Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
49 Em águas profundas
Notas iniciais
Na noite anterior, após despachar uma carta para casa comunicando sua pernoitada na muralha Sina, Hange passou horas matutando os acontecimentos desagradáveis daquele dia longo. Ela nem viu o amanhecer. Era perturbador pensar que há vinte e quatro horas tomava chá com Leona e agora comparecia a uma reunião de emergência com os outros comandantes e Kiyomi Azumabito. Se ao menos Levi estivesse aqui...
— Ontem, mais de cem soldados, incluindo Floch Forster e o carcereiro responsável por sua prisão, fugiram. — Nile delatava aos ouvintes. Além dos presentes na assembleia da morte de Zackly, também participavam Jean e Connie, que chegaram na Capital no primeiro trem da manhã. — A deserção conjunta coincide com a escapada de Eren. Os traidores fundaram uma facção seguidora dos irmãos Yeager e se auto-intitulam yeageristas. De madrugada, um informante não identificado da gangue confessou o assassinato de Darius Zackly. Comandante Hange Zöe, você sabe qual é o objetivo desses tais yeageristas?
Ao ouvir seu nome, Hange ergueu a cabeça e deu um passo à frente. Os vestígios da noite insone marcavam o rosto de Hange em forma de olheiras fundas e um olhar vidrado.
— Eu suspeito que a missão dos yeageristas seja reunir Zeke e Eren. — Teorizou Hange. — Eles pretendem reorganizar o exército pondo Eren Yeager no topo da hierarquia e eliminando os opositores. O assassinato do general Zackly foi a carta de aviso.
— Mas como esses desgraçados conseguiram reunir aliados em tão pouco tempo? — Perguntou o velho subordinado de Nile. — Desde quando tanta gente confia em Zeke?
— Na verdade, eles confiam em Eren. É o Eren quem confia em Zeke. — Explicou Hange com veemência. — Os yeageristas acreditam... — Hange lembrou-se dos líderes de esquadrão murmurando às suas costas à menção do plano da nivelação. — ...que não exista nenhuma outra alternativa além da nivelação. Seguindo essa lógica, os yeageristas e muitos outros acham que nós, os superiores do exército, estamos desperdiçando tempo e arriscando a vida do povo de Paradis com frivolidades. Por conseguinte, escolheram se aliar à Eren e Zeke, os únicos capazes de ativar o mecanismo.
Nem em um milhão de anos Hange imaginaria ver os seus próprios soldados se rebelarem. Porém, o mesmo devem ter conjecturado aqueles no governo antes de Historia Reiss assumir o trono. Militares revoltados se uniram e derrubaram a governança porque os canalhas roubaram a liberdade e a memória do povo. Agora, a história se repete, pois, novamente, os poderosos nada fizeram por Paradis. Não criaram nenhum plano de guerra ou estratégia de defesa; Hange nada ofereceu além de avanços tecnológicos e tratados com empresas hizurunesas. Quem agiu pensando na destruição da ilha foi Eren, e não Hange, Pixis, Kayle, Nile ou Zackly.
Quer dizer, Zackly e Nile agiram. Entretanto, a trama era tão errônea quanto cruzar os braços. Zackly e a polícia militar planejavam realizar a herança dos titãs de Eren sem consentimento. Não só isso, pretendiam transformar a rainha à força — e só não o haviam feito ainda porque Historia engravidou. Hange descobriu toda essa falcatrua ontem e enfureceu-se ao ser, de novo, a única desinformada sobre os esqueminhas de seus amados colegas. A comandante não ia deixar barato:
— O gatilho para o golpe foi o exército bolar um plano para forçar a herança dos titãs de Eren. A resposta de Yeager foi assassinar o superior que deu a ordem. Quem pode culpa-los?
Hange deu um olhar gélido aos policiais e sentiu seus subordinados ouriçados partilharem a energia acusatória. Alguns policiais tiveram a decência de embaraçarem-se. Nile, no entanto, não se desestabilizou, e a comiseração expressada ontem não mais se apresentava. Na face do policial acentuou-se o semblante de alguém que já imaginava deparar-se com um determinado cenário, como um professor desenhando um zero vermelho na prova do aluno estúpido.
— Foi por isso que não contamos. — Retorquiu Nile, incisivo.
O silêncio controlado de Mikasa confirmava a suposição de Nile de que os soldados da Tropa de Exploração negariam o plano da herança forçada.
— De qualquer forma, — continuou Nile numa voz quase triunfante — os yeageristas são membros da Tropa de Exploração, para começo de conversa.
E assim Nile lavou as mãos. O subordinado do comandante da polícia acrescentou:
— Como você pretende assumir a responsabilidade, comandante Hange?
— Eu aceito qualquer punição. — Hange agradeceu que o açoite não estava mais em vigor (Zackly tentou trazê-lo de volta, mas perdeu a votação). — Porém, me retirar do posto nessas circunstâncias é uma irresponsabilidade. — Hange aumentou a voz em uma nota recriminadora: — Além do mais, não sabemos quantos yeageristas fazem parte do exército, nem em quais divisões eles estão infiltrados.
— Isso é verdade. — O subordinado da polícia não se abalou pela indireta. — Não ficaria surpreso se vocês explodissem.
Com exceção de Mikasa, que se manteve fria, enormes exclamações surgiram no rosto dos militares da Tropa de Exploração. Jean abriu a boca e fechou-a de imediato, enquanto Connie parecia prestes a explodir e Armin emitiu um gemido fraquinho.
— Não diga essas bobagens! — Hange elevou a voz indignada.
— Como podemos confiar na sua palavra, Hange? — Nile deu forças à insinuação.
— Quer que eu tire a roupa? — Hange desafiou-os, pondo a mão no cinto do uniforme.
