dignidade no rosto da menininha, e compostura fingida no de Hange.

— Levi, vire-se. Você é homem. Não pode ver a Bolinha sem calças.

A seriedade de Hange era indireta. Levi entendeu que a "lição" destinada a ele na verdade objetivava estimular o comportamento positivo da criança. Levi entrou no personagem; fingiu constrangimento e deu as costas para a cena. Não ousou olhar por cima do ombro.

— Minha nossa, que negócio complicado. Caramba, tem anágua.

— Mãe, está me machucando.

— Eu sei, espera um pouco.

Hange levou mais de cinco minutos para colocar a roupa em Leona, e a garotinha chiou o tempo inteiro. Enfim, Hange amarrou a última cordinha da imitação de espartilho. Leona se virou, e Levi fez o mesmo.

A menina olhou o vestido. A saia longa quase encostava no chão. Os babados pareciam um monte de chantilly por causa do anágua. O vestido exaltava orgulho, parecia gritar "ei, olhem para mim". Leona se transformou numa estátua. Os olhos castanhos viraram dois ovos de pato e os braços se estenderam duros, longe do vestido.

— A coitada está apavorada.

— É a primeira vez que eu ponho um vestido nela.

A mão trêmula de Leona se aproximou da saia ostensiva como se aproximaria de um animal venenoso semimorto. Mal tocou no babado e recuou. O peito começou a subir e descer e os lábios fizeram curva para baixo. Hange reconheceu o padrão de comportamento. Lá vem o furacão.

— Ei, não surta.

Isso e nada foi a mesma coisa. Berros infantis fizeram Hange e Levi cobrirem os ouvidos. Leona não era de chorar, mas quando chorava... nossa. Levi se perguntava como ninguém até hoje denunciou Hange para o conselho tutelar. Leona pulava no mesmo lugar, puxava o vestido tentando arrancá-lo do corpo. Gritava juras de morte a pobre roupa inocente.

— Leona, para! Você vai estragar a roupa.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH SOCORROOOOOO TIRA ISSO DE MIM TIRAAAA TIRAAAAA EU ODIEI TIRAAAAAAAAA TIRAAAAA TIRAAAA SOCORROO SOCORROO ALGUÉM ME AJUDA AAAAAAAAAAAAAAAAH AI DE MIM SOCORRO

— Calma, mulher. — Hange a segurou pelos ombros.

A comandante tentava conter a tempestade enquanto virava Leona a fim de abrir as cordinhas. Levi, parado no mesmo lugar, precisou das duas mãos para conter as gargalhadas. Leona berrava feito um porco no corredor do abate. De repente, em meio às súplicas por socorro, esbravejou entupida de ódio:

— MÃAAANHEEEÊEEE O SENHOR LEVI ESTÁ AQUI!

Hange, se deixando levar pelo estado mental de Leona, respondeu num brado impaciente.

— AI MINHA SANTA QUERIDA ABENÇOADO SEJA VOSSO NOME. "SENHOR LEVI", POR FAVOR, VIRA A CARA.

Levi obedeceu rapidinho. Aproveitou para rir quietinho, longe da vista das duas. Aos poucos, os guinchos viraram reclamações, e depois lamúrias. Leona balbuciava numa voz dolorosa capaz de dar dó a um titã:

— Mãe, por que você fez isso comigo? — "manhê puquê você fez issu cumigo?" — Você me odeia.

— Chega de drama, é só um vestido. Aqui, veste a sua camisa.

Aquela frase saindo da boca de Hange era, no mínimo, irônica. A comandante passava longe de saias e vestidos. Espartilhos então... ah, meu amigo, nem pensar. Hange também brigava com maquiagem. Levi só a viu usando diariamente no começo da gravidez. Do contrário, "decorava a cara", como ela mesma desdenhava, em situações extremamente formais – e nunca exagerava.

— Filho de peixe... — Levi provocou.

— A conversa ainda não chegou no estábulo.

— Está me chamando de cavalo?

— Não, de boi.

Os dois adultos discutindo desviou a atenção de Leona do vestido. A menina sorriu de canto, parando de chorar. Hange usou a manga da blusa para limpar os olhos e o nariz da filha.

