Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
25 Leão feroz
O porto foi aberto quatro semanas após o homicídio. A essa altura, Floch já tinha conseguido transferência para a muralha Rose. Outro soldado tomara seu lugar na base litorânea. Junto com este homem desconhecido, paradisianos e marleyanos também começaram a exercer novas profissões na infraestrutura. Bem ou mal, o povo não falava de outra coisa. A Capital alimentava os civis com esperanças promissoras sobre o futuro de Paradis, sendo este o assunto da assembleia de hoje.
A tal reunião só aconteceria daqui algumas horas. Enquanto isso, Hange e Levi passavam o tempo na praça em frente ao palácio. O jardim bem-cuidado era vigiado por gloriosas esculturas de arbustos. Figuras de reis, rainhas, animais e guerreiros. O estado impecável das estátuas evidenciava a atenção constante do jardineiro. A praça era quadrada, e no centro existia um lago artificial resistindo ao envelhecimento através da manutenção diária. Carpas coloridas nadavam na água cristalina. Policiais militares garantiam a obediência da placa – não alimente os peixes. No centro, a estátua de uma mulher seminua usava o balde de pedra para derramar água na fonte. A posição da cabeça não permitia aos visitantes ver os olhos de mármore por baixo dos cílios.
Hange e Levi assistiam os peixes nadando. A garotinha entre eles pulava e apontava para a comprida carpa albina no meio das multicoloridas, a única unicolor. Era a primeira vez de Leona na muralha Sina. A vinda da menina foi planejada. Na noite do próximo dia, o governo inauguraria um museu baseado na história de Paradis, com direito a uma ala só para a Tropa de Exploração. Haveria uma festa para comemorar tanto a abertura do porto quanto a do museu. Muitos militares levariam a família, e Hange não quis bancar a diferente.
Além disso, achava que a filha estava na idade de experimentar longas viagens. Por causa da distância, levava um dia inteiro para ir da muralha Rose até a Capital. A Leona de quatro anos nunca aguentaria uma jornada daquelas — já se estressava bastante no trajeto de cinco horas para visitar o distrito da avó — a de cinco anos, entretanto, viajou sem reclamar. A demora acontecia por causa do transporte de tração animal. Precisavam trocar de carruagem pelo menos sete vezes porque os animais cansavam. Em breve, quem sabe, pudessem substituir os cavalos pelos tais carros.
— Mãe, leões comem peixe?
Onyankopon presenteara Leona com um livro de animais. Toda semana, a filha de Hange abandonava a forma humana e se transformava num bicho diferente. Já fora hiena, camaleão, gorila e tubarão. Esse último foi bem engraçado, Leona chorava porque ia morrer se ficasse fora d'água. Nos últimos dias, andava obcecada por leões; felinos selvagens naturais da África.
— O livro só menciona carne vermelha. — Hange respondeu.
— Ah, então não posso comê-los. — Lamentou Leona. Em seguida, perguntou: — Por que aquele peixe é diferente?
— É uma anomalia. Deu algum problema na barriga quando a mamãe peixe estava grávida.
Levi riu através dos olhos, sem precisar ver o de Hange para saber que ela fazia o mesmo. Como você, eu, Levi e Hange sabemos, peixes não engravidam. A comandante apenas brincava com Leona, e também aproveitava para testar os conhecimentos da criança. Leona assentiu. Então, ao processar o absurdo dito, o choque substituiu a carinha sorridente. Ergueu o rosto para a mãe, arqueando a sobrancelha.
— Mãe, peixes põem ovos.
— Ah, é mesmo. Desculpe, esqueci que são mamíferos.
— Ovíparos.
Leona corrigiu-a com desaprovação professoral — poxa, mãe, como você é burra. Hange riu entredentes e se afastou do lago. Leona a acompanhou e Levi foi logo atrás. A garotinha detestava segurar a mão dos adultos, preferindo correr solta por aí. No momento, andava de quatro. Rosnava para o vento, fingindo caçar uma presa invisível. Atravessaram a rua para chegar no palácio do outro lado, onde policiais militares e soldados estacionários esperavam no lado de fora.
