Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)

7 Enterro duplo para pai e filho


Notas iniciais
Olá, que bom ver você de novo! Sobre o episódio de hoje: levei um cacete pra escrever esse capítulo. A construção dele foi um parto. (hehehe XD) Enfim, espero que vocês gostem do que preparei!!

A cientista acordou com a sensação de que todos os órgãos do tronco resolveram fazer uma festa no meio da noite. A barriga agitada preenchia o quarto com roncos graves e a dor no quadril queimava até os ossos. O jantar voou para a garganta e Hange, segurando o abdômen por baixo, correu curvada para o banheiro anexado ao quarto quase cuspindo o estômago pelo caminho.

Carne e vegetais compactados numa pasta amarela foram atirados no sanitário, e ela não reagiu ao identificar grãos de arroz no meio daquela coisa fedorenta. A comandante tossiu com a garganta ardida de suco gástrico e a língua seca começou a lamber os dentes para tentar limpar o gosto desagradável. Enquanto a descarga levava o jantar, a comandante atirou-se na pia e bebeu água diretamente da torneira, sedenta.

Queria escovar os dentes, mas o armário onde guardava os produtos higiênicos não estava mais preso à parede, e embora a comandante não lembrasse quando ou como livrou-se do objeto, tinha a intuição ominosa de que o espelho desaparecera por sua vontade, e não a de terceiros. Em contrapartida, os remédios receitados pelo médico, incluindo o medicamento a base de sene, estavam dispostos uniformemente na pia. Vazios.

Você ainda não comprou o sexto remédio, Hange, você está sonhando.

A voz retiniu no banheiro como se a cientista tivesse falado em voz alta, mas era ilusão, as palavras vinham de algum lugar muito distante, longe do alcance daquela Hange falsa de olhar vago e ações programadas agindo por ordem de alguém que não tolera desobediência. Sim, estava sonhando, mas essa lucidez não deixava a sede menos real, nem a dor física.

Não demorou para a barriga roncar novamente, e dessa vez Hange atirou-se sentada ao sanitário, usando o ânus e a uretra no segundo em que a pele febril encontrou o assento gelado. A cólica continuava aguda, comprimindo o útero gravídico. Ela encolheu as pernas quando uma coisa mais densa e viscosa que xixi começou a escorrer em abundância, e o único olho castanho foi revirado até sumir na órbita branca assim que coágulos de sangue foram acrescentados naquela mistura monstruosa.

O sangue levou a cólica junto. O quadril trêmulo relaxou e o coração parou de pular. Foi muito rápido.

A mulher arfante ficou sentada na mesma posição pelo que pareceu ser uma hora. A respiração regulou, a pele mórbida aos poucos adquiria a coloração normal e o cheiro ardente da privada se instaurava no aposento fechado. Hange estava com medo de levantar e passar por outro sofrimento, quem sabe, se ficasse ali parada, o pesadelo terminasse.

Mas as horas passaram e nada aconteceu. Então, se arrastou do assento e deixou-se cair, sujando o chão de vermelho. Tremeu abraçada aos próprios joelhos, sabendo que era a única personagem daquele pesadelo; como devia ser. Ela entrou naquela confusão, ela que lidasse com isso, sozinha.

Hange ficou encostada na privada focando-se em um ponto especifico da parede lisa, tentando não pensar em nada.

“Você já sabe o que vai fazer?”

Era Levi, falando no mesmo tom delicado usado para fazer aquela exata pergunta quando conversaram no laboratório. Ergueu a face à procura dele, mas não encontrou ninguém, continuava sozinha.

A comandante ergueu-se nos joelhos e foi dar a descarga a fim de se livrar da bagunça no sanitário. A mão destra segurava o ventre por baixo da curvatura da barriga, suportando a região pesada. Seu coração tinha o desejo sincero de que o bebê continuasse lá. Porém, a vozinha atrás da cabeça sussurrava o contrário, enquanto a segunda, aquela que devia ser sua mas não era, gritava a plenos pulmões.

NÃO OLHE NÃO OLHE ACORDA ACORDA ACORDA.

Hange olhou para a água e a mão que agarrava o abdômen foi atirada no meio da pasta colorida de vermelho, marrom e... cinza. Um dos coágulos de sangue era relativamente maior que os outros, e era esse o alvo dos dedos aflitos. Balbuciando negativas desesperadas, enfiou o antebraço na privada até a mão alcançar o buraco por onde os dejetos saiam. O coágulo resvalou múltiplas vezes e foi por água abaixo.

— Não... por favor, volte...

Lágrimas salgadas juntaram-se à agua turva. Agarrada às bordas da privada com a mão empapada, o rosto pendurado por sob o assento suplicava pelo bebê. Por que ela precisava ser tão grande? Se fosse do tamanho de uma abelha, poderia dar descarga em si mesma.

Hange ergueu-se de uma vez só e lambeu a torneira até que a bexiga ficasse cheia. Bebeu até engasgar-se e aí enfiou o rosto em baixo da água, deixando que ela levasse embora pelo menos as lágrimas, já que não conseguia passar pelo ralo da pia. Depois, enfiou a mão suja na torneira e usou a esponja para esfregar até não restar nada além da pele avermelha.

— Comandante Hange.

Afastou-se da pia, nervosa, porém não surpresa. O canto convidativo vinha do sanitário. Tanto a cópia quanto a verdadeira Hange conheciam o perigo que morava ali, e ambas sabiam o que precisava ser feito, ou ficariam presas naquele pesadelo para sempre.

Hange foi para a privada já sabendo o que ia encontrar, e ao olhar para baixo, não se surpreendeu ao ver o pássaro-agulha no centro da água. O olhar apático encarou o único olho molhado e displicente. O animal apoiava cada pata numa extremidade da louça e sacodia as asas molhadas como um passarinho comum tomando banho num chafariz, e então o bico ensangu

A comandante acordou sobressaltada com o lado direito do rosto dolorido e as costas estalando. A boca estava seca como no sonho, mas a cólica não existia e o bebê continuava com ela, dormindo tranquilo em sua casinha. Ao olhar para a escrivaninha, deparou-se com uma mensagem molhada de saliva e outros documentos cujo destino tinham o mesmo destinatário. Os óculos de grau jaziam a alguns centímetros na mesa.

— Cartas para a Capital. Você estava escrevendo cartas para a Capital e adormeceu.

A posição da lua indicava que devia passar da meia noite, e a vela ao seu lado era só um toquinho de parafina em brasa. Não lembrava como nem quando havia pego no sono, mas de certo não foi um cochilo proveitoso.

Hange agarrou o papel molhado e amassou-o numa bola. Mirou o cesto de lixo do outro lado do escritório – tinha um bem ao lado da escrivaninha, cheio até a boca – e arremessou na direção da boca larga. A bolinha bateu na parede e caiu ao lado da lixeira.

