Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
24 Sangue do meu sangue
Eram duas da tarde de um domingo ensolarado perfeito para piqueniques. No entanto, Floch estava longe de achar o dia agradável. As gaivotas enchiam o saco berrando para lá e para cá. De tempos em tempos, mergulhavam de cabeça no mar e voltavam com peixes no bico, enquanto outras se contentavam em descansar no alto dos navios. Aqueles animais se reproduziam feito pragas. Nem inauguraram o porto e as aves já tinham infestado o terreno.
Floch embalava a si mesmo apoiando o peso do corpo na ponta dos pés e depois cedendo nos calcanhares. Tinha os braços cruzados e munição de rifle guardada no uniforme. A referente arma encontrava-se presa no suporte amarrado às suas costas. Direcionou o olhar entediado para o horizonte, exausto da cor azul.
Não aguentava mais trabalhar na base litorânea. Levava horas para se locomover da praia para as muralhas, tanto que nem valia a pena voltar para casa depois do expediente. Por esse motivo, Floch passava a semana na porcaria do oceano e só voltava na sexta. De acordo com seus superiores, a construção da ferrovia diminuiria o tempo do deslocamento para meia hora. Porém, isso só ia acontecer daqui muitos meses, e Floch não suportaria nem mais uma semana comendo frutos do mar. Anteontem enviou um pedido de transferência. Esperava ter a solicitação deferida.
O porto estava quase finalizado. A própria ilha os presenteara com um buraco gigantesco na costa do mar, livre de correntes marítimas. Perfeito para a base da construção. De acordo com os voluntários, as rochas em volta não atrapalhariam a passagem dos navios, uma vez que o espaço era grande o bastante para dois passarem lado a lado sem dificuldade.
Começaram a obra há menos de dois anos e faltava pouco para termina-la. A rapidez, é claro, era devida a mão de obra local. Rápidos e competentes, os paradisianos trabalharam dia e noite para levantar aquele porto digno de um país em desenvolvimento. Quanto aos marleyanos... haha, esses mal puseram a mão na massa. Simplesmente pegaram planilhas e saíram por aí dando ordens.
No píer, ao lado de um navio marleyano sequestrado, Armin e os engenheiros discutiam os últimos passos para a finalização do projeto e os primeiros para a abertura. O escriba transcrevia a conversa para o caderno – escrevia agilmente e sem solicitar repetições. Floch, na retaguarda do grupo, cumpria seu papel de vigia.
— Como andam as entrevistas?
Questionou Armin aos voluntários. Eram quatro homens. Quem respondeu foi o mais velho deles, o senhor grisalho com a bela barriga de cerveja tentando pular pra fora das calças.
— Boas, já estamos com quase todas as vagas preenchidas.
É óbvio que as entrevistas ficariam a cargo dos marleyanos. Eles entendem como funciona um porto. Eles têm conhecimento sobre classes de barco. Eles compreendem a infraestrutura de um país. Eles são os bonzões. Então, somente eles podem contratar empregados. Floch não sabia se tinha algum eldiano envolvido na admissão dos funcionários. Daria um jeito de descobrir. Se não tiver, já imaginava que o porto de Paradis será uma panelinha de marleyanos imundos.
— Perfeito. Já podemos empregá-los? — Perguntou Armin, animado.
— Com toda a certeza. Planejamos ter tudo funcionando antes da abertura.
Os cinco continuaram conversando. Armin gesticulava durante a fala, vez ou outra fazendo gestos para o mar aberto, especialmente nas partes onde falava da maravilha-que-vai-ser-ver-esses-navios-indo-e-vindo. Floch torceu o nariz. Armin conversava com aquele bando de bunda-mole como se fossem gente das muralhas, e não opressores históricos. O rifle descansava no suporte. Seria pego facilmente com um só movimento de mão. Ah, como queria apanhá-lo agora.
