Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)

47 Luzes brilhantes na escuridão noturna


Notas iniciais
— Responda o formulário: https://forms.gle/1siu5axAFzaJn9LB6

Como o ataque à Marley ocorreria durante a noite, o expediente de Levi virou de ponta cabeça. O capitão passava as madrugadas ensinando combate em ambientes pouco iluminados aos soldados escalados. Hange, por outro lado, trabalhava até nos dias de folga, e fora tantas vezes à Capital que os recepcionistas brincavam de ameaçar pôr o nome da comandante na porta do hotel. Hange e Levi não viam sentido em viver juntos tendo horários tão divergentes. Logo, as roupas de Levi guardadas no armário de Hange foram substituídas por relatórios e protótipos.

O preparatório interrompeu o luto de Hange. Entre as longas reuniões e treinamentos, Hange não pôde enfrentar a morte de seu bebezinho da forma como deveria. O vazio impreenchível foi empurrado para baixo do tapete, e por vezes atormentava Hange nas madrugadas de domingo e nas demoradas viagens de carruagem. O distanciamento entre ela e Levi não ajudou, embora Hange não tivesse consciência dessa necessidade tão específica.

Nesse ínterim caótico, Levi e Hange desenvolveram suas próprias obsessões compulsivas.

O Folha de Paradis noticiou a gravidez da rainha Historia. A identidade do pai, um funcionário ordinário da fazenda, chocou a população e horripilou os nobres. Historia estava grávida de dois meses. A rainha engravidou em janeiro, ou seja, antes ou durante a viagem da Tropa de Exploração. A novidade intrigou Hange. Não parecia do feitio de Historia engravidar por acidente (convenhamos, esse é um pensamento hipócrita da parte de Hange). Historia não poderia herdar o titã bestial antes de dar à luz — o feto morreria na transformação. Dessa maneira, Zeke estaria a salvo da herança. Conveniente demais para ser coincidência. Talvez houvesse o dedo de Yelena nisso. Hange andava duvidando de Yelena desde a tentativa de sequestro de Leona.

Hange desconfiava de Yelena por causa do posicionamento dubio da espiã. Cinco anos atrás, Yelena anunciou seu apoio a Paradis baleando um companheiro marleyano na cabeça. Tal como assassinou o infeliz, na hora de punir os contrários à sua ideologia, Yelena não poupou balas. Em contrapartida, Yelena ajudou a viabilizar a relação entre paradisianos e forasteiros, e implorou direitos de cidadania aos marleyanos. Yelena era uma pessoa agradável com os soldados da Tropa de Exploração e sempre tratou Leona com amabilidade. Mesmo assim, Hange não era capaz de esquecer a naturalidade no olhar daquela mulher ao matar seus próprios colegas. Quem garante que Yelena não faria mal aos demônios de Paradis?

Portanto, num dia em que Hange visitou a Capital para experimentar e aprovar o novo uniforme de batalha – desenhado e idealizado pela própria Hange -, a comandante deu uma passadinha na sede da Polícia Militar e solicitou a papelada sobre a tal rebelião marleyana. Após três horas de espera e um atendimento grosseiro, Hange conseguiu os documentos.

À primeira vista parecia tudo correto. A descrição da rebelião batia com as informações recebidas de Floch. Contudo, Hange não se convenceu sobre as certidões de óbito. Hange teve a impressão de que encobriam a fuga de alguém. Sendo assim, Hange pesquisou nos arquivos do quartel-general as cópias das fichas dos tripulantes dos navios sequestrados. Vejam só, não existiam registros sob o nome dos culpados do sequestro. Hange não ia ficar mansinha perante uma situação que pôs a vida de sua filha em perigo. Desse modo, Hange chamou Yelena na sala do comandante. O seguinte diálogo desenrolou-se:

— Yelena, eu gostaria de perguntar, o que você sabe sobre a rebelião que aconteceu enquanto eu estive em Marley?

Yelena sacudiu a cabeça como quem lamenta.

— Essa rebelião foi complicada de contornar. Os organizadores são nomes de peso entre os marleyanos. São capitães da marinha de Marley. Eles têm muita influência. Foi um milagre a Bolinha escapar e avisar a gente. Pudemos prendê-los antes que eles chamassem mais comparsas. Certamente conseguiriam apoio quando mostrassem que havia um meio de controlar você.

Doía à Hange pensar que o seu cargo no exército colocava a segurança de Leona em perigo.

— O que aconteceu com esses homens?

— Fomos obrigados a sacrificá-los. Nessa altura do campeonato é perigoso lidarmos com guerras civis, ainda mais porque estamos com uma missão bem adiante.

Hange, fingindo-se de desentendida, apanhou uma caneta e uma folha de papel.

— Pode me dizer o nome deles?

— Christopher Paladin. Edward Collin. Gordon Edgar.

Hange escondeu a surpresa atrás da impassibilidade. Os nomes ditos por Yelena não eram os mesmos das certidões de óbito.

— A morte desses capitães foi documentada, Yelena? — Hange encarou-a por cima dos óculos.

— Naturalmente não, comandante. — Yelena respondeu com veemência. — Os marleyanos não podem saber que Christopher, Edward e Gordon estavam por trás da artimanha. Nós forjamos a identidade dos culpados para abafar a verdade. Do contrário, teríamos enfrentando uns dez confrontos durante a ausência da Tropa de Exploração. Você sabe, Hange, a gente dá duro, mas o que de fato segura as rédeas dos marleyanos são os transformados e os Ackermans.

A dicção da espiã não deslizou em nenhum momento. Os olhos atentos de Yelena fitavam Hange sem indícios de culpa ou constrangimento.

— Entendi. — Hange aquiesceu. — Obrigada por cuidar da gente. Gostaria de me acompanhar numa xícara de chá? — Ofereceu Hange por educação.

— Não tenho tempo, comandante. Tenho muito a fazer. — Yelena se levantou. — Ah, sinto muito pelo seu neném. Não se preocupe, você e o capitão Levi estão na flor da idade. Vocês vão conseguir outro filho.

Hange sorriu e fez sinal de obrigada-mas-deixa-pra-lá. Ah, Jade... Em seu último dia em Marley, Hange sentiu um ronco semelhante a gases no ventre. Hange tinha certeza de que não eram simples sons corporais, e sim sua filha, aquela ferinha furiosa, dando olá. "Vocês vão conseguir outro filho". Hahaha, que fácil.

Yelena saiu e Hange pôde desmanchar o sorriso falso. A história dos três capitães justificava as certidões falsas. Contudo, continuavam falando de Yelena, a matadora de aliados e seguidora do assassino de Erwin e Moblit. Hange removeu os livros amontoados sobre o plano que passara a manhã desenvolvendo. A comandante encarou o papel por bons minutos, sem parar de martelar os dedos na escrivaninha. Por fim, Hange armazenou a folha na pasta da documentação confidencial.