Ela não costumava ter pesadelos. Dos poucos que teve, só recordava com clareza de um onde titãs falavam feito seres humanos, e a mensagem por trás daquele pesadelo foi, infelizmente, comprovada. Mas era um em um milhão, de forma que era estranho, e também muito incômodo, acordar suada e apavorada duas noites seguidas. Também tinha o fato dela lembrar detalhadamente de cada parte, tanto do dessa noite quanto o da anterior, e esse era o elemento que mais a preocupava. Como cientista, Hange acreditava que lembrar do que sonhamos significa mau funcionamento do cérebro.

Ela estalou o pescoço para a esquerda e para a direita, e então estendeu a mão para pegar a garrafa d’água perto da caneta de tinteiro. Bebeu o conteúdo num gole longo e sedento, virando a garrafa até uma gota escorrer do canto da boca em linha reta para o pescoço quente. O objeto emitiu um baque ao ser colocado de volta na mesa sem um pingo de água.

Hange passou a mão pelos cabelos e puxou o elástico que os prendia, deixando a cabeleira castanha cair solta e desgrenhada. Recostou-se na cadeira, respirando fundo enquanto afagava a nuca suada, não demorando para prender os cabelos outra vez.

Ela apoiou o pé na escrivaninha pesada e começou a balançar a cadeira lentamente, sem considerar a possibilidade de desequilibrar. Os dedos desfizeram, um a um, os botões da camisa de baixo para cima e pararam antes de chegar ao busto. Ambas as mãos descansaram na barriga nua, bem na protuberância onde o bebê cochilava. Aquele tipo de contato se tornou um ato de conforto que ela fazia no automático, e o motivo para tal atitude era a mesma justificativa para os dois pesadelos seguidos que tivera, e também o que a levava a desaparecer da realidade de repente mesmo quando precisava manter-se focada.

O ranger da cadeira quebrava o silêncio no escritório. À luz fraca da vela, Hange observava o delicado movimento do abdômen subindo e descendo em compasso com a respiração. Ela não era capaz de esclarecer a explicação em voz alta, tampouco pensar nas imagens e nas palavras que elucidavam a ideia, preferindo deixar a contrariedade torturante limitada a um breve palpite.

XXX

Os próximos quatro dias foram corridos. Levi mal era visto no quartel-general enquanto a comandante não saiu dele. O capitão intercalava os preparativos do funeral com as próprias obrigações, e Hange passou o tempo elaborando estratégias para apresentar à Capital e recebendo todos os tipos de visitantes em seu escritório – os quais atendeu por detrás da escrivaninha.

No quinto dia, o jovem entregador de jornais bateu à porta do quartel-general pedindo para o guarda avisar a comandante que “o remédio está pronto”. O vigia deu o recado uma hora depois, e quatro mais tarde, Levi apareceu para comunicar que tinha conseguido alugar a capela do cemitério para a tarde seguinte.

O funeral foi marcado de imediato, e como a mãe de Erwin, uma senhora chamada Sophie que Hange e Levi ainda não conheciam, morava em outra cidade, uma carruagem foi contratada para leva-la e trazê-la. O capitão achava que era uma maneira infeliz de conhecer a sogra, e a comandante acreditava que só mulheres desnaturadas marcavam o primeiro encontro com a avó dos filhos em enterros.

XXX

O caixão era simples, porém de boa qualidade. O manto verde da Tropa da Exploração estendido na madeira não pertencia à Erwin, a capa verdadeira, ou seja, a que ele vestia quando morreu, estava dobrada nos joelhos da senhora sentada no outro lado da capela. A mãe de Erwin era dona de um aspecto gentil que não escondia a dureza presente nos traços muito bem definidos, dando-lhe uma espécie de aparência professoral. Talvez ela e o ex-marido tivessem feito magistério juntos.

Sendo a comandante uma mulher extrovertida que não consegue ficar parada em eventos sociais, passou o funeral papeando com Jean, Connie e Sasha, os únicos dispostos a conversar. Floch e Levi estavam quietos demais, sendo que o garoto ruivo de braços cruzados na porta da capela volta e meia dava olhares de desaprovação para o trio de Eren. Armin, como era de se esperar, era o mais abalado, e, portanto, recebia o consolo dos amigos.

Hange teria conversado com Sophie de bom grado, mas por motivos óbvios, resolveu restringir a comunicação à um breve cumprimento e meia dúzia de palavras trocadas.

Transcorrido o tempo do funeral, o caixão fechado foi colocado numa plataforma com rodas para ser levado para a mesma área onde outros soldados da Tropa de Exploração, incluindo o esquadrão de Levi, descansavam. A estradinha era bem cuidada, de forma que o caixão quase não chacoalhou. Quando chegaram na grama, quatro dos adolescentes carregaram o caixão e o depositaram cuidadosamente no dispositivo de descida, o qual aguardava por cima da cova profunda cavada naquela mesma manhã. O aparelho era semelhante a uma cama e servia para levar o caixão para o túmulo.

O pastor, um homem de meia idade, os aguardava com um receptivo sorriso cheio de comiseração. Era acompanhado pelo coveiro, embora este estivesse sentado um pouco longe do grupo, de costas — o que é normal, sua presença ainda não era necessária.

Postado num palanque, o pastor começou um discurso preparado especialmente para Erwin. Por cerca de seis minutos, os sobreviventes da batalha em Shiganshina e a família de Erwin – a do lado de fora e a do lado de dentro – escutaram uma fala floreada sobre um garotinho que lutou pelos próprios sonhos e morreu para que outras pessoas pudessem realizar os delas. Hange gostou, mas lhe passou pela cabeça que o discurso era profundo demais para ter sido feito por um pastor que não conheceu o morto pessoalmente. O pensamento a fez girar a cabeça para olhar Levi, imóvel e inexpressivo como sempre.

Não, não pode ter sido ele, até parece que o Levi ia escrever coisas tão bonitas.

A comandante espreitou Sophie, mãe de Erwin. A viúva à sua direita ouvia o discurso com os olhos azuis marejados. Se havia uma pessoa entre os presentes para escrever uma mensagem tão bonita como a que o pastor proferia, Hange concluiu esse alguém era a própria mãe do falecido.

Terminado o discurso, deu-se início à antepenúltima parte do ritual, que consistia em colocar o caixão no túmulo. As próximas envolviam os soldados, que deveriam jogar um punhado de terra no caixão, e por fim, a cerimônia seria encerrada com uma oração, mas a comandante não ficaria para essa atividade.

O coveiro, até então um personagem ignorado, cumprimentou-os acenando a cabeça e tomou seu lugar ao lado do aparelho onde o caixão de Erwin descansava. A mão forte pegou a manivela e começou a girá-la, o que fez o caixão começar a cair vagarosamente na direção do buraco profundo.

