Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
6 Testemunha
Notas iniciais
Hange despertou com uma leve dor de cabeça. A futura comandante da Tropa de Exploração espreguiçou o corpo até os pés aparecerem por baixo do cobertor pesado, sentindo-se bem apesar do pequeno desconforto entre as pernas, que não era de todo desagradável. Ela tocou na própria intimidade e descobriu-a úmida do próprio orgasmo, e do de outra pessoa também.
Não demorou para encontrar o travesseiro encharcado e a boca seca, além de uma dor arranhada na garganta. Ela sentia um desconforto dormente no braço, fruto de uma má posição na hora de dormir, e os cabelos castanhos apontando para várias direções diferentes eram mais uma confirmação da noite de sono turbulenta.
— Que pesadelo longo.
E era verdade. Hange tinha a sensação de ter dormido por dezessete semanas em vez de apenas oito horas. Como é típico dos sonhos, a tenente não lembrava de quase nada, mas sabia que o pesadelo tinha algo a ver com gravidez, que era um dos seus maiores medos e também o de muitas outras mulheres por aí.
Ela saiu da cama coçando a traseira dolorida e agradecendo por estar acordada. Tomada por essa felicidade genuína, assobiava enquanto caminhava descalça para o banheiro, rebolando o quadril ao som da música. O sol brilhava lá fora, tudo estava em seu devido lugar. Era um ótimo dia para se estar viva, mesmo com a expedição perigosa que fariam daqui algumas horas.
No banheiro, Hange tirou a roupa sem pressa, sonhadoramente, assistindo um pássaro azul muito familiar bicar a pequena janelinha acima da banheira como se o próprio reflexo fosse um inimigo mortal. Batendo no vidro daquele jeito, até dava para confundir com um pedido para entrar no quartel.
O armário na parede era daqueles com espelho. Ela olhou para a mulher de cabelo bagunçado e cílios longos com uma cicatriz de guerra no lugar do olho esquerdo, e sorriu. A racionalidade é uma das muitas características que diferenciam seres humanos do passarinho atacando a janela. Diferente do animal, Hange sabia que aquela moça no espelho não era uma inimiga, mas uma cópia de si mesma.
A tenente pertencia ao grupo de pessoas que acham inútil escovar os dentes na pia quando se vai tomar banho, portanto, pegou a escova de dentes objetivando lavar a boca com a água da banheira. O reflexo passou despercebido quando ela fechou a portinha, já o pássaro continuava bicando o seu na janela, travando uma batalha mortal contra a ave que era tão semelhante a ele próprio.
— Você não vai conseguir nada com isso.
A escova de dentes bateu duas vezes no chão e saiu rolando quando Hange a deixou cair. O bico granívoro do pássaro havia se transformado numa coisa pontuda pesada demais para que o pequeno animal pudesse aguentar, então, como não conseguia mais espetar o vidro, golpeava-o com o corpo. As penas voavam conforme o pássaro batia as asas violentamente, piando de dor a cada pancada. Tão logo apareceu uma rachadura no vidro, e não ia demorar para que fosse transformada num buraco grande o bastante para o anômalo passar.
A tenente pisou na escova de dentes ao andar para trás, incapaz de desviar o olhar daquele pássaro cujo bico tanto se parecia com uma agulha de tricô. Ao fazer essa constatação, foi atacada por uma cólica tão aguda que a fez dobrar o corpo agarrada ao próprio ventre. A dor aumentava em compasso com as batidas no vidro, profunda ao ponto da tenente ranger os dentes. Ela encolheu até se transformar numa bola minúscula encostada no canto da parede, só não adentrando os tijolos por ser fisicamente impossível. A cólica a consumia como se pequenas espadas a rasgassem de dentro para fora. A febre queimava, fazendo-a suar deliberadamente por todos os poros enquanto ignorava a respiração para focar-se em controlar a dor. O sangue parou nas veias e Hange sentiu que ia desmaiar, no entanto, a tontura momentânea passou no mesmo segundo em que uma coisa molhada de cheiro ferruginoso vazou do meio das pernas bambas.
— Pare!
Ela suplicou; para a dor ou para o animal na janela, não sabia dizer. Com um último impulso, o pássaro atravessou o vidro.
