Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
5 O que você queria me contar?
Notas iniciais
Todo mundo já teve um sonho tão intenso que, ao acordar, foi necessário sentar na cama ainda grogue de sono e refletir se as aventuras ou desventuras vividas foram reais ou apenas outras das clássicas representações visuais do cérebro humano. Foi desse jeito que o capitão da Tropa de Exploração despertou naquela manhã, embora sua situação fosse um pouquinho diferente.
Levi acordou desejando que os infortúnios não passassem de um pesadelo. Em um delírio pós-despertar, ele chegou a estender o braço para o lado direito da cama procurando o corpo desnudo de seu amante, no entanto, só encontrou a pequena depressão gerada por um homem que deitou naquele lado da cama por mais de quinze anos. Apesar de ausência não doer tanto quanto nos primeiros dias, Levi inspirou longamente ao deparar-se, mais uma vez, sozinho em seu quarto.
Sabia que se ficasse mais dois minutos na cama, acabaria não levantando pelo resto do dia. Por isso, ele ficou em pé num único movimento e foi direto abrir a janela, só não ficando com os olhos ardendo porque nuvens cinzas cobriam o sol. Levi direcionou o olhar vexado para a imensidão descorada, e as nuvens melancólicas retribuíram.
XXX
— Vão no escritório da Hange e peçam três permissões. Deixem um bilhete se ela não estiver lá.
— Se ela perguntar, a gente diz o quê?
Levi bebeu um gole de chá antes de responder em sua clássica voz inexpressiva.
— A verdade, ué.
Connie e Mikasa saíram levando papel e caneta, embora Levi soubesse que não ia ser necessário deixar recado algum já que Hange sempre ficava no escritório nas manhãs de sextas-feiras. O capitão não costumava pedir favores daquele cunho para outros soldados porque era falta de profissionalismo entregar e solicitar documentos através de terceiros. No entanto, aquele não era o momento ideal para encontrar Hange. A briga entre eles foi há menos de treze horas, e ele sabia que os insultos estavam tão frescos na cabeça da comandante quanto na sua.
Só que ela não insultou você, você insultou ela. Não se esqueça disso.
Não é incomum pessoas inocentes serem culpadas por crimes que não cometeram. Como um sobrevivente da Cidade Subterrânea, Levi já havia visto uma grande quantidade de diferentes situações dentro desse contexto, desde uma pobre criança faminta levar a culpa pelo pão que o vizinho ladrão roubou até um jovem vendedor de sapatos receber três tiros na cabeça ao ser confundido com um traficante.
No entanto, quando você analisa por outra perspectiva, percebe que os conceitos de inocência e culpa são complexos. Aquela criança faminta pode muito bem ter trancado o vizinho no banheiro para tomar-lhe o pão que ele surrupiou para alimentar o filho bebê, o que é um ótimo motivo para levar uma surra, embora a tal criança faminta tenha apanhado por outra razão. E há uma chance bem alta de você xeretar nos bolsos do vendedor de sapatos morto e encontrar um canivete sujo do sangue de uma mulher assassinada, evidenciando que o chapéu e o catálogo de calçados eram, de fato, parte de um disfarce para despistar a polícia.
No fim, todos são culpados de alguma coisa e inocentes por outras, e a não ser que você saiba a história completa, é impossível determinar pelo que as pessoas são ou não diretamente responsáveis. Hange, por exemplo, assumiu sua culpa ao confirmar que partiu dela a iniciativa de ficar com Erwin, todavia, ela é uma mulher solteira com direito à diversão descompromissada; a cientista não sabia do relacionamento de Erwin com Levi – se é que tinham um – e pensou que aqueles dez minutos de farra não fariam mal a ninguém. Dessa forma, isso a tornava inocente, e Erwin o culpado por ceder.
No entanto, o próprio Levi nunca esteve certo do que era aquela coisa complicada que tinha com Erwin. Eles nunca haviam parado para conversar seriamente sobre o assunto, e o comandante morreu sem ouvir ou falar "eu te amo" para o homem com quem dormia.
Olhando pela perspectiva crua de um juiz, isso também inocentava Erwin. Sendo assim, o único criminoso ali era Levi. Ele era culpado por ficar com raiva de Erwin e por descontar em Hange, que era a possuinte da maior parcela de inocência na situação bizarra em que os três se meteram.
Entretanto, como é típico da injustiça, uma pessoa com a ficha completamente limpa pode ser punida por um crime que não cometeu. Nesse caso, Hange levou a sentença máxima. Enquanto Levi refletia sobre culpabilidade bebericando uma xícara de chá preto, a comandante passava a manhã sobrecarregada com relatórios da semana e um bebê indesejado. O remorso que corroía o coração do capitão não chegava nem perto, ah, nem um tantinho mesmo, da angústia que sua melhor amiga enfrentava naquele exato momento.
Imbecil, ela precisava de você, tinha que ser tão grosseiro?
Da mesma forma como Hange, um dia atrás, sentou no chão do laboratório e refez mentalmente a manhã da farmácia trocando a série de erros por alternativas seguras que não aconteceram, Levi largou a xícara na mesa e recriou a conversa que teve com a melhor amiga, trocando as palavras rascantes por uma confissão floreada. Entretanto, pensar no que devia ter sido feito não muda em nada a realidade fastidiosa, por isso, Levi jogou a cabeça para trás com um suspiro cansado, encarando o teto tão inalcançável quanto o perdão de Hange parecia estar.
Você devia ter contado a verdade.
É muito fácil pensar isso depois que a imundice já está feita, mas, no momento do choque, Levi se sentiu tão humilhado que simplesmente não conseguiu ser honesto, mesmo que fosse para sua única e melhor amiga. Ele só queria enfiar-se em baixo da cama e ficar lá sozinho até a vergonha se esvair, pois a sensação de insuficiência era mais nociva que a raiva momentânea que sentiu de Erwin, e também muito mais trabalhosa de admitir. Ninguém gosta de ser abandonado, nem de mostrar aos outros que foi, e isso incluía Levi.
