Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)

46 Uma passagem para o paraíso


Notas iniciais
Alguém usa esse site? hahaha — O texto é uma releitura das cenas apresentadas nos capítulos 123 e 131 do mangá; — Legenda: estou usando APDY como sigla para “Associação de Proteção aos Descendentes de Ymir”. — Antes de ler, por favor, responda o formulário: https://forms.gle/1siu5axAFzaJn9LB6 Até logo!

Ninguém vê Eren sair da mansão. O LOUCO o aguarda na calçada. "Você precisa conhecer a cidade", diz o LOUCO. Na opinião de Eren, ele já viu o suficiente. Enquanto seus amigos se maravilhavam com Marley, Eren prestava atenção nos liberianos aqui e acolá. Era fácil identificá-los, graças às braçadeiras. Branco para eldianos civis, amarelo para eldianos do exército, e vermelha para transformados. Subalternos e inseguros, os portadores das braçadeiras brancas esgueiravam-se à moda dos ratos e mantinham-se longe dos olhares dos marleyanos.

A terrinha nojenta merece o destino a ela guardado. Eren e o LOUCO mandarão Marley para o inferno com seus bondes e prédios.

— Nós vamos matar os liberianos também, não esqueça. — O LOUCO lembra-o. — Nós mataremos a todos.

Sim, é verdade. Eren esmagará as braçadeiras, mas não sem aqueles que as carregam.

Marleyanos, liberianos, imigrantes, animais, toda e qualquer forma de vida fora de Paradis sucumbirá. O abate coletivo está marcado para a data em que o PLANO DO PARAÍSO será posto em prática. Eren observa suas vítimas. Como um caçador pendura a cabeça do cervo na parede do escritório, Eren aprisiona as visões no DNA do titã de ataque. Os próximos a herdá-lo terão acesso a essa infindável sala de troféus — imagens empalhadas da época em que o mundo era povoado por outras raças além da eldiana.

Então, encurralado num beco escuro, Eren o vê. Eren já tinha visto aquele rosto duas vezes, uma nas previsões e outra na confusão em que meteram-se por causa da bolsa de Sasha. Era o ladrãozinho, e ele estava encrencado. De novo.

— Ei, por que vocês estão batendo nesse garoto?

Três adultos contra uma criança é crueldade. O reconhecimento transpassa os olhos escuros do refugiado. "Ei, você é um dos caras que me salvaram mais cedo", dizem os olhos marejados. O garoto sangra pelo nariz e pelo buraco onde outrora existiu o dente incisivo.

— Estamos dando uma lição nesse marginal. — Rebate o primeiro agressor.

— Tá achando ruim, leva o moleque pra casa. — Desdenha o segundo.

— Cai fora, intrometido. — Ordena o terceiro. — Não é problema seu.

Xeque mate. Quem somos nós para julgar os métodos de justiça alheios, LOUCO? Eren dá as costas. Seja lá o desdobramento do tribunal, Eren torce para que termine com o garoto sofrendo traumatismo craniano ou hemorragia interna. Será melhor para ele morrer num beco imundo, em vez de ser pisoteado por titãs colossais.

O LOUCO pensa diferente.

— Salve-o. — O LOUCO murmura no ouvido de Eren. A respiração do LOUCO é pesada e regular.

— E se eu não quiser?

— Você vai.

Eren quer. O três contra um se transforma em... três contra um. Mas Eren é um soldado treinado, e o sangue mavórcio de Eldia corre em suas veias. Os marleyanos sedentários não são páreos. O ladrãozinho admirado inveja a força do paradisiano. A luta acaba em menos de dois minutos. Os três marleyanos caem, abatidos por chutes no estômago. É incrível como essas coisas acontecem rápido na vida real, diferente dos livros que escrevem as porradarias exaustivamente até que se tornem enfadonhas. Eren sai do beco e o refugiado o segue. O garoto manca. Eren o deixa subir em suas costas.

— Aonde você mora?

O garoto responde numa língua desconhecida. Eren não entende porcaria nenhuma. O menino repete os vocábulos esquisitos devagar. Eren sacode a cabeça em negação — não há como compreende-lo. Entretanto, Eren não se preocupa. Ele sabe que vai encontrar a casa do garoto. Essa verdade é cognoscível tal qual a certeza da data da morte do menino.

O refugiado vive num acampamento de tendas brancas montado numa área aberta fora do caminho dos marleyanos. Parece uma pequena aldeia. O imigrante diz a única palavra marlêsa que conhece: obrigado. Não, não é a única. O garoto também sabe dizer socorro. Eren consegue ouvi-lo gritar em cinco idiomas diferentes enquanto foge dos titãs colossais. Ninguém no acampamento sobreviverá. A morte daquelas pessoas é necessária para a obtenção do Paraíso. Eren vê as tendas reduzidas a pó, tal qual a vegetação em volta, a grama agora em baixo de seus sapatos.

O garoto o encara com um olhar cheio de respeito e gratidão. Eren se sente mal pelo menino e por sua família, cuja terra natal foi-lhes tomada à força. Eren procura o LOUCO. O LOUCO desapareceu. É apenas Eren e o refugiado. Eren percebe como o LOUCO tornara-se um totem. Sem o LOUCO, Eren não é nada – é o fracote, o imbecil, o idiota que não perde a oportunidade de ser sequestrado. Esta ocasião é o teste de sua lealdade. Eren põe a mão no ombro do garoto e fala em marlês:

— De nada, garoto. Cuide-se.

Um pedido de desculpas entala-se na garganta. Um pedido de perdão antecipado por todo o sofrimento prometido. Eren engole. Não se deve pedir desculpas por fazer o certo.