— Se você não tem uma bomba, quem garante que não há um recruta da Tropa de Exploração escondido no armário esperando para nos explodir quando vocês saírem? — Nile bateu as mãos abertas na mesa. — Não podemos deixar os soldados da Tropa de Exploração à solta até provarmos quem é yeagerista.
O bate-boca acalorava a cada resposta. Nile responsabilizava Hange e sua péssima gestão. Hange não se via no direito de negar os apontamentos fundamentados, e em vez disso lembrou Nile de que o carcereiro que liberou Floch era um policial militar, e por conseguinte deviam haver milhares de yeageristas na polícia, na tropa estacionária e na marinha. Kayle entrou na briga mandando-os "não meterem o seu departamento nessa sujeira".
De supetão, o comandante Dot Pixis adentrou no recinto.
— Chega! — Vozeou Pixis. — Dá pra ouvir vocês gritando lá do corredor. Ora bolas, comportem-se! Nós temos visitas.
Pixis meneou a cabeça para onde Kiyomi e sua família sentavam. A hizurunesa assistia a confusão com uma face indecifrável. Hange enrubesceu, Nile aprumou sua medalha vermelha desconfortavelmente e Kayle murmurou um pedido de desculpas.
— Vocês não têm coisas mais importantes a fazer além de brigar?
Perguntava Pixis em continuidade ao seu sermão. Era uma pergunta retórica, e os demais comandantes, muito resguardados, apenas abaixaram a cabeça. Por lei, caso o general-chefe faleça em circunstâncias bélicas, aquele em sua substituição temporária é o comandante mais antigo em serviço, portanto o papel cabia à Pixis. O velho estava cem por cento sóbrio. Isso era muito estranho.
— Hange. — Pixis chamou-a, resoluto. Hange deu um pequeno solavanco. — Quantos soldados sabem a localização de Zeke?
— Levi, que está vigiando Zeke, os trinta soldados que o acompanham na missão e mais três responsáveis por suprimento e comunicação. Fora eles, apenas eu.
— Então chame esses três. — Em seguida, tão direto quanto, Pixis convocou o nome do comandante da polícia militar, de maneira que Nile espigou-se. — Nile, a residência da rainha está segura?
— Er- sim. — Nile pigarreou. — Mas vou checar mais uma vez.
— Eren está procurando alguém que saiba aonde o irmão está. Precisamos proteger a informação da localização de Zeke e defender a fazenda da rainha, pois ela é a substituta do titã bestial. Esses são os nossos objetivos. — Pixis voltou-se ao grupo da Tropa de Exploração. — Armin, como transformado, você deve nos defender.
— Entendido, senhor. — Respondeu Armin. Ele questionou: — comandante Pixis, o senhor tem um plano?
— Sim, tenho.
Todos, incluindo Hange, aliviaram-se ante a asseveração. Porém, horrorizaram-se quando o comandante jogou as mãos para cima num claro gesto de rendição e declarou com desgosto conformado:
— Vamos nos render à Eren. Já fomos derrotados.
Hange desorbitou-se. Armin, Jean e Connie suaram frio. Até para eles, amigos próximos de Eren, o prospecto de render-se sem resistências e ressentimentos a uma facção de assassinos os inquietava. Dentre os restantes, Nile e seus policiais militares eram os mais aterrorizados — afinal, quando Eren e Zeke reorganizassem a hierarquia militar, os primeiros a perderem o cargo seriam eles. Pixis percebeu a discórdia.
— Capturar os Yeageristas não é o bastante. Quanto mais aprisionarmos, mais aparecerão. — Elucidava Pixis. — Prestem atenção, quando a população descobrir que estamos prendendo os apoiadores de Eren Yeager, vão se voltar contra nós. Nós vamos destruir nossa própria ilha antes de Marley ter a oportunidade.
— Não pode ser! — Exclamou uma lacrimejante policial gorducha. — Nós vamos abaixar a cabeça para os assassinos do general Zackly e perder nossos empregos?
— Querida, uma revolução fez Zackly chegar ao poder, e uma revolução o tirou de lá. Foi uma morte justa. E não vamos esquecer dos policiais mortos na explosão. Duvido que aqueles homens fossem querer que seus funerais custassem a queda de Paradis. Vamos esquecer a morte do Zackly e nossos cargos. Se isso puder impedir que nossos companheiros matem uns aos outros... — Pixis assentiu às próprias palavras. — ...será um preço pequeno a se pagar.
Os oficiais entreolharam-se, apreensivos. Apesar do nervosismo, Hange concordava com a lógica de Pixis. Porém, no fundo, Hange desconfiava da submissão do comandante. Do ponto de vista analítico de Hange, Pixis escondia uma carta na manga a qual não pretendia mostrar aos outros, e isso a deixava relutante em contar sua teoria de que Zeke e Yelena não se limitaram a fazer lavagem cerebral em Eren e em Floch.
A reunião foi dada como acabada. Os militares dispersaram-se. Hange, Onyankopon, Jean, Connie e Armin esperaram Mikasa terminar de conversar com Kiyomi Azumabito o que parecia ser um papo desconfortável. Uma vez juntos, a panela da Tropa de Exploração saiu do palácio aos resmungos.
— E pensar que vamos cooperar com os responsáveis pela morte do general Zackly. Esse Eren... — Chateava-se Jean.
Hange achava curioso que de repente todo mundo morresse de amores por Zackly.
— Não sabemos se foi o Eren. — Rebateu a leal Mikasa.
— Você está falando alto demais, Mikasa. — Alertou Armin.
— É, Mikasa, tá gritando por quê? — Inquiriu Connie.
— ...agora somos suspeitos de fazer parte dos yeageristas... — Jean reclamava.
— Qual a sua opinião sobre os yeageristas, Mikasa? — Insistia Connie.
