O museu foi locado num dos poucos palácios abandonados da Capital. O governo pagou para reformarem a construção de cabo a rabo, desde o porão até o telhado. A equipe fez um ótimo trabalho restaurando a magnitude do castelo antigo. A festa de inauguração acontecia no segundo andar, logo acima do museu. Hange e Levi resolveram deixar a visitação por último.

A festividade era composta predominantemente por militares e nobres. Tirando as garçonetes, Hange era a única mulher de terno. Já Leona, uma das poucas meninas vestindo roupa normal de criança. A menina acenava para todo mundo, tendo deferência até para com os empregados. Alguns a ignoravam, mas a maioria retribuía o cumprimento.

Levi não era fã de atividades sociais. Ligeiramente ansioso pela concentração de pessoas, o capitão andava próximo a Hange, quase grudado nela. Para a sua sorte, a extroversão da comandante o tornava invisível. Levi usava terno preto e penteara o cabelo brilhoso para trás. Hange aprovara o visual. Até o comparou com galãs do estrelato.

Por ora, apenas exploravam o ambiente. Vez ou outra, Hange encontrava amigos do exército e, sem restrição de idade, gênero ou classe social, parava para trocar ideia. Levi e Leona eram obrigados a esperar o papo terminar. Foi numa dessas que Hange encontrou alguém importante, com quem há muito tempo não tinha contato. Hange pôs a mão em concha ao lado da boca para a voz sair mais alto e, acenando com a outra, gritou, no meio dos nobres pomposos:

— Flegel! Puxa, quanto tempo não nos vemos. Como você está?

O grupinho de velhos engomados próximo do trio pulou de susto ante a voz estridente de Hange. O tal Flegel, um comerciante famoso em Paradis, atacava a mesa de doces. Se tratava de um rapaz baixo, gorducho e sardento. Ele se empanturrava de bolinhos. Ao ouvir a voz da comandante, virou-se desajeitadamente. A boca larga, feita sob medida para engolir vinte chocolatinhos por minuto, estava branca de chantilly.

— Comandante Hange, tudo bom?

Hange e Flegel apertaram as mãos e começaram a conversar sobre o comércio da ilha. Leona, é claro, se interessou mais pela mesa de guloseimas do que pelo papo chato dos adultos. Sobre a superfície forrada de branco dispunham-se bolos, bebidas, saladas de fruta, balas, pirulitos, casadinhos e pastéis. A menina pegou dois doces de avelã e os pôs na boca ao mesmo tempo.

Levi também não tinha interesse em comércio. O capitão abandonou a dupla e se juntou à Leona. Ele se serviu de chá preto, segurou a xícara por cima e bebeu. Enquanto bebia, olhou Leona de soslaio.

— Sua mãe vai ficar conversando para sempre.

Leona concordou. Entretanto, ambos se enganaram dessa vez; o bate-papo terminou em menos de cinco minutos. Os três tornaram a caminhar, cada um saboreando um tipo diferente de docinho. O salão era amplo, iluminado e cheio de janelas. A lua cheia, as estrelas e a paisagem urbana da Capital atuavam como decoração natural. As pessoas espalhavam-se em grupos, e pela roupa e jeito de falar, dava para diferenciar quem era da nobreza e quem não era.

Esbarram em Pixis, Zackly, os soldados do esquadrão 104, Hitch, Floch, e outros adultos conhecidos. Então, em certo momento, tiveram a atenção chamada pelo policial militar que Leona conheceu na manhã anterior.

— Ei, comandante, capitão.

Nile acenava poucos metros adiante. Uma mulher da altura de Hange e uma adolescente baixinha acompanhavam o comandante da Polícia Militar. Marie os cumprimentou. Tanto Hange quanto Levi foram atraídos pela mulher adulta antes mesmo de repararem em Nile.

O tom de verde do vestido compatibilizava com os olhos de Marie Dok. O cabelo loiro escuro esbanjava elegância numa coroa de tranças, e algumas mechas onduladas caiam soltas entre as omoplatas. Marie era uma mulher larga no busto, rosto e quadril, e pelo porte dava para ver que não foi assim a vida inteira. A face apresentava sinais do envelhecimento pós-quarenta. As rugas e os pés de galinha combinavam com Marie, dando um charme peculiar ao rosto da senhora Dok. O tipo de mulher bonita na juventude e na velhice, feito vinho. E, quando Marie sorriu de orelha a orelha e beijou a bochecha dos dois soldados da Tropa de Exploração, os tratando tal qual amigos de longa data, ambos entenderam porque Erwin se apaixonou pela esposa de Nile.

Tanto Hange quanto Levi sabiam do breve relacionamento entre Erwin e Marie. O capitão soube pela própria boca do falecido. Hange descobriu sem querer na primeira visita à casa de Sophie. A união transeunte sequer poderia ser chamada de namoro. Aventura é uma palavra melhor.

