Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
32 Em constante evolução
O ano letivo começou. Leona mal aguentava a vontade de estrear os cadernos novos, conhecer os professores e brincar com os amiguinhos no recreio. Contudo, Hange tinha planos um pouquinho diferentes para o futuro escolar de Leona, e por dias estendeu-se a discussão sobre a matrícula.
Segundo os argumentos de Hange, Leona tinha plena capacidade de acompanhar o aprendizado das crianças de oito anos. Porém, Leona não queria saber de estudar com os irmãos mais velhos dos vizinhos. Desejava ter aula com as crianças da sua idade, sobretudo os amigos do bairro. Eles vinham sonhando com a escola; até já definiram as duplas para os trabalhinhos escolares. Hange levantou a questão da conclusão do ensino fundamental, tentando convencê-la dizendo que Leona terminaria a escola mais cedo caso estudasse numa série avançada. Não funcionou. Leona se manteve firme em suas vontades infantis.
Através de imploração e promessas de ser a melhor estudante do mundo, Leona conseguiu convencer Hange a matricula-la na primeira série. Hange não queria ver Leona pegar ranço do estudo logo no primeiro ano de aula. Além disso, talvez fosse melhor reforçar os laços de amizade de sua filha permitindo-a estudar com as crianças com quem convivia. O presente está aí para ser vivido. O futuro chega independente do agora, mas os seis anos de Leona não retornarão.
Sendo assim, Minnie teve o serviço dispensado na parte da manhã. Leona passou a ser acordada pela mãe ao nascer do sol. Enquanto Leona usava o banheiro, Hange preparava o leite com biscoitos, ou mingau, ou pão. As duas comiam juntas e saiam juntas; Leona para a escola e a Hange para o trabalho.
A garotinha encarou a mudança com diversão e otimismo. Leona adorava encontrar seus amigos na aula, atazanar o professor e fazer os trabalhinhos. Leona era a única da turma que sabia ler e escrever. Ela adorava exibir suas habilidades de leitura, inclusive quando não solicitado.
No entanto, como é comum a todos os novos estilos de vida, o colégio caiu na rotina. Mais ou menos no terceiro mês de aula, atazanar o professor perdeu a graça, ler na frente da turma já não era tão divertido, e conviver com os amigos quatro horas por dia deixou de ser uma alegria constante. Nem sempre Leona queria brincar, e o mesmo se aplicava às outras crianças. No fim das contas, assim como eu e você, Leona descobriu que não gostava tanto da escola.
Os dias tempestuosos viraram os favoritos, pois sua mãe a deixava ficar em casa. Mas só se a tempestade fosse muito forte, do tipo "vai arrebentar o telhado da casa". Num geral, Hange era severa quanto a presença, embora as crianças nada ganhassem por comparecer às aulas além de... bom... aula. Leona ia à escola todos os dias, e uma vez que estivesse lá na frente, era obrigada a entrar.
A escola não permitia que os alunos entrassem após o badalar do sino. A mãe tinha passado os últimos dias na Capital discutindo sobre a ferrovia. Como Hange chegou tarde da viagem, acabou dormindo demais e ambas perderam o horário. A forma como Hange encarava o portão fechado, com a mão esfregando o queixo e o olhar duro nas janelas da escola, indicava o funcionamento das engrenagens daquele cérebro engenhoso. Hange tramava algum jeito de enfiar a filha na escola.
Leona encarou a mãe de soslaio e fez desenhos na areia com a pontinha do sapato. Despertou sozinha naquela manhã e permaneceu deitada fingindo dormir, desejando que a mãe esquecesse da escola. Contudo, a Santa não atendeu as suas preces. Hange entrou no quarto feito um furacão, enfiou um pão na boca da filha e a mandou se apressar. Bem, a correria não adiantou nada. Que pena.
— Poxa, mãe, vamos ter que voltar pra casa.
— De jeito nenhum. — Respondeu Hange, impassível.
— Mas o portão está fechado.
— E daí? Bolinha, eu trabalho para a Tropa de Exploração — não existem muros na minha vida. Ah! Tive uma ideia.
Hange arrastou Leona pelo pulso. A mãe tinha pernas longas, era difícil acompanhar sua passada larga e veloz. Rodearam a escola até os fundos, onde ficava o pátio. Somente titãs conseguiriam saltar aquele muro imenso. Entretanto, a dificuldade da missão não abalou Hange. A comandante comemorou ao encontrar árvores tão altas quanto as paredes rodeando a escola.
— Espere aqui.
— Mãe!
Hange não ouviu ou ignorou. A comandante correu até a árvore mais encorpada e saltou no tronco. O queixo de Leona caiu. Sua mãe sabia exatamente onde segurar e quanto peso podia colocar nos galhos. Era mais habilidosa que os garotos de doze anos. Leona ficou desorbitada ao descobrir o talento da mãe. É incrível como você pode conviver com uma pessoa a vida inteira e nunca a conhecer cem por cento.
— Bolinha, dá pra pular. Vem, sobe aqui.
— Eu não sei subir em árvores.
— Vou te ensinar. Segura ali. Não, aí não, aqui.
Por cerca de dez minutos, os fundos da escola foi tomado por tombos, reclamações infantis e gargalhadas adultas. Hange, montada num galho forte e ocasionalmente afastando os insetos, ditava instruções para a menininha lá em baixo. Em certo momento, Leona quase conseguiu, mas errou a mão e desabou. Hange estava mais atrasada do que nunca para o trabalho, porém não parecia se importar tanto quanto antes.
— Ai, filhotinho, você é um zero à esquerda para escaladas.
— Para de rir, mãe. — Leona sentou nas raízes da árvore. — Vou tirar o sapato.
— Ótima ideia.
Leona se encontrava num estado tão esfrangalhado que a confundiriam com uma menina de rua. Os antebraços nus ardiam por causa dos arranhões vermelhos. A bermuda estava suja das múltiplas quedas e a frente da camisa ficou imunda por ter abraçado o tronco da árvore. Leona tirou os sapatos e a mochila, os largando perto do muro.
A ausência do peso da bolsa deixou Leona ágil. Ela recomeçou a escalada, atenta às orientações certeiras de Hange. Os pés nus tinham mais aderência que o sapato liso. Leona olhou para baixo e se surpreendeu com o quão longe havia ido. Se caísse agora, sairia dali com os dois braços quebrados. A súbita consciência agitou o coraçãozinho jovem. Leona fechou os olhos e se agarrou ao tronco. O medo a teria dominado caso a mulher lá em cima não tivesse dito:
— Vem aqui.
