Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)

28 O homem que você não conheceu


Levi olhou o relógio redondo na parede do salão. Duas horas se passaram. Para o capitão, pareciam ter sido dois dias. Nunca foi fã de situações sociais, formais então... ugh. Por conseguinte, eventos como aquele não eram de seu agrado. Levi morria de ódio de estar rodeado de rostos desconhecidos. Se estes rostos vierem acompanhados de esnobismo e egocentrismo, piorou. O capitão só queria dar adeus àquele bando de pau no cu. Partiu dele o convite para irem embora. Hange respondeu que ainda queria conversar mais um pouco, e pediu para Levi buscar Leona enquanto se despedia.

Levi foi pegar a filha de Hange no salão das crianças. Ao chegar lá, deparou-se com a cena revoltante. Encontrou as filhinhas de Nile e mais seis crianças interrogando Leona sobre a terrível vida sem pai. Levi não sabia o quanto do perguntas-e-respostas presenciou. O que viu, contudo, bastou.

Criar uma criança sem a figura paterna era uma das preocupações de Hange durante a gestação. Eventualmente, a comandante deixou esse problema para lá. Não há nada para se fazer além de ser pai e mãe. Hange fez um trabalho ótimo dentro dos seus limites. Leona foi um bebê amado e feliz, e se transformou numa criança amada e feliz. A falta de Erwin não afetava o desenvolvimento da filha de Hange. Já os terceiros... esses sim atrapalhavam.

Quando se é criança, até vestir a camisa do avesso por engano vira motivo para alguém ser feito de piada pelo resto do mês — às vezes essas brincadeirinhas deixam marcas permanentes. Cedo ou tarde, Leona enfrentaria situações desconcertantes por causa da falta do pai. Sabendo disso, Hange escolheu ser honesta. Desde bebê, Leona tem conhecimento sobre o pai e seu paradeiro. Leona já é independente por si só, e Hange reforçava esse comportamento a ensinando a se defender, seja através de palavras ou de socos. Graças à essa criação, Levi pôde ter a honra de presenciar aquela menininha de cinco anos impondo respeito sobre nove crianças. Ainda que tivesse terminado com elas em seu encalço, o importante era o comportamento sólido e inabalável. Leona se aborreceu sem deixar a mágoa entrar em seu coração.

Levi soube disso quando encontraram Hange. Àquela altura, Leona já tinha esquecido o conflito. Sequer imaginava o quão valente foi enfrentando os pirralhos curiosos.

— Mãe.

Hange esperava na saída do salão de festas. Leona saiu do lado de Levi e foi para o de Hange, querendo ficar pertinho da mãe. Hange passou a mão no cabelo da criança, aproveitando para ajeitar a franja bagunçada, mesmo sabendo que as mechas não permaneceriam no lugar.

— Gostou de brincar com as filhas do Nile?

— Não. São três chatas. E o pai delas é igualzinho.

Leona fez careta. Em resposta, Hange deu uma de suas gargalhadas potentes. Levi sorriu de canto. E assim o assunto deu-se por finalizado. Os três saíram da festa, viraram o corredor e desceram as escadas para chegar ao térreo, aonde a memória de Paradis os aguardava.

O espaço era dividido em salas. O tapete vermelho delineava o caminho por onde as pessoas deveriam seguir caso quisessem conferir a história de Paradis em ordem cronológica. Foram direto para a ala da Tropa de Exploração. Cordas delimitavam a distância máxima para se chegar perto das obras de arte. Os objetos antigos contavam histórias imortais. Passaram por um caderno encaixilhado em vidro. Leona leu o nome na placa: caderno de Ilse, o primeiro e único registro de um titã puro falante. Levi e Hange continuaram andando. Leona se apressou para alcança-los.

Pararam num ponto do tapete vermelho. Hange levantou a cabeça para a parede. Levi deu espaço para Leona passar. A menina se posicionou entre os dois adultos. O capitão também fitou a parede. Leona os imitou.

