Notas iniciais
Olá, bom estar de volta! Antes do capítulo, quero contar uma historinha: Em 2019, escrevi um texto sobre um paciente branco menosprezando um médico negro. Fiz o conto do ponto de vista do paciente. Ao longo do texto usei termos como “incapaz”, “lugarzinho sujo”, fiz o paciente questionar o diploma do médico dentre outras atitudes, e só fui falar que o médico era negro na última frase do conto. Quando terminei, li, saí, voltei, reli, revisei uma porção de vezes e, no fim, descartei. As coisas que coloquei me pareciam absurdas demais, beirando o impossível. Só que, meses depois, uma página postou o desabafo de um médico negro sobre uma situação desconcertante no trabalho, fui ler a matéria e me deparei com A EXATA MESMA COISA que eu tinha escrito naquele conto, até as frases da paciente eram parecidas. Quando terminei esse capítulo, passei pela mesma situação. Na revisão, gargalhei de descrença, pensando “que negócio lixo, jamais fariam uma coisa dessas”. Mas, a situação daquele médico negro me ensinou uma lição: não duvide da perversidade humana. Sendo assim, gostaria de avisar que muitos aqui podem e vão achar esse capítulo uma completa besteira, e eu entendo. Mas, não pensem que é impossível, ou que já não tenha acontecido com alguém aí fora. Enfim, esse capítulo é bem agressivo. Nos vemos nas notas finais.

A desistência é o ato de abdicar ou abandonar alguma coisa. Nós desistimos do nosso emprego quando pedimos demissão. Desistimos do nosso diploma de jornalista quando trocamos a faculdade de jornalismo por enfermagem no último período antes da formatura. Desistimos do nosso casamento quando nos divorciamos. E desistimos de um aborto quando resolvemos ter um bebê.

Uma grande quantidade de pessoas sinonimiza desistência com fraqueza. Esses mesmos sujeitos endeusam trabalhadores exaustos, estudantes desequilibrados, casais infelizes e mulheres atormentadas; e menosprezam desempregados libertos, calouros na graduação desejada, divorciados contentes e mães.

Esse pensamento mostra falta de empatia e transparece uma espécie de complexo de grandiosidade por parte de quem o reproduz, por acreditarem que a desistência é o reflexo de uma personalidade desleixada. Todavia, a desistência nem sempre vem acompanhada de fragilidade e comodismo. Na verdade, a renúncia é um processo doloroso e complicado, alguns levam muito tempo para desenvolver a coragem necessária para desistir, e outros nem o fazem. Basta você olhar para os lados para ver funcionários presos em empregos que detestam, estudantes seguindo uma graduação que não lhes é satisfatória, casais arrastando relações e grávidas estressadas.

Abandono nem sempre é ruim. No momento em que você desiste, você está largando aquela responsabilidade que vinha lhe destruindo. O alívio pode parecer estranho ou ser imediato dependendo do nível de tormento em que você se encontrava, mas uma coisa é certa: você pode vir a concluir que a sua vida melhorou sem aquele compromisso, e se você pensar assim, é porque desistir era de fato a opção sensata para o seu caso.

No de Hange, a desistência veio após mais de uma semana de reflexões, monólogos e pesadelos, e se você perguntar como ela se sentiu vendo os medicamentos indo para o esgoto, ela responderá que a loucura, o sentimento de culpa, a infelicidade e a contrariedade foram lavados pela água. Pela primeira vez desde que descobriu a gravidez, as coisas estavam em seus devidos lugares. Era como se a vida até aquele momento fosse um quebra-cabeça simples que não podia ser montado pela falta de uma única peça que acaba de ser encontrada em baixo da bunda do montador.

Hange ainda não sabia se a decisão tomada era o caminho correto, e talvez nunca soubesse. Quando você atinge uma certa idade, você descobre que a maior parte dos problemas adultos não possui resoluções fáceis onde os conceitos de “certo” e “errado” são bem definidos, e a vida te ensina uma pergunta curtinha lotada de significados: e se?

E se eu largar o meu emprego? E se eu trocar de faculdade? E se eu me divorciar? E se eu ter esse bebê?

Sendo assim, não existe “certo” ou “errado”, apenas consequências. Abortar não era a decisão errada, tampouco a correta, e o mesmo se aplicava a manter a gravidez. No fim, Hange ponderou entre os frutos e danos de ambas as decisões e resolveu seguir o caminho que mais parecia sensato para a sua situação. Ela tinha condições financeiras e julgava possuir as mentais também. Em outras palavras, escolheu ter a criança porque, já que estava grávida, as consequências de ter um filho lhe eram melhores do que as de cortar a gestação.

Quando a banheira esvaziou, a comandante saiu rindo de alívio e alegria plena, longe das gargalhadas delirantes do enterro. Ainda sorrindo, aconchegou-se em baixo dos cobertores pesados e macios, nua. Hange passou boa parte da noite afagando a barriga e conversando com o bebê lá dentro, o qual finalmente pôde reconhecer como filho. Ao adormecer, teve um sonho doce com casaquinhos vermelhos que foi esquecido pela manhã.