O refugiado corre para avisar aos familiares que chegou em casa. Um senhor de idade vestindo trajes semelhantes aos do menino sai da tenda e recebe a criança. O LOUCO retorna. Nenhum dos dois sorri. Ainda não acabou. Na hora marcada, Mikasa surge:

— Eren! — Exclama Mikasa esbaforida. O tom de voz dela expressa alívio puro. — Por onde você andou? Você sabe que é o maior alvo do nosso inimigo, não suma- Huh? Aquele lá é o garoto da feira? Aconteceu alguma coisa?

— Ainda não.

Eren e o LOUCO respondem em uníssono. Não, espera, não foram duas vozes. Aquela era a sua própria voz, e nada mais. O LOUCO sumiu. No entanto, Eren continua sentindo a presença desconcertante daquele ser humano desprezível. Eren o escuta dentro de sua cabeça, respirando, pensando, sussurrando, para tais usando a voz da consciência de Eren.

É isso. Agora, enfim, Eren e o LOUCO são um só.

— Ainda não? — Mikasa arqueia a sobrancelha.

— Mikasa, por que você se importa tanto comigo?

Ah, a pergunta que Eren nunca teve coragem de fazer. Eren não se importava em assassinar inocentes, apagar a memória dos amigos, manipular Zeke e influenciar Historia. Entretanto, quando se tratava de Mikasa, Eren continuava o mesmo frouxo. Ela é a lembrança de como ele era fraco... até agora. Como LOUCO, Eren é invencível. Ele pode conquistar o mundo num estalar de dedos.

— Huh? — Mikasa cora. — Eu me importo porque você é da família.

— É só isso? Somos apenas "família"? — Eren vira-se para Mikasa.

— S-Sim. — Começa Mikasa, contrafeita. — Você é minha família.

A Ackerman adota uma postura recatada que do ponto de vista de Eren não lhe cai bem. Depois de hoje, Eren e Mikasa não conversarão à sós outra vez. Eren sente o ímpeto de beijá-la, de mostrar a ela o fogo que vem guardando desde os dezesseis anos, quando parou de vê-la como amiga de infância e começou a enxergá-la como a mulher com quem gostaria de se casar. Entretanto, é tarde demais. Eren não pode se entregar.

O imigrante idoso aproxima-se com uma bandeja de bebidas quentes. Eren aproveita a intromissão e encerra o assunto "Mikasa" para sempre. O aparecimento do idoso coincide com o do resto dos amigos de Eren, que irrompem urrando xingamentos direcionados ao soldado fujão. O velho anseia-se ante a chegada barulhenta de Armin, Jean, Connie e Sasha. Eren o tranquiliza por meio da gesticulação.

Os refugiados dão-lhes comida e bebida. Pessoas muito pobres desprovidas de um teto sólido para protegê-las do granizo, e cujos filhos arriscam-se nas ruas para que haja proteína na próxima refeição e um casaco quente no inverno, não hesitam em dividir sua escassa despensa com seis soldados paradisianos do alto escalão.

A divergência linguística não é problema. Não existe tradução para sorrisos e gestos de bondade. Eldianos e refugiados bebem, riem e fazem brindes. Eren surpreende Connie cortejando uma imigrante e vê Jean dançando abraçado a quatro homens. Quando a bebida acaba, Jean e Connie prontificam-se em trazer mais vinho. Depois de tanto álcool, Eren está serelepe. Porém, ele não tem o direito de se divertir. Sua voz da consciência, uma coisinha insistente e não ignorável, sussurra: preste atenção, bonitão, a gente vai massacrar essa gente. Os bebês, as crianças, os velhos, as mulheres e os homens. Não há espaço para não-eldianos no nosso paraíso. Por favor, você acha que esses refugiados estariam alegrinhos desse jeito se soubessem de onde viemos? Eles pensam que somos liberianos sem braçadeira, você sabe.

O idoso arrisca papear com Eren na língua eldiana. O velho arranha o idioma e se esforça em trocar algumas palavras com o salvador de seu neto. Eren assente tanto para o blá-blá-blá do refugiado quanto para o do LOUCO. As palavras soam na cabeça de Eren num loop imparável. Siga em frente. Siga em frente. SigA EM FRENTE. SIGA EM FRENTE. SIGA EM FRENTE. SIGA EM FRENTE.

XXX

A aguardada reunião internacional aberta da APDY chegou. O resultado da assembleia forneceria um parâmetro da situação geral, e dependendo da posição da APDY, os paradisianos os procurariam na surdina e revelariam suas verdadeiras identidades. Do contrário, iriam investigar outras alternativas. A Associação de Proteção aos Descendentes de Ymir, como o nome sugere, foi fundada em prol dos direitos dos portadores do sangue de Eldia. Os paradisianos estranhavam a escolha do nome da organização. Por que usar "descendentes de Ymir" em vez da denominação correta, "eldianos"?

Apesar de a reunião ser aberta ao público, o prédio tinha limite de lotação. Portanto os soldados, os hizuruneses e Onyankopon chegaram cedo. Onyankopon e Kiyomi entraram para escolher o número dos assentos. Os demais aguardavam do lado de fora. Dentre os presentes, destacavam-se os homens e mulheres de braçadeira branca ou amarela, seus irmãos de outra nação.

Onyankopon e Kiyomi voltaram. O inglês sorria de orelha a orelha. Ele pôs as mãos nos ombros de Hange e disse as boas-novas à meia-voz:

— Senhorita Penélope, o representante da Inglaterra está aqui. Consegui agendar uma reunião para daqui quatro dias. Vamos falar das riquezas do nosso país e dos planos. Há altas chances de virem para o nosso lado. — Onyankopon sussurrou: — Às escondidas de Marley.

— Minha Sa- meu Deus, Onyankopon! Obrigada!

Eles nem entraram na reunião e as boas-notícias já brotavam. O que seria aquilo, senão um presságio de boa-sorte?