Cinco anos atrás, Floch carregou Erwin Smith nas costas até Shingashina, sujou-se com o sangue do líder e o defendeu. Seus esforços em manter o antigo comandante vivo só serviram para vê-lo agonizar até a morte no telhado de uma casa qualquer. Ninguém teve culhões para acabar com o sofrimento do coitado. O braço direito de Erwin não fez nada, tampouco a mãe da sua filha. Os dois superiores de Floch preferiram deixar o moribundo delirar até sucumbir aos ferimentos. Floch ficava chocado quando pensava nisso.
O resto do batalhão perecera com Erwin. Soldados de baixa hierarquia. Os de maior patente lutaram contra o titã colossal e morreram também. Nas baixas incluíam-se os dois melhores amigos de Floch. Seus companheiros haviam pedido transferência da Tropa Estacionária para a Tropa de Exploração por sugestão do próprio Floch, que não queria mudar de divisão sozinho. Ironia ambos terem sido apedrejados e Floch, aquele quem os levou para o mau caminho, ter sobrevivido.
Quer dizer, nem tão ironia assim. A morte dos amigos serviu para transformar o garoto de quinze anos traumatizado no homem centrado de vinte. O horror de se ver no meio da destruição mudara sua personalidade. Floch foi o único sobrevivente do massacre. Só que até dar-se de conta disso, muito caminhou pelo campo aberto berrando em busca de companheiros vivos feito um menininho perdido chamando pela mamãe.
Pensou em Erwin novamente. Erwin Smith. Como estariam hoje caso o décimo terceiro comandante tivesse herdado o titã colossal? Floch vinha refletindo bastante sobre esse assunto de uns meses para cá. Até pouco tempo, achava Hange uma comandante competente, no entanto, vinha tendo dúvidas se o método pacifista de sua líder teria sucesso. O número de marleyanos dentro das muralhas quase fugia do controle. Eles se reuniam, se esgueiravam pelos cantos como cobras venenosas aguardando o momento de dar o bote. O risco de rebeliões era alto.
É engraçado como decisões humanas podem mudar a história. Você já imaginou como seria sua vida hoje caso, cinco anos atrás, você tivesse cumprimentado aquela garota bonita por quem você era apaixonado? Casado é uma resposta incompleta. Na verdade, uma realidade completamente diferente teria acontecido.
Se a paixão fosse correspondida, vocês dois virariam namorados. Um dia após você alcançar maioridade, ela te ajuda a comprar uma casa. Você arruma um emprego que paga o bastante para vocês dois irem ao teatro de tempos em tempos e pedir lanche nos fins de semana. Sua namorada se matricula na universidade, e logo arruma um trabalho bem remunerado. Então você pede demissão e corre atrás do seu sonho de ser cantor. E a sua namorada te apoia nessa escolha. Sem falar nas vidas influenciadas pela banal decisão de dar oi a essa garota. Você conhece os amigos dela, e se torna o irmão de outra mãe de um deles. Esse garoto está passando por severos problemas com os pais, e você o ajuda a resolver essas diferenças.
Entretanto, você não cumprimentou a garota, e a sua vida aconteceu do jeito que você já sabe. Quanto a sua namorada de outra realidade, ela virou secretária e se casou com um advogado. Sobre o garoto que você poderia ter ajudado, ele tem um relacionamento péssimo com a família até hoje. Resumidamente, a vida de três pessoas aconteceu de determinado jeito por causa da sua (falta de) atitude.
Na situação atual, caso Hange tivesse tomado medidas menos complacentes em relação aos forasteiros em Paradis, talvez Floch não passasse pelo confronto desconcertante que estava prestes a enfrentar.
Floch não crê no Deus onipresente descrito pelos estrangeiros, e sim na Santa protetora das muralhas e do povo paradisiano. Como seguidor da Santa, Floch acredita em destino. Nossa história foi escrita antes de virmos a esse mundo. Você nasceu fadado a estar onde você está agora, a garota a se casar com outro, e o garoto a ter um relacionamento familiar infeliz. Nada acontece por acaso, tal como a vida de Floch fora salva naquela batalha sangrenta por um motivo.