Leona abriu os olhos devagar, e ao erguê-los viu uma mão estendida. Hange sorria, não um sorriso doce e tranquilizador, mas a risada jovial e brincalhona de uma criança ajudando outra numa travessura secreta. Um único puxão bastou para Leona subir no galho onde a mãe a esperava.
— Te peguei!
No entanto, aquela era apenas a primeira etapa da missão. Em segundos Leona via-se atravessando o galho de gatinhas, arrastando os joelhos a passo de tartaruga, e batendo os dentes de medo. A mãe, sua torcedora fiel, a encorajava incansavelmente. Leona olhava para o chão distante, tendo certeza de que iria direto para o hospital caso caísse. Conforme avançava à linha de chegada, o medo se esvaia para dar lugar à satisfação de concluir uma tarefa difícil.
Ambas comemoraram quando Leona sentou nos tijolos do muro. A alegria não durou. Leona olhou para baixo e engoliu em seco. O banco do pátio parecia um brinquedinho visto daquela altura. Subir foi facinho; e para descer? Hange respondeu essa dúvida com ações. Sem mais nem menos, a comandante empurrou Leona.
— Anda logo, medrosa.
Nem deu tempo de gritar. Leona caiu de cara no chão, com os braços esticados e as pernas para o ar.
— Cuidado com a cabeça, filhotinho.
Leona não tomou cuidado com a cabeça. A mochila a atingiu em cheio. A menina gritou um "MANHÊ" furioso e abraçou a cabeça dolorida, gemendo e torcendo os dedinhos dos pés. A dor da pancada serviu para desviar sua atenção dos joelhos ralados e da bochecha arranhada. Os sapatos vieram logo depois, e dessa vez Leona desviou dos projéteis.
— Se a diretora perguntar, diga que você teve um ataque de diarreia.
Berrou Hange do outro lado do muro. Leona ainda não tinha o filtro do bom senso desenvolvido o suficiente para sentir constrangimento pelas besteiras que sua mãe falava em público.
— Vou dizer, mãe. — Gritou Leona, sacudindo a poeira da roupa. — Amo você.
— Também amo você. Até mais tarde.
Mãe e filha se encontraram antes do meio-dia, quando a aula de Leona terminou. Em tempos passados, Hange ia para o quartel e só voltava depois das cinco da tarde, de vez em quando às seis. Segundo Hange, não dava tempo de almoçar em casa por causa do horário apertado. No entanto, a nova rotina mostrou que o expediente não passava de uma desculpinha para a comandante viciada em trabalho usar o horário do almoço para realizar experimentos no laboratório.
Dava tempo de ir a pé do quartel até a escola, pegar Leona, almoçar e voltar ao quartel andando. Entretanto, a personalidade extrovertida de Hange era a sua pior inimiga. No caminho para casa, Hange parava cada vez que encontrava um conhecido e conversava pelo menos por cinco minutos, independentemente dos protestos de sua filha faminta e do ronco da própria barriga.
Por conseguinte, quando chegavam em casa, Hange engolia os alimentos inteiros e saia correndo porta a fora, algumas vezes até esquecendo de se despedir da babá e da filha. Por sorte, não comiam comida fria, pois Minnie, que chegava às onze para fazer o almoço, estava habituada com o regresso tardio de sua empregadora.
Hange poderia acrescentar dez pratas na diária de Minnie para a babá buscar Leona na escola. O acréscimo não doeria no bolso de Hange e com certeza faria o da babá muito feliz. Todavia, Hange queria levar e buscar Leona nos primeiros meses para acompanhar de perto a adaptação da filha.
Hange fez amizade com as mães de todos os colegas de Leona. Como algumas eram suas vizinhas, em certos dias – os raros em que chegavam em casa antes do meio-dia e meia – Hange ia conversando com as outras mulheres, enquanto os seus respectivos filhos brincavam logo a frente. Leona era sociável como a mãe; não havia uma única criança em Trost com quem não tivesse feito amizade.
Leona se ajustou à rotina da escola e Hange com a nova etapa de sua filha. Leona era independente. A menina gostava de fazer as atividades do dia a dia por si mesma, e a ocupação aflorou a predestinação à autossuficiência. Em pouco tempo Hange não precisou mais acordar Leona. Quando brincava com os amiguinhos no caminho para casa, Leona era sempre a criança mais afastada, e instigava todas as outras a correrem atrás dela.
Leona, óbvio, não é a única pessoa extrovertida do planeta, e na escola não existem apenas crianças de seis anos. Os meninos e as meninas das outras turmas fizeram amizade com os amigos de Leona, e então estes garotos foram apresentados à Leona, e ela ficou amiga deles. Os irmãos desses também passaram a fazer parte do grupo social. Leona tinha uma teia de camaradas tão extensa quanto um politico famoso.
Quando a neve secou, Leona tinha amigos na escola inteira. Da primeira série até a quarta, não havia uma única turma que não conhecesse, pelo menos de vista, a filha da comandante da Tropa de Exploração, título este que a deixava imune a qualquer valentão ou valentona. Mais ou menos nessa época, Leona começou a voltar com os amigos e as mães deles, enquanto a sua ficava para trás conversando com os conhecidos. Leona não esperava Hange para o almoço.
Hange incentivava a autonomia de Leona. A comandante conhecia as crianças e as outras mães, e não obstante, confiava em seu filhotinho. Hange passou a vir almoçar sem buscá-la na escola, dizendo logo pela manhã "ei, não posso pegar você, volte com os vizinhos". Em duas semanas, Hange parou de almoçar em casa. Leona voltava da escola todos os dias com os amigos, crianças eufóricas pela liberdade.
Leona se acostumou rápido a voltar sem a mãe. Desse modo, você deve imaginar a surpresa quando ela saiu da escola naquele dia e encontrou não apenas Hange, como também o senhor Levi, no portão do colégio. A dupla se destacava pelo uniforme militar e pela montaria. Lucy e Buck aguardavam ao lado dos donos. Lucy, como sempre, mansa e paciente. Já Buck batia o casco na terra, ansioso para galopar.