Erwin, Nile e Mike a conheceram num bar frequentado por militares. Marie se apaixonou por Erwin, e Nile por ela. Todos tinham quatorze anos e muitos sonhos. Marie era atrevida e irrequieta. Contudo, não queria ser assim para sempre – desejava casar, ter uma boa casa e dois ou três filhos. Lamentavelmente, os objetivos de Erwin conflitavam com os da jovem apaixonada. Erwin queria enfrentar o sistema e desvendar a verdade sobre a humanidade. A aventura dos dois não deu certo. Marie resolveu dar uma chance a Nile, e terminou casando com ele. Você colhe o que planta, e nenhum dos três adolescentes se arrependeu dos frutos colhidos.

Tal como a passageira paixão de Marie, o bar aonde o amor nasceu não existe mais. Nem Erwin.

— Boa noite, Nile me fala tanto de vocês. Ei, essa é a Leona? Oi, menininha.

Marie se abaixou para beijar o rosto de Leona. A menina também foi hipnotizada pela aura encantadora de Marie. Aceitou o beijo sem piscar, feito um animal selvagem domado. Ao acordar do transe, as bochechas de Leona coraram e ela sorriu, pondo a mão na bochecha beijada.

— Ela não é a cara do Erwin?

Disse Nile, afetuoso. Marie, coçando o queixo, analisou Leona, e depois fez o mesmo com Hange. Sorrindo, respondeu:

— Não acho, amor. Ela é uma mistura dos dois.

— Finalmente alguém que acha a Leona parecida comigo.

Hange ergueu as mãos comicamente, agradecendo à Santa lá em cima pela lucidez de Marie. O casal e a adolescente riram, e uma quarta risadinha fina fez os dois soldados da Tropa de Exploração olharem para baixo. Uma menininha de vestido rosa se postava ao lado da adolescente, rindo com as mãozinhas na boca. Essa criança era uma cópia perfeita de Nile, até o formato dos lábios. A adolescente era magricela e tinha o mesmo cabelo e olhos de Marie.

— Essas são duas das minhas três filhas. Micaela, Miranda, deem oi para os amigos do papai.

Hange se agachou para ser beijada por Micaela — a caçula. Levi, a contragosto, a imitou. Depois, beijaram e foram beijados por Miranda — a mais velha. Leona não queria beijar nenhuma das duas, contudo, já que sua mãe e até o senhor Levi o fizeram, por educação aceitou o contato. Entretanto, não conseguiu evitar a careta de desgosto.

— Pelo visto, a senhorita Leona não gosta de beijos. — Nile riu.

— Depende do humor e do momento. — Hange revirou os olhos. — E a terceira filha de vocês?

— A Mirela? Haha. Está comendo por aí, na certa.

Hange e Levi compartilharam um discreto olhar divertido. Hange pensou: Micaela, Mirela e Miranda. Se eu tiver mais duas filhas, vou chama-las de Leila e Leonor.

— A propósito, vocês não gostaram do vestido que mandamos?

O desaponto na face de Marie indicava que ela escolheu a roupa. Pela semelhança do vestido dado à Leona com o de Micaela, ambos foram comprados na mesma loja. Talvez as filhas do casal tenham participado da escolha do presente. Esses detalhes constrangeram Hange. A comandante coçou a nuca, meio envergonhada. De qualquer maneira, não ia desrespeitar Leona a forçando a usar vestido só para agradar terceiros.

— Ela não se adaptou. Não é, Levi? Eu coloquei o vestido nela e...

Os adultos distraídos pararam de prestar atenção nas crianças menores. Miranda notou o afastamento das duas e ignorou. Leona e Micaela saíram da rodinha a fim de conversar sem ninguém atrapalhando. Micaela era mais alta. Leona reparou que a culpa da diferença de altura era dos sapatos altos.

— Meu papai falou que você é filha dos amigos dele.

— Aquele homem é seu pai?

Leona conhecia poucos pais, menos ainda com filhos pequenos. Portanto, ficou surpresa de encontrar uma criança da sua idade com pai em casa. Até então, esses cenários eram quase lendas urbanas.

— Sim. Ele me disse que você tem cinco anos. É verdade?

— Tenho. — Leona ergueu a mão aberta, mostrando cinco dedos. — E você?

— Tenho seis. — Micaela ergueu a palma da mão destra e o dedo indicador da canhota. — Sou mais velha que você.

Micaela colocou os pulsos na cintura e levantou o nariz. Leona ignorou o esnobismo.

— Quer brincar de soldado e titã?

— Que isso?

— É uma brincadeira que a minha mãe me ensinou.

— Como se brinca disso?

— Assim.

Leona saltou sobre a menina mais velha. Micaela gritou ao cair. As duas rolaram. Leona encaixou a mandíbula no antebraço da outra criança. Micaela berrou como se estivesse sendo mordida por um cão raivoso, e não recebendo mordidinhas brincalhonas. Os guinchos atraíram olhares, mas só os familiares vieram.

— Leona!

A menina loira apareceu entre os babados do vestido rosa, tal qual uma vela de aniversário no meio do chantilly do bolo. Leona erguia-se vitoriosa sobre Micaela. Quanto à Micaela, coitada, gritava de pavor. A queda desmantelou o coque, bagunçou o vestido e deixou seu braço molhado de saliva.

— O que você está fazendo, Bolinha?

— Estou ensinando a Micaela a brincar de soldado e titã, mãe.