Mas ele não me abandonou. Ele tentou resolver as coisas comigo, só que...
Levi lembrou daquela fatídica noite antes da batalha contra o Titã Bestial. Recordou o momento em que o falecido comandante estendeu a mão vacilante para segurar a sua, aquela ocasião foi uma das poucas vezes em que Levi viu Erwin, que era sempre tão centrado e objetivo, se mostrar soturno.
Não, ele já estava assim desde a coroação da rainha, eu lem-
O pensamento foi interrompido por Connie e Mikasa. A garota carregava uma pequena pasta com nove folhas, que logo foram colocadas na mesa onde o capitão bebia chá. Levi pegou três das nove páginas, já as outras seis foram divididas entre os soldados que rapidamente se puseram a preenchê-las. O capitão, sabendo que os seus três documentos eram iguais, pegou apenas um para ler.
“Eu, Hange Zöe, 14ª comandante da Tropa de Exploração, permito que LEVI ACKERMAN, capitão do Esquadrão de Operações Especiais, saia das muralhas por cinco dias contando a partir da data __/__/__. Em caso de não cumprimento do prazo estabelecido, solicito que mantenha nosso subordinado em segurança e entre em contato com a Tropa de Exploração assim que for possível.”
Ele reparou que Hange tinha deixado a data em aberto de propósito para caso o moreno desistisse da empreitada. No lado esquerdo da folha havia um espaço para o capitão assinar o nome, e a assinatura da comandante estava grifada no centro da mesma página, logo abaixo do pequeno texto. Na parte inferior tinham três linhas destinadas aos guardas da Tropa Estacionária que abririam os portões na saída e no regresso do grupo, sendo que a última só era assinada caso não chegassem dentro de cinco dias e devia voltar acompanhada da data real que o grupo alcançou as muralhas. Mikasa e Connie receberam documentos iguais preenchidos com seus devidos nomes e patentes, com a data também em aberto.
O capitão releu a permissão mais uma vez, percebendo que a assinatura da comandante estava mais grossa que o resto das palavras, como se ela tivesse errado uma letra e forçasse a caneta para o símbolo correto se sobrepor ao errado. Levi mordeu o interior da bochecha, imediatamente sentindo vontade de ir ao escritório de Hange pedir desculpas por tê-la xingado. Mas não o fez.
É melhor dar um tempo para ela.
Levi assinou o documento rapidamente e logo passou para os outros dois. Mikasa e Connie já tinham preenchido os seus, mas não colocaram a data.
— A gente põe a data de hoje, capitão?
— Sim, vamos sair daqui a pouco.
— Capitão, com licença, não é melhor esperarmos o inverno passar?
Embora estivesse com a postura profissional, o tom de Mikasa, expressando uma espécie de protesto educado, mostrava que ela não gostava da ideia de voltar a Shiganshina naquele momento.
— Eu quero trazer ele de volta justamente antes do inverno começar.
— M-Mas e os titãs?
Connie perguntou gaguejando. Levi reparou que a mão do garoto estava suja da tinta preta da caneta de tinteiro e que a superfície da mesa tinha duas manchas pequenas perto do garoto. Levi olhou para a sujeira e Connie levou vinte segundos para entender o recado, se apressando para limpar as manchas com as mangas da própria camisa.
— Já matamos muitos com o carrasco diabólico.
"Carrasco Diabólico" era o nome do dispositivo gigantesco que Hange projetou para matar titãs sem que lutas corporais fossem necessárias. A arma foi construída com a ajuda do titã de Eren e funcionava como uma guilhotina: o monstro entrava na pequena abertura na muralha para pegar um militar pendurado e acabava morto por um enorme tronco de árvore que lhe esmagava a nuca. Tinham construído três carrascos, e muitos dos titãs dentro da muralha Maria já haviam sido mortos. Levi tinha certeza que o restante estaria ocupado demais correndo para a armadilha para prestar atenção em três soldados solitários.
— Não é melhor levarmos o Eren com a gente?
Mikasa, que havia aceitado o plano no momento em que Levi citou a eficiência do carrasco, colocou a mão no ombro de Connie, fazendo o garoto dar um pequeno sobressalto e olhar na direção da pessoa que o tocou.
— O Eren está ocupado ajudando o Armin com os poderes de titã. Ei, Connie, só nós três somos o bastante. Nós derrotamos o Titã Encouraçado, esqueceu?
O rapaz relaxou e esboçou um pequeno sorriso conformado para a amiga, que retribuiu com um assentimento. Levi agradeceu mentalmente por Mikasa ter acalmado o garoto, poupando-o de uma bronca.
— Mikasa, arrume alguns lança-trovões. Connie, peça para o cavalariço te emprestar dois cavalos e uma carroça. Vamos sair às dez, tudo bem? Quanto mais cedo formos, mais cedo voltamos.
Os dois soldados bateram com o punho no coração e saíram para resolver os assuntos que o capitão solicitou, deixando suas permissões para trás. Levi bateu as folhas três vezes na mesa para mantê-las alinhadas antes de guarda-las.
XXX
Os três saíram pouco antes das dez da manhã. Às onze, já cavalgavam em direção à Shiganshina sem encontrar nenhum titã pelo caminho. O tempo nublado não assustava Levi, que era bom em previr tempestades e sabia que o tempo estava a seu favor. E, de fato, o sol apareceu lá pelo meio-dia.
O capitão tomava a dianteira na formação simples do grupo, Connie ia no centro guiando a carroça e Mikasa vinha na retaguarda. A brisa fria do fim do outono era agradável quando contrastada com os raios solares que apareceram; o rosto aquecido de Levi era esfriado pelo vento e ele gostava da sensação ligeiramente gélida nos dedos enquanto segurava as rédeas do cavalo — uma égua preta tão dócil que ninguém diria pertencer ao capitão emburrado.
