Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)

9 Como é bom ter você ao meu lado


A reunião aconteceu na Capital, cidade localizada na muralha Sina, o menor território de Paradis e também o mais rico. A Tropa de Exploração e a Tropa Estacionária sempre eram hospedadas no mesmo hotel cinco estrelas. Os quartos eram luxuosos e confortáveis, talvez os melhores que os soldados haviam visto. Hange, no entanto, só foi usufruir dos benefícios da hospedaria quando já era noite.

Usando a desculpa de que queria conhecer o distrito, pagou ao cocheiro para dar voltas na cidade antes de leva-la para o hotel. Na verdade, Hange permanecia atordoada, e os vestígios da raiva eram claros na bagunça dentro da carruagem. A papelada ficou espalhada pelo chão por uma longa hora, deslizando de um lado para o outro conforme os cavalos galopavam, e o botão quebrado do casaco havia desaparecido. Os nós de seus dedos já haviam parado de sangrar, mas estavam vermelhos e ardiam. Hange não gostava de ficar perto das pessoas em seus momentos de fúria, pois tendia a perder o controle um pouco além do aceitável. Erwin costumava brincar que ela de mau humor era mais assustadora do que Levi.

Sendo assim, só voltou para o hotel após se recompor. Hange organizou os papéis na pasta, vestiu o casaco e saiu da carruagem como se nada tivesse acontecido, dando ao cocheiro uma gorjeta generosa para compensar o dano na pintura interna do vagão.

Antes de sair do palácio, ela perguntou a Levi se podia encontra-lo no hotel a fim de terem uma conversa, e ele consentiu. Posto isso, Hange foi direto para o aposento do capitão e entrou sem bater na porta. Encontrou Levi vestindo roupas comuns, sentado na larga cama do hotel luxuoso que só trabalhava com colchões de casal.

O quarto era bem iluminado pelo minério brilhante descoberto durante o golpe militar. Hange tinha várias daquelas pedrinhas e só acendia velas quando pretendia dormir em breve – a luz forte emitida pela pedra tirava o sono – no entanto, ela mal usou fogo nas últimas semanas, e ficou espantada ao constatar como esqueceu tão rapidamente da época em que dependiam das chamas para enxergar durante a noite, como se a nova tecnologia existisse há dez anos e não seis meses.

Os olhos do capitão encontraram o da comandante e nenhum deles disse nada até a mulher quebrar o silêncio.

— Desculpe a demora, resolvi dar uma volta na cidade.

— Você quer conversar sobre o que aconteceu?

— Eu quero sim, só vou tomar banho antes. Tô imunda.

A sujeira era psicológica, oriunda da humilhação sofrida na reunião e do assédio por parte de Nile. Mesmo por cima da roupa, o local onde a bochecha e as mãos do policial tocaram permaneceram estranhos ao contato, como quando encostamos em alguma coisa de textura peculiar e passamos o resto do dia roçando os dedos uns nos outros tentando tirar a sensação. O perfume do policial, uma colônia cara, também havia ficado com ela, impregnado nas narinas. Hange achou que nunca mais seria capaz de sentir aquele cheiro sem ficar enjoada, mas estava enganada quanto a isso.

— Você decidindo tomar banho por contra própria? Uau.

A comandante riu pelo nariz, achando graça principalmente da forma como Levi proferiu a palavra “uau” naquela típica voz entediada.

— Já volto.

A banheira era mais larga e confortável que as do quartel-general. Porém, Hange não a aproveitou, já que seu banho foi curto e objetivo. Ao sair, percebeu que não havia trago a mala para trocar de roupa, e as que tinha estavam molhadas por ter pisado nelas ao sair da banheira para não encostar os pés quentes no chão gelado. Por sorte, Levi estava lá para socorrê-la, e ela não hesitou em pedir ajuda.

— Levi, você tem uma blusa e uma calça para me emprestar?