Hange, com as mãos atrás das costas, não piscou diante o enterro do antecessor. Aos poucos, Erwin caia em um lugar menos profundo do que o poço onde a cientista foi atirada dezoito semanas atrás, porém, não tinha como o loiro usar o equipamento de manobras para escapar do infortúnio, pois o tal buraco era seu túmulo e ele estava morto. Quanto mais o caixão descia, mais o peso do mundo caia nos ombros de Hange juntamente com a consciência de que estava sozinha. Agora, era tudo com ela. Honre a morte dos que pereceram antes de você e faça o restante ter uma digna.

A madeira fez um barulho abafado ao chocar-se na terra. De onde estava, Hange pôde ver o caixão com as bordas por pouco não encostando nas paredes da sepultura cavada quase milimétricamente para nada além dele caber.

Mesmo assim, a comandante inclinou a cabeça e buscou por um espacinho um pouco maior, não precisava ser muito, só o suficiente para abrigar o corpinho pequeno de um bebê ainda não nascido.

Erwin, nosso filho vai se juntar a você em breve, tudo bem? Você vai cuidar dele?

Hange nunca teve interesse por religião e só pisara em igrejas para os funerais do exército. No entanto, não se considerava ateia, tendo mais inclinação ao agnosticismo; ela não encontrava motivos concretos para questionar certos aspectos da religiosidade, como por exemplo, almas; e não duvidava de que seu filho já tivesse uma. O feto chutava, ficava agitado, reagia ao som da sua voz; cada dia mostrava-se mais e mais ativo ao ponto da comandante quase ser capaz de visualizar a personalidade da criança.

No entanto, os conceitos de “céu” e “inferno”, na verdade, a ideia de você “ir para algum lugar de acordo com suas ações na terra” como um todo era complexa, e ela não acreditava totalmente nessas crenças tão especificas. Dessa forma, não sabia para onde Erwin havia ido após a morte, mas tinha para si que ele a observava de algum lugar juntamente com os outros; um batalhão de soldados mortos ainda vestindo a farda trajada na hora da morte ensanguentada nos exatos lugares onde foram feridos, parados imóveis ao redor da nova comandante que não pediu para ocupar o posto.

A imagem fantasmagórica de Erwin no centro do exército de mortos usando o único braço para segurar um bebê veio sem que Hange pudesse controlar, e ela reagiu com uma exclamação muda que nenhum dos presentes percebeu.

O coveiro desapareceu tão rápido quanto surgiu. E então, os convidados se posicionaram em fila indiana para jogar terra no túmulo. Sophie, a mãe, tomou a dianteira. Levi, braço direito de Erwin, ficou em segundo. A sucessora veio logo atrás e os outros soldados se alinharam sem dizer uma única palavra, com Floch depois de Hange e Jean por último, atrás de Armin.

Sophie deu um longo suspiro ao atirar o punhado de terra na cova, bem nas asas da liberdade. Levi, como sempre, não esboçou nenhuma emoção facilmente notável, mas Hange reparou que ele não levou nem dez segundos para atirar sua terra no caixão – e por que haveria de hesitar? O próprio Levi escolheu a hora da morte do falecido e não tinha arrependimentos, além disso, já havia se despedido de Erwin o suficiente.

Então, chegou a vez dela.

A comandante enterrou a mão na terra gélida, indo fundo o bastante para que as unhas ficassem sujas. A areia grossa e marrom era salpicada de grama, e a textura molhada umedeceu a palma da mão preenchida. A terra desceu embolada devido à força com que a comandante havia apertado o punhado antes de jogá-lo.

Olhando a areia cair naquele formato oval disforme, Hange não pôde evitar compará-la com o coágulo de sangue dos pesadelos, e o impulso protetor de avançar na cova a acometeu de uma tal maneira que precisou fincar os pés na grama. Uma solitária gota de suor escorreu pela testa e o ouvido começou a pulsar, efeitos de uma vertigem nauseante que só foi acabar quando a terra, por fim, caiu de uma só vez na sepultura, parte preenchendo o minúsculo vão entre a madeira e a parede da cova.

O pigarrear do pastor fez Hange perceber que estava ali há tempo demais, e nisso se afastou para tomar seu lugar ao lado de Levi, que por sua vez punha-se ereto ao lado de Sophie, com as mãos juntas na frente da cintura.

Os dedos atrás das costas roçavam-se um no outro, espalhando o que restou da terra molhada, e isso fez Hange entrar de súbito num lampejo de delírio onde suas mãos estavam sujas do próprio sangue. Ela puxou as duas e as olhou com atenção a fim de mostrar ao cérebro maldoso que era apenas areia, só isso.

Mas não vai demorar para você ter as mãos sujas de sangue. Depois do aborto, você vai sangrar por uns dias por causa dos machucados, talvez até saia um pouquinho daquele negócio cinza, qual o nome daquilo? Ah, siiiiim, tecido fetal, isso mesmo, boa garota.

Ela colocou as mãos atrás do corpo outra vez e falhou em tentar não pensar em nada. A vozinha mental que todo ser humano possui, apelidada de “consciência” por alguns, continuava tão falante quanto sua dona, embora a mulher estivesse com a boca bem cerrada.

O bebê não vai encontrar o pai, Hange, para de romantizar. Ele não vai nem ter um enterro. Sabe quem vai cuidar desse neném? Vão ser os ratos quando o médico jogar o seu filho no lixo. Talvez um gato faminto encontre primeiro, quem sabe? Morrer na barriga de um gatinho é mais nobre que ser roído por ratos, você não acha? O que você ia preferir? Ah, não, tenho uma alternativa melhor! Lembra aquela vez que você achou uma cabeça de coelho na rua, aí pegou o álcool da sua mãe e jogou a cabeça dentro? Então, se você assinar um termo de consentimento, o médico vai colocar o seu filho num pote igualzinho. Você é cientista, sabe muito bem do que estou falando. E aí, Hange, todo mundo vai sacodir o pote pra ver o seu neném dar pirueta. Lembra como você fez com a cabeça daquele coelho? Você dava batidinhas no vidro e ele fazia assim ó iiiuuupiiii estou girando estou girANDO GIRANDO GIRANDO GIRANDO GIRANDO GIRANDO GIRANDO GIRANDO GI

— Hange, você está bem?

O único olho encontrou o semblante preocupado do capitão parado ao seu lado. Apenas Levi havia reparado no olhar apavorado e na pele pálida oleosa de suor. A fila indiana estava parada, Floch sequer tinha terminado de se despedir. A comandante piscou, confusa, tinha a impressão de horas terem se passado, mas mal havia decorrido sessenta segundos.

— Não muito, Levi, tem problema eu sair pra sentar um pouco?