Emoldurada num quadro ornamentado, a pintura realista mostrava um homem da cintura para cima. Ele vestia o uniforme da Tropa de Exploração. A face inflexível encarava o espectador. De seu pescoço pendia uma medalha igual a da mãe de Leona. Dava para ver cada asinha do emblema da liberdade dentro do pequeno círculo.

Embora fosse uma figura inanimada, Leona se sentiu insignificante perante o homem – a formiguinha minúscula na unha do lobo. A severidade ausente carregava uma áurea de persuasão e infalibilidade. O brilho nos olhos azuis transmitia confiança. "Eu vou te dar uma ordem e você vai ir até o fim do mundo para cumpri-la", dizia a pose autoritária. Leona pegou-se pensando: sim, senhor. Engoliu em seco. Sentiu-se no dever de mostrar respeito à pintura. A contemplou em silêncio.

Na placa dizia: Erwin Smith, 13º comandante, trouxe a verdade ao povo paradisiano. Hange respirou fundo. Aquele homem era o seu antecessor e pai da sua filha. A imagem de Erwin, tão clara e nítida, congelou o estômago da atual comandante. Hange olhou o retrato por baixo dos cílios e pensou: Erwin, olhe para a nossa filha, ela está crescendo depressa. E olhe para o nosso país. Você sente orgulho de mim? A face de Erwin continuou dura.

Hange se afastou para ir até o livro a poucos centímetros da pintura, na parte esquerda do salão. O livro fora preso num palanque por correntes na contracapa dura. Levi buscou o olhar da comandante. Os dois tiveram uma breve conversa telepática, e depois Hange começou a folhear as páginas à procura de alguma coisa. Nisso, Levi e Leona ficaram sozinhos. O capitão pôs a mão no ombro da garotinha.

— Leona, esse homem é o seu pai.

Leona estremeceu. A boca se abriu numa exclamação muda. Olhou o senhor Levi e o retrato alternadamente. A percepção sobre a pintura mudava, e agora Leona reparava em detalhes antes irrelevantes. O cabelo do homem era do mesmo dourado do seu. Compartilhavam o formato dos olhos, com a diferença da cor da íris. Sua mãe vivia falando das sobrancelhas enormes de seu pai. Leona não tinha reparado nelas até então por estar focada na liderança natural imposta pela postura do homem. De fato, seu pai tinha umas sobrancelhas para lá de cabeludas.

A garotinha apoiou a frente do corpo nas cordas delimitando a distância. Ergueu a cabeça para olhar a pintura. Sem racionalizar, imitou a expressão austera do pai. Aqueles garotos irritantes precisavam ver esse quadro. Duvidava muito que os pais deles tivessem um retrato no museu.

— Meu pai era assim mesmo, senhor Levi? Ele tinha essa cara de mau?

Mau não era o adjetivo correto. Respeitável, digno, nobre, idealista, severo e persistente eram palavras melhores. No entanto, Leona desconhecia as múltiplas facetas do ser humano. Não sabia discernir as camadas profundas do bem e do mal, e por isso ficou em dúvida sobre o que pensar do pai. Ele a fazia se sentir pequena. Isso, na sua concepção infantil, era ruim. No entanto, o brilho nos olhos azuis passava esperança, e isso era algo bom. Estranho e ambíguo.

— Não. O artista deu uma exagerada no lado "comandante" do seu pai. Ele não era assim o tempo todo.

Levi, parado bem atrás da garotinha, olhava a pintura com sua clássica cara de tédio. Entretanto, por trás dos olhos cinzentos existiam sentimentos obscuros. Enquanto Leona refletia sobre as diversas sensações transmitidas pelo retrato, Levi se sentia julgado. Não fora capaz de compreender os problemas de Erwin; os pedidos mudos por socorro passaram despercebidos por Levi. Nem ao menos foi capaz de cumprir a última promessa feita ao falecido comandante. Quanto mais pensava nisso, mais pesado o olhar da pintura se tornava, como se o retrato fosse engoli-lo. Levi encolheu os ombros e estalou a língua. Maldito quadro. E maldito seja eu também. Sou um jumento retardado e cego, pensou Levi. Não se arrependia de ter deixado Erwin descansar e jamais o faria. Em contrapartida, possuía várias outras razões para se martirizar.