— Passou?

Leona aquiesceu. Levi, percebendo o fim do espetáculo, veio se juntar à dupla. Hange alisava a camisa e o macacão para ficarem certos no corpo da menina. Levi olhou Leona de cima, fingindo desaprovação. Contudo, não era a pessoa mais cômica do mundo. A falsa cara ranzinza de fato transmitia reprimenda. Leona se encolheu.

— Você não vai poder ir na festa, Leona. Sem vestido não entra.

Planejava brincar só com Leona. Porém, a brincadeirinha atingiu mãe e filha. As duas ergueram a cabeça ao mesmo tempo e exclamaram em uníssono:

— TEM QUE IR DE VESTIDO!?

— Puta merda...

Levi cobriu o rosto e balançou a cabeça negativamente. Hange deu um tapa no joelho do capitão, fazendo Leona rir. Nesse momento, batidas na porta anunciaram a chegada das pessoas aguardadas. Jean, Mikasa e Sasha entraram no quarto. Leona saltou no colo da Ackerman.

— Oi, Bolinha. Como você está bonita nesse macacão. Ei, por que o seu olhinho está vermelho?

— Ela teve um treco porque coloquei um vestido nela. — Respondeu Hange, levantando-se.

— Então os gritos vinham daqui. — Concluiu Sasha.

O capitão pegou o vestido do chão, dobrou a vestimenta e a guardou dentro da caixa de onde viera. De certo, Hange devolveria o presente a Nile. Leona, abraçada no pescoço de Mikasa, mostrou a língua para o pacote.

— Eu nunca mais quero usar esse negócio.

— Poxa, eu queria te ver de vestido. Deve ficar uma gracinha. — Mikasa beijou o rostinho da menina.

— Nãaao! — Leona fugiu dos beijos.

Jean foi para a porta, e nisso as duas soldadas foram atrás. Leona pediu para descer. Mikasa a pôs no chão. Leona saiu em disparada pelo corredor, brincando de pular. Hange, vendo a filha saltar para lá e para cá, teve um – não tão — repentino pensamento horrível, imperdoável e nojento, o qual se arrependera na hora:

Levem essa criança irritante com vocês e demorem bastante.

— A Sasha vai finalmente cumprir a promessa de levar a Leona para comer. E de quebra, pagar o jantar pra nós.

— Jean, eu não vou te dar nem uma água!

Jean deu um sorrisinho falso para a amiga e continuou falando.

— Também vão ir o Armin, o Connie e a Hitch. Nós vamos ao teatro.

— Tudo bem. De quanto vocês precisam?

Hange se preparou para pegar a carteira na mesa de cabeceira, mas Jean a impediu.

— Não precisa. Eu pago pra Bolinha.

— Jean, por favor.

— Por favor digo eu. Gente, vamos embora antes que a comandante me dê o dinheiro.

— Haha, vocês são impossíveis. Ah! Bolinha.

Hange chamou a atenção de Leona. A garotinha parou de pular e olhou a mãe.

— Você vai usar esse macacão na festa amanhã, tenta não se sujar.

— Tá bom.

Os soldados saíram levando Leona. Ufa, finalmente um pouco de paz, Hange suspirou sentindo-se liberta e culpada ao mesmo tempo. É normal as mães sentirem alívio ao verem-se livre dos filhos? Enquanto refletia, braços a envolveram pela cintura. A comandante pôs as mãos sobre as da pessoa por trás. Levi a beijou no pescoço. Hange se entregou ao carinho, roçando o lado da cabeça na do capitão.

— Sabia que dá para ver a cor dos seus peitos pela camisa?

— Atenção, Levi está descobrindo que eu tenho mamilos.

Hange girou nos braços de Levi. Beijaram-se superficialmente, mas não demorou para Levi mordê-la e Hange usar a língua. Ela descansou os braços esticados nos ombros do capitão. Hange não sabia como precisava de um tempo sozinha com Levi até ter a oportunidade. Ansiava pelo beijo, o cheiro, a presença e o carinho daquele homem. Inclinou o corpo e aprofundou o contato da boca, saboreando o gosto secreto da saliva do subordinado. As unhas arranhavam a nuca raspada e desciam por dentro da gola da camisa, fazendo Levi se arrepiar de baixo do contato ansioso.