Levi meneou a cabeça. Hange, agradecendo, abandonou a cerimônia e saiu com o passo forçadamente lento, controlando a vontade imensurável de correr. Enquanto andava, sacodiu as mãos para se livrar dos restos de terra, mas as unhas continuaram sujas.

XXX

Enquanto caminhava pela estradinha do cemitério, Hange não deixou de reparar na beleza do jardim. As flores e a grama não se cuidavam sozinhas, e por isso admirou o minucioso cuidado e carinho que o jardineiro pôs em seu trabalho. Se não fosse pelas lápides, seria um maravilhoso espaço para piqueniques. Ela não andava sem rumo, tinha um lugar especifico em mente. Quando alcançou o enorme mausoléu pertencente à família de algum mercador importante, Hange deixou a estradinha de pedra para pisar na grama e subir em direção à pequena colina do cemitério, aonde ela sabia que ia encontrar um banco isolado.

A caminhada ajudou na liberação da ansiedade. A vozinha em sua cabeça não falou uma única palavra, e por alguns minutos Hange ficou com a cabeça envolta naquele conforto maravilhoso que nos circunda quando não estamos pensando em absolutamente nada. Sem trabalho, sem aborto, sem bebê, sem exército, sem reuniões, sem titãs; nada além dela, das lápides, do jardim e do vento. A comandante respirou o cheiro do ar e tirou os óculos para a brisa bater em seus cílios. De olho fechado, abraçou a escuridão e aproveitou a solitude, logo entrando num transe doce e sonolento. O sossego durou quase meia hora, mas a cientista tranquila não viu o tempo passar, tão absorta que não percebeu a mulher que a observava.

— Olá.

A comandante ofegou e a pose relaxada deu lugar à cautela com os músculos enrijecendo de repente enquanto ela direcionava o rosto alarmado para a intrusa. Suspirando, Hange relaxou as costas no banco e levou a mão ao peito palpitante.

— Ai, dona Sophie, meu coração.

— Ah, querida, desculpe, não quis assustar você.

— Tudo bem.

Hange recolocou os óculos. A senhora sentou na outra extremidade do banco, distante. Fora a bolsa atravessada no ombro, trazia consigo o uniforme de Erwin, lavado e passado pelo menos duas vezes depois que foi trazido de Shiganshina. Levi fez um trabalho tão bom que todas as manchas de sangue sumiram por completo e as botas brilhavam, quase novas. O uniforme dobrado desapareceu do campo de visão de Hange quando Sophie o colocou ao lado das coxas.

— Então, você me disse que é a nova comandante.

— Sou.

Sophie assentiu para o céu. Os dedos dela, compridos e enrugados, mexiam na bolsa num ritmo lento demais para ser ansiedade ou inquietação. Hange agradeceu por ela estar sentada à sua direita, assim podia encará-la com o canto do olho.

— É muito difícil?

— Sim, é um fardo que a gente só entende quando precisa carregar.

Ela achou que precisava dar alguma palavra de consolo à senhora, mas o semblante tranquilo e conformado dizia que a mulher não precisava do conforto de ninguém. Sophie continuava mirando o horizonte, com os olhos na altura das nuvens que desciam lá no fundo do cemitério, atrás das árvores e do muro. Hange, cansada de olhar o rosto da velha, seguiu o olhar dela naquela direção e viu raios solares escapando pelo meio das nuvens brancas.

— Como sua mãe reagiu?

— Ela já faleceu.

Sophie girou a cabeça e deu o sorriso de uma professora misericordiosa para com um aluno que marcou a resposta errada.

— Eu quis dizer como ela reagiu quando você entrou para a Tropa de Exploração.

— Ah. Nesse caso, ela disse: “garota endiabrada, quer matar sua mãe do coração?”

Hange fez questão de imitar a voz e a expressão estupefata da mãe naquele dia engraçado. O sorriso da senhora tomou conta do rosto quando ela fechou os olhos e riu. Hange, deixando-se levar pelas risadas leves e verdadeiras, acabou rindo também.

— Isso diz muito sobre a personalidade da sua mãe.

— Com toda a certeza.

A enfermeira ranzinza tinha ido contra a ideia do exército desde o início, antes mesmo de Hange contar para qual divisão pretendia entrar após a formatura. Entretanto, ela não a impediu de ir, e, sobretudo, não virou as costas para a filha após Hange sair de casa para voltar só duas vezes por mês. Pensou no lençol novinho reduzido a cinzas, e lembrou do que aconteceu depois da surra épica: a mãe tirou o lençol da própria cama e o colocou na da filha endiabrada que liquidara a roupa de cama anterior. Ela dormiu no colchão cru até conseguir comprar outro. A mulher robusta cheia de defeitos deu o melhor de si para ser uma boa mãe para a comandante sentada naquele banco e, no fim, conhecia a criança que criara bem o suficiente para entender que jamais seria capaz de fazê-la viver uma vida segura, mas que tinha a opção de apoiá-la.

Hange vinha pensando bastante na mãe ultimamente, talvez por causa da experiência de engravidar, que tende a fazer mulheres pensarem na pessoa que passou por isso antes delas. Dizem que você só aprende a ser um filho quando se torna pai, Hange, sorrindo para as nuvens com a mão inconscientemente apoiada no centro do corpo, começava a concordar.

— É tão bom, não é?

Hange deslizou a mão para o banco e virou o rosto para Sophie, mostrando-lhe tanto o olho bom quanto o acessório preto que atravessava a face interrogativa.

— Huh?

— Quando eles estão dentro de nós, quietinhos e protegidos.

Há boatos de que mulheres que já foram mães sempre reconhecem outras grávidas, mas aquele não era um caso psíquico e Hange sabia disso. O casaco já não era capaz de esconder completamente a protuberância. Outras partes do seu corpo também estavam inchadas e a pele, terrível. Os subordinados não a lotaram de perguntas até agora simplesmente por educação.

O sorriso doce da viúva desceu para a barriga da comandante e logo foi direcionado para o olho castanho. Sophie tinha um aspecto ambíguo que não combinava com o sorriso terno. Após uma rápida avaliação, resolveu que não valia a pena estragar o dia daquela senhora que acabara de conhecer, portanto, ao responder, escolheu uma voz entusiasmada, apesar das palavras terem duplo significado.

— É mesmo? Heh, eu mal posso esperar pro meu sair.

— Comigo foi a mesma coisa, a gente não vê a hora de pegar eles no colo. Mas, sabe, quando eles crescem e começam a tomar as próprias decisões, dói um pouco.

Sophie havia parado de encará-la para focar-se na bolsa em seu colo. A comandante, distraída, acompanhou os movimentos dos dedos que abriam o zíper, e perdeu o ar quando duas agulhas de tricô foram puxadas.