Leona jogou o tronco para trás, pendurando-se nas cordas. Viu o senhor Levi de cabeça para baixo. Apertou os lábios, intrigada. A cabecinha infantil matutava as palavras recentes. Sua mãe também trabalhava como comandante e não era... "séria" como seu pai. Hange não tinha cara de má.

— A minha mãe é comandante e não é assim.

— Ela é. Você nunca a viu em campo.

A garganta de Leona fez hummmm. Voltou a ficar em posição reta e procurou pela mãe. Hange lia o livro preso no palanque. Não dava para ver o olhar dela porque a comandante estava de perfil.

— Senhor Levi, vão colocar um retrato da minha mãe aqui no museu?

— Vai saber. As pessoas só ganham retratos bonitos depois de mortas.

Levi apenas fazia uma piadinha. Entretanto, sem saber, previa o futuro. Daqui algumas décadas, Hange de fato ganharia um quadro no museu. O artista da pintura de Erwin não estará vivo. E mesmo se estivesse, não seria contratado. Os donos do museu vão encomendar o quadro de um pintorzinho qualquer. O retrato não será grande e bonito como o de Erwin, e a placa carregará a seguinte mensagem: Hange Zöe, 14ª comandante da Tropa de Exploração, apunhalou o próprio povo pelas costas. Não obstante, o rosto caolho de Hange será imortalizado em outros museus por aí a fora, e as legendas das placas serão variações da seguinte frase: Hange Zöe, eldiana natural de Paradis, organizou a aliança para derrotar Eren Yeager. Retratos de uma mesma pessoa contando diferentes visões sobre uma história real.

— A minha mãe não vai morrer, senhor Levi.

Dando risada, Leona deixou Levi e foi para perto de Hange. Tinha muitas perguntas a fazer sobre seus pais. Pela lógica dos contos infantis, duas pessoas têm filhos quando se amam muito. Partindo desse pressuposto, aquele homem na parede era a pessoa por quem sua mãe se apaixonou. Leona imaginou os pais em trajes de casamento. A imagem era bonita na sua cabeça.

Enfiou-se entre as pernas entreabertas da mãe, obrigando Hange a separá-las. A comandante quase perdeu o equilíbrio; precisou agarrar o palanque para retomá-lo. Leona olhou para cima e Hange para baixo. Uma encontrou o olhar da outra. Leona sorria. Hange ergueu as sobrancelhas.

— O que você quer? Voltar para o lugar de onde veio?

— Mãe, você amava o meu pai?

Uma sílaba espantada escapou da boca de Hange. Levi tossiu, disfarçando a surpresa. A história por trás do nascimento de Leona não era lá muito adequada para uma criança de cinco anos. Hange ia ralar para sair dessa. O capitão deu as costas, sentindo vergonha embora não fosse o alvo da pergunta.

Leona apertou as sobrancelhas em confusão intrigada. Hange era uma pessoa verdadeira. Não gostava de mentiras nem de meias-verdades, e Leona era criada para pensar da mesma maneira. Hange respondia as perguntas da filha como se fossem adultas da mesma idade. Leona estranhou ver a mãe hesitando, e Hange tinha noção desse fato.

— Bem, eu o amava, mas não do jeito que você está pensando.

— Como assim? Achei que amor fosse tudo igual.

— Não, existem vários.

