Uma das primeiras coisas que Hange fez como comandante foi aumentar a verba aplicada no departamento de pesquisa. Antigamente, o laboratório era uma salinha minúscula nos fundos do quartel, onde o cientista se espremia entre uma mesa laboratorial e a parede. Agora, Hange dispunha de uma sala enorme. Os microscópicos, tubos de ensaio, frascos de substâncias e outros equipamentos usados no dia a dia não precisavam mais ser guardados em caixotes. Eram expostos em prateleiras organizadas de forma a facilitar o acesso. Cabiam pelo menos cinco cientistas no laboratório. No entanto, Hange trabalhava sozinha, num projetinho pessoal muito especial.

Hange segurava um rato branco. Nascido em cativeiro, o único motivo da existência do roedor dava-se à servidão como cobaia científica. O polegar comprimia a garganta peluda, mantendo o focinho do animal para cima. Os demais prensavam o corpo esguio. As únicas partes do rato livres para se debaterem eram o rabo e as patas traseiras. Uma pena não servirem para nada sem alguma superfície para apoiá-las.

Hange ergueu o bicho. O olhar humano encontrou o do animal irracional. O rato fitou aquele único olho cujo brilho não era destinado ao seu bem-estar, e previu o próprio destino. Os guinchos agudos quebraram o silêncio sombrio. Os outros de sua espécie retribuíram os gritos de horror; na larga gaiola atrás de Hange, os ratos aprisionados entraram em pânico. Correram para lá e para cá. Os maiores atropelavam os menores. O mais esperto deles começou a roer as grades com os dentes frontais, tamanho era o estresse.

O condenado foi posto na bancada fria. O rato tentou escapar. A mão enluvada o manteve preso. O rato arranhava a mesa de aço na vã tentativa de fugir. Hange agarrou o pescoço do roedor, e nisso o animal solavancou o resto do corpo, emitindo batidas metálicas ao chocar-se contra a mesa.

A outra mão veio pela frente, trazendo um pedaço de miolo de pão entre o indicador e o polegar. O maldito polegar. Seres humanos não deviam ser dignos de uma ferramenta tão sofisticada. O pão não era alimento, o rato sabia disso. A bolota de massa fedia — alguma coisa dentro dela destruiu a propriedade nutritiva. A morte a habitava. O rato contorceu a cabeça, mas a mão o impedia de virar a cara. O roedor comprimiu a boca para impedir a entrada da morte. Hange abriu a boca do rato com brutalidade, quase quebrando a mandíbula do animal. Enfiou o pão goela a baixo. O rato sentiu o gosto da morte, e era amargo. Tentou expelir o miolo, entretanto, a mão que estendeu o veneno amassava o focinho comprido.

O que sente um animal quando a morte vem buscá-lo?

De certo, uma sensação semelhante ao susto que você sente quando atravessa a rua e vem um carro em alta velocidade. A apreensão na noite em que você está voltando para casa sozinho e dois homens encapuzados começam a te seguir. O gelo que atravessa o seu corpo quando você escuta alguém tentando arrombar a janela às quatro da manhã. A surpresa ao ver o seu melhor amigo apontando o revólver para você. O impulso de lutar pela vida que te acomete quando você está pendurado pelo pescoço e derruba banco que te sustentava. Em suma, um terrível lampejo de completo horror.

A alta dose de estricnina demorou três minutos para fazer efeito. Hange largou a cobaia. O animal tentou escapulir, porém, a determinação o abandonou. Uma baba densa e malcheirosa escorreu pelo focinho. O rato, um animal limpo por natureza, esfregou o nariz tentando se livrar tanto da sujeira quanto do gosto da espuma mortal. O rato viu o olhar curioso do ser humano; uma curiosidade perversa e cruel. Se falasse a língua dos homens, perguntaria àquela mulher mesquinha qual crime hediondo cometeu para receber tal punição.

Por fim, a visão deixou de fazer sentido. A barriga borbulhava. O fedor da morte vinha do estômago. O corpo do rato sobressaltou. O mundo girou pelo tempo que a convulsão durou. As sombras consumiram o cérebro. O último pensamento lúcido a seu modo irracional foi uma lamentação.

Hange fitava o corpo desfalecido da cobaia. A área onde o rato jazia virou uma imundice babada. Contou três minutos. A boca entreaberta se mexia a cada trinta segundos, frisando a metade de sessenta. A voz escapava num sussurro tão baixo que nem a própria Hange escutava.

O rato permaneceu imóvel. Hange mirou o relógio atrasado do laboratório. Adicionou duas horas aos ponteiros. Eram vinte para as três da tarde. Pegou a planilha de dados e atestou a hora da morte. A estricnina demorou menos de cinco minutos para surtir efeito no animal. Segundo o livro ao lado, em humanos demoraria menos de vinte e quatro horas. Hange guardou a caneta no bolso do jaleco aberto, satisfeita.

Hange usou a pinça para levantar o rato, sentindo a diferença do peso post mortem. Usava luvas nitrílicas para proteger as mãos limpas por baixo da borracha suja. O rato foi colocado num aquário pequeno. Aquela era a cobaia seis. Ao lado haviam mais cinco, duas mortas e três agonizando.

A ciência de Paradis dividia os venenos em duas categorias. Venenos agudos: matam rapidamente. E venenos crônicos: causam deterioração física e/ou mental. Ali apresentavam-se exemplos das categorias. A cobaia número dois, sob o efeito do alucinógeno esporão do centeio, corria em círculos dentro do aquário. Era uma questão de tempo até estar morta.

Hange conferiu as outras. Encontrou o roedor três abatido no canto do aquário. O animal de olhos semicerrados respirava dolorosamente, gemendo a cada inspiração. Foi vítima da trombeta de anjo, planta utilizada para fazer a droga chamada burundanga, que faz o receptor perder a vontade própria. Mal podia esperar para fazer a dissecção desse aí.

A última cobaia viva era a pior. O rato deitava na poça do próprio sangue, e não dava a mínima para a sujeira. Os bigodes gotejavam. O camundongo roía as próprias patas. Essa cobaia recebeu uma injeção a base de curare, veneno que causa bloqueio neuromuscular. Portanto, não sentia dor na automutilação. Hange imaginava que os membros estivessem paralisados. O roedor afundou os dentes no braço decepado e puxou um longo nervo. Os incisivos começaram a triturar o osso exposto, emitindo barulhos pungentes a qualquer ouvido humano desacostumado com laboratórios.

Hange curvou o corpo, apoiando as mãos nos joelhos. Seu rosto ficou mais ou menos na altura do vidro. Encarou o rato desmembrado. O roedor não retribuiu o olhar, concentrado na tarefa de devorar o próprio corpo. Pelos seus cálculos, aquele roedor duraria mais meia hora até morrer paralisado. Uma pena. Se soubesse que a cobaia ia devorar as próprias patas, teria dado uma dose menor de veneno para prolongar a experiência.

Hange adorava animais. Como você pode ver, não se trata de um gostar empático, mas sim científico. Os animais sentiam isso. Por conseguinte, não tinha uma relação boa com bichos. O mundo animal a odiava, e até com os cavalos precisava ter contato desde muito cedo para conseguir montá-los. Era uma cruz carregada desde a infância hiperativa, época onde não existiam leis nem consequências.