— Você está mais manhosa hoje do que o de costume.

Levi a beijou no canto dos lábios. Hange pediu mais, esfregando-se no capitão feito um animalzinho carente. Trocaram outro beijo, e dessa vez Hange gemeu na boca dele. O apertou como abraçaria um bichinho de pelúcia.

— É culpa dos hormônios.

— Huh?

— Estou menstruada.

— Poxa, sorte a sua. O que você quer fazer?

Hange estudou a cara de parede do capitão. Levi era maníaco por asseio; do tipo que arruma a cama na primeira hora da manhã, fica nervoso se senta numa mesa suja, tira o pó dos objetos duas vezes na semana e não suporta bagunça. Além disso, Levi já tinha histórico de achar os fluidos do corpo humano nojentos — vide o dia onde ele a chamou de porca por ter provado a própria menstruação. Sendo assim, aceitara de antemão que o subordinado não ia querer brincar.

No entanto, se recusava a perder a piada.

— Se o guerreiro não tiver nojo de sujar a espada...

Esperava receber ofensas e empurrões, contudo, Levi a surpreendeu pondo mais força no abraço e a beijando de surpresa. Hange não conseguiu reagir, admirada pelo resultado insólito. O único olho se arregalou e ficou assim até Levi soltá-la.

— Eu não me importo.

Levi começou a andar puxando a comandante na direção do banheiro. Hange sacudiu a cabeça, estupefata. O consentimento de Levi a pegou desprevenida.

— Você quer? — Hange frisou o pronome de tratamento. — Quem diria.

O capitão revirou os olhos entediados. Abriu a porta do banheiro e ambos entraram.

— Não é assim, Hange. Eu jamais seria capaz de achar sujo uma coisa comum a todas as mulheres.

— Ué, mas quando eu te contei que já comi menstruação, você me xingou.

Levi parou e encarou Hange. Ele franziu as sobrancelhas, suspirou, apertou o espaço entre os olhos e disse, impaciente:

— Bom, eu não me importo, mas acho colocar na boca um pouco demais.

A fala seca trouxe amor ao peito de Hange. Agarrou-se a ele, extasiada. O encheu de beijos na bochecha, na testa, na boca e no nariz. Caso não fosse dez centímetros mais alta, teria pulado no colo do capitão. Levi a segurou pelos braços e tentou contê-la da forma como faria para controlar um cachorro de porte grande agitado.

— Ei, ei. O chão está molhado. Se controle antes que um de nós caia e menstrue pela cabeça.

Hange gargalhou. Levi sorriu de canto e começou a despir a roupa. A comandante foi até o armário pegar o tubo de lubrificante – tinha visto que o hotel oferecia esse tipo de cortesia quando abriu o armário para apanhar o produto de fazer bolhas de sabão. Levi sentou na louça úmida e gelada da banheira. Fez bico, puxou o ar até o peito inflar, e soltou-o numa bufada.

— Congelei o rabo.

— Comida fria também é boa.

— Cala a boca, doente.

Hange tirou as calças sem se preocupar em remover o absorvente da calcinha. Permaneceu vestindo a camisa porque Levi gostava de despi-la. De onde estava, o capitão pôde ver o sangue incrustado nos pelos pubianos. O tom de vermelho pouco diferia dos pelos, só podendo ser reparado nas partes acumuladas.

A comandante montou no colo do capitão, achando graça da sensação fria nos joelhos. Teriam preferido a cama, todavia, não era boa opção. Fariam do quarto um açougue. Para ser sincera, Hange não se importava. Levi, pelo contrário, preferiria morrer a deixar o faxineiro lidar com o resultado da brincadeira.

Hange abraçou os ombros do subordinado. O beijo coincidiu com a movimentação do quadril. Sentiu mãos a alisarem desde a base da coluna até as coxas, e então se espalmando nas nádegas redondas. Levi endureceu em baixo dela, e nisso Hange pôs mais empenho no quadril. O capitão ergueu a cabeça para mordê-la na boca, e a mão aberta deu um tapa violento no traseiro que rebolava sobre ele. Hange riu entre o beijo, deixando o peso ceder na ereção.