Ela gritou do banheiro, já pegando a calcinha parar conferir se dava para vestir. Estava seca, ótimo. Hange vestiu-a do avesso planejando trocá-la mais tarde, intimamente sabendo que esqueceria.

— Quer uma cueca também?

— Não, obrigada, não quero pegar sarna.

— Ah, é? Então não vou te emprestar porra nenhuma. Fica pelada.

— Haha, não faz assim, me dá aqui.

A mão de Levi surgiu através da porta semiaberta, lhe estendendo uma camisa e uma calça preta. Eles usavam o mesmo número, então podiam vestir as roupas um do outro sem ficar óbvio que não lhes pertenciam.

A camisa tinha um corte na gola que deixava as clavículas expostas e ficou justa em seu corpo, principalmente na barriga. Porém, a parte que mais a incomodou foram os mamilos destacados no tecido. Tendo acabado de sair de uma situação de exposição, não queria andar por aí atraindo olhares, portanto, pegou o sutiã e o colocou a fim de ocultá-los. Antes de sair, pôs o tapa-olho.

Encontrou Levi no mesmo lugar e foi juntar-se a ele. Deitou na cabeceira da cama, pondo um travesseiro nas costas para aliviar a tensão.

— O que aconteceu com as suas mãos?

Hange olhou distraidamente para os nós dos dedos cortados. A ardência havia passado antes dela chegar ao hotel. Eram machucados leves que não necessitavam de bandagens, tanto que a comandante se esquecera deles.

— Eu perdi o controle.

— Bem que você podia ter machucado as mãos espancando a cara do Zackly.

— Hah, nem me fale.

A pedido da comandante, Levi não deu uma única palavra durante o show de humilhação, e Hange estava grata por ele ter respeitado sua vontade. Afinal, a escolha de seguir com a gravidez foi toda sua, e as consequências daquela decisão também lhe pertenciam, de forma que somente ela podia enfrenta-las. Além disso, Levi não tinha parentesco com o bebê, portanto, pronunciar-se na reunião podia acabar piorando as coisas para Hange – como Eren fez dando o seu espetáculo pró-vida – além da possibilidade de trazer problemas para o capitão.

Ela apoiou as mãos no estômago, um pouco acima da barriga volumosa, e contemplou o dossel branco enquanto fazia de Levi psicólogo.

— Eu estava tão brava, Levi- — Ela mesma se interrompeu — ah, sério, meus nervos estavam a flor da pele. E o Pixis, você viu? Ele queria que eu mandasse a minha filha pra fazenda da rainha. Olha, nunca ouvi tanto absurdo em toda a minha vida. As únicas pessoas que têm o direito de opinar sobre a vida dessa criança são o Erwin e eu, e como você sabe, o Erwin está morto. Heh, pelo menos ele pôde nos defender sem estar aqui, se é que você me entende.

A comandante desdenhou a última parte da fala, dando um sorriso lotado de escárnio. Levi ignorou a rispidez. O descontentamento não era em relação ao loiro, mas sobre a obrigatoriedade de precisar usar o respeito que os generais tinham por ele para vencer uma briga que nem devia ter começado.

Uma parte especifica da fala chamou sua atenção, e Levi, que estivera admirando a parede do quarto, virou o rosto para encarar a mulher ao seu lado.

— Espera aí. “Filha”? É menina?

Hange não tinha percebido o uso do substantivo feminino, simplesmente falou sem pensar. Ela questionou se em algum país lá fora existia algum aparelho que permitia aos pais descobrirem o gênero do bebê antes do nascimento. Em Paradis, era impossível. É claro que existiam métodos caseiros, contudo, o pensamento cientifico da comandante a impedia de confiar em procedimentos que não tivessem pelo menos noventa por cento de chance de acerto. E, é claro, também havia o tradicional instinto de mãe, algo em que Hange nunca acreditou, agora fazia a cientista dentro dela morder a língua.