Quando criança, Hange amava observar bichos. Até então, se satisfazia em olha-los em seus habitats naturais. Entretanto, uma aula de ciências no laboratório da escola mudou sua percepção para com os seres irracionais. No dia em questão, as crianças foram apresentadas a um sapo aberto. A maior parte dos pequenos virou a cara. Hange, contudo, ficou maravilhada ao descobrir que a pele dos seres vivos reveste um maravilhoso universo secreto. Desde aquele dia, Hange dedicou sua vida a descobrir o mundo escondido dentro de cada criatura.

Hange passou a caçar sapos, pássaros, ratos, lagartos, coelhos e cobras. Os animais pecilotérmicos eram os seus favoritos. Os anfíbios por sua textura molhada, e os répteis por seus corpinhos estranhos. Na irracionalidade cruel da inocência, Hange acreditava que os bichos em questão, por não serem próximos dos seres humanos como cães e gatos, eram incapazes de sentir dor.

Ela abria os sapos vivos. Achava incrível ver o coração batendo, mesmo por poucos segundos. Esfolava as cobras e esperava nascer outra pele no lugar. Cortava as penas dos pássaros e tentava fazê-los voar com uma asa só. Jogava ratos em baldes d'água a fim de descobrir quanto tempo levaria para morrerem afogados. Hange limpava os esqueletos dos bichos mortos com o acervo medicinal da mãe – às escondidas, claro.

Cães e gatos também não escapavam de suas experiências, embora com eles Hange fosse misericordiosa por serem passíveis de sofrimento. No caso desses animais, Hange escolhia os doentes. Certa vez, encontrou um cão velho e cego abandonado numa toca, cheio de mordidas infeccionadas e pulgas. Hange espreitou o cachorro por dias a fio. Documentou o dia que o encontrou e a data da morte.

Anos mais tarde, Hange descobriu que as experiências tinham nome: vivissecção.

O cachorro foi o último espécime de suas experiências infantis. No mesmo dia, o pai de Hange achou os ossos das cobras e dos pássaros em baixo da cama, escondidos em caixas. Ao sair para procurar Hange, a pegou com a mão na massa. Ou melhor, na faca. Ah, senhoras e senhores, o desespero de Hange quando a mãe fechou a porta e pegou o famigerado pedaço de mangueira... minha nossa! Você já apanhou de mangueira? Se não, no banho pegue a do chuveiro e bata no seu braço.

Após o corretivo, a mãe contou os malefícios das experiências. Hange poderia ter pego alguma doença grave ao mexer com os animais, especialmente os ratos. E se o tal cachorro estivesse vivo e a mordesse? Você pensou nisso, Hange? A parte da crueldade animal nem foi mencionada. Sua mãe era apática com animais, e por ser da área médica entendia o interesse da filha. Por essas razões, em vez de proibir, aconselhou Hange a procurar os professores e pedir para usar o laboratório da escola, com os animais já mortos e esterilizados.

Por sorte, os professores estavam dispostos a instruí-la. Lá, a ensinaram a tratar a morte com respeito. Hange parou de fazer experimentos independentes depois disso. Por alguns dias, a família de Hange ouviu piadinhas de mau gosto. As más línguas chamavam Hange de psicopata, diziam que ela não era uma pessoa boa e que ia virar assassina quando crescesse. Bem, Hange virou cientista. Assassina também, mas não por sua vontade.

Após entrar para a Tropa de Exploração, seu trabalho científico envolvia titãs. Nos últimos anos, descobriu aptidão para desenhar armas. Vinha estudando mecânica a fim de aperfeiçoar essa área. Há anos não mexia com experiências laboratoriais envolvendo animais. Mais de vinte, para ser exato. Inclusive, aquela era a primeira vez que o quartel-general tinha uma gaiola de roedores.

O motivo dos experimentos era o livro sobre venenos apoiado na mesa de aço onde as cobaias foram mortas. Onyankopon, numa de suas viagens, trouxe de presente o livro e várias amostras de veneno feitas a base de plantas. Como boa estudiosa, Hange não se contentava em ler o efeito das toxinas. Queria vê-las na prática. Daí a razão da compra dos ratos. Tratava a morte com respeito, como os professores ensinaram? Bem... sim... talvez. Não há muito o que fazer. Aqueles ratos nasceram para serem cobaias e Hange precisava testar os venenos em alguém. Acontece.

Hange abriu a porta da gaiola. Os ratos saíram guinchando. Agarrou um roedor robusto. O rato se pôs a morder a borracha da luva, berrando de ódio. De fato, os bichos detestavam Hange.

Levou o rato para a mesa. O veneno a base de cianeto já estava pronto na injeção. Veneno agudo — mata rápido. O animal se debateu. Hange pegou a agulha. O polegar alisou o gatilho da seringa. Mirou o rato de cima, vendo as costas peludas e as patinhas arranhando o aço. O agarrando pelo couro, levantou o animal de barriga para cima, e teria penetrado a agulha no estômago do bicho naquele momento caso uma certa criança não tivesse a puxado pelo jaleco.

Hange estremeceu. Descontou a frustação no bucho do rato, o esmigalhando debaixo dos dedos. Detestava ser interrompida, principalmente quando tão absorta. Porém, para a sua infelicidade, algumas pessoas exigem atenção prioritária. Bufando, Hange se virou para Leona.

— O que é? Espero que não seja nenhuma besteira.

— O que você está fazendo?

— Estou injetando veneno nos ratos para ver as reações das toxinas. — Hange não estava a fim de eufemismos.

— Mas mãe, veneno mata.

— Exatamente, Bolinha.

Hange deu de ombros. Entendendo a conversa como terminada, voltou-se para o rato. Leona puxou o jaleco pela segunda vez.

— Mãe, deixa eu brincar com o rato?

— Esses bichos não são brinquedos.

O jaleco passava dos joelhos. Leona puxou o pano, dançando com ele. A menina enrolou-se na roupa aberta e entrou em baixo dela, abraçando as calças da mãe. Hange olhava para baixo, vendo o beicinho implorante da filha. O rato guinchava feito louco.

— Mãaae, por favor.

Hange suspirou. Pôs a seringa na mesa. Leona deu pulinhos de alegria. Hange levantou o rato na altura do rosto e o sacudiu.

— Você sabe que isso é uma cobaia científica, correto?

— Sei sim.

— Você vai abrir ele com uma faca?

— Não, mãe.

— Você vai injetar substâncias nele?

— Não.

— Você vai colocá-lo com outros animais para ver como ele se comporta?

— Não.

— Você vai usá-lo para testar produtos?

— Não, prometo.

— Você vai tirar os olhos dele e colocar no microscópico?

— Não, mãe.

Leona continuou negando em voz decidida, balançando a cabeça a cada pergunta. Não, mãe, de jeito nenhum, não vou machucar o ratinho. Hange levantou a sobrancelha, mirou o rato e depois a filha. A comandante perguntou, com um toque de condescendência:

— Então para que você quer esse bicho?

Na opinião de Hange, não faz sentido brincar com um animal de laboratório se não for com um dos propósitos acima. Leona não esperava essa reviravolta. A ansiedade agitou o corpo da menina.

— Eu só quero fazer carinho nele.

Hange revirou o olho, entediada. Vindo de Leona, já devia esperar uma coisa dessas. Os bigodes do rato balançavam junto com o nariz nervoso. Hange o estudou, e depois fez o mesmo com Leona. Bem, por que não?

