Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)

43 Flexível feito massinha de modelar


Notas iniciais
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Como Leona descobriu apenas algumas horas após a volta dos soldados viajantes, o fato de Levi ser o pai do bebê impactava na vida de Hange. No entanto, Leona não imaginava que ela também fosse pagar o pato. E que pato caro. A vida de Leona virou de cabeça para baixo.

Naquele mesmo dia, os recém-chegados pegaram uma carruagem para a casa de Hange. Lá, os adultos conversaram sobre Hizuru e todos os seus luxos maravilhosos. Por exemplo, em Hizuru existe uma coisa chamada ELETRICIDADE. Esse sistema sublime é quase a base da vida não-paradisiana. Dele provém esplêndidos aparelhos tecnológicos, como as GELADEIRAS, um "eletrodoméstico" que garante a conservação da comida por dias a fio. Imagine só, pescar um peixe e guardá-lo sem medo de a carne estragar.

A eletricidade e outras narrativas sobre a vida em Hizuru foram detalhadas em relatórios. Os pareceres de Armin eram os mais descritivos e chegavam a alcançar cinco páginas. Mikasa escreveu os seus em formato de diário. Sasha só falava de comida e Connie esqueceu sua papelada no avião. Os relatórios de Eren careciam de elementos supérfluos e focavam-se nas indústrias e aeroportos. Os de Jean eram iguaizinhos aos de Eren.

Os viajantes não voltaram de mãos vazias. Presentearam Hange com uma vitrola portátil. Hange chorou de felicidade, pois ela pretendia comprar uma na viagem (caso tivesse ido). Para Leona, trouxeram um aviãozinho que voava de verdade ao comando de um troço chamado CONTROLE REMOTO.

O relógio batia meia-noite quando os soldados se despediram. Leona tentou ficar acordada até a partida de seus amigos do quartel, entretanto, Leona adormeceu horas antes, com o aviãozinho no colo. Naturalmente, o senhor Levi permaneceu na casa, e ele ainda estava lá quando Leona acordou no dia seguinte. Nada novo até então. Porém, quando Hange voltou do trabalho, ela veio acompanhada pelo capitão. Levi dormiu na casa de Leona pela segunda vez. E então pela terceira. Pela quarta. Pela quinta. E a cada vez que ele e Hange retornavam, o senhor Levi trazia mais um pouquinho de patrimônio. Era irritante abrir o armário do banheiro e se deparar com produtos de higiene masculina, sobretudo aquela terceira escova de dentes maldita.

Então, quando Leona deu-se conta, seu lar fedia a senhor Levi. E feder a Levi significa que a casa estava cheirosa e arejada. O capitão deixava sua marca onde encostava. Nem a modesta clínica veterinária de Leona escapou das garras do senhor Levi. O capitão a proibiu de trazer "esses gatos entupidos de toxoplasmose". E quando Leona perguntou o motivo daquela ailurofobia, Levi respondeu, simples e direto: porque sim, menina. Ah, o senhor Levi e seus enigmas. Ele nunca explica. O senhor Levi diz "porque sim, porque não, porque tem que ser assim, porque é melhor desse jeito", e não interessa se você concorda ou discorda.

— Mãe, esse chato do senhor Levi não vai embora nunca?

Leona sussurrou no ouvido de sua mãe. Hange respondeu que o senhor Levi morava com elas agora. Leona entrou em estado de choque. Hange explicou usando a família de Peter como modelo. De acordo com Hange, o senhor Levi é para Leona o que a tia Filomena é para Peter. O substantivo apropriado, Leona sequer era capaz de pronunciar: PADRASTRO. Não, o senhor Levi jamais seria o seu PADRASTRO. Ele era o senhor Levi e ponto. Leona não conseguia vê-lo de nenhuma outra forma, nem ao menos como "tio", a denominação usada por Peter para referir-se à madrasta. Caso você não saiba, PADRASTRO é o masculino de MADRASTA. A definição é: pessoa chata que vem morar na sua casa. O esclarecimento não agradou Leona. No entanto, Hange eventualmente a fez entender.

No dia em questão, Otto conseguiu a proeza de convencer seus amiguinhos a ir na igreja. Leona quase dormiu durante o falatório fastidioso do pastor, mas ela gostou de comer o pãozinho e de cantar com os religiosos. Leona chegou em casa lá pelas duas. E, como pegara o costume de fazer – uma mania muito feia, por sinal – Leona foi direto na janela espiar se o senhor Levi estava na sala. Quando sim, Leona entrava pelos fundos. Às vezes ela não estava a fim de cumprimenta-lo, apesar de o senhor Levi não exigir saudações e nem ser o tipo de pessoa que se chateia quando ignorada. Aliás, vale mencionar, Leona sequer imaginava que o senhor Levi a escutava entrar pela porta dos fundos.

