Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
56 Tem alguém atirando
Notas iniciais
Não aconteceu no dia seguinte e nem no próximo, porém, eventualmente, as palavras do senhor Levi mostraram-se verdadeiras: pensar em Hange parou de levar Leona às lágrimas.
Ainda assim, Leona tentava pensar em sua mãe todos os dias. Tinha medo de esquecer o rosto de Hange tal qual acabara esquecendo-se da voz – em sua memória, a voz de Hange passou a ser uma versão mais grave e madura da sua própria, em vez da voz doce e sagaz de sua mãe.
No entanto, depois que as aulas começaram e Levi inaugurou a loja de chás, novas preocupações, obrigações, aventuras e desventuras preencheram o tempo que Leona usava para lembrar de sua mãe. E, após um ano vivendo em Belavista, a imagem de Hange parou de fazer parte da sua rotina.
Leona não foi a única a crescer. Belavista também se expandiu. No fim, Newcrest não recebeu os refugiados da Revolta de graça, e quando chegou o momento de as pessoas repovoarem suas terras natais, Newcrest começou a receber sua retribuição tributária. De todos os países auxiliados pelo país americano, o mais beneficiado foi Hizuru, com quem Newcrest passou a ter uma relação lucrativa graças ao conhecimento tecnológico dos aliados asiáticos. Não só isso, inteligente como era, e em fase de produção industrial, Newcrest comercializava seus produtos com outros países. Sem tomar partidos ou alianças, Newcrest dava uma mordida em cada parte do mundo e aos poucos estabelecia-se como uma nação poderosa.
Portanto, cinco anos depois da Revolta, pode-se dizer que Newcrest espichou tanto quanto a altura de Leona. As carruagens caiam em desuso com a chegada do bonde e a popularização dos carros. Era relativamente barato e fácil viajar de avião de uma cidade a outra, graças aos aviões providenciados por Hizuru. Havia empregos aos montes, seja nas empresas, no campo, nas indústrias, ou na área acadêmica; mas o ramo mais vantajoso continuava sendo o militar. O mercado interno era ótimo, muito incentivava-se o consumo de produtos fabricados em solo americano.
Com os preços baixos, o mercado em expansão, as vendas externas correndo feito água e a realização de acordos de colaboração entre Newcrest e outros países, Belavista se tornou uma das melhores cidades para se viver. O glamourizado modelo de vida da classe alta americana, com seus carros luxuosos e margarinas frescas, tornava-se o sonho de consumo de qualquer jovem dentro e fora de Newcrest.
A vida com o senhor Levi não seguia o modelo americano, mas Leona não reclamava. Não era tão ruim. O capitão ranzinza lhe providenciava comida na mesa, uma cama quente, cadernos novos, e lhe dera o melhor presente do mundo: um emprego. Leona o ajudava na loja de chás fora do período da escola e ganhava o pagamento riquíssimo de dois dólares por semana, com o acréscimo de um dólar caso ela trabalhasse no sábado! Para uma criança de treze anos, aquilo equivalia a uma fortuna. Seu cofrinho engordava quilos e mais quilos a cada mês. Seu objetivo era comprar uma bicicleta, para poder ir e voltar da escola mais rápido. E ia escolher uma com cestinha!
Ter o senhor Levi como chefe possuía, sim, alguns pontos negativos. O capitão exigia que a loja estivesse brilhando do chão ao teto, e que as caixinhas de chás fossem organizadas pela classificação das preparações, embora Leona preferisse arranjá-las pela cor da embalagem ou por ordem alfabética, pois ela nem sempre recordava que chá verde não tem oxidação e que chá de frutas são infusões (até porque todo chá é infusão).
Modéstia a parte, Leona era uma funcionária exemplar. Ela atendia os clientes com um sorriso no rosto, chegava no horário, não deixava acumular sujeira no balcão, e sempre avisava quando não poderia ir trabalhar.
O expediente começava às nove em ponto. Agora que Leona tinha treze anos, o senhor Levi confiava nela para abrir a loja sozinha. O portão era pesado, mas Leona conseguia levantá-lo após três tentativas e muitos xingamentos. Ela trabalhava das nove até o meio-dia, então almoçava e ia para a porcaria da escola.
Os dias de Leona eram cheios. Porém, um em específico foi mais cheio do que os outros. Começou numa manhã em que o senhor Onyankopon visitou a loja para ajudar o senhor Levi a instalar o telefone recém-comprado:
— Esse troço não funciona!
Levi reclamava enquanto Leona descia as escadas dos fundos. Os pássaros do viveiro já estavam acostumados à sua presença e nada fizeram além de girar as cabecinhas coloridas quando Leona passou atirando a mochila da escola sobre o ombro. Ela atravessou o estoque da loja e chegou na parte interna do balcão. O senhor Levi segurava o telefone castiçal como se fosse o pescoço um malfeitor. Leona não era versada em tecnologia, mas ela teve a impressão de que o senhor Levi segurava o telefone de cabeça para baixo.
— Onyankopon, eu paguei uma fortuna nessa bosta! — O senhor Levi sacudia o telefone na cara do inglês.
— Boa tarde, senhor Onyankopon. — Leona não o chamava mais pelo vergonhoso "senhor Onypon"
— V-você está usando errado, Levi. — O senhor Onyankopon dizia à guisa de "não é culpa minha". Leona percebeu que ele se controlava para não gargalhar. — Ah, olá, Leona.
— Senhor Ackerman, está segurando ao contrário.
Alegou Falco, apoiado de bruços no balcão. Falco era/foi um jovem guerreiro liberiano da época em que Marley coagia pais eldianos a alistarem os filhos no exército em troca de cidadania marleyana. O senhor Levi, o senhor Onyankopon, Jean e Connie conheceram Falco e sua família durante a Revolta.
