Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)

55 Uma criança que perdeu a mãe tenta consolar outra


Leona acordou suada e ofegante no parapeito de uma larga janela. Ela girou a cabeça, observando, em pânico, as poltronas, a escrivaninha e o tapete do lugar em que acordou. Lá fora, as árvores erguiam-se esplendorosas e suas copas balançavam no ritmo da brisa suave. Graças ao céu sem nuvens, o sol entrava livremente no aposento, trazendo a Leona uma familiar sensação de acolhimento. Ela conhecia aquele local, entretanto, não conseguia lembrar-se de onde, por mais que forçasse a memória e batesse na própria cabeça.

— Ei, — Hange, sentada ao seu lado no parapeito, segurou seus pulsos. Sua mãe não estava aqui antes. Ou será que Leona não a viu? — Por que você está se batendo? Teve um pesadelo, filhotinho?

Por fim, Leona soube aonde estava: no escritório de sua mãe. Leona possuía boas recordações do escritório. Às vezes, na falta de Minnie, Hange a levava para lá, e Leona passava a tarde brincando no tapetinho e recebendo visitas de seus amigos soldados. A sua parte favorita do escritório era a janela onde sentava agora. Leona amava encostar-se no vidro e aproveitar o sol, tal qual as árvores lá fora. E quando Hange resolvia largar a papelada e se juntar a ela, o momento de preguiça se tornava um período de aconchego entre mãe e filha.

Uma interrogação inocente pintava o rosto de Hange. Vê-la lhe deu vontade de chorar. Leona enfiou-se no colo da mãe e escondeu o rosto lacrimejante em seu peito.

— Puxa, você teve um pesadelo feio. — Hange a abraçou com divertimento. — Consegue lembrar como era?

Hange alisava as costas da filha e arranhava a nuca raspada numa coceirinha amigável. Leona respirou o aroma da comandante. Quando Hange estava no escritório, ela ficava com cheirinho de papel e de caneta de tinteiro. Leona inebriou-se com o amor da mãe e com o calor do sol. Enfim controlado o pranto, ela mirou a paisagem. Lá em baixo, no pátio de treinamentos, o instrutor berrava uma ordem aos recrutas. Os soldados começaram a realizar polichinelos desengonçados. Leona não conseguia ver o rosto dos militares; estavam borrados, como uma pintura danificada.

Estivera tendo um pesadelo? Se sim, os elementos, o contexto e a ambientação do sonho ruim já se dissiparam da sua memória. Ela se lembrava da raiva que sentia no pesadelo, contudo. Ainda era capaz de senti-la — uma fúria devoradora e destrutiva. E também recordava de uma dor lancinante que a mera menção esmagava o seu peito.

De súbito, a ficha caiu.

— Mãe, o senhor Levi disse que você morreu. — Falou Leona, perturbada.

Hange levantou as sobrancelhas e fitou-a com ar surpreso. Em seguida, a comandante riu de lábios cerrados. Era tudo mentira do senhor Levi, então! Leona abraçou Hange pelo pescoço e a beijou nas bochechas, na testa, no queixo, no olho, no tapa-olho... do jeito que devia ter feito antes de ir para a fazenda da rainha. A comandante, rindo, intentou empurrá-la, mas não pôs empenho na investida.

— Ai, Bolinha, você vai derrubar os meus óculos. Ei, cuidado. — Hange apanhou os óculos antes que se espatifassem no chão. — Sua louca.

— É que eu estou tão feliz! Eu pensei que nunca mais ia te ver.

Hange recolocou os óculos. Ela deu um cutucãozinho no nariz de Leona e dis

Leona abriu os olhos e encarou a parede do outro lado do aposento. Aquele não era o escritório, nem o seu quartinho, e muito menos o dormitório feminino da fazenda. Era o quarto que o senhor Levi fez para ela na cidade feia chamada Belavista. Mesmo assim, Leona olhou em volta, esperançosa. Sua mãe esteve aqui. Leona ouviu a voz dela e sentiu o seu carinho. Foi tão real... não poderia ter sido um sonho.

— Mãe? — A curtíssima palavra esfolou sua garganta desidratada.

Ninguém apareceu. Leona continuou sozinha na escuridão. O tormento subiu pelo peito da menina. Leona recomeçou a chorar, porém, não sobrara nenhuma lágrima para ela derramar, de maneira que o seu pranto era apenas a gesticulação do choro – a respiração entrecortada, as fungadas, os soluços e os olhos comprimidos.

Pelas frestas da persiana, Leona contemplou a noite. Ela chorou e dormiu o dia inteiro. Ansiava por um copo d'água, mas não queria arriscar olhar a cara do desgraçado do senhor Levi. Ele tinha algo a ver com a morte da sua mãe, tal qual tivera com a de Erwin. Em respeito ao capitão, Leona não crera nas acusações entreouvidas na fazenda, mas agora, Leona acreditava. Nas duas vezes em que seus pais arriscaram a vida, o senhor Levi estava lá, e nas duas vezes os seus pais morreram e o senhor Levi voltou vivinho da Silva. É impossível ser coincidência.

Ela abriu a porta e olhou para a esquerda e para a direita. O corredor estava um breu. O senhor Levi devia estar dormindo. Leona piscou, tentando acostumar-se ao escuro. Bastou ela avançar a primeira perna para dar tudo errado.

Leona esbarrou num obstáculo e caiu de frente. Doeu. Esparramada, Leona lamentou-se por cinco minutos até se atinar a conferir no que tropeçara: no seu baú de mogno! Ao lado, o senhor Levi lhe deixara uma garrafa d'água e um prato fundo de arroz e carne moída. A menina estalou os lábios secos e sedentos. Entretanto, rapidinho tirou a ideia da cabeça. Não iria comer o pão que o titã amassou. O senhor Levi pode engolir sua água e sua carne.

Com o baú nos braços, Leona passou pela água de cabeça erguida e fechou a porta. Entretanto, a sede a fez dar meia-volta. Ela comeu a comida também. Sabe, só para não azedar e tal.