XXX

Seja o término do relacionamento, o pedido de demissão ou a troca de faculdade, você pode pensar que a melhor alternativa é manter segredo sobre uma decisão recente – para evitar que pessoas tentem convencê-lo a insistir em algo que lhe faz mal, por exemplo. Hange continuou fazendo segredo sobre a gravidez por uma série de motivos, e o principal deles era a Capital.

Claro, era de se esperar que os soldados mais próximos já estivessem certos sobre a situação da comandante, no entanto, eram seus colegas de trabalho, conviviam com ela todos os dias, diferente da Capital. Os generais da muralha Sina não a viam desde a última reunião, que aconteceu quando a comandante usava faixas no lado esquerdo do rosto, por isso, só sabiam dos boatos, não a coisa toda. É aquele velho ditado: não basta encontrar o gato morto com marcas de mordida de cachorro, você precisa pegar o cão com o gato na boca. A situação de Hange era delicada, portanto, precisava cuidar para não ser pega com o gato na boca ou seus planos iriam pelo ralo junto com a medicação para aborto.

Sendo assim, a comandante continuou escondida atrás das escrivaninhas, usando sobretudo e passando maquiagem. No tempo livre, planejava a reunião e seus possíveis desdobramentos.

Primeiramente, estariam lá: a Polícia Militar, a Tropa Estacionária, a Tropa de Exploração, general Darius Zackly e general Weber, e a rainha. De todos esses, o que mais a preocupava era Weber. A comandante sabia que a fama dele não era muito boa entre as divisões, mas seu nome tinha peso. Dessa maneira, a palavra do homem, muitas vezes, era o veredito.

Voltando ao assunto do cachorro e do gato, não se pode excluir a ideia de o cão da casa ser o culpado da morte do felino. Pensando por esse lado, Hange não podia formular seu discurso contando com o apoio de Darius Zackly. Esse prospecto a deixava chateada, pois Zackly era um conhecido de longa data. No entanto, não devia se dar ao luxo de esperar misericórdia, pois a única pessoa que poderia dar apoio estava morta. A responsabilidade do bebê era toda de Hange, e apenas ela estaria lá para defende-lo.

XXX

Hange desceu da carruagem carregando uma pasta de papéis em baixo do braço. O capitão Levi veio logo atrás. Das outras carruagens saíram os demais membros da Tropa de Exploração, sete soldados de quinze anos.

Chegaram com meia hora de antecedência a pedido da comandante. A sala estava vazia quando os nove militares entraram, e a cientista prontamente se colocou atrás da mesa que lhe era designada. A Tropa Estacionária foi a segunda divisão a chegar. Pixis cumprimentou Hange com um aceno e foi sentar-se com seus dezesseis subordinados. Nile Dok chegou pouco depois, trazendo vinte policiais. Demorou cinco minutos para a rainha e os generais chegarem.

— Levi. — Ela sussurrou.

— Sim? — Ele sussurrou de volta.

— Aconteça o que acontecer, não diga nada.

As coisas correram normalmente na primeira hora. Quando um militar tomava a palavra, precisava falar em pé, e o barulho de cadeiras arrastadas quebrava o fluxo da conversa. Pixis e Nile, responsáveis pela muralha e a população, debatiam propostas que não eram do departamento da comandante. Mesmo assim, ela levantou a mão algumas vezes para dar sugestões, e em todas recebeu encaradas invasivas.

Por fim, chegou o tempo designado para a Tropa de Exploração apresentar suas propostas, e Hange deixou a papelada na mesa ao levantar. O olhar de Zackly desceu para a barriga da oradora e subiu rapidamente.

— Então, comandante Hange Zöe, o que tem para nós?

— Bom, general Zackly, primeiramente, não é possível fazermos expedições com o número limitado de soldados que temos.

Apenas nove soldados sobreviveram a Shiganshina. Todos os outros militares vistos no quartel-general da Tropa de Exploração eram recrutas emprestados da Tropa Estacionária que não tinham experiência de batalha em campo.

— Além disso, como o senhor sabe, o inverno está chegando. A neve atrapalha os cavalos, as carroças e a nós também. Por isso, resolvi suspender as missões durante os próximos meses. Em vez de viajar, vamos continuar usando os carrascos diabólicos para matar titãs. Como os monstros seguem a presença humana, calculo que a maior parte deles, se não todos, está dentro da muralha Maria, portanto, imagino que vamos conseguir eliminá-los antes do inverno terminar.

“Pretendemos dar continuidade aos experimentos científicos. O Titã Colossal é uma arma poderosa, mas ainda há muito para sabermos, e a eficiência dele em climas frios é um dos fatores que precisamos testar. O mesmo vale para o Titã de Ataque. Além disso, temos planos de capturar três ou quatro comuns para realizar outras experiências necessárias.”

“Por enquanto, sou eu quem comando as pesquisas científicas, mas, com a promoção que recebi, entendo que não serei capaz de dar conta de tudo – por mais que me doa sacrificar minha paixão. Já estamos procurando por um pesquisador científico interessado em titãs para trabalhar conosco. Esse cientista vai me acompanhar nos primeiros experimentos e assumir a liderança na próxima estação.”

Levi, imóvel em sua cadeira, olhando para o emblema nas costas da comandante, duvidava muito que Hange fosse deixar a ciência da Tropa de Exploração totalmente nas mãos de outra pessoa. Ele estava certo, diga-se de passagem.