O senhor Levi girou o telefone.
— E agora, o que eu faço? Enfio no cu?
— Agora você coloca receptor na orelha...
— O que caralhos é receptor? Fala direito.
Leona deduziu que RECEPTOR fosse o cilindro de boca larga pendurado no telefone castiçal. Sua suposição mostrou-se correta, pois o senhor Onyankopon entregou-o ao senhor Levi.
— Isso é o receptor. — Explicou Onyankopon pacientemente. Leona ficou exultante por ter acertado logo de primeira. — Ele serve para a gente ouvir a voz da pessoa para quem telefonamos. Coloque na orelha.
O senhor Levi colocou. Em seguida, ele fez uma careta furiosa.
— Eu só escuto um zumbido! Estou dizendo que me deram uma merda quebrada!
Leona observava o telefone atentamente. Ela viu os números na base, que deviam servir para chamar os outros telefones, e, analisando a corneta curta no topo, imaginou que era através dela que a voz das pessoas chegava ao destinatário. Leona, louca de vontade de testar sua teoria, intrometeu-se entre os adultos:
— Deixa eu ver!
— Não me atrapalhe, Smith. — Advertiu o senhor Levi, movendo o telefone para o lado oposto. — Já estou tendo problemas o bastante com essa porcaria.
Nesse instante, uma jovem e uma senhora de meia-idade atravessaram a rua correndo. A moça vinha com os braços abertos e uma cara impaciente, como se dissesse "e aí, pessoal, dá pra andar logo?". Elas entraram na loja. A senhora de meia-idade disse, preocupada:
— Estamos esperando a ligação até agora.
Essa era a senhora Marper, a dona da loja de costura em frente à loja de chás. A senhora Marper era uma viúva sem filhos. Ela era legal. Sempre dava oi a Leona quando ela estava abrindo a loja.
A moça acrescentou, numa cadência autoritária:
— Falco, por que você não está ajudando?
— Uh!? Eu!? — Falco desconcertou-se.
A jovem se chamava Gabi. Ela era amiga de infância de Falco e outra vítima de Marley. Gabi e Falco eram somente cinco anos mais velhos do que Leona, mas, ao contrário dela, nenhum deles ia para a escola. Ambos eram adultos e estavam se organizando para começarem a morar sozinhos. Leona mal esperava os seus dezoito anos para poder parar de estudar e morar sozinha.
— Estamos tentando. — Desculpou-se Onyankopon. Ao lado dele, o senhor Levi estava obstinado como uma mula empacada.
A senhora Marper fez um gesto que poderia ser uma gesticulação de desistência.
— Vou voltar e esperar.
E assim ela retornou para a loja de costura. De acordo com o plano, o senhor Levi deveria discar o número da senhora Marper e esperá-la atender. No entanto, o capitão não compreendia que era preciso apertar os números antes, e insistia que o telefone não funcionava porque ele não escutava nada no receptor além de "tuuuuuuuuu".
— Em Paradis, ninguém precisava de telefone. — Para o horror de todos, o senhor Levi estava prestes a tagarelar sobre o passado. Leona deitou a cabeça nos braços apoiados no balcão. Falco revirou os olhos para Gabi, e ela correspondeu. O senhor Onyankopon fingiu ouvir, quando na verdade viajava no mundo da lua. Levi matracava: — Os mensageiros faziam a comunicação. Tu pegava qualquer moleque na rua, dava uma moeda, e pronto. Tua mensagem tava entregue. Aqui, inventam o caralho a quatro pra complicar a vida da gente. Eu só comprei essa merda porque não acho um puto de um mensageiro nessa cidade imunda.
"Mais uma coisa, continuo irritado por causa das eleições. De cinco em cinco anos é essa palhaçada? As pessoas espalham papéis na rua, te abordam do nada perguntando em quem você vai votar, te oferecem dinheiro para votar no fulano, no ciclano... eu achei um saco essa tal de eleição. Odiei. Fui para a fila e fiquei duas horas lá plantado, e tudo isso para escrever o nome de um homem num papel e jogar numa urna..."
Aquele ano era de eleições em Newcrest. Ao contrário de Paradis, que funcionava sob o regime monárquico, em Newcrest a população escolhe quem vai governar. O páreo estava entre a reeleição do presidente Vladimir e o seu concorrente, o político Don Lotário. O presidente Vladimir tinha o apoio da população e de outros governantes, pois era por causa dele que Newcrest cresceu tanto após a Revolta ao ponto de até o senhor Levi, um eldiano, ter condições comprar um telefone. Leona não sabia nada sobre o candidato Don Lotário. Entretanto, ele devia ser um homem ruim, porque a fala favorita de seus eleitores era: "se o Don Lotário for eleito, essa eldianada vai tudo pra forca".
— ...eu digo e repito que a vida era melhor quando não se tinh
— Senhor Levi. — Leona, interrompendo o chilique do capitão, pôs a mão no telefone e o olhou com meiguice. — Deixa eu tentar, por favor?
— Está bem, Smith. — Levi jogou o telefone em Leona. — Se você deixar cair, eu termino de quebra-lo na sua cabeça.
Leona, sorrindo de orelha a orelha, apanhou o papelzinho onde escreveram o número da senhora Marper e, bem devagar para não errar, apertou os botões correspondentes. Ela colocou o receptor na orelha, e logo o tuuuuuu foi substituído por uma sequência de tu... tu... tu... pausada e compassada. A perna de Leona tremia de empolgação, e os visitantes foram contaminados por seu entusiasmo.
De repente, a voz da senhora Marper, abafada pela estática do telefone, surgiu no receptor:
— Você conseguiu, Levi!
— Sou eu, senhora Marper.
— Leona!? — Admirou-se a senhora Marper. — Boa garota!