De barriga cheia, Leona se sentiu menos infeliz. Ela colocou o baú em cima da cama, o abriu, retirou a camisa de sua mãe e a abraçou. Depois, ela recolheu um dos desenhos que Hange fez e tentou decifrar a imagem ali ilustrada. Não havia nenhuma lamparina, lampião ou rajada de gelo para gerar iluminação. Hange desenhava protótipos de armas, formações de batalha, estratégias esquematizadas e uniformes, mas o que ela gostava mesmo era de desenhar titãs e sua filha. Após arregalar e cerrar os olhos várias vezes, Leona conseguiu distinguir uma figura humanoide de boca arreganhada. Devia ser um titã assustador.

Leona continuou fuxicando o baú. Encontrou fotografias e o bloco de anotações de sua mãe, mais coisas que precisavam de luz para serem analisadas. Também estavam lá o seu caderno de desenho, o barquinho do senhor Onypon e a caixa que as crianças da vizinhança lhe deram quando pegou mata-nobres. Leona não deu atenção a esses três últimos.

Guardou os objetos salvo a camisa de Hange, a capa e a medalha de ranking. Ela deitou-se com as três recordações, aninhando a cabeça na camisa velha e abraçando os outros dois. Um botão cutucava seu pescoço, mas Leona não se importou. O cheiro da mãe a reconfortou, mas também trouxe uma nova onda de tristeza, e aquele tiquinho de atenuação fora-se. Ela chorou agarrada à camisa e forçou-se a dormir, torcendo para ver Hange novamente. Enquanto estivesse dormindo, sua mãe estaria aqui.

XXX

O canto caótico de três espécies de pássaros acordou Levi. Ele identificou o do pica-pau e o do sanhaço-verão. O terceiro pertencia a uma ave intrusa. Pela agressividade dos piados, os pássaros não estavam felizes com a chegada do novo inquilino.

O capitão se pôs a fazer os seus exercícios matinais. Ele precisava exercitar a perna ruim todos os dias para não acabar numa cadeira de rodas. Além do treino, sua rotina matutina incluía abrir as janelas, tomar banho, alimentar os pássaros, fazer o chá e limpar a casa.

Seu cabelo estava úmido quando ele desceu para o viveiro. Levi, sozinho, adaptou o quintal espalhando galhos e troncos de árvores aqui e acolá, plantando plantas rasteiras, prendendo casinhas de madeira nas paredes e amarrando outras nos galhos atravessados. O espaço era aberto. As aves tinham total liberdade de ir e vir.

Depois de jogar sementes aos pássaros, Levi deu uma passadinha na porta do quarto de Leona. Ela levou a água e a comida para dentro, ótimo. Enquanto ela estivesse comendo, Levi estaria contente. Entretanto, o capitão gostaria que Leona saísse da caverna.

Ele preparou a primeira refeição do dia. Chá preto para ele, leite para Leona, e ovos mexidos para ambos.

— Smith, vem comer.

Levi organizou os pratos, os talheres, lavou a frigideira, colocou a garrafa de leite sobre a mesa, serviu o chá, e nada de Leona dar as caras.

— Leona, estou chamando você.

Nada.

— LEONA! — Impacientou-se Levi. — SE EU FOR AÍ, VOCÊ VAI APANHAR.

Aparentemente, Leona queria muito levar uma surra. Resmungando, Levi arrombou a porta. Um bafo quente atingiu seu rosto. Leona estava enrolada no lençol e deitada no colchão puro, para o horror de quem sofre do famoso toc do lençol de elástico. Levi reparou que Leona não se interessou em checar os brinquedos que comprara para ela. Ela deve ter passado o tempo inteiro deitada.

— Não ouviu eu te chamar?

Leona não se mexeu.

— Eu sei que você não está dormindo.

— Escutei. — Rosnou Leona.

— E aí?

Leona deu de ombros. O capitão abriu a janela. A menina cobriu a cabeça. Levi estalou a língua e arrancou o lençol. Leona ergueu as mãos na frente do rosto da mesma maneira como um vampiro faria caso exposto à luz, e até sibilou feito um.

— Levanta.

— Não quero.

— O seu leite está esfriando.

— Me deixa em paz! — Ela tentou puxar o lençol. — Eu quero dormir.

— Você pode ficar aí mofando pelo resto da sua vida, se quiser. Mas antes, você vai comer os seus ovos, beber o seu leite, e vai fazer isso sorrindo.

— EU ODEIO O SENHOR! — Uivou Leona.

— Entra na fila, sua pirralha mimada. — Rebateu Levi, sem estar afetado.

Eles sentaram um de frente para o outro na mesa. Levi comia sua porção de ovos enquanto Leona brincava com o garfo e encarava o capitão com seus olhos grandes e frios.

— Smith, eu não sou uma pintura. Vira essa cara pra lá.

Leona apenas semicerrou os olhos. É claro, ontem de madrugada, Levi não suportou o olhar dela no cabriolé. Como o "venceu" uma vez, ela achava que iria "ganhar" de novo — na cabeça de Leona, aquilo era uma competição. Entretanto, combates só acontecem quando duas pessoas querem brigar.

— Smith, me olhar desse jeito não vai trazer a sua mãe de volta. — Apontou o capitão como quem fala do tempo.

A frase surtiu efeito em Leona. A determinação dela oscilou. No entanto, Leona recuperou-a em totalidade num milésimo de segundos.

— E nem vai trazer o meu pai, não é? — Desdenhou Leona em tom acusador. — O senhor sabe o que eu escutei lá na fazenda?

E de um jeito dramático que faria Levi rir caso não estivesse lívido, Leona apanhou o leite e bebeu até esvaziar o copo. O leite deixou um bigode branco em baixo do nariz dela.

— O quê?

— Ouvi uns policiais falarem que o senhor matou o meu pai. — Leona limpou a boca com o antebraço.

Embora já esperasse por essa resposta, o choque não foi menor. O garfo de Levi parou no ar. Como uma pequena caçadora, a menina o mirava com inclemência, e numa propriedade de quase dominância que evoluiria caso o capitão permitisse.

— O que você sabe sobre isso? — Ele perguntou, endurecendo a voz. Leona não entenderia as razões intrínsecas da morte de Erwin. Ela só tinha oito anos.

— Não responda uma pergunta com outra pergunta.