— Tudo bem. Não deixa esse rato fugir, beleza?

— Beleza!

Hange estendeu o rato sem cerimônias. A garotinha o pegou com as duas mãos. O rato, confuso tanto pela diferença de altura quanto pelas mãozinhas quentes, cheirava o ar incansavelmente. As mãos enluvadas de Hange permaneceram numa distância curta das da filha, para caso ela deixasse o bicho cair. Entretanto, o animal não tentou fugir.

Leona voltou para os brinquedos espalhados no tapete. Entre eles havia uma miniatura de carruagem. Hange imaginava que Leona fosse colocar o rato dentro. Sorrindo, Hange foi até a gaiola e pegou outro roedor. Pôs a próxima cobaia na mesa cinzenta e fria. O animal se debatia em pânico. Hange colocou peso na mão, prensando as costas do rato ao ponto de ouvir a coluna pequena estalar. Agarrou-o pelo couro e o ergueu. Mirou a agulha na barriga.

Enquanto isso, Leona, descalça para fazer menos barulho, esgueirava-se do tapete para a porta do laboratório, sempre olhando por cima do ombro para ver se a mãe permanecia absorta na experiência. Hange injetou o veneno e saiu para colocar o rato num aquário vazio. Leona aproveitou a oportunidade. A menina saiu do laboratório encostando a porta com um clique inaudível.

XXX

O que sente um animal quando a morte dá meia-volta?

O mesmo que você quando o carro em alta velocidade freia a tempo. Ele chora as mesmas lágrimas de alívio que você deixa cair quando os homens encapuzados param no ponto de ônibus. Ele relaxa como você faz após escutar silvos felinos na janela, em vez de vozes humanas. O sentimento se parece com a risada do seu melhor amigo ao apertar o gatilho da arma de brinquedo, e também com o choro pesado da sua avó ao encontrar você agonizando com a corda no pescoço.

A gratidão sentida pelo rato ultrapassava os limites irracionais e racionais. Lágrimas de desafogo rolaram de seus olhinhos vermelhos. Como você deve ter feito em alguma das situações acima, o rato prometeu a si mesmo: a partir de hoje, vou viver cada dia da minha vida como se fosse o último.

Leona apressou o passo. A caminhada rápida se transformou em corrida. Olhava para trás a cada dois segundos. Correu até virar a esquina do corredor. Apoiou as costas na parede, ofegante. A mãe ia brigar, todavia, o resultado da missão valia a iminente bronca. Abriu as mãos. O rato ficou paradinho sobre duas patas, sorrindo de orelha a orelha; as lágrimas abundantes pingavam, e as patinhas unidas na frente da barriga tremiam.

— Obrigado, você me salvou. Aquela mulher louca ia me matar.

Leona não gostava quando falavam assim da sua mãe. Ela não era louca. Nem doente, como o senhor Levi a chamava.

— Não chama a minha mãe de louca.

O rato torceu a cara. As orelhas redondas dobraram para trás quando ele ergueu a cabeça furiosa. Apontou a pata para a cara da criança. As lágrimas de libertação se transformaram num choro magoado. O rato berrou, injustiçado:

— Você chama aquele monstro de mãe? Não viu o que ela fez com o coitado do Alexander?

— Ela não sabe que machuca vocês!

Leona respondeu num brado nervoso. O rato ignorou. Ele pôs a pata na testa e chorou com a boca aberta, mostrando os incisivos longos. Os gemidos angustiados saíram mesclados aos guinchos típicos dos roedores.

— Oh, pobre Alexander! A Emily deve estar esperando por ele. Como vou contar a ela, minha santa Ratinha?

A garotinha se desconcertou ante o sofrimento do rato. Gaguejou palavras desconexas. Não sabia como consola-lo. Então, se limitou a alisar a cabecinha branca. O roedor continuou reclamando sobre o assassinato de seu amigo e prevendo como Emily, a suposta viúva, ficaria desolada.

— Sinto muito, senhor rato.

— Meu nome é Algernon. Senhor Algernon para você, humaninha.

O rato escarneceu da espécie de Leona, lançando um olhar acusador que fez a menina tremer. Depois, senhor Algernon suspirou e sacudiu a pata num gesto de renúncia relutante, como quem deixa para lá um assunto que não vale a pena ser discutido.

— Quer saber? Esqueça. Você é só um filhote.

O rato pulou para o chão e começou a explorar o quartel. O nariz rosado cheirava tudo pelo caminho. As unhas curtas tamborilavam no piso. Leona apressou o passo para acompanha-lo.

— Aonde o senhor vai?

Leona andava com as mãos atrás da cintura, a pose ligeiramente encurvada e a cabeça baixa para ver o rato. Alcançaram uma janela. O senhor Algernon deu dois saltos para chegar no parapeito. O rato sentou nas patas traseiras e contemplou o mundo do lado de fora. Leona colocou as duas mãos na soleira e esticou o corpo para ver a paisagem.

Se localizavam no terceiro andar do quartel-general. Dali podiam ver o jardim, os muros e o largo portão de ferro. Dois guardas se postavam no portão. Um deles conversava com os cocheiros preguiçosos das carruagens estacionadas no meio-fio. O vilarejo estendia-se logo atrás. Fumaça saia das chaminés. Pessoas iam e vinham. Numa casa, uma mulher batia a toalha na janela. Leona conseguia ouvir o som da cidade. Porém, se tratava de uma lembrança auditiva ativada pela percepção visual. Os sons verdadeiros não atravessavam as paredes grossas.

Senhor Algernon pôs a pata no focinho. Depois, espalmou-a no vidro quente. A cauda longa não se mexia. Ele suspirou:

— A Emily e os outros que me perdoem... — Senhor Algernon ergueu a cabeça. — Agora que estou livre das gaiolas, vou para aquele lugar. — Apontou o vilarejo. Não precisou virar a cabeça inteira para encarar Leona graças a visão ampla de roedor, feita para identificar inimigos na esquerda, na direita e no céu. — Há ratos lá. Consigo sentir o cheiro. Primeiro, vou procura-los. Dependendo de como vivem, fico por lá. Se não, vou para onde exista grama. A vida tende a ser mais tranquila em locais verdes; palavras dos coelhos do laboratório aonde eu morava antes de vir para cá.

— Se eu fosse um rato, iria preferir viver no campo.

A janela era do tipo guilhotina. O senhor Algernon empurrou a tranca do parapeito, sem sucesso. Leona percebeu o fracasso do rato e inclinou-se para agarrar a tranca, erguendo os pés do chão. O pino não cedeu.

Senhor Algernon desistiu da janela. O rato começou a andar no parapeito, de cabeça baixa e olhar concentrado. Caso tivesse sobrancelhas, estariam franzidas. O senhor Algernon parecia enfrentar um dilema, pois a voz sussurrada tinha tom de briga. Vez ou outra, ele sacudia a cabeça para cima e para baixo, depois dizia "não, não", e a balançava para os lados. O rato chegou numa conclusão insatisfatória.

— Detesto pedir ajuda. — Reclamou consigo mesmo. — Será que você pode me levar até lá em baixo?