Com a ausência dos titãs, eles chegaram em Shiganshina antes das duas. Do alto da muralha, o trio teve uma visão panorâmica do buraco criado pela explosão do Titã Colossal. A área de destruição era gigantesca e não sobrou nada além de destroços de casas às bordas do vácuo. O centro da explosão era um grande vazio de terra nua no meio da cidade, e Levi teve o pensamento singular de que aquela mancha monstruosa ia crescer e consumir o resto da ilha até remanescer uma terra deserta, que logo seria esquecida como se jamais houvesse existido um povo chamado Eldia.
— Estão crescendo flores.
Foi Mikasa quem reparou nisso, mas nem Levi nem Connie compartilharam a visão da soldada. O capitão percebeu que Mikasa falava a verdade quando já estavam no chão do distrito, pois ao passarem pelo buraco, Levi reparou que tímidos brotos de campainha-da-china cresciam entre a grama verde que começava a nascer na imensidão vazia, e Levi se sentiu consolado ao perceber que não demoraria para que a vegetação tomasse conta.
Como Shiganshina estava lacrada, eles precisaram deixar os cavalos amarrados no lado de fora. Cada um dos homens carregava uma tina de madeira de tamanho médio, sendo que Connie levava o objeto com o fundo apoiado na cabeça enquanto o capitão abraçava a sua com o braço destro. Mikasa, que vinha trazendo uma pequena caixa, ficou para olhar os brotos. Ao perceber que a soldada não os acompanhava, Levi se virou para chama-la, mas bastou vê-la lá, imóvel ao lado das flores, para desistir.
Levi lembrava a localização exata da casa onde Hange e ele deixaram o corpo de Erwin, então, não foi complicado encontrá-la no meio a tantas residências. Ao chegarem lá, os dois homens colocaram as tinas no chão, sendo que a de Connie comportava dois baldes. Pediu para que o garoto fosse até o rio e trouxesse água até que ambas ficassem cheias, e assim que o subordinado sumiu de vista, Levi entrou na casa.
Ele só foi perceber que estava segurando o ar quando seus pés chegaram na porta que dava para o mausoléu de Erwin.
Parado à frente da porta fechada, Levi lembrou as incontáveis noites em que, após terminar as obrigações, andara até o quarto do comandante em vez de ir para o seu. Quando começaram aquela relação conturbada, Erwin, na época um jovem líder de esquadrão que tinha o dia e a noite interrompidos por visitas trazendo problemas indesejados, propôs que eles tivessem um toque secreto, dessa forma, o loiro sempre saberia quando a pessoa batendo à sua porta era Levi. É claro que a estratégia ficou inútil em pouco tempo, pois tanto tenente quanto capitão passaram a identificar a presença um do outro só pelo barulho das botas, no entanto, eles mantiveram a batida secreta por muitos anos. Levi, cujo coração palpitava forte ao ouvir o toc-toc, pois sabia que ao abrir a porta encontraria o homem que tanto estimava, só foi perceber que estava apegado àquela intimidade quando ela desapareceu.
E foi ele quem parou.
Levi ergueu o punho e bateu cinco vezes alternando entre batidas fortes e fracas, sendo que a quinta foi dada após uma longa pausa de sete segundos, e era nesse meio tempo que a barriga do capitão ficava gelada, pois após essa batida, seu amante abriria a porta e o traria para dentro com um abraço. Porém, a entrada continuou fechada, e foi Levi quem precisou ir ao encontro do seu amante, exatamente como nas últimas vezes em que ficaram juntos.
A diferença de temperatura do quarto para o corredor era gritante. As janelas fechadas não permitiam que a luz do sol entrasse, e o vento só podia ir e vir através do buraco da fechadura. Levi foi tomado pelo calor e tirou o casaco com rapidez após fechar a porta atrás de si, deixando o ambiente escuro outra vez.
Era estranho ver Erwin no meio das sombras. O escritório do comandante tinha a melhor posição solar do quartel-general, quando saiam para missões em outros distritos e precisavam buscar abrigo em castelos abandonados, Erwin sempre ficava com o quarto mais iluminado, e ele pedia o mesmo nos hotéis quando passavam o dia na Capital. Em expedições, Erwin era a cabeça da formação, e Levi, olhando o comandante de longe, tinha a impressão de que ele cavalgava sempre na direção do sol, como se o usasse como guia. Era impossível não associar Erwin com a grande bola laranja no céu, tanto pelo apreço do comandante pela luz solar quanto o símbolo poderoso que a estrela representava.
O quarto tinha o cheiro penetrante de uma vela que foi queimada até o fim além do odor característico do suor de Erwin. Pilhas e mais pilhas de livros estavam espalhadas pelo chão, e o homem naquele aposento, que percebeu a presença de outra pessoa quando a luz da rua entrou no quarto pela porta aberta, não parecia animado em vê-lo.
— Levi.
— Em carne e osso.
— Desculpa, não ouvi você bater.
Levi estudou Erwin. Mesmo no escuro conseguia ver a ausência do braço e os traços faciais definidos do loiro. A única coisa que não conseguia enxergar com clareza era o brilho dos olhos azuis, mas ele não reparou nisso naquele momento — só foi perceber esse detalhe mais tarde, numa outra ocasião.
O loiro abriu a gaveta do criado-mudo para pegar outra vela e o capitão protestou imediatamente.
— Não, Erwin, você não vai acender vela nenhuma com o sol que tá fazendo lá fora.
A voz do moreno estava carregada com uma irritação quase paternal. Erwin virou o rosto na direção contrária quando os raios entraram no quarto, como se a luz que tanto gostava de repente agredisse seus olhos.