Hange arregalou o olho e recuou um centímetro com o ar ainda preso no peito. Os objetos de plástico eram azuis, quase o mesmo tom dos olhos da viúva. No entanto, a comandante só conseguiu reparar na boca pontiaguda em cada uma das duas, e as agulhas pareceram retribuir a atenção excessiva. Ela esperou pela voz profunda do pássaro de seus pesadelos que de repente aparecera ali para assombrá-la na vida real, mas o que veio foi o timbre espectral típico da sua voz intrínseca.

Boi, boi, boi, boi da cara preta, mata esse bebê com chifradas na boceta.

A rima veio sussurrada. Sem conseguir se conter, Hange precisou levar a mão à boca para abafar as gargalhadas exageradas. Sophie, achando que a fonte das risadas fosse outra, riu entre os dentes.

— Eu sei que você acha que é besteira. Eu também pensava assim.

A senhora puxou um casaquinho vermelho inacabado de dentro da bolsa e rapidamente se pôs a tricota-lo. Os dedos de Sophie eram ligeiros e ritmados, mostrando experiência. Os cílios longos e claros estavam por cima dos olhos focados em olhar para baixo. O gesto simples acabou evidenciando outro traço da personalidade da mãe de Erwin: era o tipo de pessoa irrequieta que precisa trabalhar em pelo menos duas tarefas ao mesmo tempo.

— Eu entrei em pânico quando o Erwin se inscreveu no exército. A gente só quer o melhor pros nossos filhos, você sabe.

Hange, uma mulher cheia de obrigações que jamais seria uma boa mãe, aprovava plenamente aquela filosofia ancestral.

— Mas, como eu, você vai descobrir, comandante Hange, que não é só a gente que ensina coisas aos filhos, eles também têm muito a mostrar para nós.

A cientista não esperava por esse rumo, e por isso foi pega de surpresa. O sorriso desapareceu e ela pendeu a cabeça para o lado tentando capturar o olhar concentrado de Sophie, sem sucesso.

— Como assim?

— Então, depois que o pai do Erwin morreu, eu larguei meu emprego para cuidar dele, já que erámos só nós dois.

— A senhora também era professora?

— Sim, de matemática.

Hange abriu a boca numa confirmação muda enquanto assentia repetidas vezes. Sophie trabalhou mesmo como professora, tal como deduziu.

— Nos mudamos para a casa dos meus pais, o Erwin recebeu toda a educação e o amor do mundo, e mesmo assim quis arriscar a vida na Tropa de Exploração. Você deve imaginar como eu fiquei em choque.

— Eu entendo.

— E aí... bom, ele cresceu. Ficou alto, forte, e quando vi, o meu menino era comandante do exército.

Sophie parou de tricotar para encarar as nuvens mais uma vez. As agulhas caíram em seu colo e ela suspirou, puxando o ar pelo nariz e o expelindo pela boca. Os olhos brilhavam por causa das lágrimas, e logo a água começou a cair pelo rosto sereno, descendo para o sorriso. Aquele contraste era belo e as lápides pequeninas ao fundo davam uma aparência artística que só cemitérios eram capazes de oferecer.

— Ele me visitava muito pouco. A última vez que ele veio lá em casa foi depois de perder o braço. Ah, comandante Hange, como doeu ver o meu filho daquele jeito, tão triste e cansado. — Ela fez uma pausa, respirando fundo. — Mas aí, quando me falaram que a mesma população que atirava pedras nos soldados do meu filho estava saudando a Tropa de Exploração, e que o Erwin berrava de entusiasmo lá do alto da muralha...

Ela virou-se de repente com os olhos semicerrados, as lágrimas escorrendo deliberadamente para o sorriso tranquilo. Aquela visão lhe trouxe uma espécie de calmaria, era como ver uma pessoa se libertando de correntes.

— Por muitos anos me perguntei “onde foi que errei?”, mas naquele dia eu entendi que fiz um bom trabalho como mãe, pois criei um homem que não era indiferente à crueldade do mundo.

A cientista, muda e atônita, não pôde fazer nada além de sorrir. A declaração a fez pensar na enfermeira que não viveu o suficiente para vê-la ser nomeada comandante, e se perguntou se a mulher pensava da mesma forma que a mãe de Erwin. Imaginava que sim, com palavras diferentes, talvez, mas no mesmo contexto.

— A senhora tem razão. O Erwin era exatamente isso, e nós não teríamos chegado tão longe se não fosse por ele.

A senhora aquiesceu, seus olhos brilhavam tanto pelas lágrimas quanto do amor nutrido por uma pessoa que não estava presente. Ela voltou para a costura sem secar o rosto.

— Voltando ao que eu queria falar; o Erwin me ensinou muita coisa, mesmo depois de morrer...

Hange constatou que enquanto costurava, Sophie olhava o casaco e não as agulhas, mostrando que era habilidosa suficiente para costurar sem precisar olhar as ferramentas. A manga da roupinha tomava forma debaixo das agulhas pontudas, já Hange acompanhava a construção das carreiras. Laçada. Ponto tricô. Meia. Nomes que ela ouviu num passado distante sem lembrar o porquê, mas que voltavam como se tivesse conhecido as palavras ontem.

Só duas agulhas de tricô fazendo o que nasceram para fazer.

Ela se deu conta de que estava hipnotizada e desviou o olhar para as nuvens outra vez, buscando o sol escondido atrás delas. Por algum motivo misterioso, o pensamento a deixou profundamente abalada.

Não, é mentira. A razão não era nem um pouco desconhecida e Hange sabia disso.

— ...ele me ensinou que a nossa função é deixar o mundo melhor do que era quando chegamos.

As palavras simples soaram belas aos ouvidos da comandante, que não escondeu o contentamento. Num passado distante, uma Hange jovem lutou contra titãs usando o ódio como arma, no entanto, o método não se mostrou eficaz. Quanto mais monstros abatia, mais apareciam, e mais dos seus amigos eram mortos. A experiência de batalha, apesar de pouca, foi o bastante para fazê-la perceber que o ódio é um veneno mortal tanto para quem o possuí como para quem recebe. Foi mais ou menos nessa época que ela começou a buscar outra estratégia, caso contrário, jamais seria capaz de alcançar um horizonte mais longe que os soldados antes dela. No fim, Hange descobriu que todas as criaturas do mundo tinham o direito de serem entendidas, e que se todos pensassem assim, não haveria guerra. Ela levava essa filosofia para a vida e planejava estratégias partindo sempre desse pressuposto, e prometera a si mesma que seguiria trabalhando arduamente desta perspectiva até o dia da sua morte.

Sendo assim, aquela frase específica atingiu a comandante bem no fundo do coração, não por serem palavras que não foram pensadas antes, mas justamente o contrário. É bom encontrar indivíduos que compartilham da mesma crença que você, e saber que Sophie era uma dessas pessoas trouxe uma compaixão sincera ao olhar outrora distraído da comandante.