Leona mordeu o interior da bochecha e fitou o corredor por onde tinham vindo. Leona sempre estava acompanhada, seja por adultos ou outras crianças. Nunca ficava sozinha sem o conhecimento e/ou consentimento de Hange. Não sabia como a mãe reagiria. Imaginava que ela fosse dar O OLHAR, e talvez alguma coisa terrível viesse após O OLHAR.

— Eu não sei, senhor Algernon. Minha mãe vai ficar brava se me ver aqui fora.

— Mas ela vai te ouvir voltando, e aí vai saber que você saiu.

— Bem...

— Além disso, você já está aqui fora, não é mesmo? Que tal aproveitar?

Leona colocou o dedo entre o lábio e o nariz. O senhor Algernon tinha pontos consideráveis. De fato, Hange perceberia sua volta. Ah, e tinha o próprio senhor Algernon também. Hange foi bem clara ao dizer "não deixe esse rato fugir". E se mentisse que o rato a mordeu? "Mãe, eu juro, ele me deu uma mordida e saiu correndo". Ah, não ia colar. Voltando ao laboratório ou permanecendo na rua, a bronca viria de qualquer forma. Pelo menos ali fora estaria ajudando o senhor Algernon.

— Tudo bem. Vamos fazer do jeito do senhor.

— Ótimo. Essa é a minha humana.

O rato saltou da janela para o braço da garotinha. Leona sentiu cócegas por causa das patinhas geladas. Senhor Algernon parou com as patas traseiras apoiadas na omoplata da menina e as dianteiras no ombro. O rabo agitado roçava nas costas da criança.

— A propósito, qual é o seu nome?

— Leona, mas os meus amigos me chamam de Bolinha.

O rato virou a cabeça para encará-la.

— Hah, até para um rato você é pequena. Parece mesmo uma bolinha.

Leona começou a andar. Sentia o calor da barriga peluda, e de vez em quando senhor Algernon cheirava o seu pescoço, cabelo ou orelha, sendo este último lugar sensível ao toque, Leona fugia dos bigodes. O senhor Algernon era bastante curioso. Por vezes se erguia nas duas patas, tentando discernir os diferentes cheiros do quartel.

De tempos em tempos, Leona se virava para ver se a mãe vinha atrás. Chegaram no começo da escadaria para descer ao segundo andar. Hange continuava no laboratório, assassinando os amigos do senhor Algernon.

XXX

No segundo andar realizavam as assembleias e guardavam os uniformes e as armas. Havia uma sala gigantesca que costumava ser utilizada para aulas e reuniões com soldados de hierarquia inferior a líder de esquadrão. Leona explicou ao senhor Algernon que essa sala não era mais usada porque o número de militares na Tropa de Exploração aumentara a um nível exorbitante. As reuniões gerais precisavam ser realizadas ao ar livre.

Leona, entretida na conversa, esqueceu do corredor xadrez. Ao deparar-se com a passagem, parou de súbito. De longe viu a diferença de iluminação da peça onde se encontravam para o corredor. A claridade passava em diagonal pelas dez janelas; dava para ver as partículas de poeira nos raios solares. Leona se encolheu. Até os locais mais iluminados possuem cantos escuros, e no caso do corredor dos quadrados cor de vinho, eram os cantos superiores, onde aranhas e monstros habitavam.

O senhor Algernon, em aparente desorientação, virou o focinho para a pequena humana estagnada. Leona, querendo impressioná-lo, retomou a caminhada. Ela nunca tinha pisado no corredor xadrez sozinha. Na verdade, nunca tinha andado pelo quartel sem companhia. Com certeza existiam diversos locais jamais explorados. Leona se sentia tentada a visitar todos após ajudar o senhor Algernon. Entretanto, antes precisava atravessar a passagem — isso se os monstros deixassem.

— Qual é o problema?

Perguntou o senhor Algernon quando Leona travou no batente. A garotinha ergueu a cabeça para as teias de aranha. O senhor Algernon fez o mesmo.

— Tem monstros escondidos lá em cima. Eles atacam quando você está sozinho. Vêm tentando me pegar há anos.

O senhor Algernon saltou para o chão. Dando de ombros, emitiu uma risada-meio-guincho cheia de escárnio.

— Depois eu que sou o animal irracional.

Leona protestou alegando que os monstros são reais. Falou da sensação gelada de horror que os quadrados cor de vinho passam, e de como a garganta tranca e o ar falta mesmo num ambiente aberto. Esse mal-estar é obra dos monstros cruéis. As bestas a levariam para o mundo das aranhas. Leona ficaria presa nas teias para toda a eternidade. Veria sua mãe passando para lá e para cá gritando seu nome. E Leona só poderia chorar, pois teriam teias em sua boca a impedindo de pedir socorro. E mesmo que gritasse, nem sua mãe e nem ninguém ouviria. O pânico é perfeitamente válido e

— Tá, tá, tá.

O senhor Algernon sacudiu as patas e deu as costas à Leona. O rato nunca ouviu tanta baboseira em toda a sua vida, e olha que não tinha nem um ano. Senhor Algernon entrou no corredor. Leona cobriu o rosto e esperou os guinchos de pânico. Nada aconteceu. Senhor Algernon parou no centro da passagem, sentando nas patas traseiras e mantendo as dianteiras na barriga. Os olhos vermelhos encararam Leona de longe.

— Vê? Não há perigo algum, Bolinha. — Disse ele, solene.

Leona esticou a perna. Encostou o dedinho do pé no primeiro quadrado branco. Petrificou. Viu as teias de aranha no teto. Engoliu em seco. O senhor Algernon continuava no mesmo lugar. As partículas de poeira caiam preguiçosamente ao redor do rato. Senhor Algernon, sentindo pena, resolveu ajudar. Veio mostrando os incisivos num sorriso largo.

— Tive uma ideia. Quando eu era filhote, minha mãe me ensinou uma técnica para vencer o medo. Vamos usá-la agora.

— Qual?

Em vez de responder, o senhor Algernon começou a balançar o corpo em compasso ritmado. A cabeça dançou junto. Persuadida, Leona começou a dançar a sua própria maneira, batendo o pé no chão e pendulando as mãos. O rato dançava e cantava. Logo, a melodia tomou conta do quartel silencioso. Senhor Algernon passou pelo batente. Leona andou ao lado dele.

— Se essa rua, se essa rua fosse minha.

A canção foi iniciada por senhor Algernon. Leona se animou; conhecia a música.

— Eu mandava, eu mandava, ladrilhar.

— Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes para o meu, para o meu amor passar.

O senhor Algernon subiu no raso parapeito da janela de vidros quadriculados. O sol iluminou a pelagem albina. Leona dançava, dando passadas largas e balançando o tronco no ritmo da música. Em segundos saltava nos pisos brancos, fingindo que sua mãe quebraria a espinha caso pisasse nos vermelhos.

— Se eu roubei, se eu roubei teu coração.

O rato recomeçou a andar em duas patas. Ele jogou a cabeça para trás. O focinho longo apontou para o teto.

— É porque tu roubaste o meu também!

— Se eu roubei, se eu roubei teu coração.

O rato escalou a roupa de Leona para subir em seu ombro. Ele encostou a cabeça no lado da face da garotinha. Cantaram a última frase juntos, e por coincidência abandonaram o corredor naquele momento, deixando as aranhas e os monstros para trás.

— É porque, é porque te quero bem.

Rato e menina caíram na gargalhada. A voz da garotinha e os guinchos divertidos do rato ecoavam prédio adentro.