A sala era ampla. Quatro bancos retangulares dispunham-se no centro do aposento, em posição privilegiada. A poucos metros existia uma mesa simples. Ao redor distribuíam-se duas largas arquibancadas também usadas como meio de acesso para o mezanino. Os militares da Tropa de Exploração compartilharam o mezanino com os civis. A reunião estava para acontecer. Hange viu o representante da Inglaterra sentar-se nos bancos especiais junto a outras figuras masculinas igualmente importantes. O chefe da APDY, um senhor dono de um nariz aquilino imenso, tomou seu lugar na mesa em frente.

— Boa tarde, senhoras e senhores. Meu nome é Bernard. Eu venho em nome de todos os descendentes de Ymir. Anos atrás, o povo de Ymir, Eldia, descobriu os titãs e impôs uma ditadura que durou décadas. Marley esteve entre os mais explorados pelo império impiedoso. Helos, um guerreiro natural dessa terra maltratada, uniu forças com a família Tybur. Trabalhando juntos, os Tybur e Helos derrotaram o rei Karl Fritz e roubaram oito de seus noves titãs. O rei eldiano, assolado e temendo perder seu último titã, levou uma parcela de seu povo para uma ilha desabitada. Nessa ilha, Karl Fritz instalou seu novo reino e chamou-o de Paradis.

"Paradis existe até hoje, e há suspeitas de que o país tenha planos de restaurar a ditadura global. Nos últimos anos, trinta e dois navios de guerra marleyanos foram mandados a Paradis e nenhum retornou. Os bravos militares a bordo, tampouco. Pais, irmãos e filhos, perdidos para sempre numa ilha hostil."

"Não obstante, estudiosos levantaram perigosas suposições de que Paradis vem recebendo ajuda. Temo afirmar – e espero estar errado – que essa teoria absurda esteja fora do campo da ficção fantasiosa. Vamos falar sobre tráfico. Na América, por exemplo, a polícia apreendeu uma carga de drogas com destino desconhecido. Um dos interrogados confessou o rumo da droga: Paradis. Em menos de vinte e quatro horas esse homem foi achado morto na cela da prisão, bem como seus comparsas."

"Vocês estão rindo? Entendo. Sim, drogas são um problema, deixe os paradisianos morrerem de overdose, poxa, melhor para nós. No entanto, o tráfico vai além de entorpecentes. Ano passado, pescadores clandestinos avistaram um navio levando uma carga que lembrava uma locomotiva. Esse caso aconteceu às duas da madrugada e o navio em questão estava com as luzes desligadas, mas os pescadores juram de pés juntos que se tratava de um barco de guerra marleyano. Isso sem contar as denúncias sobre material bélico roubado."

"Desse modo, só podemos concluir uma coisa. Alguns grupos isolados aí fora, movidos pela ganância, esqueceram o histórico de Eldia e estão negociando com Paradis nesse exato momento. Eu suplico a vocês, representantes: abram o olho de seus líderes. Fiscalizem os portos e os aeroportos com diligência. O ideal seria espionarmos Paradis, entretanto, tememos esse povo, e hei de não subestimá-los. Tudo que entra em Paradis, não sai de Paradis."

As pessoas na plateia cochichavam manifestações atemorizadas de preocupação. "Esses traidores", "eu sabia que esses demônios estavam ganhando vantagem", "e agora, meu Deus?" Hange sentiu um nó na garganta. Ela buscou apoio em Levi. O capitão pôs a mão sobre a sua.

Se as pessoas ao menos visitassem Paradis e vissem com os seus próprios olhos, saberiam como é. Vislumbrariam as paisagens verdes e os castelos da Capital. Veriam a estação ferroviária e a locomotiva batizada de titã de aço, e se viessem num fim de semana, presenciariam os garotos levando as namoradas para "passear de trem". Provariam a comida e o chá da ilha. Veriam que, apesar da pressão popular, o governo não fechou os olhos para os marleyanos, e embora não fosse a vida perfeita, muitos construíram laços familiares e de amizade com os paradisianos.

E, sobretudo, aquelas pessoas maldosas perceberiam, assim como eles temem os paradisianos, o povo de Paradis sente-se tão ou mais assustado em relação ao resto do mundo.

— Por falar em Eldia, está na hora de falarmos dos descendentes de Ymir. — Continuou Bernard. — Eu gosto desse termo, porque, afinal, eu tenho o sangue de Eldia, mas não me considero eldiano – não, de jeito de nenhum. Eu sou descendente daqueles que o rei Karl Fritz deixou para trás, os verdadeiros injustiçados. Liberianos, e tantos outros perdidos por aí, também fazem parte dessa minoria. Enquanto paradisianos gozam do paraíso deixado por seu rei, nós descendentes de Ymir sofremos pelos pecados de nossos antepassados."

"Eu, os liberianos, e todos os demais descendentes de Ymir, não possuímos qualquer ligação com a ideologia de Eldia. Muitos de nós sequer temos DNA cem por cento eldiano – nenhum de nós, na verdade. Eu suplico compaixão e liberdade, pois nós também odiamos os eldianos de sangue puro. Nós desejamos a exterminação dos demônios de Paradis. Eles são seus inimigos e nossos também."

A multidão explodiu em alvoroço. Homens e mulheres expressavam seu ódio por eldianos e sua solidariedade para com os "descendentes de Ymir" em uivos apaixonados. Os paradisianos mortificados suavam frio. Hange encolheu-se e, por instinto, protegeu a barriga.

Entre os berros e os pedidos de silêncio, um tumulto isolado aconteceu. Levi percebeu que seus subordinados estavam envolvidos da mesma forma como você sabe qual membro da família caminha pela casa às três da madrugada só pelo barulho dos passos. O capitão virou-se e viu Mikasa e Armin agitados.

— Ei, qual é o motivo da baderna?

— Capitão Levi, o Eren sumiu.