As crianças olhavam maravilhadas. Os cavalos da Tropa de Exploração praticavam exercícios diariamente mesmo não havendo mais expedições, e eram alimentados com a melhor ração das muralhas. O pelo negro e lustroso de Lucy brilhava, e o desenho perfeito dos músculos de Buck se destacavam por sob a pelagem colorada. Dava para ver nas carinhas abismadas a vontade de tocar nos animais, desejo este freado pela cara assustadora do senhor Levi.
Leona correu até Hange, a cumprimentando desde longe. Hange a recebeu de braços abertos. Os vizinhos de Leona a acompanharam. Peter, o filho do dono da mercearia, olhou Lucy com admiração.
— Puxa, eu nunca vi cavalos tão bonitos.
Também vieram Otto, Rebeca e Kenny. As crianças pararam numa distância segura — mais por medo do animal de duas patas chamado Levi do que dos quadrupedes. Por sorte, Hange estava ali. A comandante segurou as rédeas de Buck e bateu no pescoço do cavalo.
— Quem quer tocar no Buck?
As crianças gritaram EU em uníssono. Hange olhou Levi de soslaio. Levi estalou a língua. Hange apertou as sobrancelhas. Levi revirou os olhos, bufou e puxou Lucy. Levi não se importava em deixar as crianças tocarem na égua, seu problema era com a multidão em volta. Até as professoras vieram conferir o motivo da permanência dos alunos.
— Diana! — Leona pôs a mão em concha ao lado da boca e acenou para uma garotinha em companhia da avó. — Olha o cavalo da minha mãe como é bonito.
Diana viu os cavalos e se escondeu atrás da avó, morrendo de medo. A mulher riu, cumprimentou Hange e saiu com Diana grudada em seu braço. Leona deixou as mãos caírem ao lado do corpo, desapontada. Poxa, cavalos são bonzinhos.
— Chega de farra. Vamos logo, Hange.
A rispidez de Levi afastou as crianças. Os amigos de Leona se despediram com acenos e promessas de brincadeiras. Levi montou em Lucy e Hange pôs o pé no estribo para subir em Buck, entretanto Leona a impediu.
— Mãe, deixa eu montar sozinha?
Leona não tinha feito sete anos ainda, mas já montava os cavalos da Tropa de Exploração. Não todos; os animais eram treinados para estar em constante estado de alerta. Não eram bichos fáceis de controlar. Leona só montava em Buck, Lucy e Frufru (a égua de Armin).
Buck bufou impaciente à sua maneira equina. Levi se perguntava o que se passava na cabeça de Hange para confiar Leona àquele animal demente e ansioso. No entanto, ao contrário do que Levi achava, Hange não tinha segurança em deixar Leona conduzir Buck pela cidade. Em campo aberto é uma coisa. No distrito, aonde há circulação de pessoas, carroças e animais menores, é outra história.
— Levi, você deixa a Leona ir na Lucy?
— Eu quero ir no Buck.
— Ainda não, Bolinha, só quando você tiver mais prática.
Lucy, o oposto de seu amigo equino, era calma tal qual a água de um balde. É até curioso um homem irascível ser o dono de um animal tão manso. Levi desmontou. Hange ajudou Leona a subir em Lucy e ajustou a altura dos estribos.
Os militares montaram em Buck, Hange na frente e Levi atrás da sela. A comandante sorriu de canto e provocou:
— Está enxergando alguma coisa, Levi?
— Só um monte de cabelo oleoso e fedorento.
Leona riu e Hange fez beicinho – seu tiro saiu pela culatra.
— Para onde vamos, mãe?
— Para a ferroviária.
Leona agitou as rédeas de Lucy. Em seguida, Hange chutou os flancos de Buck. O cavalo iniciou trote e Hange o controlou apertando as rédeas. Levi aproveitou a posição para abraçar Hange, apertando-a até escutar um gemido de dor.
— A única vantagem de cavalgar assim é que posso amassar você.
— Tenta não me esmagar.
— Não prometo nada.
Levi impôs distância, deixando espaço entre os corpos e cruzando os braços. Alcançaram Lucy. Leona sorriu para os adultos. A menina cavalgava ereta e de cabeça erguida, com pose imperial. "Olhem só, estou montando um cavalo da Tropa de Exploração", dizia o rostinho orgulhoso.
— Por que nós vamos na ferroviária?
— Vão inaugurar a obra hoje, filhotinho.
— Nós vamos andar de trem?! — Leona se agitou.
Hange assentiu. Lucy e Buck giraram as orelhas quando Leona gritou de empolgação. A menina ergueu os punhos, socando o ar.
— QUE LEGAL! QUE LEGAL!
— Leona, para de gritar. — Ralhou Levi. — Você vai estourar os tímpanos de todo mundo.
Hange fitou Leona pelo cantinho do olho, e deu um sorriso ardiloso compreendido de imediato pela filha. Aproveitando o fim dos limites da escola e a larga rua que se estendia à frente, Hange chutou os flancos de Buck. Levi não esperava o aumento de velocidade. O capitão estabilizou o equilíbrio agarrando o uniforme de Hange.
A comandante saiu uivando. As pessoas aproveitando o calor do meio-dia nos quintais das casas encararam Hange como se ela fosse uma louca fugindo do hospício, e alguns moradores abriram a porta de casa a fim de conferir se a mulher gritona não estava correndo perigo. Ao verem que era só uma demente varrida berrando à troco de nada, realizavam gestos de desdém e voltavam para dentro. Levi, vermelho de vergonha, abaixou o rosto.
Leona imitava o comportamento escandaloso da mãe, anunciando "EU VOU ANDAR DE TREM! EU VOU ANDAR DE TREM!" e pondo-se em pé nos estribos. Levi teve um ataque cardíaco ao vislumbrar Leona despencando de Lucy, batendo a cabeça e morrendo. E depois teve uma parada respiratória ao constatar a semelhança de Leona com o pai, pois Erwin, no calor das batalhas, se levantava nos estribos de Neve e clamava ordens aos soldados naquela voz grave e potente que podia ser ouvida até pelo militar mais distante do batalhão. A nostalgia durou pelos três segundos que Leona aguentou em pé nos estribos.
