Quando a vida te der limões, faça uma limonada.

A frase acima é um pensamento reproduzido por pessoas otimistas. Há outras versões desse mesmo discurso, como “o copo está meio cheio ou meio vazio, depende do ponto de vista” e “não importa a cor do céu, quem faz o dia bonito é você”. Como uma pessoa positiva por natureza, Hange não só gostava dessas frases como as repetia no dia a dia.

Entretanto, até mesmo a pessoa mais esperançosa do mundo pode não encontrar uma saída, por mais que mantenha a positividade. No dia em que a gravidez foi confirmada, Hange, a mais otimista da Tropa de Exploração, lembrou de um detalhe perturbador. Ela já tinha entrado pelo cano uma vez, quando Moblit a atirou num poço abandonado para salvar sua vida, e uma coisa que nunca contou a ninguém, nem mesmo para Levi, é que aquele poço não estava vazio.

Hange caiu no meio dos ossos de um pequeno esqueleto que já havia passado por todos os estágios da decomposição. Como estava em pânico, a comandante não deu importância para aquele ser humano morto, que provavelmente foi uma criança que pulou no velho poço para escapar dos titãs e acabou morrendo de fome e frio, sozinha numa cidade habitada por monstros. É óbvio que a cientista encontrou a luz no fim do túnel após subir as paredes com a ajuda do equipamento de manobras. No entanto, agora, ela se sentia como a criança morta – sozinha no escuro com a garganta ardida de gritar por socorro e as pontas dos dedos sangrando após múltiplas tentativas de alcançar a luz.

Todo mundo sabe que é possível fazer uma limonada com limões. No entanto, não dá para fazer o mesmo com um feto; com isso, você pode fazer uma criança ou um aborto, e as duas opções são péssimas.

Pelos seus cálculos, estava com dezessete semanas de gestação. Naquele estágio, os métodos abortivos menos agressivos, como remédios e injeções, não tinham eficácia garantida já que eram feitos para a fase embrionária. Mesmo que os riscos de efeitos colaterais fossem baixos, ainda eram terríveis – podiam causar uma série de doenças graves – de maneira que não era recomendado usar muitas doses, era permitido no máximo duas e boa sorte. Aplicar esses procedimentos com dezessete semanas ia, no mínimo, fazer com que Hange desse à luz a um bebê deformado, e com muita, muita, MUITA sorte, morto.

E mesmo que a sorte sorrisse, passar nove meses com uma criança morta dentro da barriga não é nem um pouco legal.

Ainda restavam algumas opções sobre aborto. Podia contratar um médico para fazer um, no entanto, a operação era aterrorizante e consistia em matar o bebê direto por onde ele entrou, e para tal se usava um aparelho semelhante a uma agulha de tricô. Hange já tinha ouvido falar de mulheres que saíram do hospital com a vagina dilacerada e nunca se recuperaram totalmente.

A última opção era pedir para um soldado bom de chute espanca-la e torcer para matar a criança. Sim, Hange era capaz de aguentar algumas porradas, e quem sabe conseguisse colocar o feto para fora após uma sessão de espancamento, já que abortos espontâneos eram possíveis até a vigésima segunda semana de gestação.

A noção de estar considerando uma ideia daquelas fez a comandante arregalar o único olho e erguer-se sentada no colchão. Ela ficou parada olhando um ponto específico do quarto sem enxergar nada enquanto refletia sobre o absurdo em que acabara de pensar.

Isso a fez lembrar da própria mãe, uma enfermeira que trabalhava muito para ganhar pouco. Hange tinha muitas recordações boas daquela mulher, mas o fato dela desprover de paciência e gentilezas gerou, também, uma porção de memórias ruins. A comandante não ligava de ser chamada de “esquisita” pelos outros, pois ouviu o mesmo da própria mãe durante todo o tempo em que viveu com ela. A frase favorita da enfermeira era “eu caí com a barriga para baixo quando estava grávida de você, por isso você nasceu assim”.