Toda aquela autoridade insolente já estava irritando Levi. O capitão bateu o garfo na mesa. O baque fez os ombros de Leona tremerem. Aquela pose de mandona, afinal, ocultava uma garotinha assustada.

— Você está esquecendo quem é o adulto aqui? — Levi alteou o tom. Ele pensou em atirar os ovos mexidos na cara dela, mas se conteve. No fundo, Leona estava somente buscando alguém para culpar pela morte da mãe. — Você quer mesmo saber o que houve? Então eu vou te dizer: — Resolveu-se Levi, e ele falou tudo de uma vez, dispensando eufemismos e papas na língua: — O seu pai e o Armin estavam a beira da morte, mas nós tínhamos como salvar um através da herança do titã colossal que havíamos capturado. Eu não matei o seu pai, sua retardada, eu simplesmente escolhi dar o titã colossal para o Armin. Está feliz? Agora, vá se arrumar. Nós dois vamos sair. — Levi não pretendia levar Leona, mas ele necessitava de um pretexto para terminar a conversa.

Leona desorientou-se. Com certeza, ela passou boa parte da noite planejando aquele diálogo. No entanto, Levi não recitou suas falas corretamente.

— E-Então por que a minha mãe nunca me cont

— A sua mãe não te contou porque você é uma pirralha mimada e burra. Ela estava esperando você ficar mais velha e mais inteligente pra te dizer.

— Esse tempo todo eu podia ter tido pai... — Gemeu Leona.

— Está vendo por que a sua mãe estava esperando você ficar mais inteligente? — Agora, Levi alterava-se de verdade. — A sua mãe não sabia que estava grávida de você. Se ela soubesse, se NÓS — Levi enfatizou o pronome — soubéssemos, teríamos salvado o seu pai. — O capitão apoiou as mãos na mesa e se inclinou. — Suma da minha frente.

Leona chispou em disparada. Levi pôs as mãos na cabeça e suspirou. Por dentro da roupa, ele suava frio. Leona poderia ter os olhos dos pais, mas graças a Santa ela não o conhecia como Hange e Erwin. Levi sabia agir sob pressão, mas aquele assunto, e principalmente sua locutora, o pegara desprevenido.

O remorso começou a corroê-lo. Maldita Smith. Malditos Smith. Levi devia era ensinar Leona a usar uma faca e depois larga-la a esmo na rua, como Kenny fizera com ele. A promessa feita a Hange era a de retirar Leona de Paradis, e não de cria-la. Hange entenderia. Levi não servia para cuidar de criança. Bom para Jade, ela foi sortuda em partir antes de conhece-lo.

XXX

A história arrebatadora atingiu Leona em cheio. Se Erwin não tivesse virado estrelinha, o mano Armin, o soldado gentil que a ensinou a cuidar de um pássaro ferido, não iria existir. Leona estava acostumada a não ter pai e habituada à companhia do mano Armin. Como seria ter pai e não ter Armin? Teria sido melhor? Leona achava que sim. Se o seu pai estivesse vivo, ela não precisaria morar com o maldito senhor Levi.

Aliás, aparentemente, Leona era a única que amava Erwin, pois sua mãe não se opôs à decisão de dar o titã colossal a Armin.

Ela abriu o guarda-roupas. Lá encontrou camisetas, calças, bermudas e sapatos. Leona deveria se sentir grata pelo senhor Levi não a obrigar a usar saias, mas não conseguia sentir um pingo de amor por aquele velho nojento. Se vestiu contrariada, e entretempos dava olhadas cobiçosas para a cama. Leona só queria dormir e ver Hange...

— Smith. — O senhor Levi deu duas batidas na porta. — Estamos saindo em cinco minutos.

— Não quero ir! — Leona implorou.

— Não me faça entrar aí e arrancar o pouco cabelo que você tem.

Leona resmungou um palavrão malcriadíssimo. Ela calçou os sapatos fazendo preces para o senhor Levi cair da escada, bater a cabeça e morrer.

Na sala, o senhor Levi a aguardava com a bengala reta na frente do corpo e as duas mãos apoiadas nela, como uma espécie de poderoso chefão decadente.

— Antes de irmos, você precisa saber algumas coisas: um, não diga a ninguém que você é paradisiana; dois, não fale uma palavra sobre a sua mãe ter sido a comandante do exército de Paradis. Agora, você e eu somos liberianos fugidos de Marley. Você é boa em mentir, então use suas habilidades para nos proteger.

— Mas eu não nasci em Marley! — Protestou Leona, inconformada. — Não quero mentir sobre quem eu sou.

— E você acha que eu estou feliz em fingir? — Levi franziu o cenho. — Leona, para a sua segurança, esqueça Paradis. O povo daqui odeia paradisianos.

— Por quê?

— Pelo mesmo motivo que odeiam marleyanos em Paradis. — Concluiu Levi, breve. — Vamos logo.

Os paradisianos abominavam marleyanos porque Marley é inimiga da ilha. Erwin morreu por causa de Marley, Sasha morreu por causa de Marley, e Hange e Eren certamente morreram por culpa de Marley também. Leona nunca tivera nada contra os marleyanos até o dia em que dois deles tentaram sequestrá-la. Depois daquela desventura, Leona passou a desconfiar da raça traiçoeira e maléfica. Nos dias de hoje, os yeageristas caçavam os marleyanos domiciliados em Paradis sem dar a mínima para o fato de os estrangeiros viverem na ilha há mais de quatro anos. Se o pessoal de Belavista odeia paradisianos como paradisianos odeiam marleyanos, então o negócio é sério. Leona, contudo, não compreendia por que os belavitenses os detestavam, se Paradis nunca atacou Newcrest.

O senhor Levi fez sinal para uma carruagem. O cocheiro gritou EEIAAA e puxou as rédeas do cavalo rebelde. Além de teimoso, o animal era colorado. Igualzinho ao Buck. BUCK! Acontecera tanta fatalidade nas últimas vinte e quatro horas que Leona esquecera-se do cavalo! Buck estava na fazenda da rainha Historia, desprotegido em meio àqueles órfãos cruéis!

— Senhor Levi, — Questionou Leona, meio ansiosa, após entrarem na carruagem — cavalos andam de avião?