Leona sorria inocentemente. Hange a tirou de cima de Micaela. Levi foi ajudar a menininha a se levantar. Contudo, Nile, Marie e Miranda agiram primeiro. Os três acalentaram a caçula, murmuraram frases de conforto – "pobrezinha do meu neném" – e alisaram o vestido bagunçado. Marie refez o coque. Micaela reclamava baixinho, esfregando o olho.

Hange ergueu Leona no colo. A garotinha abraçou o pescoço da mãe e balançou as perninhas, animada. A carranca da comandante fez o sorriso infantil desaparecer. Bem, pelo menos sua mãe não dera O OLHAR. Isso significava que Hange não se zangara de verdade.

— Bolinha, você não pode brincar disso com qualquer criança.

— Mas o pessoal da minha rua adora.

— A Micaela não gostou.

— Não gostei mesmo! Essa brincadeira é maquiavélica!

Micaela bradou, furiosa e magoada, para a garota no colo da mãe. Os pais também não pareciam felizes. Leona, alheia à cólera da família, pendeu o rosto pensativo para o lado.

— Mãe, o que é maquiavélico?

Hange pôs a mão livre na testa e balançou a cabeça. Lá no fundo, o diabinho dentro da comandante se matava de rir. Sua filha era uma figura. Todavia, precisava repreende-la em consideração à Nile. Afinal, a criança dele acabou chateada por causa de Leona. Tanto ele quanto Marie levavam a situação a sério.

— Depois te falo. Peça desculpas por ter machucado a Micaela.

Hange a colocou no chão. Leona, vendo-se sozinha perante a desaprovação dos outros quatro, tornou-se inquieta. Não achava mais graça. Pediu o colo da mãe. Hange a empurrou na direção da família irritada. Cabisbaixa, Leona se aproximou de Micaela e sussurrou:

— Desculpa, Micaela.

— Olhe nos olhos dela, Bolinha.

Leona ergueu a cabeça e encontrou a menina embravecida. No entanto, não foi tão difícil assim encará-la. Sustentou o olhar dela sem grandes dificuldades, e essa segurança, de alguma forma, amenizou a raiva da família.

— Me desculpa por ter derrubado você. Achei que todo mundo gostava de brincar assim.

— É, deu para ver.

Desdenhou Nile, ríspido. Leona colocou as mãos atrás da cintura e girou a ponta do sapato no chão. Levi não gostou da aspereza do policial. Hange apenas aceitou. Coube à Marie consertar o desastre.

— Micaela, por que você não mostra para a Leona suas brincadeiras favoritas?

A ideia apresentada por Marie trouxe entusiasmo às crianças. Micaela, já esquecida do desentendimento, pegou Leona pela mão.

— Boa ideia. Vem, Leona. Você só conhece brincadeiras maquiavélicas. Eu vou te mostrar jogos melhores.

Leona não achava que suas brincadeiras fossem maquiavélicas – desconhecia o significado da palavra; julgando pelo contexto, deve ser sinônimo de péssimo ou maligno. Adorava brincar de soldado e titã, esconde-esconde, cabra-cega, bola e luta. Entretanto, Micaela pertencia a uma realidade diferente, dava para ver pelos modos de seus pais. Queria conhecer as brincadeiras das crianças elegantes.

— Mãe, posso ir?

— Claro, filhotinho. Divirta-se.

Leona deixou Micaela puxá-la. Apesar dos sapatos estranhos e desconfortáveis, Micaela caminhava rápido. Leona admirou o equilíbrio dela. Andavam no meio das rodinhas dos adultos. Os estranhos falavam sobre tudo e sobre nada. Leona entreouviu conversas conforme atravessavam o salão.

"...o museu está tão bonito..."

"...ponche está delicioso, e o canapé..."

"...esses marleyanos na nossa ilha..."

"...você conhece o Mário?..."

"...tentar não beber..."

"...perdeu a mãe tão cedo..."

"...comprei uns móveis novos..."

"...faltando música nessa..."

"...a gata que eu adotei..."

Alcançaram um batente separando o salão principal de outra sala. Esse segundo salão era menor, porém não menos aconchegante. A diferença dele para o outro era o público: crianças e pré-adolescentes ocupavam o espaço. Pelo barulho de utensílios batendo uns nos outros, se encontravam perto da cozinha. Micaela levou Leona até o canto da sala, onde algumas crianças pequenas brincavam.

Lá encontraram uma mesinha quadrada. Um jogo de chá infantil descansava sobre a superfície, e uma garotinha de três anos se divertia brincando de servir o bule. As xícaras, o bule e os pires eram miniaturas perfeitas dos objetos reais. Micaela empurrou a estranha e sentou na cadeira onde a garotinha estivera sentada — na cabeceira, o lugar do anfitrião. Micaela, tal qual uma mocinha, alisou o vestido com muita delicadeza, a fim de deixá-lo arrumado e perfeito.

— Eu cheguei primeiro!

Disse a terceira garotinha, de olhos marejados. Micaela, cheia de classe e dignidade, sacudiu a mão como faria para afastar uma mosca e disse shoo. Leona achou graça. Micaela parecia uma dama pequenininha.

— Vai brincar com outra coisa, menininha maquiavélica.