Uma memória antiga, por incrível que pareça não tão traumática assim, voltou em terceira pessoa, como se estivesse assistindo à uma peça de teatro.

O lençol consumido pelo fogo jazia enrolado numa bola no meio do quintal. O traseiro de Hange, na época com oito anos, estava tão quente quanto a roupa de cama que ela mesma queimou. Uma mulher alta e robusta puxava e empurrava a autora do crime pelos cabelos, forçando o rosto da criança na terra próxima ao lençol como alguém faria com um cachorro que não aprendeu o lugar certo de fazer xixi. Mesmo com mais de trinta anos, Hange conseguia recordar o cheiro do pano e o calor que ele emanava. Era capaz de sentir o gosto da terra seca entrando na boca e, caso se esforçasse muito, reviver o medo de ser empurrada para cima do tecido recém queimado.

— Veja só o que você fez, garota endiabrada. Ah! Um dia, você vai ter um filho, e ele vai ser tão terrível para você quanto você é para mim, e sabe de uma coisa? Eu vou adorar te ver passar trabalho.

— Eu não vou ter filhos! — Hange retrucou com a boca cheia de terra.

As palavras ambíguas da mãe, ditas num tom sério muito baixo, como quem conta um segredo cabeludo, couberam em Hange agora, vinte e cinco anos após o ocorrido.

— Não tem como você saber.

A mulher não viveu o suficiente para ver a filha assumir o posto de líder de esquadrão, nem para ter um neto. Como é típico de toda pessoa que convive com uma criança hiperativa e curiosa demais para a sua própria segurança, Hange não duvidava que, onde quer que a mãe estivesse, dava gargalhadas satisfeitas diante a mais nova confusão em que sua filha endiabrada se meteu.

Pelo menos, não tinha ninguém para esfregar seu rosto perto de um pênis para ensinar que não se deve brincar com aquelas coisas.

Hange tocou na própria barriga. Pela primeira vez, recebeu uma resposta da criatura crescendo lá dentro. A comandante não achou magia nenhuma naquilo, na verdade, era bizarro esse negócio de um ser vivo se mexendo dentro de você, ainda mais se você considerar que aquele bicho tem cabelo, cérebro e olhos humanos.

No entanto, sem motivo aparente, pegou-se sorrindo. Ela se perguntou o que a enfermeira grande e ranzinza que lhe trouxe ao mundo — uma mulher que com todos os defeitos cuidou e deu o pouco que tinha para ver a filha feliz — pensou quando o bebê endiabrado em seu ventre mostrou que estava vivo, e que nasceu para ouvir pelo menos uma vez na semana: “eu caí com a barriga para baixo quando estava grávida de você, por isso você nasceu assim”.

Eu pedi para um soldado me espancar quando estava grávida, por isso você nasceu assim.

O sorriso desapareceu.

— Tudo bem, se está com medo de abortar, o que mais você pode fazer?

Hange imitava uma voz masculina enquanto deitava com as mãos atrás da cabeça e as pernas cruzadas, o pé balançando em círculos no ar como costumava fazer quando refletia sobre alguma teoria científica.

— Tem adoção.

Outra alternativa não tão boa. Não era capaz de abandonar uma criança num orfanato e sair de cabeça limpa. Sabia que ia pensar para todo sempre sobre que fim levou o bebê, e talvez, se a guerra acabasse, voltaria atrás na sua decisão.

— E você sabe muito bem para que as crianças são adotadas.

Eram adotadas por empregadores em busca de trabalhadores baratos. Não era incomum fazendeiros e donos de fábricas pagarem para falsos casais adotarem crianças. Naquela época pós-queda-da-muralha-maria, crianças órfãs existiam aos montes. Sempre existiram, na verdade. Mesmo que colocasse o bebê num orfanato em Sina, as chances de ele ser adotado por uma boa família eram minúsculas.

E mesmo que um casal rico e maravilhoso aparecesse, qual a garantia de que iam criar aquela criança direito?

— Você já pensou em dar para alguém da sua família? Tem o seu pai...

