Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
50 (BÔNUS) Olha só pro seu tamanho
Notas iniciais
Era o dia de folga de Hange. No entanto, um problema com o fornecedor da matéria-prima dos lança-trovões a levou a marcar uma reunião com o dono da companhia para aquela data. Como Minnie não trabalhava nos dias de folga da patroa, a comandante precisou levar Leona, sua filha de cinco anos, ao quartel-general.
Armin e Mikasa ficaram felizes em vigiar Leona enquanto Hange atendia o empresário. Armin preparou mingau, o doce favorito de Leona, para os três, o qual a menina comeu em colheradas cheias, vez ou outra pontuando a refeição com elogios aos dotes culinários de Armin. Quando seu prato fundo já estava quase vazio, Leona pediu, entusiasmada:
— Mana, você corta o meu cabelo igualzinho ao seu?
— Igual ao meu? — Mikasa apontou para si mesma, surpresa.
— Sim!
— A sua mãe não vai se zangar, Bolinha? — Armin perguntou.
— Não vai não. Ela ia cortar o meu cabelo hoje.
Isso era uma mentira deslavada. O cabelo de Leona estava nos trinques. A franja curta e a nuca aparada indicavam que o corte era recente. Mikasa deu um olhar cheio de pena a Armin. O soldado, contudo, já pensara numa solução.
— Você está mesmo precisando cortar. Acho que tudo bem deixar o cabelo da Bolinha igual ao seu, não é, Mikasa? Eu vou pegar uma tesoura.
Armin deu uma piscadela à Ackerman. Mikasa entendeu a ideia de Armin imediatamente.
— Tá. — Mikasa se levantou. — Vem, eu vou lavar o seu cabelo.
Mikasa levou Leona ao banheiro feminino. Lá havia uma porção de chuveiros de ferro, um do ladinho do outro, e sem nenhuma divisória separando-os. Leona achou aquilo muito estranho, pois os aposentos de sua mãe no quartel-general incluíam um banheiro individual.
— Não, não. — Explicou Mikasa. — Só a sua mãe, os líderes de esquadrão e o capitão Levi têm banheiro no quarto, Bolinha. Sabe os recrutas? Eles nem quarto próprio têm. Eles moram no dormitório.
— Eu já fui lá. É uma casona com um monte de camas. É como uma festa do pijama!
— Não é tão divertido. — Mikasa ligou o chuveiro na água morna. — Agora deite a cabeça um pouco, espera, não muito, se não você molha a sua roupa... isso, assim.
Mikasa ajudou Leona a se inclinar. Leona fechou os olhos e por instinto trancou a respiração quando a água morna bateu em sua testa. Mikasa entrou no personagem e lavou o cabelo de Leona com shampoo e tudo. Depois, voltaram ao refeitório e se encontraram com Armin.
— Preparada, Bolinha? — Armin apontou para a cadeira com a tesoura.
— Sim! — Leona sentou-se, toda contente.
Armin entregou a tesoura a Mikasa. Pelos próximos dez minutos, Mikasa fez bastante barulho abrindo e fechando a tesoura perto da cabeça de Leona, sem encostar nas mechas douradas. Armin prontificava-se em varrer os cabelos imaginários, pois Leona era esperta o bastante para perceber que nenhum fio caiu. Os soldados cantarolavam uma canção infantil. Leona entrou na cantoria, balançando as pernas no compasso da melodia alegre.
— Pronto, Bolinha. — O término do trabalho findou a música. — Agora eu vou secar você.
Após esfregar a cabeça de Leona, Mikasa penteou-a de forma a repartir a franja rebelde em três mechas. O penteado não iria aguentar o dia inteiro, mas por ora distrairia Leona.
— Assistente Armin. — Chamou Mikasa. — Espelho.
Armin pôs o espelho na frente de Leona. A menininha gritou e alisou a franja, feliz da vida por estar "igualzinha" à Mikasa.
— Agora só falta eu ficar alta, forte e peituda!
Leona não entendeu por que Armin deu tanta risada, e nem por que o sorriso de Mikasa parecia meio envergonhado.
— Você vai ser melhor do que eu.
Mikasa deu um beijinho de esquimó em Leona que fez a criança corar e se derreter. Em seguida, a menina saiu pulando.
— Quero mostrar o meu cabelo pro Eren! — Anunciou Leona. — Cadê ele?
— Deve estar com o Floch. Vamos procurá-los.
Os encontraram numa das salas de descanso do quartel-general. Como era fim de semana, a sala estava vazia exceto pelos dois amigos. Eren e Floch papeavam jogados no sofá. Armin percebeu que eles pararam de conversar quando os três chegaram.
— Eren, Floch, vocês estão vendo algo novo em mim?
De olhinhos fechados e cabeça erguida, Leona sacolejava o penteado que já começava a ruir. Floch e Eren entreolharam Mikasa e Armin. Mikasa enrolou a própria franja no dedo e deu um olhar ameaçador à dupla — elogiem ela.
— Você cortou o cabelo igual ao da Mikasa? — Eren enfim entendeu. — Ficou muito bonito, Bolinha.
— É verdade. — Concordou Floch. — Eu mal consigo dizer quem é quem. — Acrescentou ele de maneira exagerada, fazendo com que os outros balançassem a cabeça.
Leona não reparou na falácia.
— Mano, mana, vocês me levam no estábulo? Estou com saudades do Buck e da Lucy.