A criancinha saiu chorando. Leona sentou na outra cabeceira, fingindo arrumar o vestido invisível — de mentirinha pode. Havia mais duas cadeiras na mesa. À direita sentava-se uma boneca de pano loira, e à esquerda uma de cabelo preto.

— Você quer chá, senhorita Leona?

Leona estendeu a xícara para Micaela servir. Fumaça quente saiu do bico do bule, e logo o chá vermelho caia. As bonecas ganharam vida. Ambos os brinquedos agradeceram pelo chá. Através do olhar brilhante da outra menina, Leona entendeu que partilhavam o mesmo mundo infantil. Era divertido brincar de chazinho com outra pessoa imaginativa. Hange e Minnie tentavam, no entanto, o cérebro de adulto não as permitia entrar de cabeça na brincadeira. As crianças do bairro de Leona tinham criatividade, porém, só aceitavam brincar de chazinho caso houvesse comida de verdade.

— Meninas, essa semana foi maquiavélica. — Lamentou Micaela. — Tive aula de cartografia, ballet, teatro, costura, xadrez, piano, culinária, natação, violino, dança, desenho, artesanato em madeira, pintura, hipismo, matemática avançada, esgrima, croché, canto, ensino religioso, construções civis e confeitaria. Ah, me sinto tão cansada! — Feito atriz de teatro, Micaela pôs a mão no rosto, deitou na cadeira e suspirou pesadamente. — E ainda precisei cuidar dos meus sete filhos, dos meus onze cães, meus treze gatos e dos meus cinco periquitos. Como se não bastasse, minhas vinte e nove empregadas, meus quinze jardineiros, meus nove cozinheiros e meus sessenta bobos da corte vieram me pedir aumento. Eu disse: pois então, se querem mais dinheiro, tratem de trabalhar mais!

— Puxa, senhorita Micaela, você passou por muita coisa.

Senhorita Micaela cruzou as pernas, segurou a alça da xícara com a pontinha dos dedos e fez bico ao beber o chazinho imaginário.

— O que você fez essa semana, senhorita Leona?

Imitando a disciplina de Micaela, Leona pôs a xícara na mesa com delicadeza surreal. Já tinha imaginado um personagem para interpretar. Ia ser médica. Uma doutora renomada, respeitada, rica e muito muito mas muito nobre. A mais nobre de todas.

— Trabalhei muito. Atendi dezoito pacientes com pneumonia, cinco com dor de garganta, sessenta com tuberculose, dez com a perna quebrada...

Caçava doenças na memória para incluir na lista de atendimentos. Não só inventava números de paciente como também nomes, idades e rostos. Não obstante, Leona quase acreditava na fantasia. Já tinha estado em hospitais – por exemplo, no dia em que quebrou o braço pulando na escada. Respeitava a formalidade e inteligência dos médicos. De verdade, deve ser difícil trabalhar num hospital. Você precisa decorar o nome de todas as doenças do planeta. Leona se imaginava nessa posição. Conhecendo doenças, diagnosticando pacientes, conversando com parentes preocupados e...

— Não, você não é médica.

A negativa direta quebrou o raciocínio de Leona. Micaela a encarava de braços cruzados e face mal-humorada. A imaginação de Leona perdeu força. As roupas reais retornaram e a sala de estar tranquila e ensolarada voltou a ser o salão de festas.

— Por quê?

— Você está brincando errado. Nós somos damas.

— Ué? — Leona arqueou a sobrancelha. — Damas não trabalham?

— É claro que não. Nossos maridos nos sustentam.

— O que a gente faz?

— Nós bebemos chá, xingamos as empregadas, pisamos nos pobres imundos e usamos vestido.

Leona ergueu as sobrancelhas. Se ser dama significa não ter ofício, maltratar os outros e passar o dia todo usando vestido (essa parte era o pior) então Leona não queria ser dama, nem nobre, nem princesa, nem rainha, nem porcaria nenhuma relacionada. Olhou a xícara e viu que ainda tinha chá. Leona bebeu numa golada só.

— Então vou ser só medica, sem a parte da nobreza.

Leona pôs a mão no ombro da boneca de cabelo loiro. A boneca sorriu ternamente. Um uniforme azul de enfermeira surgiu no lugar do vestido do brinquedo.

— E a dona Marocas vai ser a minha enfermeira. Não é, dona Marocas?

Antes que a dona Marocas pudesse responder, Micaela arrancou a boneca da cadeira. A roupa de enfermeira evaporou, tal qual a vida do objeto.

— O nome dela não é dona Marocas, é Giovanna. E ela não é enfermeira coisa nenhuma, é uma princesa.

Micaela consolava a boneca passando a mão no cabelo sintético, como se Leona tivesse insultado o brinquedo ao chamá-lo de enfermeira. Leona sentiu vontade de atirar o bule de chá na cara de Micaela. Se os brinquedos fossem seus, teria feito isso.

— Por que tem que ser do seu jeito?

— Em primeiro lugar, você está brincando maquiavelicamente. — Micaela apoiou as mãos na mesa e se levantou, usando a altura extra dos saltos a seu favor. — Além disso, você tem cinco anos e eu tenho seis. Sou mais velha. Você tem que fazer o que eu mando.