Carne e penugem ficaram presas nas lanças pontiagudas quando a ave passou aos trancos e barrancos, sangrando pelos ferimentos tanto quanto a mulher no canto do aposento, cujo corpo tremia agachado numa poça. O pássaro despencou na sua própria desgraça, lutando para ficar em pé, caiu três vezes até conseguir manter-se nas duas patas.
A mulher encolhida abriu a boca para gritar por ajuda, mas o que saiu foi uma longa e sôfrega lamentação a qual seu visitante mostrou-se totalmente desinteressado, limitando-se a encarar a tenente com o olhar apático típico das aves. O bico estalou quando o pássaro abriu a boca penosamente, encarando a mulher com a indiferença perigosa de um juiz que chega a um veredito, e a voz da agulha pontiaguda que sibilou o nome da comandante era humana.
— Comandante Hange, você
está aí dentro?
Hange puxou o ar ao encontrar o teto do quarto. Acordou deitada com os braços abertos e o abdômen inchado para cima, as axilas suando e os dedos molhados agarrados ao lençol. As bicadas do pesadelo transformaram-se em batidas numa superfície amadeirada que ela entendeu virem de fora da realidade do pesadelo.
A comandante levantou com uma mão segurando a cabeça dolorida e a outra acariciando a barriga para acalmar a criatura agitada lá dentro, que aparentemente também teve uma noite conturbada. Hange não sabia se fetos sonhavam, mas, se sim, o seu acabara de ter um pesadelo, talvez ainda estivesse preso em um.
— Estou aqui, o que foi?
Falou com a têmpora apoiada na porta, soando sonolenta e mal-humorada. O bebê estava atirado em cima da bexiga, fazendo a mulher que o carregava ficar com uma vontade louca de mijar.
— Você me pediu para acordá-la nesse horário. – O homem do lado de fora respondeu.
— Ah, é mesmo, tinha esquecido.
— Precisa de mais alguma coisa?
— Não, é só isso, obrigada.
Hange se afastou da porta quando os passos do soldado ficaram distantes. O feto finalmente sossegou e o desconforto na cabeça começava a se dissipar até não restar nada além da lembrança da dor, que logo seria esquecida.
A rotina se desenrolou igual ao pesadelo bizarro que tivera, com exceção do pássaro e da cólica. Ao olhar no espelho, se deparou com uma mulher de cabelo bagunçado, cílios longos e uma cicatriz de guerra no lugar do olho esquerdo. Seu reflexo era igual todas as vezes que encontrava alguma coisa que refletia imagem, como água e metal, no entanto, naquela manhã, quase não reconheceu a moça cansada presa no armário.
Enquanto enchia a banheira, Hange reparou que a luz solar entrava através do vidro da pequena janela, mostrando que o céu nublado da noite anterior não era pressagio de chuva, afinal.
XXX
Quatro horas depois Hange acordar do pesadelo com pássaros e agulhas, um grupo de três soldados passava pela Tropa Estacionária. Os guardas, que eram os mesmos da manhã de ontem, puseram a segunda assinatura em cada uma das três folhas que os membro da equipe traziam. Desses nove documentos, três ficaram com os vigias e os outros seis voltaram com os soldados, cada um com duas. E, quando os militares perguntaram o que o capitão carregava no gordo saco preto, tiveram que se contentar com uma resposta genérica.
— É assunto da Tropa de Exploração.
No quartel-general, o time foi desfeito e os soldados foram resolver suas vidas. Levi guardou o saco muito bem amarrado em seu quarto, colocando-o propositalmente perto da janela aberta, na área que o sol da manhã iluminava.
Usando três permissões assinadas — cada uma pertencente a um militar que participou do resgate — como pretexto para visitar Hange, Levi atravessou o corredor em direção ao escritório. No entanto, não recebeu resposta em nenhuma das oito vezes que solicitou entrada. Ao girar a maçaneta, não ouviu o clique audível da fechadura cedendo.
Estalando a língua, Levi abandonou o corredor e foi até o laboratório, que também estava trancado. Visitou o refeitório, a biblioteca, o pátio, a enfermaria, os estábulos e, por fim, o dormitório de Hange, sem encontrar a dita cuja em nenhum desses lugares.