Gabi, Falco e o senhor Onyankopon comemoraram o sucesso de Leona.
— Obrigada. — Agradeceu Leona, orgulhosa. — Como eu desligo?
— É só apertar aqui — o senhor Onyankopon apertou o botão — e colocar o receptor no gancho.
Leona pendurou o receptor com ar de importância. Ela se sentia a garota mais inteligente de Belavista.
O senhor Levi não parecia impressionado.
— Já que você gostou tanto do telefone, Smith... — Disse o capitão, em tom de ameaça — então é você quem vai cuidar dele. A partir de hoje, quem faz e recebe ligações é você.
Pelo jeito como o senhor Levi falou, aquilo deveria ser uma punição. Leona, contudo, amou a ideia.
— Eu vou adorar! — Exclamou ela, toda contente. Por fim, se despediu: — Estou indo para a escola. Até mais tarde.
O senhor Onyankopon, Gabi e Falco lhe desejaram uma boa aula. O senhor Levi apenas mandou-a voltar para a casa imediatamente. Enquanto se afastava, Leona entreouviu o senhor Onyankopon dizer que deixaria anotado ao lado do número da senhora Marper os telefones dele, de Jean e de Connie.
Leona seguiu rumo a escola. O centro comercial não era o mesmo de cinco anos atrás. Antes, carruagens entravam livremente em todas as ruas. Agora, a estrada principal era fechada somente para pedestres. Lojas espalhavam-se por todo lugar. Lojas de penhores, de artigos femininos, restaurantes, papelarias, livrarias, e as que Leona chamava de "as lojas de novidades", em outras palavras, aquelas que vendiam telefones, aparelhos para congelar bebidas, e tudo o mais. Os pobres comerciantes que não conseguiam acompanhar o crescimento do centro perdiam a clientela. E muitos dos serviços de cidadania, como o cartório, por exemplo, tiveram que se mudar para outra parte da cidade.
Não precisava atravessar o centro comercial para chegar à escola. Entretanto, Leona gostava de olhar as vitrines e encher os olhos com coisas que não podia comprar, seja porque o seu dinheiro não dava, ou porque o senhor Levi não permitia.
Uma dessas lojas era a favorita de Leona. E não, não é a de animais. Leona gostava da Ouro, uma boutique feminina. Segundo Gabi, a Ouro era a loja mais cara de Belavista, contudo, cada um de seus produtos valia o preço. Leona não era de se enfeitar e nunca se interessou muuuito por maquiagens, mas ela gostaria de ter alguma coisinha para dar cor aos seus lábios sem-graças. Um batom vermelho, quem sabe, feito aqueles que as mulheres elegantes usam nas ilustrações das revistas.
E por fala em mulher, lá estava ela, encantadora em uma fotografia preto-e-branco, embelezando a vitrine da Ouro sob os dizeres "CONSERVE O FRESCOR DE SEUS 20 ANOS", fitando os passantes com seus olhos inocentes e instigando-os com seu sorriso discreto. Aquela era Evelyn Nesbit. Ah! Tão linda! pensava Leona, dando um longo suspiro. Evelyn Nesbit era a perfeição em forma de mulher. Aquele nariz era de dar inveja. Ah, se Leona pudesse ter um nariz desses...
Mas, ao mesmo tempo em que a maravilhava, o pôster a intrigava. Leona só gostava da vitrine enquanto olhasse para o rosto de Evelyn Nesbit. A fotografia capturava a modelo do busto para cima, e era justamente no busto que o problema morava. Evelyn Nesbit, afinal, estava usando um vestido de alça no momento da foto, e a alça do desgraçado não estava correta no ombro de Evelyn. A modelo, aparentemente, não percebera esse detalhe, tampouco o fotógrafo. Algo no colo nu da mulher ansiava Leona. Era uma sensação gozada; uma espécie de calafrio abaixo da barriga, que a mente de Leona traduzia como desconforto. A Evelyn deveria ter arrumado o vestido antes de tirar a foto, refletiu Leona encucada. Se recusou veementemente a dar uma olhadinha no decote da modelo.
Leona abandonou Evelyn e continuou seu caminho para o colégio. Ela passou por uma lixeira entupida até a boca com papéis pedindo a reeleição do presidente Vladimir.
XXX
A Landgraab era uma das escolas públicas de Belavista que aplicava ensino fundamental e ensino médio. Grande como era, o colégio possuía jornal próprio, enfermaria, clube de xadrez, time de futebol americano, e uma porção de outras coisas que Leona ignorava. Os alunos eram tão horrendos quanto o tamanho da escola. Era bom mesmo a Landgraab ser tão enorme, ou não haveria espaço para tanto animal estudar.
Aqueles que Leona chamava de "os delinquentes" encostavam-se no muro da Landgraab. Eram cinco: quatro garotos e uma garota. Eles eram alunos do penúltimo ano do ensino médio. Leona nunca os via dentro da escola porque eles estudavam no período da manhã, embora ela duvidasse que eles sequer entravam em sala de aula.
Leona começou a atravessar a rua. Não valia a pena passar perto dos delinquentes. Infelizmente, eles já a tinham visto. Um deles, o de cabelo pelos ombros e dentes tortos, apelidado de G., a abordou.
— Pare aí, titãzinha.
Logo em seu primeiro ano na Landgraab, Leona aprendeu que não se deve fugir de certas raças de valentões.
— O que é? — Perguntou Leona, entediada.
— A gente quer saber quanto você tá cobrando pelo boquete.
"Boquete" significava colocar a torneira do homem na boca. Leona achava essa ideia repugnante. Ela jamais faria BOQUETE, nem quando tivesse um namorado.
— Um milhão de dólares. — Rebateu Leona com grosseria, passando por G.