O pai de Hange foi expulso do vilarejo quando ela tinha doze anos. Na família, ele ocupava a posição do adulto compassivo. Quando a mãe brigava com ela, era papel do pai intervir, geralmente com a frase “tadinha da minha filhinha, só quebrou a louça toda, não precisa gritar com ela”. Hange o amou até aquela sinistra tarde onde o pai levantou a mão para a esposa pela primeira vez. O homem ficou distante da primogênita depois de se casar pela quinta vez (a mãe de Hange foi a terceira) e ter outros filhos, não que fizesse muita diferença, já que perdeu o encanto por ele após os incidentes. A comandante o visitava de tempos em tempos por educação e não sentia falta da presença desconcertante daquele homem. Além disso, não gostava da madrasta, e a aversão era claramente recíproca. Confiar uma criança àquele casal? Nem pensar. E mesmo que fossem pessoas de boa reputação, parir um bebê e dar para o avô cuidar? Que sacanagem.

— E do lado do queridíssimo pai desse neném, Hange?

Bem, tinha a mãe de Erwin. A comandante sabia que ela morava numa casa decente em outra cidade. Entretanto, é um bocado esquisito aparecer do nada na casa de uma pessoa que você não conhece com um bebê no colo.

Oi, mãe do Erwin, meu nome é Hange, esse aqui é o seu neto. Que nada! Eu e o Erwin não erámos namorados, ele só comeu a minha boceta uma vez e puff, fiquei encrencada. A senhora é mulher, sabe como são essas coisas, hahaha. Bom, não tenho tempo para cuidar de criança, então vou dar para você criar, beleza? Tchau, beijinhos, volto quando ele fizer dezoito.

Hange deu uma gargalhada trágica do próprio pensamento, e concluiu que dar a criança para a avó paterna era uma opção igualmente egoísta. O filho daquela senhora já estava morto, por que se daria ao trabalho de criar outro?

Por fim, sua última alternativa era criar o bebê sozinha. Desde que atingiu idade o bastante para pessoas perguntarem se ela pretendia ter filhos, Hange decidiu que tal vida não era para ela. Queria estudar e explorar o mundo, não ficar trancada em casa tendo como único vislumbre da vida lá fora uma janela em cima da pia da cozinha, de onde poderia olhar a rua enquanto lavava a louça.

Do mais, a comandante pensava que o mundo era um lugar hostil, cheio de guerra e escuridão onde pessoas eram devoradas por monstros ou mortas na guerra, e colocar uma criança eldiana num lugar como esse era o ato mais cruel que alguém poderia fazer.

Entretanto, agora que estava grávida, Hange só conseguia pensar no vento batendo no rosto durante uma cavalgada numa tarde ensolarada. Ela lembrou das estrelas, das histórias e estórias, de como era maravilhoso beber um copo d’água gelada num dia de calor, do abraço quentinho de uma pessoa querida, e acima de tudo, da sensação de liberdade na sua primeira expedição fora das muralhas. No fim, sua visão otimista se sobrepunha à perspectiva deprimente, e ela questionava se tinha direito de negar a beleza do mundo ao bebê que crescia em seu ventre.

— Não é só parir, Hange, você sabe que não vai dar uma boa mãe.

Sua voz saiu num sussurro infeliz. Caso se concentrasse, era capaz de sentir o órgão quente e pulsante em suas mãos, símbolo do juramento que foi obrigada a fazer quando decidiu entrar para o exército. Ela havia dedicado o coração inteiramente à Tropa de Exploração, e em troca recebeu uma porção de vidas confiadas a ela. Hange precisava cuidar do futuro dessas pessoas entre quinze e cinquenta anos que entregaram os próprios corações aos seus pés, e ainda honrar a morte dos que se foram em prol das ordens do homem que veio antes dela.

Hange simplesmente não tinha espaço para cuidar de mais um. O posto de comandante exigia sua completa devoção, e ela aceitou o sacrifício ao permitir que Erwin a escolhesse como sucessora. Sim, o bebê verá todas as maravilhas do mundo, mas primeiro conhecerá a apatia de uma mãe ausente cheia de fantasmas.