Leona não se assustou ante a pose autoritária. Ergueu-se e enfrentou Micaela cara a cara. A outra garotinha não esperava desafronta. Micaela controlou o receio e manteve a compostura de mulher atrevida. Leona a encarou fundo nos olhos, e disse:

— Você é muito chata. Vou brincar com as outras crianças.

Deu as costas e saiu andando sem olhar para trás. Entretanto, a filha de Nile seguiu a de Erwin. Leona revirou os olhos ao escutar o tuc-tuc dos sapatos. Resolveu espera-la. Micaela parou na frente de Leona, cruzou os braços, requebrou o ombro, bateu o pé no chão e reclamou:

— De jeito nenhum. Minha mamãe disse para gente brincar junto então nós vamos brincar juntas!

A íris de Leona quase desapareceu dentro das órbitas. Queria mandá-la ir se catar. No entanto, a consciência amistosa lhe disse para dar mais uma chance à Micaela.

— Tudo bem, mas me deixe brincar do meu jeito ou...

Uma escuridão oculta na cabeça de Leona clareou de repente. A forte sensação se assemelhava a evolução quase palpável que sentimos quando descobrimos alguma coisa que muda nossa vida. Lembrou-se da conversa entre os soldados na tarde anterior. Agora, o contexto do papo desconcertante fazia sentido. Leona entendeu tudo. Eren queria comer a mãe do Jean porque Jean o deixara bravo. Sim. Quando alguém te deixa irritado, você come a mãe desse alguém para ele aprender a não mexer com você. Leona franziu as sobrancelhas para Micaela e tentou não sorrir.

— ...ou eu vou comer a sua mãe.

Micaela parou desorbitada, confusa e acuada. Micaela não tinha entendido o verdadeiro contexto da ameaça, porém, ao contrário de Leona, ela vinha de uma família grande. Possuía irmãs mais velhas e tios desbocados. O subconsciente da filha de Nile apitou dizendo que a frase carregava uma mensagem subliminar insondável para sua mentalidade de criança. No entanto, Micaela era orgulhosa demais para admitir ignorância. Leona, por sua vez, cansou de segurar o sorriso confiante.

— Pois... pois... se você comer a minha mamãe, eu vou comer a sua casa!

Leona ponderou milhões de respostas. Se você comer a minha casa, vou morar com você. Se você comer a minha casa, vou obrigar seu pai a me dar outra. Prefiro não ter casa e ter mãe, do que morar numa casa solitária. Também pensou em outras menos impactantes. Dentre todas, Leona escolheu a mais sensata: ignorar. Micaela não ia dar o braço a torcer de qualquer maneira, e Leona preferia passar o tempo brincando em vez de brigando.

— Que seja. — Em seguida, esfregou as mãos e sorriu animada. — Do que podemos brincar agora?

— Vamos ver se as minhas irmãs sabem de algum jogo legal.

Leona não prestara atenção na conversa dos adultos. Por conseguinte, a informação sobre as outras duas filhas de Nile passou despercebida. Leona ficou curiosa, e um pouquinho triste também. Todos os seus amiguinhos tinham, pelo menos, um irmão ou irmã. Só Leona morava sozinha. Começava a suspeitar ser a única criança sem irmãos da muralha inteira.

— Você tem irmãs?

— Duas. A Mirela e a Miranda.

Apressando o passo para acompanhar Micaela, Leona pôs as mãos atrás da cintura e perguntou, respeitosa e humilde:

— Você me empresta uma?

— A Miranda não empresto, não dou e não troco. — Micaela soava assertiva. Em seguida, se aborrecia. — Já a Mirela, te dou com prazer. Pode levar hoje mesmo.

— Obrigada. — Leona acreditou.

— Você não tem irmãos?

— Não. Eu sempre quis uma irmã. Vivo pedindo para a minha mãe, mas ela não me dá nada.

E era verdade. Leona queria uma companheira para comer mingau, brincar de barraquinha, contar segredos e dormir junto. Pediu uma irmã no aniversário de quatro anos e não recebeu nenhuma. No de cinco, repetiu o pedido, e novamente nada. Isso sem contar o dia das crianças. Leona também pedia por uma irmã em dias aleatórios. "Não precisa vir da sua barriga, mãe, pode ser da rua mesmo", Leona implorava. Hange sempre respondia a mesma coisa: vou pensar, filhotinho.

As palavras de Leona foram uma piada e tanto para Micaela. A menina gargalhou, balançou a cabeça e disse, condescendente:

— Irmãs são maquiavélicas. Sorte a sua ser filha única e poder ter o próprio quarto, os próprios brinquedos, e receber a atenção da sua mamãe toda para você.

Leona parou de súbito, piscando. Micaela parou também. Uma interrogação pairava sobre a cabeça da menina de cabelo preto. Leona pôs a mão sobre a boca e pensou sobre os apontamentos de Micaela. Bem... dividir os brinquedos e o quarto não seria problema. Agora, a atenção de Hange... bom, isso ia ser complicado. Leona já se zangava de ver sua mãe dando atenção a adultos, principalmente para o senhor Levi. Mais de um ano atrás, sua mãe contou que eles são NAMORADOS! Nossa, Leona se transformou num demônio. No dia, chorou e disse a Hange que, se ela queria tanto namorar, então Leona se voluntariava ao cargo. Hange riu até o estômago doer e foi correndo contar à Minnie "a coisa engraçada que a Bolinha disse".