Passaram pelo portão aberto — o mesmo por onde, certa vez, uma comandante grávida fugiu às pressas. Na escada, Eren e Floch atrapalhavam a passagem sentando no centro do segundo degrau; papeavam com Hitch Dreyse, uma policial militar. Os três entraram no palácio, percorreram corredor e chegaram no saguão.
O queixo de Leona caiu. A garotinha nunca tinha visto uma peça tão larga, alta e bonita. Saltitou sobre o tapete vermelho, contemplando os desenhos ornamentais no teto, o piso brilhando de limpo e as paredes decoradas por pinturas enormes. Tinha uma escadaria dourada logo a frente, que se expandia em duas no topo, uma indo para a esquerda e outra para a direita. As vozes inanimadas dos lances de escada instigavam Leona a conhecer o segundo andar. Entretanto, a negativa na face de Hange cortou suas asas. Dois policiais, em cada corrimão, protegiam os andares superiores dos curiosos.
O saguão estava lotado. A grande maioria do pessoal trajava jaquetas bordadas com o perfil de um cavalo. Hange e Levi corriam o olhar pelas costas dos militares, procurando as rosas da Tropa Estacionária. A comandante tinha uma dúvida para tirar com Pixis, e queria fazer isso antes da assembleia começar.
Contudo, foram encontrados primeiro, e não pela pessoa que buscavam. Leona chamou a atenção da mãe e do capitão ao cumprimentar, em sua vozinha alegre de criança:
— Senhor Zackly!
Leona correu de encontro ao general. Um policial de bigode feio acompanhava o senhor gordinho. Leona parou numa distância respeitável, endureceu a postura e estendeu a mão rígida. Lembrou do sorriso idiota. Não posso sorrir, preciso fazer cara de menina grande. Fechou a cara abruptamente.
— Vejam só, a pequena Smith veio visitar a Capital.
Zackly apertou a mão de Leona, a sacudindo para baixo e para cima. Hange e Levi se juntaram a eles. O general os cumprimentou também.
— Comandante. Capitão.
— Bom dia, general. Olá, comandante Nile.
Hange saudou cordialmente. Levi levantou a palma da mão num cumprimento distante. Bigode Feio — na verdade, o policial se chamava Nile Dok — se transformou em um par de olhos gigantes. Pouco reparou nos dois militares. O policial questionou, numa voz tão amorosa que chegava a ser difícil acreditar pertencer a ele:
— Essa é a Leona, Hange?
Levi e Hange trocaram mensagens telepáticas. Quero só ver o que esse filho da puta vai falar, desdenhou Hange. Levi, por sua vez, passou o seguinte recado: deixa eu dar uma bicuda nesse infeliz.
— A própria.
— Olá! — Leona acenou para o policial. — Qual é o nome do senhor?
Nile Dok se agachou na frente de Leona. Apesar dos dentes brancos, o sorriso era muito esquisito. Para quem não conhecia Nile, a feição babona podia ser desconcertante. Leona apertou as sobrancelhas. Desconfiada, recuou um passo. O comandante da polícia aproximou a mão do cabelo dourado penteado para a esquerda. Leona não gostou dos modos invasivos. Acabaram de se conhecer, e ele já queria tocá-la?
— Bolinha.
Hange, percebendo o desconforto da filha, a chamou de forma involuntária e repentina. Leona abandonou Nile, indo se esconder atrás dos joelhos da mãe. A menina estudou o policial de longe, acuada. Hange pôs o braço ao redor dos ombros pequenos num gesto tranquilizador. Não se preocupe, não vou deixar esse cara tocar em você, disse a comandante por meio do olhar baixo. Leona captou a mensagem e relaxou.
Enquanto Hange acalmava a filha, Levi cruzava os braços e ralhava:
— Você não sabe conversar sem agarrar as pessoas, Bigodinho?