No entanto, não podia evitar pensar que chegava a ser irônico que a primeira vida ceifada pela nova comandante da Tropa de Exploração fosse a do seu próprio filho.

A comandante suspirou ao virar-se de lado na cama, encarando a janela fechada. Erwin saberia o que fazer. Se ele estivesse vivo, quem sabe pudessem ter a criança e cria-la juntos. Claro, eles não se casariam – nunca, jamais mesmo – mas eram bons amigos e concordavam em quase tudo. Mesmo com pais separados, o bebê ia ser bem cuidado por ambos e teria uma vida relativamente feliz.

— Você tinha que dar aquela maldita seringa pro Armin, Levi?

Mas aquela utopia não era garantida. Erwin poderia se mostrar completamente contra a ideia de ter um filho e convencê-la a fazer um aborto. Bem, se fosse assim, Hange achava que ele estaria lá para segurar sua mão quando o procedimento começasse.

Não. O Moblit faria isso.

Pensar em Moblit fez o coração da comandante doer e serviu para lembra-la de que era a única culpada por aquela confusão; devia ter procurado melhor pelo companheiro com quem tinha um caso e que sempre a acompanhava na farmácia após uma noite de amor, ou esperado ele aparecer na manhã seguinte. Quem sabe ter feito o trabalho sozinha fosse a melhor opção. Mas não, ela precisava levar pau antes de dormir ou ACABARIA MOR-REN-DO DE SEDE PELA BOCETA, não é mesmo, Hange? Bem feito pra você.

Transar com Erwin foi puramente um reflexo de fantasias antigas, desejo e impulso sexual. Não podia sequer culpar a bebida pois estava plenamente consciente das suas ações antes, durante e depois o ato carnal. Como se não bastasse, foi feita de tola por um adolescente. Sua situação atual não era nada mais do que o resultado de uma série de descuidos tolos.

Que maravilha! Muito bem feito! Gostei!

O pensamento tinha a voz da sua própria mãe e a entonação contente que ela costumava usar ao proferir a frase, geralmente ao ver a filha se machucar depois de ouvir três vezes “garota endiabrada, saia já de cima daí!”.

Hange passou boa parte da madrugada refletindo sobre os mesmos tópicos em busca da melhor solução para o seu caso. Os pensamentos iam e voltavam em formas diferentes ainda que os contextos fossem os mesmos. Eram três da madrugada quando finalmente percebeu que não conseguiria sair do poço sozinha.

XXX

— Levi!

A porta do quarto do capitão foi aberta de uma vez só e emitiu um barulho estrondoso quando a maçaneta bateu na parede. O moreno jogou os cobertores para cima, colocando-se de pé em apenas um movimento e direcionando uma expressão mista de pavor com preocupação para a pessoa que invadiu o quarto.

— Hange! O que aconteceu!?

Mesmo tendo acabado de despertar, Levi já adotava a postura típica de um homem pronto para a guerra. Hange coçou a nuca, constrangida.

— Heh, desculpe, esqueci que você estava dormindo. Não aconteceu nada, eu só quero conversar.

O capitão levou a mão ao próprio peito, indicando que seu coração estava batendo muito rápido.

— Como pode “esquecer que alguém está dormindo” a essa hora da madrugada? Você precisa de um psiquiatra, puta merda.

A fúria tomou conta do rosto do capitão enquanto ele esbravejava. Hange, que já estava acostumada com aquele comportamento, virou-se para fechar a porta enquanto Levi a xingava, ignorando-o. Ela portava um casaco aberto por cima do pijama de flanela e o tapa-olho preto escondia a cicatriz no lado esquerdo do seu rosto – aquele acessório tornara-se tão parte dela quanto os óculos.

Sem pedir permissão, Hange sentou na cama do capitão com as pernas cruzadas uma sobre a outra e as mãos descansando nos joelhos. Levi, mais calmo, foi juntar-se a ela no colchão, colocando-se à sua frente, sentado na mesma posição.