— Não.

— Como a gente pode trazer o Buck para cá?

— Não dá. — O senhor Levi falou como quem pede desculpas.

— Mas a minha mãe deu o Buck pra mim...

— Eu sinto muito. — O senhor Levi apiedou-se. — O Buck vai ficar bem na fazenda. Os animais de lá são bem tratados.

Isso era verdade. Flick foi um péssimo amigo, mas ele cuidava direitinho dos animais. E o senhor Julio também era bondoso. Entretanto, Buck pertenceu a sua mãe, e Hange pediu a ela para tomar conta dele. Devia haver uma maneira de buscá-lo.

A casa do senhor Levi se localizava perto do centro comercial. De acordo com o capitão, além do comércio, diversos serviços de Belavista relativos a cidadania se localizavam nesse bairro largo e extenso. O senhor Levi pediu para o cocheiro larga-los na praça do centro, que ademais parecia ser um ponto de carruagens, pois mal Leona e o senhor Levi desembarcaram e outra pessoa já lhes tomou o cocheiro.

A praça era bonita, porém não tão arborizada para o gosto de Leona. Existia uma área para crianças onde brinquedos de ferro distribuíam-se. Um deles interessou Leona. Era um tipo de quadrado gigante que as crianças escalavam. As gangorras, os balanços e os túneis não eram novidade.

— Espere aqui. — Ordenou o senhor Levi. — Eu vou no cartório. É logo ali. — Ele apontou para o estabelecimento cinza em frente a praça. — Eu consigo te enxergar, então veja bem que vai fazer. E lembre-se do que nós conversamos.

— O que o senhor vai fazer lá?

— Vou pegar a sua certidão de nascimento.

Leona achou estranho o senhor Levi pegar a sua certidão de nascimento em Belavista, pois Hange guardava o documento em casa, numa caixinha que ela chamava de A CAIXA DO MEU FILHOTINHO. Nessa caixinha, ela conservava o primeiro dente que Leona perdeu, umas roupinhas de bebê e o seu coto umbilical (um pedaço de pele marrom e repulsivo que, segundo sua mãe, caiu do seu umbigo em seu primeiro mês de vida).

Ela foi correndo subir no quadrado de ferro, mas logo se entediou. Não era divertido e difícil como escalar árvores e telhados; aquele troço era, literalmente, brinquedo de criança. Desse modo, Leona escolheu brincar nas gangorras, mas ninguém quis sentar na outra extremidade. Por fim, Leona optou por experimentar a caixa de areia, onde um garotinho de seis anos de idade brincava.

O garotinho estava espalhando uma sacola de brinquedos coloridos na terra. Ela se agachou com os lábios repuxados num sorriso educado.

— Oi. Qual é o seu nome?

— John Doe Júnior.

— Posso brincar com você?

— Claro.

John brincava de enterrar os bonequinhos. Ele os cobria de areia até o pescoço e cantarolava uma música tenebrosa sobre um bebê negligenciado prestes a ser devorado por um monstro chamado Cuca. Leona desenterrou uma mulher com cauda de peixe. Em seguida, ela pegou outro boneco, dessa vez um homem nu de cabelo loiro. No entanto, sua curiosidade pelas duas figuras fora-se quando ela se deparou com os soldadinhos perdidos em meio às bonecas.

— Ei, por que a gente não constrói um quartel para esses soldados?

— Tipo um castelo? — John entusiasmou-se.

Leona balançou os ombros e as mãos erguidas — "mais ou menos".

— Adorei!

Os dois iniciaram a construção. O garoto tinha um baldinho, portanto puderam pegar água no bebedouro e usar para endurecer as paredes do quartel/castelo. Leona e John mal conversavam, absortos na tarefa de levantar a obra. Nenhum deles era perito na habilidade de esculpir, e por conseguinte o quartel/castelo carecia de verossimilhança tanto com quartéis quanto com castelos. Não passava de um morro esburacado de areia molhada.

Quase brigaram na hora de alocar os bonequinhos:

— Só soldados podem trabalhar no quartel. — Argumentou Leona.

— Mas em castelos qualquer um da realeza pode morar. — Contrariou John. — E os brinquedos são meus!

A contragosto, Leona desistiu de discutir.

Pensando na arquitetura do quartel-general da Tropa de Exploração, Leona construiu um muro quadrado ao redor do morro. John ocupava-se em organizar os brinquedos nas janelas e narrava, sozinho, sua história de príncipes e princesas.

O muro dera uma aparência melhor ao quartel. As bonequinhas e os bonequinhos aleatórios a incomodavam, mas era fácil fingir que eles não existiam. Ela abraçou os soldados e posicionou dois no lugar onde seria o portão, na mesma distribuição dos vigilantes verdadeiros. Depois, ela espalhou alguns nos arredores, e colocou os outros nas janelas do seu lado do morro. Leona lembrava de toda a configuração do quartel-general. Havia o corredor de piso xadrez que tanto lhe botou medo no passado, havia o estábulo, o laboratório, o escritório de sua mãe, a prisão, os dormitórios, o refeitório, a cozinha...

— Minha mãe trabalhava num lugar igualzinho a esse. — Contemplou ela, pensando alto.

Num primeiro momento, Leona temeu que alguma catástrofe ocorresse por ter furado a mentira do senhor Levi. Bombas caindo do céu, por exemplo. No entanto, nada aconteceu. O mundo continuou girando e o John não tentou atacá-la — pelo contrário:

— Ela era uma rainha? — Disse ele, referindo-se ao castelo.

— Não. Minha mãe era militar. — Contou Leona, referindo-se ao quartel.

— Ah. A minha é cozinheira.

— Legal.

— Você é de fora?

Meio relutante, Leona concordou.

— Entendi. — John começou a enfeitar sua parte do morrinho com pedras e folhas. — Por causa da Revolta, tem muita gente de fora aqui na minha cidade.

— O que é "Revolta"?

A pergunta de Leona surpreendeu John.

— Revolta... os titãs colossais de Paradis...

— Ah. Eu chamo isso de "nivelação". — Leona sorriu. — Tem mesmo muita gente?

— Sim, de todos os países. De onde você é?