— Tá se valorizando demais, titãzinha. — Acrescentou a única garota do grupo, baforando fumaça de cigarro na cara de Leona. — Desse jeito, você vai passar fome.
Tossindo, Leona atravessou o grupo pela lateral da calçada, andando rapidinho, quase trotando. Ela sentiu os delinquentes mirarem-na. O olhar daqueles rapazes a perturbava.
— Se cuida, titãzinha.
— Estuda bastante para ser uma puta culta.
— Um dia a gente vai te pegar andando sozinha a noite, — Leona ouvia o sorriso de G. — Vamos dar um sumiço em você, titãzinha.
Leona ignorou. Os delinquentes intimidavam todo mundo. Era de conhecimento público que na hora das surras e das perseguições eles não faziam distinção de raça e cor. Na verdade, eles mal largaram Leona e já pegaram outro aluno para atazanar, e seguiriam assim até o porteiro descobri-los e expulsá-los dos arredores da Landgraab. E, de qualquer maneira, ela já não andava sozinha a noite. O senhor Levi não deixava.
Dentro da escola, Leona não poderia relaxar, tampouco. Em Landgraab, Leona era um alvo fácil. Todos os eldianos eram. Ela não era a única eldiana a estudar naquele colégio, mas em sua turma não havia nenhum. Até parecia que a diretora evitava colocar os eldianos juntos, talvez temendo que eles colocassem fogo na escola, quem sabe – uma ideia maravilhosa, na opinião de Leona.
— Caham. — Pigarreou Elizabeth, uma aluna de sua turma, quando Leona se encostou na parede para esperar o sinal bater. A amiga dela endireitou a postura e prestou atenção. — Ana, você sabe por que a eldiana foi sozinha ao baile?
Ana coçou o queixo e fez huuum.
— Por que titãs não entram em salões? — Sugeriu Ana.
— Não. — Elizabeth deu uma risadinha e, sem nem fingir que não percebera a presença de Leona, deu a resposta da charada: — É porque ela é uma nariguda horrorosa e nenhum garoto quer beijá-la.
Gargalhadas femininas explodiram. Elizabeth, espiando Leona de soslaio, ria com a bochecha elegantemente apoiada na palma da mão. Leona, segurando a expressão impassível com determinação, apertou a alça da mochila com força. Ela odiava aquele narigão feioso, e também odiava ser lembrada de que ainda não fora beijada por garoto algum, embora jamais fosse admitir. Sentiu uma familiar onda de raiva por Elizabeth. Entretanto, era melhor fingir demência. Elizabeth namorava um garoto do primeiro ano do ensino médio conhecido por já ter mandado um aluno eldiano para o espaço. Com esse tipo de gente, é melhor não se meter.
O sinal tocou. Leona e mais uma enxurrada de alunos rumaram para as suas respectivas salas de aula. Ao contrário dos outros, Leona não guardou a sua mochila no armário; sempre que ela fazia isso, um filho da puta roubava-a. Ela se sentou na sua carteira, localizada bem no meio da sala, e se pôs a esperar o início da aula enquanto o resto dos alunos conversava. Leona sempre tivera facilidade em fazer amigos, e nem todos os colegas sentiam prazer em zombar dela e/ou odiavam-na, todavia, ao longo de sua trajetória escolar, todos os seus amiguinhos entraram para a lista negra dos valentões e das valentonas anti-eldianos. Como andar com Leona significar ter problemas, ninguém mais quis ser seu amigo.
Na fileira da parede à esquerda, um garoto mostrava o livro de ciências ao colega, que por sua vez sorria como um tarado. Leona, curiosa, apanhou seu próprio livro e folheou-o. Em poucas páginas, ela encontrou algo... interessante. Leona fitou os garotos de rabo de olho, e confirmou que olhavam a mesma página.
Leona deparou-se com dois desenhos do corpo humano, um retratando um homem e o outro uma mulher. Ambos estavam como todo ser humano era ao vir ao mundo. O homem tinha pelos nas pernas, no rosto e nos braços, enquanto a mulher era totalmente lisa. Leona achou a ilustração irreal, pois mulheres têm pelos. Ela mesma tinha; possuía nas pernas, nas axilas, e um chumaço nas partes íntimas.
O desenhista pôs linhas finas na pélvis da imagem masculina para ilustrar a existência de pelos pubianos, mas a genitália em si estava clara e evidente. Leona encarou aquela cobra feia e sem olhos entre as pernas do homem, e as bolas caídas logo atrás. Leona nunca tinha visto uma torneira de verdade. Ela dedilhou o desenho e tentou imaginar como seria tocar nas partes de um homem.
— Está gostando, eldiana?
Leona sobressaltou-se e fechou o livro num baque. Ao seu lado, Elizabeth ria com deboche feminino.
— Aproveita, eldiana. Feia desse jeito, esse é o único homem pelado que você vai ver.
— Elizabeth. — Entoou a professora, que arrumava seu arsenal professoral. — Pare de atormentar a Leona.
A reprimenda da professora, entretanto, era acompanhada pela sombra de um sorriso – ela achou graça da brincadeirinha de Elizabeth. Leona, vermelha de vergonha, guardou o livro de ciências e se fantasiou quebrando os dentes da colega cretina. A cada ano, os alunos da Landgraab reinventavam o "tema anual" das piadinhas para azucrinar Leona. No seu primeiro ano, zombavam dela puramente por ela ser eldiana. No próximo, riram de seu sotaque e imitaram-no até Leona se condicionar a falar sem carregar nas consoantes, a não forçar as palavras terminadas numa sílaba com A, e a excluir aquele L imaginário que ela sempre punha nas palavras terminadas em E. Ano passado, o motivo para rirem dela era o seu cabelo curto. Esse ano, o tema anual era o fato de Leona ser BOCA VIRGEM, o que significava que ela nunca havia sido beijada por um garoto.