— Você vai passar o seu dia de folga inteiro aí dentro?
— Haha, eu não tenho dias de folga, Levi.
— Você não sabe mesmo dividir trabalho de lazer, hein? O que está fazendo?
— Estou estudando o distrito de Shiganshina para preparar a nossa próxima expedição.
— No escuro?
— A vela apagou enquanto eu estava pensando, eu já ia acender outra.
Eles se encararam por um longo momento, Levi insosso e Erwin vestindo aquela clássica expressão reservada com um toque de imperiosidade que o capitão amava e odiava ao mesmo tempo. No fim, foi Levi quem cedeu. Era impossível pegar Erwin numa mentira, ao menos que ele quisesse ser pego numa.
— Mesmo assim, não era melhor abrir a janela?
— Eu virei a noite estudando, não reparei que já é manhã.
Levi olhou-o com uma sobrancelha arqueada.
— E não é. Já passa da hora do almoço.
Pela forma como Erwin arregalou os olhos, dava para ver que o comandante havia perdido totalmente a noção do tempo. É claro que não era a primeira vez que aquilo acontecia, no entanto, sentiu que aquela situação em específico era diferente, como se o comandante tivesse outro motivo além de trabalho para perder-se em pensamentos.
Erwin era capaz de ler e entender Levi como se o capitão estivesse nu de corpo e alma cem por cento do tempo, no entanto, o moreno nunca foi capaz de compreender o que se passava na cabeça do comandante. Por mais que se esforçasse, o loiro estava sempre um passo à frente. Enquanto todos engatinhavam, Erwin corria. No fim, foi essa capacidade de ver além do horizonte, ou melhor, além da pouca informação que lhes era fornecida, que levou a Tropa de Exploração a chegar tão longe.
O capitão foi sentar-se ao lado do seu amante. Erwin estava com a camisa aberta e o único braço apoiado no joelho, ele tinha uma olheira funda em cada olho e a franja bagunçada caia na testa suada. Levi, que estava sentado à sua direita, pegou a longa manga caída do lado da mão ausente e amarrou-a com a calma de uma pessoa que faz tranças no cabelo de alguém.
— Por que você não amarra essa merda? Um dia você ainda vai precisar fugir de alguém e isso aí vai te atrapalhar.
O comandante achou graça do comentário e Levi agradeceu mentalmente por finalmente vê-lo expressar uma emoção. Ele tocou o rosto de Erwin, onde pelos ralos e amarelos começavam a brotar de maneira uniforme, e gostou do atrito contra a palma da mão. Levi nunca foi fã de rostos barbudos, contudo, ele amava tanto Erwin que era capaz de aprender a gostar de qualquer coisa que fizesse parte dele.
Sendo o comandante um homem que preza boa aparência, poucas pessoas haviam o visto com a barba por fazer, malvestido, com os olhos fundos de olheiras e cabelo bagunçado. Levi sabia que o aspecto descuidado não ia ficar lá por muito tempo, e a noção de que era um dos poucos que Erwin permitia vê-lo naquela versão desleixada deixava o coração de Levi aquecido.
— Olha só pra você... todo horrível. Quer que eu te ajude?
— Por favor.
No fundo, Levi sabia que Erwin era capaz de se arrumar sozinho mesmo sem a mão dominante, e que o comandante permitia que o capitão o ajudasse porque ambos gostavam de fazer aquela tarefa juntos; e era verdade, Levi adorava ajuda-lo, por mais que fingisse o contrário.
— Você só dá trabalho.
Levi desapareceu no banheiro anexado ao quarto e voltou com uma vasilha cheia de água, sabão, toalhas, uma navalha e um pente. Nesse meio tempo, o comandante havia saído da cama e ido sentar-se na cadeira da escrivaninha, o que facilitava o trabalho do capitão. Levi começou pelo rosto, esfregando o sabonete suavemente no maxilar até que ele ficasse coberto por uma grossa camada de espuma. Erwin aceitou de boa vontade, continuando relaxado quando a navalha gelada tocou sua pele – confiava no homem em pé à sua frente, sabia ele que jamais enfiaria a lâmina em sua garganta, ainda que tivesse existido uma época em que o principal motivo do moreno fosse esse.
A navalha desceu levando uma carreira de espuma consigo, deixando para trás uma trilha de pele lisa. Levi repetiu o gesto até o revestimento branco sumir, e depois levantou a vasilha na altura do rosto do comandante para que ele pudesse lavar o rosto. Erwin fez a tarefa rapidamente, usando a toalha para se secar.
Após colocar a vasilha de lado, Levi tomou seu lugar atrás da cadeira. Ele passou a mão nos cabelos dourados, sorrindo com o canto da boca ao sentir os fios sedosos e bem-tratados entre os dedos. Ele começou raspando a nuca do comandante, já que ele gostava de manter aquela região sempre bem aparada. Ao passar para o pente, que era sua parte favorita, Levi relaxou; pentear o cabelo de Erwin era uma terapia. O moreno gostava de como os dentes corriam livremente pelas mechas amarelas e o passava para lá e para cá, ajeitando o cabelo do amante da forma mais vagarosa possível, para que a tarefa durasse mais tempo.
— Sabe, Levi, faz sentido quando você analisa por esse ângulo.
Levi, que não prestava atenção no mundo a sua volta, piscou algumas vezes antes de olhar para a nuca raspada do comandante. Pelo tom de voz, Erwin parecia estar pensando alto, não compartilhando um pensamento.
— Perdão?
— Estou falando do meu pai.
O capitão sabia que o loiro nasceu em uma família estruturada e que o pai foi o seu melhor amigo até o fim; quando Erwin contou que era responsável pela morte dele, o moreno prontamente deu sua opinião, mas dava para ver nos olhos de Erwin que a lógica, aparentemente, não se aplicava no caso. Levi ergueu o olhar a fim de encontrar o espelho do quarto, por onde conseguia ver o rosto de Erwin quando estava atrás de suas costas.