— Sim, é menina.

— Como você sabe?

A comandante torceu a boca e fez “humm” para o dossel branco. Ao responder, disse a clássica frase genérica de senso comum que ela jamais achou que um dia sairia de sua boca.

— Coisa de mãe.

— Nunca pensei que eu veria você falando essas coisas.

— Nem eu.

Hange deu uma risada baixa. Em seguida, o capitão retomava o assunto principal.

Num passado distante, Hange levou o seu esquadrão ao teatro. A peça era sobre um homem casado com um cadáver por engano. Tinha uma cena, bem no comecinho, onde a esposa mandava o marido carrancudo sorrir para os visitantes. O homem, incapaz de mostrar qualquer sinal de agrado, acabou torcendo a boca de forma grotesca. Aquele velho mal-amado fez Hange lembrar de Levi, e o teatro todo ouviu suas gargalhadas. A situação atual a levou de volta ao espetáculo quando Levi, em toda a sua inexpressividade e pouca habilidade com palavras, tentou soar otimista e encorajador, pois a expressão dele ficou muito parecida com o sorriso torto do ator emburrado.

— Você foi muito bem lá na reunião.

Hange suspirou. Ela levou o dedo indicador ao rosto com o objetivo de ajeitar os óculos, todavia, encontrou a pele nua entre as sobrancelhas.

— Eu estava me segurando, a minha vontade era dar uma paulada na cabeça de cada um.

— A minha também.

Conversar sobre uma ocasião onde você foi maltratado por uma porção de pessoas, principalmente quando tal acontecimento aconteceu apenas algumas horas atrás, pode te levar a um acesso de choro ou de raiva. No entanto, Hange já havia extravasado todos os sentimentos destrutivos na carruagem, e por isso falou sobre o assunto com tranquilidade apesar do claro tom descontente.

— Fiquei com raiva deles questionando uma decisão que é completamente minha, e querendo me fazer escolher entre o meu emprego e a minha filha como se eu não fosse capaz de cuidar das duas coisas. E você sabe o pior? Eu duvido muito que tenham feito o mesmo com o Nile, que tem três.

E o motivo para tal suspeita não é novidade para ninguém. Nile é homem, não é trabalho dele cuidar de criança, contudo, se o fizesse, Hange tinha certeza que todos os veriam como um pai exemplar. No caso das mães, não estavam fazendo mais do que a obrigação – pariu, agora cria. Levi aquiesceu, permanecendo em silêncio enquanto a comandante terminava de falar, seu único papel ali era o de ouvinte.

— O que odiei de verdade foi ter que expor a minha vida pessoal. Agora, a muralha inteira vai saber que eu dormi com o Erwin. Sabe, Levi, eu fiz a coisa certa em gastar todas as minhas fichas antes de contar. Se eu tivesse dito logo de cara, quando tava todo mundo calminho, ia dar tempo pros generais processarem a informação, e eles iam começar a me acusar de ter trocado a boceta pela promoção. Na verdade, já devem estar falando isso.

Hange deixou escapar um bufo de indignação. Até aquele segundo, não tinha percebido que havia transado com o comandante Erwin. Eles eram amigos próximos há anos, o enxergava e tratava como camarada mesmo após o loiro assumir o comando. Para Hange, havia tido uma relação sexual com o seu amigo Erwin. Entretanto, as pessoas de fora pensavam diferente.

Não dava a mínima para a opinião dos civis, recebera comentários maldosos dos cidadãos desde que entrou para o exército. No caso dos outros soldados, a cientista nunca foi de se importar com o que pensavam sobre ela, sempre foi considerada a “estranha” de todos os grupos sociais e estava feliz em carregar esse título. No entanto, dentro daquele quarto que compartilhava com o capitão e a menininha em seu ventre, talvez por causa da humilhação recém-sofrida, as fofocas dos militares de patente alta ganharam uma importância gigantesca de repente.