Pessoalmente, Leona continuaria BOCA VIRGEM até encontrar o menino ideal, pois ela tinha a ideia romântica de que o seu primeiro beijo deveria ser especial, pensamento este incentivado por todos ao seu redor – até o senhor Levi concordava. Porém, ela começava a se perguntar quando o garoto dos seus sonhos apareceria. Todas as outras meninas já tinham beijado na boca. Leona não gostava de se sentir para trás. Porém, não podia nem sonhar em chamar algum garoto para sair. Se ela tomasse um fora – o que com certeza aconteceria – mais combustível Elizabeth teria para fazer chacota.
— Cadê o seu namorado, eldiana? — Falou o garoto da carteira ao lado, um xexelento chamada Jacob que vivia doente de rinite. Ele era apaixonado por Elizabeth e só provocava Leona quando sua xodó estava por perto e/ou observando. — Guardou ele na mochila, foi?
Leona não podia se defender de Elizabeth por causa das consequências que essa ação traria. No entanto, merdinhas como Jacob não oferecem perigos reais.
— Não. Guardei ele em baixo da sua classe. Deixa eu ver se ele não fugiu.
Leona se inclinou e deu um empurrão na classe do garoto, derrubando-a com um estouro. O estojo de Jacob foi parar lá do outro lado da sala, e o caderno caiu aberto, revelando o nome ELIZABETH escrito dentro de um coração.
— Que barulho foi esse!? — Exclamou a professora ao se virar. Ela estava escrevendo a lição na lousa.
— A Leona derrubou a minha carteira! — Denunciou Jacob desalentado e chocado, como se tivesse presenciado Leona assassinando cinco bebês.
— Eu só estava tentando acertar uma mosca, professora. — Leona fez cara de anjo.
Dessa vez, não havia sombra de sorriso na boca da professora.
— O próximo que atacar o colega vai ir direto para a diretoria. Entendidos?
— Sim, professora. — Disse Leona de coro com os belavitenses.
Leona apanhou o caderno escolar e começou a copiar a lição. Ela passou as próximas horas resolvendo os exercícios de matemática. Ela tinha uma certa dificuldade com circunferências e círculos. Leona conseguia fazer os desenhos redondos bonitinhos, mas a parte da matemática complicava.
"A reta 'e' é externa à circunferência, a reta 't' é tangente à circunferência, a reta 's' é secante à circunferência", dizia a frase copiada por Leona. Ela leu a explicação duas, três, quatro vezes. Nenhuma palavrinha se alocou em sua memória recente. "AÔB = ^AB = a" para o ângulo central, "X = ^AB/2" para o primeiro caso de ângulo inscrito (aquele que tem o X do lado de dentro), "X = ^AD — ^BC / 2" para o segundo caso de ângulo inscrito (aquele que tem o X do lado de fora). Leona desenhou os círculos. A cada número colocado, o desespero interno crescia.
Leona passou boa parte da aula no primeiro exercício, e quando finalmente o terminou, a professora o riscou com um X vermelho. O sinal bateu naquele instante. O recreio, que num tempo distante foi a sua hora favorita da escola, tornara-se o pior momento da tarde. Eram os quinze minutos em que Leona se isolava no refeitório, na biblioteca, ou em qualquer lugar da escola onde houvesse professores por perto. Leona não tinha nenhum amigo em Landgraab, e os únicos que vinham falar consigo no intervalo era para rir às suas custas. E ainda assim, Leona considerava-se sortuda. A escola para refugiados, afinal, devia ser bem pior – há órfãos lá.
XXX
A aula terminou às 17h. Como sempre, Leona saiu da escola em passadas largas e misturou-se a multidão de alunos para não ser avistada pelos valentões ou pelos delinquentes. Seguindo os conselhos do senhor Levi, Leona tomou a rua que levava para o centro comercial. De acordo com o capitão, era preferível que Leona voltasse pelo centro, por ser mais movimentado.
O centro comercial estava cheio naquele final de dia. Leona passou por um homem que gritava aos transeuntes que o presidente Vladimir foi reeleito.
Ela chegou em casa a tempo de ajudar o senhor Levi a fechar a loja de chás.
— Como foi a aula hoje, Smith? — Perguntou o capitão, enquanto os dois abaixavam o portão.
— Foi legal. — Respondeu Leona, sucinta.
Eles trancaram o portão e subiram para o apartamento pelos fundos. A primeira coisa que Leona fez ao entrar em casa foi retirar os sapatos e as meias, já o senhor Levi foi para a cozinha colocar água no fogo. Leona arrumou a mesa pondo a xícara do senhor Levi, a caixinha de chá preto, o açúcar, a sua própria caneca de porcelana, os potes de biscoitos, e o vidro de café. O senhor Levi veio em poucos minutos com a água quente e o leite fervido.
— Café de novo, Smith? — Questionou Levi ao encher a caneca de Leona de leite. — Não sei como você consegue gostar. Eu acho muito forte.
— Pois eu não sei como o senhor pode gostar tanto de chá. — Rebateu Leona com um sorriso, enquanto misturava o café solúvel no leite fervido. — O senhor viu que o presidente Vladimir foi reeleito?
— E dá pra não ver? — Exasperou-se Levi. — Passaram o dia inteiro gritando aí na frente. O pessoal daqui ama esse cara. — Ele bebeu um gole de chá. — Bem, eu não posso reclamar. É graças a ele que eu e você estamos aqui.
Leona fitou o senhor Levi por cima de sua caneca. Ela não sentia nem um tiquinho de gratidão por viver em Belavista.