Através de muito trabalho duro, Leona conseguiu controlar o ciúme. Afinal, apesar da cara de malvado, o senhor Levi era legal. As melhores piadinhas e palavrões vinham daquele homem de senso de humor peculiar, e de vez em nunca Levi fazia mingau para Leona. Sua mãe o adorava. A própria Leona gostava bastante dele. Estaria mentindo se afirmasse o contrário.

Por fim, aceitou Hange namorando Levi. Agora, só a imagem de sua mãe dando colo e beijos a outra criança deixava Leona à beira de um ataque de nervos. Nossa, ai do pobre coitado. Todavia, por outro lado, se conseguiu aceitar o senhor Levi, talvez fosse capaz de dividir a mãe com uma terceira pessoa. Claro, desde que sempre houvesse espaço para si entre os braços de Hange.

Enquanto Leona refletia, Micaela aguardava de pulsos na cintura. Martelava o pé ansioso no chão compassadamente e estudava a criança pensativa. Micaela se perguntava o que se passava na cabeça daquela menina baixinha e feia. Por fim, Leona declarou, modesta:

— Ainda acho que eu gostaria de ter uma irmã.

— Hah. Leva a Mirela com você e depois me diga.

Encontraram a tal Mirela perto da mesa de salgados. Mirela era idêntica a Micaela, com exceção da altura e do porte do corpo. A idade girava em torno dos nove. Mirela devorava um canapé, e para não dividir, o engoliu todo de uma vez antes das crianças menores se aproximarem. O jeito espontâneo de Mirela fez Leona sorrir. Sentiu afinidade de imediato. No entanto, a primeira impressão não se mostrou a definitiva.

— O que você quer, Micaela?

O tom ríspido era o de uma pessoa interrompida durante o trabalho.

— Brinca com a gente?

— Não. Você já tem a Leona. Brinque com ela. — Disse Mirela, indiferente.

— Huh? Você sabe o meu nome?

— É claro. Nosso papai falou sobre você e sua mamãe.

Leona analisou Mirela da cabeça aos pés. Até então, não tinha impressão negativa. Mirela não parecia nada maquiavélica. Serviria. Pegou a mão da garota mais velha e começou a puxá-la na direção onde deixara sua mãe e o senhor Levi para trás. Mirela trancou o salto no chão.

— Ei, o que está fazendo? — Surpreendeu-se Mirela.

— Você é minha irmã agora. A Micaela disse que vai dar você de presente para mim.

O queixo de Mirela caiu. Em segundos, franzia as sobrancelhas para a irmã verdadeira. Mirela cruzou os braços e encarou Micaela de cima.

— Quem te deu permissão para sair me oferecendo para os seus amigos?

— Eu mesma.

Mirela jogou a cabeça para o alto e fez uma reclamação exasperada. Em seguida, voltava-se para Leona.

— Ignore a minha irmã. Ela foi achada no lixo.

A boca de Micaela se abriu em "O". Ela pisoteou o chão e apontou o dedo indicador na cara da irmã mais velha.

— Vou contar para a mamãe que você está contando mentiras.

Apesar das palavras, a voz de Micaela carregava dúvida. Mirela respondeu que não era nenhuma mentira, e complementou a fala cruel perguntando a Micaela se ela lembrava da lata de lixo onde nasceu. Micaela disse que Mirela era uma megera, e Mirela rebateu a chamando de pirralha. Leona alternava o olhar pasmado entre as duas irmãs, acompanhando as ofensas. Após vários "achada no lixo", "mentirosa", "imunda" e "chata", ambas disseram em uníssono:

— Por que você me atormenta? Odeio você.

Puxa vida, chocou-se Leona, que meninas irritantes, vou comer a mãe delas para ver se param de brigar. Enjoada da chatice das duas, deixou as filhas de Nile discutindo e foi brincar. As irmãs continuaram o bate-boca, e os insultos se tornavam inaudíveis conforme Leona ganhava distância.

Aquele espaço do salão estava infestado de filhos de nobres e de militares. Os organizadores da festa trataram de disponibilizar brinquedos e contrataram babás a fim de garantir a segurança. Qualquer acidente acabaria com a reputação dos organizadores do evento. Leona avistou seis crianças brincando perto da janela e juntou-se a eles.

— Olá.

Leona invadiu a roda sem pedir permissão. Um garotinho deu espaço para a nova criança entrar. Ninguém contestou a presença de Leona – a forma confiante como inseria a si mesma em grupos sociais não admitia protestos.

As crianças combinavam a próxima brincadeira. Leona prontamente sugeriu soldado e titã. Contudo, nenhum deles conhecia o jogo. Pensou em mostrar, então lembrou de como foi com Micaela e desistiu. O garoto vestindo terno sugeriu brincarem de ninja. Esse mesmo menino tinha uma flor murcha decorando o bolsinho do paletó.