O sexo de Hange também começava a se animar. Cada vez que a vagina pulsava, sangue escorria. Nenhum deles se importou.

Levi beijou o colo feminino por cima da camisa. Os dentes começaram a brincar com os botões, ansiosos para explorar a pele. Abriu a camisa de cima para baixo, expondo a nudez aos poucos, como gostava de fazer. A boca marcou o peito, emitindo barulhos estalados e fazendo a comandante suspirar. Alcançou os seios, e nisso Hange o abraçou pelo pescoço e inclinou o busto carente, quase tirando o mamilo do alcance de Levi.

Levi mimou os seios com beijos, mordidas e chupões audíveis. Hange reagia gemendo, e ele percebia a entonação melodiosa nos sons produzidos. A carência a deixara dengosa. Normalmente, a voz grave de Hange tornava-se aguda, quase esganiçada. A lubrificação vaginal tende a diminuir durante a menstruação, e a pouca quantidade produzida misturava-se ao sangue.

Hange deixou a camisa deslizar sobre os ombros. Levi lembrou de apanhá-la antes de cair na louça suja. A comandante aproveitou essa pausa para pegar o lubrificante. Enquanto Hange abria a tampa, Levi abocanhou o mamilo outra vez. A mão amassou o segundo seio, prendendo o bico escuro entre os dedos. O braço livre rodeou a cintura, impedindo qualquer fuga. A comandante se contorceu, rindo.

— Chupando meus peitos desse jeito, até deixo você me chamar de mamãe.

O capitão a largou abruptamente. Ergueu o rosto de sobrancelhas franzidas e dentes rangendo. A comandante, por outro lado, jorrava atrevimento pelo único olho castanho. Apenas debochava dele. Isso o deixou mais irritado ainda. A reação furiosa fez Hange dar risada, as gargalhadas reverberaram pelo banheiro.

— Olha as coisas que você diz, retardada de merda.

— As caras que você faz são as melhores.

O capitão arrancou o tubo do poder de Hange. A comandante saiu do colo dele, dando um gritinho quando a pele quente entrou em contato com a louça fria. Levi se enfiou entre as pernas dela. A mão lambuzada provocou a vulva com movimentos circulares. Encontrou-a quente e vermelha. Hange empurrava o quadril nos dedos de Levi do jeito que a posição permitia, buscando apoio nas mãos e nos pés para erguer o quadril.

O cheiro ferruginoso se sobrepôs ao do suor. Levi continuou a masturbação até os gemidos se transformarem em gritos, e a vagina a pulsar ao redor da mão vermelha. O sangue escorregava por entre as coxas de Hange, sujando Levi e a banheira. De repente, Hange segurou o pulso do capitão.

— Está bom assim. Eu quero você.

O resto do lubrificante foi usado na ereção. Apoiando as mãos nos ombros de Levi, Hange desceu o quadril balbuciando palavrões. Mesmo lubrificada, encontrava dificuldade para receber o capitão por causa das mudanças da vagina durante o período menstrual. Levi alisou a cintura definida, marcando a pele com as digitais ensanguentadas. Beijou-a nas clavículas, no pescoço e nos seios, transmitindo amor e paciência para com o tempo de Hange. Em momento algum fez menção de força-la a sentar.

Por fim, os quadris grudaram um no outro. Hange aninhou o rosto contra o seu, e Levi percebeu, meio surpreso, que Hange ainda usava óculos e tapa-olho. Tomou a liberdade de retirá-los, pondo os óculos cuidadosamente do lado da torneira e deixando o tapa-olho fora da banheira.

— Está doendo?

Perguntou ele, a beijando no maxilar. A comandante retribuiu o carinho afagando o rosto do subordinado, usando os polegares para acariciar as maçãs do rosto. Ela sorriu e moveu o quadril. Levi suspirou.

— Ardeu um pouquinho. Já passou.