— Eu ainda não entendo o governo daqui. — Continuou Levi. — A gente vota de cinco em cinco anos para escolher um cara que vai mandar no país inteiro, mas aí, de três em três, a gente precisa escolher um que só vai mandar na cidade. — Levi balançou a cabeça. — Em Paradis, as coisas eram mais simples. Lá só tem uma figura soberana: o rei. A gente não escolhe os reis, porque na monarquia é filho substituindo o pai e assim por diante. Mas, se o rei faz merda, a gente dá um golpe e põe outro no lugar. Simples assim.
Após anos de convivência, Leona aprendeu a ler as sutis mudanças no escasso repertório de expressões e tons de fala do senhor Levi. Nessa ocasião, ele estava sendo sarcástico. Leona deu uma risadinha e jogou um biscoito doce para dentro da boca.
— A rainha Historia ainda está no poder?
— Acho que sim. — Falou Levi, contemplativo. — Não sei como estão as coisas em Paradis. Não ando recebendo notícias do Armin ultimamente.
De todos os soldados que participaram da infância de Leona, Armin era o único que continuava envolvido com essas questões militares/políticas. Ela nunca mais o vira. O senhor Onyankopon, Connie e Jean conversavam com Armin de vez em quando. O senhor Levi e Leona ficavam sabendo de Paradis por intermédio dos rapazes.
O senhor Levi se levantou fazendo uma careta de dor. A perna aleijada do capitão era meio temperamental.
— Vou me deitar, Smith. Hoje estou cansado.
— O senhor quer que eu lave a louça? — Perguntou Leona, torcendo para o senhor Levi dizer não.
— Quero. — Afirmou ele, para o desgosto de Leona. — Passe a esponja dentro das xícaras. Eu sei muito bem que você não passa a esponja por dentro.
Leona pensou em mentir que esfregava a esponja na parte de dentro até deixar brilhando. Entretanto, era impossível enganar o senhor Levi. Ele tinha o ouvido de um tuberculoso, o faro de um cão, e o paladar de um crítico gastronômico, sobretudo na hora de avaliar as competências higiênicas de outrem.
— Pode deixar, senhor Levi. — Leona revirou os olhos.
— Não revire os olhos para mim, Smith. — O capitão repreendeu-a, já mancando para o quarto.
Leona revirou os olhos de novo (mas só depois que o senhor Levi entrou no quarto). Então, lavou a louça, secou-a, guardou-a, e limpou a pia. Por Leona, a louça ficava no balcão, secando ao natural. Todavia, o senhor Levi gostava do "serviço completo", e era melhor obedecê-lo.
Após cuidar da cozinha ela pôde, enfim, ir para o quarto. Nisso, já passava das seis. Lá fora, os belavitenses faziam um fuzuê em comemoração à vitória do presidente Vladimir. Alguém deve ter organizado uma passeata. Nem fechando a janela Leona conseguiu abafar os gritos jubilosos.
Resolveu estudar a circunferência do círculo antes de dormir. Quem sabe a matéria grudava em seu cérebro de girino. Ela sentou na escrivaninha que ganhou de aniversário no ano passado – presente do senhor Levi, "para você estudar direito, Smith". Leona abriu o caderno na folha onde anotara os exercícios. O primeiro, o único feito, estava riscado com o X da professora. Leona arrancou uma folha em branco. Se ela fosse resolver os exercícios no próprio caderno, a folha iria ficar preta de tanto grafite de lápis e esfregação de borracha.
Leona respirou fundo. Puxar o ar foi como aspirar uma grande quantidade de determinação. Franziu o cenho, aprumou os ombros, sorriu de canto, apanhou o lápis perfeitamente apontado, encostou a ponta no papel...
E traçou uma linha reta e desgostosa.
Soltou uma reclamação desanimada e se recostou na cadeira. Não se sentia inspirada a fazer os exercícios, e nem tinha vontade. O anseio de Leona era esquecer da existência daquelas circunferências. Esquecer da Landgraab inteira, na verdade. Quem dera ela pudesse largar o colégio.
Suspirando, ela desenhou um círculo ao lado da reta, pretendendo desenhar a tal tangente em seguida. Entretanto, sem que Leona tivesse plena consciência – e carecendo de força de vontade para lutar contra os movimentos automáticos – a tangente se transformou num círculo menor, e logo mais um foi acrescentado. Aos poucos, as formas geométricas tomavam a forma de um rosto.
Assobiando, Leona deu continuidade ao desenho. Ela deixou o rascunho da cabeça em paz e partiu para o corpo. Não estava pretendendo desenhar um homem nu, mas a imagem do livro de ciências continuava vindo na sua cabeça, implorando para ser replicada. Leona desenhou as pernas torneadas, o tronco quadrado, os músculos da barriga, os mamilos... Na hora de fazer as partes íntimas, Leona precisou da borracha. Ela teve um pouco de dificuldade em reproduzir a horrível cobra-cega que os homens têm entre as pernas.
Mesmo assim, o desenho estava ficando bom. Quer dizer, até chegar na cabeça, embora o rosto fosse a parte que Leona mais se divertiu fazendo. Ela pôs cabelo comprido para dar caracterização ao seu personagem, acrescentou lábios carnudos e bem delineados, sobrancelhas negras, um maxilar não tão másculo... e aí, após desenhar o nariz mais perfeito que ela já tinha traçado na vida, Leona reparou que, por algum desconcertante motivo, o rosto estava idêntico ao de Evelyn Nesbit. O seu desenho, afinal, era uma Evelyn Nesbit com corpo de homem.
Leona riscou a cabeça até formar uma mancha negra. Em seguida, amassou a folha e a jogou no lixo. Além de não conseguir resolver o problema da circunferência, agora Leona não conseguia desenhar um rosto de homem. Não obstante, na rua, as pessoas continuavam sua comemoração barulhenta, e alguém estava acendendo rojões, pelo barulho de pequenas explosões.