O espelho não estava mais lá.
— Eu sempre soube que ele foi morto pela polícia, e provar isso fazia parte dos meus planos.
Levi continuou passando o pente pelo cabelo já arrumado, já deveria ter passado para a franja, porém não podia fazer isso enquanto Erwin estivesse falando.
— Quando eu fui preso, me colocaram numa sala de tortura. Levi, eu tenho certeza que foi naquela mesmo lugar que o meu pai morreu.
Pouco antes do golpe militar, Erwin tinha contado à Levi que planejava escolher Hange como sua sucessora, e as entrelinhas daquela informação diziam ao moreno que o comandante considerava a ideia de não voltar vivo do prédio da Polícia Militar.
Se alguma vez alguém que você ama esteve longe sem previsão para voltar, então você sabe o que é a ansiedade constante que domina o corpo humano durante a espera pelo regresso de um ente querido. Pode ser que você tenha deixado de passear com os amigos para esperar por essa pessoa, ou que você saiu da escola a passos largos na esperança de encontrar o seu namorado, mãe, pai ou avô, já em casa, ou também que você tenha jantado uma refeição sem saboreá-la porque estava sobrecarregado agitando o joelho repetidas vezes olhando para a porta fechada no aguardo desse alguém tocar a campainha.
Levi sentiu essa angústia torturante durante os dias em que Erwin esteve rendido, e é impossível colocar em medidas métricas o tamanho do alivio quando ele encontrou o comandante no meio da noite, machucado, porém vivo e livre. É uma sensação de descarregamento que só a volta de uma pessoa querida causa, e também é uma experiência que o Erwin de oito anos não viveu.
— Todo esse tempo eu realmente estive certo sobre a morte do meu pai. O homem que o matou... eu vi o rosto dele, Levi.
O capitão parou o movimento ritmado do pulso.
— Você foi vê-lo na prisão?
— Não precisei. Eu conheço o Sannes, ele é uma pessoa que já apertou a minha mão.
Se a primeira parte da frase era mentira, Levi não sabia dizer, mas imaginava que não fosse.
— E você sabe o mais estranho? Eu não senti nada quando soube disso.
Ele deu a volta na cadeira em câmera lenta, e a curtíssima caminhada de três passos o levou a uma viagem alucinógena para a Cidade Subterrânea aonde homens, mulheres e crianças de feições vazias rumavam de um lado para o outro, pálidas pela falta de vitamina D e sem perspectiva de futuro a curto ou longo prazo.
Mas ao ver-se de frente para o homem sentado, ele encontrou o rosto conhecido de Erwin. Seu comandante, amigo e amante, e assim Levi voltou à realidade. De barba feita, o loiro quase parecia com quem era, só precisava dar um jeito na franja e nas olheiras fundas.
— O que você quer dizer com isso? Levanta a cabeça.
Levi colocou a mão no queixo de Erwin e o fez erguer a face. O comandante retomou a fala enquanto o capitão penteava a franja desarrumada para o lado onde o loiro costumava dividi-lo.
— Não tenho direito de ficar bravo com o Sannes. Se a gente colocar lado a lado, acho que eu ganho a competição de assassino de pais. E a de mães também.
Levi deu um tapa no rosto do comandante.
— Quer conversar sobre o motivo desse comportamento agressivo, Levi?
Erwin perguntou sarcástico com a única mão tocando o lado onde recebeu o golpe, que não foi forte o bastante para deixar a marca dos dedos. O comandante não transparecia irritação pelo tapa, na verdade, estava achando a situação cômica. Levi havia se afastado para fuçar as gavetas, procurando por um objeto que Erwin deixava guardado nas entranhas mais profundas da cômoda.
— Não se compare com aquele doente, Erwin. Lembre-se que é graças a você que a humanidade chegou tão longe.
O capitão voltou a se aproximar do comandante com uma caixa pequena em mãos. O conteúdo consistia em cinco bases para maquiagem de diferentes cores, sendo que três estavam intactas e as outras duas quase acabadas. Levi manchou o indicador tomando cuidado para não exagerar na quantidade e esfregou-o na olheira sestra do comandante.
— Você acha que os civis mortos na operação da Titã Fêmea pensam da mesma forma?
A voz de Erwin tinha um quê desafiador mesclado à constante serenidade. Levi apertou as sobrancelhas e esfregou o outro olho do comandante com força, fazendo o homem sentado torcer a boca.
— Apesar de você pensar o contrário, as bolas que você tem aí no meio das pernas não são de cristal, eu já vi. Não tinha como a gente saber que o primeiro plano ia dar errado. Então, se é isso que está te incomodando, desencana logo, você não é igual aos porcos da polícia e nunca será.
Os lábios de Erwin sorriram e baixas risadas escaparam deles. Levi esperou o comandante parar de rir para poder passar a segunda mão de maquiagem, que tinha a função de corrigir a pele do comandante ao redor dos olhos para parecer que ele estava de cara limpa. Ao terminar, Levi continuava com a sensação de que faltava alguma coisa, porém, Erwin estava quase totalmente igual ao seu verdadeiro Eu, e era isso que importava. Não precisava ser perfeito, até mesmo porque ele não era.
Levi admirou seu trabalho com ar satisfeito, gostando de ver Erwin com a barba feita, o cabelo arrumado e o rosto rebocado, sentindo um orgulho ligeiramente soberbo de si mesmo. Girou o estojo fechado no dedo, olhando para o amante com um ar debochado.
— Os imbecis realmente acham que você consegue trabalhar, lutar e dormir bem a noite. Só eu conheço o segredinho do comandante.
Erwin fechou os olhos azuis enquanto ria pela garganta, com os lábios grossos cerrados.