Nile ignorou ou não ouviu. Permanecia aturdido, como se tivesse reencontrado por acaso um amigo de longa data desaparecido há duas décadas. Por fim, o policial acordou do transe. Um sorriso doce se desenhou na boca outrora caída, e a pele ganhou cor. De repente, Nile rejuvenesceu dez anos. Quando falou, suas palavras chegaram muito perto de abalar a inexpressividade de Levi, e perturbaram algumas noites de Hange.
— Ah, menininha, você se parece tanto com um grande camarada meu.
A frase sentimental não surtiu efeito em Leona; a menina franziu as sobrancelhas e agarrou a perna de Hange. Zackly deu batidinhas no ombro de Nile. O policial se levantou, limpando a lágrima solitária do canto do olho. Zackly sorriu para Leona, e a indicou com a mão estendida. O mesmo gesto que um vendedor faria para mostrar um cavalo ou uma máquina. O sangue de Hange ferveu.
— Eu já tive um papinho com a pequena Smith, Nile, ela me disse que vai seguir os passos do pai.
— Oh, é mesmo? — Disse Nile, encantado.
Hange apertou os punhos. Leona apenas brincou de ser comandante. Zackly, o adulto imundo, distorcia a verdade. Levi cerrou os olhos, mostrando tanto descontentamento quanto Hange. A comandante abriu a boca para falar umas coisinhas bem mal-educadas ao general, entretanto, Leona agiu primeiro.
A garotinha saltou, ficando entre as duplas. Os homens pararam de falar, expectantes e sorridentes ante a postura enérgica da filha de Erwin. Aguardavam o próximo ato de sua estimada pequena comandante. As mãozinhas se ergueram, os dedos retorcidos imitavam garras bestiais compridas.
— Não sou comandante coisa nenhuma. Sou um leão feroz. ROAAAR.
Leona escancarou a boca e rugiu. O som ecoou pelo saguão, chamando a atenção dos estranhos. Estes rapidamente ignoraram o barulho ao descobrirem a fonte. O fascínio nas caras de Zackly e Nile evaporou de súbito; o sorriso tornou-se forçado nas faces paralisadas. Hange, em contrapartida, não poderia estar mais feliz.
A comandante avançou, parando ao lado da filha. Imitou a pose animalesca, erguendo as unhas. Só que, diferente da menininha, Hange realmente parecia disposta a arranhar Nile e Zackly. Os militares engoliram em seco. É melhor não testar a sanidade de Hange.
— A mãe dela também um leão feroz. ROAAR.
Zackly piscou. Hange viu desaprovação no rosto do general, e adorou. Leona, por outro lado, nunca esteve tão alegre. Tendo permissão da mãe para sair bancando o leão feroz pelo palácio, correu desajeitadamente de quatro na direção dos vigias guardando a escada, e se pôs a incomodá-los com rugidos. Pela lógica, Hange deveria tê-la buscado. Estavam num ambiente formal onde crianças, quando permitidas, deviam se comportar. Ah, por favor, Leona só tem cinco anos, Hange revirou os olhos. Que mal tem deixar a criança ser criança?
O general mudou da água para o vinho – ou do vinho para a água, nesse caso. Fechando a cara, Zackly se despediu falando um irritadiço "nos vemos na reunião" e se afastou do grupo. Hange riu sozinha. Levi sorriu pelo cantinho da boca. Nada de pequenos comandantes aqui, general.
— Você e a Leona vão aparecer na festa? — Ao contrário de Zackly, Nile não parecia nem um pouco decepcionado. — Marie vai adorar conhecer vocês. Minhas filhas vão estar lá também.
— Vamos. — Hange deu uma olhadela para Levi. — Nós três.
Nile balançou a cabeça positivamente, o semblante do policial indicava o amadurecimento de uma ideia. Após a rápida ponderação, Nile perguntou, meio agitado:
— Vocês estão hospedados no Overlook? Quero mandar um presente para a Leona.
— Estamos. O que você vai dar pra ela?
