Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
31 Tu-li tulip time
Onyankopon e Yelena estavam fora de Paradis há um ano. Destes doze meses, sete foram passados em Hizuru, a grande nação asiática. A missão consistia em mexer pauzinhos. Isto é, entrar em contato com políticos importantes a fim de fazer acordos a favor de Paradis. Onyankopon, óbvio, não viajou apenas para ajudar os seus amigos eldianos. Um jogo de interesses existia naquela guerra mundial.
A Inglaterra, pátria de Onyankopon, aliou-se à Marley para não ser pega na guerra. Marley vinha se estabelecendo como soberania, derrotando sozinha países maiores do que a Inglaterra. Um oponente que não vale a pena peitar. Porém, na união política não havia benefícios para os ingleses. A Inglaterra vinha sofrendo nas mãos de Marley. O país tirano enxergava a Inglaterra como máquina de produzir recursos e soldados, e mais de sessenta por cento do lucro da guerra ia para Marley. Os outros quarenta eram divididos entre os países aliados, portanto os ingleses recebiam apenas migalhas em troca de seus sacrifícios. Após construir a ponte entre Hizuru e Paradis, Onyankopon ia dar um jeito de fazer o mesmo entre a ilha e a Inglaterra. Quanto mais inimigos Marley tivesse, melhor.
Seduzir os asiáticos foi "moleza", como Yelena se gabou após as reuniões bem-sucedidas. No passado, Eldia e Hizuru foram confederados fortíssimos. Os frutos da união histórica floresceram no país mesmo após a queda de Eldia. Hizuru é conhecida como a única nação tolerante com eldianos. Lá, Onyankopon e Yelena viram eldianos andando nas ruas sem ornatos de identificação, comeram em restaurantes especializados em comida eldiana, leram livros com sobrenomes eldianos grafados na capa, e conheceram famílias mistas.
Zeke Yeager já tinha conversado com a embaixadora de Hizuru e preparado o terreno para Onyankopon e Yelena agirem. A embaixadora era uma mulher de meia-idade chamada Kiyomi Azumabito. Onyankopon passou uns bons meses conversando com a senhora e outros políticos importantes. Kiyomi concordou em visitar Paradis. O (re)encontro ocorreria em breve, e seria marcado através de uma carta ainda não escrita.
Um dos pontos levantados nas reuniões foi Mikasa Ackerman. Mikasa é a única asiática dentro das muralhas e descendente de Hizuru. Mais especificamente, da própria família Azumabito. Segundo a história, um clã asiático já extinto viveu em Paradis. O cabeça do grupo era um membro da família Shogun que acabou preso na ilha por acidente. A família Azumabito é descendente do clã Shogun de Hizuru. Em outras palavras, Mikasa é um parente perdido de Kiyomi. A embaixadora estava louca para conhecê-la.
Porém, Onyankopon não acreditava cem por cento nessa história. Hizuru não se aliaria à Paradis por puro altruísmo, tampouco por laços antigos, e muito menos para resgatar parentes perdidos. Hizuru é um cão farejador treinado para encontrar dinheiro. Em Paradis, existe um minério único e especial chamado Rajada de Gelo. Kiyomi falou com empolgação sobre a rajada de gelo. Onyankopon pôde jurar ter visto cifrões no lugar das pupilas da senhora.
E como não poderia? A rajada de gelo é uma coisa de louco. Ela é a peça fundamental para o equipamento de manobras funcionar. Onyankopon nem imaginava o real poder daquela pedrinha. Pelo visto, os paradisianos também não. Bem, com ou sem interesse financeiro, o importante é que Hizuru concordou em visitar Paradis. Onyankopon esperava que houvesse minério para todos, pois pretendia usar o mesmo artificio com os líderes da Inglaterra.
Sendo assim, Onyankopon e Yelena voltaram trazendo boas notícias. E outras coisinhas também. Em suas viagens, Onyankopon sempre lembrava de comprar presentes para os seus amigos da Tropa de Exploração, em especial para a comandante Hange, que além de ser uma cientista incrível, também é uma mulher e tanto.
Desembarcaram no porto de Paradis de madrugada. A primeira coisa que Yelena e Onyankopon sentiram ao pisar em solo eldiano foi falta da eletricidade. Os engenheiros que desenharam o porto, esquecidos do primitivismo de Paradis, puseram postes de luz no projeto. Os postes erguiam-se em linha horizontal feito armaduras inúteis e vazias. Yelena tinha esquecido como é sofrido viver num país sem energia elétrica — algo considerado direito básico de todo cidadão. Onyankopon se exasperou quando lhe ocorreu se os presentes precisavam de energia elétrica para funcionar. Suspirou aliviado ao não encontrar nenhum cabo nas caixas.
Precisaram pegar duas carruagens para alcançar as muralhas. Chegaram quando o sol recém despontava. Na cidade, Yelena alugou uma carroça. Caso estivessem em qualquer outro país, teriam ido ao telefone público mais próximo e contatado uma locadora de carros. Onyankopon alugaria um automóvel confortável, seguro e confiável. Um Ford A 1929. Ótimo carro. No entanto, em Paradis carteiras de motoristas têm o mesmo valor de papel higiênico — só servem para limpar a bunda.
Onyankopon amarrou as caixas na carroça para nenhuma cair no caminho, e também para evitar que sacolejassem, embora isso não fosse acontecer. O cavalos, um animal velho, não tinha disposição para galopar.
— Caramba.