Hange reprimia a velocidade de Buck puxando as rédeas e firmando os pés na barriga do cavalo. Lucy, percebendo o controle exercido sobre Buck e reparando em seu cavaleiro oficial montado no outro animal, entendeu que seu papel ali era de seguidora. A égua ignorou os comandos de Leona para aumentar a velocidade, se mantendo no passo de Buck.
XXX
Civis curiosos pularam o almoço para se aglomerar ao redor da estação ferroviária a fim de ver a máquina monstruosa adormecida nos trilhos ser posta em movimento. Os policiais controlavam a entrada. Apenas marleyanos convidados, a Capital e militares selecionados podiam entrar.
Perto dali algum espertinho construiu um bar com uma pequena estrebaria anexada. Hange parou no estabelecimento e entregou quatro moedas ao cavalariço. Leona visitou a estação apenas uma vez, bem no comecinho da obra. Não imaginava que naquele espaço feio de terra fosse nascer uma construção tão esplêndida. A locomotiva, uma máquina negra que soltava uma fumaça igualmente preta pela chaminé dourada, deixou seu estômago gelado. Se o trem já era assustador do lado de fora, imagina no de dentro!
Peaure e Roy, os jornalistas do antigo jornal Berg, agora chamado Folha de Paradis, foram os primeiros a avistar os militares. Peaure, o repórter jovem, cumprimentou a dupla. Roy o acompanhava com uma caderneta de anotações. Anos atrás, Peaure quem anotava as entrevistas. Pelo visto, inverteram os papéis de chefe e assistente.
— Comandante Hange, capitão Levi! O que acham da ferrovia?
Peaure falava em voz casual, como se estivesse jogando conversa fora e não realizando uma entrevista. Hange falou com o jornalista de bom grado. Levi a acompanhou a contragosto.
— Aqui está o fruto de um belíssimo trabalho em equipe, Peaure. Trabalhar com os engenheiros marleyanos é sempre um prazer.
— É verdade que as obras foram apressadas, comandante? Por quê?
Perguntou Peaure no mesmo tom informal, escondendo a armadilha nas entrelinhas da pergunta. A ferrovia começava em Trost, atravessava a muralha Maria – aonde outra estação foi construída – e terminava no porto. A viagem durava cerca de uma hora, meia para sair das muralhas e meia para chegar no oceano. A inauguração estava prevista para janeiro. Entretanto, por causa dos Azumabitos, a Capital pressionou os engenheiros a entregarem a obra a tempo de recebê-los. Faça chuva, faça sol, vento ou neve, a ferrovia devia estar pronta antes de setembro.
As negociações com Hizuru eram segredo do Estado. Antes de Leona nascer, Hange ajudou a derrubar o governo tirano e prometeu, sem exceções, apresentar a verdade à população cuja história foi forjada. Agora, via-se na posição de mentirosa. Bem, às vezes, é necessário omitir informações. Era mais seguro tanto para o povo quanto para os Azumabitos.
— Eu não usaria a palavra apressada. Agilizada é mais adequado. O deslocamento até o porto sempre foi um problema pertinente. Nós vimos que era possível terminar a ferrovia antes da data prevista e resolvemos levar o plano adiante.
Hange escolheu aquela desculpa esfarrapada porque não sabia o que os engenheiros, os empregados e a Capital diriam ou tinham dito aos jornalistas. Roy anotou as palavras vazias de Hange sem expressar emoção. Peaure teve menos facilidade em esconder a decepção.
Então, Peaure percebeu a presença da garotinha loira carregando a bolsa transversal da escola. Hange passava o braço protetoramente nos ombros da filha, descansando o pulso nas clavículas da menina. Peaure e Roy conheciam a história de Leona, mas nunca tinham visto a filha de Erwin pessoalmente.
— É a sua menina?
Leona abriu a boca sorridente para cumprimentar os jornalistas. Hange cobriu os lábios dela com a mesma mão que outrora a abraçava.
— Menina? Que menina? — Hange olhou os arredores em aparente confusão, coçando a cabeça. — Não estou vendo menina nenhuma. Você está, Levi?
— Eu acho que esses dois caras ficaram loucos de tanto mexer com letras. Estão vendo assombrações.
Na verdade, Leona não deveria estar ali. A estreia do comboio fora restrita aos nobres da Capital, à rainha, aos marleyanos que participaram do projeto, aos comandantes das quatro divisões do exército e subordinados selecionados a dedo. Nem aos generais foi permitido o direito de levar alguém da família. Hange achou essa regra absurda.
Os jornalistas piscaram transtornados ante o delírio dos militares. Hange e Levi não deram tempo para os repórteres notarem a associação. Saíram andando a passos rápidos, com Hange cobrindo a boca de Leona.
— Bolinha, não diga nada.
Sussurrou Hange antes de alcançarem a plataforma. Não foi difícil passar pelo policial. Hange só precisou agir com segurança e atrair a atenção do homem para si, tagarelando do seu jeito habitual. Levi ajudou bastante com os insultos gratuitos. Os dois compartilharam um olhar divertido depois de atravessarem a catraca.
— Como você se sente sendo uma criminosa, filhotinho?
— Não entendi.
Hange explicou sobre a regra quebrada. O autocontrole de Leona desapareceu. A discrição gerada pelo comportamento casual sumiu. Tentando não chamar atenção, Leona começou a andar muito perto da mãe, usando o braço dela para cobrir o rosto, como se isso a deixasse menos visível. Hange deu risada da atuação da filha.
Não tinham visão do trem, apenas dos vagões longos e retangulares de bordas arredondadas. Lembravam as latas de sardinha que a ilha passou a comercializar nos últimos meses. Hange e Levi se colocaram perto da porta do primeiro vagão. Havia uma linha amarela delimitando a distância segura; Leona ficou o tempo tentada a atravessá-la. Os vagões foram abertos em cinco minutos.
Os dois adultos já tinham visto o interior do comboio através de fotografias. Contudo, cara a cara é uma experiência diferente. Hange e Levi perderam o ar ao contemplarem as poltronas acolchoadas, o piso liso de madeira escura, e as grossas cortinas verde-água. Os assentos eram posicionados em pares, um de frente para o outro, e tinham uma mesa no centro.
Aqueles vagões eram os especiais. Ou seja, nele viajavam apenas nobres, generais, militares de alta patente e visitantes. No caso, seriam usados para levar e trazer os Azumabitos. Outros vagões de passageiro foram construídos para o dia a dia dos trabalhadores, futuros usuários da ferrovia. Estes eram simples e bem menos espaçosos, além de comportarem mais pessoas.