Nile cruzou os braços e fez negativas – o presente era uma surpresa. A comandante assentiu, retribuindo o sorriso. O único de cara fechada ali era Levi, mas esse detalhe é parte da normalidade. Nile mudou de assunto.
— Você já sabe quem vai indicar para o cargo de comandante da marinha? Meus colegas pediram pra eu esquentar o banco pra eles. Mas, não vou. Eles são um bando de vagabundos, não querem nada com nada. As coisas precisam ser corretas. Tenho só dois nomes para sugerir.
Esse era o principal tópico da reunião. De acordo com os voluntários, Paradis precisava de mais duas divisões militares: marinha e aeronáutica. A primeira para lutar no mar, e a segunda no ar. Como não tinham aviões, nem conhecimento para construí-los, demoraria algum tempo até a aeronáutica ser desenvolvida. Na questão da marinha, tinham o porto, os barcos e bastante praia para construir novas bases.
Vários recrutas em fase de treinamento mostravam interesse em atuar no mar. A Tropa Estacionária quase não receberia soldados novos naquele ano. Na reunião, nomeariam um homem ou uma mulher como comandante da marinha. Os pré-requisitos eram: ser natural de Paradis e possuir experiência militar.
Hange e Nile conversaram sobre nomes. Levi não falou palavrinha, limitando-se a acompanhar o papo dos dois comandantes. Então, Hange perguntou a Nile se ele sabia aonde Pixis estava, e o policial respondeu que o terceiro comandante havia saído do palácio para resolver uma emergência. Hange, decidindo esperar Pixis no lado de fora, despediu-se de Nile e foi buscar Leona.
A garotinha dava uma aula sobre leões ao vigia. O guarda fingia interesse; exatamente como os soldados da Tropa de Exploração, incluindo o próprio Levi, costumavam fazer com Hange anos atrás, quando a cientista não passava de uma líder de esquadrão obcecada por titãs.
— Ei, obrigada por conversar com ela. Desculpa qualquer coisa.
Hange agradeceu, sorrindo. O jovem guarda sorriu pequeno, coçando a nuca. O rapaz não tinha conhecimento da boa ação feita até receber o agradecimento da comandante.
— Vem, leãozinho, vamos lá para fora.
— Tchau, senhor policial.
XXX
Naquele ínterim, mais militares chegaram para a assembleia. Policiais, soldados estacionários e da Tropa de Exploração conversavam entre si. Jean, Sasha, Armin, Connie e Mikasa estavam lá também. Os soldados aproveitaram a viagem por causa da inauguração do museu, evento o qual queriam comparecer. A presença do esquadrão 104 não era obrigatória na reunião. Porém, como a Capital pagava hotel e transporte, pegava mal não aparecer no palácio.
Hange e Levi encontraram Pixis. A comandante acenou para chamá-lo. Enquanto isso, os subordinados da Tropa de Exploração faziam o mesmo com Leona. A garotinha, reconhecendo seus amigos do quartel, sorriu de orelha a orelha. Cumprimentou um por um com abraços e beijos. Jean a ergueu no colo.
— Ei, Bolinha, está gostando da Capital? — Jean a beijou na bochecha.
— Muito! Nunca vi uma cidade tão bonita.
Jean largou Leona no chão, e então Mikasa dobrava a coluna e colocava as mãos nos joelhos para conversarem cara a cara.
— Quer passear com a gente hoje à noite?
— Que ótima ideia! Vou poder pagar a promessa que fiz pra Leona antes dela nascer.
Observou Sasha, batendo palminha. Os soldados entraram em nostalgia coletiva. Recordaram aquela tarde distante onde conversaram com a barriga grávida de seis meses. A bebê crescendo lá dentro nem imaginava o vasto mundo do lado de fora do ventre onde vivia. Em compensação, agora essa mesma bebê não recorda como era morar na barriga da mãe. A garotinha entreolhou os soldados, confusa.
— Huh? Que promessa?
— A Sasha falava que, quando você nascesse, ia te levar para jantar. — Respondeu Connie.
— Não me lembro. — Leona disse humildemente.