— Ah, Levi, o que eu faria sem você?
O capitão encontrou o quarto do jeito como Hange e ele deixaram. O vento entrou no momento em que a porta foi aberta, empurrando duas folhas solitárias para dentro do aposento onde o corpo de Erwin jazia intocado por animais, mãos humanas e titânicas. O cheiro de podridão preenchia o ar abafado, obrigando Levi a colocar um lenço comprido no nariz e na boca.
Deixando a porta aberta, Levi foi na direção da única janela e a abriu. O sol iluminou tanto o cadáver quanto o homem vivo, e a leve ventania pouco a pouco arejava o quarto há tantos meses fechado, permitindo que o peso do ar se tornasse suportável.
— Olá, Erwin.
O cadáver era uma pilha de ossos e carne decomposta. As faixas que envolviam o ferimento grave no estômago de Erwin haviam desaparecido, assim como a camisa de algodão. Não ia dar para aproveitar as calças, e Levi tinha certeza que as meias estavam piores. Os cintos e as botas continuavam decentes, assim como a parte superior do uniforme — aquele casaco minúsculo e inútil que não aquecia no inverno e incomodava no verão. As asas da liberdade bordadas na capa continuavam intactas, e Levi ficou aliviado pelo tecido verde ser resistente. A única parte do uniforme de Erwin que não estava lá era o medalhão de comandante, esse item estava a quilômetros de distância, muito bem guardado numa caixinha preta junto com os emblemas de dois soldados chamados Farlan e Isabel.
— Olha só pra você... todo horrível.
Levi não levou dois segundos para começar a despir o cadáver. Teve dificuldade para remover as botas, mas só porque tomou cuidado para não danificar os ossos em baixo da peça, como se um mero movimento mais firme fosse capaz de quebra-los. Como esperado, não ia dar para remover as meias só com as mãos, ia ter de tirá-las mais tarde. Depois, Levi passou para os cintos, então o casaco foi dobrado e colocado ao lado das botas. Ao retirar a capa que protegia o rosto do morto, Levi encontrou a face de Erwin reduzida à ossos e... sobrancelhas. Uma risada amarga escapou da boca do capitão ao ver as duas camadas de pelugem acima das crateras que eram os olhos do crânio, fundas feito um abismo. Os cabelos também estavam lá, secos.
O capitão lembrou de quando começaram a dormir juntos. Foi logo após uma missão onde três homens do esquadrão de Erwin perderam a vida por causa de uma ordem precipitada. Levi recordava que aquela foi a primeira vez em muito tempo que alguém do time de Erwin morreu, e isso claramente atingira o líder de esquadrão que havia se acostumado a ser o único capaz de manter a equipe viva. Levi, que também tinha a alma destruída pela culpa de seus próprios erros, tanto os da missão em questão quanto os do passado (ele ainda não tinha superado as mortes de seus amigos da Cidade Subterrânea) cedeu aos seus impulsos mais humanos ao aceitar entrar no quarto do loiro, e aquela foi a primeira noite em que as mechas douradas estiveram presas entre seus dedos inquietos enquanto o comandante o penetrava do modo cru, quase animalesco, de um homem necessitado.
Com a remoção da capa, o homem morto ficou completamente despido, agora não passando de uma pilha de ossos com carne e restos de algodão atracados, um cadáver nem um pouco diferente de tantos outros que Levi havia visto, começando pelo da sua mãe.
No passado, aquele monte de ossos pertencera à uma criança curiosa, um menino estimado pelo pai e mimado pela mãe, que lia histórias de não-ficção na rede de casa usando o pé para balançar vagarosamente enquanto os olhos azuis devoravam o livro grosso. Um dia, aquele cadáver foi o corpo de um garoto inteligente que perdeu o pai muito cedo e fez do sonho de ambos as suas asas da liberdade.
A capa desbotada era do homem que esse garoto se tornou. Alto e valente, os olhos inocentes deram lugar ao semblante determinado de uma pessoa que tem um objetivo para alcançar, e o coração que um dia existiu em seu peito não mais estava com ele, pois havia sido dedicado à sede destrutiva por conhecer a verdade sobre o mundo, a mesma ambição individual que levou milhares de pessoas para a morte sob as ordens desse homem.
No fim, o sonho de Erwin foi a sua ruína. Ele sacrificou a própria humanidade pelo seu objetivo e lutou com todas as armas que possuía, gastando as fichas sem nunca levar em consideração que a teoria poderia estar errada, apostando tudo na suposta infalibilidade de seu progenitor. Ele lutou até perder a própria identidade para um monstro não muito diferente daquele cadáver fedorento que Levi encarava naquele momento.
O capitão olhou para a única mão de Erwin que tentou tocá-lo naquela noite, a mesma que era marcada do corte da lâmina afiada da espada que o moreno levantou para ele quinze anos atrás, e encontrou uma pilha de ossos coberto de carne seca.
— Naquela noite, Erwin, quando a gente brigou...
Mesmo conversando com um cadáver, era difícil ser honesto.
— ...eu não estava com raiva por você se recusar a ficar no castelo. Eu fiquei bravo porque percebi que quando você olhava para o céu, as árvores... para mim... os seus olhos não brilhavam mais.
Levi olhou com dissabor para os ossos do homem que lhe deu uma chance quando todos os outros viraram as costas, o líder que ele seguia dentro e fora das muralhas, o amante que o aquecia com seu amor. Erwin era o seu sol, e não havia nada que mais entristecesse Levi do que ver o seu brilho apagado para qualquer coisa que não fosse aquele maldito sonho infantil.
— Mas quando você falava do sonho com o seu pai, aquele brilho voltava com tanta força que eu chegava a me assustar.