Levi puxou Leona e Hange para uma mesa longe das portas e do banheiro, onde não chamariam atenção. Leona sentou na janela, Levi sentou na outra poltrona e Hange escolheu o lugar do lado da filha.
— Bolinha, senta no meu colo, assim nós três podemos ir na janela.
Leona olhou para Hange como se a mãe estivesse doida. O que pensariam os seus amiguinhos da escola se a vissem no colo da mãe? A garotinha afundou no banco, pôs a mão na testa, balançou a cabeça e reclamou, numa voz muito baixa:
— Mãe, eu já vou fazer sete anos. Não me envergonha.
Hange ficou sem palavras ante a rejeição, sobretudo porque Leona gostava de colo entre quatro paredes. Por que desprezar o amor da mãe em público? Ora, Hange a envergonhava em quê? A comandante transferiu essa pergunta para o capitão, e viu Levi comprimindo a boca de maneira pouco habitual. O desgraçado dava risada às escondidas.
— Tudo bem, Leona, não vou "envergonhar" você. Levi, troca de lugar comigo. — Viajar na janela se transformou num caso de vida ou morte. — A gente inverte na volta.
Hange passou por Levi e sentou na janela. A comandante apoiou o cotovelo na mesa e mirou o vidro, dando o tapa-olho à Leona ao virar a cara. Levi, tentando não rir, acariciou a mão de Hange por baixo da mesa. O gesto acalmou o coração chateado da comandante.
Leona afastou a cortina para olhar o mundo lá fora. Escolheram os assentos contrários à estação, de forma que a paisagem consistia nos outros três trilhos da ferroviária. Eram quatro; dois de ida e dois de volta. A estação de desembarque estava deserta.
O resto dos convidados ocuparam os demais assentos. Conversas animadas substituíram o silêncio, a maioria composta por vozes masculinas. O apito da locomotiva anunciou a partida. Os telespectadores externos aplaudiram a saída do titã de aço, como o trem ficou conhecido entre o povo.
Leona se ajoelhou no banco, exultante por assistir a cidade passando diante de seus olhos. Os adultos paravam para ver o trem em movimento, os cavalos relinchavam de susto e crianças montadas em bicicletas perseguiam a locomotiva. Leona via os rostos de relance. O trem ia numa velocidade absurda, muito mais rápido que qualquer carruagem.
Não demorou para a locomotiva alcançar a liberdade para lá das muralhas, aquela que a Tropa de Exploração lutou para conquistar. O campo substituiu a paisagem urbana. Mesmo já conhecendo a vista, Hange e Levi suspiraram. Admiraram as árvores, os lagos, e o céu daquele mundo que construíam para Leona e as outras crianças eldianas.
O estômago de Levi tremia. Não de fome, apesar de ser hora do almoço. Andar de trem não era como andar de carruagem. A força da aceleração fez o seu papel. Levi sentiu náuseas. Chegava a ser cômico; o soldado mais forte da humanidade enjoado numa viagem de trenzinho. Foi mesmo uma decisão inteligente inaugurar a ferrovia na hora do almoço. Não tem como vomitar de estômago vazio.
— Você está bem?
Questionou Hange em tom preocupado. Nisso, Levi descobriu seus dedos suando entre os dela. O capitão resmungou, deitou o rosto no ombro da comandante e fechou os olhos, tentando se acostumar à velocidade do trem e ao barulho grave e constante emitido pelas rodas, que as conversas animadas dos passageiros não abafavam. Hange apertou a mão do capitão e se voltou para a janela outra vez. Vamos chegar no porto em meia hora, pensou Hange, quatro horas transformada em uma. Entretanto, dentro da máquina fumacenta não dava para sentir o vento, nem os raios solares, tampouco fazer uma paradinha e admirar o pôr do sol do alto do morro. Embora reconhecesse as perdas, Hange não deixava de sentir orgulho. O seu país tinha um futuro promissor pela frente, e o progresso avançava na velocidade da locomotiva.
XXX
A locomotiva chegou na estação litorânea em meia hora. Levi encheu os pulmões de ar puro, se sentindo aliviado por estar livre daquela caixa de sapatos barulhenta. Hange e Leona vieram atrás. A garotinha pulava e falava sem parar sobre sua adoração pelo trem, declarando estar vivendo o melhor dia da sua vida.
A estação do porto era maior e toda fechadinha, protegendo até mesmo os trens do mal tempo. Isso foi estratégico, porque o porto e a estação eram a porta de entrada de Paradis para quem vinha do mar. Eles eram, digamos assim, o tapetinho fofo de boas-vindas. Levi imaginava que nem a futura estação da Capital fosse ser tão bem-feita quanto a do mar.
Levi avistou o esquadrão 104 e Floch logo adiante. Os jovens desciam do segundo vagão de passageiros. Leona correu para cumprimenta-los. Os soldados se surpreenderam ao verem a criança penetra.
— Bolinha!? Como você passou pelos policiais?
— Minha mãe me ajudou! — Leona rodopiava. — Vocês gostaram do trem? Nossa! Eu amei, amei, amei! Ele fazia assim chu chu chu chu. E o apitinho assim piuiiii piuiiii. — Leona arrastou os pés no chão e andou em círculos imitando o barulho do trem. — E eu fiquei assim UAAAAU.— Leona colocou as mãos nas bochechas e escancarou a boca numa cara de admiração exagerada. — Aí eu fui na janela, né, e pela Santa dava para ver as árvores a cidade os lagos os animais as pessoas as casas e eu dizia assim MINHA NOSSA QUE LINDO QUE LINDO QUE LINDO.
Um papagaio no cio faria menos escândalo. A garotinha realizava gestos amplos que expressavam o seu júbilo, pulava e berrava, tão agitada que nada poderia fazer se não descontar essa alegria. Os adultos foram contagiados pela felicidade infantil, e até Eren sorriu. Leona, porém, não contava com uma risada estranha entre as dos seus amigos do quartel, e quando a dona do riso falou com ela, toda a descontração de Leona foi por água abaixo.
— Que bom que você gostou da locomotiva, Bolinha. Eu também posso te chamar de Bolinha?