— De resto, nossos objetivos são reestabelecer nossa divisão. Mês que vem haverá uma nova turma de formandos interessados em entrar para o nosso exército, esses recrutas serão devidamente avaliados e designados para funções de acordo. Quanto aos planos para a primavera, temos como principal objetivo encontrar o oceano e a plataforma onde os soldados de Marley executam eldianos. Também pretendemos mapear nosso terreno total e procurar possíveis ameaças. Isso é tudo.

Como boa oradora, a comandante falava em alto e bom tom sem gaguejar, seu olho mirava os generais e a rainha sem contato visual e colocava o máximo de assertividade possível. O escriba transcrevia cada uma das palavras e o general Weber fazia suas próprias anotações. Zackly, sentado à esquerda da rainha, ouvia tudo com atenção, assentindo nas vezes que Hange parava para respirar.

— Você tem alguma observação, Weber?

— Nenhuma.

Zackly olhou para os outros dois comandantes. Pixis e Nile balançaram a cabeça. Hange, a única em pé, teve todas as atenções mais uma vez. Parada com as mãos atrás da cintura, não se deu ao trabalho de sentar, pois a expressão de Zackly não indicava o fim da reunião. O general limpou a garganta antes de falar, e de longe Hange percebeu a falsidade no sorriso pequeno.

— Bem, Hange, gostei bastante das suas propostas, não tenho nenhuma objeção. – Ele fez uma pausa curta. – Aliás, se me permite dizer, assumir o comando mudou você, huh? Você está mais séria, mais centrada, mais... bem...

— Gorda?

Hange interrompeu, arqueando a sobrancelha. Os outros militares, incluindo os generais, deram uma baixa risada quase em uníssono, e Zackly esfregou o pulso nos olhos por baixo dos óculos antes de continuar numa voz delicada e receptiva.

— Bem, eu não diria exatamente gorda, comandante. Nós ouvimos alguns boatos sobre você e queríamos tirá-los a limpa. Você está grávida?

Começou.

Após noites e dias de planejamento, a comandante concluiu que não podia vacilar, atacar e muito menos ficar na defensiva. Precisava ser centrada e se fazer clara com o máximo de compostura possível. Ela ergueu a cabeça na direção de Zackly, e disse:

— Sim, estou.

Expressões de espanto e palavrões cabeludos tomaram conta do ambiente. Os militares trocaram olhares com os companheiros da respectiva divisão, e até os soldados da Tropa de Exploração estavam assombrados por mais que já suspeitassem da gravidez. Armin, por exemplo, estava branco feito papel, e o queixo de Connie por pouco não encostava na mesa. A rainha Historia, entre Zackly e Weber, ficou pasma em seu assento real.

O sorriso amigável do general Zackly desapareceu. Seus olhos continuaram firmes em Hange, e ela lutou contra aquele olhar e todos os derivados por toda a reunião.

— Bom, parabéns.

Darius Zackly entrelaçou os dedos a frente do rosto, fechou os olhos atrás dos óculos e suspirou. Quando resolveu falar, suas palavras condescendentes atingiram Hange com mais força do que ela esperava.

— Mas, você mal assumiu o posto... e já resolveu engravidar?

Os homens sentados ao redor murmuravam, o semblante da maioria denunciando opiniões desdenhosas. Nile Dok cruzou os braços sob o peito e olhava para Hange com desaprovação. Até Pixis parecia decepcionado. A comandante da Tropa de Exploração ignorou a todos, mantendo-se focada em Zackly.

— Eu sou humana, general, as pessoas erram.

— Mas só fazem cinco meses, devia pensar nas suas obrigações antes da vida pessoal.

— Eu já estava grávida quando o Erwin faleceu.

Para isso, Zackly não tinha uma resposta. O homem recostou as costas no encosto da cadeira, suspirando enquanto buscava o olhar do homem sentado à direita da rainha. Historia abriu a boca e foi interrompida rapidamente pelo general Weber, que ergueu a mão para que ela ficasse em silêncio – eles eram o chefe de Hange, não ela. A cientista permaneceu imóvel com as mãos estendidas ao lado do corpo, controlando-se para não fechar os punhos ou mostrar qualquer gesto que expressasse fraqueza ou raiva.

O general Weber, que tinha uma aliança de casamento no dedo anelar, fez uma pergunta peculiar.

— Bom, o que vamos fazer sobre isso?

A mulher tratou de esfriar a cabeça antes que esquentasse demais. O militar falava da como se fosse problema deles, não único e somente dela. Entretanto, por mais injusto que fosse, o melhor a fazer era rolar com as patinhas pra cima, não podia perder o controle ou acabaria perdendo a batalha também.

— Com quantos meses você está? — Zackly perguntou.

Ela entendia muito bem o significado obscuro dessa pergunta, e ele ter feito essa proposta tão espontaneamente a assombraria pelo resto da vida. Hange achava que Darius Zackly fosse um homem decente, e agora percebia que estava enganada. Isso a fez recordar o ditado que a mãe lhe ensinou na mesma tarde em que descobriu a verdadeira natureza do marido:

“Hange, lembre-se: se um dia você ver um amigo seu fazendo maldades com alguém, fuja, pois ele tentará fazer o mesmo com você.”