Abriu a janela e observou a rua. Surpreendeu-se encontrá-la tranquila. Pelo visto, a festa ocorria noutro lugar. Ela olhou para os lados e ficou na ponta dos pés tentando ver além das casas em frente. Se haviam rojões, então logo haveriam fogos de artificio – luzes brilhantes, coloridas e divertidas pintando o céu escuro.
Leona passou dez minutos aguardando os fogos. Nada apareceu. Após meia hora de espera, Leona se cansou e, frustrada, desligou a luz elétrica e deitou-se na cama por baixo dos cobertores felpudos, ainda vestindo a roupa da escola.
De olhos abertos, Leona encarou os tons escuros em seu campo de visão limitado. A gritaria não ajudava a amenizar o seu mau humor. Se ela ao menos pudesse se juntar à farra, mesmo sendo uma festa política, Leona se sentiria um pouquinho melhor. Ela adoraria pular, berrar e soltar rojões. No entanto, já podia ouvir o senhor Levi negar "você é demente, Smith? Vai dormir, pirralha".
Sendo assim, Leona recorreu a uma técnica ultrassecreta descoberta no ano passado que, juntamente com a agressão a sua mãe que ela testemunhou aos sete anos, fazia parte do seu pequenino acervo de segredos obscuros. Entretanto, ao contrário da agressão, Leona sentia orgulho desse segundo segredo; Era como possuir um tesouro que mais ninguém na terra além dela conhecesse.
Ela enfiou a mão dentro das calças. Devagar, Leona começou a cutucar aquela coisinha protuberante da perereca. Ela descobriu, sem querer, que mexer ali causava uma coceirinha gostosa no corpo. Leona sabia que os bebês vêm da perereca das mulheres, e que quando um homem e uma mulher querem um filho, o homem enfia a torneira na perereca da mulher. Só que tudo isso acontece num buraco diferente de onde sai o xixi; Hange teve que explicar isso porque Leona, aos cinco anos, apavorou-se com a ideia de uma criança nascendo pelo lugar onde se mija. Porém, sua mãe nunca contou que era bom mexer naquele negocinho pequenininho lá na parte de cima da perereca. Talvez Hange não soubesse disso. Leona devia ser a pioneira.
Leona prosseguiu com sua brincadeira enquanto as pessoas lá fora continuavam a gandaia. Agora, Leona se aventurava a explorar outras áreas da perereca. Era incrível; ela tinha sensações diferentes dependendo de onde e como tocava. Uma manobra em especial causou um espasmo em seu baixo ventre. Suas pernas fizeram um movimento estranho e ela deu um gritinho surpreso, mas a sensação não foi, de forma alguma, negativa ou dolorosa, e Leona sentiu-se tentada a repetir o contato.
Uma explosão ensurdecedora fez Leona dar um salto estabanado e jogar o travesseiro e o cobertor para o alto. Em menos de um segundo ela compreendeu o que era o estouro. Empolgada, arrumou as calças arreadas, correu para a janela e a abriu de supetão. No céu, fogos de artificio explodiam em cores vibrantes. Vermelho, amarelo, verde, azul e rosa. As luzes juntavam-se aos brilhos das estrelas. Lá em baixo, um cachorro chorava ensandecido, e alguns pedestres cobriam as orelhas. Para Leona, o barulho era parte essencial do espetáculo. Gostava do conjunto explosão + cores. Ela se apoiou no parapeito, quase jogando-se para fora da janela, contemplando a chuva de fogos lançada em comemoração à reeleição do presidente Vladimir.
Nesse momento, a porta do quarto de Leona foi aberta. A luz do corredor não entrou no quarto escuro, como normalmente acontecia. Ela desceu do parapeito e se virou. Atrás dela, achava-se o senhor Levi parado na penumbra. Ele estava sem a bengala, mas sua mão esquerda – a que tinha todos os dedos – carregava alguma coisa que Leona não se preocupou em examinar.
— Veja, senhor Levi! Estão soltando fogos de artifício! — Serelepe, Leona apontou para a janela.
O senhor Levi veio numa passada ligeira que claramente faria mal a ele sem o uso da bengala. O capitão, contudo, não parecia estar sentindo dor. Leona deu um passo para o lado, permitindo que o senhor Levi parasse em frente a janela. A luz da lua e a dos postes da rua iluminaram o rosto sisudo, e refletiram na lâmina da faca que sua mão esquerda segurava.
A princípio, Leona não deu importância para a faca, imaginando que o senhor Levi estava cozinhando e esqueceu-se de larga-la. Ela se apoiou na janela e observou os fogos explodindo em harmonia.
— Os marleyanos chegaram. Estão atirando.
— Huh?
E então, antes que Leona percebesse o que estava acontecendo, o senhor Levi a derrubou. Leona soltou um grito de susto antes de cair de frente. O capitão forçava-a a ficar no chão com uma pressão com a qual Leona não estava acostumada. Ela sentiu-se sufocada, e tentou desvencilhar-se. O senhor Levi, porém, tinha em força nos braços tudo o que lhe faltava nas pernas.
— Abaixe-se, Hange, os marleyanos estão aqui. — Sussurrava o senhor Levi, sua clássica voz sem emoções alterada por uma boa dose de urgência.
— Hange? A minha mãe morreu! — Exclamou Leona, apavorada. O senhor Levi segurava a faca rente ao seu rosto. Ela era capaz de sentir o frio da lâmina. — SENHOR LEVI, ME SOLTA!
— Cale a boca, quatro-olhos doente. — O senhor Levi prensou seu rosto no chão. A faca quase roçou na bochecha de Leona. — Quer chamar a atenção do inimigo?
— Do que o senhor está falando? — Ganiu ela.