Leona pensou se devia responder a verdade ou a mentira inventada pelo senhor Levi. Ela estudou a carinha benevolente do garotinho, e sorriu. Ele era gente boa. Porém, por outro lado, Leona achou que estava tudo bem em confiar nas crianças da fazenda da rainha e deu no que deu. Era melhor não cometer o mesmo erro duas vezes.

Enquanto Leona respondia "sou de Liberio", um homem enorme se aproximou da caixa de areia. De mãos na cintura, o homenzarrão encarava Leona com hostilidade. Leona, assustada, prolongou o "e" da palavra Liberio (sou de Libeeeeeeeee...) e não terminou de pronunciá-la. John, em contraparte, olhou distraidamente para o homem, e retornou à brincadeira.

— Quem você pensa que é pra tocar nos brinquedos do meu filho? — Ralhou o homem. Leona, horripilada, tentou fugir, mas os xingamentos gratuitos, a voz esbravejada, e o caráter inesperado do infortúnio atrapalhavam seus movimentos. O homem resolveu ajudá-la com um empurrão. Leona escapuliu engatinhando, trêmula, confusa, e tão envergonhada que nem se despediu de John. O homem veio atrás, depreciando-a: — Passa, sua praga imunda. Vocês eldianos destroem o planeta e depois procuram mordomia na cidade dos outros. É de cair o cu da bunda. Chispa daqui, seu aborto. Leva esse nariz horroroso pra bem longe.

As crianças da praça apontaram para Leona e gargalharam. As mães e os pais cochichavam entre si, e alguns balançavam a cabeça como se a cena de humilhação os deleitasse. Então, de repente, o senhor Levi brotou empunhando a bengala de maneira rígida e segurando uma pasta de papeis em baixo do braço. Ele andava a toda velocidade, e sua expressão possessa era de dar medo. O senhor Levi lhe atirou a pasta e avançou no agressor. A princípio, o homem veio rindo, mas o senhor Levi desmanchou aquele sorrisinho ardiloso rapidinho.

— Com as crianças você é o machão?

— Eldianos devem ser tratados assim desde criancinha. — Assegurou o homem, cheio de razão. — Essas pragas precisam saber qual é o lugar delas, ou vamos ter outra Revolta.

— Qual é o seu nome?

— John Doe.

— Senhor Doe, eu sou eldiano. Vai me chamar de praga, seu pau-mole covarde?

O senhor Levi apertou o olho esquerdo, e por trás do tapa-olho a íris cega fez o mesmo. Leona, encolhida, assistiu o homem arquear as sobrancelhas. O senhor Levi era de Paradis, entretanto, ele em nada se parecia com o povo eldiano, graças a sua descendência Ackerman.

A expressão confusa de Doe deu lugar a uma face de puro asco. Ele torceu os lábios até mostrar o esmalte dos dentes. O senhor Levi, intrépido, deu um passo a frente. O tal John abriu a boca, mas o capitão o interrompeu numa voz perigosamente baixa e calma:

— Você tem sorte de o seu filho estar aqui. — O senhor Levi moveu a cabeça para o garotinho na caixa de areia. — Eu uso bengala, mas não estou morto. Eu te daria uma surra que te faria ter diarreia pelo resto da vida. Porém, já que eu não posso te descer na porrada, vou apelar para a diplomacia. Eu vou te denunciar pras autoridades. Vamos ver como você se sente passando uns dias na cadeia.

A punição para ataques a eldianos não era severa. Na maior parte dos casos, os policiais nem assinavam as ocorrências. No entanto, Levi recebia proteção do governo por sua ajuda na batalha contra Eren Yeager. Mas, é claro, o tal John não sabia disso.

— Ah, é? — Caçoou John Doe. — Se é assim, vou denunciar você por ameaça.

— Vá em frente. — Levi desafiou-o. — Daqui uns cinco dias alguém vai aparecer na sua porta. E aí nós vamos ver quem é o machão.

A asserção de Levi abalou o senhor Doe, porém, a masculinidade ganha do bom senso. Doe não queria ser intimidado por um velho de bengala com metade do seu tamanho, sobretudo na frente do filho de seis anos. No entanto, o senhor Levi não se intimidava e nem dava indícios de que iria, e, em toda a sua autoridade de ex-capitão, fitava-o com iminência de agressão.

— Pai? — Sussurrou o garotinho na caixa de areia, que percebera haver alguma coisa errada.

O senhor Doe mirou o filho de soslaio, e então ele notou que a praça inteira assistia o conflito. As pessoas conversavam aos sussurros, e muitas, incluindo os homens, olhavam o senhor Doe com desaprovação por ele estar brigando com um homem de bengala. O senhor Doe, usando o público como desculpa, afastou-se, declarando em voz alta e orgulho fingido:

— Vou respeitar a sua bengala.

— Não espere que eu retribua. — Rosnou Levi.

O senhor Doe deu uma última olhada de "estou-avisando" a Levi e saiu arrastando o filho, ignorando as queixas do garotinho e seus pedidos para recolherem os brinquedos.

Leona estava atônita. O pai de John Doe Júnior a atacou sem nenhuma razão. Leona apenas tinha se sentado para brincar. Ela não fizera nada errado. Aquele homem falou mal de sua raça e do seu nariz aquilino herdado de Hange. Particularmente, Leona achava o seu nariz bem charmoso. O senhor Doe, porém, chamara-o de horroroso. O seu nariz era mesmo horroroso?

E John Doe não era o único a ter essa opinião. O público que outrora fitava o senhor Doe com repugnância dava-lhe olhares semelhantes, como se Leona fosse a verdadeira culpada da confusão.

— Smith. — Levi chamou-a. — Vamos procurar uma delegacia.

— Não. — Leona sacudia cabeça e olhava o chão, incapaz de levantar o rosto e enfrentar o ódio dos belavitenses. — Eu quero ir embora. Me leva embora.

— Certo, vamos pegar uma carruagem.

— Não quero carruagens. Quero um avião. Eu quero ir embora EMBORA. — Leona destacou o vocábulo repetido. — Eu quero voltar para a minha casa. Lá é o único lugar em que ninguém me odeia.

O senhor Levi deu um suspiro.