Quatro crianças incluindo Leona concordaram com a sugestão do garoto. A menina de laço vermelho no cabelo tomou a inciativa de colocar a mão no centro da roda. Os demais fizeram o mesmo. O Garoto da Flor gritou NINJA. As crianças pularam para trás e pararam imitando poses de artes marciais, imóveis feito estátuas.

Leona escolheu a melhor posição: os braços dobrados e rígidos na altura do peito, as mãos esticadas e paralisadas, preparadas para atacar. O alvo à sua esquerda era um garotinho gordo tentando se equilibrar numa perna só. O da direita era uma menina de olhos afiados.

Um menino com cara de coelho – dentuço, orelhudo e olhudo — atacou o Garoto da Flor. Contudo, Garoto da Flor escapou da pancada e deixou Cara de Coelho zangado. Cara de Coelho tentou dar outro golpe. A Garota do Laço o repreendeu dizendo que não era permitido investir duas vezes. Garoto da Flor tentou golpear a menina feia ao seu lado. Menina Feia escapou por pouco.

A brincadeira continuou. Olhos Afiados quase tirou Leona do jogo. Leona esfregou a testa e suspirou aliviada por ter sido rápida o bastante. Sair na primeira rodada é humilhante. De súbito, virou-se lançando a mão dura no garoto gorducho. Gordo ensinou a Leona que gordura não é sinônimo de lerdeza. O moleque se moveu feito um raio.

Continuaram brincando até Gordo tirar Garota do Laço da brincadeira. Iniciaram outra rodada. Leona gargalhava e suava a cada golpe. O Gordo era um ótimo jogador. Leona não conseguia derrota-lo por nada. A cada rodada, ficava mais competitiva. Em menos de meia hora, fez amizade com as seis crianças.

Então, a voz estridente da chatonilda da Micaela cortou a harmonia. Leona se surpreendeu ao vê-la acompanhada das duas irmãs. Micaela e Mirela vinham em passos rápidos, levantando o vestido para não pisar na saia. Miranda caminhava; a adolescente não parecia lá muito contente. Leona, achando que as meninas queriam participar da brincadeira, deu espaço na roda. No entanto, as garotas queriam encher o saco, não se divertir. Mirela deu um cutucão no ombro de Leona, e Micaela ralhava:

— Que maquiavélico! O que deu em você para sair sem avisar a gente?

— Vocês só queriam saber de brigar. Minha paciência tem limite.

Leona deu de ombros, nem um pouco preocupada. Sua mãe tinha dado permissão para brincar na festa; ia brincar na festa com ou sem as filhas de Nile Dok. Miranda alcançou o grupo. A adolescente deu um olhar duro à Leona. A menina não se intimidou. Não tinha feito nada errado.

— Não faça mais isso. Minhas irmãs ficaram preocupadas com você.

Miranda suavizou a voz ao proferir a segunda sentença, e essa mudança de timbre abalou o coração de Leona. A garotinha fez beiço, coçou a nuca e desviou o olhar por curtos segundos. Em seguida, virava a cabeça para pedir desculpas. E, enquanto se desculpava, Leona reparava no discreto volume no peito de Miranda. Leona já tinha visto seios, e não entendeu por que os de Miranda a atraiu. Tinha alguma coisa a ver com o conjunto heterogêneo — a cara de Miranda nada se parecia com a dos adultos.

Leona martelou o espaço entre o nariz e o lábio. A adolescente percebeu para onde a garotinha olhava e se desconcertou, cruzando os braços sobre o busto. Uma questão importantíssima passou pela cabeça curiosa. Leona perguntou, como quem fala sobre o tempo:

— Miranda, você mentua?

— HEIN!?

Miranda recuou, chocada tanto pelo teor da pergunta repentina quanto pela simplicidade com que Leona a proferiu. Mirela cobriu os ouvidos de Micaela; a garotinha mais nova se desvencilhou e xingou a irmã. Garoto da Flor, Cara de Coelho e Garota do Laço se entreolhavam. Olhos Afiados deu risada e Gordo sorriu de canto. Menina Feia disse:

— Mentua? O que é isso?

Leona começou a repetir a explicação dita por sua mãe.

— Mentuação é quando...

— Ei, fica quietinha aí. — Miranda alertou.

Leona não estava acostumada a ser censurada durante explicações. Nas raras ocasiões onde isso acontecia, acabava triste e chateada. Porém, dessa vez, não sentiu nada além de raiva pura. Já aturara o suficiente das meninas Dok. Leona jogou os braços para trás, avançou o peito na direção de Miranda e ergueu a cabeça.

— Se me mandar ficar quieta de novo, vou comer a sua mãe.

Miranda ficou sem fala. A maquiagem não escondeu a vergonha. Miranda não sabia se dava risada, corrigia, xingava, contava à Hange ou perguntava à Leona se ela entendia o que acabara de dizer. Enquanto isso, as crianças da roda apontavam para a adolescente e gargalhavam.

— Hahaha! A menininha vai comer a mãe dela!

Quanto às irmãs, Mirela tossia para esconder o riso. Micaela, sendo a principal advogada da irmã mais velha, gritou para os demais pararem de rir. Micaela apontou para Leona e desdenhou, exasperada:

— Essa garota é maquiavélica. Tentei ser legal porque nosso papai disse que ela não tem pai, mas é difícil quando a outra pessoa não quer colaborar.