— Vish. — Chiou Armin. — Eu não sei se é possível, Bolinha. Alguns recrutas estão treinando cavalaria hoje. Eu vou ver se já liberaram, ok?
— Por falar em "liberar", acho que a reunião da sua mãe já acabou. — Mikasa conferiu o horário no relógio da sala. — Eu vou lá dar uma checada. Eren, você cuida da Bolinha?
Eren bateu continência. Floch e Leona deram risadinhas. Assim que Mikasa e Armin desapareceram, Eren agachou-se em frente à menina e instigou-a:
— Então você quer ser igual à Mikasa, Bolinha? — Eren deu um sorrisinho ardiloso. — Será que você é boa de briga como ela?
— Tampinha como a Leona é, duvido muito. — Floch deu corda.
Leona teve a exata reação que os garotos esperavam de uma criança brincalhona, confiante e burra feito ela: a menininha se pôs em posição de ataque, ergueu os punhos fechados e respondeu:
— Sou sim! Eu ando treinando pra te derrotar! Pode vir!
Eren foi. Ele rendeu Leona em dois segundos e atacou-a com cócegas que eram mais cutucões dolorosos do que fricções leves. Leona, aos protestos, debateu-se em tentativas de revidar. Ao fundo, as gargalhadas de Floch atiçavam a jovem lutadora que não daria o braço a torcer.
Leona não acreditou quando, em meio a chutes e socos, ela encontrou uma brecha. Os dois rolaram e Leona ficou por cima. Finalmente, após inúmeros e inúmeros combates perdidos contra Eren, ela recebeu sua chance de vingança. Leona esmurrou o rosto e o peito daquele soldado malvado e puxou o cabelo comprido até Eren falar ei ei isso dói. Leona não sossegou. Esse era o seu momento!
Então, Eren parou de reagir. A garotinha risonha empurrou-o, tentando despertá-lo. Queria Eren acordado durante a surra.
— Acorda, seu fracote. Ainda não acabei com você.
Eren não respondeu. Leona o empurrou com mais força. Eren permanecia imóvel, como se estivesse...
— Minha Santa! Ah, pelo amor da Santa, Leona!
Floch ajoelhou-se com as mãos no rosto horrorizado. O pânico de Floch alarmou Leona. A menininha não sorria mais. Floch pôs dois dedos no pescoço de Eren e, exclamando um OH! apavorado, afastou-se como se tocá-lo o tivesse queimado. Ele começou a soluçar um choro barulhento e sem lágrimas.
— Leona, o Eren está morto.
— H-hein?! — Leona arregalou os olhos.
— Ele está morto. Apagado. Estirado. — Floch mirou Leona com um olhar misto de pena e assombro — Bolinha, você matou o titã de ataque... o que a sua mãe vai pensar?
Assustada e tremendo, Leona fitou o corpo espalhado de Eren. O soldado jazia com a língua para fora. Não foi de propósito! Leona jamais mataria alguém!
— Foi um acidente! — Leona chorava. — Foi sem querer!
— E agora, Bolinha? — Floch pôs as mãos na cintura e estalou a língua. — Tsc, tsc, tsc. Não tem jeito, você vai pra cadeia. Decapitação para você, Leona Zöe Smith. — E fez um movimento cortante com a mão reta, perto da garganta.
Leona berrou NÃÃAO e saiu correndo. Floch a perseguia em passos largos e lentos, esticava a mão e fingia tentar agarrá-la. Leona gritava que não queria ir para a cadeia, que não matou Eren por querer, e a chamar pela mãe.
Os gritos transpassaram as paredes grossas. Jean, Mikasa e Armin vieram verificar os motivos dos uivos, e não se surpreenderam ao ver Leona fugindo de Floch. A menina buscou salvação em Mikasa, lamuriando-se "foi sem querer, mana, foi sem querer". A soldada pegou a criança no colo e franziu as sobrancelhas para Floch.
— Floch, o que você fez com ela? — Mikasa perguntou em voz dura. — Pobrezinha, está tremendo...
— Por que a culpa é só do Floch? Pode muito bem ser desse paspalho. — Jean, soando peculiarmente ofendido, apontou para o Eren esparramado.
— Eren, por que você está no chão? — Perguntou Armin.
— Ele e-está morto, mano. — Leona fungou. — Eu matei o Eren. Foi sem querer, desculpa.
Floch ria entredentes. Os recém-chegados emudeceram num primeiro segundo, e no próximo entendiam a brincadeirinha da dupla. Jean deu uma bicuda nas costelas do "morto". Eren se contorceu feito uma aranha.
— Morto?! — Desdenhou Jean. — Bolinha, meu amor, vaso ruim não quebra.
— Precisava chutar o Eren desse jeito? — Mikasa repreendeu-o.
— Eren, pede desculpas para a Bolinha. — Disse Armin, cruzando os braços.
Leona estava embasbacada. Acabara de presenciar o milagre da ressurreição. A menina se desvencilhou do colo de Mikasa e foi até Eren. Leona queria tocá-lo, mas hesitava. E se sua mão atravessasse o corpo de Eren? Ela deu um cutucãozinho no braço do soldado. Era sólido. Carne e osso.
— Eren, você está vivo! — Leona comemorou, aliviada. — O Jean reviveu você!
— É. — Eren deu de ombros. — De volta dos mortos.
Armin pigarreou. Eren revirou os olhos.
— Na verdade, eu me fingi de morto pra mexer com você. Só isso.
Os gritos agudos e furiosos de Leona fizeram Eren e todos os outros desejarem estar mortos.
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