A obsessão de Levi também se relacionava à Yelena. Levi não aturava aquela torre demente. Se pudesse, Levi decapitava Yelena e mandava a cabeça decepada à Zeke pelo correio com cabelo tigelinha e tudo. Além de Eren, Yelena era a única a par do plano completo de Zeke, e até agora nada de a megera desembuchar. O que consolava Levi era a estratégia secreta elaborada por Hange.

O plano constituía-se em aprisionar Zeke na floresta Titã, um bosque chamado assim por suas árvores gigantes. As árvores garantem livre mobilidade aos soldados, e não há pedregulhos para Zeke brincar. Isolariam Zeke antes que ele entrasse em contato físico com Eren, e só o liberariam quando o "aliado" esclarecesse seus objetivos. Do ponto de vista de Levi, era uma decisão inteligente não deixar Zeke andando solto por aí. E se cabia a ele a tarefa de vigiar o jumento, melhor ainda. Kenny costumava dizer "mantenha os inimigos por perto, guri". Levi nunca tinha visto sentido nessa frase confusa até agora.

Os meses passaram depressa. Quando menos esperavam, Eren enviou outra carta informando o endereço e horário exatos do festival. Eren se transformaria na apresentação de Willy Tybur, o suposto portador do titã martelo. Na confusão, Eren devoraria Willy e destruiria a arquibancada de onde os militares assistiriam à apresentação, de sobra levando os representantes internacionais. Paralelamente, Yelena garantiria que os portadores dos titãs carroça e mandíbula jamais chegassem ao festival, assim os eliminando da luta. Eren garantiu que daria cabo do titã encouraçado antes da batalha (ninguém acreditou). Enfim, Zeke Yeager fingiria lutar contra Eren. Nisso, Levi e seu esquadrão surgiriam e "derrotariam" Zeke. Isto é, Zeke fingiria perder. À Armin designou-se a tarefa de explodir a frota marítima, e à Hange o resgate. Mesmo fora da luta, Hange e Armin usariam os novos uniformes e iriam se armar até os dentes com lança-trovões e submetralhadoras marleyanas.

O combate aconteceria em Liberio, a casa de seus irmãos eldianos. Isso significava que, quando Eren mandasse o festival pelos ares e os marleyanos começassem a atirar, a maior parte das baixas de civis seriam cidadãos eldianos. Hange esperava que sob a lâmina das espadas de Paradis não falecesse um liberiano sequer.

XXX

A noite chegou.

Ao contrário dos aviões, voar de dirigível é uma experiência tranquila e silenciosa. Se pode, inclusive, abrir as janelas. Hange, entretanto, não estava em condições de aproveitar o voo. O porto devastado capturara sua atenção. Nem mesmo Onyankopon, o piloto do aeróstato, distraia a comandante. O inglês puxava assunto e Hange o respondia com respostas monossilábicas.

O expansivo porto marleyano fora transformado num cemitério. Navios destruídos espalhavam-se fora d'água, arremessados para além dos limites do mar. Aqui e acolá viam-se restos mortais boiando na superfície da água escura. É isso o que acontece quando o titã colossal explode. E por falar em titã colossal, Hange o enxergava. O tamanho do monstro engana o olho; dava a impressão de estar próximo, todavia se localizava a quilômetros. O dirigível orientava-se pelo rastro de destruição – o titã colossal os guiaria para a cidade. Ao aproximar-se do município, o titã parou e aguardou o resgate. O aeróstato voou sobre a nuca exposta do monstro, e quando por fim atravessou-a, o titã era uma carcaça vazia.

— Algum problema lá em baixo, Armin?

Hange perguntou quando o portador do titã colossal entrou na cabine do piloto. Armin parou ao lado da comandante. Os dois se postavam atrás de Onyankopon. Graças à Santa Onyankopon não é do tipo que começa a cometer erros se observado trabalhando.

— Nenhum, Comandante. — Respondeu Armin, breve.

— Ótimo. — Hange voltou-se para a visão panorâmica. — Estamos entrando em Liberio.

Muralhas dividiam a zona eldiana do resto de Marley. Paradisianos, liberianos ou "descendentes de Ymir", os muros fazem parte da realidade dos filhos de Eldia. Quando visitaram Marley, Hange e seus subordinados não tiveram a oportunidade de passear em Liberio. Era um lugar de difícil acesso por terra caso você não fosse um soldado marleyano. Os liberianos precisavam de permissões para entrar e sair. Além disso, andar sem braçadeira tanto dentro quanto fora da cidadezinha é crime inafiançável. Apenas os transformados têm a liberdade de ir e vir, bem como o privilégio de morar fora de Liberio e levar seus pais, irmãos e cônjuge.

A cidade estava silente. Os vivos escondiam-se atrás das janelas fechadas. Os cadáveres vestidos em uniformes beges distribuíam-se nas ruas e calçadas. Os soldados paradisianos eliminaram as tropas inimigas e marcaram as áreas seguras colocando pedrinhas brilhosas no telhado das casas. Os paradisianos haviam cortado a luz elétrica. Segundo Onyankopon, esse simples feito retardaria os inimigos acostumados à luz artificial (pelas marcas de susto e desorientação no rosto dos mortos, Onyankopon acertou). As únicas luzes eram as postas pela Tropa de Exploração. Os lampiões desenhavam uma estrada na escuridão.

— Comandante. — Atentou-se Onyankopon. — Estou vendo a rota.

— Eu também estou. Vamos continuar com a nossa estratégia. — Hange apertou o ombro do inglês. — Em frente.

As luzes foram ideia de Hange. A do dirigível, de Armin. Foi uma boa sacada, porém arriscada – se os marleyanos porventura derrubassem o aeróstato, acabou. No entanto, era a única alternativa favorável uma vez que Zeke não ofereceu meios de chegar em Liberio. O aeróstato era hizurunês, mas o nome da família Azumabito foi apagado do balão.

— Por enquanto sua ideia está funcionando às mil maravilhas, Armin. — Hange parabenizou-o.

— Espero que todos consigam embarcar. — Armin ignorou o elogio.

Alcançaram o festival arruinado. Um titã pequeno – o titã mandíbula, Hange supunha – avistou-os. O titã tinha o rosto branco e uma volumosa cabeleira dourada igual às jubas dos felinos africanos que Leona gostava. O titãzinho vinha saltando de prédio em prédio na direção do aeróstato. Hange, maravilhada, quase desejou que o monstro destruísse o dirigível apenas para testar o poder de ataque do monstro. Entretanto, o titãzinho foi logo derrubado por algo/alguém – pela eficiência, Mikasa ou Levi.

O titã mandíbula não devia estar em campo. Era trabalho de Yelena aprisionar os portadores do titã mandíbula e do titã carroça. Hange achou instigante justo a parte de Yelena falhar.