Essa mulherzinha sebosa só é comandante porque deu a boceta pro Erwin. Você viu o barrigão? Baita puta. Engravidou por interesse. Capaz até do coitado do Erwin ter se matado só para não passar pelo desgosto de criar um filho que não queria. Ai, ai, tem mulher vagabunda, viu? Deviam tirar essa piranha e colocar outra pessoa mais capacitada. Um homem, talvez. Sabe, pelo menos não engravida.

E ela achava que a pressão de substituir Erwin não podia ficar pior.

— Ninguém vai pensar isso de você, Hange.

Hange girou o rosto para encontrar o capitão. Ela olhou-o de baixo e acabou dando uma risada sarcástica. Erwin, Keith e o comandante antes dele eram homens, e a situação não é diferente nas outras divisões do exército. Bastava olhar para as pessoas presentes na reunião: as únicas mulheres de poder eram ela e Historia, sendo que a segunda estava sentada entre dois homens que não a deixavam falar mesmo ocupando o posto mais alto da realeza, e a primeira foi atacada por fazer uma escolha sobre o próprio corpo.

Estar ao seu lado não tornava Levi menos homem, e por isso podia ser um tanto complicado para ele entender como as coisas funcionavam quando você é mulher. Hange, cansada demais para debater desigualdade de gênero, limitou-se a responder:

— Ah, Levi...

O moreno desviou o olhar, parecendo irritado com o tom de voz condescendente da comandante. Ficou imerso em seus próprios pensamentos e Hange deixou-o refletindo.

Um sorriso exausto, porém verdadeiro, veio quando ela tocou a barriga por baixo da camisa, gostando da textura da linha nigra cada dia mais e mais escura conforme o abdômen crescia. Essa cicatriz foi a primeira consequência da gravidez, o covil dos generais foi a segunda, e muitas outras piores ainda estavam por vir. Hange sabia de todas essas perturbações e aceitou-as mesmo assim, pois eram mais suportáveis que o tormento passado quando pensava em abortar, e que provavelmente a assombraria pelo resto da vida caso tivesse seguido aquele caminho.

— Hah... você está fazendo a sua mãe passar por tanta coisa, pequenininha.

Ela não tinha certeza se o sentimento nutrido pelo bebê era amor ou apenas o reflexo dos hormônios, entretanto, uma coisa era certa: sendo amor ou não, todo o seu ser desejava aquela criança. Do contrário, a essa altura estaria, por livre e espontânea vontade, deitada numa mesa de operações. Hange cobriu o volume com a blusa, puxando o tecido para baixo o máximo possível. Ela enfrentaria Zackly outra vez, e de novo, de novo, e de novo, quantas vezes fosse necessário, para proteger a bebê ali dentro.

Levi esticou a mão para envolver a da cientista enquanto ela ainda acarinhava o ventre. Hange parou o movimento do braço e olhou para ele.

— Eu sei que você vai ter que engolir merda por algumas semanas, mas eu garanto que as coisas vão melhorar. Você é uma líder incrível e todos sabem disso, incluindo Erwin e eu.

Era impossível negar a porcentagem de razão naquelas palavras, assim como não é possível ignorar que Hange precisaria se esforçar três vezes mais para ninguém se meter no seu trabalho ou vida pessoal. Bom, não ia fazer tanta diferença, ela já se dedicava de alma e coração; o que a indignava era o fato de ser obrigada a provar o seu valor quando tantos outros eram respeitados por muito menos. De qualquer forma, nunca foi de se importar com a opinião dos outros, e não era agora que ia mudar. Por fim, deixou-se ser consolada pelas palavras do capitão, e em agradecimento abriu a mão para entrelaçar os dedos nos dele, sorrindo.

— Eu sei. Vai ser complicado, mas o mais difícil já passou. O resto que se foda.