— Armin e eu quase fomos explodidos, isso é o suficiente pra você? — Mikasa sibilou.
— Chega. — Interpôs Hange. — Não é hora de briga.
— Foi ela que começou...
— Então, Hange. — Jean alteou a voz para se sobrepor à de Connie. — É certo confiarmos tudo à Zeke e Eren? — Ele perguntou com sinceridade.
— Não. — Respondeu Hange em aparente cansaço. Ela admitiu a hipótese que não relevou na assembleia: — Zeke e Yelena sabiam que nossas suspeitas jamais seriam zeradas. Antes do ataque à Marley, Yelena plantou uma armadilha na ilha para nos manipular. — Hange lembrou-se de como Leona passou perto de estar em poder de Zeke. A ideia de que Yelena machucaria uma criança de sete anos para dominar a comandante da Tropa de Exploração embrulharia o estômago de Hange para sempre. — Imagino que até os próprios yeageristas estejam sujeitos a essa armadilha e não saibam. Lembrem-se: estamos lidando com pessoas que arquitetaram um ataque a um festival repleto de liberianos inocentes.
Ninguém deu palpite. Hange fitou-os por cima do ombro direito e viu a expressão transtornada dos subordinados amedrontados. Até Onyankopon estava lívido. Hange deu um sorriso reconfortante aos amigos preocupados e, sem previr que sua teoria estava correta e nem imaginar os incidentes terríveis que aconteceriam dali a pouco, Hange descontraiu-se:
— Claro, é só uma suposição. Nada além disso.
XXX
Levi pisoteou o jornal trazido pelos mensageiros. Aquele maldito Floch. Hange fez bem em não dividir a localização do acampamento com aquele pica-pau filho da puta. Levi se sentia traído, porém não chocado. Algo dentro dele sempre disse que se algum subordinado lhe passasse a perna, seria Floch.
O capitão encontrava-se no alto de uma das gigantescas árvores da floresta Titã, cujos galhos eram largos o bastante para aguentar cinco pessoas em pé. O capitão escutava, impassível e sem acenar a cabeça, o relato da morte de Zackly. O mensageiro descreveu como uma bomba infiltrada no escritório tirou a vida do general e de quatro policias. Primeiro Levi pensou "explodiram a pança daquele gordo demente" e depois ruminou a coragem diabólica do bandido que não teve medo de assassinar o general-chefe num prédio entupido de policiais.
— Os yeageristas estão controlando tudo dentro das muralhas. Nós viemos para cá morrendo de medo de estarmos sendo seguidos. — O informante alternava o dedo indicador entre si mesmo e o companheiro. — Acreditamos que Zeke está persuadindo Eren a causar o caos sob o seu nome. Pixis concordou em não se opor aos yeageristas e negociar a localização de Zeke. A comandante Hange Zöe enviou uma carta aos yeagertistas à mando de Pixis.
— Ou seja, em breve teremos uma visitinha de Floch?
— Sim. É uma troca: Zeke pela paz.
— E o Pixis vai ceder ao plano de Zeke?
Os mensageiros trocaram olhares de uma maneira que fez Levi lembrar-se das comunicações telepáticas entre Hange e ele.
— É. O comandante Pixis está relutante em enfrentar os yeageristas. Mas, a gente andou ouvindo uns boatos... Pixis está pensando numa emboscada para o Eren... — O primeiro informante deixou a cilada nas reticências.
— ...infelizmente, essa é a única forma de impedir que os yeageristas e Zeke governem a ilha. — Completou o segundo mensageiro, também ocultando a emboscada misteriosa.
Levi interpretou a relutância dos soldados corretamente.
— Resumindo, Pixis quer que Eren faça a herança?
Os mensageiros responderam "sim" em uníssono. A inexpressividade de Levi foi substituída por uma carranca. Levi viu inúmeros camaradas, incluindo seu antigo esquadrão, morrerem em prol da sobrevivência de Eren. Todos esses anos Levi protegeu Eren com unhas e dentes porque acreditava que o garoto lhes concederia a chance de viver fora das muralhas. Crera tão cegamente nessa baboseira que a notícia de que Eren mancomunava com a dupla dinâmica de Marley quase o fez rir.
E a piada não acabava por aí. Provavelmente, o garoto a quem Levi ofereceu proteção e treinamento passaria pela herança naquela floresta, quando chegasse para resgatar Zeke. E é claro que caberia à Levi a incumbência de confrontar Eren caso o garoto apresentasse resistência. Ou seja, Levi passou a vida defendendo Eren para, no fim, enfrentá-lo. Palhaçada. Na opinião de Levi, havia outro jeito fácil e rápido de acabar com a alegria dos yeageristas, de Yelena, de Eren e de Zeke, tudo ao mesmo tempo.
— Tem uns merdas por aí que merecem virar ração de titã antes de Eren. — Levi deu uma olhada mortal ao cara peluda sentado no acampamento montado no bosque. — Aquele ali.
— Hein!? — Os mensageiros alarmaram-se.
— Eu tenho um plano. — Os olhos inclementes fitaram Zeke com cobiça, tal qual uma pantera espreitando o coelho. — Vamos realizar a herança com aquele arrombado. Pegamos um desses coleguinhas de Eren, quem sabe o Floch, transformamos ele em titã e aí damos o Zeke para o titã devorar. Aí, se a Historia estiver tão preparada quanto diz que está, realizamos a herança do titã bestial de novo depois do nascimento do bebê.
Quanto mais Levi falava, mais ele se dava conta do quão retardada era a sua proposta. Se dissesse essas instruções à Hange, a atual comandante riria da cara dele. E se dissesse à Erwin, o antigo comandante o encararia com incredulidade e perguntaria se Levi estava passando bem. Pensar que Hange e Erwin recusariam seu plano atormentava Levi. Ele era bom em agir, agora, em pensar... Isso era com os dois gênios. No entanto, nenhum dos comandantes estava aqui, e Levi se negava a deixar Zeke continuar ditando como as coisas devem funcionar.