Erwin contou sobre o instrumento de tortura que Zackly criara para os nobres. Segundo o falecido comandante, o aparelho era uma coisa horrível digna de peças de terror, e Darius aplicara a punição sádica nos ricos com o mais exímio deleite, sem jamais mostrar remorso. A própria Hange havia torturado pessoas durante o golpe militar, porém, não sentiu prazer algum na prática e desejava não precisar fazer de novo nunca na vida, enquanto Zackly, ao que tudo indicava, não pensava da mesma maneira. Aquele mesmo homem que lutou com eles estava lá, acima dela tanto na patente quanto em localização, escondido atrás de uma larga plataforma, oferecendo um aborto.

— Vinte semanas.

Ela era obrigada a fazê-lo falar com todas as letras, para que todos os presentes ouvissem e assim Zackly não pudesse fingir o contrário. O olhar do general ficou vago de repente, provavelmente convertendo as semanas para meses. Hange deu de ombros. Problema dele.

— Entendo. Bom, você concorda que essa gravidez vai atrapalhar as suas obrigações?

— Sim, general.

— E você entende que precisamos muito de você, não?

— Sim, general.

— Ótimo. Venha na minha sala depois para eu te passar o endereço de um médico muito bom.

— Eu já tenho um.

O general identificou a clara falsidade na expressão inocente de Hange. Então, estreitou os olhos para os outros homens no recinto, avaliando a postura de cada um. O olhar de Zackly alternou do outro general para os policiais, para Pixis e até para Levi, pouco encarando Hange apesar dela manter o único olho fixo para cima, direto em sua direção.

— Estou oferecendo um procedimento seguro para contornarmos a situação.

— General, eu não vou abortar.

Zackly recuou em sua cadeira e Hange quase se arrependeu da resposta direta com as devidas ênfases nas palavras “não” e “vou”. Ela escondeu o ressentimento com maestria, mantendo a postura rígida. Mikasa e Armin murmuraram alguma coisa atrás de suas costas e foram ignorados.

— Tem certeza? Você viu o inferno de perto, quer mesmo que o seu filho nasça num mundo como esse?

A resposta da comandante foi interrompida pelo barulho alto de uma cadeira sendo arrastada e ela deu um pequeno sobressalto quando a voz aguda e furiosa de Eren dominou o ambiente tenso.

— QUE PODER DE DECISÃO O SENHOR TEM SOBRE A VIDA DOS OUTROS!?

Agora ela entendia o porquê de Armin e Mikasa estarem murmurando. O garoto loiro tentou fazer Eren sentar, mas o rapaz o empurrou e continuou gritando, batendo com as mãos abertas na carteira e avançando o peito para frente, vociferando na direção do palanque dos generais.

— COMO PODE QUERER ASSASSINAR UM INOCENTE? O SENHOR PENSA DESSE JEITO PORQUE O SENHOR JÁ NASCEU! O BEBÊ DA COMANDANTE TEM TANTO DIREITO DE VIVER NESSE MUNDO QUANTO QUALQUER UM!

Hange olhou-o por cima do ombro, atônita. Sentiu vergonha alheia pelas atitudes enérgicas do garoto, e um pouco de frustração também. Eren só queria ajudar, no entanto, tinha o pressentimento de que ele não a apoiaria tão fervorosamente caso a situação fosse contrária. No fim, só reforçava a visão óbvia: todos ali achavam que tinham direito de opinar sobre seu corpo. Os outros soldados ficaram mudos, correndo entre Eren e o general que se preparava para responder, entretanto, a comandante o fez primeiro.

— Eren, não se intrometa.

O garoto, surpreendido pela súbita repreensão, cedeu contrariado. Mikasa sussurrou alguma coisa que não surtiu efeito, pois o adolescente virou o rosto para o outro lado e protestou. Hange voltou-se para Zackly outra vez, antes dando uma rápida espiada na direção de Weber.

— Eu pensei muito sobre o assunto e decidi que vou ter o bebê.

— Então, você pretende dar a criança para os seus pais, presumo?

— Não.

— Orfanato?

— Não. Eu mesma vou criar essa criança.

Zackly, que tinha começado a fumar um cachimbo, largou-o na mesa ainda aceso e buscou o apoio do outro militar. Historia estava claramente desconfortável entre os dois homens, querendo fugir. Hange, por outro lado, não demonstrou sinal de medo ou renúncia, tão inflexível quanto os homens; só o ato de mencionar o filho aflorou o instinto primitivo de proteção, e a selvageria era sutil na face impassível.

Do lado esquerdo da sala, Pixis pigarreou e ergueu a mão. Recebendo permissão para falar, o comandante da Tropa Estacionária ficou em pé, com as mãos atrás da cintura e os olhos tranquilos quase fechados.

— Posso dar uma sugestão, general? E Hange, claro.

“E Hange, claro.”

A comandante aquiesceu. Darius colocou o cachimbo na boca e tragou.

— Vá em frente.

— Que tal mandar a criança para a fazenda da rainha? Ela estará aos cuidados de ótimas pessoas, e Hange poderá visita-la sempre que quiser. Você aceitaria o filho da comandante, vossa majestade?