Floch achava que sobrevivera para salvar o comandante Erwin. Porém, a Santa desprezou essa ideia. Erwin morreu e o frouxo do Armin herdou o titã colossal. Floch olhava os estrangeiros comendo sua comida, mijando no seu banheiro, bebendo seu vinho, e sentia raiva. A morte de seus companheiros foi para os eldianos restantes darem pão e diversão ao inimigo? Baboseira.
Acreditar em destino significa crer na velha conversinha do "o que é para você, está guardado", também conhecida como "se não deu certo, então não era para você." Deixar o seu futuro a cargo do destino pode parecer confortável, porém, existe uma questão infeliz: fazer isso significa aceitar que o propósito de alguns é passar a vida tomando no cu até o túmulo. Pensando nisso, Floch cogitou se sobrevivera ao massacre em Shiganshina apenas para morrer baleado em outro.
Não, isso não pode estar certo. Algumas pessoas estão sim talhadas ao fracasso, contudo, muitos não têm essa infelicidade. A vida de Floch fora salva por uma razão grandiosa, e ele estará pronto para cumprir a missão quando o momento chegar.
O grupo se afastou do píer. Floch os seguiu, propositalmente estipulando uma distância maior entre ele e os homens. Foram para o prédio da administração. O edifício era uma coisa quadrada, feia e sem sal, projetado à la jeitinho marleyano. Os filhos da puta já estão trazendo o mau da sua cultura para a ilha, desdenhou Floch contemplando a construção horrorosa. Nem as árvores salvavam aquela porcaria. Era questão de tempo até Marley contaminar Paradis com sua música, moda e costumes.
Floch não entrou no prédio. Em vez disso, se colocou ao lado da porta, fazendo questão de chamar a ateção de Armin para sua permanência no lado de fora. Um dos marleyanos precisou fechar a porta, pois Floch não moveu um dedo para fazê-lo. Num mundo perfeito, o vigia entraria com o grupo. Todavia, não estavam num mundo perfeito. Floch queria ser transferido e não trabalharia da maneira correta até ser trocado de base.
Floch tinha um rifle de estimação guardado a sete chaves. Uma coisinha linda de papai. Weatherby calibre 460. Criação eldiana com a tecnologia marleyana. O impacto do tiro pesa mais três toneladas. Floch nunca matou ninguém, contudo, achava maravilhosa a ideia de seu primeiro abate ser um marleyano. Não... pensando melhor, qualquer estrangeiro estava bom. Podia até ser um daqueles voluntários imbecis que nem impostos pagam. Sabe, eles merecem sentir o gostinho do terror. Hei de chegar o dia onde a caça ao estrangeiro será permitida.
E Floch não era o único a pensar dessa forma.
Ali, encostado no prédio da administração, Floch pensava sobre essas questões. Observava o cais com ar entediado. Os navios repousavam docilmente nos píeres, e barquinhos menores se encontravam amarrados na costa. Tirando Floch, não havia vivalma no porto.
Então, Floch viu algo anormal. Desencostou-se da parede, adotando a postura alerta digna dos cães de caça. Seus olhos se transformaram em duas bolas de bilhar, e até a audição foi apurada. Floch trotou para o muro. Escondeu-se atrás da parede de tijolos, colocou metade da cabeça para fora e, através do olho direito, observou o intruso correndo no cais.
O homem parecia inquieto. Floch ouviu a respiração esbaforida pelo simples ato de vê-lo ofegar. Esse detalhe, é claro, era fruto do psicológico, pois estava longe demais para ouvir qualquer coisa. Vez ou outra o homem olhava para trás, como quem está sendo perseguido. O intruso vestia calças e camisa no mesmo tom de cinza azulado. Floch franziu as sobrancelhas. Aquela roupa era de prisioneiro.