A princípio, à exceção de Mikasa e Armin, os paradisianos não deram importância. Eren desaparecera no primeiro dia de viagem e foi encontrado em pouco tempo. Jean disse que Eren devia estar lá fora esfriando a cabeça. Mikasa e Armin discordaram, apreensivos. Levi, que se sentia responsável por Eren, se ofereceu para procurá-lo com Armin e Mikasa.

— Vou dar um chute na cara daquele moleque. — Ralhou Levi.

Eren não estava nos arredores do prédio. Levi gostaria de manter Hange na ignorância, entretanto, ela era a comandante e precisava estar a par dos imprevistos. Além disso, Hange não é imbecil, e percebera que havia algo errado quando os subordinados voltaram sem Eren. As três horas de busca mostraram-se infrutíferas, e os paradisianos descobriram que Marley era maior do que imaginavam.

Por causa da idade, a gravidez de Hange declarava bandeira vermelha. Existia as chances remotas de Hange não sobreviver à gestação, e a probabilidade enorme de Jade morrer pelo caminho. O médico recomendou Hange a não fazer esforços físicos, a alimentar-se direito e, sobretudo, a não se estressar. Entrar numa equipe de busca não faria bem à Hange e nem à Jade; entretanto, Hange não queria nem saber.

De qualquer maneira, a participação de Hange não pendurou. Para o alívio de Levi, Hange cansou-se em duas horas. E para o horror de ambos, Hange teve uma surpresa ao usar o banheiro público: uma mancha espessa e vermelho-escura na calcinha. Pequena, porém grande o bastante para apavorá-la, apesar de o médico tê-la alertado sobre possíveis sangramentos. Era perigoso dois eldianos puros entrarem num hospital marleyano. Hange queria voltar à mansão dos Azumabito. Nenhum dos dois sabia ler as linhas do bonde. Após minutos de busca encontraram uma carruagem aleatória e agarraram-se nela com unhas e dentes, deixando metade da carteira com o cocheiro.

Eles chegaram na esperança de que algum hizurunês fosse formado em medicina, ou que Kiyomi pudesse levá-los a um hospital tolerante para com eldianos. Por sorte, a primeira dedução mostrou-se correta. O irmão de Kiyomi, um homem exalando um forte odor de cigarro (pelo amor da Santa, como fede esse tal cigarro), examinou Hange mais para tranquilizá-la do que por necessidade.

— Esses sangramentos são normais, comandante. Mas eu sugiro que você descanse. Ah, e tente manter a calma. A tensão e a agitação afetam o bebê.

— Certo, doutor. Obrigada.

Hange respondeu numa voz rápida e engrossada como se estivesse prendendo o ar, e estava mesmo – aquele cheiro horrível maltratava suas narinas. O médico saiu e Hange pôde voltar a respirar feito um ser humano normal. A comandante não queria deitar sem Eren na mansão, contudo Hange colocava Ferinha em primeiro lugar.

— Ótimo. — Disse Levi. — Eu vou sair e ver se encontro o Eren.

— Promete que não vai voltar sem ele?

O capitão a encarou. Desde Erwin, Levi aposentou-se das promessas.

— Eu vou fazer o possível e o impossível, Hange.

O possível e o impossível não deram resultados. Levi voltou à meia-noite, cabisbaixo, decepcionado e confuso. Hange, insone, sobressaltou-se. A comandante perguntou se os outros tiveram êxito, e Levi respondeu que Jean, Sasha, Onyankopon e Connie voltaram de mãos vazias. Já Mikasa e Armin, Levi não viu desde a APDY. Esses dois só foram aparecer pela manhã, exaustos e sem pistas de Eren. Mikasa, incorporando a garota impulsiva e descontrolada que fora um dia, parecia à beira de um colapso nervoso. Armin a acalmou lembrando-a da lealdade de Eren. Eles retomaram as buscas, e foi no fim da tarde, quando uma misteriosa carta sem remetente chegou na mansão hizurunesa, que os paradisianos descobriram o paradeiro de Eren. A caligrafia grande e confiante do fugitivo dizia:

Peço desculpas por ter saído sem permissão ou conhecimento de vocês. O cunho da minha fuga não permite despedidas. A reunião da APDY me deixou preocupado com o futuro do nosso lar. Como vocês sabem, eu tenho menos de um ano de vida. Em breve, o titã de ataque e o titã fundador serão passados a outro eldiano. Estou bem quanto a isso. Porém, não quero partir sem a certeza de que a minha ilha está a salvo das garras desses animais que dividem o mundo conosco. Decidi utilizar meus últimos meses vivo para lutar pela minha casa.

No momento em que escrevo, acabei de me encontrar com Zeke Yeager. Zeke e eu vamos nos unir. Na próxima vez que nos encontrarmos, estarei em companhia de meu irmão de sangue. Se nos encontrarmos. A decisão caberá a vocês. Eu seguirei o plano de Zeke independente da ajuda da Tropa de Exploração, mas seu suporte será bem-vindo. Zeke me contou um plano de guerra que enfraquecerá as forças de Marley, o qual transcrevo a vocês na próxima página. O plano contém instruções, caso concordem em nos apoiar.

Por enquanto, tenho alguns pedidos. Aos hizuruneses, agradeço a belíssima hospitalidade e o passeio, e peço um último favor: que intermedeiem minhas cartas com a Tropa de Exploração. Já vocês, paradisianos, quero que vão embora de Marley e voltem para casa imediatamente. Não escrevam de volta, eu não posso receber correspondência e não é cabível dar o endereço de Zeke. Por favor, não venham atrás de mim. Vocês não vão me encontrar.

Amo vocês.