— Senhor Algernon, eu amei a técnica. Os monstros nem tentaram nos pegar.

— Quem canta os males espanta, sempre disse mamãe rata.

— Me ensine uma música da sua espécie, senhor Algernon.

O rato desceu. Leona parou e apoiou as mãos nos joelhos, os olhinhos castanhos expectantes brilhavam para o rato serelepe. Senhor Algernon bateu a pata traseira no chão e a dianteira girou no ar. Balançava a cabeça no ritmo da batida. O corpo da garotinha se moveu da mesma forma, e então senhor Algernon cantou:

— Todo rato tem rabo longo, todo rato tem faro esperto, todo rato curte escuro, todo rato lambe restos. Bolinha, bata palmas! Me ajude a chegar lá!

Leona obedeceu, ajudando na melodia da canção. Senhor Algernon fechou os olhos, colocou uma pata no peito e a outra nas costas, o rabo enrolou-se ao redor do corpo. O rato apaixonado cantou:

— Mas tem um que é diferente, tem sempre um que surpreende a gente. É um rato que ao invés de catar lasquinhas de queijo e comer na rua, prefere um beijo brilhante da lua.

Senhor Algernon se deixava levar pela letra, como se fosse ele o protagonista da canção. Sua voz, deveras grave para um animal tão pequeno, alcançava as notas corretas sem esforço. Leona batia palmas com mais força, entrando de cabeça na música.

E então, uma terceira voz interrompeu a festa. Leona não ouviu, mas o rato sim. Senhor Algernon saltou numa velocidade absurda para dentro da camisa de Leona. A cabeça albina surgiu pela gola da blusa.

— Vem vindo alguém.

Senhor Algernon alertou num sussurro nervoso. Estavam perto do banheiro masculino. A porta do banheiro foi aberta pelo lado de dentro. Leona saiu em disparada para o banheiro feminino, localizado em frente ao masculino.

Leona não teve tempo de se esconder numa das cabines. Portanto, grudou as costas na parede ao lado da porta. O coraçãozinho da menina batia forte, quase taquicardia. Precisou cobrir a boca para controlar a respiração ofegante.

— O que foi?

Leona reconheceu a voz de imediato. Eren Yeager. Outra pessoa respondeu. Essa fazia parte do mesmo círculo social. Floch Forster.

— Pensei ter escutado a voz da Leona.

— Eu também.

A última voz pertencia a uma mulher. A cabeça de Leona trabalhou arduamente em busca da dona do timbre. Louise. Acima da cabeça de Leona havia uma pequena janelinha. O senhor Algernon escapuliu da blusa de Leona, escalou sua cabeça e em dois pulos alcançou o parapeito, esgueirando-se para assistir os humanos sem ser visto.

A boca do senhor Algernon se escancarou. Ele lutou para não guinchar. Encolheu-se de medo no cantinho da janela, erguendo a pata dianteira bem pertinho do corpo, trêmula e preparada para correr caso fosse necessário.

— Bolinha, você vai ter que ver isso aqui.

Leona olhou para cima, ainda tampando a boca. Sua face expressava confusão interrogativa. A cabeça do senhor Algernon apareceu por sob o parapeito. A voz do rato era um sussurro estrangulado — quando queremos gritar e precisamos falar baixo.

— Eu acho que eles estão matando ratos.

A garotinha levantou as sobrancelhas. Floch, Eren e Louise não são cientistas. Eren é o portador do titã de ataque. Louise e Floch são só dois bundões. Não há motivos plausíveis para os soldados estarem matando ratos. Lá fora, Louise falou:

— Vou dar uma olhada por aí para ver se encontro ela.

— Nah, vocês estão ouvindo coisas. — Disse Eren, condescendente.

— Mesmo assim, não custa.

Barulho de botas vieram. A cada passada o coração de Leona batia mais forte. Louise passou reto pelo banheiro, indo checar as escadarias primeiro. Quando o barulho dos passos ficou distante, senhor Algernon começou a narrar o cenário:

— O humano de cabelo vermelho está com uma seringa, e o de cabelo comprido e pelo na cara está sentado. Não estou vendo nenhum rato.

— É seguro eu olhar? — Perguntou Leona, cheia de curiosidade apesar do medo.

— Só mais um pouco... okay, pode olhar agora.

Leona espiou por apenas um olho. Viu a exata cena descrita por senhor Algernon. Eren tinha um garrote amarrado na altura do bíceps do cotovelo apoiado no braço da cadeira. Ao seu lado, Floch segurava uma seringa. O compartimento transparente estava cheio de um liquido amarelo muito feio, parecia mijo de alguém que pouco bebe água. Floch pôs a agulha na veia saltada de Eren.

Leona não gostava de injeções. Seu problema não era a agulha, e sim a ideia de ter algo injetado no corpo. Achava isso fascinante e assustador ao mesmo tempo. Quando sua mãe lhe aplicava vacinas, Leona ficava parada, em choque, olhando o liquido, geralmente uma aguinha transparente, entrar em seu braço. Não se mexia nem um pouquinho de nada, pois tinha medo de a agulha quebrar dentro de sua pele. Aparentemente, Eren tinha a mesma opinião sobre injeções. O homem permaneceu imóvel até Floch terminar. O soldado riu primeiro para o braço e depois para o amigo.

— Haha. Sabe, Floch, eu não suporto esses forasteiros, mas admito que os brinquedinhos deles são muito mais legais que os nossos.

— Concordo, esse negócio deixa o astral da gente lá em cima.

Floch prensou um pequeno algodão no local onde a agulha entrou. Depois, trocaram de posição. Agora Floch sentava na cadeira. Eren encheu a seringa de mijo outra vez.

— Não seria irado, Floch, se a gente saísse por aí tomando tudo desses animais? Suas terras, seus brinquedos, suas esposas...

— Desde quando você come mulher? — Floch arqueou a sobrancelha.

— Pergunta pra tua irmã.

— Minha irmã? Então você não come mulher, você come porcaria.

Floch arregaçou as mangas da camisa. Eren deixou a seringa na pia e colocou o garrote no braço do soldado. O homem sentado fez careta ao ser apertado forte demais. Nesse momento, Louise entrou no campo de visão de Leona. A garotinha não reparara na volta da terceira soldada. Se escondeu, gemendo de surpresa.

— Não a encontrei. Vocês olharam no banheiro?

Louise se aproximava da porta do banheiro feminino. Leona gelou. A presença da soldada ficou cada vez mais próxima, ao ponto de Leona sentir o cheiro penetrante de cloro emanado pela garota.

— Louise, deixa disso, que saco. Volta pra cá e fecha a porta, por favor. — Eren soava impaciente.

Louise parou na moldura da porta. Bastaria virar a cabeça para ver Leona grudada na parede feito uma mosca morta. A soldada voltou para junto dos rapazes, proferindo xingamentos e palavras feias. A porta do banheiro masculino bateu. Leona deixou o ar sufocado escapar. A menina colocou ambas as mãos sobre o peito dolorido. Senhor Algernon caiu em sua cabeça e afagou o cabelo loiro, a tranquilizando. Mais calma, Leona se esgueirou para longe do banheiro feminino.