Leona achava que amor AMOR era sempre relacionado a casais, no entanto, sua mãe deu uma resposta complexa e... meio fora de contexto, não? A comandante não deu espaço para reflexões. Hange a pegou no colo. Leona pôde ver o livro no palanque. As páginas amareladas apresentavam listas de nomes acompanhadas por designações de cargo. Hange colocou o dedo no nome de um homem. Moblit Berner — vice-capitão do quarto esquadrão da Tropa de Exploração.

— É por causa desse rapaz que eu e você estamos aqui.

— É?

— Eu estaria morta se o Moblit não tivesse me salvado, e você não teria nascido.

Leona pestanejou, de súbito atônita. Jamais pensara em sua mãe morta — essas coisas só acontecem com a mãe dos outros, a da gente vive para sempre. Tampouco cogitara a ausência de sua própria existência. Tentou refletir sobre esses assuntos. É complicado imaginar uma vida onde você não exista, justamente porque você é você e nada seria igual se você não fosse você. Complicado.

Hange continuava mirando o nome de Moblit Berner. Leona não foi capaz de entender a melancolia na expressão cabisbaixa. A menina fitou as páginas, tentando interpretar a tristeza da mãe. Ninfa. Hashad. Lauda. Keiji. O livro comportava apenas nomes. Não existia nenhum desenho ilustrando a aparência daquelas pessoas, diferente do seu pai que tinha um pedaço gigantesco de parede só para ele. Leona não era capaz de sentir coisas apenas lendo nomes. Se tivesse uma ilustração ou foto junto, talvez conseguisse. Hange a largou nesse momento, e a comandante permaneceu vendo o livro.

Quando o assunto era ciência, Hange tirava os pés do chão. Ela ignorava o perigo. Cabia a Moblit impedi-la de subir alto demais e se perder nas nuvens. Hange, por sua vez, obrigava Moblit a voar para pegá-la, e nisso o parceiro abandonava a querida estabilidade para se arriscar ao lado da chefe inconsequente. Hange tivera outros assistentes naqueles cinco anos, mas nenhum tão bom quanto Moblit.

A comandante suspirou. Nossa, como sentia saudade daquele paranoico. Hange descobriu o significado da palavra nação, para que serve um porto e quantas balas uma submetralhadora comporta. Porém, como Odin, Hange pagou o preço da sabedoria com o olho. Não obstante, perdeu Moblit. Se pudesse dar o olho remanente para ter Moblit de volta, o faria.

— Você amava o senhor Moblit, mãe?

Hange deu um pequeno sobressalto. Virou a cabeça para a filha entrar em seu campo de visão. Ao responder, a colocou no ponto cego.

— Sim, eu o amava.

Leona deu a volta para encontrar o olhar da mãe, mas a essa altura Hange já retomara a compostura. Até sorria. Isso era ótimo, porque Leona tinha mais perguntas a fazer.

— Você gostava mais dele ou do meu pai?

— Não existe isso de gostar mais de um ou de outro, Bolinha. São amores diferentes, eu já disse.

Hange abandonou o palanque. Levi tomou o lugar dela, folheando o livro em busca dos membros de seu antigo esquadrão. Petra Ral, Oluo Bozado, Eld Jinn e Gunther Schultz. Levi jamais esqueceria esses nomes e tantos outros.

Hange seguiu andando pelo tapete vermelho e Leona saltou ao seu lado. Foram parar na frente doutra pintura. Dessa vez, a imagem retratava uma batalha ocorrida na floresta Titã, chamada assim por suas árvores de mais de oitenta metros de altura. A titã fêmea foi desenhada contorcida entre as árvores gigantes. A boca escancarada indicava um grito. O antebraço direito erguia-se dobrado por sobre a cabeça, tentando se proteger dos seres humanos voadores. Os pequenos atacantes empunhavam espadas feito gloriosos heróis. A luta ali representada não ocorreu assim. Hange esteve lá e podia confirmar.

— Mãe, eu não entendi. Você amava o meu pai ou o senhor Moblit?