Disse Pixis num tom delicado, sorrindo. A expressão contente de Historia, no entanto, sumiu quando encontrou o rosto indiferente de Hange. Ela perdeu o fio da meada e acabou gaguejando.

— S-Sim, com certeza.

Frases e manifestações de concordância foram proferidas junto com acenos de cabeça, afinal, a proposta de Pixis era, com certeza, a melhor saída. O bebê ficaria em segurança e Hange poderia exercer sua função de comandante normalmente. Sim, perfeito, todos de acordo? Não, Hange não estava de acordo. Sua decisão prevaleceria de uma forma ou de outra, ah, ela seria ouvida, nem que precisasse matar. O posto de comandante lhe pertencia, o corpo era seu e o bebê também.

— Vossa majestade, comandante Pixis. Eu agradeço, mas não vou aceitar.

Alguém do lado da Tropa Estacionária deixou escapar um indignado “ai meu santo amado” alto demais, e nisso mais vozes foram levantadas ao mesmo tempo e começaram a discutir entre si. Zackly permanecia com a expressão centrada, mas Hange reparou que ele chupava o cachimbo com certa inquietação. Que engraçado, até ontem era proibido fumar naquela sala.

O general Weber esbravejou pedindo silêncio. Os soldados se calaram ao som do comando, imóveis feito estátuas. No entanto, alguém do lado da Policia Militar não foi capaz de controlar a língua a tempo, e todos os presentes, incluindo Hange, pegaram o finalzinho do diálogo:

— ...pra essa cadela no cio.

A voz grave de Zackly se sobrepôs à do policial desconhecido.

— Não estou vendo uma aliança. — Ele apertou os olhos. — Você terá a ajuda do pai?

— O pai faleceu, sou só eu.

Esse foi o ponto alto da discussão. Historia cobriu a boca aberta, Nile Dok se remexeu na cadeira, Pixis tossiu, Weber trocou um olhar divertido com o escriba e os adolescentes conversavam num tom não muito discreto. Os únicos firmes eram Hange, Zackly e o inexpressivo Levi, que tal como a comandante pediu, não tomou partidos.

— Comandante Hange, o pai dessa criança é um dos soldados mortos em Shiganshina?

— Sim.

— Qual o nome desse soldado?

— General, peço desculpas, mas minha vida pessoal é assunto meu.

As palavras soaram destemidas apesar de todo o seu corpo tremer por baixo do casaco, desejava não ser necessário usar o nome de Erwin, queria sair sem envolver ninguém além de si mesma. O bebê, inquieto com os batimentos cardíacos da mãe, chutava violentamente. Hange não podia confortá-lo e isso a deixou furiosa.

Agora, o general Weber, de cenho franzido, abria a boca transparecendo irritação, porém, Hange conseguiu ver a sombra de um sorriso mesquinho atrás dos lábios molhados. Era o sorrisinho de alguém encontrando graça na crueldade, um ser humano gostando de ver outro apanhar.

— Bom, isso deixa as coisas piores ainda. Olhe bem para a sua posição, comandante Hange Zöe, como você vai exercer suas funções e cuidar sozinha de uma criança?

Weber deu uma ênfase desconfortável no nome completo da cientista. Ao responder, o fez para todos no recinto.

— Senhores, entendo suas preocupações com a Tropa de Exploração. Eu terei a criança e continuarei me dedicando de corpo e alma para a divisão. Sou capaz de fazer as duas coisas.

Ela não ia quebrar o juramento ao exército e não se importava de reforçar essa verdade quantas vezes fosse necessário. O general Weber esfregou as têmporas com ambas as mãos e desdenhou:

— Os boatos sobre você são verdadeiros. Você é completamente louca, não pode ter a cabeça no lugar.

Hange, que havia ficado fora de si ao ponto de não reconhecer o próprio reflexo – algo que nunca havia lhe acontecido antes – e passado pelo inferno da loucura sem o conhecimento de ninguém, teve vontade de rir diante a ironia apresentada pelo general, e as gargalhadas saíram diminutas num sorriso diplomático.

— Ao contrário, general Weber, minha cabeça nunca esteve tão lúcida.

A réplica foi direta, e ela tratou de encarar Zackly e os outros comandantes, para que não duvidassem de sua palavra. Os generais não pareciam impressionados. Darius recolocou o cachimbo sobre a mesa, e sua face incomodada caiu sobre Hange de uma vez só. Ela prendeu a respiração, preparada para o golpe.

— Se quer saber a minha opinião, acho isso um tremendo egoísmo da sua parte. Você, ocupada com o exército, expedições, ciência, titãs, ter uma criança, e ainda sem pai? Não consegue enxergar a vida miserável que esse bebê vai ter?

Por dentro, a comandante gritava. Por fora, permanecia firme como esteve desde que a discussão começou, a face voltada para cima, inabalável, as mãos aos lados do corpo e o volume em baixo do casaco projetado na direção dos generais. Podiam falar o que bem entendessem e apresentar todas as evidências possíveis para sustentar os argumentos, a decisão de Hange era indubitável. Não a deixariam confusa nem conseguiriam convencê-la a desistir da gravidez. Não mesmo.