Lá em baixo, a Tropa de Exploração se revezava entre duelar, proteger Eren e escoltar o dirigível. O olhar atento de Hange procurava Levi. A comandante aliviou-se por não tê-lo encontrado; Levi estava tendo sucesso em ser furtivo. Em minutos chegou a informação de que Levi, Yelena e Zeke embarcaram no aeróstato em segurança, embora Zeke estivesse com... todos os membros faltando.

Após atirar Zeke de qualquer jeito na gôndola, Levi se pôs a esperar os subordinados. Mirabel, Camilo, Luisa, Bruno... Levi murmurava os nomes conforme os soldados entravam. Levi conhecia todos os militares, incluindo os novos recrutas. Se faltasse alguém, Levi saberia.

Então, Eren e Mikasa chegaram. Eren trajava o disfarce de soldado liberiano dodói da cabeça — as roupas claras e surradas do hospital de Liberio e uma braçadeira amarela. Levi crispou os lábios. O que aquele imbecil estava pensando, atando as mãos dos amigos e obrigando-os a seguir um plano perigosíssimo? Seja lá o que fosse, Levi deixou bem claro sua opinião sobre as intenções de Eren dando-lhe um magnífico coice na fuça. Mikasa enfureceu-se. Armin pôs juízo na cabeça da Ackerman antes que ela resolvesse puxar briga.

— Eren, você continua fácil de chutar. — Levi sibilou. — Você vai ficar na prisão até as próximas ordens.

— Tanto faz. — Eren deu de ombros. O nariz quebrado já regenerava. — Contanto que o esquema siga conforme o planejado.

O estado deplorável de Eren ia além das roupas maltrapilhas e do cansaço das transformações. Eren se assemelhava aos desesperançados da cidade subterrânea; homens e mulheres que perderam o rumo da própria vida. Era uma visão de dar dó. Entretanto, Levi não conseguia sentir dó de Eren, apenas decepção.

— Alegre-se, doente. — Através de um aceno de cabeça, Levi indicou o cotoco que era Zeke Yeager. — Tudo aconteceu de acordo com o plano de vossas senhorias.

Os óculos de Zeke Yeager espelharam a face indiferente de Eren. O Yeager mais velho sorriu para o irmãozinho. Eren nem tentou retribuir. Jean acabara de subir no dirigível. Por fim, restava apenas o esquadrão Lyma retornar.

— Jean. — Levi chamou. — Quantas baixas tivemos até agora?

— Seis, capitão.

— Está vendo, Eren? — Ralhou Levi, encarando Eren com repulsa. — Perdemos seis.

— Lamento me intrometer. — Disse Floch claramente não lamentando nada. — Mas perto dos danos que causamos ao inimigo, foi uma vitória esmagadora. — Floch levantou o braço. — NOSSA PRIMEIRA BATALHA COMO RENASCIDO IMPÉRIO DE ELDIA TERMINOU COM UMA VITÓRIA GLORIOSA!

O clamor de Floch desencadeou uma onda de comemorações. Gritos e lágrimas inundaram o dirigível. Os soldados paradisianos pularam, sapatearam, abraçaram-se e ameaçaram explodir os lança-trovões no teto do aeróstato.

— Ah, pronto. — Levi revirou os olhos. — Renascido império de Eldia. Era só o que me faltava

Levi agarrou Zeke pelos cabelos e o arrastou até a saleta entre a gôndola e a cabine do piloto. O capitão ignorou as queixas do cara peluda e o voluntarismo de Yelena em carregar Zeke. Eren, Mikasa e Armin os seguiram. Levi arremessou Zeke na parede. Eren sentou-se no banco a poucos metros de Zeke. Levi reparou que o soldado tomava o cuidado de não encostar no irmão – sabe-se lá o que acontece quando um transformado de sangue real entra em contato com o titã fundador. Levi pensou em mandar Mikasa amarrar Eren, então pensou melhor e amarrou-o sozinho. O capitão apertou bem as cordas para o soldado fujão ficar com os pulsos doloridos até o desembarque. A fiel seguidora de Zeke parou ao lado do dito cujo. Nesse momento, Levi fitou Yelena pela primeira vez na noite.

— Você vai ficar com esse negócio na cara até quando?

— Ah. — Yelena removeu a barba falsa, acessório do seu disfarce de infiltração. — Esqueci.

Na gôndola, a comemoração continuava. Levi escutou o estrondo de três tiros consecutivos; algum idiota comemorava atirando a esmo. Berros mais agressivos vieram, e o barulho metálico de algo batendo nas paredes reverberou.

— Esses jumentos vão fazer algazarra a noite toda? Eu vou lá ver.

Entretanto, Levi não precisou ir checar. A porta de ferro se abriu. Jean apareceu trazendo dois visitantes inusitados: um menino e uma menina de mais ou menos doze anos. As crianças estavam amarradas de forma que não tivessem livre movimento dos braços. Ambas foram agredidas, sendo a menina a mais maltratada. As crianças não repararam na presença dos paradisianos. Os dois pares de olhos esbugalhados miravam Zeke. O cara peluda, tão surpreso quanto o resto dos presentes, reconheceu-as:

— Gabi? Falco? O que vocês estão fazendo aqui!?

Gabi e Falco aliviaram-se por encontrar Zeke vivo e por estarem em companhia de um adulto conhecido. A menina perguntou se Zeke estava sendo torturado e interrogado. A reação de Zeke foi um suspiro exausto e desgostoso.

Jean, segurando as crianças pelo cangote e botando uma pressão exagerada na menina, não estava de cara boa.

— Essas crianças mataram o Lobov e roubaram o equipamento de manobras. Essa aqui — Jean balançou a menina. A voz dele embargou. — atirou na Sasha. Estamos tentando salvá-la. Eu acho que ela não vai sobreviver.

A inexpressividade de Levi oscilou quando o capitão arregalou os olhos. Armin e Mikasa passaram correndo pela porta entreaberta e sumiram de vista. Acabaram de perder uma das, se não a melhor, atiradoras da Tropa de Exploração. Sasha esteve em seu esquadrão desde os quinze anos de idade. Levi fechou os olhos. Desejou que Sasha sobrevivesse, mas também se preparou para o pior.

— Vou deixar o resto com você, Onyankopon.

A voz familiar fez Levi virar-se. A porta da cabine de comando se abriu e Hange entrou na saleta. A comandante realizou uma rápida análise visual em Zeke. Levi leu as rugas que se formaram no rosto de Hange: ela não gostou do cara peluda.

— Boa noite, eu sou a Hange Zöe. — Às vezes Hange esquecia-se de incluir o título "comandante". — Tudo funcionou de acordo com o seu plano, Zeke Yeager?

— Ah, olá. Sim. — Zeke pigarreou. — Deu tudo certo apesar dos erros de cálculo.

As crianças perderam o ar. Gabi pronunciou o nome de Zeke com a voz penosa de alguém que acaba de descobrir uma traição.