Após zanzar pelo quartel-general feito uma barata tonta, Levi, que a essa altura tinha um filhotinho de ansiedade pendurado no ombro, abordou o primeiro soldado que encontrou pelo caminho, um adolescente ruivo de olhos castanhos.
— Floch, você viu a Hange?
— Ela saiu cedo da manhã, capitão.
— Aonde ela foi?
Floch respondeu que a comandante havia desaparecido sem dar detalhes de onde ia ou o cunho da saída, limitando-se a avisar que tinha algo importante para fazer no centro e não devia voltar antes das quatro da tarde.
Na última vez que Levi havia olhado no relógio, o ponteiro pequeno mal encostava no número onze.
O capitão agradeceu pela informação e resolveu ir matar tempo em sua própria sala, antes passando no refeitório para pegar uma xícara de chá. O filhote de ansiedade já havia evoluído para um monstro gigante, e quando o relógio marcou dez para as quatro, os dentes da besta apunhalaram o controle emocional do capitão. Hange regressou vinte minutos depois do previsto e Levi, dando tempo para ela chegar com tranquilidade, esperou mais uma hora antes de procura-la.
XXX
O moreno esperou a confirmação para abrir a porta do laboratório. Encontrou Hange em sua “mesa de operações”, como ela costumava chamar, tratando um lança-trovões com defeito. A comandante trajava roupas comuns, mas o largo e protetor sobretudo permanecia perto, pendurado nas costas da cadeira.
— Oi, Hange. Vim trazer as permissões assinadas.
— Pode deixar aí, depois eu arquivo.
Ela respondeu com displicência, sem desviar o foco do lança-trovões. Levi colocou as folhas na mesa do laboratório e demorou-se um pouco naquela posição, dobrando a pontinha da página do topo enquanto engolia em seco.
— Hange... como você está?
Como não tinha olho esquerdo, a comandante precisava girar a cabeça para olhar em certas direções, e esse era um daqueles casos onde não bastaria estreitar o olho remanente para encarar a pessoa que falava com ela.
Todavia, Hange escolheu manter Levi em seu ponto cego.
— “Aguentando”.
Levi comprimiu os lábios e sentiu as bochechas ficarem quentes. Quis desviar o olhar constrangido, mas manteve a cabeça erguida. Ele foi até a comandante e ela nada fez para impedi-lo, ainda que também não mostrasse contentamento, manifestando uma espécie de tolerância contida. Sem receber a expulsão oficial, o capitão puxou uma cadeira e se colocou numa distância confortável, para caso a amiga quisesse espaço.
— Eu errei, não devia ter xingado você, me perdoa?
Caso um dia ocorra a casualidade de você quebrar a perna de alguém que você ama – seja sem querer ou propositalmente – e se arrepender, não será estranho você se jogar aos pés feridos dessa pessoa implorando remissão, e há altas chances que esse tal indivíduo, por gostar muito de você, o perdoe. No entanto, a perna continuará quebrada, e pode ser que leve um longo tempo para sarar. Além disso, há a possibilidade dela não voltar a funcionar como antes e a pessoa que você machucou manque pelo resto da vida; e, mesmo que no futuro esse tal sujeito esqueça a razão da deficiência, o caminhar continuará debilitado.
O olhar conformado que Levi recebeu de Hange tinha esse significado. Em silêncio, ela dizia que já o havia perdoado antes mesmo dele pedir desculpas, no entanto, as feridas permaneciam abertas e ainda não tinham data para curar.
— Tudo bem. No fim, você só falou a verdade. – Hange tentou sorrir e não conseguiu.
— Eu acho que te devo uma explicação.
A comandante assentiu, concordando com as palavras do capitão. Ela continuava trabalhando no lança-trovões. Pelo lugar onde enfiava a chave de fenda, o problema estava no recipiente onde colocavam pólvora. Levi juntou as mãos uma na outra, roçando as falanges enquanto buscava a melhor maneira de começar aquela conversa. No fim, decidiu que ser direto era a melhor opção. Ele e Hange eram melhores amigos, não precisava dar voltinhas.
— Erwin e eu dormíamos juntos.