Hange fez uma pausa curta para respirar, e durante aquele breve momento o seu rosto ganhou brilho até ficar iluminado como as pedrinhas brilhantes. Acabava de ter uma ideia maravilhosa. Apertou a mão de Levi, entusiasmada.

— Ei, você quer ver o que ela faz?

— Huh?

A comandante guiou a mão do capitão para baixo da camisa, achando graça ao ver os pelos do braço dele ficarem em pé quando os dedos gelados tocaram a barriga quente. O choque térmico arrepiou a pele da cientista, e ela achou aquela frígida sensação deliciosa.

Ambos ficaram imóveis, Hange empolgada e Levi desconfiado. Conforme segundos silenciosos passavam, os olhos cinzentos do capitão começaram a correr da comandante para o próprio braço, e a expressão sorridente de Hange deu lugar à aflição.

— Espera só um pouquinho.

Eles esperaram. Levi arqueou a sobrancelha, incerto do que exatamente devia acontecer. De repente, a mulher fez um bico entristecido e jogou a mão do capitão para o lado, emburrada. Ela afundou no travesseiro, cruzando os braços. A bebê chutava o tempo todo, mas quando Hange resolveu compartilhar o acontecimento, a criança simplesmente resolveu que não ia fazer as vontades da mãe — nem nasceu e já estava desobedecendo.

No entanto, aquela era a oportunidade perfeita para provocar Levi, e é claro que a comandante não a deixaria passar.

— Poxa, Levi, você estragou tudo.

— Quê? Eu não fiz nada.

— Foi essa sua voz de psicopata.

Hange disse num tom amuado. Começou a cutucar o ventre com o dedo indicador, afundando-o de propósito na parte mais macia da barriga, onde a bebê não estava.

— Não fica com medo do senhor Levi, ele não é má pessoa. Anda, filha, aparece, aparece, aparece, aparece, aparece, aparece, aparece, aparece, aparece, apar-

— Puta que pariu, hein? Você é chata pra caralho. Esse bebê vai nascer prematuro só para fugir de você.

A comandante ocultou as gargalhadas atrás de uma falsa expressão espantada, e estapeou a cintura do capitão com as costas da mão.

— Isso lá é jeito de falar com uma pessoa triste? Caramba, se você fosse psicólogo, o índice de suicídio ia decolar.

— Esse drama não vai funcionar comigo, eu conheço você.

O capitão respondeu com ar divertido, embora não estivesse sorrindo. A comandante jocosa fez cara de choro, contraindo os lábios num bico birrento.

— Eu estou triste sim. Só vou melhorar quando você me der beijinho aqui. — Ela colocou o dedo no tapa-olho. — Aqui. — Ela colocou o dedo na testa. — Aqui. — Ela colocou o dedo nas bochechas, uma de cada vez. — E aqui. — Por fim, tocou a própria boca.

— Eu não vou beijar você.

— Mas você me beijou naquele dia!

Hange referia-se à tarde no laboratório, quando ainda planejava abortar o bebê. Aquele dia terrível parecia um sonho distante longe da realidade, mas a sensação molhada dos lábios de Levi em sua cicatriz permanecia fresca como se tivesse acontecido ontem.

— Argh! Eu tinha certeza que eu ia me arrepender.

O capitão deu uma ênfase exasperada na palavra e revirou os olhos irritados, sacudindo a cabeça. Olhou-a de soslaio, nem um pouco tocado pela face implorante. Deu um beijo estalado no meio da mão e espalmou-a na cara chorosa de Hange, amassando os traços faciais e criando sulcos ao comprimir a pele, afundando a nuca dela no travesseiro ao empurrá-la.

— Isso é o máximo que você vai conseguir.

A cientista agarrou-o pelo braço de súbito e o puxou. O capitão sobressaltado precisou apoiar as duas mãos no colchão, uma de cada lado do rosto de Hange, para não despencar sobre ela. A comandante efusiva expressava provocação brincalhona ao socar o ombro do moreno, mas Levi não deu corda.