Quando as operações no oceano começaram, a Tropa de Exploração construiu uma base na praia com direito a albergue para os marleyanos capturados em alto mar. Após o fim dos sequestros, a casa ficou inútil. Inicialmente, o plano era transformar o albergue num depósito militar. No entanto, com o alto número de estrangeiros dentro das muralhas, era de se esperar que alguns problemas acontecessem, apesar dos esforços da Tropa de Exploração para mantê-los de barriga cheia. Sendo assim, fizeram metade da base de prisão única para forasteiros. Afinal, convenhamos, não é uma boa ideia juntar estrangeiros e paradisianos numa cela minúscula.
Com raríssimas exceções, sua amada comandante perdoou os crimes de guerra dos forasteiros e deu a eles a chance de começar uma vida nova em Paradis. Os estrangeiros trabalhavam sob regime semiaberto, no entanto, essa delimitação não foi o bastante para fazê-los andar na linha. Na prisão moravam homens e mulheres que cometeram, exclusivamente, crimes dentro das muralhas. Encrenqueiros, ladrões, conspiradores e aproveitadores. Até onde Floch sabia, ninguém fora preso por assassinato (por enquanto).
Permaneceu escondido, decidindo conferir até onde o homem iria. O prisioneiro pulou para dentro do barquinho rebocador amarrado no cais. Ele vai tentar fugir da ilha, Floch emitiu uma exclamação muda. O prisioneiro olhava ansioso à procura de vigias. Floch só abandonou o esconderijo quando o homem começou a desfazer, de forma atrapalhada, o nó na corda.
O prisioneiro não esperava encontrar um nó paradisiano prendendo o barco. Floch escutou palavrões tão sujos quanto o sangue daquele marleyano encardido. Ah, ia lavar a boca dele com sabão agora mesmo. Os rebocadores foram construídos por mãos eldianas, apesar do projeto ser de fora. O barco carregava seu nome, Rose, orgulhosamente na cabine, em letras de fôrma vermelhas. Floch dispensou a rampa, optando por saltar a curta distância. As botas retumbaram ao aterrissar. O rebocador sacolejou, e os xingamentos do intruso pararam abruptamente. Floch moveu a mão, a deixando preparada para pegar o rifle.
O prisioneiro buscou refúgio atrás do cabrestante. De postura defensiva e respiração desregulada, encarava Floch atrás da face odiosa. Até aí, tudo normal. Entretanto, aquele não ia ser um conflito racial comum. O prisioneiro fujão, afinal, não era marleyano.
Floch por pouco não perdeu a compostura ao reconhecer o nariz aquilino. Meio difícil não reparar. A fuça eldiana é, de fato, reconhecível em qualquer lugar do planeta. Dentro das muralhas, Floch conhecia paradisianos aos montes com o nariz idêntico ao do prisioneiro, incluindo seu próprio pai. Não é à toa que os estrangeiros se referem a essa característica facial como nariz de eldiano.
Esse homem é um soldado liberiano.
Paradisiano e liberiano se entreolharam. Nenhum olho piscava. O barco balançava por causa do salto recente. Os homens subiram e desceram de acordo com o movimento da água. Floch, amolecido, desistiu da violência. Aquele homem tinha tanto sangue eldiano quanto ele. O país de origem não importa, são filhos da mesma Santa. Floch ergueu as mãos, mostrando intenções pacifistas. O prisioneiro levantou as sobrancelhas.
— Sinto muito, vou precisar levar você de volta para a prisão.
Naquele momento de piedade, onde deixou seu lado gentil falar mais alto, esquecera da regra pessoal: todos na prisão estrangeira são tiranos malfeitores. O liberiano fez um sorriso torto, emitindo um rosnado bestial. Em seguida, pigarreou; o pomo de adão subiu e desceu como se tivesse vida própria. Um catarro verde e bolotado voou na cara de Floch.
Floch abriu os olhos aos poucos. Não conseguia acreditar no que acabara de acontecer. Pôs a mão na bochecha e sentiu a meleca deslizando suavemente pela pele lisa, a qual cuidava com tanto zelo para impedir a proliferação da acne. Floch passou o dedo duro na bochecha. O catarro caiu entre suas botas.
