Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
23 (BÔNUS) Fiz com minhas próprias mãos
A porta do quarto de Hange emitiu um clique baixo ao ser aberta. Mesmo assim, Leona estremeceu ante o barulho. Na ponta dos pés descalços, caminhou a passos curtos até o armário da mãe, tomando cuidado para não pisar nos livros espalhados. Deu uma olhadela para a porta semiaberta. Ninguém à vista. Lá em baixo, Minnie cantarolava na cozinha. Ótimo.
Leona fez careta quando a porta do guarda-roupa rangeu. Parou antes de abri-la totalmente, temendo o barulho ter chamado a atenção da babá. Apurou os ouvidos. Minnie continuava no andar de baixo, cantando feito uma gralha azul sofrendo de bronquite — e você sabe que o pio da gralha azul já é horroroso em seu estado normal. Encorajada de repente, Leona escancarou a porta do armário.
Examinou o guarda-roupa. Três cobertores descansavam dobrados no quadrado abaixo dos cabides, e no topo havia uma porção de tralha. Sacolas, cintos, estojos, cachecóis, chapéus; coisas que sua mãe ia usando e guardando de qualquer jeito. Nos cabides estavam pendurados os ternos para festas e eventos formais. As calcinhas, sutiãs, calças e camisas deviam ser, supostamente, guardadas nas gavetas e prateleiras. Entretanto, estas envolviam-se umas nas outras e formavam a bola de roupa limpa repousando na escrivaninha. Era daquele amontoado que sua mãe escolhia a vestimenta do dia a dia.
Leona focou-se nos cabides. Entre os ternos existia um casaco perfeitamente limpo e passado. O comprimento da roupa ia até os joelhos de sua mãe, e um cinto grosso acompanhava a peça. Aquele casaco era parte do uniforme oficial da Tropa da Exploração. Hange o vestia somente para visitar a Capital, e esse era o motivo do casaco ser cuidado com tanto zelo, em vez de andar atirado por aí. A roupa tinha dois anos, mas Hange a guardava tão bem que parecia nova.
Puxou o sobretudo pela manga comprida. O cabide girou na vara e veio junto. Leona caiu sentada com a roupa por cima. O casaco cobriu a cabeça e o tronco da menina, deixando só as pernas e as mãos de fora. Atordoada por um momento, Leona olhou para a esquerda e para a direita. Não viu nada além de escuridão pura. Então, puxou o casaco por cima da cabeça e voltou a enxergar.
Lembrou-se de Minnie. Engoliu o ar num suspiro assustado, endureceu a postura e ficou em silêncio. Nada. Nenhum passo na escada e nenhuma voz chamando seu nome. Leona limpou a testa com o pulso, embora não houvesse suor algum. Ergueu-se num pulo, lembrando de fechar a porta ao sair.
Suspirou aliviada ao alcançar seu próprio quarto. Encostou as costas na porta com os braços abertos, tranquilizando o coraçãozinho palpitante. Sorrindo, Leona abraçou o casaco, respirou o cheiro da roupa lavada e saltou de alegria pela primeira parte do plano ter sido um sucesso.
Hoje é dia das mães. Leona e Minnie fizeram um presente para Hange naquela manhã – uma cartinha colorida e sem graça, cujo conteúdo eram palavras de Leona escritas na letra de Minnie. A garotinha achava que sua mãe merecia mais. Muito mais. Por isso tinha o casaco consigo agora.
Não era como se Minnie não pudesse saber do projeto. Leona teria contado a ela com o maior prazer do mundo. No entanto, a voz da consciência aconselhou manter segredo. Minnie não gosta de modificações e personalizações, portanto, entenderia mal a arte que Leona planejava fazer. Ao contrário de sua mãe, uma amante do desmonte e das transformações. Ah, ela ia gostar tanto do presente! Leona já conseguia vê-la sorrindo de orelha a orelha.
Sendo assim, Leona deitou o casaco aberto no chão, com as costas para cima. Fez isso com muito cuidado, pois essa roupa é preciosa. Correu para a caixa de brinquedos, que tinha o formato de um baú de piratas, e mergulhou metade do corpo no mar de bonequinhos. Leona procurou, procurou e procurou, até encontrar o estojinho de pintura ganho no aniversário de quatro anos.