Dessa vez, Leona não encontrou apenas o senhor Levi, como sua mãe também. Leona ouviu as vozes em alto e bom som. Pela nitidez, o vidro da janela se encontrava aberto. Às vezes, Leona surpreendia Hange e Levi com sua chegada espalhafatosa, e Leona observava que seja lá o que sua mãe e o senhor Levi conversavam, o assunto morria quando ela aparecia – sua mãe ou mudava de papo ou voltava as atenções para a filha, enquanto o senhor Levi retraía-se em sua quietude petulante. Não obstante, Hange pegou um hábito nojento de responder "é coisa de adulto, filhotinho" quando Leona perguntava, curiosa e interessada, o que eles estavam debatendo. Leona não gostava de ser excluída.

Portanto, Leona viu ali uma ótima oportunidade de desvendar o mistério por trás das "coisas de adulto". Leona sentou-se em baixo do parapeito da janela e encostou a orelha na parede. Está na hora de descobrir o que sua mãe e o senhor Levi tanto falam em segredo.

— ...mandar uma carta para aquele gordo demente.

Esse era o senhor Levi. Em resposta, Hange emitiu uma reclamação exasperada. Leona imaginava que sua mãe estivesse esparramada no sofá. Hange respondeu, em aparente frustração:

— Bem lembrado.

— Você pretende mandar quando?

— Só quando voltarmos de Marley. Eu não acho que vão se opor ao nosso bebê, como se opuseram quando eu fiquei grávida da Bolinha. Mas talvez o Zackly encha o saco para eu não viajar.

— Se tentarem te impedir... — Rosnou Levi.

Hange deu risada. O riso aliviou a tensão da conversa. Leona, abraçada aos próprios joelhos, perguntava-se o que "se opor ao bebê" significava. OPOR é sinônimo de NEGAR, e de CONTRARIAR. O senhor Zackly não queria que sua irmãzinha nascesse? Como, se o senhor Zackly é um homem tão legal? E qual o papel de Leona na OPOSIÇÃO mencionada por sua mãe?

— Nenhum deles vai se intrometer. Estou na função de comandante há quase uma década. Eu só vou confirmar a gravidez depois da viagem porque... bom, gato escaldado tem medo de água fria. — Hange fez uma pausa. Leona não a ouviu rir, mas pela entonação soube que a mãe sorria: — É engraçado, sabe? A Bolinha me deu mais trabalho dentro da barriga do que fora. Bem, como eu disse, é só uma precaução. Ninguém vai dar pitaco na minha vida. Sobretudo com esse homem forte e... — Hange deu uma risada sardônica — Eu ia dizer forte e alto, mas só forte, não? Enfim, com esse homem forte do meu lado. Não é, papai?

A resposta de Levi veio após um longo intervalo de tempo. A voz monótona de Levi, apimentada com um leve toque de zanga, rebateu:

— Agora entendo porque você odeia que te chamem de mamãe.

— Ah, é? — A voz brincalhona de Hange aumentou duas notas. — Não gosta que te chamem de papai? Papai, papai, papai, papaizinho.

Ouviu-se o barulho surdo de uma almofada sendo arremessada. Em seguida vieram as gargalhadas estridentes de Hange e os palavrões do senhor Levi. Leona escutou o ranger da poltrona quando o senhor Levi levantou. O capitão dizia:

— Vou ao mercado. Você quer alguma coisa?

— Maçãs, por favor, muitas. Ah, não esqueça o leite da Bolinha.

— Certo. Já volto.

Leona quase teve um ataque cardíaco na pressa de se arrastar para longe da janela. A menina se encolheu na lateral da casa onde o mato crescia livre e solto – graças à Santa o senhor Levi ainda não tivera tempo de passar a foice no quintal — e esperou o capitão cruzar o portão. Ao constatar barra limpa, Leona engatinhou de ré para os fundos. Em casa, encontrou sua mãe do jeitinho como imaginou – esparramada no sofá. A comandante viu Leona, fez tsc-tsc e a chamou com um gesto de dedo.

— Olha só para você. Sempre volta suja da rua. Eu era igualzinha. Huh? Você de sapato dentro de casa? Estranho.