— Haha, você é tão engraçada. Vem com a gente, Bolinha, vou te pagar um jantar digno de princesa. Não, melhor, de rainha!
— Tenho que ver se a minha mãe deixa.
Armin entrou na conversa. O soldado fez carinho na cabeça da menina, dizendo:
— Não se preocupe, eu converso com a sua mãe.
— Obrigada, mano. Se você pedir, tenho certeza que ela deixa.
Leona falava como se Hange fosse uma mãe restritiva, porém, a comandante era o contrário. Os soldados sabiam disso, portanto acharam graça da fala da menina. Nesse momento, uma gargalhada alta e grave quebrou o fluxo natural das conversas. Alguns militares, incluindo os da Tropa de Exploração, pararam para olhar o soldado de cabelo comprido sentado no centro da escada. Jean torceu a cara. Armin e Mikasa ficaram com vergonha alheia.
— O Eren e o Floch vão ir?
Apesar do episódio da medalha, o coração bom falava mais alto. Leona gostava dos rapazes. Eren não era de todo mal, para ser sincero. Ele pegava Leona pelos braços e a girava numa velocidade surreal, mais forte do que um moinho. Leona sempre saia tonta dessa brincadeira bruta. Floch também era um carinha legal; no aniversário de cinco anos, o soldado a presenteara com um estojo de maquiagem, e quando Leona perguntou se podia estreá-lo nele, o rapaz disse sim e passou o resto da festa pintado.
Não são pessoas más. Só meio loucos. E mentirosos também, convenhamos.
— A gente convidou, mas o Eren ficou fazendo cu doce. — Jean deu de ombros.
— Jean, não fala palavrão na frente dela! — Mikasa o repreendeu.
— Vou ver se eles querem ir.
Leona abandonou o grupo para ir até a dupla de soldados. Eles ainda papeavam com a mesma policial. Enquanto descia os degraus, percebeu que Eren e Floch não tinham reparado na sua presença. Hitch, a policial, também não. Acontece, crianças são invisíveis. Posto isso, Leona viu ali uma oportunidade de treinar caça. Algo dentro dela tentou impedi-la, contudo, o pensamento intrusivo foi mais forte, bem como o desejo de pegar uma presa viva.
A imaginação fértil visualizou a grama seca da Savana. Curvou os ombros para ficar mais baixa, como se o mato de fato existisse. Fingiu camuflar-se na paisagem. As pupilas dilataram, os olhos grandes se atentaram ao soldado de cabelo comprido. Que animal Eren seria caso fosse um? Leona achava que ele combinava com alpacas. Cabeludinho igual.
Leona firmou os pés no degrau e sacolejou o corpo à moda felina. Fez ROAAR e saltou nas costas de Eren. O soldado por pouco não caiu de cara no chão de pedra. Floch, em contrapartida, não teve a mesma sorte. O soldado ruivo deu um grito muito fino, beirando a feminilidade, e caiu de lado. Hitch teve uma crise de riso.
— Bolinha, caralho!
Floch ergueu-se limpando o uniforme. Eren retomou o equilíbrio, e agora Leona deslizava pelas costas do soldado e punha-se de pé no terceiro degrau, embora permanecesse abraçada ao pescoço do rapaz.
— Assustei você?
— Nem um pouco.
Respondeu Eren, pondo a mão trêmula no peito. Leona subiu nas costas dele outra vez, firmando os pés nas costelas do soldado e o abraçando pela cabeça, apoiando o queixo no topo da cabeça cabeluda.
— Por que você e o Floch não querem passear com a gente?
— Um homem não pode passar a noite em paz? As minhas costas doem. — Eren soava entediado.
— Ahhh, Eren, por favooooor, vai ser tão legal! Floch, você também! Por favor, por favor, por favor, por favor
— Leona, para de gritar no meu ouvido ou eu vou me jogar pra trás e esmagar você.
— Duvido!