Onyankopon e Yelena se admiraram ao pouco reconhecerem a muralha Rose. A cidade mudou nos meses em que estiveram fora. Os estabelecimentos foram pintados, a estrada melhorada, e os vilarejos outrora pacíficos transformam-se em pequenos centros urbanos. A carroça passou por três novas construções, uma delas num lugar aonde um senhor de idade costumava morar. Encontraram amigos paradisianos pelo caminho, os quais Onyankopon cumprimentou com acenos animados, e os eldianos retribuíram:
— Onyankopon, nosso camarada! Olá para você também, Yelena.
Anos de convivência entre estrangeiros e paradisianos resultaram em amizades improváveis e até romances proibidos. Entretanto, o preconceito não foi erradicado. Via-se vestígios do ódio por toda parte. Uma palavrinha racista ali, um balde d'água jogado num marleyano aqui, cartas de ameaças, abaixo-assinados pedindo a expulsão dos forasteiros, projetos de lei promovendo segregação através da construção de espaços exclusivos para pessoas de fora e, óbvio, casos de agressão registrados na polícia.
O ódio não vinha só do lado paradisiano. Os forasteiros também não eram gente boa. O aumento na população da prisão litorânea era o principal indicativo. Os crimes não diferiam muito dos cometidos por eldianos. Já a forma de tratamento, ah, isso sim é diferente. E os dois voluntários estavam prestes a presenciar um exemplo.
Onyankopon e Yelena ouviram antes de ver. Os voluntários enrijeceram. Gemidos, gritos, ofensas e o som de alguma coisa dura batendo em metal vinham do beco adiante. Onyankopon distinguiu seis vozes diferentes, mas daqui alguns segundos descobriria serem apenas quatro homens. Yelena deduziu o que acontecia no beco estreito sem precisar olhar para a entrada sem saída.
— Eu não disse aquilo. Eu não disse aqu
A voz dolorida do homem foi cortada pelo barulho metálico estridente, como se o objeto tivesse sido derrubado.
— Não mente, marleyano imundo.
— Come mais lixo para aprender.
Yelena, sentada na carroça no lado da calçada, viu pelo rabo do olho três policiais militares agredindo um rapaz maltrapilho. Os olhos roxos e o sangue escorrendo do nariz não caiam bem no rosto glabro, e as roupas rasgadas não prestavam nem para pano de chão. O policial forçou a cabeça do forasteiro para dentro da única lata de lixo em pé. Os berros do marleyano foram calados quando ele encheu a boca de lixo. O policial o puxou pelos cabelos. O marleyano voltou sujo de alguma coisa escura que Onyankopon pensou ser feijão podre.
— Quer mais?
— Não, por favor. — Implorou o marleyano.
Onyankopon e Yelena não ficaram para ver o desfecho. Paralisados e de olhar arregalado fixo na estrada de terra, passaram pelo beco sem olhar para trás ou para os lados. Tal como os dois voluntários, outros transeuntes presenciaram a briga; paradisianos indo enfrentar um longo dia de trabalho, sem tempo para o problema dos imigrantes – até porque aquele mal-encarado não deve ter apanhado de graça, alguma coisa ele fez para merecer a surra.
Em Paradis, eldianos que cometem racismo contra estrangeiros recebem um tapinha no ombro e escutam "não faça mais isso", enquanto estrangeiros que cometem racismo contra paradisianos apanham, passam meses na prisão, perdem a casa e, em casos mais graves, desaparecem. Onyankopon e Yelena compartilharam um olhar nervoso de cúmplices. Não podiam fazer nada, aquela era a terra de Eldia.
Os sons violentos da briga entraram por um ouvido e saíram pelo outro, e logo se afastaram o bastante para não escutá-los. Misturaram-se nas outras carroças e carruagens. Os voluntários deixaram a situação desconcertante para trás tão facilmente quanto afastariam uma mosca. O cavalo seguiu viagem por mais dez minutos, e então chegou na casinha aonde Onyankopon morava.
Onyankopon deixou o cavalo solto no quintal. O animal se pôs a pastar a grama crescida na ausência do morador da casa. Onyankopon abriu a porta. A casa estava exatamente da forma como a deixou, só que com teias de aranha, fedorenta e abafada pelos meses fechada. Yelena e Onyankopon tiveram um acesso de tosse. O inglês afastou a poeira sacudindo o chapéu na frente do rosto lacrimejante.
— Puta merda, que calor. — Reclamou Yelena.
A comandante Hange e o capitão Levi viriam visita-los daqui a pouco. Era bom darem um jeito naquela imundice. Sendo assim, Onyankopon abriu as janelas, arregaçou as mangas da camisa e se pôs a varrer a casa. Varreu tudo bem rapidinho, até em baixo dos móveis. Enquanto isso, Yelena ia e vinha trazendo as caixas da carroça. Após guardar a última, começou a limpar a cozinha.
Os voluntários suavam e ofegavam. De tempos em tempos, Yelena conferia o relógio para ver quanto faltava para as onze. Após terminar de varrer, Onyankopon lavou o banheiro. Depois tirou o pó da sala e amarrou um pano úmido na vassoura, o qual foi passado de cabo a rabo na casa.
Terminaram a rápida faxina lá pelas dez. Onyankopon passou a mão na testa molhada. A casa cheirava a perfume. Ele, por outro lado, parecia um espantalho fedorento. Yelena não se encontrava num estado tão diferente.