— Pode, todos me chamam assim e
Tagarelava Leona enquanto girava para ver quem falava consigo. Se viu diante de uma mulher pequena de cabelo loiro preso num coque elegante. A mulher vestia uniforme militar, e em seu pescoço pendia uma medalha vermelha. Porém, o que paralisou Leona foi a coroa dourada sobre a cabeça da moça.
Aquela mulher era a rainha Historia. Leona a conhecia das histórias da mãe e das fotos no jornal. A mulher sorria sem mostrar os dentes, doce e cordial. A boca emudecida de Leona continuou se mexendo. Leona sempre tinha uma resposta na ponta da língua, e agora nada tinha para dizer. A menina se transformou num tomate grande e vermelho. Como puderam deixa-la gritar e fazer todas aquelas besteiras na frente da RAINHA?! E agora? Com que cara a cumprimentava?
— Vossa majestade, acho que a senhorita quebrou a minha filha.
Hange coçou a nuca e arqueou a sobrancelha. Leona estava arrepiada tal qual um gato de rua ao se deparar com outro no telhado. A rainha e os militares riram. As risadas despertaram Leona. Rápida como um raio, a menina deu um pulo e bateu continência. Droga, esse não é o gesto correto. Estendeu a mão para a rainha. Não, Leona, não! Por fim, Leona curvou o corpo abrupta e exageradamente, quase encostando o nariz no chão.
— Nossa majestade! Digo, vossa majestade. Meu nome é Leona Zöe Smith. Estou às suas ordens.
— Como você é educada, pequena Zöe Smith. Ei, pode levantar a cabeça agora.
Leona ergueu o corpo enrijecido, com os braços colados no corpo e os olhinhos fixos no rosto da nobre.
— Como você cresceu. Eu só vi você uma vez, sabia? Você era desse tamanhozinho. — Historia espaçou as mãos até o tamanho de um bebê. — Você era tão fofinha, e agora olhem só! Que menina grande e bonita você é.
O elogio e a voz amorosa foram demais para Leona. A menina embaraçada fugiu para trás de Hange e escondeu o rosto vermelho no uniforme da mãe, desejando se materializar no tecido. Isso arrancou mais risadas dos adultos. Bem, o senhor Levi não riu. Leona gostava disso no senhor Levi. Ele nunca ria dela.
Hange limpou a lágrima por baixo dos óculos, e usou a mão livre para dar batidinhas nas costas da menina constrangida. Leona não costumava agir assim na frente dos adultos, timidez não fazia parte do vocabulário daquela criança. Contudo, quando os adultos em questão são os generais da Capital ou os nobres, Leona se mostrava cortês, educada e inteligente, para que pensassem que ela é tão respeitável e honrada quanto a mãe comandante.
— Não precisa ficar com vergonha, filhotinho. A rainha não morde.
A resposta de Leona foi um choramingo. A menina viu a rainha por apenas um olho. Historia sorria, e seus olhos grandes e azuis brilhavam para Leona tanto quanto a coroa real. A menina se sobressaltou só de vê-la. Nesse momento, Armin, querendo mudar de assunto e também desviar a atenção de Leona, perguntou à Sasha:
— Ei, aonde está o Connie?
— Ele disse que ia no banheiro.
— Até agora? — Jean arqueou a sobrancelha.
— Lá vem ele. — Eren apontou com o polegar.
O soldado cambaleante veio tampando a boca com uma mão e segurando a barriga com a outra. Connie tentou acenar; no momento em que afastou a mão da boca, as bochechas inflaram e os olhos quase pularam das órbitas. Connie avançou na lixeira da estação e vomitou emitindo sons esgoelados. Os soldados e a rainha caíram na gargalhada. Leona meneou a cabeça para conferir o motivo da graça e também riu de Connie. Levi, por sua vez, ficou aliviado ao descobrir que não era o único retardado passando mal.
— Bem, foi um prazer conversar com vocês. Vou fazer o meu discurso. Até depois.
— Essas coisas de rainha parecem um pé no saco. — Desdenhou Jean.
— Com certeza são. Eu preferiria ficar aqui de bobeira com vocês.
Historia abraçou os amigos. Hange também precisava estar presente no discurso – a presença dos comandantes era obrigatória. Hange deixou Leona com Levi e acompanhou a rainha até o pequeno palco construído de última hora. Os demais foram atrás, e em pouco tempo uma multidão mediana se fez na frente da estação. O maquinista dirigiu o trem até o palco. A locomotiva devia atuar como plano de fundo da cerimônia.
Historia foi para o palanque. Os comandantes e os generais fizeram uma linha horizontal atrás da rainha. O escriba se colocou em seu lugar, preparado para transcrever o discurso. Peaure e Roy, que vieram junto no comboio para fazer a reportagem, fotografavam o palco e anotavam as partes principais da ocasião.
— Boa tarde, cidadãos de Paradis e amigos forasteiros. Hoje damos mais um passo em direção ao progresso. Tenho o prazer de inaugurar a nossa ferrovia, que foi construída com muito suor e trabalho duro. Quero agradecer a todos...
Os militares da Tropa de Exploração se encontravam na retaguarda do público. Leona tentava enxergar, mais querendo ver a mãe do que assistir a cerimônia. Ela alongou o corpo, se apoiando na pontinha dos pés e esticando o pescoço.
— Não consigo ver nada.
Leona pôs as mãos na cintura e franziu as sobrancelhas para as costas dos adultos. Levi sentiu pena.
— Quer subir nos meus ombros?
— Mesmo assim não vai dar pra ver, senhor Levi. — Leona respondeu no automático e se arrependeu.
— O que você disse?
Queria só ver se Leona teria colhões para repetir a insolência. Por sorte, Jean agiu primeiro.
— Eu resolvo isso.
O soldado pôs Leona nos ombros. Jean media quase dois metros de altura. Agora, Leona tinha uma vista privilegiada do palco. Avistou sua mãe paradinha com as mãos atrás da cintura. Leona acenou para ela. Hange a viu, no entanto nada pode fazer além de sorrir.
A rainha continuou falando ininterruptamente por vinte minutos. Em certo ponto, o general Zackly tomou a palavra. O discurso do velho durou quase meia hora. Por último, foi a vez do marleyano que coordenou a construção. O forasteiro falou por apenas três minutos, e sua fala teve como ruído de fundo o falatório da multidão. Os eldianos não queriam saber daquele bla-bla-bla estrangeiro.