Se a mensagem de Eren já era perturbadora, a descrição do plano superava-a. Eren e Zeke planejavam atacar durante um festival que ocorreria em Marley no fim de agosto, quando o exército marleyano retornasse das guerras no Médio Oriente. Nesse festival estariam presentes representantes e líderes de países importantes, inclusive alguns que compareceram na reunião da APDY – como o da Inglaterra.

Após a leitura em voz alta, Jean saiu chutando o chão. Armin, lívido, pegou a carta e a releu três vezes. Mikasa pôs as mãos na cabeça dolorida. Connie e Sasha imploravam para que estivessem sonhando. Hange atravessava a sala de estar de uma extremidade a outra, conversando consigo mesma e suando frio.

Então, ajudar Eren ou correr ao governo de Marley e alertá-los sobre o ataque? Não havia dúvida sobre qual opção escolher. Além de ser o portador do titã fundador e do titã de ataque, duas armas poderosas que Paradis não podia arriscar perder, Eren era um amigo querido, alguém a quem conheciam desde a infância. A escolha era entre Eren e um futuro de paz incerto e duvidoso, o qual poderia quebrar-se a qualquer deslize. Porém, nenhum dos militares queria lutar. Vieram à Marley buscando alianças, e não vingança. Por essas e outras, bateram o martelo com ressentimento.

XXX

O navio regressou numa manhã ensolarada. Os mesmos familiares que se despediram dos viajantes na partida estavam lá para receber os peregrinos. A carta anunciando o retorno precoce chegara há dois dias. A viagem para Marley era segredo do estado, mas quando um navio hizurunês parte e oito militares paradisianos famosos somem, é impossível manter as informações abafadas. A notícia disseminou-se. Entre os mais paranoicos instalara-se o pânico e teorias da conspiração floresceram. Floch admitia, muitas dessas dúvidas foram plantadas por ele e sua gangue.

Floch misturava-se na multidão expectante. Destacavam-se os repórteres do jornal Folha de Paradis. Floch aguardava espigado e taciturno. Na outra extremidade, seus subordinados vigiavam e espreitavam. Louise sinalizou dois dedos. Floch respondeu acenando a cabeça.

Cerca de dois anos atrás, Eren e Floch reuniram amigos do exército e organizaram um grupo fechado. Uma espécie de clubinho secreto, ou casa da árvore. Na época estavam em seis. Agora eram vinte e cinco. Soldados da Tropa de Exploração, da Marinha, da Tropa Estacionária e da Polícia Militar espalhados nos mais diversos pontos de interesse – no quartel, na fazenda da rainha e no covil dos generais. A trupe crescia graças aos discursos de Floch e seu poder de persuasão.

O sócio de Floch não viria no navio. Floch soube de antemão. Antes da viagem, Eren encontrou-se com Floch e confessou seus objetivos grandiosos. Eren fingiria cooperar com Yelena e com Zeke para tomar posse do titã-real. Com o poder em mãos, Eren acordaria os colossais dentro das muralhas e... ah, o dilúvio. Eren reergueria o império de Eldia à guisa dos ancestrais: sob um banho de morte. Eren lavaria a terra imunda com o sangue dos impuros, e sob os corpos esmagados Eldia construiria a nova era. De fato, a Santa propaga seus milagres pelos caminhos mais mirabolantes. Eren, o escolhido; Floch, o apóstolo. Seja feita vossa vontade. Floch tomou a liberdade de mudar o nome do clubinho. Agora intitulam-se Yeageristas; trocadilho com o sobrenome do enviado da Santa.

Floch aproveitou a ausência dos superiores para preparar o terreno. Floch esteve tão imerso em mentiras que ele não se reconhecia. Para Yelena, Floch fingia-se de paradisiano lambedor das bolas de Zeke. Para o exército local, Floch era o soldado obediente. Para sua gangue, Floch era o pastor. E para os pais, Floch era o filho exemplar. Esse último nunca foi mentira, aos olhos de Floch. Contudo, a essa altura, Floch não mais distinguia o verdadeiro do falso.

— Floch, estou vendo o navio!

Exclamou a criança sobre seus ombros. Floch tinha se oferecido para levar Leona ao porto. Floch era mesmo um cara de pau! Vejam só, cuidando da filha de Hange como se não tivesse sido cúmplice do sequestro. Yelena tentou sequestrar Leona com o propósito de controlar Hange, pois a comandante estava grávida e se negava a beber bebida alcóolica. Por conseguinte, não cairia no plano do vinho envenenado.

No entanto, deu tudo errado. Leona escapou dos marleyanos e a babá relatou o crime no mesmo dia. Floch mandou seus yeageristas policiais escreverem um relatório falso descrevendo uma pequena rebelião marleyana. Os policiais forjaram atestados de prisão e, semanas depois, escreveram as certidões de óbito fictícias dos supostos criminosos. Esses relatórios foram para a Capital, fechadinhos e bonitos, e pararam nas mãos de um interno de confiança de Floch.

Se foi difícil conspirar com Yelena? Não. Nada é tão difícil quanto presenciar cinco amigos seus bebendo um vinho envenenado que você ajudou a trazer. Doeu. Floch agarrou-se à religião. A Santa salva aqueles que nela creem. O vinho marleyano era a prova final, a provação contra a tentação do diabo, um truque da Santa para encurralar as ovelhas negras. Os fisgados não são merecedores do paraíso, pois nunca foram fieis de coração.

— Também estou vendo o navio, Bolinha.

Floch pôs Leona no chão. Ela teria corrido caso Floch não a tivesse segurado pelo pulso. Leona protestou. Floch não cedeu. O navio atracou. Onyankopon foi o primeiro a sair. Chapéu sobre os olhos, andar inseguro, e a boca contorcida numa expressão infeliz. Onyankopon não fazia ideia do vinho; apesar de Yelena e Onyankopon terem chegado como aliados, Yelena alegou que não mais podiam contar com o inglês. "Onyankopon se apegou demais às pessoas dessa ilha", lamentou ela.