— É melhor a gente tomar banho ou o capitão Levi vai sair correndo quando ver a gente.
— Capitão Levi, sei.
Yelena provocou Onyankopon, dando um sorriso lacônico ao amigo. O inglês retribuiu fingindo lascívia. Numa tarde distante, Onyankopon cometeu a fatalidade de contar à Yelena sobre seu fraco por mulheres mais velhas. Sendo Yelena uma mulher observadora e intrometida, não levou nem três dias para perceber a paixonite de Onyankopon pela comandante da Tropa de Exploração. Bastou associar a preferência do inglês com o fato de ele se esforçar para agradar Hange e seus soldados. Ao contrário do que os amigos eldianos pensam, Onyankopon não é tão gentil e solicito com qualquer um.
— Meu Deus! — Onyankopon pôs a mão na cabeça. — Preciso comprar comida. Pode tomar banho primeiro. Eu já volto.
Onyankopon saiu em disparada. O cavalo levantou as orelhas ao ver o inglês passar pela porta com a pressa de um jurado de morte fugindo do carrasco. Na mercearia, Onyankopon pediu café ao balconista. A resposta que recebeu do comerciante foi uma cara de paisagem. Nisso Onyankopon lembrou que não existe café em Paradis e se desculpou. Comprou chá, pão, manteiga, alfaces, queijo e presunto. Ingredientes para sanduíches. Gostaria de oferecer um almoço de verdade aos seus convidados, contudo o horário apertado não permitia.
Yelena já tinha saído do banho, e Onyankopon foi tomar o seu. Yelena pôs a chaleira no fogo. Enquanto a água esquentava, foi até a sala onde largou os presentes. De todos os cinco caixotes, Yelena abriu apenas um: o maior e mais pesado. O conteúdo incomum foi deixado na outra extremidade da sala, de propósito num canto onde ninguém esbarraria nele.
Eles não perceberam os ponteiros do relógio correndo. Dessa forma, as batidas na porta os surpreendeu. Onyankopon tirou a toalha molhada dos ombros e a deixou largada no sofá. As silhuetas coloridas das pessoas do lado de fora eram visíveis através do vidro canelado. Viram o cabelo castanho de Hange e o cotoco que era Levi.
Quando Onyankopon chegou perto da porta, escutou uma terceira voz. Por instinto, parou antes de agarrar a maçaneta. Prestou atenção. Não levou dois segundos para identificar o timbre infantil. Hange trouxe sua filha. Onyankopon sorriu, sentia saudade daquela pimpolha. Abriu a porta.
— Olá!
Leona interrompeu a fala de Onyankopon saltando e berrando "SENHOR ONYPON!". Onyankopon segurou Leona no ar. A última vez que a viu foi no aniversário de cinco anos. Sentiu diferença no peso da menina, e reparou nas três janelinhas no sorriso largo.
— Espero que não se importem de eu ter trazido a Leona. Ela queria porque queria ver vocês.
— Não é problema nenhum. Nossa, Bolinha, como você cresceu.
— Minha mãe disse que daqui a pouco vou ficar maior do que o senhor Levi.
Pela cara indignada de Levi e as bochechas vermelhas de Hange, Leona acabara de soltar uma piadinha indelicada. Onyankopon pôs Leona no chão. Para Levi se sentir menos pior, falou:
— Se continuar crescendo assim, vai ficar mais alta que eu.
— Puxa, é mesmo!? — Animou-se Leona.
Agora era a vez de cumprimentar os adultos. Hange esticou o corpo para abraçar Onyankopon pelo pescoço. O inglês segurou o suspiro, tentando ignorar a tensão que os abraços espontâneos e calorosos de Hange lhe passavam. Retribuiu o abraço a envolvendo respeitosamente um pouco acima da cintura. Hange deu tapinhas nas costas de Onyankopon e fez menção de soltá-lo. O abraço durou anos na cabeça dele, mas na realidade nem chegou a um segundo.
— E aí, sabichão? — Hange deu um soquinho no peito de Onyankopon. — Como tem passado?
— Tudo ótimo. Entrem, por favor. Temos novidades.
Onyankopon deu espaço para Hange e Leona passarem. Hange precisou se esticar muito mais para conseguir abraçar Yelena. Enquanto isso, Onyankopon e Levi compartilhavam um aperto de mão firme.
— E você, Bolinha? — Yelena sentou sobre os calcanhares. — Você nem imagina o que eu tenho escondido aqui.
— Chiclete!? — Os olhos de Leona brilharam.
— Isso, chiclete.
Yelena deixou Leona pôr a mão em seus bolsos. O capitão Levi passou por Onyankopon e cumprimentou Yelena com um simples aceno de cabeça. Por motivos misteriosos, Levi morria de ódio da cara de Yelena. Bem, na verdade, os voluntários não sabiam se Levi a detestava ou se o tratamento antipático era só o jeitinho meigo do capitão misantropo. Mesmo de costas, Onyankopon sentiu Levi analisando o chão limpo da casa.
— Vamos até a cozinha.
Seguiram Onyankopon até a cozinha. As sacolas do mercado descansavam sobre a mesa sem toalha.
— Podem se servir. Desculpe, não tive tempo de preparar almoço.
— Não tem problema. Chá está ótimo. — Hange o consolou.
Yelena tirou as compras da sacola. Leona, exibida, sentou na cabeça da mesa. Hange sentou à direita da filha e Levi escolheu a cadeira ao lado da comandante. Onyankopon passou água nas xícaras para limpa-las e preparou bebida para todos. Leona, no entanto, fez careta para o chá vermelho
— Tem leite, senhor Onypon?