Leona o desafiou. Eren começou a deitar. Leona, assustada com o prospecto de ser esmigalhada na escada, o largou bem rapidinho. Isso arrancou mais risadas de Hitch. Leona, vendo a policial rir, acabou rindo também.
— Quem é essa menininha? — Questionou Hitch.
— É a filha da comandante Hange. — Respondeu Floch, sentando na escada.
Nesse momento, Jean apareceu. O rapaz colocou uma mão na cabeça de Floch, e a outra na de Eren. Bagunçou o cabelo dos amigos. Floch reclamou, ajeitando a franja. Eren não se deu ao trabalho.
— E aí, seus cuzões, vão sair conosco?
— Eu já disse que não. — Respondeu Eren, displicente.
— E eu já te falei que não tô cagando dinheiro pra ir no teatro da Capital. — Disse Floch, ríspido.
Jean revirou os olhos. Sentou-se entre os soldados e os amassou num abraçado duplo, os envolvendo pelo pescoço.
— Poxa, gente, só vamos ficar três dias aqui. Vão passar a noite mofando no hotel?
— Não, Jean, vou passar a noite fodendo. Já fui no prostíbulo e pedi pro cafetão mandar tua mãe. Vou comer ela bem comida. Você vai ver.
Quem disse isso foi Eren, numa voz muito séria. Floch gargalhou, e Hitch entrou na onda. Jean jogou os dois soldados longe. Leona pendeu o rosto para o lado. Por que o Eren quer comer a mãe do Jean? Ela se perguntou. Será que carne humana tem gosto bom? Leona lambeu o próprio braço. Hummm... não, não tem. Pelo menos, não cru.
— Está rindo por que, Floch? Até onde eu sei, sua mãe é uma quarentona gostosa. Eu sei aonde você mora. Se liga, hein.
— Haha, vocês são impossíveis. — Provocou Hitch.
Minha nossa, admirou-se Leona, agora o Jean quer comer a mãe do Floch. O dito cujo, no entanto, riu feito louco, sem parecer preocupado com a possibilidade de a mãe ir para a panela. Bom, comer a mãe de alguém não deve ser crime, apesar do contexto. A garotinha pôs o dedo entre o lábio e o nariz, ponderando se alguém queria comer a sua. Tomara que não.
— Está se divertindo com os meninos, Bolinha?
Hange perguntou do topo da escada. O senhor Levi se postava ao lado dela. Pelo visto, a comandante não escutou a conversa desconcertante dos soldados. Leona abriu a boca para contar a ela, e também para questionar como se come a mãe de alguém.
— Mãe, quero te perguntar uma coisa.
— Depois respondo todas as perguntas que você tiver, Bolinha. Agora preciso ir para a reunião. — Hange voltou-se para os soldados na parte baixa da escada. — Garotos, algum de vocês vai ficar aqui?
— Eu vou.
Quem respondeu foi Floch. Normalmente, o soldado não perdia reuniões sobre o futuro de seu país. Entretanto, após descobrir que o comandante da marinha vai ser um eldiano puro, Floch perdeu o interesse. Seu único problema em relação à marinha era a identidade do líder, e essa questão já fora respondida.
— Pode olhar a Leona pra mim?
Floch assentiu. Todavia, Leona desaprovou a ideia. Os olhinhos murcharam como Erwin costumava fazer quando desapontado, mas o beiço gigantesco logo abaixo era muito parecido com os de Hange.
— Ah, mãe, não posso ir?
— É claro que não. Fica aí com o Floch, sim?
Leona franziu o cenho, cruzou os braços e deu as costas para Hange. A comandante pediu um beijo de tchauzinho. Leona negou. Hange, que não tinha medo de leões ferozes, abraçou a filha e a beijou mesmo assim. A garotinha furiosa empurrou-a pelo maxilar, rosnando. Em resposta à teimosia, Hange apenas riu.
Jean, Eren e Levi foram atrás da comandante. Leona permaneceu de braços cruzados, puta da cara. Jean passou a mão pelo cabelo curto ao passar por ela. Leona não reagiu. Quando a mãe e os subordinados desapareceram, a garotinha sentou ao lado de Floch, abraçou os joelhos, voltou o olhar bravo para o chão, e reclamou:
— Nunca posso ir a lugar nenhum.