— Tem mais de onde veio esse, demoniozinho. Chega perto e eu te cuspo.
O prisioneiro puxou mais um catarro lá das entranhas do pulmão. Dessa vez, Floch estava preparado. Desviou do projétil nojento. O liberiano deu um risinho febril. Olhos azuis, grandes e trêmulos jorravam a loucura de alguém que perdeu a sanidade de um dia para o outro. O prisioneiro permanecia agarrado ao cabrestante. Floch reparou que o homem possuía um círculo de pele pálida no dedo anelar. A aliança devia estar em algum lugar em Paradis, pois as joias dos estrangeiros foram confiscadas — e revendidas na Capital.
O homem tremia. De medo, de loucura ou de frio, não se sabe. Pobre coitado, lamentou Floch. O prisioneiro parecia ter o dobro de sua idade, mas isso era devido aos maus-tratos. É isso que acontece com eldianos de Liberio. Na visão de Marley, Liberio é uma máquina de fazer titãs, cobaias científicas e soldados descartáveis, tal qual aquele infeliz à sua frente, que escolheu carregar a bandana cinza de Marley no braço.
Pensando nisso, Floch escolheu manter a paciência. Contudo, por precaução, preparou o braço para pegar o rifle caso necessário.
— Cara, não quero brigar com um filho da Santa.
O liberiano gargalhou. Em sua boca faltavam mais de quatro dentes. Ele riu e cuspiu por segundos a fio, até as risadas se transformarem em tosse crônica. Tossiu feito louco, convulsionando o corpo para frente como se fosse vomitar. Antes mesmo de controlar o acesso de tosse, os lábios abertos fizeram curva. O prisioneiro voltou a rir com a boca escancarada. A gaivota pousada no cais levantou voo, apavorada. Por fim, o homem parou de súbito, como se alguém tivesse vindo por trás e apertado um botãozinho de liga/desliga. O prisioneiro ficou sério. A voz era lúcida, apesar das palavras não serem.
— Você acha que servimos ao mesmo Deus? Meu amigo, por mim, essa piranha pode ir para o raio que a parta. Eu fui convertido ao Todo Poderoso.
O queixo de Floch caiu. Nunca, em toda sua vida, Floch viu um eldiano declarando ódio à Santinha protetora. Os descrentes, sim, estes existiam. E em contrapartida também haviam os fanáticos, tão paus no cu quanto os ateus. Floch achava as duas tribos imbecis. Não passavam de um bando de retardados tentando enfiar convicções goela abaixo dos outros. Na opinião de Floch, ateus e fanáticos religiosos podem dar as mãos e ir plantar batatas.
No entanto, a postura do liberiano não era coisa de ateu, mas a de um ser detestável. Desprezava a Santa e sua gente apesar de fazer parte do mesmo povo. Aquele homem negava suas origens. Ele tinha o sangue de Eldia e não queria ser eldiano. Floch teve pena dele. Não importa o quanto você lute, grite, contradiga e molde sua personalidade, você não pode fugir de quem você é.
— Vocês paradisianos têm mais é que definhar nessa ilha podre. Uma Santa que fez pacto com o demônio não é uma boa divindade. A sua Santa é o diabo, eldianozinho filho da puta.
— Se eu sou um eldianozinho filho da puta, você
O homem cuspiu antes do soldado terminar a frase. O cuspe o atingiu no braço. Em seguida, o liberiano batia no peito com tamanha força que o baque da auto-surra se sobrepôs ao barulho do mar.
— Nós de Liberio somos os verdadeiros eldianos, os descendentes daqueles que o seu rei deixou para trás. São vocês que ameaçam o mundo. Se Marley se opõe a vocês, tenho orgulho de servir a este país e ao seu Deus.