Os Azumabito desceram. Kiyomi logo dispersou-se com os membros de sua família. E então, os paradisianos apareceram na rampa. Sasha e Jean descem sorrindo sorrisos forçados a suas respectivas famílias, enquanto aqueles cujos pais não estão entre os vivos saem de semblante ansioso.

Quando Hange enfim apareceu no topo da rampa, Leona inquietou-se. Floch soltou-a. Leona atravessou a curta distância entre ela e sua mãe enquanto a própria Hange ia ao encontro de sua filha. Hange envolveu Leona num abraço tão caloroso que até Floch sensibilizou-se. O silencioso capitão Levi Ackerman seguia Hange de perto, parecendo prestes a pular no pescoço do primeiro que se aproximasse de sua namorada grávida. Os repórteres registraram a descida dos sete heróis. Eles esperaram Eren, o aclamado, surgir na rampa.

Porém, ninguém apareceu.

Como era de se esperar, os repórteres atacaram a comandante. Os espectadores de pronto aglomeraram-se para ouvir o que ela tinha a dizer sobre o absentismo de Eren. Os Yeageristas juntaram-se aos ignorantes e fizeram à Hange os mesmos questionamentos: aonde está Eren? Por que ele não voltou? Deu alguma coisa errada na viagem?

Levi intrometeu-se entre Hange e os fofoqueiros e mandou-os irem tomar no cu. Leona, até então acovardada e confusa, prestou atenção em Levi e imitou-o: ela eriçou-se feito um gatinho bravo e mandou os adultos deixarem sua mãe em paz. Os repórteres e os expectadores, movidos pela adrenalina e dispostos a discutir com Levi, começaram a bradar os direitos do povo.

Nesse instante, Hange mostrou que não precisava de ajuda. Ela vestiu a expressão de comandante, bateu o pé e usou sua voz grave e autoritária para comunicar que Eren permaneceu em Marley pelo interesse de Eldia. Os repórteres perguntaram do que Hange falava. Hange não podia dar mais informações, mas garantiu que a missão viabilizaria a relação entre Paradis e Marley. Se Hange estava nervosa, disfarçou bem.

— Deixem-nos ir. Foi uma viagem longa.

O grupo abriu espaço. Na concepção de Levi, não o bastante. O capitão forçou-os a se afastar mais. Hange passou com uma mão consolando a pequenina protuberância no abdômen e com o outro braço ao redor dos ombros de Leona. A garotinha acenou para Floch, sorrindo. Floch retribuiu.

XXX

Levi passou a manhã no quartel. Era o terceiro dia em Paradis e o caos já reinava. Graças aos irmãos Yeager, um milhão de preparativos caia nas costas da Tropa de Exploração. Eles não iam simplesmente lutar, eles lutariam em território inimigo e contra um exército numeroso. Precisavam capacitar soldados, arranjar o transporte e elaborar estratégias alternativas em caso de falhas. O capitão revisava a carta de Eren. O planejamento o fascinava e assombrava. A cada releitura, Levi torcia para que o terrorismo fosse delírio de sua parte.

O pior era Zeke Yeager, o homem a quem Levi jurou matar. Seu único arrependimento na vida era o de não ter cumprido a promessa feita a Erwin. Se pudesse fazer com que Zeke morresse sob sua espada, Levi estaria contente. Levi quitaria sua dívida com Erwin e poderia ser enterrado em paz.

Levi costumava pensar em Erwin com o viu antes de separarem-se: relaxado, sorrindo com seus olhos grandes e brilhantes — um homem livre. Entretanto, quando lia o nome de Zeke, Levi cerrava os dentes e amarfanhava as bordas do papel. Caramba, Erwin, lembra do cara que eu jurei matar? Pois é, eu e ele estamos trabalhando juntos. Porra, precisamos deixar o passado para trás, cara. E daí que o Zeke matou você e noventa e cinco por cento da Tropa de Exploração? O perdão é uma virtude. Levi sentia a versão feia dos olhos de Erwin, aquela fria e sem brilho, encarando-o com decepção.

Não obstante, Levi não confiava naquele homenzarrão barbudo e fedorento. Levi jamais esqueceria os crimes de Zeke; as vítimas da vila Ragako e a matança em Shiganshina. Agora Zeke quer ajudar Paradis? Se alguém te bate até dizer chega, há de se duvidar se esse mesmo individuo aparece te oferecendo tortas de maçã. Levi não deixaria enganar-se. Foda-se. Levi vai participar por sua família, pelos subordinados e pelo país. Mas no instante em que a máscara de Zeke cair, ele receberá o beijo de sua lâmina.

Levi fitou o relógio. Onze e meia. Hange já devia estar em casa. Ela tinha uma consulta com o médico. Hange não passara as duas últimas noites bem, sobretudo após contarem-lhe da tentativa de sequestro de Leona. Hange também martirizava-se pela relação destruída entre Paradis e o mundo exterior, e em como eles seriam (mais) demonizados após o ataque à Marley. Ganhando ou perdendo, a luta continuaria contando como derrota para a nação eldiana.

O capitão guardou as cartas, recolheu as pastas e girou a chave duas vezes na fechadura. Levi e Hange combinaram de almoçar em casa e voltarem juntos ao quartel para mais uma enxurrada de dor de cabeça. O capitão dispensou o cocheiro ansioso que se ofereceu para leva-lo. Levi foi andando numa passada pouco relaxada, ainda que resoluta e conformada, como uma pessoa que tem um compromisso importante o qual gostaria de desmarcar. Ao chegar em casa, Levi estranhou encontra-la com as janelas e as portas trancadas. No escorredor descansavam a xícara de chá de Levi, e o copo onde Leona bebeu o leite antes de sair para a escola.

— Hange? Você já voltou?