Leona organizou os oito potinhos perto do casaco. Azul, vermelho, marrom, amarelo, laranja, verde, rosa e preto. O casaco da sua mãe já tinha verde, marrom e azul. Para evitar repetição de cores, resolveu descartar essas tintas e só usar as outras.
Afundou o pincel na cor vermelha. O usou para colorir a primeira pena branca da asa da liberdade. Afinal, todo mundo sabe que branco não é cor, e sim tela vazia esperando tinta. Leona queria usar amarelo para a segunda pena, porém, percebeu que não trouxera água para limpar o pincel. Esse imprevisto, contudo, não abalou Leona. Ela tinha dez dedos e apenas cinco cores – uma mão bastava. A garotinha pôs o pincel no chão, sem reparar nas cerdas encostando no tapete, e molhou o dedinho na tinta amarela.
Em pouco tempo, o casaco, o piso, o tapete e Leona ficaram coloridos. A garotinha espalhou a tinta laranja na palma da mão limpa e saiu marcando o espaço ao redor do emblema do exército, deixando suas digitais por todo o caminho. Depois, retomando o pincel, tentou escrever o nome da mãe. Leona só sabia fazer o H e o Z. As duas letras foram escritas em garranchos trêmulos no cinto atrelado à roupa. Para dar o toque final, desenhou flores nas mangas do casaco, começando pelos ombros e indo até os pulsos.
Leona coçou o nariz, e nisso seu rosto recebeu uma bela camada de tinta. Não faz mal. Suas roupas e braços estavam numa situação bem mais deplorável. Conseguiu sujar até os cotovelos, sabe-se lá como.
Então, por fim, sua obra de arte ficou pronta. Leona colocou os pulsos na cintura e balançou a cabeça, aprovando o resultado do trabalho árduo. A segunda asa do emblema ficava muito mais bonitas em várias cores, em vez daquele branco sem graça. As flores davam um charme feminino, e as inicias de sua mãe impediriam furtos acidentais. Perfeito. Muito melhor do que a versão original.
Após terminar o presente, deixou a tinta secando e correu para a janela. Subiu no banquinho para ficar na altura do vidro. Apoiou os cotovelos pintados no parapeito, deixando dois círculos de tinta vermelha na madeira, e ficou olhando a rua, vibrando de expectativa. Mal podia esperar para ver a carruagem chegando com sua mãe.
Não imaginava que faltava uma hora para Hange voltar. Olhava fixo para a esquerda da rua, lado de onde sua mãe apareceria. Conforme os segundos passavam, Leona ia ficando mais e mais nervosa. Hange lhe ensinou que um minuto é composto de sessenta segundos, e uma hora é feita de sessenta minutos. Leona sabia contar até cem. Ansiando por ter algo para fazer, passou a apontar o dedo bicolor para a as pessoas na rua, contando uma a uma até o número sessenta, e recomeçando a contagem para acrescentar mais um minuto a sua espera.
Leona se perdeu após o terceiro conjunto de números, no entanto, continuou contando as pessoas, agora acrescentando animais e plantas a fim de acelerar a enumeração. Uma família gigantesca veio pela direita. Avó, mãe e cinco criancinhas. Leona apontou um por um, exclamando para si mesma:
— Vinte e sete, vinte e oito — fez uma pausa para respirar — vinte e nove, trinta, trinta e um...
A partir daí a língua enrolava. A casa do trinta virou a casa dos T. Em vez de trinta e dois, dizia "t dois", e assim por diante, até chegar ao quarenta e retomar a fala correta. O exercício não ajudou a controlar as horas, mas serviu para passar o tempo. Distraída com os pedestres, Leona mal viu quando a carruagem estacionou perto do portão. Só percebeu pelo relincho dos cavalos.
Excitada, Leona saltou da janela e ficou rodando em volta do casaco. Queria leva-lo para baixo, todavia seria mais emocionante mostra-lo no quarto. Leona parou sobre o tapete, tonta e agitada. Tirou a franja da frente dos olhos, a penteando para a esquerda. As mechas ficaram pintadas de preto e rosa onde os dedos tocaram. Aguardava impacientemente. Ouviu o timbre de sua mãe conversando com Minnie. A voz de Hange trouxe amor ao peito de Leona; se arrepiava só de ouvi-la. Então, vieram os passos na escada. A passada indicava que a mãe deixara as botas na porta da casa – embora ela continuasse pisando forte e audível. Hange perguntou do lado de fora, numa voz amável:
— Cadê o meu filhotinho?