— Ahhh, Levi! Você nunca mais lutou comigo.

— Quase quarenta anos nas costas e ainda quer brincar de luta. Vê se cresce.

Ele desdenhou, voltando à posição anterior. Hange ergueu-se também, emburrada. Levi tinha dezenove anos quando Erwin o trouxe para a Tropa de Exploração, enquanto Hange tinha acabado de fazer dezessete. O mais perto que Levi chegou de uma adolescência normal foi em companhia daquela garota insuportável que tentava incluí-lo em situações sociais contra a sua vontade – em defesa de Hange, fazia isso porque gostava de Levi e queria vê-lo bem. O “brincar de luta” da cientista sempre esteve mais para “vou-te-provocar-até-você-partir-pra-violência”, como bem tentava fazer agora. Bom, ela não tinha culpa se Levi só sabia brincar com esse tipo de estímulo.

— Ei, eu estou longe dos quarenta.

— Tanto faz. Além disso, não tem graça lutar com você, nem de brincadeira nem como treinamento.

— Por quê?

Hange tinha uma mania insuportável de tirar a paciência das pessoas e subir em cima delas com unhas e dentes, mas implorar por misericórdia quando a vítima revidava com a mesma garra, sendo legítima defesa ou não.

— Porque você leva as coisas a sério e faz drama quando os outros levam também.

— Eu não sou assim, não senhor! Acho que você está vendo chifre em cabeça de cavalo.

O capitão virou a face desorbitada, com boca semiaberta logo se transformando num rosnado. Hange, sardônica, nem se preocupava em esconder o divertimento. Encher o saco do subordinado era o seu passatempo favorito.

— Buchuda de merda.

— A minha barriga vai sair, já o chifre de certas pessoas...

— Hange, eu vou te empurrar dessa cama e você não vai gostar. Ei, aonde você vai?

A comandante havia levantado da cama. Os móveis ficaram nítidos em seu campo de visão quando vestiu os óculos, e logo prendeu o cabelo no clássico penteado bagunçado.

— Já que você é um chato que não quer fazer nada, então vou jantar.

— Não prefere pedir comida aqui?

— Eu lá tenho cara de ácaro pra gostar de cama?

Hange saiu do quarto com Levi logo atrás, novamente adotando a postura de cão de guarda com que a comandante já estava acostumada mesmo que não precisasse ser protegida. Os hotéis cinco estrelas da muralha Sina tinham restaurantes na cobertura com vista para a cidade, e era indispensável comer em um caso você estivesse de passagem pela Capital.

O restaurante iluminado pelo minério brilhante era largo e aconchegante, plantas estrategicamente colocadas decoravam o ambiente juntamente com pinturas renascentistas; havia um bar chique no centro do salão, e Hange lamentou não poder beber. Alguns membros da Tropa Estacionária hospedados no hotel jantavam em trios e quartetos. Eles cumprimentaram a dupla quando Hange e Levi passaram, recebendo animados acenos por parte da comandante e o inexpressivo olhar do capitão.

Escolheu uma mesa próxima a uma das janelas, afinal, o legal daquele restaurante era olhar a cidade durante a refeição. Estava com vontade de comer porco. O garçom perguntou se ela ia querer alguma coisa enquanto esperava o prato principal, e a comandante respondeu que desejava um prato de sopa com alguns pães para acompanhar. Quando lhe foi perguntado o tamanho das porções, Hange solicitou as maiores. Para a sobremesa, quis brownie – dois bolinhos enormes e bem recheados, um para mim e outro para a menininha no meu ventre. Levi pediu apenas chá, e a cientista prontamente levantou o dedo para dizer que adoraria uma xícara.

— Puta que pariu. Quer comer a mesa também, quatro-olhos?

— Estou comendo por duas, esqueceu?