XXX

Leona olhava por cima do ombro para ver se Eren, Floch, Louise ou Hange vinham atrás dela. Ninguém apareceu. Chegar até a escada para o primeiro andar foi fácil. Leona descia os degraus em silêncio. O senhor Algernon, indignado e confuso, matracava no seu ouvido.

— Eu achei que vocês seres humanos só envenenavam outros animais, mas hoje descobri que vocês envenenam uns aos outros e a si mesmos também. Muito estranho.

— Aquilo não era veneno, era vacina.

Veneno mata. Essa é uma informação básica. Até onde Leona sabe, humanos não se envenenam. Pelo menos, não de propósito. O senhor Algernon pulou para o corrimão. Lá em baixo, a garotinha parou ao lado da escada e o rato ficou em pé no balaústre. Senhor Algernon colocou as patas uma de cada lado do corpo comprido, feito uma pessoa pondo as mãos na cintura.

— Era veneno sim. Vai duvidar logo de mim?

— Então como o Eren não caiu duro?

— Nem todo veneno mata. Digo isso por experiência própria.

Afirmou Senhor Algernon, sério e convicto. Leona franziu a sobrancelha, duvidando das palavras. Senhor Algernon endureceu a face já austera. Leona tentou buscar uma razão racional para os soldados se envenenarem. Não encontrou. Nem a sua mãe, que mexe com toxinas, injeta veneno no próprio braço.

Bem, Eren e seus amigos não faziam isso às claras. Eles usavam a seringa escondidos no banheiro de um andar pouco movimentado do quartel, e numa tarde de sábado onde o fluxo de pessoas era reduzido aos militares que moram na base e não têm para aonde ir nos fins de semana. Vovó Sophie costumava dizer: se você precisa se esconder para fazer alguma coisa, então essa coisa é errada.

Se Eren, Floch e Louise estavam fazendo coisa errada, então sua mãe precisava saber.

— Ei, aonde você vai?

— Vou contar pra minha mãe sobre os rapazes.

— E eu?

— Você não consegue achar o caminho daqui?

O senhor Algernon deu uma baixa risadinha encabulada. Leona pôde jurar ter visto as bochechas do rato ruborizando.

— É que eu estou com um pouquinho de medo.

Leona olhou para o topo da escada, e depois para o ratinho suplicante no corrimão. Bem, fiz uma promessa, não? Agora precisava cumprir.

— Obrigado, Bolinha.

Pelo menos já se localizavam no térreo. Bastava chegar na entrada do quartel-general — uma larga porta dupla aberta durante o dia e fechada pela noite. Após atravessa-la, senhor Algernon estaria livre para encontrar seus primos selvagens.

No entanto, a aventura não terminou como planejada. Vozes vieram do corredor seguinte, e aumentavam. As pessoas vinham na direção por onde Leona ia. Droga, dariam de cara com ela. A menina correu o olhar nervoso pelo corredor, procurando uma sala para se esconder. Entrou na primeira porta destrancada. Deu sorte de ser um cômodo vazio.

O quarto tinha uma mesa forrada por uma larga toalha branca. Sofás, poltronas e três estantes de livros compunham o resto da mobília. Aquele cômodo era uma de sala de espera onde as pessoas de fora aguardavam o militar com quem desejavam falar.

— Escondidos de novo.

— Não posso deixar ninguém me ver ou vão me levar de volta pro laboratório. Ei, tem uma janela.

Leona e senhor Algernon testaram as esquadrarias. A força dos dois não bastou para abrir a janela. A garotinha resmungou palavras de incentivo — "por favor, janelinha linda do meu coração, abre pra gente" — fazendo careta pelo esforço físico. De súbito, o senhor Algernon largou tudo para se enfiar na gola da blusa da menina.

Leona empalideceu ao ver a maçaneta girando. Se num segundo tentava abrir a janela, no outro se enfiava em baixo da mesa. Senhor Algernon gemeu ao ser espremido entre os joelhos e a barriga da garotinha. As pessoas de fora entraram. Leona reconheceu as vozes de Jean, Connie, Sasha, Mikasa, Armin e a do senhor Levi.

Alguém pôs no chão um balde cheio de produtos de limpeza, e outra pessoa – aparentemente Jean — começava a varrer. A voz do senhor Levi comandava quem faria o que. O capitão não parecia lá muito paciente. O lábio inferior de Leona tremia. Em compensação, o resto de seu corpo petrificara, e até a respiração parou. Pediu ajuda à Santinha e ao seu pai entre as estrelas, implorando para um dos dois dar um jeito de fazer os soldados desaparecerem através de seus poderes de criatura celestial.

Uma pessoa puxou a cadeira onde Leona se apoiava. A menina caiu de costas. Outro soldado tirou a toalha da mesa, assim expondo a intrusa por inteiro. Leona olhou para cima e viu a face surpresa de Mikasa.

— Bolinha? Sua mãe sabe que você está aqui?

Responda responda responda responda

Leona, atônita, demorou para responder. As bochechas coraram.

— Sabe sim. Minha mãe me deixou brincar aqui.

Mikasa a observou com atenção impassível. A Ackerman não acreditou na mentira. Leona engoliu em seco. O senhor Algernon se contorceu em baixo da roupa da menina. Os outros soldados também repararam na presença da criança.

— Huh? Bolinha? O que está fazendo aqui, meu amor? — Questionou Armin, complacente.

— E o que você está escondendo aí? — Perguntou Jean.

— N-nada!

A exclamação chegou muito perto de um grito. Nesse momento, a porta da sala foi aberta. O senhor Levi vinha trazendo mais baldes; os largou ao ver Leona. O capitão fez uma cara de meter medo.

— O que a Leona está fazendo aqui?

— Achamos ela escondida em baixo da mesa.

O senhor Levi abriu espaço entre os soldados. Ele vestia avental de limpeza, tal como os outros. O capitão perguntou à Leona aonde Hange estava. Leona respondeu a verdade. Os soldados se entreolharam, assustados e impressionados. O senhor Levi rosnou, meio chocado, meio irritado.

— Você veio do terceiro andar até aqui sozinha?

Leona aquiesceu. Os soldados fizeram "oh".

— Tá pra nascer alguém mais irresponsável que essa merda de Hange. Vem, Leona, Vou te levar pro laboratório. E quanto a vocês — Levi se virou para os soldados — quero ver essa sala limpinha quando eu voltar.

O senhor Algernon tremia de medo. A menina andou curvada, dando um sorriso tão largo e tão falso que fez os músculos do rosto doerem. Os soldados, óbvio, notaram o comportamento estranho. Armin foi o primeiro a se agachar. O soldado colocou as mãos nos braços dobrados da menina, sem fazer menção de empurrá-los. O semblante gentil de Armin não acalmou Leona.

— Bolinha, o que você tem aí? O mano não vai brigar com você.

Leona encarou o volume na roupa por baixo dos cílios, e então ergueu a cabeça bem rápido. Armin, percebendo o nervosismo da criança, deu um sorriso benevolente. Leona sorriu também. O mano era um cara bacana. Caso Leona explicasse a história toda direitinho, talvez Armin a ajudasse.

Leona afrouxou os braços. Senhor Algernon, prevendo as intenções da garotinha, voou pela gola da camisa de Leona tal como uma flecha. Armin gritou e caiu sentado. Connie, Jean e Sasha pegaram as vassouras e saíram dando porrada no rabo do rato. Mikasa se teletransportou para cima da mesa. A Ackerman fechou as mãos perto do rosto e escancarou a boca num grito agudo.