— Eu penso da mesma forma.

Sophie parou de tricotar para olhar Hange de soslaio.

— Foi por isso que o meu filho te escolheu, então.

A comandante não conseguiu evitar o rubor nas bochechas e rapidamente virou o rosto em outra direção feito uma menininha envergonhada. Desde que assumiu o posto, vinha se perguntando o porquê de Erwin, um comandante ousado de liderança implacável, a designar como sucessora, uma cientista com pouca visão estratégica para guerras. Porém, o apontamento de Sophie trouxe certo consolo sobre aquela questão, e ela lembraria dessas palavras em vários outros momentos no futuro.

— Então, seguindo o ensinamento do meu filho, resolvi voltar a dar aulas. Pode não ser grande coisa, mas uma boa professora faz diferença na vida das crianças.

Quanto mais Sophie falava, mais Hange entendia como Erwin havia se tornado aquele homem incrível. Você não consegue elegância, educação, responsabilidade e sabedoria lutando contra titãs, mas com bons pais e amor. Era de se esperar que um homem como ele tivesse tido uma boa criação, e a conexão forte com o pai estava lá para provar.

— Eu concordo. Na verdade, acredito que a educação é a chave para um futuro melhor.

— Você tem cara de quem era boa na escola.

— Heh, eu era meio bagunceira, mas minhas notas sempre foram altas! Minhas matérias favoritas eram física, biologia e química.

Hange gesticulou enquanto falava e seu tronco girou, a perna foi puxada para cima do banco a fim de ficar totalmente de frente para a idosa. Aquela linguagem corporal mostrava descontração e simpatia, estava gostando de conversar com ela.

— É mesmo? Quem eram os seus professores?

— Hmmm... — Hange colocou a mão no queixo. — Os que mais me marcaram foram a senhora Puff, o professor Xavier e a senhorita Morello.

— Eu conheço os três.

— Não brinca!

As duas entraram numa longa conversa nostálgica. Hange, entusiasmada, contou para Sophie como os professores incentivaram o seu interesse pela ciência, e isso puxou um papo delicioso sobre o papel do professor na sociedade. Ambas concordaram plenamente que a didática e o caráter do profissional faziam toda a diferença dentro da escola ou universidade, e a comandante aproveitou o embalo para contar à Sophie que, caso fosse professora, gostaria de dar aula para adultos e liderar um grupo de pesquisa, como fez no exército quando ainda era líder de esquadrão.

No meio do diálogo, pediu para Sophie a chamar só pelo primeiro nome, e a viúva aproveitou a interrupção para retomar o primeiro assunto, o qual não havia sido terminado.

— Mas, sabe, Hange, sobre isso de deixar o mundo melhor, eu percebi depois de um tempo que dar aula não era o suficiente. Eu sentia que podia fazer mais, a gente sempre pode fazer mais, na verdade. Então, comecei a tricotar.

Ela mostrou o casaquinho inacabado, segurando-o pelos ombros. Hange, muito educada, pegou a roupinha para olhar mais de perto. As duas agulhas vieram juntas, penduradas.

— Eu faço roupinhas para crianças pequenas durante o ano e doo tudo para a Cidade Subterrânea no Natal.

A comandante apertou o tecido nos polegares, a textura da lã era gostosa. Um pedaço do cérebro começou a formar a imagem de uma criança usando a roupa e foi punido rapidamente pela parte que evitava humanizar fetos.

— Awn, que bonitinho!

Hange não estava totalmente fingindo entusiasmo, mas deu uma floreada para deixar a idosa contente. Sophie pegou a peça de volta e recomeçou a costura rapidamente, focada.

— Uma pena que não esteja terminado, senão eu dava pra você. Ah, que isso, eles crescem rápido! As roupas de bebê logo param de servir.

XXX

Levi encontrou Hange na porta do cemitério quando o sol já estava se pondo. Era acompanhado por uma carruagem puxada por dois cavalos, e a forma impaciente como os animais raspavam as patas no chão mostrava a demora da comandante para dar as caras.

Enquanto Levi entrava na carruagem, Hange pedia para o cocheiro parar na farmácia no caminho para o quartel-general, pois precisava pegar uma encomenda. Após receber a confirmação, foi a vez da comandante subir os dois degraus para alcançar a porta. Levi, sentado numa das extremidades da carruagem, deu uma rápida olhadela para a mulher e logo voltou-se para a janela outra vez.

— Onde você estava?

— Conversando com a mãe do Erwin.

— Aborrecendo a mãe do Erwin, aposto.

O tom sério não expressava ironia. A comandante tinha o costume de falar além do necessário e estender conversas até a outra pessoa ficar tonta, e para Levi só restava imaginar as coisas horrivelmente entediantes que a cientista tinha feito a coitada da mãe do Erwin ouvir por horas a fio. Hange podia provar que o moreno estava errado dessa vez, mas escolheu revirar o único olho e o direcionar para a sua própria janela, cuja visão dava para o pequeno vilarejo do outro lado da rua.

O cocheiro gritou uma ordem e os dois passageiros sacolejaram quando os animais ansiosos começaram a galopar, ganhando velocidade rapidamente. A dupla ficou em silêncio por alguns minutos, cada um observando sua própria paisagem. Levi ficou com o céu escurecido do lado leste, enquanto Hange pôde vislumbrar o restinho de sol ao oeste, que ainda não havia se posto por completo.

Como sempre, a língua de Hange permanecia molhada mesmo após uma conversa longa, e foi ela quem quebrou o silêncio. Porém, sem dar o lado direito da face ao capitão.

— A cerimônia estava bem bonita, Levi.

Levi, que a conhecia como a palma da própria mão, captou as emoções de Hange sem dificuldade. Ele ficou ali, parado, deixando de dar atenção à janela para focar os olhos cinzentos na cientista, encarando-a de maneira acautelada.

— Gostei do caixão e da escolha das flores. Combinavam com o Erwin.

Levi dobrou a barriga para apoiar os cotovelos nos joelhos, mantendo o olhar fixo na cientista do outro lado da carruagem, que o mantinha no ponto cego.

— Você tem talento para organizar funerais, vou querer que faça o meu quando eu morrer.

Levi não respondeu.

— Claro, isso se você não morrer antes de mim, vai saber. Bom, se eu tiver que planejar o seu funeral, vá sabendo que vou comprar o caixão mais sujo que tiver, só pra deixar o seu fantasma irritado.

Levi manteve-se mudo. Então Hange, muito devagar, girou a cabeça para dar o olho bom ao capitão, marejado. O choro veio em forma de lamúrias e suspiros e ela se apressou para esfregar as lágrimas com a gola do casaco. O capitão, estalando a língua, virou a cabeça e deixou Hange cuidar de si mesma. Ele sabia que as lágrimas nada tinham a ver com o Erwin.