O garçom voltou pouco depois com as xícaras de chá. Levi bebericou a bebida enquanto a comandante bebeu a sua num longo gole. Quando a sopa chegou, Hange ofereceu os pães ao capitão. Levi recusou, porém, ao vê-la alimentar-se com tanta gula, acabou voltando atrás. Ele pegou o pãozinho, que era macio e recheado com pedaços de salsicha, e o molhou na sopa da amiga sem pedir permissão. Hange não se importou.

Os dois ficaram em silêncio durante a refeição, e vez ou outra Hange olhava para a cidade rica abaixo deles. Qualquer um que a visse naquele momento não diria que poucas horas atrás aquela mesma mulher berrava de fúria. Ela já havia superado a reunião horrorosa e toda a humilhação sofrida, a súbita preocupação sobre o que pensariam dela, por exemplo, não passava de um borrão, e ela não daria a mínima para isso no dia seguinte, nem nos próximos anos.

— Lá vem.

Hange parou de mastigar para olhar por cima do ombro. Eren, Mikasa, Jean, Connie, Armin e Sasha tinham entrado no restaurante juntos. O comportamento glutão de Sasha rapidamente mudou a atmosfera tranquila do local, e os outros soldados pediam para ela não fazer algazarra num ambiente chique. Quando todos passaram pela porta, Floch apareceu logo atrás de Jean, entrando por último.

— Que bom que o garoto novo está se dando bem com os outros. — Hange teve tempo de reparar antes que os adolescentes os avistassem.

— É verdade.

Armin foi o primeiro a vê-los. Hange ergueu a mão e moveu os dedos, chamando-os. O grupo veio com Eren na dianteira. Ele parecia nervoso.

— Comandante, me desculpe por interromper a reunião, eu não aguentei ver aquele gordo falando mer- porcaria sem parar.

— Não faz mal, já acabou.

— Fico feliz que tenha dado tudo certo, caso contrário...

Eren trincou os dentes, fechando o punho. Jean censurou-o com o olhar e Mikasa colocou a mão nas costas do amigo, tentando acalmá-lo. O sorriso de Hange sumiu e voltou quando ela escolheu fingir não ver o comportamento hostil do subordinado. Eren parecia mais irritado com Zackly do que a própria comandante.

— ...caso contrário, a gente dava um jeito. Se não ganhamos hoje, amanhã é outro dia.

Seu queixo estava apoiado nas duas mãos e ela deu um sorriso reconfortante ao complementar a frase do soldado. Eren riu timidamente e assentiu, conformado. O próximo a falar foi Armin. O loiro também estava nervoso, só que de um jeito bom — da maneira que ficamos quando estamos felizes, mas não sabemos como expressar.

— Todos nós estamos aliviados. Odiaríamos ter outra pessoa no comando.

Mikasa parou atrás da cadeira da comandante e colocou a mão em seu ombro. Hange pôs a própria sob a dela, olhando-a com o único olho bom e sorrindo em agradecimento. Ao mirar os outros soldados, suas bochechas ficaram ligeiramente quentes, embora nenhum rubor fosse visível.

— Obrigada, pessoal.

— Por que você não contou do bebê pra gente, comandante? — Era Connie.

— Caramba, você é cego? — Jean desdenhou.

— Espera aí! Só eu não sabia!? — Connie estava surpreso.

— Não grita no meu ouvido. — Floch.

— Gente, fala baixo. — Armin.

— Qualé!

— Não podemos comer logo? Estou sentindo um cheiro maravilhoso... — Sasha.

Bastou Levi dar um único soco firme na mesa para calar a boca dos soldados. Sasha pulou de susto e bateu continência institivamente, arrancando gargalhadas de todos os presentes, menos do capitão.

— Podem ir jantar. Obrigada pelo apoio, de verdade.

A soldada comilona disparou direto para a enorme mesa redonda no centro do restaurante. Com exceção de Mikasa e Armin, os outros soldados a acompanharam. Floch puxou um baralho de cartas do bolso do casaco, e deu para ouvi-lo perguntar aos demais quem topava jogar enquanto a comida não chega.