Levi quase engasgou com o seu próprio chá. O capitão colocou a xícara de volta no pires e franziu as sobrancelhas para Leona, fazendo a garotinha se encolher na cadeira. Hange, ocupada passando manteiga no pão, não deu a mínima.
— Leona!
— O que eu fiz de errado? — Gemeu Leona.
— Desculpe, Bolinha, não tenho leite aqui.
Nesse momento, Hange terminou de preparar o pão. A comandante deu uma dentada generosa e entregou a faca à Leona.
— Experimenta o chá, Bolinha. — Encorajou Hange, de boca cheia.
— Chá é ruim. Só os de mentirinha são bons.
— Você nunca bebeu, como sabe que é ruim?
A resposta de Leona foi um beiço irritado, e a partir daí os adultos a ignoraram. Onyankopon ofereceu uma faca limpa ao capitão. Entretanto, Levi dispensou o pão.
— Então, como foi em Hizuru?
Os militares já sabiam da história entre a nação asiática e Eldia, portanto Onyankopon e Yelena puderam dispensar a introdução. A voluntária foi direto ao ponto.
— Foi muito bom. Hizuru está disposta a cooperar com Paradis. Disseram que vão entrar em contato em breve.
Hange ficou tão entusiasmada que não conseguiu se segurar. Ela gritou de felicidade, cuspindo pão na cara de Onyankopon. Hange ergueu punhos para o céu, comemorando. Dava para ver a comida mastigada na boca aberta, incluindo os pedacinhos de alface
— Perfeito! Já temos nosso primeiro aliado. Espere só até a Capital ficar sabendo.
Hange deu um tapa no ombro de Levi, que no momento bebia chá. O golpe o fez solavancar para frente. Levi derramou um pouquinho de chá na mesa e por pouco não derrubou a xícara.
— Para com isso, retardada doente. — Levi retribuiu o tapa.
— Ai! — Hange choramingou esfregando o ombro atingido. Em segundos, se voltava para Leona sorrindo de orelha a orelha. — Você ouviu, Bolinha? Hizuru vai ser nossa aliada.
Reticências brotaram no rosto contemplativo de Leona. A garotinha parou de mastigar e observou o alvoroço da mãe. Leona não fazia ideia do que diabos é Hizuru, tampouco a relação desse negócio com a ilha. Leona engoliu o pão de uma vez só. Devia ser um pedaço grande, pois deu para ver o volume deslizando no pescoço da menina.
— O que isso quer dizer, mãe?
— Significa que vamos fazer amizade com pessoas de outro país. Eles vão nos ajudar a cuidar da ilha.
— Ah.
Leona não entendeu ou não deu importância; sendo a segunda alternativa a mais provável. Leona era uma criança normal, e crianças normais não se interessam por guerras e relações internacionais.
— Hizuru tem um dos melhores desenvolvimentos tecnológicos do planeta. Vocês precisam ver aqueles aviões.
— Aviões!? — Agora Leona estava empolgada.
— Perfeito. Com a ajuda deles podemos começar nosso aeroporto.
A constatação veio de Hange. A comandante pôs as duas mãos na mesa e ergueu o corpo, avançando sobre o inglês no outro lado. O olho expectante cintilava. E o sorriso logo abaixo era muito mais brilhante e bonito. Tudo em Hange era estonteante.
— Vocês vão ter que negociar com a família Azumabito.
— OS AZUMABITOS!? — Hange ficou chocada. — Vocês os conheceram em pessoa?
Hange voltou a se sentar. Nesse intervalo, Leona pôs a xícara de chá perto da boca, cheirou o conteúdo e torceu a cara. Ela empurrou a xícara na direção de Levi. O capitão aceitou.
— Sim, conversamos com Kiyomi, a matriarca. Ela é a embaixadora de Hizuru.
Nesse momento Yelena interrompeu Onyankopon para acrescentar suas próprias considerações. A voluntária parecia entusiasmada.
— A Mikasa é parente da família Azumabito. A Kiyomi está animada para conhece-la.
— Não entendi. — Intrometeu-se Leona. — Como a senhorita sabe que a mana é igual a eles?
— Porque os habitantes de Hizuru são assim...
Yelena usou os dedos indicadores para puxar os olhos, deixando-os estreitos e compridos. Leona compreendeu de imediato e assentiu. Por sorte, a menina aceitou a explicação rasa. Yelena não estava com paciência para explicar a história do clã Shogun à uma criança. A conversa dos adultos continuou. Onyankopon tomou a palavra.
— Mesmo assim, creio que o interesse deles não seja só por causa de laços familiares. Os Hizurus adoram uma graninha. Eles devem ter visto alguma coisa na ilha que pode dar lucro.
Onyankopon achou melhor não mencionar a rajada de gelo, até porque pela cara de Hange e Levi, os dois militares compreenderam as entrelinhas. A comandante e o capitão se entreolharam. Onyankopon viu mensagens codificadas sendo transmitidas através daquele olhar íntimo.
— Eu sabia que tinha coelho nesse mato. — Levi revirou os olhos.
— Por enquanto vamos nos dar por contentes que recebemos essa oportunidade.
Respondeu Hange, sorrindo de canto. Os cinco levantaram da mesa. Levi se ofereceu para lavar a louça. Onyankopon e Yelena disseram não por educação, entretanto ficaram contentes quando o capitão insistiu. Leona parou na frente dos dois forasteiros.