— Então, o que você quer? Espero que seja im-

— Você estava certo. Eu estou grávida, Levi.

O capitão ficou sem fala e ambos se encararam no escuro. Foi Levi quem voltou a falar, bufando e pressionando o espaço entre as sobrancelhas ao mover a cabeça negativamente.

— Você não disse que era impossível?

— Bem, eu errei.

— Você fez o teste?

— Três.

— Todos positivos?

Ela assentiu. O capitão estalou a língua num “tsk” audível e continuou balançando a cabeça em negação. Hange sabia que aquela indignação não era voltada para ela, e que por trás do olhar revoltado existia um homem zelando pelo seu bem-estar. Eles se conheciam há mais de quinze anos, tempo suficiente para que fossem capazes de ler a mente um do outro e até previr reações. Foi por isso que Levi não perguntou para Hange o que ela pretendia fazer com a gravidez, pois sabia que a amiga veio ao seu quarto àquela hora da noite justamente buscando ajuda para resolver essa questão. Se ela soubesse o que fazer, não teria invadido o quarto do capitão.

Ele pulou direto para outro assunto que era de tanta importância quanto o futuro do bebê.

— Você sabe que isso já deve ter chegado aos ouvidos da Capital, não é?

Hange já tinha considerado esse detalhe. Mesmo que ocupasse o ponto mais alto da Tropa de Exploração, ainda existiam pessoas de mais poder acima dela, e quando essas pessoas ficavam descontentes, cabeças rolavam.

No entanto, não pôde evitar fica revoltada. Ela havia se esforçado para esconder o inchaço e as espinhas. Teria sido em vão? Não é possível.

— Por que você acha que eles já sabem?

— As notícias se espalham rápido, eu mesmo ouvi alguns soldados comentando sobre você.

A cientista lembrou de quando encontrou Sasha, Armin e Jean naquele mesmo dia, e em como a soldada deixou suas suspeitas bem claras mesmo que não tivesse dito uma única palavra sobre gravidez. Seus punhos tremeram e ela controlou-se para não socar o colchão.

— Desde quando todo mundo começou a cuidar da minha vida?

— Você é comandante agora, o que esperava?

Foi a vez da mulher bater a língua nos dentes. A sobrancelha castanha estava franzida e os dentes rangiam devido à sua indignação. Hange era muito aberta quando o assunto era trabalho e ciência, no entanto, ela odiava quando alguém fora do seu círculo de amigos íntimos tentava se intrometer na sua vida pessoal, e aparentemente, essa era justamente a fofoca quente do momento.

— Que saco.

Ambos sabiam que a Capital não ia ficar nem um pouco animada quando Hange confirmasse a gravidez. Ela não tinha como saber o que aconteceria no futuro, porém compreendia que as chances de ser afastada do cargo eram gigantes.

E você pode culpa-los? Olha a hora que você escolheu pra ficar prenha.

— Nossa próxima reunião é só daqui algumas semanas, você tem tempo para pensar no que fazer.

— Eu sei disso. O problema é que todas as opções parecem erradas.

Nesse momento, a dupla entrou em um silêncio confortável. Hange pensava sobre o aborto na clínica e Levi refletia sobre as mesmas opções que a mulher considerou antes de resolver visitar o quarto do capitão. Ao falar, Levi tocou em um assunto que fez as bochechas da comandante ficarem ligeiramente rubras, apesar dela já esperar que aquela pergunta fosse aparecer mais cedo ou mais tarde.

— É do Moblit?

Levi era o seu único amigo vivo e a pessoa em quem mais confiava. Ela se sentia totalmente à vontade para conversar com ele sobre qualquer assunto e achava que o moreno pensava a mesma coisa.

— Não é dele.

— Huh? — Ele estava surpreso. — De quem é? Eu conheço? Se quiser me contar, claro.

— Promete que não vai rir? — Ela mesma estava rindo.