Hange limpava a grama e a areia na roupa da filha. Leona, desanimada, pensava na conversa desconcertante que acabara de entreouvir. O que sua mãe quis dizer com "deu mais trabalho na barriga"? Como era possível? Sua irmãzinha estava "na barriga" e não fazia nada de errado e/ou certo. Ela só dormia, quietinha e inofensiva tal qual qualquer neném dentro do forno. O que Leona pode ter feito de tão terrível que enfureceu Zackly e encrencou sua mãe?

— O que foi? — Hange percebeu sua desolação. — Alguém chateou você?

Leona levantou a cabeça e fitou o olhar compassivo de sua mãe. Ela avançou entre os joelhos de Hange e deitou no peito dela, o seu lugar favorito no mundo todo. A comandante a abraçou e murmurou, complacente:

— O que foi, filhotinho?

A menina esperava que a consolação do abraço bastasse. No entanto, não foi o suficiente, e a familiaridade da presença de Hange a incentivava a falar. Sem encontrar outra maneira de começar o diálogo, Leona perguntou:

— Mãe, o senhor Zackly gosta de mim?

Hange emudeceu. Leona sentiu o abraço afrouxar. A mãe a encarou dura e severamente, um pré-O OLHAR.

— Leona, é feio espionar a nossa família. A gente só investiga as pessoas que não gostamos.

— Desculpa, mãe. Eu ouvi sem querer.

Desculpou-se Leona. Humilde e comedida, fitava sua mãe por baixo dos cílios e circulava o chão com a pontinha do sapato. Hange não disse nada. A comandante a mirava com a mesma expressão sóbria. Silêncio. As duas se entreolharam até Leona abandonar a pose de coitadinha.

— Tá, não foi tãaao sem querer. — Leona cruzou as mãos atrás da cintura. — Mas eu não faço mais, juro.

— Assim está melhor. — Hange bateu na almofada num convite silencioso para Leona se sentar. — Agora, sobre o Zackly. Ele gosta de você, sim. O Zackly só... bom, não ficou feliz quando eu engravidei. Ele queria... — Hange selecionava as palavras corretas. — ...que eu largasse o posto de comandante.

— O senhor Zackly é tão legal comigo e com você, mãe. Eu não entendo.

Hange pôs a mão no queixo, avaliando se/como dava continuidade ao assunto. Sua mãe, sempre tão clara e sabida, relutava em falar sobre Zackly.

— Nem todas as pessoas que gostam da gente vão hesitar em nos passar a perna.

— Não faz sentido.

— Eu sei. — Hange deu um sorriso pequeno. — O Zackly achou que eu não ia dar conta de cuidar de você e do exército sozinha.

— Mas por que...

Leona não precisou concluir a interrogativa. Ela própria ligou os pontos. O vocábulo SOZINHA era a chave da problemática. Sua mãe dissera ao senhor Levi: COM ESSE HOMEM FORTE DO MEU LADO. O senhor Zackly quis tirar o emprego de sua mãe porque o PAI de Leona estava MORTO. Até então, Leona achava que não tinha nada a ver esse negócio de pai. As únicas pessoas com pai e mãe que ela conhecia eram as meninas Dok, as exceções à regra. Peter não tinha mãe, Otto e Rebeca não tinham pai, e Diana só via a mãe aos domingos. As outras famílias de seu círculo social seguiam configurações semelhantes.

No entanto, o bebê na barriga de Hange, sua irmãzinha, teria uma família completa com mãe e pai. Hange não estaria SOZINHA. Leona, enfim, dava-se de conta de que o senhor Levi não era o intruso – LEONA era. Ela quem quase fez Hange perder o cargo de comandante, e agora se intrometia no relacionamento de sua mãe, na nova família dela.

— No que você está pensando, filhotinho? — Hange deu um peteleco na testa da filha.

— No meu pai. Tudo isso aconteceu com você porque o meu pai morreu.

A compreensão no rosto de Hange não mudou. A resposta surpreendeu Leona:

— Na época eu pensei que sim, Bolinha. Mas, acho que o Zackly iria chiar mesmo se o seu pai estivesse vivo. Você ainda não sabe... — Hange balançou a cabeça, sorrindo. — Não, você sabe, sim, que não é fácil ser menina.