— Senhor Onypon, senhorita Yelena, vocês sabiam que no mês que vem eu vou para a escola?
— É mesmo? — Yelena fingiu interesse.
— Huh? Você vai fazer sete anos?
Perguntou Onyankopon em sincera surpresa. Leona era um bebezinho de três anos quando a conheceu, e agora a menina estava indo para a escola. A súbita percepção da passagem de tempo causou uma pequena crise existencial em Onyankopon. Ele sentiu saudade dos pais e dos primos deixados na Inglaterra. Há quantos anos não os visitava?
— Vou, mas só em setembro.
Hange pôs a mão no ombro de Leona, fazendo a garotinha olhar para a mãe e sorrir. Porém, o sorriso desapareceu quando a comandante falou:
— Eu estou vendo com a diretoria se a Leona pode pular direto para a segunda série.
— NÃO.
— Por que não, Bolinha? Você já é alfabetizada.
A garota berrou não, não e não, como se Hange tivesse dito que ia manda-la para a guilhotina em vez de para uma série avançada. Hange levantou as sobrancelhas, surpresa pela reação enérgica da filha. Leona ergueu a cabeça e respondeu em desespero raivoso:
— Porque eu quero ir para escola com o Peter e com a Diana e com o Otto e com a Rebeca e com o
Leona, cheia de mágoa, declarou o nome de mais vinte crianças. Hange a observava em silêncio. Onyankopon não conseguiu ler a expressão da comandante. Pela cara de Levi, o capitão entendeu o que os lábios cerrados e a pequena ruga na testa de Hange queriam dizer. Leona continuou falando até perder o fôlego. Hange esperou o surto terminar, e quando Leona finalmente acabou, a comandante disse, impassível:
— Em casa a gente discute isso.
Leona murchou os ombros, chateada pelo problema não ter sido solucionado na hora. Onyankopon resolveu ajudar.
— O que você vai ser quando crescer, Bolinha?
O rosto da criança se iluminou. Leona mudou da água para o vinho. A garotinha já estava certa sobre sua vida profissional e adorava falar sobre seu futuro brilhante com qualquer um interessado. Leona se empertigou.
— Eu vou ser médica de bichos.
— Veterinária. — Yelena a corrigiu no automático.
— Isso mesmo. Eu estou praticando. Já curei dois pássaros, cuidei de quatro gatinhos abandonados, fiz curativo em um cachorro, e muitas, muitas — Leona fez um gesto amplo — outras coisas.
— Puxa, e a sua mãe deixa?
Yelena deu um olhar interrogativo à Hange, questionando a veracidade da história de Leona. Hange confirmou.
— A Leona traz todo tipo de animalzinho para casa. Até sapos. Tenho medo de chegar em casa e encontrar uma raposa na minha cama.
Hange participava do consultório veterinário. A comandante instruía Leona no cuidado dos animais e executava as partes mais difíceis. Era Hange quem dava medicamentos e fazia os exames. Por enquanto, à Leona era designada a alimentação e a limpeza da "unidade de internação", que na verdade é a antiga salinha nos fundos da casa. Hange deixava Leona fazer curativos fáceis e, quando o animal era manso, a menina podia participar dos exames físicos. Hange proibia Leona de tratar os animais longe da sua supervisão. Quando fosse mais velha, Leona poderia fazer tudo sozinha. Por enquanto, um passo de cada vez.
— Mas eu não quero cuidar de animais pequenos pelo resto da vida. Eu quero ser veterinária de bicho grande.
— Como assim?
A pergunta veio de Onyankopon. Yelena também não entendeu. Leona revirou os olhos ante a burrice dos adultos.
— Estou falando de animais da floresta. Leões, ursos, tubarões, elefantes, gorilas, jacarés...
Leona ia numerando os animais nos dedos das mãos. Yelena abriu a boca para falar e Onyankopon implorou a Deus que a mulher não desanimasse Leona. Deus não ouviu suas preces.
— Bem, se você quiser ser veterinária de animais silvestres, vai ter que sair de Paradis.
— Eu já sei disso. — Leona deu de ombros, nem um pouco incomodada. — Eu não me importo. Vou morar na África e vir pra ilha todo fim de semana ver a minha mãe.
Leona afirmou esperançosa daquela maneira pura e infantil quando não se tem noção do quão labiríntica e injusta é a estrada da realização profissional. Caso Leona quisesse seguir essa profissão, não só teria que trabalhar fora da ilha como estudar em outro país. Como se não bastasse o problema da distância, havia o da raça também. Leona era eldiana. É provável que nem a aceitem na faculdade, quanto mais num centro de reabilitação de vida selvagem entupido de cientistas e médicos mesquinhos.
Hange fez carinho no cabelo da filha, sorrindo com ternura e orgulho. Hange não era burra. A comandante sabia do futuro desastroso aguardando por Leona. No entanto, Hange acreditava naquele um por cento; na mínima chance que sua filha tinha de realizar seus sonhos grandiosos. Hange ergueu a cabeça para Yelena. Onyankopon percebeu a ligeira agressividade no olho da comandante. A outra voluntária notou isso também, e recuou por instinto.
— A Bolinha vai ser veterinária de bicho grande nem que eu tenha que trazer os animais à força e enjaula-los no quintal.
— Credo, mãe.