Tão rápido quanto a levou ao chão, o senhor Levi se ergueu. O movimento brusco certamente causara uma dor e tanto na perna aleijada. O joelho do capitão tremulava. O senhor Levi, no entanto, estava insensível à dor. Ele fechou a janela de uma vez só. Enquanto isso, Leona arrastava-se pelos cotovelos para longe do capitão.
Ela se pôs de pé e fitou a expressão fria do senhor Levi, que em pouco diferia das caras normais do dia a dia, e que nunca horripilou tanto Leona como hoje. Apesar de a mente do capitão não processar a dor na perna, o corpo respondia ao sofrimento apoiando o peso no pé bom, de maneira que o senhor Levi bamboleava. Ele segurava a faca como se fosse uma espada.
— Aonde está o nosso equipamento?
O que diabos era equipamento? Ele estava falando dos jogos de chás?
— Estão lá em baixo, nos balcões da loja... — Leona engoliu em seco. Ela não conseguia tirar os olhos da faca. Devagarinho, começou a andar para trás. — Senhor Levi, larga essa faca...
O senhor Levi pareceu não ouvir. Ele apertou as sobrancelhas e semicerrou os olhos. Então, de repente, Leona viu um desconcertante e inusitado reconhecimento transpassar os olhos cinzentos.
— Leona?
— O quê? — Perguntou ela com cautela.
— Leona, o que você está fazendo aqui?!
A exclamação exasperada do senhor Levi veio acompanhada por um rosnado. Ele começou a se aproximar. O capitão tentava caminhar como costumava fazer quando tinha as duas pernas em perfeito estado. A aleijada pisava queixosamente, e o joelho latejava a cada movimento. O peso do corpo balançava para lá e para cá, vacilando cada vez que a perna ruim andava. A cada passo dado por Levi, Leona dava dois para trás. O senhor Levi elevou a faca como faria para cortar um vegetal que estivesse numa mesa a altura de sua barriga.
— AONDE ESTÁ A INCOMPETENTE DA SUA MÃE? — Os brados do senhor Levi misturavam-se às explosões dos fogos de artificio. — AONDE ESTÃO TODOS!? HANGE!? ERWIN!?
Leona não iria ficar para ver o que o senhor Levi faria quando a alcançasse. Ao chegar no batente, Leona fechou a porta com um estrondo, abandonando o senhor Levi e seus chamados por Hange, por Eren, por Mikasa, por Armin, e por Erwin. Leona disparou para a escadaria dos fundos e trancou a porta ao sair, deixando a chave na fechadura pelo lado de fora.
Ela desceu correndo para o andar inferior. Os pássaros se assustaram, mas não ousaram levantar voo com as explosões estourando no céu. Leona chegou à loja torcendo para a porta estar aberta. Graças a Santa, o senhor Levi ainda não a havia trancado. Como o estoque era meticulosamente organizado, Leona encontrou os corredores escuros livres de caixas e obstáculos. Ela correu até a parte do balcão e, ofegante e estupefata, precisou arrastar os dedos três vezes na parede até achar o interruptor.
O QUE EU FAÇO, O QUE EU FAÇO? Pensava Leona em desespero e agarrada à própria cabeça. O senhor Levi simplesmente fora dormir e acordou transformado num maníaco. Ele viera ao seu quarto com uma faca, na certa pretendendo matá-la. Ela precisava chamar a polícia. Mas como? Leona não sabia aonde encontrar uma delegacia.
A resposta pulou na cara dela. A poucos centímetros de distância, achava-se o telefone castiçal! Leona jogou-se no balcão e agarrou o objeto de cabeça para baixo, como senhor Levi fizera pela manhã.
Discou números aleatórios, torcendo para dar na delegacia. Porém, nada aconteceu, ouvia-se apenas o tuuuuu característico do telefone. Ela se lembrou que o senhor Onyankopon deixou anotado os telefones dele, de Jean e de Connie. Leona abriu a gaveta de papéis e lá achou-os.
Leona discou o número do senhor Onyankopon, pois ele era o primeiro da lista. Ela conseguia ouvir os passos do senhor Levi no andar superior. Ele acabara de derrubar alguma coisa pesada.
— Responde, responde. — Chorava Leona para o tu... tu... tu... compassado da ligação em andamento.
— Alô? — Respondeu a voz do senhor Onyankopon.
— SENHOR ONYPON- SENHOR ONYANKOPON — Uivava Leona no bocal, em pânico, usando a mão livre para tampar a outra orelha e abafar o barulho dos fogos — O SENHOR LEVI ENDOIDOU! EU ACHO QUE ELE QUER ME MATAR!
— Leona?
— ME AJUDA ME AJUDA POR FAVOR EU TRANQUEI O SENHOR LEVI LÁ EM CIMA ESTOU COM MEDO QUE ELE SAIA ELE TÁ COM UMA FACA VAI ME MATAR
— Certo! — Leona escutou a voz do senhor Onyankopon tornar-se apreensiva. — Eu vou chamar o Jean e o Connie. Logo estaremos aí.
O telefone fez um clic e a voz do senhor Onyankopon desapareceu. A breve conversa elevou o seu desespero, em vez de acalmá-la. No fundo, parte dela estava esperando que Onyankopon dissesse que o senhor Levi estava apenas brincando, ou que ele a confortasse, como Hange costumava fazer.
Ofegando, Leona desligou a luz e se escondeu na escuridão do estoque. Ela retirou o telefone da bancada e o levou com ela, no entanto, o aparelho precisava estar conectado para funcionar, e logo o fio findou. Desse modo, Leona, tremendo da cabeça aos pés, encolheu-se atrás da estante mais próxima e abraçou os joelhos, com o telefone bem seguro entre seus braços. Os fogos continuavam explodindo, mas os passos do senhor Levi perambulando para lá e para cá chegavam aos ouvidos de Leona com mais facilidade.
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