Leona riu entredentes. Seu cérebro disse para esperar Hange surpreender-se por si mesma, entretanto, a boca linguaruda agiu mais rápido.
— Mãe, vem ver o que eu fiz pra você.
A garotinha pegou o casaco. A tinta não secara completamente, mas a afobação infantil a fez não notar os desenhos derretendo. A porta do quarto foi aberta, e o que Hange viu foi: o quarto desorganizado, o chão manchado, o tapete salpicado – minha Santa, ia dar trabalho limpar esse tapete – e Leona no meio disso tudo, tão multicolor quanto a roupa em suas mãos.
— Olha, mãe, decorei o seu casaco de passear na Capital.
Leona avançou em Hange, e antes que a comandante chocada pudesse fazer qualquer coisa, prensou o casaco nas pernas dela, carimbando as calças branquinhas. Minnie apareceu tagarelando sobre qualquer coisa, e ao ver a bagunça, ficou tão pálida quanto papel.
— Bolinha, você...
Hange pegou o sobretudo pelos ombros, tentando não tocar nas flores. De queixo caído, mirou o estrago feito por sua filha. Aquele era o seu único casaco de reuniões. A tinta, além de não ser de boa qualidade, dava trabalho para lavar. Precisaria usar uma porção de produtos para limpar o sobretudo, e o tecido ficaria desmantelado após a lavagem. Em suma, o casaco não tinha salvação. Estava escangalhado para sempre.
Em contrapartida, Hange não conseguiu ficar zangada. Os dois garranchos no cinto não deixavam — quase chorou ao reconhecer o H e o Z. E as marquinhas da mão de sua filha... ah, eram adoráveis. A mãozinha dela era tão pequena e perfeita. Leona, notando o deleite de Hange, bateu palmas e saltou no mesmo lugar.
— Feliz dia das mães!
Hange sentiu as bochechas esquentarem ao ver Leona com aquele sorriso largo e contente no rosto tricolor. Hange passou o dedo no vermelho vermelho fresco e o esfregou no próprio nariz. Mãe e filha deram risada.
— Veste, veste, veste.
E não é que Hange vestiu mesmo? A comandante o colocou por cima da camisa branca, afivelando o cinto e tudo. Abriu o armário de Leona para poder se ver no espelho interno. Virou-se e admirou o emblema colorido nas costas do uniforme. Quem liga para um casaco burro? Aqueles desenhos desconjuntados eram lindos. Hange sorriu de orelha a orelha, e uma lágrima brotou atrás de seu olho.
— Mãe, você tá bonitona.
Leona deu um tapa no traseiro de Hange. A comandante gargalhou e saiu correndo atrás dela. Leona, por sua vez, chispou rapidinho, dando risada.
— Ei, vem aqui, vou bater na sua bunda também.
— Não!
Correram em círculos, quase derrubando os potes de tinta. Hange deixou Leona fugir um pouquinho, e depois a agarrou. A levantou pela lateral do corpo, a fazendo ficar com as pernas e a cabeça no ar. Cumpriu a promessa estapeando o bumbum da garotinha. Leona, rindo sem parar, se contorceu nos braços de Hange, tentando escapar do ataque.
Enquanto isso, Minnie aguardava na porta. Tinha as mãos juntas na frente do vestido, e a palidez dera lugar a um rubor envergonhado. A adolescente murmurou, baixinho e insegura:
— Desculpe, comandante.
— Está tudo bem. A culpa foi minha por ter deixado essas tintas no baú da Leona.
A descontração de Hange tranquilizou Minnie. A babá sorriu pequeno, desviando o olhar. Hange soltou Leona. A garotinha correu ao redor de Minnie, perguntando se a babá gostou do casaco. A comandante retirou a roupa cuidadosamente para preservar a pintura, e a estendeu a fim de deixar a tinta secar. Mais tarde, encomendaria outro. Quanto ao "danificado" por Leona, Hange o levou para o trabalho na manhã seguinte e mostrou para todos os subordinados. Uniformes oficiais existem aos montes. Peças personalizadas por sua filha, são únicas.
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