— Como eu disse, tomei essa decisão após uma longa reflexão. O meu bebê pode não ter pai, mas terá a mim. Já o senhor, e todos aqui, podem procurar meu histórico na Tropa de Exploração. — Franziu as sobrancelhas, desafiando-o. — General Zackly, o senhor sabe que nunca deixei de cumprir meus compromissos, e também sabe o quanto me esforcei para que as coisas fossem corretas. Não preciso provar o meu valor.

Silêncio. As narinas de Zackly dilatavam feito um boi enfurecido, estudando-a da cabeça aos pés. Hange suportou o julgamento com bravura. Então, por fim, o general suspirou e deixou-se relaxar na cadeira. Por um breve segundo o coração de Hange se encheu de esperança, mas foi tomado pelo desespero quando Darius respondeu, mansamente:

— Muito bem, comandante Hange, tomara que o seu bebê venha com bastante saúde. Quanto à Tropa de Exploração, você continua no posto até o último mês de gestação e aí substituímos você temporariamente, resolvido?

O estômago congelado foi parar no peito. Esse “temporariamente” não tinha nada de temporário. Pretendiam usá-la até a última gota e aí descarta-la, e tudo por quê? Por causa de uma escolha que ela tomou sobre o próprio corpo. Odiando perder com as cartas em jogo, foi acometida pelo impulso de humilhar-se gritando súplicas sem sentido, pedir por favor e chorar. A saliva desceu pela garganta seca. Tinha um curinga na manga que não queria usar, mas precisava.

— Não haverá necessidade de me substituir. — Ficou surpresa pela voz não fraquejar.

— Ah, é? Não é fácil trabalhar com uma barriga enorme, Hange, nem com um bebê no colo.

— General, preciso lembra-lo de que o comandante anterior me nomeou em vida?

— Ninguém aqui está indo contra a decisão do Erwin.

— Se você o estima tanto, por que quer me substituir, se foi ele quem me promoveu?

A expressão de Zackly ficou subitamente perigosa. Ele entendeu a acusação escondida nas entrelinhas — que bom, a queixa estava lá justamente para ser vista. Historia sentiu a vibração e endureceu na cadeira, nervosa mesmo que não fosse o alvo da briga.

— Além de ser um grande desrespeito com a decisão do Erwin, o senhor quer me fazer escolher entre o meu trabalho e o meu bebê, que também é o último legado desse homem que trouxe a verdade ao povo eldiano.

Nile Dok ergueu-se com um sorriso idiota nos lábios. Pixis engasgou com a própria saliva. Zackly quase derrubou o cachimbo no chão. Os adolescentes às suas costas eram bocas abertas dispostas em carteiras. A rainha Historia pulou em sua cadeira real, mirando Hange com expectativa ansiosa. Weber empalideceu.

— A criança é do Erwin?

Quando brigas violentas acontecem em lugares aonde todos se divertiam e nada poderia dar errado, isso se deve à euforia dos envolvidos. Imagine um touro galopando e coiceando o ar. É difícil controlar um animal assim, não? O mesmo acontece com o cérebro humano agitado. Uma cabeça frenética dificilmente é acalmada, e para piorar, nossa mente tem o cruel poder de transformar alegria em agressividade num piscar de olhos, e é por isso que tantas comemorações terminam no hospital.

No entanto, com o estímulo correto, o contrário também é possível, e o clima de festa que tomou conta do palácio era o exemplo perfeito disso. A inflexibilidade foi transformada em assobios de aprovação, os generais outrora intransigentes ficaram desorientados e, Hange percebeu repulsivamente, contentes. Quando era somente ela, haviam mil espadas apontadas em sua direção, e foi só tocar no nome de Erwin que os portadores das armas abriram as pernas.

— Por que não contou?

Porque a minha vida pessoal não é domínio público.

— Eu não queria envolver ninguém.

— Certo, entendo.

Estava claro que o general não queria mais discutir. Hange venceu – não, Erwin venceu.

— Minha Santinha, o Erwin ia ser pai...

Nile Dok estava aturdido em sua cadeira, segurando o próprio rosto sorridente com ambas as mãos. Legal, muito interessante. Torceu a cara a reunião inteira, e agora que sabia a identidade do pai, agia desse jeito, derretido por uma criança que sequer nasceu. O clima mudou de tensão para felicitação, e Hange era incapaz de sentir-se mais enojada, pois até após ao aceitarem a criança, ignoravam o seu bem-estar.

Agora vão me fazer parir nem que seja na base da violência.

— Bem, vamos deixar esse assunto pendente por enquanto, sim? Mande notícias e vamos avaliando qual é a melhor opção.

Não é preciso ser bom entendedor para compreender que aquele tópico não seria levantado novamente. Aquele bando de homens a deixaria livre para fazer o que quisesse sem o perigo de perder o emprego. Entretanto, é claro, precisou usar o nome de outra pessoa – o nome de um homem — para conquistar tal direito, e isso a deixava tão nauseada que era capaz de vomitar ali mesmo.

XXX

A discussão sobre o futuro de Hange deu fim à reunião. Uma porção de soldados ficou para parabenizar a comandante pelo bebê, o que fez Hange demorar o dobro do tempo para arrumar os papéis na pasta. Quando, por fim, conseguiu sair da sala de reuniões, foi parada por pelo menos quinze recrutas no caminho para a saída do castelo, e Hange respondeu cada um cordialmente. Levi andava em seu encalço, silencioso e mordaz feito um cão de guarda.