— Huh? Quem são essas crianças? — Hange reparou nos intrusos.

— Os erros de cálculo. — Respondeu Zeke com leviandade.

— Ora, e você entende muito de erros de cálculo, não é, cara peluda? — Levi não se aguentava de vontade de xingar Zeke. — Você atirou mais pedras na gente do que o combinado. Imagino que seus dotes matemáticos não sejam bons.

— Não estamos mais em trabalho. Já pode parar de atuar, capitão Levi. — Rebateu Zeke. — Aliás, bom ator você, não? Me mutilando sem necessidade... quase pensei que você quisesse mesmo me matar.

Levi encarou Zeke de cima. Ah, como queria desembainhar a espada e partir aquele pedaço de merda ao meio. Levi, injurioso, disse numa voz perigosamente calma:

— Eu não sei atuar.

Enquanto Levi fuzilava Zeke, Jean perdia as estribeiras com Yelena e a acusava de não ter segurado o titã carroça e o titã mandíbula. Por causa dessa falha, cinco soldados morreram. Yelena aceitou a culpa, porém alegou ter absoluta certeza de ter prendido os transformados. Eren deu fim à discussão afirmando o óbvio:

— Nós aniquilamos o alto escalão de Marley, o porto e a frota marítima principal. Conseguimos ganhar algum tempo.

Hange, até então fora do debate, entrou na briga. A comandante moveu a cabeça apenas o suficiente para encarar Eren de esguelha.

— Tempo, você diz? Com "tempo" você quer dizer as semanas que temos até as outras nações se unirem e invadirem a nossa ilha? — Hange pôs Eren de vez em seu campo de visão unilateral. — Você some, nos envia uma carta cheia de decisão e não nos deixa escolha senão seguir você. Fez isso conosco, com os seus amigos... — Hange exasperou-se. — Seu egoísta. Você confia em nós, Eren, mas nós não confiamos mais em você.

O sermão surtiu pouco efeito na expressão neutra de Eren. Zeke respondeu pelo irmão:

— Comandante, digo, você é a comandante, estou certo? Nós reunimos o titã fundador e um transformado de sangue real. Os sacríficos vão nos recompensar com a liberdade de Paradis.

Os óculos de Hange refletiram a claridade quando ela levantou a face sisuda. Hange não aparentava estar menos aborrecida depois da justificativa dada por Zeke. Por fim, Connie entrou na saleta. Uma lágrima solitária escorria pelo olho do soldado, e a voz sem emoções de Connie alfinetou o coração de Levi.

— A Sasha morreu.

Apesar de Jean estar pessimista sobre a sobrevivência de Sasha, ele foi o mais afetado pela notícia. Hange, que não sabia do homicídio na gôndola, questionou por qual razão ninguém a comunicara. Antes que Levi pudesse explicar, Eren perguntou:

— Quais foram as últimas palavras da Sasha?

— Ela disse carne...

Silêncio. Eren abaixou a cabeça tão depressa que seus cabelos sacudiram. Os paradisianos encaravam-no sem piscar.

— Eren, por sua causa a Tropa de Exploração se envolveu nessa confusão e a Sasha morreu?

O tom interrogativo da frase de Jean — que bem podia ser uma afirmação — foi o gatilho. Primeiro, os ombros de Eren começaram a tremer. Ele tentou, em vão, se conter. As risadas grossas ressonaram através dos dentes cerrados. Os presentes perceberam que a hilaridade insensata não era uma reação nervosa à morte da amiga. Pelo menos Eren teve a decência de manter sua cara lunática abaixada.

Hange, não mais suportando o desequilíbrio delirante de Eren, deu as costas. Connie, imerso num silêncio mortal, retornou à gôndola. Jean largou as crianças na outra extremidade da saleta e amarrou os tornozelos de ambas. Levi foi o último a sair. Eren continuava rindo quando o capitão se afastou.

— Levi, você sabe como a Sasha morreu? — Hange sussurrou.

— Aqueles pirralhos, Gabi e Falco, assassinaram o Lobov e entraram no dirigível usando o equipamento dele. A garota atirou na Sasha.

— O quê? — Hange sobressaltou-se. — Aquelas duas crianças... olha a braçadeira deles, Levi! São amarelas! Eles não devem ter nem doze anos e já são soldados.

— Eu sei. — Levi suspirou. — O que vamos fazer?

O olhar de Hange cruzou com os das crianças. Falco desviou o rosto e se encolheu no cantinho, deixando claro não querer problemas. Gabi, em contrapartida, convidava Hange para lutar. O ódio da garota era escaldante e franco. Gabi não dizia "eu odeio isso aqui", ela dizia "eu odeio VOCÊS". A menina rangia os dentes em rosnados humanos, evidenciando suas intenções de matar Hange à dentadas caso a comandante se aproximasse. Gabi não expressava uma unidade de remorso pelo duplo homicídio. Hange nunca havia visto uma criança tão insensível.

Mas, para ser honesta, o olhar de Gabi não era tão diferente do de Eren, e tampouco dos jovens militares que há semanas ansiavam por invadir Marley.

— Eu... — Hange engoliu em seco. — Não podemos deixar essas crianças perto dos nossos soldados. Vão matá-los. Vou enviá-las para a prisão da Tropa Estacionária.

Após decidir o futuro dos intrusos, Hange voltou para a cabine de comando. Levi a acompanhou. Além de Onyankopon, outras pessoas estavam lá — hizuruneses ajudando no manejo do aeróstato. Hange sentou-se no chão. Levi parou ao lado dela.

— Sete baixas. O Lobov... A Sasha...

Hange pôs as mãos na cabeça. Levi sentou-se junto da comandante. Hange segurou a mão do capitão e Levi apertou-a. Seguiram o resto da viagem em silêncio, cada qual com suas próprias reflexões, enquanto o dirigível sobrevoava o oceano de volta à Paradis.

XXX

O antigo sino da muralha foi despertado de seu sono profundo. As pessoas aglomeravam-se na estação ferroviária e nos trilhos. Os cidadãos berravam as saudações ferozes da fase de auge das expedições da Tropa de Exploração. No entanto, dessa vez não existia caravana a cavalo, os militares chegaram de locomotiva. Os soldados penduravam-se nas janelas dos vagões e pavoneavam-se, cheios de orgulho do marco histórico.

Nem todos voltaram no trem. A essa altura Zeke já se encontrava bem longe das muralhas, em companhia de Levi e vinte soldados confiáveis. Eren fora posto na prisão praiana e seria trazido para a do quartel-general pela madrugada, longe dos olhares curiosos dos enxeridos.

Os veteranos foram recebidos por uma salva de palmas entusiasmadas, assobios, gritos de euforia e pedidos de casamento. Hange escapuliu de fininho. A comandante era a única não trajando o novo uniforme. Hange esteve tão orgulhosa de si mesma ao experimentá-lo pela primeira vez... agora, a sensação era a de vestir a roupa de outrem sem pedir permissão; um traje feio e desconfortável que não lhe cai bem.