— Hange, Hange, Hange, Hange...

Ele balançou a cabeça de um lado para o outro com os olhos fechados enquanto repetia o nome da comandante como um pai faria com a filha malcriada. Não precisava ser lá muito inteligente para ver que a decisão “razoável” que ela tomara estava, na verdade, a destruindo. O capitão abriu os olhos novamente, e apesar do tom delicado da voz, a face séria expressava severidade ajuizada — o olhar que você daria ao seu amigo alcoólatra ao encontra-lo pegando uma garrafa de cerveja, ou para a sua melhor amiga quando ela confessasse que é apaixonada pelo vizinho de má índole.

— Seja sincera comigo. Você tem certeza de que quer abortar?

A essa altura, Hange já tinha conseguido reduzir o choro a breves fungadas, e ela olhou para o capitão com aquele aspecto semi-ausente que havia adquirido desde que descobriu a gravidez.

— Sim, Levi, eu tenho.

O tempo passou em câmera lenta enquanto o capitão estudava a comandante. Aquele olhar irritante e distraído suportou a severidade, e no fim foi ele quem baixou a cabeça e apertou o espaço entre as sobrancelhas com dois dedos. Toda a alma de Levi se preocupava com aquela que era a única pessoa que lhe restou. O capitão só queria o melhor para Hange, independentemente da escolha dela, o bem-estar físico e mental da comandante vinha primeiro. Ele tinha a breve ideia de que aborto não era a melhor solução para o caso de Hange, no entanto, não tinha direito de opinar sobre o corpo dos outros, e essa impotência o deixava maluco.

Afinal, não importa o quanto você fique decepcionado quando o amigo alcoólatra se entrega ao vicio mais uma vez, e também pouco interessa a apreensão de ver aquela grande amiga andar de mãos dadas com uma pessoa perigosa. Infelizmente, por mais que você avise, esperneie e brigue, não dá para mudar a decisão de outra pessoa. Claro, a não ser que você arranque a cerveja do seu amigo ou dê um tiro na cabeça do novo namorado da sua amiga. No entanto, Levi não podia trancar Hange numa sala e obriga-la a ter o bebê, mesmo que fosse para o seu próprio bem.

— É que não parece, sabe? — Disse, por fim.

— Você queria que o quê? Que eu pulasse de felicidade por aí? Abortar com dezoito semanas não é fácil, Levi.

A resposta cáustica veio na ponta da língua. Todavia, não tinha como saber se a réplica fora previamente planejada ou não. Hange sempre teve o raciocínio rápido, mais ágil que o dele, talvez até superando o de Erwin em questão de velocidade. Dessa forma, não seria estranho ela ter pensado naquelas palavras duras e diretas ali mesmo.

— Além disso, os meus hormônios estão à flor da pele, é normal eu estar sensível.

Ela complementou arrumando os óculos de volta na face úmida, logo desviando o aborrecimento para a janela, onde o sol desaparecera para dar lugar às estrelas.

— Eu só me preocupo com você, quatro-olhos.

— Não tem problema, soldadinho de chumbo.

XXX

Por causa da parada na farmácia, a carruagem levou quase uma hora para chegar ao quartel-general. A lua brilhava e o clima esfriara de repente. Hange, com o novo papel pardo guardado no casaco, entrou no quartel com os lábios trêmulos de frio e foi resolver pendências, objetivando aliviar as tarefas do dia seguinte e adiar outra. Ela foi terminar o trabalho lá pelas dez, e depois ocupou-se com experimentos científicos até as mãos arderem de tendinite. Quando, por fim, as obrigações acabaram, Hange percebeu que não adiantava prorrogar o inevitável.

No banheiro, colocou os seis frascos de remédio na pia, um ao lado do outro, e, parada em frente ao espelho com a garrafa d’água, teve o olhar aterrorizado retribuído pela mulher pálida no armário. O vômito subiu pela garganta e Hange afastou-se do reflexo com a mão na boca, estendendo a outra na direção do espelho como quem pede distância. A náusea passou rapidamente e ela, com a respiração arfante, decidiu deixar os medicamentos para depois do banho.

Começou a despir o uniforme enquanto a banheira enchia, começando pelo sobretudo e terminando com o sutiã que não servia mais. Os seios estavam maiores, e os mamilos, que costumavam ser de um bege ligeiramente mais escuro que o tom da pele, começavam a adquirir uma coloração marrom chamativa. Apesar de assustadoras, a cientista não deixava de achar fascinante todas as mudanças que seu corpo vinha sofrendo para comportar e receber a vida dentro dele.

Deixou o corpo ser tomado pela sensação quente e deliciosa da água. Ela ficou deitada na banheira até os dedos murcharem, e então começou a lavar o corpo. Ao passar a esponja pela barriga, Hange reparou numa linha de pele escura que começava na base do ventre e crescia até além do umbigo, por enquanto só um rastrinho vermelho, mas que logo ficaria escuro. A linha nigra era mais uma consequência da gravidez que desvanecia após o bebê nascer, entretanto, a cientista não sabia se o mesmo acontecia com mulheres que abortam. Esperava que sim, detestaria olhar para aquela cicatriz pelo resto da vida.

Ela olhou para as outras ao longo do corpo, especialmente para a grande marca no ombro resultante da batalha contra o Esquadrão de Controle Anti-pessoal, cuja autora foi uma mulher que a comandante sequer conhecia. Os dedos tocaram o ponto cego, as queimaduras do Titã Colossal e os vestígios do equipamento de manobras. Percebeu, com certo ressentimento, que a linha nigra era a única marca em sua pele não decorrente da guerra.

Hange espalmou a mão na barriga nua, sentindo a textura da cicatriz que começava a nascer além das estrias que apareceram graças à súbita mudança de peso, e foi abatida por uma onda de tristeza tão profunda que, por dois minutos, foi totalmente incapaz de levantar a cabeça para encarar os remédios na pia.

O coração e a razão de Hange andavam em sincronia. Ela sempre esteve certa de quem era, e quando sua meta a longo prazo se tornou sólida, os objetivos a curto prazo moldaram-se a ela, de forma que a cientista raramente se encontrava em dilemas. Porém, o posto de comandante trouxe um fardo que ela não esperava carregar, e a criança dentro dela fazia parte disso. O coração e a razão estavam distantes e procuravam às cegas um pelo outro. Hange se sentia uma impostora, deslocada e atormentada ao ponto de não conseguir encarar o próprio reflexo.