A chave de fenda parou e o olho castanho da comandante cresceu até ficar do dobro do tamanho. Hange largou as ferramentas na mesa com um som metálico audível e virou o rosto pálido, sem vestígio de mágoa, para Levi. As palavras saíram balbuciadas até ela conseguir formar uma frase completa.
— Então foi por isso que você ficou bravo! — Ela cobriu o rosto vermelho com a mão, constrangida. — Ai, Levi, me desculpe! Eu não sabia, de verdade!
— Não se preocupe, não foi sua culpa.
Hange suspirou longamente e encostou as costas na cadeira com os braços estendidos aos lados do corpo, bufando. Ela balançava a cabeça negativamente com uma expressão desorientada que logo deu lugar à frustação.
— Foi por isso que ele fez cu doce no começo. Mas por que resolveu ceder?
— Então... por onde posso começar?
Levi discursou por mais de uma hora sobre o comportamento inapetente de Erwin para com todas as coisas que costumavam alegrá-lo, desde a luz do sol até a companhia dos amigos, sem omitir a parte do loiro recusar até o capitão com quem dormia. Contou sobre a briga que tiveram naquela noite por causa desse comportamento que julgava ser pura arrogância, sem esconder os diversos erros que ambos cometeram até o fatídico desentendimento nem a forma como evitou Erwin após a ocasião. Então, relatou a indiferença do comandante em relação à identidade do assassino do próprio pai, o remorso que o destruía de dentro para fora, e, finalmente, confessou à Hange sobre a paz que iluminou o rosto de Erwin quando ele foi, por fim, liberto das correntes invisíveis que o mantinham dentro daquela fantasia de homem cruel em que ele mesmo havia se colocado.
Hange, sucessora de Erwin e mãe do seu futuro filho ou filha, uma mulher que amava falar e muitas vezes interrompia os outros por acidente, ouviu a conversa sem dizer uma única palavra, reagindo com assentimentos e caras concentradas ou de espanto quando o capitão narrava certos detalhes, muitos dois quais ela também não havia reparado.
— Eu não fazia ideia que o Erwin estava passando por tantos problemas. Poxa, e pensar que uma pessoa tão perto de nós estava doente assim, e nenhum de nós percebeu...
O aspecto reflexivo mostrava que parte dela não se encontrava naquele aposento, mas em um lugar distante para além dos limites do capitão. Sobre a relação carnal que os dois tiveram, Levi não considerou que a amiga fosse ficar magoada com o loiro ou pensar que foi usada, e, realmente, Hange não achou isso. A cientista procurou o comandante exclusivamente para diversão sem compromisso, ou seja, não nutria nenhum sentimento romântico em relação ao loiro. Não tinha motivos para ficar chateada.
A não ser, é claro, que a fonte da raiva fosse pelo capitão, que era o seu melhor amigo. Ela não ia esconder sua opinião em relação ao tormento que Levi passou por causa de Erwin, pouco importando o comandante não estar mais entre eles.
— Mas, olha, foi muita babaquice da parte dele não ter sido claro com você sobre a relação que vocês tinham. Ele foi um tremendo idiota em preferir te evitar a contar os problemas dele. E, é claro, não devia ter ficado comigo.
Levi limitou-se a suspirar. A postura do moreno não mostrava rancor nem infelicidade, mas a aceitação mansa de alguém que superou um determinado assunto que não precisa mais ser discutido. A resposta curta saiu numa voz cansada e condescendente.
— Hange, o Erwin era tão humano quanto eu e você.
Levi havia errado muitas vezes durante a vida, incluindo duas noites atrás, quando brigou com Hange num momento em que ela precisava dele, e, assim como o capitão, a comandante também cometeu inúmeros erros naqueles trinta e três anos, inclusive, tinha um crescendo no ventre. Não é preciso conhecer a dupla para saber que várias dessas falhas acabaram magoando outras pessoas, muitas as quais nada tinham a ver com os infortúnios. Errar faz parte da natureza humana. Inevitavelmente, uma ação nossa vai chatear outras pessoas, mesmo que jamais tivéssemos a intenção de machucar alguém. Isso sem falar das vezes em que sequer tínhamos noção de estarmos falhando.