A discrição de Hange não bastou para escondê-la de dois olhinhos atentos. Uma criança se pôs a gritar. Hange, que reconhecia a voz da filha em qualquer circunstância, girou a cabeça na direção exata. Leona enfiava-se entre os adultos saltitantes sem dar a mínima às ordens preocupadas de Minnie. Hange fez sinal para Leona esperar atrás da multidão. Leona obedeceu sua mãe de bom grado.

Hange abraçou Leona com um ânimo fora do comum. Desde os três anos de idade, Leona religiosamente juntava-se ao povo e esperava a mãe voltar das expedições no oceano. Isso não acontecia desde o quarto aniversário de Leona, o ano em que as missões pararam. Hange não pôde evitar sentir-se nostálgica. Todavia, a nostalgia é um sentimento traiçoeiro.

— Mãe, senti tanta saudade! Cadê o senhor Levi?

— O Levi está resolvendo alguns assuntos.

— Você também tem assuntos para resolver? — Leona murchou. — Precisa ir ao quartel?

— Não. Eu vou pra casa.

— Rá! — Leona apontou o dedo indicador na cara de Minnie. — Viu, Minnie? Eu falei que a minha mãe ia voltar pra casa comigo!

Leona, radiante com a volta da mãe, não parava de dançar e girar. A alegria da garotinha contagiou a comandante. Era incrível o poder de consolação que Leona exercia em Hange só sendo ela mesma.

— Poxa, tem tanta gente, eu nem consegui dar olá aos soldados. Ei, vamos convidá-los pra ir lá em casa hoje à noite, mãe? Eu ajudo a fazer o jantar! A Minnie me ensinou a temperar frango. É meio nojento, mas é muito fácil. O meu frango ficou uma delícia, não é, Minnie? A gente chamou o Peter, o Otto e a Rebeca para almoçar. O Otto forçou a gente a rezar antes de comer. Ah, mãe, e você precisa ouvir: uma raposa apareceu lá na rua!

Hange não ouviu nada depois de soldados. A comandante pensava em Sasha. Das sete baixas, Sasha era a única cujo corpo conseguiram recuperar, e somente porque Sasha morreu dentro do dirigível agora amarrado no aeroporto da ilha. A assassina de Sasha e seu parceiro já deviam estar numa carruagem a caminho do quartel-general da Tropa Estacionária. Hange parou; não sorria mais. A alegria de Leona vacilou ao perceber a soturnidade da mãe.

— Mãe, aconteceu alguma coisa?

XXX

Leona queria "ir arrumada" no enterro de Sasha. Hange perguntou, muito séria, se Leona tinha absoluta certeza de que gostaria de ir de vestido. Leona surpreendeu-a alegando querer usar um terno igualzinho aos da comandante. Nesse caso, Hange questionou se Leona não ia constranger-se caso a confundissem com um garoto. Leona não havia levado essa desconcertante possibilidade em consideração. A menina resolveu o problema pedindo um lacinho feminino para enfeitar o cabelo, assim todos saberiam que ela é menina.

A loja emprestou uma capa para conservar as belíssimas condições do terno elegante. Leona queria comprar o traje. Sua mãe, no entanto, apenas o alugou. Segundo ela, na próxima vez que Leona precisasse vestir roupas formais, aquele decerto não lhe caberia mais.

Agora, as duas seguiam para o quartel-general. Hange tinha uma coisa para fazer. Algo a ver com a prisão de Eren. Sua mãe explicou que, embora a iniciativa de Eren tenha trazido uma conquista para Paradis, Eren cometera crimes terríveis ao fugir do exército e elaborar a invasão sem consultá-los.

Leona nunca esteve no calabouço do quartel-general. Leona já havia entreouvido sua mãe e o senhor Levi mencionando a prisão, mas pensou que eles estivessem falando de outra coisa, e não de literalmente uma prisão debaixo do quartel. Foi com grande surpresa que a garotinha seguiu sua mãe para o corredor onde a larga porta velha barrava a passagem.

— Bolinha, espere aqui.

— Não posso ir? — Leona fez beiço. — Eu também quero dar oi pro Eren.

Leona viu o olhar da mãe estudando-a e soube que aquela mente brilhante ponderava sobre o seu pedido.

— Vamos fazer assim: eu vou descer primeiro, se você puder vir, eu te chamo. Tudo bem?

Leona concordou sacudindo a cabeça. A comandante entregou o terno encapado à Leona. Depois, Hange retirou o molho de chaves do bolso, abriu a porta e deixou-a entreaberta. A menina ficou de vigia, assobiando para distrair-se da ansiedade.

Os minutos passaram sem que voz de Hange repercutisse porta afora. Em certo momento, Leona pensou ter escutado um som abafado vindo do calabouço. Ela parou de assobiar e apurou a audição. O barulho se repetiu. Lembrava uma pessoa batendo numa parede. Leona caminhou até a guarnição. A velha porta rangeu ao ser empurrada. Leona viu-se em frente às escadas negras do calabouço. Fitou o retângulo por onde sua mãe desapareceu e chamou, hesitante:

— Mãe?

Ninguém respondeu. Lá em baixo, uma luz tímida iluminava o chão de pedra. Leona sentia medo da luminosidade. Por alguma razão, a escuridão lhe parecia mais segura. Ela pendurou o terno na maçaneta da porta. Depois, tateando o escuro em busca do corrimão inexistente, Leona pisou na escada com cautela, avaliando o tamanho dos degraus. Então, escutou o eco da voz chateada de Hange:

— ...ainda não consigo entender por que você expôs a ilha ao perigo. Você não se importa conosco?

Da resposta de Eren, Leona só escutou o timbre grave que caracterizava a voz masculina. De repente, descer as escadas se tornou uma questão obrigatória e urgente. Leona não queria desobedecer, porém, Hange não teria deixado a porta entreaberta se não pretendesse deixa-la entrar. A descida começou devagar. Ao alcançar o terceiro degrau, Leona aumentou o ritmo para quase corrida. Assim que seus pés alcançaram o chão, Leona paralisou.

Eren se aproximava das barras por onde conversava com Hange. Ele teria encostado o peito na comandante caso as grades não os separassem. Hange levantou a cabeça e encarou Eren cara a cara.

— E aí, Hange, o que você vai fazer?

Quem já presenciou uma agressão, sobretudo na infância, sabe como é. Geralmente, essas ocasiões duram um ou dois minutos, porém, para você, o acontecimento ocorre em câmera lenta, e a cena que Leona testemunhou durou uma eternidade.