Os mensageiros indagaram as mesmas perguntas que Hange e Erwin questionariam:
— M-MAS CAPITÃO E SE ATACAREM PARADIS NESSE MEIO TEMPO?!
— E AS ORDENS DE PIXIS!?
— Nós podemos atacar Marley outra vez e atrasar a investida deles. — Levi retorquiu com displicência. A refutação levaria Hange à hilaridade fatal e faria Erwin mandar Levi ao psiquiatra. — Olhem, eu não sei se o Eren está de fato armando com Zeke ou não. Se sim, basta estraçalhar Zeke para aniquilar o plano deles, certo? Vocês dois, retornem à muralha e digam ao Pixis que o capitão Levi fez picadinho de Zeke e não vai dar nem um dedo mindinho até alguém aparecer aqui com uma seringa e um candidato. Falem que essa estratégia burra é toda minha. Se o Pixis não gostar, ele pode ir se foder. Não esqueçam essa última parte.
Dito isto, Levi saltou da árvore e deixou os informantes boquiabertos para trás. Ele estava tão habituado a usar o DMT que o processo multidimensional de procurar uma superfície sólida, apertar o gatilho e mirar com a cintura aconteceu em menos de dois segundos. Gracioso como um felino, Levi aterrissou no acampamento sem fazer barulho. Mesmo assim, Zeke percebeu a presença do capitão. O mero vislumbre daquela cara peluda atiçava a agressividade de Levi.
Acampavam juntos desde o retorno de Marley. Os dias arrastavam-se ao passo de lesmas. As noites de Levi eram banhadas em intensos delírios vingativos. Levi mal falava com os subordinados, preferindo vigiar Zeke e antegozar a satisfação de vê-lo decapitado. A floresta escura graças às sombras das árvores, tão extensas e prevalentes que por pouco não bloqueavam a luz do sol totalmente, contribuiu para a evolução de sua obsessão. Não havia outra coisa em que Levi pensasse, e talvez, se o capitão tivesse se distraído de Zeke por quatro ou cinco horas, ele tivesse percebido a cilada armada bem debaixo do seu nariz.
— E aí, cara peluda? Desde quando você sabe ler? — Desdenhou Levi indicando o livro que Zeke lia. Quem o trouxe foi o próprio capitão. Era uma obra sobre a vegetação de Paradis. Chato pra caralho. Levi queria que Zeke tivesse a pior experiência possível como seu hóspede. — Aproveitando a leitura?
— Sim. Já o li sete vezes.
— Deve ser difícil se concentrar quando se está prestando atenção na conversa dos outros. — Insinuou Levi, desconfiado.
— Me concentrar num livro que já li sete vezes? — Replicou Zeke em contida ironia. — Tem vinho?
— Não vou te dar porra de vinho nenhum. — Rebateu Levi. — Se você quiser, pode beber o meu mijo.
— Eu passo, obrigado.
— Boa escolha. — Levi se afastou. — Continue a sua leitura.
— Você manda, caps. — Zeke bocejou.
Levi precisou reunir todo o seu autocontrole para não asfixiar Zeke. O capitão se dirigiu para as barracas, onde encontraria o vice-líder da operação e lhe comunicaria a mudança de planos. Zeke era um homem morto. Nas árvores, nas barracas, nas entradas e saídas do bosque situavam-se soldados de prontidão. Seja em forma humana ou de titã, Zeke não escaparia. O gostinho psicológico de sangue abriu o apetite de Levi, e o capitão sonhadoramente acariciou o compartimento de lâminas do DMT. Levi tinha lança-trovões aos montes, mas faria questão de matar Zeke com a espada.
Nesse ínterim, Levi sentiu uma movimentação súbita. Ele se virou. O livro sobre vegetação achava-se largado na caixa onde Zeke outrora lia. Zeke, a pouquíssimos metros de distância, corria feito um maratonista. A visão lhe pareceu tão absurda que Levi a princípio nada a fez além de observar. Os subordinados se prepararam para persegui-lo.
Zeke gritou. O berro ensurdecedor não era um som de pânico ou de dor, tampouco um grito de loucura. O urro retumbante, Levi reparou com pânico perceptivo, possuía tom de ordem. Zeke estava invocando titãs. No exato segundo em que um choque cruzava a cabeça de um liberiano chamado Falco, múltiplas explosões brilhantes arrebentaram na floresta. A luminosidade ofuscante erradicou momentaneamente a sombra das árvores. As explosões aconteceram nos postos de guarda e em pontos de circulação. Levi olhou para cima e, de olhos semicerrados, testemunhou um titã sorridente eclodir do corpo inerte de um soldado que despencava da árvore.
Quinze titãs desabaram do céu, dez arrebentaram as barracas e cinco vieram da floresta. Os monstros direcionavam seus olhos esbugalhados ao solitário capitão. Um titã afobado avançou em Levi feito uma cobra dando o bote. O capitão voou para fora do caminho do monstro. Pairado no ar, Levi viu-o destruir a própria cara ao chocar-se na árvore em frente.
As criaturas perseguiram o humano voador. Não eram titãs normais. Tinham o raciocínio rápido demais para titãs comuns. O cara peluda devia estar os controlando. Para confirmar o pensamento de Levi, os monstros escalaram as árvores, uma habilidade rara em titãs puros.