Para escapar dos erros é preciso fugir da sociabilidade, e uma eficaz forma de fazer isso é trancando-se numa bolha. No entanto, saiba que vai totalmente contra o que diz o comportamento natural dos seres humanos, que são animais sociáveis por natureza. Por mais que uma vida sem mágoas, maldade, ansiedade, falhas, rejeição e desespero seja extremamente tentadora, negar os defeitos das relações humanas significa não se permitir viver momentos de alegria, amor, carinho e diversão, e isso, como você já pode bem ter descoberto, é negar-se a viver.
Sendo assim, a curta resposta de Levi bastou para que a mulher sentada entendesse o ponto daquela discussão, e a forma como Hange trancou a respiração, baixou o olhar e envolveu a barriga, reforçou sua compreensão para com a opinião do capitão.
— Você tem razão. As pessoas erram, não tem o que fazer. E também, não tem como a gente saber o que estava passando na cabeça do Erwin.
O moreno aquiesceu. O olhar calmo desceu para a protuberância no abdômen da amiga, e ele perguntou, num timbre muito delicado:
— Você já sabe o que vai fazer?
Suspirando, Hange meneou a cabeça na direção da outra mesa de laboratório a alguns metros de distância, onde dispunha os produtos químicos para experiências. Uma pasta e um saco de papel pardo descansavam perto dos frascos laboratoriais. Os olhos de Levi perguntaram à Hange se podia ver o conteúdo e ela balançou a cabeça, emudecida. Os óculos ficaram brancos quando ela abaixou a cabeça, impedindo o capitão de encará-la diretamente.
Na pasta, Levi encontrou um atestado médico o qual não deu atenção uma vez que já sabia a "enfermidade" de Hange. A segunda página, no entanto, lhe era estranha; se tratava de uma intimação judicial no nome da comandante, e o alvo era a farmácia do centro do distrito.
— Você vai processar a farmácia?
Hange havia retornado ao lança-trovões estragado, mais para matar tempo do que por vontade de consertá-lo.
— Vou, eles me venderam um remédio errado. Sabe-se lá quantas aqueles caras enganaram.
Levi não conhecia essa parte da história, e ficar sabendo clareou muito a mente do capitão em relação ao problema de Hange. Esquecendo a pasta e passando para o pacote, encontrou cinco frascos de diferentes tamanhos, três contendo comprimidos e dois remédios líquidos. Levi dispôs os medicamentos um por um na mesa do laboratório e os observou com espanto, o quarto frasco, por exemplo, tinha pílulas tão gigantes que o moreno se perguntou como alguém conseguia ingerir aquilo sem engasgar.
Reconheceu o segundo recipiente como o antibiótico para doenças respiratórias que precisou tomar na infância. Levi lembrava de ter ficado com uma dor de estômago péssima que quase não compensava o funcionamento perfeito do pulmão, sendo o medicamento tão agressivo que precisava toma-lo de estômago cheio (e pra arrumar comida?) ou acabava vomitando. Mesmo sem ter a mínima noção do caráter dos outros remédios, Levi imaginava que eram tão violentos quanto.
— O que é tudo isso?
— É o coquetel que eu preciso tomar durante sete dias.
— O quê? — Ele girou o corpo para encará-la. — Hange, esses troços vão destruir o seu corpo!
Ela enterrou a face na arma em que estava trabalhando. Daquele ângulo era mais impossível ver o olhar escondido atrás dos óculos embaçados, mas ainda era capaz de enxergar as rugas da boca infeliz.
— É essa a intenção.
A face pálida de Levi tornou-se condolente. Mesmo distante, ele percebeu a ligeira tremedeira no canto da boca alheia, indicando que a comandante estava prestes a chorar. Ele avançou sem pensar, abraçando-a pela cabeça, e Hange abandonou o lança-trovões para envolver a cintura do capitão com os dois braços. A camisa preta ficou molhada em segundos e o capitão fez questão de remover os óculos da cientista para abraça-la com mais afinco, fazendo o rosto da mulher desaparecer em seus braços. Nunca foi bom com palavras, por isso ficou em silêncio enquanto Hange colocava a dor para a fora.