O corredor para a porta do palácio ficava cada vez mais e mais comprido conforme avançavam. Hange, não mais suportando aquele ambiente malicioso, apressou o passo ao avistar a rua atrás da larga porta aberta. O capitão de pernas curtas fez o mesmo, quase trotando para acompanha-la.

Ao alcançarem o jardim, Hange puxou o ar pela boca sem parar de caminhar. O transe começava a esvair, porém, antes de ganhar a liberdade absoluta, precisaria passar pelos três militares postados no portão. O uniforme dos homens estava impecavelmente passado, e a imagem bordada nas costas era o desenho de um cavalo.

— Comandante Hange!

Nile Dok acenou para chama-la. Como o policial estava entre ela e o portão, Hange se viu obrigada a parar. O capitão moveu o rosto insosso na direção da estrada e a comandante respondeu abrindo a mão rente ao lado do corpo, sem haver necessidade de erguê-la.

— Comandante Nile Dok, tudo bem?

Sorrindo, Hange estendeu a mão para apertar a de Nile num cumprimento-meio-tchauzinho. O outro comandante apertou-a impacientemente, não escondendo o interesse por uma parte especifica do corpo da cientista. Hange, desconcertada com aquele olhar babão encarando-a tão direta e indiscretamente, preferiu engolir o incômodo a manifestá-lo.

— Não posso acreditar que o bebê é do Erwin, nunca pensei que aquele cara ia querer filhos!

— Hehe. Quem diria, não?

Hange coçou a nuca e olhou o céu, sem a mínima vontade de contar a verdade e cansada demais para mentir. Já tinha exposto a vida pessoal o suficiente para uma tarde. Do mais, que diferença faria na vida de Nile?

As pupilas do moreno parado centímetros atrás da comandante ficaram minúsculas quando ele arregalou os olhos cinzentos. Hange, langorosa pelo súbito acontecimento, ergueu os braços rígidos à altura do peito e inclinou o tronco inconscientemente tentando afastá-lo do homem abaixado. Nile havia colocado as mãos nela, uma de cada lado do abdômen, e aproximou o ouvido da barriga grávida. O calor da presença dele espalhou um arrepio pavoroso pela coluna dorsal da comandante horrorizada.

— Oi, filhinho do Erwin, aqui é o tio Nile. Seu pai era um tremendo babaca, sabia?

A voz fininha do policial não foi inventada na hora, ele tinha três filhas e usava aquele mesmo timbre com elas, Hange imaginou. O perfume forte do policial subiu pelo nariz da cientista, maltratando as narinas e trazendo lágrimas ao olho castanho. A cientista, que já havia tocado em soldadas grávidas sem pedir permissão, sentiu uma onda de arrependimento e empatia trágica misturada à repulsa. Exausta da reunião e querendo evitar problemas, Hange engoliu em seco e suportou o assédio como pôde, tentando ignorar o gelo que a atravessava de dentro para fora e a vontade de levantar o joelho e mandar aquele bigode pelos ares.

Não é má intenção, não é má intenção, não é má intenção.

Na cabeça de Nile, só estava sendo simpático com a mãe do filho do melhor amigo já falecido, mas essa noção não foi capaz de deixar a comandante menos desconfortável, na verdade, não chegou nem perto disso. Aquele cara não tinha direito de tocá-la, não o teria nem que fossem amigos de longa data.

Todo mundo tem o seu limite, e Hange alcançou o seu quando o policial encostou a bochecha no ventre, fazendo a mãe estremecer e o bebê fugir. Moveu a cabeça ligeiramente na direção do subordinado, sabendo que não seria necessário o capitão ver seu olhar para entender o que devia ser feito. A boca se abriu num movimento mecânico, as cordas vocais começaram a trabalhar e tiveram o serviço interrompido pela língua dura. Em vez de verbalizada, a curta palavra foi proferida pela voz introspectiva.

Levi!

O dito cujo surgiu agarrando o pulso de Nile. O policial ergueu-se com espanto, surpreso pela presença do capitão. Levi franzia o lábio superior num rosnado humano, quase mostrando os caninos, e a postura dominante avançava sobre o homem dezessete centímetros mais alto, fazendo-o recuar.

— Você coloca esses cascos sujos em todo mundo que vê pela frente ou só nas grávidas, Bigodinho?

O capitão não transparecia agressividade pura, mas a iminência dela, o que deixava qualquer pessoa em sã consciência apreensiva.

— Ei, qual é o teu problema? Eu só estava parabenizando a comandante Hange, você não sabe o que significa “educação”?

Nile, desconcertado, puxou as mãos para junto do corpo e se afastou da dupla – mais de Levi do que dela, diga-se de passagem. Hange, que não queria e nem podia se envolver em confusão com o comandante da polícia naquele momento, agradeceu mentalmente por Levi, um homem que já teve desavenças com Nile e não se importava de ter mais uma, estar por perto.

— Desculpe, comandante Nile, nós estamos com pressa. A gente se fala depois, sim? Vem, Levi.

— Mande notícias sobre o bebê, comandante.