Levi ouviu passos e o barulho de uma porta sendo aberta no segundo andar. O capitão deu de ombros e começou a despir o casaco e as botas. Enquanto largava as roupas ao lado da porta, Levi sentiu a presença de Hange na escada.

— Hange, o quartel está uma loucura. Nós t-

Levi emudeceu ao virar-se e encontrar Hange imóvel no último degrau. Hange não usava óculos e nem tapa-olho. O cabelo caótico dava-lhe ares de alguém recém acordado. A primeira coisa que Levi percebeu foi que Hange estava nua da cintura para baixo. E a segunda, que ela tinha sangue entre as pernas.

— Levi, eu a perdi.

O coração de Levi parou. Lá em cima, Hange cobriu o rosto. O choro da comandante veio após o longo soluço esganiçado. O capitão subiu as escadas e a abraçou.

— A Ferinha morreu. Não consegui salvá-la. Eu tentei segurar, eu tentei, eu tentei...

Hange tremia da cabeça aos pés. A lamentação transformou-se em gritos de raiva. Hange descontou no capitão, golpeando-o no peito com o punho cerrado. Levi aguentou o soco, limitando sua reação a um gemido gutural.

— Não é sua culpa.

— É, sim.

Hange retomou a compunção. Desolada pela morte de seu bebezinho, Hange berrava frases contritas. Uma pequena poça vermelha se formava abaixo deles, onde o sangue pingava. A dor de Hange anestesiou Levi. O capitão desligou as próprias emoções como costumava fazer quando entravam em batalha e os soldados começavam a morrer nas mãos dos titãs. Ele estava arrasado, mas Hange estava destruída. Levi assumiu a responsabilidade.

— Hange, vamos tomar banho.

— Não quero. — Hange teimou numa voz aguda e infantilizada.

— Você não pode continuar desse jeito. Vem.

— NÃO QUERO!

O capitão não se deu ao trabalho de insistir. Ele pegou Hange no colo. As queixas de Hange viraram palavras desconexas, e essas por sua vez foram convertidas a gemidos chorosos. Levi abriu a porta do banheiro com o pé. Só a Santa sabe o horror que Hange passou sozinha naquele aposento. Os papéis higiênicos usados pulavam da lixeira, as toalhas jaziam ensanguentadas, e a privada se encontrava num estado pior. A tampa estava aberta. A visão lembrou Levi as plantas carnívoras à espera das moscas desavisadas. Levi passou direto pela armadilha. Teria bastante tempo para isso daqui a pouco. Por ora, cuidaria de Hange.

Levi colocou Hange na banheira e abriu a torneira na água quente. Hange encarava a privada sem piscar. Soluços mudos e trêmulos escapavam da boca entreaberta. Levi fechou a tampa evitando olhar o conteúdo e segurou a corda da descarga.

— DEIXA A JADE EM PAZ!

Levi estagnou. Hange suplicou em palavras entrecortadas e ofegantes:

— A minha filha está aí dentro. Não a mande embora, por favor. O esgoto é nojento, é gelado...

— Tudo bem, tudo bem.

O capitão sentou na borda da banheira. Hange nem fez questão de pegar o balde. Levi o encheu e despejou a água no colo da comandante.

— Hange, se lava.

Levi pôs a esponja na mão dela. Hange contemplou a esponja como se não soubesse a finalidade do objeto. Levi, suspirando, pegou o pulso de Hange e o colocou perto do monte de vênus. Hange continuava atordoada, mas o corpo sabia como fazer as necessidades básicas por si só. Ela começou a se limpar em movimentos repetitivos e superficiais. Levi derramava a água e incentivava Hange a se esfregar.

Depois que o sangue se foi, Levi fechou o ralo da banheira. Água quente e limpa preencheu o espaço retangular. Levi lavou o cabelo de Hange e esfregou suas costas. Hange, agarrada aos próprios ombros, encarava o reflexo caolho na água translúcida. Nenhum deles disse nada. Na saída, Levi se colocou entre a privada e Hange, barrando a visão do túmulo da Ferinha. Levi a levou ao quarto.

— Aqui, Hange.

O capitão a ajudou a vestir o pijama. Depois, enrolou o pescoço de Hange numa manta e lhe colocou meias. A cama estava desarrumada. Tudo dava a entender que Hange sequer fora ao médico. O capitão estendeu a cama e Hange entrou em baixo dos lençóis rapidamente, feito um animalzinho silvestre se escondendo dos humanos. Hange deitou-se sobre o lado direito, pondo Levi no ponto cego. O capitão ajoelhou-se e acariciou a bochecha de Hange.

— Você está sentindo dor? — Sussurrou Levi.

— Minha cabeça e minha virilha...

— Vou trazer o remédio.

— Levi.

— Sim?

— É melhor assim, não é?

Levi não sabia o que responder. Não saberia se o bebê fosse de outro homem, tampouco se ele e Hange não se conhecessem. Seja o descendente uma criança no ventre ou um homem feito, o que você diz para consolar uma mulher que acabou de perder o filho?

— Hange, eu já venho, tá?

O capitão retornou ao banheiro. Lá, apanhou a caixa de medicamentos e escolheu dois para dor. Depois, foi na cozinha e apanhou a garrafa d'água. Hange aceitou a medicação sem reclamar. A comandante meteu os dois remédios na boca e bebeu água até a garrafa secar.

— O quartel. — Hange alarmou-se. — Eu preciso ir trabalhar.

— Hoje não. Deixa comigo, tudo bem? Eu vou resolver as coisas.

— Mas a batalha...

— Está tudo sob controle. — Levi a fez deitar. —Descanse.