O liberiano bradava com tanta paixão que as orelhas de Floch doeram. Gritava com a cabeça voltada para o céu e lágrimas grossas rolavam pelo rosto cadavérico. Em certo ponto voltou a tossir, e nisso mais lágrimas vieram.
Floch, que até então não tivera nenhuma experiência com liberianos, ardeu de raiva. Aquele homem pedia a morte do povo paradisiano quando quem o oprimiu foi Marley. Para Floch, a verdade ficou clara. O povo de Liberio não é bonzinho. Se tratavam de eldianos alienados pelo inimigo, contaminados por seu Deus e ideologia. Pessoalmente, Floch acreditava que a violência pode e deve ser combatida com mais violência. O tal liberiano não hesitaria em matar o pai, a mãe, a namorada, a irmã e o sobrinho de Floch. E se tivesse de ser assim, Floch retribuiria na mesma moeda.
Guerra é isso aí mesmo. Aniquile os inimigos antes que eles destruam seu país, escravizem os homens, assassinem os bebês e transformem as mulheres em depósitos de sêmen. Floch não era mais o soldadinho bobalhão do passado. Viu a morte de perto e a veria de novo se isso significasse proteger sua terra. Se o mundo estava contra Paradis, Floch estava contra o mundo, independente de quem seja. Marleyano, liberiano, qualquer "ano" por aí, pagaria por esse ódio destilado. Paradis se levantará, e Floch estará na linha de frente, pronto para estourar os miolos dos estrangeiros infelizes. O nome disso é reparação histórica.
O rifle foi apanhado. O dedo enrijeceu sobre o gatilho. Floch viu o liberiano através da mira da arma. O homem não recuou, pelo contrário, cuspiu no cano da arma. Floch meneou a cabeça na direção das ondas, e ordenou:
— O barco fica. Quanto a você, pula na água.
O liberiano deu um sorrisinho cheio de buracos.
— Pense bem no que você quer fazer, garoto, seu superior pode chiar.
— Eu já me decidi. Pula na água. Já que você odeia tanto a nossa ilha, pode ir embora.
O liberiano obedeceu. O mergulho agitou as ondas, e estas por sua vez balançaram o rebocador suavemente. Floch apontou o rifle para baixo, mirando a cabeça do prisioneiro. A gaivota de antes voltou para o cais. O pássaro meneou a cabeça, observando o homem na água.
— Vai nadando. Se esse seu Deus for tão poderoso, ele te salva.
Rosnou Floch. O liberiano cuspiu na proa do barco.
— Para de cuspir. É feio.
— Vocês ainda vão pagar por esse inferno. Guarde minhas palavras.
O liberiano saiu a nado livre, mergulhando a cabeça em movimentos compassados. Floch saltou para o cais e o seguiu em terra até a abertura para a entrada dos navios. Mantinha o dedo firme no gatilho e caminhava num ritmo lento. Floch não piscava. Nos olhos arregalados via-se o princípio de uma insanidade muito parecida com a presente no liberiano.
O prisioneiro passou pela abertura e seguiu em frente. Quando a terra terminou, Floch parou e abaixou o rifle. O liberiano se transformou num pontinho escuro no meio da espuma das ondas. Desapareceu na linha horizontal em minutos.
Floch não se arrependeu. O eldiano metido a marleyano fez por merecer. Sobre seus superiores... bom, ninguém precisava saber. E, de fato, ninguém jamais descobriu a história ominosa entre o paradisiano e o liberiano. Floch não contou para ninguém, nem para a namorada. Por certo tempo temeu encontrarem o corpo afogado na praia, ou que de alguma forma o homem sobrevivesse e retornasse à ilha. Entretanto, o liberiano nunca mais foi visto. Perdeu-se em algum lugar no meio do mar. No fim, o Deus de Marley a quem o eldiano se converteu não o salvou.
Floch, que desejava sujar as mãos com o sangue de Marley, acabou o fazendo com o de Eldia. E mesmo assim, se tivesse baixado a cabeça para a água do oceano, teria visto o sorriso em seu reflexo doentio.
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