Eren agarrou Hange pela camisa e a puxou com violência. Hange teve o reflexo de segurar as grades para evitar que seu corpo fosse esmurrado nos ferros. Eren a levantou. Hange alarmou-se e agarrou o pulso do subordinado tentando fazê-lo parar, mas isso deixou Eren livre para golpeá-la nas grades. O gemido doloroso emitido por Hange enlouqueceu Leona.

— ME DIGA, COMANDANTE HANGE ZÖE, QUAIS SÃO AS OUTRAS OPÇÕES?

O brado afrouxou as pernas de Leona. Ela caiu sentada na escada com as mãos cobrindo as orelhas. Leona só tinha olhos esbugalhados para aquele braço violento sacudindo sua mãe. LARGA A MINHA MÃE LARGA LARGA LARGA. Os gritos, é claro, ecoaram dentro da sua cabeça, pois a língua endurecera. Linhas vermelhas brotaram das pálpebras inferiores de Eren quando uma eletricidade sombria faiscou entre os dois militares. A alma de Leona empurrou Hange para longe do perigo, o corpo, contudo, permaneceu estagnado.

Então, Hange deu um tapa na mão de Eren e findou o horror.

— Eren... — Hange controlou a estupefação e se afastou da cela. — Seu idiota. Está passando por outra fase, moleque?

Hange tocou o seio esquerdo e fez careta. Atordoada, a comandante ajeitou a gola da camisa e fechou o casaco. Então, ela viu Leona. Só agora Leona lembrava-se de tremer. Hange não disse nada, mas fez O OLHAR. Mesmo em choque, Leona reagiu à autoridade.Ao saírem do calabouço, a comandante se pôs de joelhos e questionou embravecida:

— Qual parte do "eu te chamo" você não entendeu?

— Mãe, o Eren

— Não fuja do assunto. — Sibilou Hange. À Leona parecia que quem estava fugindo era a sua mãe. — Eu disse pra você não descer sem eu chamar. Por que me desobedeceu?

Leona começou a gaguejar em busca de esclarecimentos. Sem ter explicações, Leona apenas pediu desculpas. Hange apertou o osso entre as sobrancelhas e bufou. Nesse instante, a comandante notou a mancha escura entre as pernas da filha. A zanga deu lugar à condescendência.

— Bolinha, você se mijou! Não acredito. Quando?

Leona mirou as calças molhadas. Puxa, se o senhor Levi a visse desse jeito, decerto lhe acertaria um cascudo. Leona ergueu os olhos para Hange, e depois fitou as calças outra vez. A menina balbuciou, envergonhada:

— Lá em baixo, eu acho...

— E agora, onde vamos achar uma calça do seu tamanho?

— Posso usar a do terno?

— Melhor não. Eu vou arranjar uma calça e cortar pra você. Vem.

Hange apanhou o terno e saiu. Leona a seguiu andando de pernas abertas feito pato. Na manhã em que sua irmãzinha morreu, o senhor Levi disse que Leona não possuía tamanho e nem força para cuidar de sua mãe. As palavras enfureceram Leona, e ela afogou-se num pranto ressentido o qual só teve colhões para derramar quando já se encontrava longe de casa.

Entretanto, o capitão ranzinza tinha razão. Quando Hange esteve perante uma ameaça real, em vez de socorrê-la, Leona se mijou como um bebezinho. Ela devia ter pulado em Eren e mordido seu braço, devia ter puxado Hange, devia ter gritado, ter atirado uma pedra na cabeça de Eren, ter feito qualquer uma das ou todas as inúmeras alternativas que nos vem à cabeça após a finalização dos conflitos. Se Leona ao menos pudesse voltar no tempo...

XXX

O hematoma no peito era a recordação do episódio perturbador na prisão. No fundo, Hange sabia ser merecedora. Historia aparece grávida, a polícia militar anda agindo estranho, Eren está fora de controle e os marleyanos quase sequestram Leona. Parecia haver mentirosos em todos os lados. E o pior, bem debaixo do seu imenso nariz aquilino. Se Hange mal conseguia segurar as pontas em Paradis, quem dirá alianças? Ok, a Inglaterra e Hizuru se interessavam na rajada de gelo. E quando as riquezas de Paradis se extinguissem? Tentariam eles roubar o titã fundador e tomar posse de Paradis? Inevitavelmente, todas as opções terminavam no lugar que Hange se esforçava em evitar: a guerra. Eren tentou lhe mostrar essa verdade na prisão.

Entretanto, Hange continuava sem entender por que Eren agiu sozinho. A desculpa dos poucos meses de vida lhe parecia rasa. Hange matutava enquanto acompanhava o trajeto do caixão de Sasha da capela do cemitério para a cova. Os pais de Sasha decidiram enterrá-la com os outros soldados da Tropa de Exploração, em vez de no cemitério de seu vilarejo natal. O exército arcou com os custos do sepultamento. Leona andava ao lado da mãe e levava o buquê de flores colado no peito. Levi era o único superior ausente.

Nenhum marleyano participava do enterro. Nem mesmo o chef Niccolo, amigo de Sasha. Os soldados costumavam fazer piadinhas insinuando o suposto relacionamento romântico entre os dois. Hange não duvidava. Mais de uma vez Sasha afirmou não se importar com a aparência, raça e condição financeira de seus pretendentes, contanto fossem cozinheiros de mão cheia. Hange se perguntou se alguém coagiu Niccolo a não comparecer. Se sim, não foram os pais da morta.

O pastor era um caipira natural do vilarejo de Sasha. A mãe chorava com o rosto encostado no peito do marido. O pai de Sasha lamentava de cabeça baixa, abraçando a esposa com um braço e segurando o chapéu surrado digno dos homens das montanhas com o outro. Os irmãos adotivos de Sasha derramavam-se em lágrimas, sendo Kaya a mais desolada.

Os militares colocavam-se atrás de Hange numa espécie de panela da Tropa de Exploração. Os soldados vestiam o uniforme completo, portanto era fácil discerni-los dos civis. Hange passava o braço protetoramente sobre os ombros de Leona. Quando soube da morte de Sasha, Leona chorou até os olhos secarem. Já durante o enterro, Leona apenas lacrimejou. Hange contemplava o lacinho vermelho prendendo a franja rebelde. O acessório caia bem à Leona e fazia um contraste bonito com o terno preto desprovido de gravata (me sufoca, mãe!). Leona, concentrada na cerimônia, apertava o buquê de rosas amarelas e lírios montado por ela mesma. Hange chamou a atenção da criança. A menina se sobressaltou.

— Bolinha, a Tropa de Exploração vai colocar terra no caixão. É tradição o exército participar do sepultamento dos militares de sua divisão. Você fica aqui, tudo bem?

— Não posso colocar terra também? — Leona gostava de participar. — Eu quero que a Sasha saiba que eu a amo. E eu sou filha de militar.

— Não pode. Desculpe, filhotinho.

Leona assentiu, conformada. Algo na forma como ela balançou a cabeça disse à Hange que Leona teria insistido caso a ocasião não pedisse respeito e compostura.