Atordoado, Levi voava de uma árvore a outra, assim evitando os dentes e as mãos dos monstros. Como Zeke conseguiu transformar os soldados sem seringas? Levi lembrou, de súbito, do carregamento de vinho marleyano enviado de brinde na carroça da missão. Levi estranhou a presença de álcool numa vigília e cogitou devolver, todavia, os subordinados imploraram para manterem o vinho. Eles prometeram "capitão, nós não vamos beber além da conta". Levi, julgando que o vinho fosse uma cortesia de Hange, permitiu.
Como Levi pôde ser tão imbecil de achar que Hange permitiria álcool numa missão? O vinho estava envenenado com a porra de Zeke. Só podia ser isso. Levi desejou ter enfiado as garrafas no cu de Zeke. Graças à sua burrice, trinta vidas foram perdidas. Levi mirou os monstros assassinos que um dia foram homens jovens e esperançosos. Com as espadas em mãos, Levi desprendeu os ganchos do DMT do tronco das árvores. Custe o que custar, eu vou vingar vocês hoje, o rosto humano de seus soldados surgiu um a um em sua memória, sendo o último o de Erwin. Levi caiu no rebanho de titãs. Em meio ao veneno que era a cega sede de vingança, o mundo tornou-se negro.
XXX
— Pegue essa capa, Hange. Vai chover.
Hange vestiu o capuz da capa verde da Tropa de Exploração com resignação. Ela, Onyankopon, Armin, Jean, Mikasa e Connie haviam visitado o restaurante de Niccolo na Capital em busca de informações sobre Zeke, e lá confirmaram a hipótese de Hange — tarde demais, no entanto. Nos últimos meses, um vinho marleyano envenenado com o fluído espinhal de Zeke circulou entre os oficiais do exército paradisiano. Por anos acreditaram na palavra de Yelena de que os eldianos paralisavam ao entrarem em contato com o fluído espinhal de um transformado de sangue real. Não passava de uma mentira. Entretanto, a parte do eldiano se transformar em titã ao comando de Zeke é verdadeira. Os forasteiros e seguidores dos irmãos Yeager usavam essa ameaça para oprimir os militares de alta patente.
Ao descobrir a infeliz notícia, Hange rastreou lembranças em que ingeria o vinho marleyano. A comandante sentiu-se nervosa e ansiosa até concluir que não bebera – Hange não bebeu nada alcóolico durante a segunda gravidez, e não recorreu à bebida depois da morte de Jade.
O choque foi pessoas da sua divisão conhecerem a armadilha. Já o envolvimento de Floch, esse desgosto foi expectável. Forster apareceu no restaurante rodeado de yeageristas e levantou armas contra Hange e seus subordinados. Hange saiu do estabelecimento algemada. Muitos transeuntes pararam para aplaudir a rendição da comandante incompetente. O pior foi acompanhar Floch, que a exibia por aí como um troféu, até o centro de treinamento de cadetes. Lá, Floch coagiu milicos de quinze anos a espancarem o instrutor Keith Shadis. Floch forçou Hange a assistir. Ela decerto seria a próxima se não tivesse obedecido a ordem de Keith para calar a boca.
Nesse momento, Floch entregava as rédeas de Buck a Hange e, em voz mansa, pedia a ela para leva-los a Zeke. Hange diria "não" caso Floch não tivesse encostado o cano do rifle em sua barriga.
— Aliás, é melhor você se preparar. — Alertou Floch ao montar em seu próprio cavalo, uma égua branca chamada Fé. — Nós entregamos uma caixa de vinho envenenado aos soldados da missão. Se eles beberam, é provável que estejam mortos ou transformados em titãs.
Começou a pingar uma chuva fria. Atípico de sua personalidade extrovertida, Hange seguiu o percurso falando apenas o necessário. Hange era escoltada por dez yeageristas, todos subordinados da Tropa de Exploração. A comandante soltou um palavrão baixinho quando reconheceu Mayla, a cientista que ela contratou há oito anos, entre os rebeldes.
Após algumas horas de viagem, Hange conseguiu enxergar a floresta Titã. A esse ponto já deviam ter encontrado um batedor. Ela inquietou-se. Conforme se aproximavam do bosque, os yeageristas olhavam em todas as direções em busca de Zeke.Hange fazia o mesmo, mas procurando sobreviventes.
Então, ao atravessarem a ponte sobre o rio que transpassava a planície, um trovão ressonante fez os cavalos girarem as orelhas e os soldados sobressaltarem-se. Porém, nenhum relâmpago sucedeu o trovão. Hange emitiu um desassossegado gemido gutural. Aquilo era um lança-trovões.
— Puxa, trovãozinho forte. — O yeagerista chamado Oliver assobiou.
Pela distância do som, o lança-trovões foi explodido fora da floresta. Hange agitou-se. Zeke não saberia usar um lança-trovões sem treinamento. Isto significa: ele não conseguiu transformar todos os paradisianos! Contudo, se alguém enfrentava Zeke nesse segundo, Hange e os yeageristas veriam a forma peluda do titã bestial independentemente da chuva. Lutavam em forma humana, será?
Floch percebeu sua cisma.
— Vamos conferir. — Propôs Floch. — Deve estar acontecendo alguma coisa naquela direção.
Eles mudaram de rota. Guiavam-se pelo rio. Avistaram uma coisa grande se debatendo na grama. Hange sentia-se mais tensa a cada passo. Depararam-se com um cavalo moribundo ainda atrelado à carroça que puxava. Ao lado, um cavalo morto jazia de olhos abertos. Adiante, um titã gordo arrastava-se na relva molhada sem interesse nos humanos. Decerto não os percebera.
— E aquele titã? Será o Zeke? — Perguntou Robin, um yeagerista adolescente.
— Não, o titã bestial não é assim. — Respondeu Mayla.
— Como esse acidente aconteceu? — Floch franziu o cenho. — A carroça está destruída.