— Belavista é a nossa casa agora. As pessoas vão aprender a gostar de você.

— Mas eu falei que sou de Liberio e fui xingada! — Indignou-se Leona.

A resposta do senhor Levi exasperou Leona. Entretanto, por incrível que pareça, ela não encontrou nenhuma refutação:

— Imagina o que teria acontecido se você não tivesse me obedecido.

XXX

Do mesmo jeito como embarcou na carruagem, Leona deu um salto porta afora com o braço sobre a cabeça a fim de evitar que o cocheiro visse o seu nariz. Ela correu pelas escadas e aguardou com impaciência o senhor Levi abrir a porta. Quando enfim entrou, a primeira coisa que Leona fez foi se olhar no espelho do banheiro.

Leona encarou seu reflexo e tocou no próprio nariz. Era grande e curvado como o bico de um tucano, ou feito um daqueles ganchos que os bandidos usam para furar as pessoas. Leona olhou-se de perfil. Visto de lado, seu nariz era duas vezes maior, arqueado e feio. O homem da praça estava certo. Seu nariz era horroroso.

Leona sentou-se na privada e apoiou o rosto chateado nas mãos. Ela queria que Hange estivesse aqui. Ela achava o nariz de sua mãe bonito. Sua mãe era toda bonita, na verdade. Leona gostaria de ser bonita como ela. Ver alguém com o rosto parecido com o seu a faria se sentir melhor. Porém, agora, Leona só podia encontrar Hange no cemitério, tal qual costumava fazer com Erwin. É bem estranha, essa lógica. Quando as pessoas são enterradas, elas vão para o céu. Se o diabo mora em baixo da terra, como Otto alegava, então não deveriam enterrar os mortos.

Sendo assim, Leona procurou o senhor Levi para perguntar sobre o cemitério aonde Hange fora enterrada. Leona faria um buquê de flores lindíssimo para dar à sua mãe. Não, ela levaria um buquê por dia. A lápide de Hange ia ser a mais bonita do cemitério.

— Senhor Levi, aonde vocês enterraram a minha mãe?

O senhor Levi estava no sofá, lendo o jornal. O capitão torceu a boca como se tivesse comido uma bala estragada.

— Nós não pudemos enterrá-la.

O queixo de Leona caiu. Seu pai foi enterrado, Sasha foi enterrada, e Mikasa enterrou Eren. Por que sua mãe não recebeu um enterro? Hange morreu e Leona nem ao menos podia colocar flores no túmulo dela?

— O senhor buscou os ossos do meu pai... por que não trouxe os da minha mãe?

O senhor Levi a fitou por um segundo, e no próximo, num movimento de cabeça brusco, conferiu o relógio. Em vez de respondê-la, o senhor Levi disse:

— Já é quase meio-dia. Eu preciso matricular você na escola. Eu vou ir lá, tudo bem?

— O senhor n

— Há duas escolas aqui perto, — a voz apressada do senhor Levi se sobrepôs à de Leona — uma para refugiados, que foi construída há pouco tempo e é bem pobrezinha, e tem a escola pública, que é mais ajeitada. Qual você quer?

Leona não gostou da palavra REFUGIADOS. Por algum motivo, aquela palavra a fazia pensar nas crianças do internato para órfãos. Talvez a razão fosse o uso da palavra PARA. Dava um sentido meio excludente às coisas, quando usada nesse contexto. Leona se sentiu excluída no internato PARA órfãos. Por associação, ela se sentiria excluída na escola PARA refugiados.

— Tem órfãos na escola para refugiados, senhor Levi?

Para o horror de Leona, o senhor Levi assentiu.

— Eu quero a pública. — Decidiu-se Leona. — Odeio órfãos.

— Certo. — Levi aquiesceu sem expressar emoções. — Eu já volto.

— Espere!

Leona estendeu a mão para fazer o senhor Levi parar, mas ele já havia batido a porta.

Ela abaixou a mão e fitou o chão, cabisbaixa. Não disse "eu te amo" para sua mãe ao vê-la pela última vez, e agora jamais poderia se despedir corretamente. Se ela soubesse, teria dado um jeito de não se separar de Hange. Leona iria protege-la, como prometeu fazer. Além disso, a ideia de o corpo de Hange estar abandonado em algum lugar bem longe, pegando chuva, sol, sereno e frio, atormentava-a.

A menina enfiou-se debaixo dos cobertores abraçada à camisa da mãe, suplicando às estrelas para sonhar com ela. Entretanto, Leona não conseguiu pregar os olhos. Ela não parava de pensar no paradeiro do corpo. À exceção dos nenéns que morrem antes de nascer, todas as pessoas são enterradas. Hange devia ser a única do mundo que não recebeu um enterro. Isso implicava no destino da alma de sua mãe? Hange virou estrelinha, como Erwin, Jade e Sasha? A Santa aceitaria a alma de sua mãe, ou o diabo a levaria lá para baixo?

Leona não permitiria que o diabo sequestrasse sua mãe. Hange foi uma comandante exemplar e uma mãe maravilhosa. Ela era digna das estrelas.

Leona se levantou de supetão, decidida. Ela vai buscar o corpo de sua mãe e dar um funeral a ela. Se era difícil demais para o senhor Levi, ele que vá plantar batatas. Diferente do senhor Levi, Leona tem duas pernas boas, dois olhos bons, e muita força de vontade. Depois de buscar Hange, Leona vai resgatar Buck. "Cavalos não andam de avião", dissera o negativo senhor Levi. "Não, não, não e não". Leona cansou de tantos NÃOS. Já estava na hora de fazer as coisas do seu jeito.

XXX

Levi levou mais de uma hora para chegar em casa. A matrícula de Leona demorou porque ele teve que dar explicações inventadas do porquê escolhera colocar Leona na escola pública em vez na de refugiados, embora Levi suspeitasse que a diretora apenas não estava a fim de matricular uma criança eldiana em sua pobre escola imaculada.

Já em casa, Levi enfim pôde se sentar. Sua barriga roncava. Leona devia estar mais faminta ainda.

— Smith, acabei de chegar. — Avisou Levi. — Vou fazer o almoço. Você já comeu?