Quando morou na cidade subterrânea, Levi viu uma quantidade considerável de mulheres mortas em consequência de um aborto caseiro feito por elas mesmas, por outras mulheres ou namorados. O capitão não teve a oportunidade de ver a coisa toda nem o pós-operatório, tendo como vislumbre apenas olhadelas através de portas entreabertas quando a polícia militar vinha recolher os corpos. Ele compreendia a agressividade da operação e o risco que Hange corria mesmo com remédios para prepara-la e um médico capacitado na manipulação da arma pontiaguda usada no procedimento. Mesmo tendo condições para pagar – o que muitas mulheres em Paradis não tinham – ainda haviam chances de a amiga sair da operação com sequelas, e também, é claro, a possibilidade de Hange não voltar do hospital.
— Não tem o que fazer, Levi, eu não posso ter essa criança. Não posso, não posso!
— Eu sei.
O nariz sufocado da comandante apareceu pelo minúsculo espaço entre os braços de Levi, que a apertava com força ao ponto dela não conseguia respirar.
— Quer que eu durma com você? Pra caso você passe mal por causa dos remédios.
— Você faria isso?
— Claro.
Levi afrouxou o abraço e o olhar de ambos se encontrou. O capitão ficou grato quando Hange conseguiu dar um pequeno sorriso, e ele usou a manga da própria camisa para secar as lágrimas quentes. A comandante, imóvel, deixou que Levi fizesse o trabalho. Tomou a liberdade de alinhar o tapa-olho desmantelado com a cicatriz, como normalmente ficava; no entanto, por mais familiar que aquela fachada tivesse se tornado, não gostou nem um pouco do resultado.
— Posso tirar esse negócio?
— Pode.
O ferimento cicatrizado ficou exposto e ele não controlou a vontade de beijá-la no ponto cego, um jeito seu de dizer que a amava independente das cicatrizes que ela carregava, ou das coisas que ela fez no passado e ainda faria no futuro. Hange, surpresa, já havia parado de soluçar. Apesar do rosto inchado e o olho vermelho, ela parecia relativamente bem.
— Isso tudo é remorso?
Disse ela num tom ligeiramente cômico, tocando o lugar onde recebeu o beijo.
— Não fala merda, Hange. — Ele suavizou o cenho. — Tem mais alguma coisa que você precisa fazer?
— Sim, tem mais um remédio pra comprar.
— Outro?
— Bastante coisa, não? — Ela deu uma risada infeliz. — É um remédio a base de sene. Eles só vendem por encomenda porque tem data de validade curta.
— Quando você vai pegar?
— Eles disseram que vão mandar um mensageiro quando o remédio ficar pronto.
— Tem como você...
— Abortar sozinha?
— É.
— O médico disse que sim, se o meu b- se o feto já estiver doente. — Chamar a criatura de "bebê" significava humanizar. — Ele falou que esses medicamentos servem pra impedir o feto de crescer e pra deixar a placenta fraca, sabe, mais suscetível. Então, sim, tem chances del- digo, tem chances desse troço... — chamar de "ele" ou "ela" também era humanizar. — ...morrer no meio do caminho. Mas é difícil, o médico disse que a minha gestação é saudável.
Levi sentiu vontade de pedir para ela não dar tantos detalhes gráficos, mas, sendo cientista, Hange gostava de entender como as coisas funcionavam, mesmo quando se tratava de uma operação cruel e invasiva que ela própria faria daqui a pouco. Além disso, a comandante não só apreciava conhecimento como também amava passar conhecimento. Portanto, só dessa vez, resolveu deixa-la falar.
— O pré-tratamento dura uma semana porque os medicamentos estão na quantidade certa para não me estragar mais que o necessário. Sobre a operação... bom, é perigosa, a gente sabe. Mesmo assim, acho que saio dessa sem muitos efeitos colaterais. Eu já marquei. Mais tarde vou escrever uma carta para a capital pedindo para adiar nossa reunião.
Levi percebeu que embora se mantivesse otimista, Hange não pensava totalmente daquele jeito, dava para ver no jeito como ela torcia o lábio e em como voava de repente para longe do laboratório, perdida em pensamentos.
— Tomara.