Ele tocou nos cabelos presos ao crânio do morto. Os fios estavam secos e quebradiços feito mato queimado. De todo modo, Levi penteou os cabelos de Erwin com os dedos, arrumando-os para que ficassem alinhados, como costumavam ficar quando aquela cabeça ossuda era coberta por uma pele branca.
— Eu pensava que você estava sendo um cego egoísta, não achei que você estivesse doente... não... acho que eu sempre soube que você só continuava vivendo por causa da sua teoria, mas eu me negava a acreditar.
Quando pensava em como Erwin estaria agora caso tivesse lhe aplicado a seringa, Levi imaginava um homem quebrado incapaz de seguir em frente. A verdade é que Erwin entregara sua vida pela verdade, e depois que a alcançasse, o coração que ele ofereceu pararia de bater. Em seus últimos dias, o remorso que sentia ficara tão grande que era impossível para ele suportar. Durante seu legado como comandante, Erwin teve a alma rasgada por uma dor terrível, e o único remédio encontrou foi crer em sua ambição destrutiva sem jamais olhar para trás, enganando seus próprios soldados e, Levi acreditava, muitas vezes mentindo para si mesmo com a falsa crença de que sua teoria era capaz de salvar a humanidade.
Ali, em companhia da carcaça, Levi tentou entender as razões que levaram Erwin à fazer o que fez, mesmo sabendo que jamais seria capaz de chegar a uma conclusão definitiva.
— Você tentou me procurar naquela noite, Erwin, eu me lembro.
Lembrava mesmo. Erwin o procurou na festa, nos refeitórios e nos dormitórios, e Levi fez questão de evita-lo em todos esses lugares por causa da mágoa presente em seu peito. Ele queria que o loiro ficasse nas muralhas em segurança, e ver aquele brilho forte quando ele recusou seu apelo foi o que mais incentivou o moreno a não ceder, juntamente com a tóxica frustação por ter os seus sentimentos colocados de lado mais uma vez.
“Precisei insistir para ele ficar à vontade comigo.”
Eu também precisava, Hange.
Depois da coroação da rainha, Erwin afundou-se num tormento interminável, pouco permitindo que outras pessoas ultrapassassem o limite que ele havia imposto, e nas últimas semanas antes da batalha em Shiganshina, a bolha passou a excluir Levi também. Isso foi mais uma razão para ele ter evitado Erwin, pois o loiro o recusou incontáveis vezes antes daquele desentendimento.
“Se você quer saber, não foi uma experiência muito boa.”
Levi encarou os dentes da cabeça ossuda e deu uma risada nasal. Erwin tinha dessas. De vez em quando, embora que muito raramente, ele abandonava as gentilezas em prol do único prazer, e Levi não podia dizer que não apreciava aquele comportamento quase agressivo, pois Erwin era sempre tão centrado que o capitão achava divertido vê-lo abandonar a compostura para agarrar o que queria ou o que achava que lhe ia fazer bem.
— Foi assim que nós entramos nessa relação, não foi?
Levi falava com a voz de uma pessoa que acabou de aceitar a resolução aproximada de um problema de difícil entendimento. A primeira vez em que transaram, que também foi o dia em que Levi descobriu que é possível sentir prazer por outras partes do corpo, foi uma noite turbulenta onde ambos os homens procuravam preencher os vazios dentro de si mesmos. A diferença é que Levi, através da liberdade de ver o céu todos os dias, da luta ao lado dos companheiros e, é claro, do amor do comandante, conseguiu preencher os buracos em sua vida após aquela noite. Erwin, no entanto, não foi capaz. Nunca foi.
Ali, ao lado do cadáver do ser humano por quem o capitão foi apaixonado, Levi entendeu que o homem a quem ele pertenceu achava que o sentimento que nutriam um pelo outro não tinha mais salvação. E como poderia pensar diferente? Erwin vinha agindo diferente há muito tempo, e na noite da festa Levi o evitou a noite inteira e agiu feito um louco quando se encontraram. Se nem o próprio capitão compreendia o caráter da relação que tinham, por que pensava que Erwin era obrigado a saber? Por que haveria de exigir de Erwin uma coisa que ele mesmo não era capaz?
Erwin foi um homem eloquente, mas também era humano, e humanos ficam confusos sobre o que são e o que sentem, cometem erros, sofrem, se arrependem, ajudam e precisam ser ajudados. Quando pensava nisso agora, amaldiçoava a si mesmo por ter sido tão tolo.
Levi recordava o rosto pálido de um homem constrangido por ter feito uma besteira, no caso, ceder a uma necessidade básica que pode ser facilmente controlada e não conseguiu tanto movido pela bebida quanto pelo agror, e ele sabia que a conversa que teriam naquela noite, sendo ela após ou antes a "traição", não teria um final feliz.
— Não sei se o que tínhamos era um relacionamento sério, e eu também duvido que você soubesse. Mas... você queria acabar, não é?
Sim, Levi tinha certeza de que era esse o objetivo de Erwin ao pará-lo no corredor. Não por não ama-lo, mas pela incapacidade de aceitar o amor do capitão e o de qualquer outra pessoa, fruto do ressentimento o qual alimentava todos os dias.
— O que eu não entendo é o porquê de você ter começado a conversa falando sobre a Hange, quando tinha coisas mais importantes para me contar.
O capitão lembrou da maneira agressiva como agarrou o pulso de Hange, as palavras grosseiras que jamais pensou que diria, e engoliu em seco. Talvez, contar o caso primeiro fosse a decisão mais sábia se o objetivo de Erwin era deixá-lo com raiva, pois o faria desistir com mais facilidade e talvez nem ficasse para ouvir o resto, e ainda não haveria a possibilidade do loiro receber a segunda chance que ele julgava não merecer.
Mas, é claro, Erwin pensava desse jeito, Levi não, pelo menos não totalmente. Ele havia se arrependido de brigar com Hange, não?