Levi deitou-se no outro lado. O capitão abraçou Hange por trás. A comandante não reagiu. Levi respeitou o espaço dela. Em minutos, Hange aceitou o afeto. Ela aninhou-se entre os braços acolhedores. Em certo ponto, Hange recomeçou o pranto silente. Levi a ninou até Hange adormecer. Quando se fez vinte minutos de silêncio ininterrupto, Levi, com muito cuidado e gentileza, desvencilhou-se.

O capitão fechou a porta devagar. A fechadura deu um clique quase inaudível. O transe se dissipava. A dor apertava o peito de Levi de dentro para fora. Eles desejaram Jade. Quiseram-na pensando na vida que teriam juntos, aquele futuro utópico pouco a pouco construído através de esforço duro, arrancado de seus braços do dia para a noite. Jade estava morta, e com ela os sonhos saudáveis se foram e a guerra veio.

O capitão muniu-se de produtos de limpeza, preparou suas misturas assassinas de sujeira e se pôs a limpar o banheiro. Levi lavou a banheira, o chão, a lixeira, as paredes, os armários, a pia. Ele recordava os ensinamentos de Kenny; água gelada para o sangue, guri, regra número um, água gelada para o sangue, água quente gruda, é uma merda.

Levi deixou a privada por último. Abriu a tampa. Dentro existia uma água grossa e amarronzada. Levi abriu a boca e descobriu que as palavras machucavam-no antes mesmo de saírem. Adeus, Ferinha, o papai ama você, despediu-se em silêncio. Por fim, puxou a descarga.

Quando Levi terminou, ninguém diria que o banheiro fora palco de um acontecimento terrível. A privada parecia recém-comprada. Enfim acabado o serviço, Levi foi conferir Hange. A comandante dormia profundamente. Assim sendo, Levi sentou-se na escada e aguardou. Faltava contar a uma pessoa.

Em dez minutos, a pessoa chegou em casa.

— MÃE, EU-

Leona surgiu em sua clássica entrada triunfal, porém, ao ver o capitão na escada, Leona calou-se. A preocupação que murchou o rosto dela fez Levi perceber que ele não estava com uma cara amigável. Leona aproximou-se desconfiada e acautelada — na cabeça de Leona, ela era a culpada do semblante zangado do capitão.

— Senhor Levi, heh... — Leona deu uma risada torta. — Por que o senhor está com essa cara? E-eu lavei o meu copo antes de sair. O senhor viu.

— Leona, a sua mãe está mal. — É melhor ser direto. — A Jade virou estrelinha.

— Huh? — Leona levantou as sobrancelhas e recuou, aturdida. — O senhor está de brincadeira?

— Não estou. A sua mãe perdeu o bebê.

— Como? Como a minha irmãzinha pode virar estrelinha se ela ainda nem nasceu? Cadê a minha mãe? MÃE!

— Calada, Smith. — Levi tampou a boca de Leona. — Sua mãe está lá em cima, dormindo.

Leona resmungou contra a mão que pressionava sua boca. Levi abaixou o braço.

— Eu quero falar com ela. — A voz de Leona tinha quê de lágrimas.

— Não. Ela está dormindo, já falei.

— Mas eu quero falar com a minha mãe!

— Leona, você é retardada? Pare de ser tão infantil. Se você falar alto de novo, eu vou arrancar a sua língua fora.

A olhada dada à Leona e a ênfase perigosa na ameaça transparecia o estresse acumulado das últimas semanas. Levi descontava em Leona a raiva que ele direcionava a Zeke, a Eren, a Marley, a Paradis e a si próprio. O capitão deu-se de conta da injustiça cometida e gesticulou um cansado pedido de desculpas à criança horripilada.

— Desculpe, Smith. Eu... Desculpe, tudo bem?

Leona assentiu dolorosamente.

— A minha irmãzinha virou estrelinha... como? Como? Isso não é justo. Ela nem nasceu. — Leona fez uma pausa. — Tem a ver com os gatinhos que eu trouxe?

— Você trouxe gatos pra cá? — Levi franziu as sobrancelhas.

— Eu doei antes de vocês voltarem, senhor Levi, palavra. — Leona fungava. — Minha irmãzinha morreu por causa da toso... toxo...

— Não foi culpa dos gatos. — Levi, sabendo que Leona não descansaria até entender por que sua irmã morreu, tranquilizou-a: — Eu explico mais tarde, certo? Preciso da sua ajuda. Me empresta uma folha de caderno e um lápis.

Leona entregou os materiais solicitados. Levi escreveu uma mensagem para o quartel avisando que nem ele e nem Hange compareceriam nos próximos dois expedientes. O capitão deixava os documentos e as eventuais reuniões à cargo de Armin, Jean e Floch. Levi entregou o bilhete à Leona.

— Leve isso para o quartel. Chame os seus amigos para irem com você, não quero você andando sozinha depois do que aconteceu quando nós estávamos fora. Eu vou ficar aqui e cuidar da sua mãe.

— Por que eu não posso ficar e cuidar dela? — Era a vez de Leona descontar em Levi. — Eu já era parte da família antes de o senhor-

— Porque você não tem força e nem tamanho.

As palavras feriram Leona, mas as fizeram entender. A garotinha abaixou a cabeça, resignada.

— Certo, senhor Levi. — Leona guardou a folha na mochila da escola. — Se a minha mãe quiser falar comigo, diga que eu já estou voltando. — Disse ela, disposta a ajudar de qualquer maneira.

— Vou avisar.

Levi acompanhou a criança até a porta. Depois que Leona se foi, Levi segurou o peito dolorido. O luto era um sofrimento profundo compartilhado entre ele e Hange. Levi amou Jade desde o segundo em que soube da gravidez, e continuaria a amando até o fim dos tempos. Hange, Levi sabia, se sentia do mesmo modo. O capitão voltou ao quarto onde Hange dormia e beijou a cicatriz do olho faltante. Hange era e será, para todo o sempre, a mãe de sua filha.