Tal como pela manhã, Leona não o respondeu. Levi revirou o olho. Dessa vez, ele não iria ficar gritando em vão. Ele mancou para o quarto de Leona.

— Olha aqui, é bom vo

As palavras morreram em sua garganta quando Levi defrontou-se com o quarto vazio. Nem sinal de Leona e nem do baú. Ele deixara a porra da porta destrancada. Como pôde ser tão imbecil? Tropeçando na perna ruim e se apoiando nas paredes com a mão que não agarrava a bengala, o capitão saiu a trote pela casa, chamando por Leona. Não a encontrou na cozinha, no banheiro e nem no outro quarto.

Quem sabe, porém, fosse uma coisa boa Leona fugir. Talvez o destino de Leona fosse esse desde o começo. Se aquela pirralha teimosa acha que consegue se virar sozinha, o problema é todo dela. Não é mais o de Levi. Ele fez o que pôde.

Entretanto, apesar de essa pequenina parte dele tentar se alegrar pelo desaparecimento da criança, o resto de Levi tremia de preocupação. Faltava olhar o andar inferior, no espaço onde faria a loja de chás. Dava para chegar lá pelos fundos, descendo pela outra escada e atravessando o viveiro. E se Leona não estivesse lá? Levi precisava chamar a polícia. Não, a polícia não dava a mínima para crianças eldianas desaparecidas. Levi precisava chamar Onyankopon, Jean, Connie...

E então, quando chegou ao pátio, o seu coração acelerado parou, pois ali, sentada em meio às plantas rasteiras e com uma caixa de mogno ao seu lado, achava-se uma jumenta mimada e desobediente.

— Leona!

Levi se preocupou com essa bunda-mole, e ela estava aqui esse tempo todo e não respondeu aos seus chamados. Sua mão tremeu sobre a bengala quando, num impulso enfuriado, içou-a. Leona, soltando um grito mudo de horror, se encolheu e protegeu a cabeça.

Levi, no entanto, bateu a bengala no chão. Ele passou a mão pelo rosto suado pela correria e pela apreensão, e soltou o ar numa bufada audível. A garotinha, através do espaço entre os seus antebraços erguidos, olhou Levi num misto de surpresa e desconfiança.

As coisas não poderiam seguir assim. Leona, com todos os seus defeitos, era uma criança órfã. E Levi também era um órfão, no fim das contas. Era um órfão tomando conta de outro. Mas, sua experiência não valia de nada. Levi não sabia o que fazer. Na infância, ele aprendeu a lidar com a morte de sua mãe sozinho, pois Kenny em nada ajudou se não em ensiná-lo a bater e a apanhar. Todavia, como poderia Levi exigir que Leona aprendesse pelas mesmas ferramentas, se o método de Kenny não funcionou nem para ele?

Levi conhece a sensação de ser abandonado, e também sabe como é perder alguém importante. Leona, entretanto, não precisava descobrir como a primeira é.

— Por que você não me respondeu? — Levi sentou-se ao lado dela. — Eu pensei que você tivesse fugido.

Leona nada disse. Ela abraçou os próprios joelhos e deu uma olhada de canto ao capitão. Os dois ficaram em silêncio. E então, quando resolveram retomar o diálogo, ambos falaram ao mesmo tempo:

— Eu só... — Disseram em uníssono. Levi continuou: — Você primeiro, Smith.

— Eu só queriarecuperarocorpodaminhamãeedarumenterropraelaebuscaroBuck. — Leona atropelou as palavras afobadas. — Eu pedi pro cocheiro me levar para onde ela morreu, mas ele só deu a volta no quarteirão, pegou o dinheiro e me expulsou da carruagem.

— E aquela promessa de não sair sem avisar?

Leona desviou o olhar e fez um movimento de ombros que parecia um "me desculpa".

— Espera aí... dinheiro? Você pegou o meu dinheiro?

— Eu ia devolver, senhor Levi. — Certificou Leona, agitada. — Eu ia trabalhar para pagar o funeral da minha mãe, e depois eu ia pagar o dinheiro do senhor. Eu não sou ladra.

— Eu sei que você não é. Não se preocupe com o dinheiro. — Disse Levi à guisa de consolo. — Leona, eu buscaria o corpo da sua mãe se eu pudesse fazer isso, mas não é possível.

— Por que não?

Levi examinou a expressão abalada de Leona. No lugar dele, Hange contaria a verdade. Levi, entretanto, não era Hange, e para ele era difícil relatar a uma criança de oito anos que não dava para enterrar sua mãe porque ela foi queimada viva e esmagada por uma manada de titãs colossais. Era difícil contar com jeitinho, pelo menos. O capitão coçou a nuca e perguntou, meio incerto:

— Você quer mesmo ouvir?

— Quero.

— Bem.... É que não sobrou nada para nós enterrarmos, Leona.

Os olhos da criança se arregalaram e sua respiração descompassou. Ela fitou Levi por um segundo interminável.

— O que o senhor quer dizer? Como a minha mãe morreu? O Eren a matou?

Leona não sossegaria até saber tudo. Malditos sejam aqueles genes.

— Nós fomos encurralados pelos titãs colossais. A sua mãe entrou em combate para nós podermos fugir. Os titãs colossais, eles... huh... — Levi buscava palavras não tão brutais. — exalam um vapor muito, muito, muito quente e abrasador. Então, quando a sua mãe chegou perto... er... — Leona o observava com expectativa aflita. Ele resolveu usar o método da comparação: — você já viu o que acontece a um papel quando a gente encosta ele numa vela?

Leona se transformou num par de olhos assustados. Sua boca entreaberta e chocada emitiu um "oh!". O olhar da menina tornou-se distante conforme aquela mente imaginativa projetava a imagem que Levi lhe coagiu a fantasiar – uma folha de papel pegando fogo rapidamente de baixo para cima, num piscar de olhos reduzida a cinzas, que por sua vez desaparecem no vento.

— O corpo da minha mãe virou fumaça... — Leona limpou o nariz e os olhos chorosos. — Senhor Levi, ela virou estrelinha? Ela está com o meu pai, com a Sasha e com a minha irmãzinha?