— Claro que não vou rir.

— É do Erwin.

A réplica caradura teve em Levi o mesmo efeito de um soco no estômago. Pela primeira vez em semanas, Hange viu os olhos inexpressivos do capitão ficarem arregalados e a boca de poucos sorrisos quase desenganchar do crânio quando o maxilar caiu. A comandante, que o conhecia tão bem quanto a si mesma, identificou outra emoção além de choque na reação exagerada do moreno, e não gostou nem um pouco do que viu. Subitamente acometida, Hange recuou institivamente para a ponta da cama, afastando-se do homem a sua frente.

— O que foi?

— Hange, você está falando a verdade?

— Por que eu mentiria sobre isso?

No passado, ela e Levi costumavam brigar bastante, tanto verbal quanto fisicamente. No entanto, ela enxergava esses confrontos como brincadeiras saudáveis mesmo que tenha saído ferida algumas vezes, como no dia em que o capitão a deixou com a bochecha marcada pela palma da mão aberta – o que não era um problema tão grande perto do olho roxo que o capitão carregou por uns dias.

Entretanto, a ocasião atual era diferente. A expressão sombria de Levi no escuro e a postura imóvel alertavam que era melhor manter uma distância segura ou poderia sair dali machucada de verdade e não só com “golpes de aviso”, como o capitão costumava chamar.

— Qual de vocês dois começou?

Caso tivesse bebido um ou dois copos de vinho — não, nem precisava de bebida, bastava estar confortável e sozinha com Levi — Hange responderia àquela pergunta de bom grado. Contudo, a instabilidade da situação não a deixava nem um pouco disposta.

— Fui eu, por que?

— Ele aceitou na hora?

A esse ponto, Hange não estava só intimidada, como também chateada e desconfortável. Não queria mais conversar sobre isso, muito menos dar detalhes do que fez naquela noite, e deixaria isso bem claro. Ela enfrentou Levi mesmo sabendo que o amigo tinha força suficiente para manda-la para o hospital.

— Por que você quer saber? Não é problema seu.

— Responda!

Hange quase desabou quando o capitão avançou. Conseguiu manter o equilíbrio no último segundo e caiu em pé enquanto Levi permaneceu no colchão. Ela reparou que ele não tinha investido com as pernas ou as mãos, somente com o peito e a cabeça, o que já era suficiente para botar medo. Hange olhou o rosto escuro de Levi com as sobrancelhas franzidas e o coração palpitando.

— Você me assustou!

— Me fala agora.

— Levi, se você não sabe conversar feito gente, então deixa pra lá. Eu vou embora, desculpa por ter te acordado.

Se num momento Levi estava sentado, no outro agarrava o pulso de Hange para mantê-la no quarto. Ele acabou usando um pouco mais de força do que pretendia, mas só o fez porque a comandante tentou se desvencilhar.

— Me larga!

— Para você de puxar.

Ela parou e a força de Levi afrouxou. Hange puxou o braço sem reparar que a mão livre envolvia a barriga protetoramente e seu corpo inteiro projetava aquela região para longe da ameaça, como se meia hora atrás não estivesse ponderando pedir para alguém espancá-la ali.

— Por que você se importa tanto com o que eu fiz com o Erwin?

O capitão manteve o olhar severo fixo no rosto da comandante, que suportou a hostilidade escondida atrás daquela face escura. Se aquela conversa tivesse acontecido durante o dia, Hange teria entendido o motivo para o capitão estar se comportando daquela forma, entretanto, eles tiveram aquele desentendimento às três horas da madrugada, e a escuridão torna as coisas abstratas.

— Hange, eu preciso que você me conte, por favor.

As palavras dele tinham um tom ligeiramente suplicante que fez Hange amolecer. Ela mordeu o interior da bochecha e pensou sobre sua próxima decisão. O jeito como Levi se comportava era suficiente para evidenciar o quanto ele queria aquelas informações, seja lá o motivo. A comandante resolveu que era melhor que a renúncia viesse da sua parte, já que foi ela quem veio conversar com ele em primeiro lugar.