— A Sasha sabe.

— Sabe mesmo?

— É claro. — Lá na frente, o pastor chamou a Tropa de Exploração. — Eu já volto.

Hange, Mikasa, Armin, Jean, Connie e os outros formaram uma linha reta. A comandante foi a primeira a jogar a terra no caixão. Depois, Hange se colocou em seu lugar e aguardou os subordinados. Connie demorou-se sussurrando despedidas à sua melhor amiga. Após as homenagens, uma capa das asas da liberdade brilhando de nova foi estendida sobre o caixão de Sasha.

O pastor começou a oração. Hange alternava o olhar entre a solenidade e a criança logo adiante. Nenhum intrometido tentou surrupiar Leona. Quando o ritual acabou e mãe e filha se reuniram, Leona pôs suas flores no túmulo. Porém, Hange reparou, Leona não havia colocado o buquê inteiro. Leona virou-se com quatro flores, duas de cada espécie, unidas num ramalhete magrinho. A menina leu a pergunta no rosto da mãe.

— Essas são para o meu pai. — Disse Leona. — Eu quero visitá-lo.

Elas frequentavam o túmulo de Erwin com regularidade, embora esporadicamente. O visitavam no festival da batalha de Shiganshina, no dia de finados e em quatorze de outubro – o aniversário de Erwin. Hange sentia que era sua obrigação levar Leona ao túmulo do pai nas duas últimas datas. Leona encarava as visitas como um divertido passeio incomum, e quando Hange perguntava se Leona gostaria de dizer algumas palavras para o seu pai, as declarações de Leona giravam em torno de "pai, eu queria poder conhecer você" e "pai, você gosta de morar aí em cima?"

No entanto, dessa vez Leona tinha algo a mais a dizer. As perninhas curtas e determinadas caminhavam rápido na frente de Hange. A comandante achou improvável Leona recordar em qual parte do cemitério seu pai fora enterrado, mas Leona provou o contrário. Hange viu-se guiada para o terreno verde onde seus companheiros descansavam. Elas passaram pelas lápides de Petra, de Ninfa, de Gunther, de Moblit (vazia), de Keiji, de Ness... Hange os cumprimentava e sentia os fantasmas correspondendo. Não só isso, entreouvia-os levantando da terra e a seguindo conforme dirigia-se ao túmulo de Erwin. Mesmo sabendo que o pressentimento não passava de fantasia, Hange sentiu medo de olhar para trás.

O túmulo de Erwin era quase um ponto turístico dada a popularidade do falecido comandante. Flores, velas e até cartas enfeitavam a sepultura. A lápide de Erwin estava conservada como no dia em que entalharam o epitáfio – Erwin Smith, 13º comandante da Tropa de Exploração, herói de Paradis e líder memorável.

O epitáfio, na opinião de Hange, podia ter um detalhe a mais: seu único erro foi nomear Hange Zöe como sucessora. Hange jamais seria como aquele homem. Se Erwin estivesse vivo, Eren não teria atacado Marley, Historia não engravidaria, Sasha estaria viva e Leona nunca passaria perrengue com marleyanos sequestradores. Não importa o quanto culpassem Eren, tanto a morte de Sasha quanto a guerra eram resultados da péssima liderança de Hange, de sua falta de pulso firme e de sua insuficiência.

Leona se ajoelhou na grama e pôs o pequeno buquê na lápide do pai. Hange olhava para sua filha e sentia vontade de chorar. Se não fosse por Hange e seus sonhos iludidos de quebrar o ciclo do ódio, a vida de Leona não estaria em risco. Erwin lutou partindo do pressuposto que havia alguém fora das muralhas desejando vê-los mortos, e assim trouxe a verdade à ilha. Hange trabalhou partindo do pressuposto de que paradisianos e não-paradisianos podiam ser amiguinhos, e trouxe a decadência. Era questão de tempo até as tropas marleyanas invadirem Paradis. E se atacassem de surpresa e Leona acabasse morta junto com Peter, Otto, Rebeca, Diana, e todas as outras crianças da escola?

— Pai, hoje a Sasha está se juntando às estrelas. — Dizia Leona ao túmulo. — É bom ter bastante batata no céu, se não a Sasha vai comer tudo. — A garotinha riu entredentes. — O senhor viu quando Jade chegou aí? A Jade é a minha irmãzinha. Ela é muito novinha, pai. Se o senhor puder mostrar a ela como viver entre as estrelas, eu ficaria muito contente. Cuida da Sasha e da Jade, tá? — Leona lambeu os lábios e suspirou. — Eu sei que o senhor está morto, mas, o senhor ajudou a ilha uma vez, não é? Se o senhor puder... não sei, ajudar de novo... não sei dá pra fazer alguma coisa aí de cima. Eu tenho medo que a mana Mikasa e o mano Armin morram. Protege eles, tá? Protege o Jean, o Floch, o senhor Levi e o Connie, e o senhor Levi. Eu pediria para o senhor proteger ele, mas eu estou brava com ele, então não vou pedir.

Além de não pedir proteção para Eren, Leona não pediu para si e nem para a mãe. Leona não esqueceu de propósito. Quando Hange tinha a idade dela, também acreditava ser invencível e que a invencibilidade se aplicasse aos seus próprios pais. Leona não achava que sua mãe pudesse morrer. Isso fez Hange pensar, se quem acabasse morta num ataque surpresa fosse ela, quem cuidaria de Leona?

— Mãe, estou chamando você.

— Desculpe, me distraí.

Leona havia sentado em posição de lótus na grama. Hange estava desanimada demais para repreendê-la por sujar o terno. A comandante sentou ao lado da filha. Leona esfregou o cantinho do olho, por onde uma lágrima teimosa escorreu.

— Mãe, por que o meu pai morreu?

Não era um questionamento infantil qualquer. Leona já cansara de ouvir que seu pai morreu em decorrência de um ferimento no estômago na árdua batalha contra o titã bestial, e que graças à Erwin descobriram a história tenebrosa do mundo exterior. Leona sabia que foi Levi quem trouxe os ossos do comandante meses após a morte de Erwin. Só havia dois detalhes que Leona desconhecia. Um era a relação entre Armin, Erwin e o titã colossal – se tratava de um assunto complexo demais para uma criança de sete anos entender, e Hange não queria correr o perigo de arruinar o relacionamento entre Leona e os soldados do quartel, sobretudo Levi. O segundo detalhe englobava a pergunta recém feita.

— Marley invadiu a ilha querendo roubar o titã fundador. Sim, Bolinha, é um dos titãs sob a posse do Eren. Eles mandaram quatro transformados numa missão secreta: o titã encouraçado, o titã colossal, o titã mandíbula e a titã fêmea. No entanto, o plano deles falhou. Nós conseguimos desvendar a identidade dos portadores e sequestrar a da titã fêmea. Ela era uma garota de quinze anos, tinha doze quando passou pela herança. Todos eles tinham doze anos, na verdade.