Hange mudou de tópico nesse momento, não dando tempo para reflexões. Durante a transição de um assunto para o outro, o timbre preocupado desapareceu com a feição desatenta.
— Conseguiram trazer o Erwin de volta em segurança?
Antes da empreitada, Mikasa disse para Levi que ela e Connie contaram o plano à Hange, pois a comandante havia perguntado o motivo que levou o capitão a querer sair das muralhas. O capitão imaginava que a amiga não comentou do resgate com nenhum outro soldado, e estava certo.
— Sim. Não encontramos titãs dentro da muralha, acho que até o inverno estarão todos mortos.
— Que ótimo. E sobre o funeral?
— Vamos enterrá-lo assim que for possível. Vai ser um funeral simples só para nós e para a mãe do Erwin. Se você puder me passar o endereço dela, aliás. Você pode encontrar nos arquivos, não?
Hange concordou sobre a última parte da frase, mas tinha suas próprias observações para fazer sobre a realização da cerimônia.
— Você não vai convidar o pessoal da Capital?
— Não, e também não vou chamar o Nile nem o Pixis.
A comandante piscou, confusa.
— Eu até entendo você não chamar a Capital e o Pixis, mas o Nile e a esposa eram amigos do Erwin, eles podem ficar chateados de não terem sido chamados.
— O Bigodinho pode ficar de mal o quanto ele quiser, eu não dou a mínima.
Levi não demonstrou emoções ao ver a cientista gargalhar, mas uma chama quente cheia de carinho nasceu em seu coração ao vê-la rir mesmo naquela condição infeliz onde se encontrava, fruto daquela capacidade invejável de se adaptar às mais adversas situações, favoráveis ou não. Quando Hange parou de rir e abriu o olho, Levi buscou, sem motivo aparente, pelo brilho que a comandante sempre carregava naquele único botão castanho, e ficou aliviado ao encontrá-lo.
— Você não presta, Levi.
— Foda-se, não gosto dele.
Na verdade, Levi pretendia não convidar militares de outras divisões em consideração à Hange, para que eles não a incomodassem com questionamentos sobre gravidez. Mas, a cientista não precisava saber disso. Essa informação a deixaria constrangida.
— Está bem, está bem. — Ela ergueu as mãos abertas como quem pede calma. — Se precisar de alguma coisa, pode contar comigo.
Ele agradeceu ainda que não planejasse pedir ajuda para nada em relação ao funeral, ela já tinha problemas demais para lidar.
— Por enquanto só preciso do endereço da mãe do Erwin. Obrigado, Hange.
Levi levantou e Hange girou na cadeira para retornar ao trabalho no lança-trovões, já pegando a chave de fenda e uma outra ferramenta que Levi não conhecia. Estava chegando na porta quando a mulher chamou sua atenção uma última vez.
— Cuidado ao sair, Levi.
Levi olhou a face séria de Hange por cima do ombro com uma interrogação no rosto, e depois mirou a porta fechada, confuso sobre o quê exatamente era motivo de preocupação.
— Huh?
— O seu chifre pode bater.
Ele não esperava por essa resposta debochada e isso ficou nítido na face boquiaberta. Hange recomeçou a rir, agora risadinhas baixas cheias de sarcasmo. O lábio de Levi tremeu quando ele finalmente processou a piadinha de mal gosto, tão depreciativa que chegava a ser engraçada. Porém, não ia deixar Hange ver a sombra do seu sorriso, não mesmo.
— Pelo menos as minhas roupas ainda me servem.
Respondeu jorrando o mesmo veneno, parado na moldura da porta com os braços cruzados. Hange, fuxicando as engrenagens do lança-trovões, não olhou para ele.
— É? Experimenta colocar um chapéu.
O capitão deu as costas para a cientista não ver o sorriso pequeno que insistia em aparecer.
— Tomara que isso aí exploda e te mate, quatro-olhos de merda.
— Aawn, como você é fofo.
Levi estalou a língua ao fechar a porta, batendo-a de propósito. Hange, rindo sozinha, pegou o tapa-olho esquecido e o colocou de volta sob o lado esquerdo do rosto, cobrindo a cicatriz ainda sensível do beijo que recebeu do capitão.
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