— Bem, boa sorte, Bolinha. — Onyankopon mirou os adultos, a essa altura Levi já tinha terminado de lavar a louça. — Venham comigo, tenho uma surpresa.
Levi, Hange e Leona acompanharam Onyankopon e Yelena até a sala ao lado, e lá encontraram um objeto estranho aos olhos dos três eldianos. Era uma pequena caixa de madeira escura. Na parte superior tinha uma gigantesca peça peculiar cuja forma lembrava uma amarílis. Havia uma manivela a qual Hange deduziu servir para pôr o aparelho bizarro para funcionar. Nenhum deles fazia ideia da função daquele negócio. Nem Hange foi capaz de adivinhar o caráter da invenção. Onyankopon não escondeu o divertimento.
— Isso é uma vitrola.
Hange se aproximou deliberadamente e Leona imitou a mãe, ambas curiosas pelo objeto desconhecido. Levi, nem tanto. O capitão sentou numa das poltronas da sala, observando de longe.
— O que isso faz? — Perguntou Hange, arrumando os óculos. — Posso girar a manivela?
— Ainda não, precisa pôr o disco antes.
Yelena abriu uma das caixas espalhadas. O caixote continha capas grandes e quadriculadas. Yelena pegou a primeira da pilha e tirou o disco, uma coisa preta e redonda, de dentro da embalagem. Leona, abobada, encarava o desenho da capa. Notando a atração da menina, Yelena estendeu o quadrado de papelão para Leona ver. No entanto, Hange pegou primeiro e deu uma boa olhada antes de dar à filha.
Leona analisou a capa. A fotografia preto-e-branca mostrava três mulheres adultas vestindo terno e chapéu de militar — não era o uniforme paradisiano, até porque os militares da ilha não usam chapéu. As moças não encaravam o fotógrafo na hora da foto, mas sim saudavam alguma coisa oculta no céu. Leona imaginou que as moças estivessem dando olá a um avião. Focadas em mirar o céu, o trio ignorava a pessoa segurando a capa do disco. Era como se as desconhecidas estivessem posando para um quadro e Leona as observasse de um ponto onde não podia ser vista.
Na parte superior do desenho, os dizeres THE ANDREWS SISTERS foram grafados em letras maiúsculas e formais. Leona virou a capa e encontrou uma porção de palavras desconhecidas no outro lado. Uma porção de Ws, Ys e As. Leona franziu o cenho e aproximou o rostinho. Não ajudou na leitura.
— Mãe, o que está escrito? Eu não consigo ler.
— Eu também não. Não sei ler em inglês.
— Como assim você não sabe? — Leona encarou a mãe com surpresa. — Você sabe tudo, mãe.
Leona não entendeu porque todos os adultos acharam graça de sua indignação. Quer dizer, quase todos — o senhor Levi não riu. Nesse momento, Yelena pôs o disco na vitrola e pediu à Hange para girar a manivela. A comandante esfregou as mãos, animada. Leona se intrometeu no caminho da mãe.
— Vocês deixam eu fazer?
— Só depois de mim.
Hange agia feito uma criança fantasiada de soldado. Onyankopon achou bonitinho. Hange girou a manivela até Yelena mandar parar. O disco começou a rodar, e nisso Yelena pôs, com cuidado exagerado para não arranhar o disco, a agulha sobre a faixa musical.
Uma melodia alegre preencheu o quarto. Antes que os eldianos processassem o que acontecia, três vozes femininas começaram a cantar. Leona saltou para trás. Hange deu um gritinho de susto. Até Levi ficou inquieto, e meneou a cabeça para ver melhor.
— São as mulheres da foto! Mãe, como elas foram parar aí dentro?!
Hange não respondeu. A comandante embasbacada encarava a vitrola com a mão cobrindo a boca e o olhar seguindo o movimento rotatório do disco em baixo da agulha. O cérebro de Hange martelava sem parar em busca das engrenagens por trás da invenção tecnológica que mais parecia mágica.
— Senhor Onypon, senhorita Yelena, as mulheres estão bem?
Perguntava Leona em nervosismo sincero, encarando os dois voluntários alternadamente. De novo não entendeu o motivo das gargalhadas. Por que eles estavam dando risada? E se as mulheres estivessem sentindo dor, fome, desespero?
— As mulheres não estão presas, só a voz delas.
— ELAS PERDERAM A VOZ?!
— Não. — Yelena riu. — É uma gravação.
Leona matutou a informação.
— Igual a comunicação sem fio dos navios?
— Isso mesmo, garota esperta.
Yelena bagunçou o cabelo da menina, a fazendo sorrir. A melodia da canção era feita por instrumentos que os eldianos desconheciam. Levi observava de longe, meio assustado por causa do som tão distinto de tudo que já escutou. O capitão não sabia se tinha gostado ou odiado. Uma coisa era certa: se encontrava num estado de perturbação peculiar. Quanto à Hange, a comandante desistiu de tentar entender o aparelho e se dedicou a aproveitar o diferente.
Hange foi a primeira a dançar. Ela começou estalando os dedos no ritmo da música, e em segundos o quadril se mexia de um lado para o outro. Leona, contagiada pela mãe, entrou no baile, embora sua dança de criança fossem só pulos e giros. Levi revirou os olhos.
— Mãe, o que as mulheres estão falando?
— Não faço ideia, filhotinho. — Respondeu Hange, rindo.