— Nós dois bebemos, ele estava mais alto do que eu. Hã... eu... — As bochechas ficaram vermelhas outra vez. — ...precisei insistir um pouco pra ele ficar à vontade comigo. Se você quer saber, não foi uma experiência muito boa, eu não faria de novo.

O capitão mirou o chão por longos segundos e se afastou, uma atitude que deixou Hange indignada. Ele deixou-se cair no colchão, e a forma como baixou a cabeça em direção aos joelhos, quase enterrando a cabeça entre as próprias pernas, lhe dizia que a conversa estava encerrada. Porém, a comandante não estava satisfeita, era injusto só ela falar.

— Você não me respondeu. Por que se importa tanto?

— Hange, você pode sair do meu quarto, por favor?

A voz educada de Levi era carregada de infelicidade, e ele falava sem olhar para a comandante parada no meio do aposento.

— Você vai me ignorar?

O capitão respondeu com silêncio.

— Você está com raiva de mim por causa do Moblit? Se sim, saiba que ele também ficava com outras pe-

A interrupção veio no mesmo tom monótono e infeliz, e a forma como foi proferida teve um grande impacto na reação de Hange. Mais tarde, o próprio Levi irá se arrepender amargamente das palavras ditas, e mesmo após receber o perdão de Hange num futuro não tão distante assim, o capitão lembrará dessa noite repetidas vezes durante ocasiões de insônia, e odiará a si mesmo por seu comportamento impulsivo e infantil.

— Hange, o seu caso é muito simples. Você transou, não se cuidou direito e agora está com um problema. Como você mesma disse, esse problema não é meu. Foi legal dar a boceta pro Erwin, não? Agora, aguenta.

A comandante estava estupefata demais para responder, como se a força daquelas palavras tivesse destruído sua capacidade de argumentação. Dentre todas as pessoas com quem convivia, ela achava que Levi ia ser o último a virar as costas, no entanto, aparentemente, estava errada quanto a isso. Sem dizer uma palavra, Hange transpareceu a frustação batendo a porta com força ao sair do quarto, abandonando o capitão cabisbaixo e infeliz com seus próprios pensamentos.

Sem ter para onde ir, Hange foi para o pátio do quartel-general. A noite estava fria, o guarda dormia tranquilamente e uma coruja piava lá fora. A comandante passou pelo vigia sem acordá-lo e caminhou sozinha para o meio do pátio de treinamento, cheio durante o dia e deserto à noite. O céu estava nublado ao ponto de nenhuma estrela ser vista.

Ela cumprimentou a quietude enquanto fazia um exercício para regular a respiração falha. As pernas estavam bambas e sua cabeça latejava ao mesmo tempo em que a sensação de peso crescia em seu coração magoado, e nem a brisa gelada era capaz de esfriar o rosto fervente. Dessa vez, o poço em que entrou era tão profundo que a luz se tornara inatingível, talvez inexistente. Hange gritou para o céu, e as estrelas escondidas atrás das nuvens perceberam que o berro feminino era muito semelhante ao guincho de uma certa criança morta há mais de quatro anos.

Notas finais
Então, eu gostaria de deixar aqui algumas considerações: 1. Tudo que eu coloquei e vou colocar sobre o passado da Hange são headcanons MEUS, nada é confirmado na obra original. 2. O Levi não estava bravo COM A HANGE, mas ele estava chateado e chocado com a descoberta que fez. Ele queria ficar sozinho e a Hange não estava respeitando isso. Eu sei que a atitude dele foi meio hipócrita, pq ele tb não respeitou a Hange, mas vamos admitir que é bem chato quando a gente quer chorar sozinho e tem uma pessoa na volta enchendo o saco. Kkkk ele vai ajeitar as coisas depois, não se preocupem. 3. Eu acho ruim grávida que usa “semana” pra responder perguntas em vez de “mês”, e cá estou eu usando semanas. AEUDAEUHEHU