A comandante piscou quando alguma coisa empurrou seus dedos, mas não demorou para deduzir o que acontecia. Sua mão devia fazer sombra através da pele da barriga, ou o bebê era capaz de sentir o peso, seja lá o que for, a criança percebeu sua presença e seguiu sua mão. Para confirmar, colocou os dedos no outro lado, e riu pelo nariz quando o feto nadou naquela direção.

Era esse o grande problema. Se fosse a fase embrionária, Hange teria feito o tratamento em um ou dois dias no máximo e pronto, mas a criatura dentro dela era um feto que já a reconhecia como mãe. Fossem os hormônios (queria acreditar que fossem) ou sabe-se lá o quê, não importava quantas vezes tentasse desumanizar, não conseguia enxerga-lo como outra coisa além de mais uma vida confiada em suas mãos.

"Eu entrei em pânico quando o Erwin se inscreveu no exército. A gente só quer o melhor pros nossos filhos, você sabe."

Hange não ia abortar só por si mesma e pelo juramento ao exército, mas também em misericórdia àquela criança não-nascida. No fundo, não queria ter que passar pela cirurgia, nem negar a vida ao bebê, e houve momentos em que ela considerou desistir. No entanto, assim como Sophie, Hange só estava pensando no que era melhor para aquela criança, e com certeza, uma mãe como ela não era bom. Mas, se tinha tanta certeza, por que estava tão mal?

Porque uma parte dela acreditava que era possível, simples assim.

“...naquele dia eu entendi que fiz um bom trabalho como mãe, pois criei um homem que não era indiferente à crueldade do mundo."

Hange, que não era indiferente à maldade, perdeu o olho numa luta que matou todos os seus amigos com exceção de Levi. A marca feia no ombro era de um arpão que a perfurou numa luta. Suas pernas e tronco eram cobertos pelas marcas apertadas dos cintos do uniforme. O dedo de Hange contornou a linha nigra, a única cicatriz que ganhou através de um acontecimento natural aos seres humanos e ironicamente a única que a envergonhava. Teve vontade de rir e fez exatamente isso.

Então, o rosto da comandante ficou sério de repente e o coração começou a palpitar. O bebê reagiu a essa mudança e também ficou agitado. As palavras daquela mulher que enterrou o marido e o filho soavam firmes em sua cabeça.

“Ele me ensinou que a nossa função é...”

— Deixar o mundo melhor do que era quando chegamos.

A herança que Hange queria deixar era uma perspectiva diferente do ódio que dominou os seres humanos ao longo das décadas. Uma alternativa nova, um novo método de agir e pensar. Queria ensinar aos outros que nem sempre o que vemos e o que existe é igual, e essa filosofia que a libertou da perfídia que assola a humanidade só foi criada porque ela conseguiu transformar o ódio por titãs em respeito.

Mas, é claro, isso só foi possível porque, muitos anos atrás, uma certa enfermeira rabugenta não a impediu de entrar para o exército.

Negar a criança não era impedir que o bebê visse as maravilhas do mundo, também significava tirar do mundo a possibilidade de conhecer uma criança maravilhosa. Igualmente, ia privar-se de aprender como Sophie aprendeu com Erwin, e como sua própria mãe bem aprendeu com ela. A última coisa em que Hange pensou antes de sair da banheira foi no casaquinho vermelho pouco a pouco tomando forma sob o comando das agulhas pontudas dos seus pesadelos.

A água pingava deliberadamente enquanto Hange ia na direção da pia. A onda de determinação não a impediu de ser cuidadosa ao caminhar, não resvalando nenhuma vez. Ao chegar no armário, olhou para a mulher no espelho e ambas se reconheceram.

“Ah, garota endiabrada, você quer matar a sua mãe do coração?”

Exatamente, mãe, eu vou te matar do coração, espera só pra ver.

Sim, Erwin errou ao ficar com ela, os homens da farmácia erraram oferecendo um remédio adulterado e Hange errou comprando mesmo assim. Os últimos meses foram tomados por falhas, no entanto, aquela criança não precisava ser uma. Hange tinha a habilidade necessária para não deixar isso acontecer, por mais difícil, aterrorizante e complicado que possa e fosse ser, ela era capaz de fazer isso dar certo, assim como conseguiu orientar a equipe de pesquisa da Tropa de Exploração, comandar um esquadrão e por fim ser nomeada para o cargo mais alto, que por mais que não se achasse merecedora, um certo alguém pensava diferente.

A comandante pegou os seis remédios de uma só vez, abraçando com os antebraços os que não couberam nas mãos.

A Capital! A Capital!

Encarou a imagem no espelho mais uma vez, e as duas mulheres sorriram com aquela determinação divertida típica de Hange quando contemplava um problema científico desafiador. A Capital era sim uma grande preocupação, mas estava longe de ser a única. Ia lidar com isso quando chegasse a hora.

Por fim, o conteúdo dos frascos foi despejado na banheira. Hange assistiu, em silêncio, a água quente misturar-se aos líquidos coloridos e desintegrar cada uma das pílulas enquanto a banheira esvaziava, levando os medicamentos pelo ralo.

Notas finais
Mamãe! ♥ Deixei algumas pistas nos outros capítulos de que a Hange não queria abortar. No de hoje, tentei fazer um desenvolvimento bacana pra fazer ela ter coragem. Quando planejei essa fanfic, eu queria um desdobramento onde a decisão fosse inteiramente dela, isto é, sem que houvesse interferência direta de outra pessoa (como oferecer ajuda pra criar o bebê, por exemplo). Eu sou a favor de que as mulheres possam decidir sobre o próprio corpo, e isso inclui apoiar o aborto. Seguir com uma gravidez ou não é um assunto muito sério e traumático. Tendo passado esse monólogo, gostaria de falar que me esforcei ao máximo para tratar esse tema com a maior sensibilidade possível. Pessoalmente falando, acho que fiz um bom trabalho com o pouco conhecimento que tenho. Mesmo assim, peço desculpas se deixei a desejar em alguma parte, e também peço perdão se alguém aí se sentiu ofendido com a minha fanfic até aqui. Machucar os outros não é minha intenção. Meu objetivo é me divertir e entreter você. Vamos para algumas considerações "técnicas": 1. O sonho da Hange com titãs não é um headcanon meu, ele faz parte de uma short story oficial de attack on titan, vc pode encontrar ela e muitas outras aqui: https://snk-smartpass.tumblr.com/post/188355274575/good-night-dear-and-sweet-dreams-vol-05-hange 2. Já a mãe da Hange e a do Erwin são coisa da minha cabecinha. 3. Lembrando sempre que isso aqui é ficção, pessoal. Bom, eu gostaria bastante de prometer que o próximo capítulo vai ser leve e curtinho, mas não dá para subestimar a minha capacidade de me arrastar. XD então não vou falar nada. Espero que você tenha gostado! Se sim, apareça na terça que vem! Boa semana. ❤️