"Enfim, o encouraçado e o colossal escaparam com o novo portador do titã mandíbula (esqueci de falar que o transformado original perdeu a posse do titã) e relataram a situação aos superiores. Marley se viu na obrigação de enviar o titã bestial e o titã carroça para cá. Eles elaboraram uma armadilha para encurralar a Tropa de Exploração e recuperar o titã fundador à força."

Hange suspirou. Sua cabeça pendeu tanto que quase encostou no chão. Leona estava à direita, então a garotinha pôde ver o olhar culpado.

— O portador do titã colossal apareceu. Eu me precipitei. — Hange indicou o tapa-olho. — E causei a morte de todos os veteranos da Tropa de Exploração. Eu só sobrevivi porque o Moblit me salvou.

"O seu pai estava com os novos recrutas e com o Levi. Eles pensavam numa maneira de enfrentar Zeke, o portador do titã bestial. A única alternativa que o seu pai encontrou foi um ataque suicida. Ele e os recrutas distraíram o bestial usando a si mesmos como iscas. À Levi ficou o cargo de neutralizar o titã."

"Mas o Levi não conseguiu matar o bestial porque o titã carroça interferiu. O titã carroça também resgatou o encouraçado, que estava sob minha custódia. O Levi e eu erramos muito, como você pode ver. Então, Bolinha, o seu pai morreu por causa do do titã fundador. Até hoje Marley quer sequestrar esse titã. A guerra entre os nossos países é principalmente por causa dele."

"Entretanto, Marley não é a única vilã, filhotinho. Nós roubamos o titã colossal e a titã fêmea. Nesse último confronto em Marley, nós perdemos a Sasha mas matamos muitos soldados do lado de Marley. Pessoas inocentes também morreram; crianças, mães, pais, avós..."

A guerra não é um jogo de crianças empunhando gravetos que quando alguém se machuca a consequência máxima é uma mãe furiosa ralhar com você. Leona fitava a lápide do pai e lia furiosamente os dizeres ali talhados. A garotinha abraçou os próprios joelhos. Leona deu um olhar raivoso à Hange como se a mãe fosse a mulher mais burra do mundo.

— Por que vocês não dão o titã fundador para Marley, se eles querem tanto? Deem essa porcaria logo e acabem com essa guerra. É tão... tão... — Leona exasperou-se: — simples!

— Apenas eldianos de sangue real podem controlar o titã fundador. Marley precisa escravizar o nosso povo para usar o poder. — Hange explicou. — E eles vão usar o fundador para controlar outras nações além da nos-

— Poder, controle, poder, controle, poder, controle. É tudo sobre poder e controle.

Leona achava ridículo seu pai e Sasha morrerem por tamanha idiotice. Era um assunto difícil para uma menina gentil como Leona entender. Hange, sorrindo, a envolveu com um braço. Leona resmungou irritada. Hange insistiu um pouquinho, e Leona por fim encostou a testa no peito da mãe. Hange apoiou a bochecha na cabeça da criança e as duas permaneceram assim.

O desagrado de Leona não chegava nem perto do ódio nos olhos da assassina de Sasha. Gabi teve a infância roubada por Marley. Uma criança de doze anos treinada pelo exército sabe-se lá desde qual idade. Gabi teve seu orgulho destruído por Marley, e depois a própria nação reergueu-o elogiando e recompensando Gabi quando ela matava um ser humano de sua raça, ensinando-a: "ei, garota, não tem problema atirar à queima roupa se for dos interesses de Marley". Gabi encarava aqueles de seu sangue com toda a fúria que um liberiano pode sentir por um paradisiano. E apesar de tudo, Hange não conseguia retribuir nem três por cento do desprezo. Como Hange poderia odiar uma menina cinco anos mais velha do que sua filha?

— Sabe, — Hange deu uma risada nasal. — eu já contei essa história. Quando eu entrei pro exército, minha mãe ficou brava comigo. Na época eu não entendi porque ela se irritou. Aí eu saí na minha primeira missão, vi todo aquele sangue e achei que eu tivesse entendido a preocupação dela. Para falar a verdade, acho que só estou entendendo agora.

— Como assim?

Lágrimas quentes rolavam pela bochecha de Hange e ela não se preocupou em bloqueá-las. Erwin, Zeke, Eren, Sasha, Gabi. Pessoas devastadas pela guerra. Hange enlouqueceria se Leona terminasse no lugar de Sasha, e estaria igualmente assolada se Leona acabasse como Gabi ou como Eren. Seus ideais pacifistas podem ter fracassado, entretanto, o do ódio falhou inúmeras vezes ao longo da história, e Hange não mudaria seu jeito de pensar se significasse que um dia crianças eldianas e marleyanas levantariam gravetos inofensivos umas contra as outras em vez de espadas.

— Bolinha, me promete que você vai ser para sempre assim?

— Assim como? Por que você está chorando?

— Como você é. Gentil, inteligente, amiga dos animais e dos seus colegas. Mesmo que você precise mentir ou fingir ser outra pessoa, me promete que você nunca vai mudar quem você é lá no fundinho, independente do que aconteça com você ou comigo?

Agitada, Leona limpou o olho da mãe com a manga do terno.

— Mãe, não fale como se você fosse virar estrelinha. — Leona engoliu as lágrimas. — Você vai viver muitos e muitos anos. Eu vou mandar o meu pai proteger você. Ei, pai. — Leona voltou-se para a lápide.

— Bolinha...

— Estou falando sério!

— Eu também estou. — Hange suspirou. — Eu não sei o que vai acontecer daqui em diante.

— Eu também não sei, mas você vai resolver, mãe. Você sempre resolve.

— Me promete o que eu te pedi?

— Eu prometo, mas não chora. — Leona controlava o próprio pranto com bravura. — Dá um sorriso pra mim. Olha, vou fazer você rir. — Leona mostrou a língua e envesgou os olhos.

— Ah, Bolinha. — Hange riu. — Eu tenho tanto orgulho de ser sua mãe.

A garotinha aliviou-se de ver a mãe sorrir. Leona saltou entre os braços da comandante. A força derrubou Hange e as duas deitaram abraçadas em meio aos fantasmas. Leona se moveu de forma a encarar sua mãe.

— Eu... — Leona relutava como se estivesse prestes a revelar um segredo vergonhoso. Ao enfim juntar coragem, Leona continuou com valentia. — Me desculpe por não ter feito nada lá na prisão. Eu fiquei com medo. Vou proteger você na próxima vez.

A resposta de Hange foi uma risada doce. Ela afagou o cabelo dourado, sem querer desmantelando o lacinho vermelho na carícia. Hange arrumou o cabelo da filha, pondo a franjinha para o lado o qual Leona costumava penteá-la.