— AHHHHHHHHHHHH! SOCORRO! UM RATO BRANCO E FEIO! MATA, MATA, MATA, MATA!

Armin e Connie pararam tudo para ver a reação de Mikasa, e caíram na gargalhada — a mulher mais forte de Paradis com medo de um ratinho. Jean e Sasha lutavam bravamente contra o temível oponente. Senhor Algernon quicava, escapando habilmente das vassouradas; um inimigo mais custoso que os titãs e marleyanos enfrentados até então.

Leona aproveitou a confusão para escapar. Saiu na pontinha dos pés. Contudo, foi agarrada por Levi antes de alcançar a porta. Com apenas um braço, o capitão a ergueu de forma bruta e sem o mínimo cuidado, a levando na cintura como carregaria uma bola.

— Me solta, senhor Levi, por favor! — Leona choramingou, agitando os braços e as pernas no ar.

— Então você está espalhando ratos pelo quartel? Espere só até sua mãe saber disso.

Sasha deu uma vassourada nas costas de Jean tentando acertar o rato saltitante. O senhor Algernon veio correndo a fim de atravessar a porta aberta. Levi tentou esmaga-lo. O rato foi mais rápido e desapareceu no corredor. Leona colocou as mãos em forma de concha na boca e gritou:

— ATÉ MAIS, SENHOR ALGERNON!

— Senhor Algernon? — Uma ligeira interrogação apareceu no semblante inexpressivo do senhor Levi. — Você deu nome pra esse bicho?

— Não, ele me disse.

O capitão estalou a língua e deu um cascudo na cabeça da criança. Leona pôs as mãos no local atingido.

— Isso dói! — Leona reclamou.

— É pra você aprender a respeitar os mais velhos.

— Eu estou falando sério. Foi o rato que me disse.

A resposta de Levi foram palavrões exasperados. Mikasa, vermelha de vergonha, recusou a ajuda de Jean para descer da mesa enquanto Armin aceitou a de Sasha para se levantar. A essa altura, Levi já saíra do cômodo levando Leona em baixo do braço.

— Pelo amor da Santa. Eu mereço. Eu mereço. Não tive filho, e estou aqui catando a criança dos outros. Essa desgraça de Hange vai ver só quando eu chegar no laboratório. E você, Leona, se eu te pegar andando por aí sozinha outra vez, você vai receber bem mais do que um cascudo.

XXX

O senhor Levi falou, falou, falou e falou do primeiro andar até o terceiro. Os ouvidos de Leona doíam. No laboratório, encontraram Hange brincando de envenenamento. Levi entrou arregaçando tudo. A comandante deixou a seringa cair, e por pouco o rato não foi pelos ares. Hange prendeu o animal na primeira caixa que viu pela frente. Então, o único olho quase saltou da órbita ao ver Leona em baixo do braço do capitão. Levi afrouxou o aperto e Leona correu para trás dos joelhos da mãe.

— Hein? Bolinha? O que aconteceu, Levi?

Hange corria o olhar confuso entre os dois. A comandante tinha tendência a se perder em seu próprio mundo durante o trabalho, principalmente se for relacionado à ciência. Sendo assim, Levi não se surpreendeu por ela não ter dado conta do sumiço de Leona. No entanto, a situação o deixou arrepiado e nervoso. Leona tinha seis anos, algo muito grave poderia ter acontecido.

— Não tá óbvio o que aconteceu, jumenta retardada? Tua filha saiu e você nem percebeu. E sabe o que mais? Ela estava soltando ratos pelo quartel.

Hange, de boca aberta e o olhar surpreso, voltou-se para a criança escondida atrás de suas pernas. A expressão pasma logo deu a lugar à ferocidade. O olhar soberano que tanto amedrontava Leona veio, e tal como a menina previu no começo da aventura, algo muito pior veio em seguida:

— Assim que o Levi sair daqui, você e eu vamos conversar.

Leona balbuciou pedidos de desculpas. Hange esbravejou a mandando calar a boca. Levi sentiu pena de Leona, e também compreendeu a reação de Hange. A comandante ficou assustada de verdade ao descobrir que sua filha ficou mais de uma hora fora sem o seu conhecimento, e Hange tendia a exagerar um pouquinho quando de mau humor. O falecido pastor Nick poderia confirmar isso, caso estivesse vivo.

Hange apontou para os brinquedos espalhados. Os óculos refletiram a luz do ambiente quando a comandante moveu a cabeça. Hange bradou numa voz tão estressada que nem Levi reconheceu:

— Junte todas as suas coisas agora mesmo pra gente ir embora.

— Mãe...

— Agora.

A autoridade de Hange não permitia opiniões, misericórdia ou alternativas. Contudo, Leona tinha algo a dizer. Torcia para sua mãe ficar orgulhosa de seus hábeis poderes investigativos e desistir de brigar. Leona contou em alto e bom tom:

— O Eren, o Floch e a Louise estavam brincando de injeção no banheiro.

Dito isso, foi em disparada juntar os brinquedos. Deixou para trás um Levi boquiaberto e uma Hange muda. O braço esticado de Hange desceu. Em seguida, fechava-se num punho. E então, a comandante erguia as duas mãos para o alto, agitando-as. Levi se limitou a estalar a língua. Ambos entenderam a mensagem de Leona na hora.

Sabiam do contrabando de drogas estrangeiras dentro das muralhas, sendo a heroína a mais cobiçada. A contenção era trabalho da Polícia Militar. Tanto Levi quanto Hange não duvidavam que os policiais recebiam uma propina deliciosa para deixar a heroína comer solta. A utilização dos entorpecentes por parte de seus próprios soldados era algo que fugia do controle da Tropa de Exploração.

Mas, tudo tem limite.

Levi ficou consciente da cólera de Hange quando a mulher levantou os óculos – Hange os retirava nos momentos de fúria extrema. Eren e Floch já eram bem grandinhos para tomarem responsabilidade por seus atos; os superiores não podiam fazer nada além de aconselha-los. Com Louise é outro caso — ela tinha dezessete anos. Hange e Levi ficaram enojados.

— Além de ratos, também temos três drogados soltos no quartel. — Desdenhou Levi.

— E um deles é menor.

— A Leona viu eles.

— O que você quer que eu faça, Levi? — Hange avançou em Levi, preparada para cometer um ato de violência. — Quer que eu volte no tempo?

— Ei, ei. — Levi ergueu as palmas das mãos, pedindo calma. E pensar que entrou no laboratório planejando dar uma bronca em Hange.

A comandante cobriu o rosto, esbarrando no tapa-olho. Embora fosse sua vontade, Hange não tinha direito de proibir os soldados de se drogarem. O dinheiro é deles. Se querem gastar com porcaria, que o façam. Entretanto, usar dentro do quartel, e ainda arrastar adolescentes junto, é abusar da boa vontade.

Hange acompanhou Levi até a porta. A comandante parou na soleira e Levi no lado de fora. Leona os observava pelo rabo do olho. Usando a voz mais delicada do mundo, Levi perguntou:

— Você quer que eu dê um jeito nisso?

— Não, deixa eles. Eu resolvo esse assunto na segunda.

— E depois que você resolver, posso dar uns chutes nos dois?