Hange acariciou a barriga, onde sua segunda menininha (Leona entrara na cabeça de Hange com a ideia da irmãzinha) dormia. Leona lembrou-se daquele velho estranho que encontrara antes de adoecer. "Se a minha filha aparece em casa com um cabelo desses, bato nela até o cabelo crescer". Pode não ser a mesma coisa que ser demitida, porém os cenários compartilham bases intrínsecas. Leona compreendia a seu modo infantil, abstrato e alegórico, e solidarizava-se com a luta de Hange. Ela pôs a mão sobre a da mãe, e Hange beijou o rosto da filha.

— O importante é que acabou bem. O seu pai protegeu a gente, mesmo morto. O Zackly e o outro general ficaram contentes quando eu contei que você é filha do Erwin. O seu pai era amigo deles. Eles me deixaram ficar com o posto, e ninguém mais tira esse cargo de mim.

Os olhos de Leona, grandes e espertos como os de Erwin, cintilaram. Seu pai salvou sua mãe lá do céu. Leona não costumava pensar em Erwin, todavia com o senhor Levi na jogada e sua irmãzinha a caminho, Leona desejava que seu pai estivesse aqui. O MEU pai, e o SEU pai. Uma necessidade inconsciente e desnecessária de igualdade, assim por dizer.

— Puxa, incrível. — Disse Leona, deslumbrada. — Eu queria que o meu pai estivesse vivo. Acho que as coisas seriam melhores. O senhor Levi não ia morar com a gente, por exemplo. — Leona olhou para os lados, desconfiada, e sussurrou: — Eu acho o senhor Levi mais legal longe.

— Não diga isso, Bolinha. — Hange riu entredentes. — O Levi é o pai da sua irmãzinha, lembra? E ele gosta muito de você. Ele te conhece desde antes de você nascer. Tirando eu e as enfermeiras, o Levi foi o primeiro a ver você.

— É mesmo?! — Leona não esperava por essa.

— Claro. Tente ser um pouco mais flexível, tá? Eu sei que é estranho ter outra pessoa morando aqui, mas o Levi é parte da nossa família agora.

Leona abaixou a cabeça, pensativa. O senhor Levi não era de todo mal, Leona admitia. Sua mãe o amava e sua irmãzinha decerto o amaria também. Até Leona o amava. Hange tinha razão. Leona assentiu e comprometeu-se, decidida:

— Tudo bem, mãe. Eu vou ajudar.

E Leona tentou fazer sua parte, de verdade. No entanto, o capitão não colaborava. Como no dia em que Leona se ofereceu para ajuda-lo a fazer compras e o senhor Levi a repreendeu, "Leona, sua jumenta, você está empacotando a merda do desinfetante com a porra da comida". Também teve a vez em que Leona pediu para dormir na casa de Rebeca. Sua mãe permitiu, e aí veio o maravilhoso senhor Levi lembrar Hange de que Leona tinha dentista na manhã seguinte, e assim Hange voltou atrás em sua decisão e Leona não pôde ir.

A vida não andava nada fácil. Pelo menos, Leona conseguiu parar com a mania de entrar e sair pela porta dos fundos. Essa simples atitude diminuiu a dificuldade de conviver com o "padrasto" — nossa, palavra horrível. Cumprimentar o senhor Levi nem era um sacrifício tão grande, afinal. Porém, um dia, Leona desejou nem ao menos ter saído da cama. Foi numa manhã de janeiro em que o sol amanheceu querendo cozinhar seres humanos. Leona, contudo, adorava o calor, e saiu do quarto disposta e alegre.

No entanto, assim que seus pés alcançaram a escada, o cheiro mordaz e enjoativo de água sanitária pura dominou suas narinas. O senhor Levi estava lá em baixo, de avental e lenço na cabeça. Droga, é aquele traje. Leona entrou em pânico. Ela disparou na direção da porta, e foi agarrada por Levi no meio do caminho.

— NÃO! ESTÁ UM DIA LINDO, SENHOR LEVI, POR FAVOR, FAXINA NÃO!

Leona corria sem sair do lugar. Seus pés resvalavam no chão úmido. Levi a segurava pela parte de trás da gola da camisa. O capitão revirou os olhos.

— Puta merda, quanto drama. — Desdenhou Levi, entediado.

— MÃÃEEEE MANDA O SENHOR LEVI PARAR EU QUERO IR BRINCAR SOCORRO.

— Sua mãe não está aqui. Ela foi ao quartel resolver as pendências sobre a viagem de Marley. — Levi pôs a mão no queixo, meditativo. — Hum... muito conveniente ela decidir ir justo hoje.

— Senhor Levi. — Leona se pôs de joelhos e implorou: — Por favor, não vamos faxinar nesse calor.