Hange mirou o rio de esguelha e viu uma estranha saliência na margem, cuja forma lembrava um manequim abandonado. Sem pensar, Hange desmontou.
— Tem alguém aqui!
— Ei, comandante Hange! — Advertiu Oliver. — Não saia sem permissão!
Hange desprezou a repreensão. Ela deu sorte de Oliver não ser sanguinário ao ponto de atirar nela para fazê-la parar. Hange ajoelhou-se e examinou o corpo desfalecido. Pelo emblema das asas da liberdade na roupa, Hange soube ser um de seus soldados. A comandante o moveu a fim de ver o rosto.
Era Levi. Foi como se o mundo tivesse parado, mas o que paralisou foi o coração de Hange. Levi estava ensanguentado, e não era sangue de titã — se fosse, evaporaria. Um vergão profundo atravessava o rosto do capitão e cortava seus lábios, bochecha, sobrancelha e olho direito. Pequeninas estacas de madeira, provavelmente pedaços da carroça destruída, perfuravam a outra bochecha de Levi.
— Levi? — Balbuciou Hange.
Não adiantava. Levi estava morto. Lança-trovões eram armas de matar titãs, não havia como um ser humano enfrentar uma e sobreviver. Contudo, o capitão, ao ouvir a voz de Hange, entreabriu os olhos dolorosamente. Hange arquejou. Num movimento involuntário, as mãos que seguravam Levi transformaram o gesto aflito em carinho. Os lábios de Hange tremeram quando ela conteve o sorriso de alívio. As lágrimas, em contrapartida, Hange deixou escorrer.
— Levi... Levi... — Lamentava-se Hange. — Eu não acredito...
— Não faço ideia do que aconteceu. — Disse Floch às costas de Hange. — Mas estou contente que nossa maior ameaça está dura no chão.
— Vamos atirar na cabeça dele para garantir. — Sugeriu um filho da puta.
— Ele está morto. — Anunciou Hange pressurosa. Ela engoliu as lágrimas. — O Levi foi pego num lança-trovões. Já vi inúmeros acidentes durante o treinamento, mas nunca um como esse... Levi foi pego direto no olho da explosão. Os órgãos internos devem estar em frangalhos.
Hange voltou a bancar o papel de viúva despedaçada na esperança de Floch deixar Levi em paz. Entretanto, uma das principais qualidades de Floch era a sua diligência para com o serviço, tornando-o um dos soldados mais caprichosos e detalhistas. Em outras palavras, Floch não brincava em serviço.
— Eu sei checar pulsos. — Ele disse num tom que julgava ser condolente: — Lamento pela sua perda, comandante. Agora, por favor, dá uma licencinha.
Soluçando, Hange balançou a cabeça em negação e curvou-se sobre o capitão para protege-lo de Floch. Por dentro, Hange queimava. Seu cérebro matutava um plano arriscado, porém decidido. Quando Floch chegasse perto o suficiente, ela tomaria o rifle dele e o mataria. Não tinha como ter certeza de que os yeageristas não a fuzilariam na hora. Hange apostaria na inexperiência dos jovens.
Floch estendeu a mão para tocar no ombro de Hange...
— FLOCH, ALGUMA COISA ESTÁ ACONTECENDO COM AQUELE TITÃ! — Esganiçaram-se os yeageristas.
Floch girou nos calcanhares e mirou o rifle na nuca da criatura. Os yeageristas atrapalhados imitaram o líder. Hange ergueu o rosto e contemplou a névoa ao redor do monstro. O barulho soporífero do titã absorvendo o vapor sobressaia-se à melodia da chuva.
— Ele está desaparecendo? — Perguntou Floch tolamente. — Morreu?
— Não... — Hange, incrédula pela cena incomum, replicou pensando alto. — Quando eles absorvem o vapor desse jeito, não desaparecem...
Hange não terminou a frase. O vapor se dissipou, desse modo conseguiram ver o rombo na barriga do titã. O que veio a seguir arrepiou os pelos de Hange: Zeke, são, salvo e nu, ergueu-se das tripas da criatura. Os yeageristas estupefatos abaixaram os rifles. Floch e seus comparsas, admirados ante a visão de Zeke ressurgindo do corpo de um titã puro, esqueceram-se de Hange e de Levi.
Ciente de que não receberia outra oportunidade tão cedo, Hange abraçou Levi e saltou no rio.
A água gelada congelou Hange. A comandante mergulhou de boca fechada, no entanto não segurou a respiração a tempo e logo sufocou. A sensação de não respirar a angustiou, mas ela sabia que Levi se sentia pior. Em terra, Floch mandava os yeageristas perseguirem a fugitiva. Apesar da pressão nos ouvidos, ela conseguia ouvir o galope abafado dos cavalos. Hange nadou à favor da correnteza por alguns segundos, e então emergiu tomando o cuidado de fazer Levi pôr o nariz e a boca para fora da água.
— LÁ ESTÁ ELA! — Berraram os perseguidores.
Hange afundou. Balas de rifle invadiram a água a esmo, errando o alvo e os peixes em volta. Com os óculos presos na palma da mão e o braço agarrado à Levi, a comandante continuou nadando a favor da correnteza e emergindo de tempos em tempos para respirar. Nessas rápidas aparições, Hange contava os inimigos. Calculou cinco. Hange prosseguiu na mesma rota a fim de acostumar os yeageristas ao padrão de seguir em linha reta. Ao julgar estarem longe do local onde Zeke apareceu, a comandante deu meia-volta e enfrentou a correnteza. Era difícil nadar com uma mão só. Por sorte, não precisava se demorar – era só questão de despistar os yeageristas.