Levi ficou contente por arrancar um pequeno sorriso de Hange. Ela pôs a mão na porta a fim de fechá-la. Leona, percebendo a conversa dos adultos se aproximando do fim, sentiu o coração acelerar. Começou a brincar com a própria bermuda para descontar a ansiedade. Não adiantou muito.

— Obrigada, Levi. Agora eu preciso ter uma conversinha com a minha filha.

Leona não gostou nem um pouquinho da ênfase, tampouco da face zangada de sua mãe a encarando por cima do ombro. Engoliu em seco. Como queria desaparecer. Hange se despediu de Levi. A porta fez um clique audível ao ser fechada.

A comandante recolocou os óculos. Veio andando na direção da garotinha sentada no piso frio do laboratório, e a cada passada Leona via-se mais perto de sofrer um derrame. Não gostava de deixar sua mãe brava. Entretanto, não se arrependia de ter ajudado o senhor Algernon. Teria feito tudo de novo.

Hange sentou na frente da filha, cruzando as pernas em lótus e deixando as mãos descansarem entre elas. A comandante pendeu a cabeça cansada. O olho fechado, a boca cerrada e o cabelo castanho caído por sobre o rosto faziam parte da expressão de puro desapontamento.

Ver sua mãe daquele jeito a fez sentir uma tristeza profunda, beirando o ódio por si mesma. Amava sua mãe de todo coração. Ninguém tinha o direito de deixa-la chateada, nem a própria filha. Preferia levar mil cascudos a ver sua mãe com aquela carinha triste e consternada. Prometeu fazer o impossível para nunca mais desapontá-la. É óbvio que essa promessa não foi cumprida.

— Mãe, eu...

— O que deu em você para sair sem me avisar?

Hange a interrompeu falando num controlado tom assertivo. Descontava a irritação nos punhos entre as pernas dobradas, fechando-os até as unhas machucarem as palmas das mãos.

— E se você cai da escada? Se você se perde? Se você acaba trancada por engano numa das salas daqui? E se alguém te vê sozinha e resolve fazer maldade com você?

Hange falava sem perder o fôlego, aproveitando para pôr para fora todos os cenários que passaram por sua cabeça no segundo em que soube do sumiço de Leona. Sim, nada aconteceu. Sim, ela já está em segurança. Hange sabia dessas coisas, mas não conseguia se segurar. Os nervos continuavam a flor da pele. E se algo tivesse acontecido com sua filha? O que faria?

O peito de Leona subia e descia conforme a menina tentava controlar o ar ofegante.

— Mãe, desculpa.

Hange retomou a fala.

— Outra coisa, eu não disse pra segurar aquele rato? O Levi se mata limpando o quartel. Você sabe disso.

Falando por si mesma, Hange não se importava com ratos no quartel. Na opinião dela, é inevitável a presença de pragas uma vez ou outra, ainda mais num prédio tão antigo. Todavia, Levi e os outros faziam das tripas coração para manter o quartel-general desinfetado. Em consideração a eles precisava dar essa lição à Leona.

Em contrapartida, Leona, em vez de demonstrar solidariedade para com os soldados e se arrepender da travessura, suplicou:

— Mãezinha, por favor, não deixa eles matarem o senhor Algernon. Eu prometo que não faço mais.

A boca de Hange permaneceu cerrada. As sobrancelhas, por outro lado, foram erguidas.

— Você chamou o rato de senhor Algernon?

— Não, ele me disse que se chamava assim.

Diferente de Levi, Hange sabia diferenciar atrevimento de honestidade. Leona tinha mania de fingir que os brinquedos tinham vida própria. Não era surpresa fazer o mesmo com animais. Hange revirou o olho.

— Tá, dá na mesma. Por que você soltou o "senhor Algernon"? Você acha isso bonito?

— Eu queria soltar na rua, mas me pegaram antes.

— E então você deixou o senhor Algernon fugir em vez de entregar a alguém?

— Sim, se não iam mata-lo.

— E se matassem, Leona? E daí?

Hange perdeu a paciência. Não conseguia enxergar lógica no pensamento de Leona. Era só um rato. Caramba, tem um monte na gaiola. Se matassem o "senhor Algernon", Hange daria outro rato à Leona com o maior prazer do mundo. Entretanto, Leona não pensava dessa forma. A garotinha falava como se criatura fosse um ser racional provido de vontade própria e sentimentos, e não um animal ínfimo. O olhar de Leona foi para o chão. A pergunta foi um genuíno questionamento infantil, mas o impacto foi diferente na ouvinte:

— Não sei... precisa ser assim, mãe? Digo... precisam mesmo matar o senhor Algernon? Por quê?

Os ratos na gaiola continuavam o guincho interminável. Hange lembrou da cobaia roendo as próprias patas. Abriu a boca para responder a pergunta de Leona, e descobriu, afinal, não ter resposta. O livro de venenos jazia aberto na mesa metálica ao lado do rato trancafiado – prendeu o animal numa caixa sem saída de ar – com cada toxina e seus respectivos efeitos descritos detalhadamente. Hange sabia as reações de cada veneno, e mesmo assim encomendou animais só para vê-los em ação.

Vidas jogadas fora por prazer. "Precisa ser assim, mãe?", Leona tinha perguntado. Hange se pegou pensando: na verdade... não, filhotinho.

A comandante sorriu, meio sem graça. A garotinha ficou confusa num primeiro momento. Porém, quando a mãe abriu os braços, Leona saltou entre eles. Hange a abraçou. Leona era uma pessoa de boa índole. Ela via dignidade até na mais insignificante criatura. Não igualava humanos à ratos, mas vidas a vidas, da mesma forma como a própria Hange enxergava eldianos e forasteiros – não como inimigos históricos, e sim seres humanos que merecem respeito e liberdade. Todas as vidas importam.

— Você está certa, Bolinha. O rat- senhor Algernon não precisa morrer.

— Então você não está brava comigo?

— Por você ter saído, sim. Sobre o rat- senhor Algernon, não.

O sorriso de Leona desapareceu por saber que não escaparia do castigo. Ambas levantaram. Hange pendurou o jaleco nas costas da cadeira. Viu as cobaias mortas e sentiu uma pontinha de arrependimento. Depois, foi até o rato trancafiado. O roedor prontamente tentou mordê-la. Hange contemplou os animais albinos na gaiola. É hora de fazer diferente.

— Bolinha, o que você acha de soltarmos todos os ratos?

— Sério? OBA!

Leona soltou o trinco da gaiola. Hange tentou pará-la, contudo, já era tarde demais. Ratos brancos voaram gaiola a fora, pulando, correndo e se esgueirando entre as estantes, frascos, cadeiras, mesas, canos e prateleiras. O rato na mão de Hange a mordeu no polegar. Hange gritou de dor e soltou o animal. O roedor sumiu em baixo da bancada.

— ...desculpa, mãe.

Leona coçou o pescoço, sorrindo sem graça. Hange chupava o polegar machucado. Então, a comandante gargalhou. É impossível ficar brava com Leona. Levaram mais de uma hora para recuperar os ratos. A essa altura, senhor Algernon já encontrara outros ratos na cidade. Eventualmente, Leona esqueceu o nome do rato. Em sua memória permaneceu apenas o contexto da aventura, em outras palavras, "o dia em que fugi do laboratório pra salvar um rato". O animal, em contrapartida, jamais esqueceu o nome de Leona, nem seu apelido.