— É claro. — Levi soou gentil em sua voz inexpressiva. Então, ele deu-se de conta do detalhe estranho na pergunta que Leona fizera antes. — Espera, por que você perguntou se o Eren tinha matado a sua mãe?

— Porque todo mundo na fazenda dizia que a minha mãe era inimiga do Eren. — Mentiu Leona. — Falavam que ela traiu Paradis.

— E é verdade. — A confissão de Levi sobressaltou Leona. — Sua mãe, eu, e todos os outros, traímos Paradis.

Leona, furiosa, se levantou num solavanco. Levi achou que ela iria sair, mas a garotinha começou a andar de um lado para o outro. Ela chutava o chão, agarrava pedrinhas e atirava-as nos pássaros. Porém, perturbar as aves pareceu trazer arrependimento ao coração já machucado de Leona, pois ela passou a atirar as pedras de volta no chão.

— Leona, o Eren pretendia destruir o mundo. — Explicava Levi pacientemente, enquanto a garotinha atravessava o quintal de cabo a rabo. — Se nós não o parássemos, todas as pessoas dessa cidade e do resto do planeta iriam morrer. Incluindo os animais, as árvores, e todo o resto. Você nunca poderia trabalhar com animais selvagens porque não iria existir mais nenh

— Não estou nem aí! — Leona interrompeu-o embravecida. — Eu preferia ter a minha mãe aqui do que um monte de bichos idiotas.

— A sua mãe fez isso para que outras crianças da sua idade tivessem o direito de viver, como aquele garotinho da praça.

— A MINHA MÃE TRAIU PARADIS PRA UM HOMEM QUE EU NUNCA VI NA VIDA ME XINGAR! — Esbravejou ela. Os pássaros levantaram voo, piando de desespero. Leona encolheu-se ante o grito dos animais e murmurou um pedido de desculpas às aves. Controlando a voz, ela queixou-se: — Aquele garoto tem o pai dele, e ele é um homem mau. E eu? Eu não tenho mais mãe. Eu não tenho ninguém.

Levi pensou em responder "você tem a mim", mas essa resposta surtiria tanto efeito quanto o silêncio.

— Os titãs colossais surgiram do nada e andavam muito depressa. Não tínhamos tempo para pensar, e eu não estava em condições de lutar naquele momento. Se a sua mãe não tivesse feito o que fez, não só o resto do mundo iria virar estrelinha, como a Mikasa, o Armin, o Onyankopon... todos nós iriamos.

— O senhor deveria ter ido. — Declarou Leona de pronto, no tom de alguém que já refletira sobre aquele assunto antes. Levi não deu importância. No lugar de Leona, ele estaria da mesma maneira. Outrossim, compartilhava daquele pensamento. Deveria ter sido ele. — O senhor, ou o Connie, o Armin, a Mikasa... — O lábio de Leona tremeu. Ela se sentou a dez milhões de metros de distância de Levi e se encolheu — Qualquer um, menos a minha mãe.

Leona recomeçou a chorar. Como uma criança tão pequena pode ter tantas lágrimas? Levi deixou-a em paz e focou-se em assistir os pássaros pousados nos galhos. As aves observavam os humanos de cima, com seus olhos negros e indiferentes. Em certo momento, Levi mirou Leona de soslaio, e viu-a limpar o nariz ranhoso na gola da camisa. Ele chorou desse jeito quando Kuchel morreu. Por semanas, até alguém aparecer, ele chorou.

— Eu era um pouco mais novo do que você quando a minha mãe morreu. — Disse ele, olhando para os pássaros.

— É? — Leona perguntou com um quê de interesse fraquinho. Apesar de pequena, Levi sabia que devia aproveitar a oportunidade.

— Sim. — Ele assentiu. — A minha mãe ficou doente. Não sei o que ela teve. Ela só ficava na cama, cada dia mais magrinha, mais fraca, quase não falava comigo... e então, um dia, ela não acordou. Eu tinha seis anos. Não sabia o que fazer, e nem como chamar ajuda. Eu cuidei dela até alguém aparecer, mas como nós morávamos sozinhos, demorou bastante até nos acharem.

Agora Leona o escutava com atenção total. A menina que sentara lá no quinto dos infernos arrastava-se para chegar perto dele – não muito, mas o suficiente para ouvir a história.

— O senhor chorou? — Leona perguntou, delicada.

— Dia e noite.

Saber que Levi chorou trouxe uma espécie de brilho aos olhos vermelhos. É claro, para Leona, parecia impossível a concepção do malvado senhor Levi chorando. Parecia impossível que ele tivesse tido mãe um dia, também.

— Eu sei que está doendo, Smith. Vai doer menos amanhã, e, daqui uns anos, pensar na sua mãe não vai te machucar como machuca hoje. Mas, essa dor nunca vai desaparecer. — Falou Levi com sinceridade. — Do meu ponto de vista, só tem dois caminhos: você pode aceitar a dor, ou brigar com ela. Não vou escolher por você, mas já te adianto que a dor sempre vai ganhar, se você decidir brigar.

Leona o fitava em silêncio atento. Ela pôs o dedo em baixo do nariz e martelou o buço como fazia nas horas de ponderação. Vê-la executar essa mania trouxe a sombra de um sorriso aos lábios de Levi.

— Como se briga com uma dor? — Questionou Leona, por fim.

— Fingindo que ela não existe, negando-a, evitando encara-la ou se esquivando dela, sabe, não a enfrentando...

— Isso não faz sentido. — Leona fez uma careta confusa. — Se eu enfrentar a dor, não vou estar brigando com ela? Não devia ser o contrário?

— Você é difícil de agradar, Smith. — Levi muxoxou. — Igualzinho ao seu pai.

— O senhor não sabe explicar!

— Não sei mesmo. Sua mãe era a expert nisso. Eu sou um demente, me enrolo todo.

Levi se levantou e limpou a poeira da calça. Ele começou a mancar para dentro de casa.

— Você pode me ajudar a fazer o almoço? — Levi convidou-a.

— Ajudo.

Sem hesitação, Leona o seguiu. Ela não sorria, mas não chorava mais, tampouco.

Notas finais
Enfim, responda o formulário de leitores: https://forms.gle/1siu5axAFzaJn9LB6.