Quando ficaram sozinhos, o sorriso de Armin desapareceu. O garoto baixou o olhar entristecido de uma pessoa envergonhada por um erro cometido. Não era novidade para ninguém a pressão que o rapaz vinha sofrendo desde a morte de Erwin, e nisso ele tinha a solidariedade de Hange.

— Comandante, eu...

Levi apressou-se para interrompê-lo.

— Nós já conversamos. Você não escolheu ser o Titã Colossal, eu fiz isso.

A voz impaciente de Levi não admitia réplica, e Hange aproveitou o embalo para acrescentar suas próprias considerações.

— Não fique remoendo algo que não foi responsabilidade sua, Armin.

Ela pensou em acrescentar que não valia a pena imaginar como as coisas poderiam ser caso Erwin estivesse vivo, mas essa observação cabia mais ao seu caso, e não ao do garoto. O soldado assentiu, e os dois militares viram quando o pequeno sorriso tomou forma no meio da face encabulada. Em vez de pedir desculpas, Armin agradeceu aos superiores e parabenizou Hange pelo bebê antes de ir sentar com os amigos, deixando-os as sós com Mikasa.

A soldada apoiou as mãos nos joelhos e dobrou a coluna para seu rosto ficar na altura da comandante sentada. Mikasa era tão séria e centrada que Hange por vezes esquecia a verdadeira idade da garota, e vê-la sorrindo daquele jeito, cheia de empolgação, fez a comandante pensar que ela não era menos criança que a bebê ainda não nascida.

— Estou ansiosa para conhecer o bebê, comandante.

A Ackerman prezava relacionamentos familiares acima de tudo, portanto, era normal mostrar interesse e preocupação pela família de outras pessoas, principalmente as queridas.

— Você acha que é menino ou menina?

— É menina. — Afirmou, convicta.

— Uma garotinha. Que legal!

E com isso Mikasa se afastou da dupla, dando um rápido sorriso de despedida acompanhado de um olhar encantador. Ela foi para a mesa redonda e sentou entre Eren e Armin, puxando o cachecol vermelho para que a manta cobrisse a boca sorridente. Os outros já haviam começado a partida de cartas, e em pouco tempo risadas joviais trouxeram cor ao restaurante.

— Eu vou dar tanta risada da sua cara se for menino.

Hange colocou a mão reta na testa como faria para bloquear o sol, embora fosse noite. A cientista girou a cabeça lentamente com o olho apertado, mirando cada ponto do restaurante pelo que pareceu ser vinte segundos. Após essa inspeção, ela direcionou a atenção para a janela ao lado da mesa, encarando a cidade lá fora com o mesmo interesse obcecado. Levi arqueou a sobrancelha e perguntou, no automático:

— O que você está fazendo?

— Estou procurando quem te perguntou.

O capitão pegou a colher e a atirou em Hange. O talher bateu no peito dela e caiu nas coxas, deixando manchas de sopa na blusa e na calça.

— Esqueceu que essa roupa é sua?

— Não esqueci. Ai de você se não me devolver lavada.

O garçom veio pouco depois com o prato principal e a sobremesa. Levi achou que a comandante não ia ter estômago para comer tudo, mas a cientista devorou o porco como se nunca tivesse visto comida na vida, deixando apenas os ossos para trás.

Notas finais
Oi oi, espero que você tenha gostado. 1. Smile, darling, smile (https://www.youtube.com/watch?v=Mgy5OwcaPOw). 2. Eu não acredito que esse arco vai ter 10 capítulos! Gente, eu só tava planejando três-cinco. 3. É MENINA! O parto está marcado para terça que vem. Eu adoro demonstrações simples de intimidade. Espero que você tenha gostado do capítulo e se divertido tanto quanto eu. Uma ótima semana pra você!