Nenhuma delas entendia inglês. Esse pequenino detalhe, contudo, não as abalou. Elas deram as mãos e rodaram no meio da sala. Por inúmeras vezes quase esbarraram nos móveis, e em certo momento Leona escorregou no tapete. Mãe e filha dançaram juntas enquanto os adultos olhavam. Onyankopon batia o pé e Yelena sorria sem mostrar os dentes. Hange largou Leona e se voltou aos adultos.
— Ei, vocês vão nos deixar dançar sozinhas?
Num momento Hange dançava no centro da sala, e no próximo agarrava Onyankopon. Daquele jeito intrometido e espontâneo, Hange passou um braço pelo pescoço do inglês, e usou a outra mão para agarrar a dele. A mão de Hange estava quentinha. Onyankopon ficou arrepiado e, sentindo uma onda repentina de coragem, circundou a cintura feminina.
Hange não lhe deu tempo para reagir. A comandante o puxou para o meio da sala numa dança desajeitada e caótica. Hange lançava o corpo para lá e para cá, pisava nos pés de Onyankopon e gargalhava risadas tão altas que, com certeza, incomodaram os vizinhos. Essa não é a maneira apropriada de dançar essa música, pensou o inglês, quem se importa? Onyankopon entrou na brincadeira. Os dois dançaram feito bêbados. Hange esbarrou numa das caixas, fazendo o caixote despencar. Os dançarinos ignoraram o acidente.
Levi, feliz em ser espectador, foi hipnotizado por Hange, mais especificamente pelo movimento do casaco comprido quando a comandante girava – esvoaçava tal como um vestido. Hange ficaria tão bonita de saia. Na verdade, ela ficava linda em qualquer roupa. Levi a viu se jogando para trás e esticando o braço longe. Quase riu da urgência de Onyankopon para não deixar a comandante cair.
Levi não sentia mais ciúme. Nem de Onyankopon e nem de ninguém. Levi e Hange tinham um relacionamento sólido, objetivos definidos, e respeito recíproco. Levi confiava em Hange e no futuro que vinham semeando juntos. Jamais seria capaz de machucá-la, e sabia que nunca seria machucado por Hange.
Nesse momento, Levi sentiu uma presença ao seu lado. A sombra do sorriso evaporou do rosto de Levi, e a cara outrora relaxada voltou para a rabugice normal. Levi levantou a cabeça e encarou o cabelo tigelinha da gigante parada perto da poltrona. Yelena estendeu a mão e disse, com cordialidade exagerada:
— Me dá a honra, gentil cavalheiro?
Levi bateu na mão dela.
— Nem pelo caralho. Sai daqui.
— Dança comigo, Yelena!
Leona veio agarrando Yelena. A mulher concordou, segurando as mãos de Leona e deixando-se guiar pela dança da menininha saltitante. Levi pôde relaxar. O capitão se recostou na poltrona.
Onyankopon e Hange dançaram juntos mais um pouquinho até a comandante larga-lo e sair dançando sozinha. Onyankopon sentiu falta da forma do corpo dela em baixo de seu braço. Sua mão aquecida pelo calor de Hange ficou estranha ao contato.
— Senhor Onypon, dança com a gente!
Leona estendeu a mão para ele. Onyankopon aceitou o convite, e em segundos os dois forasteiros e a garotinha eldiana giravam juntos. Ambos os adultos repararam na fixação de Leona com o contraste entre a cor de sua pele e a do inglês quando colocadas lado a lado.
Enquanto isso, Hange ia até a cadeira onde Levi sentava e o pegava pelos braços. Num único puxão, Hange forçou Levi a levantar, e o sorriso de Onyankopon quase desapareceu ao ver, pelo rabo do olho, Hange enlaçar o pescoço de Levi com uma intimidade muito maior do que a forma como tinha abraçado o inglês.
— Vem dançar, seu chato.
— Eu não sei dançar e não quero aprender.
— Você é muito sem graça. — Hange fez beicinho.
— Que bom. Não estou aqui para divertir ninguém.
A resposta de Hange foi uma cara de mágoa fingida, e então ela beijou Levi. Não foi um beijo camarada, daqueles que se dá na bochecha; Hange o beijou na boca. E não o fez de forma ardente tal como apaixonados vulcânicos. Foi um selinho rápido — um gesto sutil de carinho, respeitoso tanto para com Levi quanto para as demais pessoas presentes. Aquela demonstração de afeto bastou para Onyankopon entender que os dois estavam num relacionamento, e a ligeira mudança na inexpressividade de Levi evidenciava a afinidade entre os dois.
Vê-los se beijando daquela maneira suave partiu seu coração. Teria se incomodado menos caso os tivesse pego fazendo sexo selvagem. Nunca imaginou Hange num relacionamento com aquele capitão azedo, sem senso de humor e, que Deus o perdoe, cuja altura era inferior à de um homem normal.
— With a kiss she sighed forever.
Cantarolou Yelena, gargalhando e levantando Leona. Onyankopon arregalou os olhos, e logo depois franzia as sobrancelhas para a outra voluntária. Yelena, achando graça do constrangimento de Onyankopon, piscou para o amigo. Onyankopon afastou o embaraço rapidamente. Em algum ponto da amizade, Onyankopon, de fato, interpretou a personalidade cativante de Hange como insinuações românticas. No entanto, agora percebia que Hange tratava a todos os amigos dessa forma. Onyankopon era apenas mais um. E no fim, quem é Onyankopon para dizer com quem Hange deve ficar? Ela é uma mulher livre. Se Hange quer ficar com o capitão Levi, à Onyankopon só restava desejar felicidades ao casal. Sendo assim, o inglês riu entredentes e se juntou à Yelena:
— You can hardly blame them, you would do the same in tu-li-li-lip tralalala.