Hange começou a rebolar num ritmo experimental, como se conferisse a segurança do terreno. Conforme se acostumava, e o prazer substituía o desconforto, passou a martelar o quadril. As vozes preencheram o espaço outrora silencioso. Hange teve mais contrações. Levi gemeu, sentindo o sangue quente ao redor de si. A comandante sentiu isso também; claro, numa intensidade muito maior. Berrou, dando risada no meio do grito, adorando a momentânea sensação escorregadia.

O liquido viscoso espalhava-se por todo lugar. Quando o ritmo se tornou veloz, Hange se afastou. A ereção deslizou dentro dela, fazendo Levi gemer. Trocaram de posição. Levi se colocou de joelhos, ajudando Hange a erguer o quadril. Agora ele controlava a penetração.

Hange apoiou o tronco no chão da banheira – graças a Santa a banheira era larga o bastante para deitar sem encostar nas bordas. Esfregou o clitóris numa massagem intensa, beirando a violência. Levi a penetrava em estocadas fortes, aproveitando a maleabilidade do sangue recente. Hange, se aproximando do ápice, deu um gemido longo e necessitado. Levi a levantou. Voltaram à posição anterior. Hange sentou de uma vez só.

Levi se fez ouvido no momento do orgasmo. Hange derreteu quase no mesmo segundo. Viram estrelas na visão turva. Os únicos sons eram os das respirações descompassadas retomando o fôlego perdido e, no caso de Levi, que tinha a cabeça enterrada entre os seios de Hange, as batidas do coração daquela mulher especial. É tão bom ouvir o seu coração pular. A desejava, admirava, amava e queria bem. Se pudesse morar naquele tum-tum forte e irregular, o faria.

— Gosto tanto de você, Hange.

Hange sorriu de canto. Então, percebendo a mão suja de sangue, passou-a de cabo a rabo na testa de Levi. O capitão a empurrou, esbravejando xingamentos.

— Puta que pariu, sua retardada do caralho.

— É para as pessoas saberem que você é meu.

— Eu dispenso, obrigado... Caramba, olha isso.

Contemplaram o estado da banheira e dos próprios corpos. Levi riu de boca fechada, e Hange o fez a seu modo estridente. Parecia que alguém havia derrubado dez litros de molho de tomate sobre eles. Levi tinha sangue até na barriga; não fazia sentido reclamar da testa manchada.

— Isso aqui está parecendo uma cena de crime.

— Ainda bem que você teve a ideia de virmos para o banheiro.

Levi mudou a temperatura da água e abriu a torneira. O sangue seguiu o fluxo da água fria. O capitão lembrou de Kenny, o assassino com quem viveu na infância. "Guri, nunca se esqueça: para limpar sangue, só água gelada serve". Levi usou o baldinho para se lavar. Hange urinava no ralo. Revezaram. Levou dois minutos para a água limpar as pistas do crime. A louça voltou a ser branca. Por fim, Levi pôde fechar o ralo e deixar a banheira encher.

Os dois descansaram no calor da água quente. Levi, acomodado nas bordas da banheira, passou a mão no cabelo molhado, jogando-o para longe dos olhos. Hange aninhava-se entre as suas pernas. Ela entregou o shampoo a ele. Levi entendeu o pedido, e lavou o cabelo castanho de bom grado.

Levi despejou água na cabeça ensaboada. Hange fechou o olho para não cair espuma. Em seguida, entrelaçava os dedos nos do capitão, e o fazia passar o braço ao redor dela. Hange deitou as costas no peitoral do subordinado como se ele fosse um colchão humano, e meneou a cabeça para roçar a boca no rosto familiar, focando a bochecha e o maxilar. A garganta dela emitia um murmúrio de conforto muito baixinho.

— Você está mesmo ultra carente.

— Eu só quero aproveitar com você antes que os garotos voltem.

Levi abraçou Hange com os dois braços, a fazendo suspirar. A próxima fala de Levi era para ser uma piadinha, contudo, não teve o efeito desejado.

— Já quer jogar a Leona fora.

De súbito, Hange separou-se dele. Não sorria mais. O fitou por cima do ombro direito, lado do olho remanente. Levi viu culpa no semblante cabisbaixo, e as palavras vieram no timbre de alguém que gastou muitas horas refletindo sobre determinado assunto.