Hange acenou antes de retomar a caminhada. Assim que deram as costas à Nile, girou a cabeça para dar o olhar transtornado ao capitão. Mais de quinze anos de amizade faz com que você desenvolva tipos de comunicações especiais com seus amigos, como piadas internas e semblantes que só vocês entendem. Com Levi e Hange não era diferente, e por isso o moreno captou a mensagem de imediato quando ela pensou:

Ele me tocou sem perguntar!

Levi rosnou ao balançar a cabeça negativamente, focando a face cheia de indignação para frente. A comandante traduziu a linguagem corporal do capitão sem dificuldades:

“Esse cara é um porco de merda.”

A cientista sonsa não lembraria o trajeto até a carruagem que a aguardava lá fora. Parte dela continuava abobada, e mais da metade queimava. A fúria avançava numa velocidade absurda, uma bomba relógio pronta para explodir.

— Levi, no hotel, posso ir pro seu quarto?

Hange pediu ao chegar na carruagem, e o jeito que se colocou no degrau indicava que não pretendia deixar Levi entrar. O capitão vacilante limitou-se a assentir, ficando para ver a mulher fechar a porta do vagão e permanecendo no mesmo lugar enquanto a carruagem descia a rua.

As carruagens da capital eram luxuosas, tinham bancos confortáveis revestidos de veludo e um doce aroma de flores que ocultava totalmente o cheiro dos cavalos. Hange caminhou até o banco e sentou-se vagarosamente, entorpecida.

As rodas giravam em compasso com o galope dos animais. Pelo vidro da janelinha, a comandante via o castelo cada vez menor, e puxou a cortina para tapar a visão. Ela apoiou as mãos nos joelhos afastados e pendeu a cabeça para baixo, mirando as botas. Na quietude, uma solitária lágrima desceu do olho castanho e pingou no chão.

— Porcos imundos.

Nunca, em toda a sua vida, passou por uma humilhação tão grande quanto a de hoje. Os militares, incluindo os com patente baixa, a rodearam e sugaram suas forças como um bando de vampiros, destruíram sua privacidade até deixa-la nua. Pessoas que mal a conheciam simplesmente decidiram que tinham poder de escolha sobre uma criança e um corpo que não pertencia a eles. Entre essas pessoas estava Darius, alguém que Hange considerava. Antes da reunião, achava que Weber ia ser a maior preocupação, no entanto, foi justamente Zackly o autor de todas as sugestões invasivas e maléficas.

Ah, e Pixis? Pixis e sua fazenda. Que coitado. Ela agradeceu aos céus por ter se preparado para não receber o apoio de ninguém, caso contrário, sairia de lá com um atestado de aborto ou desempregada, talvez ambos.

— BANDO DE FILHO DA PUTA!

A cabeça furiosa agitava-se de um lado para o outro enquanto as botas pisoteavam o chão e os punhos socavam as paredes até a pintura rachar, só parando quando os nós dos dedos sangraram. Sentia-se humilhada, traída e vexada, e o fato de ter aguentado em silêncio toda aquela invasão era o que mais a revoltava. Eren, os policiais e os estacionários perderam o controle, os generais abandonaram a paciência, todos ali tiveram cinco minutos de fama, menos ela. Se tivesse mostrado o mínimo sinal de desequilíbrio, estaria perdida. Era a única correta e também a única obrigada a se portar com compostura.

Hange jogou a pasta com força no chão. Ela caiu com um som audível de plástico e os papéis se espalharam pelo piso da carruagem, deslizando de um lado para o outro em compasso com o sacolejar. A comandante pegou a pasta e a atirou novamente.

Despiram seu exterior e interior até arrancarem informações que a cientista não queria dar, e só pararam quando o nome do pai entrou na conversa. Aquela insuficiência de não ter conseguido defender a si mesma sozinha a machucou como chicotadas, e as feridas nunca curaram por completo.

Com o lado do rosto encostado na janela fechada, controlou a raiva pouco a pouco, tentando focar a mente no banco na outra extremidade do vagão, que era tão bonitinho e aparentemente tão confortável. Porém, ao tirar o casaco, arremessou-o embolado na parede e um dos botões voou para longe, partido ao meio. A mão trêmula levantou a camisa, o bebê chutou na direção da sombra, e Hange aceitou o consolo.

Notas finais
Nesse capítulo, quis mostrar um pouco da violência que a mulher grávida sofre no trabalho. Eu, pelo menos, conheço várias que foram demitidas após ter um bebê, ou prejudicadas de alguma forma por já terem um. Também não esqueci das pessoas que são contra o aborto, mas fui sutil quanto a isso porque não era o foco do capítulo. Enfim, obrigar uma mulher a ter um filho é uma forma de abuso, mas impedi-la de ter também é. Não sei se alguém aí ficou desconfortável com esse capítulo. Se sim, saiba que estou com você, pois não me senti bem escrevendo, principalmente na parte do Nile. Fiquei mal por não ter feito a Hange bater nele ou algo do tipo, no entanto, quem já passou por uma situação parecida sabe como pode ser complicado reagir, e acho que a Hange concordaria com isso - minha principal referência para fazer a reação dela foi o capítulo onde o Sannes a agarra pela blusa. Além disso, ela já tinha enfrentado bastante coisa sozinha, não faz mal pedir ajuda uma vez. Bom, espero que você esteja gostando da leitura até aqui. Até terça que vem.