Micaela permaneceu ralhando, no entanto, ao ver suas irmãs empalidecendo, desceu o dedinho devagar – soube que fizera algo errado. Até Mirela emudeceu. Leona ouviu as crianças atrás de si exclamando sílabas surpresas. Não compreendeu o porquê de eles estarem tão chocados, e nem queria se preocupar com isso agora. Tinha assuntos a tratar com as filhinhas de Nile.

Em primeiro lugar, Leona não precisava de esmolas. Sabia fazer amigos, e na falta deles se divertia sozinha. Em segundo lugar, não dava a mínima para o que o papaizinho Dok pensava. E em terceiro lugar, por que todo mundo trazia o assunto PAI a tona quando falavam sobre a sua pessoa?

— Ora, não pedi para vocês andarem comigo.

As outras seis crianças criaram uma multidão na frente de Leona. Estupefatas, a olhavam como se Leona fosse uma aberração da natureza.

— Você não tem pai mesmo? — Perguntou Cara de Coelho.

— O meu pai morreu. — Leona começava a perder a paciência.

— E mãe, você tem? — Gordo parecia a beira das lágrimas.

— Tenho.

— Como é viver só com a mãe? — Garota do Laço questionou.

De fato, as pessoas na Capital são diferentes. Todos naquela rodinha tinham pai. Na opinião deles, Leona era um ser de outro planeta. Em contrapartida, também eram bizarros para a menina. Leona abriu a boca para responder que sua mãe era a pessoa mais perfeita do mundo, contudo, Micaela a interrompeu enfiando-se entre a plateia.

— Você sente falta dele? Eu queria tanto perguntar isso.

Num primeiro momento, Leona ficou aturdida. Ninguém jamais perguntou isso antes. Apesar da surpresa, não levou dois segundos para enxergar o absurdo na questão apresentada. Sentia falta do pai? Poxa, sequer o conheceu.

— Como você é burra. Como vou sentir saudade de alguém que eu não conheço?

— Não me chama de burra!

— Então o seu pai morreu antes de você nascer!? — Mirela cobriu a boca. — Minha Santa, pobrezinha.

— Crianças, vamos parar de falar sobre isso.

Miranda não precisou remediar a situação porque Leona a terminou. A garotinha saiu empurrando todo mundo.

— Poxa, vocês só querem conversinha. Cansei. Vou brincar.

As crianças foram atrás dela. Temos mais perguntas, por favor. Miranda colocou a mão no ombro de Leona e tentou fazê-la ficar, pois ela e as irmãs eram responsáveis por sua segurança. Leona sacudiu os ombros e seguiu impassível, com os demais em seu encalço.

Então, o senhor Levi apareceu.

A expressão severa paralisou as crianças. Os semblantes antipáticos já eram comuns à Leona. Não sentia um pingo de receio em aproximar-se dele, ao contrário dos outros, que conheciam Levi apenas por histórias de guerra. Recuaram feito cachorrinhos encurralados. Não falavam palavrinha. Pareciam amedrontados, principalmente Miranda. Embora desconhecesse o motivo da mortificação, Leona ficou grata por terem parado de atazana-la.

— Oi, senhor Levi.

— Vem, sua mãe está chamando você.

Leona concordou de bom grado e saiu andando na frente do capitão. Por isso, perdeu de ver o olhar congelante que Levi deu às outras crianças, as fazendo engolir em seco. O capitão alcançou Leona em seguida. Andaram lado a lado em silêncio por algum tempo até a menina iniciar a conversa.

— Não gostei da Micaela e das irmãs dela. Elas disseram que só foram legais comigo porque eu não tenho pai. Senhor Levi, não quero que as pessoas sejam legais comigo se for assim. Não sou... não sou... — Leona forçava o cenho buscando a palavra correta — não sou uma pobrezinha, igual a Mirela me chamou.

Leona não parecia magoada, apenas revoltada. Caminhava a passos duros ao lado de Levi. O capitão suspirou. Assim como Leona, ele também não conheceu o próprio pai. Não sabia se o homem estava vivo, morto, doente, saudável, casado, solteiro ou vivendo na rua. E nem queria saber.

— Eu também não conheci o meu pai.

— Huh? É mesmo, senhor Levi?

— Sim.

A garotinha sorriu, surpresa e interessada. O senhor Levi mirou um ponto distante no salão, refletindo sobre o assunto. Depois, abaixava o rosto frio para Leona e dizia, no sutil tom de piada que quase não distingue da voz inexpressiva:

— Você foi muito educada. Sempre que alguém me pergunta sobre o meu pai, eu mando a pessoa ir tomar no cu.

Leona gargalhou. Os olhinhos castanhos cintilaram de admiração. O senhor Levi não era de falar, portanto, vê-lo dividir um pouquinho do próprio passado consigo a fez se sentir importante. Além disso, acabara de descobrir uma característica em comum entre ela e o capitão ranzinza por quem sua mãe se apaixonara. Leona foi preenchida pelo sincero sentimento de companheirismo; aquela sensação gostosa de não estar sozinha no mundo.