A essa altura, Leona estava mais para lá do que para cá. O estômago da menina roncava. Na verdade, todos os presentes reclamavam de fome. O sol cozinhava a cabeça dos pobres coitados sem chapéu. Leona, morta de fome, de calor e de sono, serviu de chapéu para Jean, pois, cansada de ficar ereta, deitou na cabeça do rapaz.
A curta fala do marleyano findou os discursos. Contudo, a cerimônia não havia terminado. Faltavam as fotos. Lá na frente, o general Zackly assoviou e fez gesto de "vem aqui" para Eren. O dito cujo dormia em pé, babando pelo canto da boca aberta. Floch deu uma cutucada no amigo. Eren acordou num ronco atrapalhado.
— Ah, sim. — Eren não teve a decência de controlar o bocejo. — Os fãs clamam pelo meu nome.
E lá se foi ele naquele ritmo desleixado e irritante, algo meio "estou de saco cheio dessa merda". Eren deu a volta na locomotiva e continuou andando para longe dos trilhos. Levi se virou para Jean. Leona estava molenga feito uma boneca de pano, e os olhinhos sonolentos lutavam para se manterem abertos.
— Melhor coloca-la no chão, Jean.
— Por quê?
— Você não está vendo que o Eren vai se transformar?
Embora o título de titã mais poderoso coubesse à Armin, o de queridinho do povo pertencia à Eren. O titã de ataque virou um símbolo paradisiano. Em todo lugar via-se a sua imagem associada à força e à esperança. Sendo uma figura tão ilustre, sua presença era requisitada nas fotografias sobre os registros históricos do progresso de Paradis. Essa foto iria para o jornal do dia seguinte, e mais tarde enviada ao museu.
— E daí? — Jean levantou a cabeça para a menininha em seus ombros. — A Bolinha não vai ficar com medo, não é?
— Não. — Leona despertou. — Eu sou corajosa.
Leona nunca tinha visto um titã. Tirando Jeffrey e Dahmer, claro. Todavia, naquela época Leona sequer sabia andar. Levi conhecia Leona bem o suficiente para duvidar da valentia infantil. O capitão fingiu dar de ombros e desviou o olhar para o rosto cinzento da locomotiva.
— Faça como quiser. Se ela mijar no seu pescoço, o problema é todo seu.
As palavras rudes surtiram efeito. Jean decidiu que não valia a pena correr o risco. Leona, por outro lado, se ofendeu. Para a informação do senhor Levi, ela não fazia xixi nas calças desde os quatro anos.
Leona bem que tentou dizer isso em voz alta, no entanto, a explosão cortou qualquer palavra. A força do estrondo agitou o vento e levantou a areia. As pessoas, contudo, nada fizeram se não olhar na direção onde o raio brilhante caiu. Do meio da poeira, surgiu um monstro gigantesco. O marleyano no palco tremeu da cabeça aos pés. O maquinista, também de Marley, sentou no cantinho da cabine do trem, abraçou a própria cabeça e orou.
Os eldianos observavam o titã de ataque em silêncio. Os que usavam chapéu retiraram o acessório e o colocaram no peito. Alguns começaram a rezar para a Santa protetora das muralhas. Olhavam a criatura a mesma exímia admiração com que encaravam a bandeira de Paradis na hora do hino, como se estivessem diante de um ser divino.
Em contrapartida, Leona não sentiu nada além de pavor. A menina se transformou em dois olhos esbugalhados. Esqueceu da fome, do sono e de respirar. Focava-se nos pontos verdes que eram os olhos do monstro, e a semelhança com os de Eren não a acalmou. Na verdade, saber quem era o homem por trás do bicho lhe trouxe mais horror. Os dentes afiados na mandíbula sem lábios lhe gelaram a espinha. O monstro de um homem que ameaçou furar o seu olho com um lápis não hesitaria em brincar de morder.
Esse pensamento afrouxou a bexiga de Leona, e por muito pouco a praga de Levi não pegou. Sentiu falta da mãe, e correu em busca da segurança dos braços dela. Se estivesse no colo da mãe, Eren não ousaria em lhe fazer mal. Entretanto, o senhor Levi a segurou pela traseira do colarinho da camisa.
— Senhor Levi, me solta! — Suplicou em desespero. As próximas palavras saíram numa voz mirrada e três vezes mais infantil. — Eu quero a minha mãe.
— Ora, seu bebê chorão.
Não era a intenção de Levi soar grosseiro, mas a predestinação agressiva sempre acabava sendo mais forte. Lágrimas grossas rolaram pelo rosto de Leona. A menina tentou correr até o palco sem se importar se ia rasgar a camisa. Levi estalou a língua.
— Calma, pirralha mimada.
A essa altura, Eren colocava-se de joelhos do lado da locomotiva, e se abaixava para a cabeça aterrorizante ficar na altura do trem. Peaure se posicionou de forma a enquadrar o rosto do titã na câmera, enquanto Roy gritava mais-pra-lá-mais-pra-cá-por-favor. Os eldianos saudavam o titã com uivos e palmas, assim abafando o choro da criança.
Levi sentou sobre os calcanhares (se indignando um pouquinho porque Leona acabou um ou dois centímetros mais alta). Levi segurou Leona perto do corpo, e então apontou para o marleyano no palco; o coitado suava frio.
— Veja só aquele cagão. Está se borrando de medo. E ele é um homem adulto.
Levi tentou soar agradável, porém a voz saiu inexpressiva. Pelo menos, conseguiu fazer a garotinha rir. Leona enxugou as lágrimas.
— E de qualquer forma, o doente dentro daquele bicho também é um cagão. É só o Eren, Leona, não precisa ter medo.
— É justamente por ser o Eren que eu fiquei com medo, senhor Levi.
Disse a menina num sussurro, como se contasse um segredo íntimo. Durante o primeiro aninho de Leona, Eren se mostrou um rapaz distante e medroso; ele nem encostava na bebê por medo de machucá-la. Em contrapartida, bastou Leona alcançar idade para aguentar dois ou três tapas que Eren se transformou num animal. Dentre todos os adultos do círculo social de Leona, Eren era o mais propenso a criar brincadeirinhas brutas, pregar pegadinhas e dar sustos. É claro, Hange e os outros soldados sabiam que Eren nunca faria mal a um fio de cabelo de Leona. Contudo, a criança não sabia disso — as coisas são diferentes quando vistas do ponto de vista da vítima, independentemente de ser uma brincadeirinha ou uma agressão verdadeira.