O soldado e a policial sorriram. Hitch se agachou sem encostar as calças no piso e chamou a atenção da menininha injustiçada. Leona ergueu o rosto. Encontrou Hitch sorrindo sem mostrar os dentes. Era um sorriso encantador, apimentado por um toque natural de atrevimento.
— Não fica chateada, essas reuniões são um saco. — Hitch soava divertida. — Vem, tia Hitch vai pagar um churrasquinho pra você.
— E pro Floch também. — Floch provocou, erguendo-se.
— Aí você acordou todo mijado.
Os três atravessaram a rua. Na calçada da praça, um vendedor assava carne numa churrasqueira portátil de ferro. O guarda-sol preso no carrinho protegia o cozinheiro dos raios solares. Na Capital, até a comida de rua é chique. Na cidade de Leona, os vendedores de churrasquinho armavam uma churrasqueira improvisada e faziam fogo com gravetos encontrados por aí, enquanto aquele homem usava papel e carvão apropriado. Sem falar no uniforme. O churrasqueiro vestia avental e sapatos limpos, tão bem arrumando quanto os nobres. Os das outras cidades usavam camisa comum, normalmente imunda de gordura.
— Oi, moço! Adorei seu carrinho.
— Olá, menininha. Puxa, muito obrigado. O que vai ser para vocês?
Leona pediu espetinho de porco, Hitch escolheu filé e Floch quis frango. O homem perguntou se queriam algo para beber, e quando Floch perguntou se tinha vinho, o vendedor ofereceu duas opções: paradisiano e marleyano. Floch torceu a cara.
— Quero o paradisiano, lógico.
Os pedidos saíram em menos de cinco minutos. O suco de Leona veio numa garrafa pequena, fofa e intransparente, da cor vermelha. O brasão da muralha Sina decorava a garrafinha.
Os três sentaram na área externa da praça, num banco tamanduá. As carruagens e as pessoas iam e vinham do trabalho, da escola, do bar, da casa da namorada do melhor amigo... enfim, cuidando de suas respectivas vidas. Hitch cruzou as pernas; comia o espeto em mordidas curtas, sem arrancar a carne do palito. Floch pôs o vinho no chão e alisou o sobretudo para a roupa não amarrotar atrás. Leona se acomodou entre os dois militares, quase deitando no banco; comia de boca aberta e balançava as pernas.
— Ei, Hitch. — Floch pausou a refeição. — Eren e eu estamos organizando um clube só para soldados paradisianos. A gente se encontra de quinze em quinze dias pra beber, jogar cartas, ir a festas, essas coisas. Você quer participar?
Hitch só o respondeu depois de engolir o filé. Leona entreolhava os soldados, prestando atenção.
— Quem está nesse clube?
— O Eren, eu, a Louise, e mais uns três.
À menção do nome feminino, Hitch fez careta. Não ia com a cara de Louise. Às vezes, conhecemos pessoas e temos a impressão de que elas não legais. Em muitos casos, descobrimos que esses tais indivíduos, realmente, não são nem um pouquinho legais. Gastar dinheiro para ficar no mesmo ambiente que Louise? Nem pensar.
— Eu passo, Floch. Em outro momento, quem sabe.
— Eu posso entrar pro clube, Floch? — Perguntou Leona.
— Desculpe, Bolinha, só são permitidos militares.
Leona deu de ombros. A garotinha retomou o lanche e os dois adultos a imitaram, comendo em silêncio. Nos próximos meses, Floch convidaria Hitch mais quatro vezes para participar do clube, e nas quatro vezes ela diria não. Daqui alguns anos, a policial vai lembrar desses cinco convites e sentir alívio por ter recusado. Leona, em alguma parte da adolescência, fará uma conexão assustadora, e após essa constatação, a lembrança da praça vai arrepiá-la para sempre.
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