O caso com a cientista foi só mais um dos vários erros que Erwin cometeu nas últimas semanas antes da batalha, e o grande problema era o comandante achar que o amor de Levi também era um. E o pior, é que o capitão achava que ele pensava exatamente dessa forma.
Se alguma vez você ouviu alguém falar “você nunca vai amar ninguém se não gostar de si mesmo”, pode ser que você tenha achado essa frase uma besteira gigante. Mas, cedo ou tarde, a verdade presente nessas palavras cai, você aceitando isso ou não. No caso de Erwin, foi aos quarenta anos, quando a dor interminável o fez pensar que era impossível que outras pessoas amassem um sujeito desprovido de humanidade, ou que esse indivíduo tivesse o direito de sentir alguma coisa, incluindo sentimentos negativos pelo assassino do próprio pai. Uma pessoa assim não merece a compaixão nem o amor de ninguém ao menos que se esconda atrás de uma mentira, como o loiro bem vinha fazendo durante aqueles quinze anos. Erwin acreditou nisso até pouco antes de morrer.
— Você se sentia mal por ter me enganado com aquela história de salvar a humanidade, quando na verdade você só queria realizar o sonho de saber a verdade sobre o mundo. — Levi suspirou. — Mas, no fim, você cumpriu a promessa que fizemos.
Antes do ataque que ceifou a vida dele e a de outros, Levi teve a oportunidade de ver o brilho que ele tanto amava retornar aos olhos azuis, que nunca lhe pareceram tão belos quanto naquele dia. A paz que pintou o sorriso daquele homem fazia o ar de Levi faltar até meses após o ocorrido, e bastava lembrar-se daquele semblante de libertação para que o capitão abandonasse qualquer mínimo arrependimento da decisão que tomou em relação à seringa. No fim, Erwin abandonou o sonho que o manteve em pé durante todos aqueles anos e aceitou o destino que escolheu no dia em que resolveu entrar para a Tropa de Exploração, e que selou com Levi ao trazê-lo para o seu lado.
— Você se sacrificou para que pudéssemos salvar a humanidade, exatamente como prometemos um ao outro.
O sabor do último beijo de Erwin permaneceria para sempre em sua boca, assim como o amor que ambos depositaram naquele gesto apaixonado. Se Levi tinha qualquer dúvida de que Erwin o amava, foi respondido dentro do abraço apertado que o único membro do comandante lhe deu antes de morrer.
— Eu te perdoo, idiota, por tudo. Por favor, me perdoe também, eu devia ter visto que você estava agindo assim por estar doente, e não por arrogância. Ah, e me perdoe por não ter cumprido a minha parte do acordo.
Levi referia-se ao seu dever de matar o Titã Bestial, que ainda não havia sido realizado, mas que faria nem que precisasse morrer para tal, assim como Erwin o fez.
O que se seguiu foi um silêncio sepulcral. O Levi parado ao lado dos ossos tinha um sorriso triste na face normalmente desprovida de emoções. Reparando que as flores que Hange deixou ao lado da cama estavam tão mortas quanto o corpo, pegou o vaso e jogou os restos mortais da planta pela janela, sem ficar para assisti-los cair.
XXX
Levi saiu do quarto bem a tempo de ver Connie sacodindo os braços abertos enquanto gritava o nome da Ackerman que veio juntar-se a eles assim que avistou o amigo. O capitão vinha carregando as roupas dobradas de Erwin, e os dois subordinados não precisaram tirar no par ou ímpar para decidir qual deles teria estômago para lavar as roupas de um cadáver.
Enquanto Mikasa usava uma tina de água para limpar o uniforme de Erwin, Levi levou os ossos para a rua todos de uma vez no grande saco que trouxeram e os despejou no segundo recipiente, cuja água ensaboada era temperada com metade de um saco de sal. Connie ficou com o trabalho de vigiar o terreno, atento a qualquer coisa que pudesse ser uma ameaça
A capa pendurada na corda que encontraram dentro da casa esvoaçava ao vento. Levi, tendo como visão as asas da liberdade alguns metros acima da sua cabeça, levou muito mais tempo para limpar os ossos do que Mikasa para lavar as roupas, e foi preciso encher as duas tinas de água quatro vezes depois da primeira. Conquanto não parou de esfregar até os despojos estarem livres de toda a carne, pele e restos de roupa. Erwin valorizava uma aparência a altura de seu cargo, até mesmo após as missões, a única vez que ele voltou para as muralhas com uma aparência detestável foi ao perder o braço, e Levi não deixaria aquilo acontecer uma segunda vez.
A lua surgiu no céu trazendo Mikasa consigo, que acendeu uma tocha para que o capitão não ficasse no escuro. Levi deixou o crânio por último, o qual tomou muito cuidado para lavar e secar. Ele precisou remover as sobrancelhas e a cabeleira loira, mas fez questão de guarda-las numa sacola pequena, para que também fossem enterrados.
Após acabar o serviço, Levi deixou os dois soldados revezando a vigília e, exausto, buscou refúgio na mesma casa que protegeu o corpo de Erwin durante aqueles meses. Evitando o antigo leito do comandante, Levi deitou noutra cama em outro quarto da residência e adormeceu um sono sem pesadelos.
Às sete da manhã, Levi e Connie, pela segunda vez, e Mikasa, pela terceira, abandonaram Shiganshina. De tudo que levaram, só traziam de volta as tinas, cada uma carregada por um dos adolescentes. O homem baixo que liderava o grupo portava um grande saco escuro estufado dos ossos do falecido comandante da Tropa de Exploração.
Ao saírem do distrito, o trio passou por um poço velho com lodo crescendo entre as pedras. Nenhum dos três soldados reparou naquela singular estrutura, mas se tivessem parado para olhar o seu interior, teriam encontrado um segundo esqueleto abandonado na mais completa escuridão, onde o sol não alcançava.
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