Hange deixou a cabeça pender para trás e suspirou pela boca. Fechou o olho, abriu-o e fitou o teto. Sua filha não ia deixar o assunto morrer até receber uma resposta clara.

— Eu amava os dois.

— Como?

— Ora, veja bem, o amor que você sente por mim não é o mesmo que você sente pela Mikasa, não é? É mais ou menos a mesma coisa. Eu gostava dos dois, mas de jeitos diferentes.

Leona sacudiu a cabeça, confusa e começando a se aborrecer. Hange, por sua vez, desejava que a explicação bastasse; Leona era jovem demais para entender certas relações humanas. Não queria contar justo agora que ela não fora feita por dois namorados apaixonados.

— Mas eu amo você e a mana como família. Eu estou falando de amor amor, mãe.

— Bem...

Levi apareceu nesse momento, por trás de Hange.

— O QUE A SUA MÃE QUER DIZER... — O capitão disse numa voz exageradamente alta, dando indireta para Hange, por favor, calar a merda da boca — ...é que ela amava o seu pai e o Moblit, mas escolheu o seu pai.

Leona fez cara de paisagem. Reticências brotaram na cabeça dela. Leona disse, muito delicada e cuidadosa:

— Então você amava o meu pai e o senhor Moblit ao mesmo tempo, mãe?

— Mais ou menos isso. — Hange corou.

— E agora você gosta do senhor Levi. Puxa vida, mãe, você gosta de vários homens.

Leona, sem perversidade, deu uma olhadela brincalhona para Hange. Mãe, sua danadinha, só pensa em namorar. Hange virou um tomate de óculos. Cobriu a cara, morta de vergonha. De todo modo, ficou grata pela meia-verdade ter dado fim à conversa desconcertante. Leona só saberia a história completa daqui alguns anos.

Depois disso, Leona se distraiu com uma maquete simulando a batalha em Shiganshina. O capitão aproveitou o momento de privacidade para dar um beijinho no ombro de Hange, chamando a atenção dela.

— Você encontrou o nome de todos os seus subordinados?

Hange assentiu. Levi suspirou, baixando a cabeça para o chão. Sua próxima fala deixou o peito de Hange pesado.

— Eu não encontrei o nome do Gunther.

XXX

Levi ficou decepcionado por não ter achado Gunther, um dos soldados mortos na operação contra a Titã Fêmea — cuja portadora vegetava em algum lugar no subsolo. Hange o consolou dizendo que enviaria uma carta ao museólogo pedindo a inclusão do nome de Gunther no livro. É inadmissível esquecer alguém que doou a vida por Paradis. Levi concordava.

Para ser honesto, concordavam em muita coisa, apesar de terem personalidades opostas. Hange era extrovertida, Levi introvertido. Hange amava ciência, Levi achava uma chatice. Hange vivia no meio da sujeira, Levi se enfurecia só de ver dois copos sujos na pia. Através de Hange, Levi descobriu que é possível amar alguém diferente de você se essa pessoa tiver os mesmos ideais, opiniões e objetivos de vida.

Depois que a situação entre Paradis e Marley se estabilizasse, Levi tinha planos de se mudar para a casa de Hange. Queria construir uma família com ela. Hange nutria o mesmo desejo, assim como compartilhavam a mesma opinião sobre outros assuntos. Por exemplo, assumir o relacionamento. Erwin nunca foi sincero em relação aos próprios sentimentos, e preferiu deixar Levi no escuro a confessar o amor (porque se fizesse isso, a relação se tornaria real). Apesar de amar Erwin, Levi não podia negar estar um tanto traumatizado sobre clareza na reciprocidade. Quanto à Hange, a comandante se considerava velha demais para brincar de amizade colorida. Ambos concordaram em firmar o namoro.