— Você acha que eu sou uma mãe ruim por querer um tempo sem a Leona?

A frase não soou acusatória, mas sim incerta, cheia de hesitação e dúvidas. Hange estava fazendo uma pergunta sincera. Levi viu vergonha no olhar culpado. Hange queria descansar, ler em silêncio, bater siririca, se embebedar, comer uma caixa de doces sozinha, andar pelada pela casa... em suma, fazer coisas que não envolvam Leona, e se sentia mal por desejar isso.

Algumas mulheres perdem a própria identidade após o nascimento dos filhos. Levi nunca tinha parado para pensar nessa questão. Se admirou ao constatar como, mesmo vendo Hange e Leona juntas em situações fortuitas, a maior parte dos militares enxergavam as duas como um só individuo. Como se o papel de Hange no mundo fosse ser mãe de Leona, e o de Leona ser filha dela.

Só que não é assim. Apesar do parentesco, se tratavam de seres humanos diferentes. Hange era provida de defeitos, necessidades e vontades, tal qual Leona. A mulher adulta tinha sonhos a longo e curto prazo. A garotinha de cinco anos desenvolvia os seus. Antes de ser comandante, cientista, líder de esquadrão, soldado e mãe, Hange era Hange Zöe. Nenhuma heroína, apenas uma mulher comum dando o seu melhor. E Leona, antes de ser a filha da comandante – e do comandante – era só uma criança comum querendo brincar por aí, como eu e você fomos numa época distante.

Mesmo assim, entendia o sentimento culpado de Hange. É muito fácil opinar de fora, complicado é estar no cenário. Levi lembrou de Kuchel, sua mãe. Sentiu uma mistura de tristeza e gratidão pelos sacrifícios que a pobre mulher teve de fazer por aquele garotinho chato e grudento. Uma pena terem tido tão pouco tempo juntos. Adoraria tê-la conhecido melhor.

— Hah. É tão comum vermos filhos reclamando de os pais não darem privacidade, já o contrário...

Hange sorriu de boca fechada. Voltou a deitar no peito acolhedor, agora com a lateral do corpo. Levi a abraçou. Hange deslizou na banheira para aninhar a cabeça perto do pescoço do capitão. A água do banho tornara-se morna. Esfriaria em breve.

— Depois que a Leona nasceu, percebi que a gente só aprende a ser filho quando nos tornamos pais. Eu fiz a minha mãe passar por tanta coisa... queria que ela estivesse viva para agradecer por não ter me esquecido "acidentalmente" no mercado.

As aspas indicavam o duplo-sentido na terrível fatalidade. Ambos riram da ideia maluca, embora não tão improvável. Como sempre, as risadas de Levi, baixas e guturais, cessaram primeiro. Ele beijou a cicatriz facial, oferecendo o conforto que Hange precisava.

— Enfim, você é uma mãe maravilhosa. Dá pra ver o quanto aquela garotinha ama você.

A comandante levantou a cabeça, querendo beijá-lo. Levi consentiu, e pôde sentir Hange sorrindo durante o gesto de afeto. Depois, ela se afastou.

— Por falar nisso, é melhor nos vestirmos antes que eles voltem.

Levi a trouxe de volta quase agressivamente. A comandante o olhou com um quê de indagação. O capitão se limitou a envolve-la, a mantendo presa em seus braços.

— Hange, eles vão no teatro, só vão voltar lá pelas onze. Não deve ser nem sete e meia. Relaxa.

Hange o fitou de boca aberta, abobada de início, porém logo sorrindo de orelha a orelha. Aceitou o abraço de Levi, pondo todo o peso sobre ele, adorando receber o amor daquele homem que, sorrateiramente, se tornou uma das razões que a faziam levantar todos os dias. Juntamente com Leona, o sonho de ver o mundo, a sede por conhecimento e o cargo na Tropa de Exploração.

Trocaram beijos, afagos, ofensas e risadas até água esfriar. Então, vestiram roupas limpas e trocaram o banheiro pela cama confortável. Levi conferiu o relógio. Ainda faltava muito para as onze.