Quando bolhas de ar começaram a escapar pelas narinas de Levi, Hange desafundou-se. Ela notou, de relance, os cavalos correndo na direção oposta. Era questão de tempo até os yeageristas perceberem que Hange não mais aparecera para respirar e que seu cadáver recém abatido não boiava na superfície. A comandante saiu apressada do rio, puxando o capitão semi-inconsciente para a margem. Hange pôs Levi nas costas de maneira que os braços do capitão abraçassem seu pescoço e a cabeça pendesse em seu ombro. Segurando-o pelas pernas, Hange partiu em disparada rumo à floresta Titã.
— EI! COMANDANTE!
Afinal, os yeageristas não eram tão burros. Eles deixaram alguém (Robin) verificando a retaguarda. Robin, porém, era apenas um recruta recém formado, ou seja, sua experiência com armas de fogo restringia-se ao treinamento básico de cadete. Convenhamos, os alvos do treino não são seres humanos. Os braços hesitantes de Robin empunharam o rifle. O tiro não passou nem perto de Hange.
A comandante alcançou o bosque e desapareceu na vegetação. Hange já havia estado naquela floresta mil vezes. Ela correu em zigue-zague fora da trilha por um minuto, então parou e recolocou os óculos.
Hange ofegava. A roupa encharcada a atrapalhava. Os lábios tremelicavam de frio embora o resto do corpo fervesse de adrenalina. Ela pôs Levi na grama, um pouco escondido nos arbustos, e remexeu a calça do capitão. Em missões, Levi sempre carregava uma faca por precaução — "nunca se sabe quando as espadas vão faltar". Dito e feito. Lá estava a faca embainhada em couro.
Entre o canto dos pássaros, ouviu-se os cascos de um cavalo e a voz de um garoto na trilha do bosque.
Os yeageristas foram irresponsáveis. Robin não entendia nada sobre combates reais. O recruta não devia ter vindo atrás de Hange sozinho. Embora o erro de Robin a beneficiasse, Hange não pôde evitar o sentimento de pena. A comandante apurou a audição, espreitou a trilha e calculou de qual lado Robin apareceria. Hange encostou a faca no peito e controlou a respiração esbaforida. Não havia espaço para misericórdia.
Antes que Robin tivesse chance de defesa, Hange saiu da vegetação e o atacou pelas costas. O garoto berrou e pressionou o gatilho do rifle, que atirou para cima. Hange não se intimidou perante o barulho estrondoso e nem com a certeza de que o tiro atrairia os inimigos. Ela derrubou Robin do cavalo. O garoto lutou, mas Hange era uma soldada veterana. Em segundos sujava-se com o sangue do recruta.
Hange tentou não pensar que acabara de esfaquear um garoto que assistiu ao seu discurso na cerimônia de formatura. Sem se atentar ao cadáver, Hange roubou o rifle e voltou para buscar Levi. A essa altura, os yeageristas corriam atrás dela. Entretanto, Hange possuía a vantagem. Ela conhecia a floresta, e o barulho dos cavalos os denunciava.
Em determinado momento, Hange escutou o galope forte de dois animais. Hange escondeu-se atrás de uma árvore e esperou-os. A dupla de yeageristas entrou em seu campo de visão. A na dianteira era Mayla. Hange, ignorando a dor no coração, a derrubou com dois tiros na barriga. O segundo yeagerista, Oliver, parou de chofre, desorientado e chocado. Hange o abateu com um tiro no peito.
Hange correu até eles a fim de roubar as munições. Ao abaixar-se para pegar o rifle de Mayla, descobriu que a cientista morrediça agarrava-se a um filete de vida.
— C-c-co
Hange atirou na boca de Mayla antes que ela terminasse de dizer comandante.
Mais dois yeageristas foram mortos em condições semelhantes. Faltava um. No fervor da adrenalina, de propósito Hange caçou o último perseguidor por dois ou três minutos, e como não o encontrou, rumou para o acampamento. No caminho Hange coletou babosas, calêndulas, e todas as espécies de ervas medicinais pela frente.
No acampamento, titãs mortos terminavam de desaparecer. Restavam apenas os ossos das carcaças, e estes evaporavam através das pequenas clareiras por onde o sol do céu pós-chuva entrava na floresta. O acampamento estava bagunçado. Barracas espalhadas davam a entender que alguns soldados se transformaram dentro das tendas.
Levi pesava mais do que Hange. O esforço de carrega-lo para cima e para baixo veio cobrar as costas da comandante. Empapada, suja de sangue e exausta do confronto, Hange só queria trocar de roupa e dormir. Porém, Levi precisava dela. A comandante colocou Levi no chão e se pôs a procurar kits de primeiros socorros. Achou uma caixa perdida, panos limpos e um estoque razoável de água potável.
Hange lavou as mãos ensanguentadas, arregaçou as mangas e se pôs a tratar Levi. Hange o despiu a procura de fraturas e outros ferimentos. Ele deve ter se protegido da explosão, pois além das normais escoriações, o único ferimento que Hange encontrou foi na mão destra do capitão, onde dois dedos – o indicador e o médio – faltavam. Hange limpou as feridas de Levi e removeu as estacas de madeira alojadas na bochecha. Depois, ela amarrou a cabeça machucada em panos secos.
Após fazer o mesmo com a mão lesionada, Hange deixou-o em paz e foi cuidar de si. Ela não suportava o cheiro ferruginoso em suas vestes. Sempre mantendo o rifle por perto e prestando atenção aos sons da floresta, Hange correu até as instalações que ela sabia serem de Levi e roubou um conjunto de roupas. Somente rapazes foram escalados para a missão. Se era para vestir as cuecas de alguém, Hange colocaria as do namorado, Levi gostando ou não.
Salvo a calcinha, o sutiã e o tapa-olho, Hange jogou fora as roupas imundas. Ela voltava a Levi quando um relincho chateado chamou sua atenção.