Poucos terceiros sabiam da relação do capitão e da comandante. Muitos suspeitavam. Hange queria contar para a Santa e o mundo, contudo, Levi não gostava de chamar atenção. Em consideração a Levi e suas manias, resolveram deixar o relacionamento se revelar sozinho. A única pessoa que soube do namoro pela boca de um deles foi Leona. A filha de Hange chiou no começo, e atualmente a menina não dava a mínima. Talvez porque Levi não fosse a casa delas com frequência, e também porque Leona ainda não visto a mãe beijando Levi. Ah, sim, tinha isso. Ambos eram discretos. Sequer andavam de mãos dadas. Quando cercados por pessoas limitavam-se a toques discretos, como beijinhos e segurar a mão. Isso entre desconhecidos. Na frente dos subordinados e de Leona, agiam normal.

O trio aguardava a carruagem para retornarem ao hotel. Na manhã seguinte, partiriam para a muralha Rose. Os dois adultos na calçada aqueciam as mãos nos bolsos das calças. Poucos metros adiante, Leona brincava com um gato laranja. Levi a observava. Mesmo não sendo sua filha, se sentia responsável por ela. Falando nisso, precisava ter uma palavrinha com Hange sobre a festa.

— Aconteceu, Hange.

— Huh? — A principio, Hange não entendeu.

— Quando fui buscar a Leona, vi as filhas do Nile e outras crianças a chateando com perguntas sobre o Erwin.

— Ela estava triste? Chorando?

Hange não parecia desesperada, apenas ansiosa. Levi sacudiu a cabeça. O capitão contou a história completa. As perguntinhas, a reação de Leona e a curta conversa que tiveram juntos. Hange sorriu, e depois suspirou. Fitou Leona. A garotinha continuava brincando com o gato. Ao ouvir a resposta de Hange, Levi ficou satisfeito por descobrir que, mais uma vez, pensavam igual.

— Eu gostaria que ela não passasse por esse constrangimento, mas essa situação vai se repetir no futuro. E outras virão também.

Como uma criança nascida no subterrâneo, Levi sabe que crescer sem pai não é incomum. Para ser sincero, há casos onde os males vêm para bem. Alguns homens são trastes inúteis, como o pai de Hange, que certa vez levantou a mão para uma mulher e não a abaixou nunca mais.

Até onde Levi sabia, algumas crianças no bairro de Hange também não tinham pai presente. Portanto, aquela foi a primeira vez que Leona enfrentou questionamentos sobre o assunto. Porém, as crianças não foram tão vilãs assim. Elas só estavam curiosas. A insistência dos adultos era bem pior. Os velhos traziam o nome de Erwin a toda hora, alegando: oh, Leona, você e seu pai iam ser melhores amigos. Nossa, você é tão parecida com o seu pai. Minha Santinha, seu pai era um homem tão bom, eu chuparia o pau dele inteiro caso eu não fosse casado.

— Você vai conversar com ela?

— Nós já conversamos algumas vezes. Só vou repetir se ela quiser.

— Entendi.

Levi avistou uma carruagem. Ele assoviou para o cocheiro. Hange chamou Leona. Os dois adultos esperaram a criança subir. Levi, um verdadeiro cavalheiro, estendeu o braço para Hange ir primeiro. A comandante entrou na brincadeira, subindo na carruagem feito uma dama. Hange sentou do lado de Leona, passando o braço ao redor dela. A garotinha se aconchegou no corpo da mãe, deitando a cabeça na altura da costela de Hange.

Levi sentou no outro banco, de pernas cruzadas. Hange, óbvio, sentava de pernas abertas. Leona apoiara os dois pés no banco, grudando os joelhos na frente do corpo. Ficaram em silêncio por algum tempo, e então Leona perguntou à Hange:

— Mãe, você e o meu pai me quiseram?

— De novo esse assunto?

— Eu quero saber mais sobre vocês dois.

Levi virou o rosto para a janela, fingindo distração para fugir da vergonha alheia. No entanto, Hange não se atrapalhou para responder. A comandante apertou o abraço e beijou a cabeça da filha.