— Não se preocupe, eu dou um peteleco naquele nariz feio se ele chegar perto de você.
— O senhor teria coragem? — Perguntou Leona, surpresa.
— Pergunte ao Eren quantas vezes eu já o chutei. — Levi aproximou a boca do ouvido de Leona, e sussurrou em sua voz sem emoção: — O rabo dele é cheio de calos de tanto chute que já levou de mim.
A risada espontânea aqueceu o coração do capitão. Ele aproveitou a distração de Leona para sorrir de canto. A menina não precisava mais de sua ajuda. Levi se levantou e a deixou solta. Leona não tentou fugir. Agora, tendo certeza que ninguém lhe faria mal, pôde compartilhar do entusiasmo dos adultos. Leona se juntou aos nobres e saudou o titã.
XXX
A locomotiva voltou para a estação e as pessoas se acomodaram nos vagões; esfomeadas, porém exultantes. Levi, Hange e Leona sentaram no mesmo jogo de assentos da ida, onde a bolsa de Leona jazia esquecida. Levi sentou no corredor – não queria viajar na janela e correr o risco de passar mal. Hange sentou no outro banco. Leona surpreendeu os dois escolhendo o colo da mãe.
— Huh? Pensei que eu envergonhasse você.
A mágoa na voz de Hange não era fingida. A resposta de Leona foi uma risada sem-graça. A menina deitou a cabeça no peito dela. Hange, superando o ressentimento, sorriu de canto e puxou as pernas da filha para cima do banco, a instruindo a tirar os sapatos – coisa que Leona fez de bom grado.
— Era só brincadeirinha, mãe.
— Sei.
Hange a beijou, e Leona retribuiu o gesto de carinho. A locomotiva apitou. As rodas do trem ganharam velocidade. Hange acomodou a cabeça no encosto da poltrona e mirou a janela, assistindo os navios atracados no porto.
— Você ficou com medo do titã, filhotinho?
— Um pouquinho só. Tiquinho de nada. — Mentiu Leona, dando de ombros. Em seguida, ela se contorceu no colo de Hange e apertou o estômago. — Estou morrendo de fome.
— Eu também. A gente vai almoçar num restaurante, o que acha? Aquele que serve frango assado. — Hange beijou o cabelo da filha, e depois ergueu o olhar para Levi. — Vamos nós três.
Leona comemorou com um "oba!" cansado, e então relaxou de vez nos braços de Hange. A menina conseguia ver o campo pela janela da outra extremidade porque os ocupantes do assento, dois nobres jovens, escolheram sentar no mesmo banco, assim deixando a vista da janela livre. O movimento da locomotiva embalou Leona. Ela começou a contar as árvores. Adormeceu em poucos segundos.
Hange tirou os óculos e os largou na mesa entre as poltronas. Mirou a garotinha adormecida. De fato, Leona estava um pouquinho grande demais para viajar assim. Em meses, Hange não aguentaria o peso dela. Dessa maneira, tratou de aproveitar o presente. Amassou o filhotinho, beijando o rostinho sereno duas, três, quatro vezes, até Leona resmungar e se esconder em seu peito.
A comandante levantou a cabeça e descobriu Levi a observando com aquela cara de peixe-morto. Hange riu entredentes e indicou o espaço vazio ao seu lado. Ela achou que Levi não viria, mas o capitão veio.
— Aquilo que você fez foi muito legal. — Murmurou Hange. — Eu não pensei que a Leona fosse se assustar tanto. Às vezes esqueço que nem todo mundo gosta de titãs.
— Você viu? — Levi arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Eu ouvi ela chorando. Quis sair correndo.
— Ouviu ela chorar mesmo daquela distância?
Hange sorriu sem mostrar os dentes e apertou a filha, fazendo a garotinha se encolher.
— Heh, acho que desenvolvi habilidades sobre-humanas por causa dessa criaturinha.
— Você sempre foi uma super-humana, Hange.
Hange virou o rosto para dar o olho bom ao capitão, genuinamente surpresa.
— A magnífica super-puta. — Complementou Levi.
Hange não esperava por esse coice. A comandante sorriu, revirou o olho e deixou Levi no ponto cego.
— Isso lá é coisa que se diga? Corno imbecil.
— Estou aqui para dizer a verdade e somente a verdade. — Levi mudou de assunto. — Bem, não foi nada, quatro-olhos.
— Ainda não me disse por quê.
— Precisa de um motivo?
— Vindo de você...
— Idiota.
Levi ralhou num sussurro furioso. Hange riu baixinho, dando a conversa por terminada. Levi cruzou os braços na mesa, apoiou a cabeça neles e mirou o rosto de Hange iluminado pelo sol da janela. A comandante tinha um sorriso doce nos lábios cerrados. O capitão viu Leona expressando a mesma tranquilidade, imersa em um sonho bom, ou num sono sem sonhos.
Na verdade, Levi tinha sim uma resposta concreta para dar à Hange, mas a personalidade introvertida falava mais alto do que o desejo de expressar seus sentimentos. Ele nunca foi bom com essa coisa de falar. Bastava ver a luta para se confessar à Hange. Talvez nunca tivessem iniciado aquele relacionamento se não fosse a iniciativa da comandante.
Levi se ergueu. Hange, percebendo que o capitão tinha algo a dizer, virou a cabeça e olhou com curiosidade. Levi coçou a nuca, e falou sem olhar no olho dela.
— Você não estava presente, e naquele momento a Leona precisava da mãe... ou de um pai.
O capitão esperava ver espanto, assombro, gratidão, admiração ou graça na cara de Hange. No entanto, o que Levi recebeu foi um sorriso largo, gentil e compreensivo. Ela sabia, pensou Levi, sentindo o rosto esquentar.
Hange o beijou na bochecha. Levi meneou a cabeça. Hange entendeu a mensagem e o beijou na boca – um beijo rápido, pouco mais do que um selinho. No fim do gesto, Hange se encostou no capitão. Leona acordou, apoiou os pés na coxa de Levi e voltou a dormir. Por fim, os três se acomodaram juntos, e seguiram assim até o fim da viagem.
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