— Ei, o que vocês estão dizendo?
Leona foi ignorada. Os voluntários continuaram cantando tão alto que a voz deles quase se sobrepunha a do trio de moças. Leona resolveu participar. A menina cantava a letra conforme os sons que ouvia, portanto, em vez de performar a canção, Leona a assassinou. Yelena riu de Leona.
— Bolinha, é melhor você cantar em eldiano.
— Eba! Vou cantar a do pedalinho.
— Vá em frente. Cante até o fim e eu te dou mais chicletes.
— Pedala, pedala pedalinho...
Leona começou a cantar na ponta dos pés, com a mão no peito e boca escancarada, como se estivesse num palco. Hange revirou o olho ante o comportamento teatral. Leona era apaixonada por aquela música. A garotinha lembrava a letra completa, ao contrário de Hange que esqueceu tudo mesmo tendo cantado a canção nos primeiros anos de vida da filha. Enquanto Leona cantarolava, Onyankopon silenciava as Andrews Sisters. A ausência da música fez diferença. Até Levi sentiu falta da melodia.
— Que bom que vocês gostaram. Vou levar a vitrola para o quartel amanhã.
— Os garotos vão adorar.
Hange bateu palmas, desde já querendo ver a carinha dos subordinados com o novo presente. Levi, à sua própria maneira inexpressiva, também parecia entusiasmado. Nesse momento, o capitão conferiu o relógio de pulso, e então deu um puxãozinho no uniforme de Hange. O movimento bastou para a comandante captar a mensagem.
— Bom, estamos com os assuntos em dia?
— Sim- Ah, espera, tenho que te entregar uns documentos de Hizuru.
Onyankopon saiu trotando. Hange aproveitou a deixa para chamar Leona. A comandante pôs o braço ao redor dos ombros da criança, a puxando para perto.
— Vem, filhotinho.
— Não acabei de cantar, mãe. A senhorita Yelena disse que vai me dar chicletes se eu cantar tudo.
— Haha. Você já cantou o suficiente. — Yelena pôs a mão no bolso. — Abre as mãos.
Leona mostrou as mãos unidas em forma de concha. Logo, a pequena bolsa improvisada foi preenchida com caixinhas coloridas. Leona lambeu os beiços e saltou no mesmo lugar, agradecida. Os bolsos de Leona ficaram estufados com tanto chiclete. A menina se perguntou como as caixas não faziam volume nas calças de Yelena. Os bolsos da senhorita Yelena deviam ser fundos.
Onyankopon voltou pouco depois com uma pasta de documentos. Hange a pôs de baixo do braço. A comandante se despediu dos dois amigos com acenos animados, e Leona a imitou. Levi não deu tchau para ninguém. O capitão já havia saído e aguardava do lado de fora, deixando as despedidas a cargo de Hange.
Os três seguiram a pé. Iriam para a casa de Hange ter um almoço de verdade e largar Leona com a babá. Dali, seguiriam para o quartel a fim de analisar os documentos recém entregues e marcar uma reunião com a Capital para falar sobre Hizuru e a família Azumabito.
A nação asiática se uniria a eles, e assim Paradis não estaria mais sozinha no meio dos tubarões. Será que mais aliados viriam no futuro? Hange se esforçaria para tal. Paradis ia mostrar ao mundo a sua grandiosidade. A nação eldiana igualaria sua tecnologia a dos outros países, faria comércio, importaria e exportaria produtos. Quem sabe, num futuro não tão distante, pudessem abrir a ilha para turismo. Sonhos distantes, porém não inalcançáveis.
— Mãe.
Leona arrancou Hange de seus devaneios. A comandante baixou a cabeça sem precisar virá-la para dar o olho bom à filha – Leona sempre andava a sua direita.
— Sim?
— A pele do senhor Onypon é muito bonita, você não acha?
Essa pergunta não era novidade. Leona não podia ver o senhor Onypon sem levantar a questão da cor da pele. Onyankopon era o único negro que Leona conhecia. Hange respondeu o de sempre:
— Acho.
Leona ficou quieta, imersa em seus próprios pensamentos de criança. Seguiram em silêncio por um tempo, e então Leona suspirou uma coisa que Hange e Levi não souberam se foi um pensamento alto ou uma pergunta sincera.
— Eu me pergunto se existem mulheres tão bonitas como o senhor Onypon.
— É claro que existem mulheres negras, Bolinha.
— É mesmo, mãe? E quando elas vão vir para cá? Quero conhecê-las.
Leona começou a falar animadamente sobre conhecer pessoas novas. Hange entrou na conversa de cabeça e as duas foram papeando sobre o quão maravilhoso seria receber pessoas de outras etnias na ilha. Levi, encucado pela pergunta de Leona, se questionou se Hange tinha enxergado o mesmo que ele — o detalhe sobre a pessoalidade de Leona camuflado na pergunta inocente. Por fim, Levi concluiu que era coisa da sua cabeça.
Os três não perceberam o beco ao lado da calçada. Seguiram andando sem olhar para o lado. Na passagem escura, as latas de lixo erguiam-se ordenadas. As tampas encaixadas ocultavam o lixo por baixo e amenizavam o cheiro. Não havia uma única sujeirinha no chão.
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