— Você foi uma surpresa.

— É?

— Sim, a melhor surpresa do mundo.

Hange estava sendo sincera. A comandante amava aquela criança; e a existência de Leona a transformou em outra pessoa. Leona fez Hange desenvolver traços de personalidade que nem em um milhão de anos Levi sonharia em ver. Como por exemplo, ser cuidadosa. Hange costumava ser uma pessoa imprudente e sem amor ao próprio corpo — dormia tarde, deixava de se alimentar, punha a si mesma em perigo, etc. Cuidar de Leona a ensinou a cuidar de si. Hange também se tornou menos impaciente e teimosa, e aprendeu a ouvir os outros.

— E como vocês me fizeram?

Ah, sim, de onde vem os bebês. Levi se afundou no banco acolchoado da carruagem, desejando se materializar no veludo. Pelo amor da Santa, por que esse hotel fica tão longe?

Leona encarava Hange com expectativa, sorrindo. Hange se divertia. A comandante não teria papas na língua para explicar reprodução humana, Levi já devia imaginar. Pelo menos, as duas podiam ter esse papo longe dele.

— Bem, quando os adultos querem ter um filho, eles

— Hange, por favor.

— Huh? O que foi? Minha mãe nunca escondeu essas coisas de mim.

— Me conta, mãe!

Leona puxava o braço da mãe, implorante e ansiosa. Antes que Hange pudesse responder, Leona acrescentava, em voz animada:

— Como eu fui parar na sua barriga? Como eu nasci? É possível dois homens fazerem uma criança, mãe? E duas mulheres?

Hange não aparentou o mesmo assombro de Levi em relação às últimas duas perguntas. A comandante colocou a mão no queixo — pensava em qual das perguntinhas responderia primeiro. Levi estalou a língua, apressando-se para cortá-la antes de ela começar.

— Não, doente. Converse com ela bem longe de mim.

Leona rosnou para Levi. A menina ficou em pé no banco, se equilibrando para não despencar por causa do movimento da carruagem. Leona apontou para Levi, furiosa. O capitão arqueou a sobrancelha. Aquela criança ficava mais atrevida a cada dia.

— Senhor Levi, para de interromper a gente ou eu vou comer a mãe do senhor.

Os olhos de Levi viraram duas bolas de sinuca. Nada escapava da boca entreaberta. Leona deve ter aprendido aquela baixaria com os retardados do quartel, com toda certeza. Hange gargalhava feito louca, agitava as pernas e agarrava a própria barriga, balançava o corpo para frente e para trás, deixando claro que não se importava com a boca suja da filha.

— E aí, Levi, o que você vai responder?

Levi já elaborara uma resposta maravilhosa. O capitão fez um gesto convidativo com a mão, embora sua cara de poucos amigos fosse de dar medo. Leona engoliu em seco, se cagando de medo. A menina desceu do banco e veio bravamente ao encontro do capitão. As perninhas tremiam. Levi achou engraçado. Leona tinha colhões para enfrenta-lo, mas não para arcar com as consequências da afronta.

— Chega mais perto. Vou te contar um segredo.

Leona obedeceu. Levi se curvou para ficar na altura do rosto da menina. Leona suportou o olhar sem respirar. O capitão espiou Hange. A comandante os observava, curiosa. Levi não se deu ao trabalho de falar no ouvido de Leona porque queria que Hange escutasse o tal segredo.

— Eu já comi a sua.

Hange perdeu o ar. Ao retomá-lo, berrou:

— LEVI!

A comandante procurou por algo que pudesse ser usado como arma. Não encontrou. Então, tirou o próprio sapato e o arremessou na cara de Levi. O capitão se protegeu com os dois braços, sorrindo. Hange tirou o outro sapato e o jogou também. Leona não entendeu o que Levi quis dizer; martelava o dedo no espaço entre o nariz e o lábio, tentando encontrar o sentido da frase.