— Huh? Lucy? Menina, parece que o seu dono esqueceu de desamarrar você.
Disse Hange numa voz meiga à égua negra amarrada na sombra com feno e um balde d'água. Hange removeu as rédeas e deixou a égua livre. Lucy trotou até o seu dono desmaiado, indo direto cheirar as plantas medicinais largadas perto do capitão. Hange sacudiu os braços num gesto amplo e baliu êêeiaaaaa. Lucy deu-lhe um olhar de censura e partiu.
Hange preparou uma pomada natural mais eficaz na cicatrização de feridas do que os remédios do kit de primeiros socorros. Ela desfez o curativo improvisado e analisou o feio rasgo na face de Levi. Suspirando, Hange apanhou a agulha, o porta-agulha e as linhas de sutura. Antes de começar, Hange inclinou-se sobre Levi e beijou o pedacinho de pele imaculada na testa do capitão.
— Me desculpe, Levi. Vai doer um pouco.
Cuidar de pessoas desacordadas é fácil. O capitão não apresentou resistência quando Hange inseriu a agulha, tampouco quando ela costurou as partes profundas do corte, e menos ainda quando fechou os nós. Uma vez que Hange pegou o ritmo, suturar tornou-se uma tarefa tranquila e repetitiva. A etapa demorada foi a pálpebra; por ser uma pele fina, exige meticulosidade.
— Então, só você sobreviveu, Levi? — Hange conversava sem esperar resposta. — Todos os soldados foram transformados em titã, mas você não. Duvido que você não tenha provado o vinho. Você não virou titã pelo mesmo motivo que o lança-trovões não te matou: porque você é um Ackerman.
Não importava a pureza eldiana do pai de Levi, os genes dos Ackerman eram dominantes. Levi era imune à maldição do povo de Eldia. Hange terminou a pálpebra. Ambos seriam caolhos daqui por diante. Hange alegrou-se ao fantasiar-se ensinando Levi alguns macetes para lidar com a visão unilateral.
Nesse instante, um crec baixinho alertou Hange. Parecia alguém pisando num galho. Hange virou-se num único movimento ligeiro e apanhou o rifle. Ela mirou no exato lugar de onde o ruído veio – um arbusto grande perto das árvores. Hange encarou o arbusto em busca de anormalidades. Uma estranha sombra se moveu. Hange atirou. Na hora o último yeagerista tombou, morto por um tiro entre os olhos que Hange acertou na sorte.
— Ótimo. — Hange disse em voz grossa e entalada. ÓTIMO não era a palavra adequada. — Os perseguidores estão mortos, Levi.
Enfim terminado os pontos, Hange passou para a mão de Levi. Ela fez carinho na palma e nas costas da mão ferida. Levi vai detestar saber que perdeu justo o dedo do meio, pensou Hange, sorrindo com amargura.
Conforme a função de tratar os machucados de Levi chegava ao fim, Hange refletia sobre os eventos desconcertantes das últimas horas. Niccolo sabia o tempo todo sobre o vinho envenenado, e apesar de evitar a contaminação de seus amigos e da família da namorada, Niccolo guardou a perigosa informação até o limite. Hange, contudo, perdoou e esqueceu Niccolo. Não se pode mudar o passado.
Do jeito que estavam, foragidos, Levi arrebentado, não havia nada que Hange pudesse fazer além de torcer para os outros comandantes salvarem a ilha. Porém, Nile, Pixis e Kayle ingeriram o vinho. Qualquer represália era imprudente. Zeke poderia transformá-los em titãs a qualquer minuto. Isso punha os oficiais nas mãos de Zeke e dos yeageristas. Hange sentia a urgência de ir até as muralhas, mesmo sem um plano.
— Independentemente de Eren estar do nosso lado, os yeageristas estão comandando a ilha — Monologava Hange. — Você viu como eles nos perseguiram. Não se preocupe, eu os matei. Esfaqueei um recruta à queima-roupa e atirei nos outros. Meus próprios soldados... eu sabia o nome de todos. — Hange pôs as mãos na cabeça. — Nós somos criminosos. — Hange recordou o pressentimento de que era uma questão de tempo até a colocarem na cadeia por estar tentando ajudar. — O mundo está diferente agora, Levi. Eu tentei fazer a coisa certa e não consegui. Não considerei que haveriam pessoas dentro do nosso exército dispostas a conspirar com Yelena e Zeke. Coloquei você e eu numa cela. Não consegui honrar a morte dos nossos companheiros e nem salvar os que ainda me restam.
Hange envolveu a cabeça e a mão de Levi em bandagens limpas. Levi, o único sobrevivente da velha guarda, e o único em quem Hange confiava de verdade, ainda estava vivo. Hange cuidaria dele. A pulsação estava ótima e pelo visto o capitão não quebrara nenhum osso. Levi ficaria bom.
— Se nós retornarmos às muralhas, vão matar a gente. — Hange retomava o solilóquio. — Eu nunca mais vou ver a Bolinha... é, ela está mais segura longe de mim. Se eu deixar todos pensarem que você e eu morremos, ninguém vai fazer mal à minha filha. Vão esquecer dela. — Lamuriava Hange, perdida num personagem derrotado e pessimista, ao silencioso Levi. — Vai ser melhor se nós dois vivermos escondidos aqui na floresta... certo, Levi?
A noite caiu. Hange queria descansar, entretanto precisava acompanhar a recuperação de Levi e vigiar o acampamento. Após fazer o capitão engolir um analgésico, Hange catou um amontoado de galhos secos e acendeu uma fogueira. Ela se sentou ao lado de Levi, colocou o rifle no colo e iniciou a vigília. Era a segunda noite que Hange passava fora, e dessa vez não havia maneiras de avisar à Leona que sua mãe não voltaria para casa.
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