— Olha, Leona, são oito e meia. Quanto mais cedo você acabar, mais cedo pode ir brincar. Por que não começa pela sua zona?

— Huh? — Leona arqueou a sobrancelha. — O senhor está insinuando que o meu quarto é uma zona? O meu quarto é limpo!

— Ah, é? Quero ver.

Os dois subiram até o aposento. Leona havia arrumado a cama logo após acordar. Não se via brinquedos espalhados e o chão limpinho dava orgulho — Leona o varreu ontem. Ela pôs as mãos na cintura e pavoneou-se. O capitão, contudo, não estava impressionado. Levi passou o dedo na estante. A falange voltou empoeirada.

— Limpo, é? — Levi apertou os olhos. Ele arreou a mesa de cabeceira. Atrás, encontraram uma colônia de sujeira crescendo. — Você é a rainha da limpeza, Leona. Quer que eu levante o tapete?

Leona, murcha feito uma uva chupada, negou com a cabeça. Levi jogou a vassoura para ela. Leona não conseguiu apanhá-la e o cabo se espatifou.

— Tire os livros da estante e limpe as prateleiras. Varra atrás da mesa de cabeceira, levante o tapete, varra os cantos, varra em baixo da cama, arreie o baú, tire os brinquedos e o limpe. Quero ver esse quarto brilhando. Quando terminar, desça e dê um jeito naquele chiqueiro onde você coloca os bichos.

Ordens dadas, o senhor Levi retirou-se com toda a sua pose de capitão da Tropa de Exploração. Leona mostrou a língua, mas só depois de ter certeza de que o senhor Levi havia descido as escadas. Leona se pôs a varrer na força do ódio. Enquanto esfregava as cerdas agressivamente, Leona resmungava:

— Duvido que o meu pai fosse me fazer limpar. E também duvido que o senhor Levi fosse me tratar assim, se o meu pai estivesse aqui. Meu pai iria dar uma surra nele.

Leona terminou o quarto e foi direto ao consultório veterinário. Lá, limpou as gaiolas vazias – a demanda de animais feridos andava baixa, ainda mais com a proibição imposta pelo senhor Levi de não resgatar gatos. Quando Leona acabou e pensou estar livre do senhor Levi, ele a surpreendeu com uma mangueira. "Vá lavar a calçada. Apresse-se, antes que o sol fique mais forte", ele teve a ousadia de dizer.

— Ah, e mais uma coisa. — Levi atirou um soldado de brinquedo aos pés de Leona. — Encontrei em baixo do sofá. Olha aqui — o senhor Levi levantou o dedo indicador e franziu as sobrancelhas — se eu achar mais um brinquedinho, vai pro lixo.

Leona pegou o soldado, pensando o senhor já disse isso umas cinco vezes e nunca jogou meus brinquedos fora. Assim, aborrecida e chateada, Leona começou a molhar e a varrer a porcaria da calçada. Qual o sentido em lavar a frente da casa? A chuva dá conta desse trabalho com mais eficiência. Não tem lógica. O senhor Levi é um maníaco por limpeza. Um paranoico obsessivo.

A menina esfregava a calçada de pedra e puxava a água para o bueiro. Ela suava. lavar a calçada num dia quente é para matar. Leona tomou a liberdade de molhar o rosto e o cabelo. Ah, quem dera pudesse ir nadar. Aquele dia de verão pedia por uma tarde no lago.

No fim das contas, Leona não era a única a desejar água. Um bando de vozes chamou seu nome. Leona ergueu a cabeça encharcada e encontrou seus amigos no outro lado da rua. Peter, Rebeca, Otto, Kenny, Adam, Sandler, mais meninas e meninos... Minha Santa, a DIANA está com eles! Como em nome da Santa conseguiram passar pela dona Carminha?

— Bolinha, venha ao lago conosco! — Gritou Peter.

— Nós vamos fazer uma competição de mergulho. — Comentou Sandler.

— E de saltos. — Complementou Adam.

— Veja, Bolinha, minha avó me deixou brincar com vocês. — Diana acenava.

— Só que a dona Carminha pensa que você não vai, Bolinha. — Explicou Otto.

— Pare de varrer e venha com a gente. — Impacientou-se Rebeca.

Seus amigos apareceram na hora certa. Leona disse para eles aguardarem, pois ela ia pedir permissão. Contudo, lembrou-se de que sua mãe não estava em casa. O senhor Levi a deixaria ir nadar? É claro que não, convenhamos. Quer saber? vou deixar a vassoura aqui e sair de fininho. Uma vez, Leona prometeu à sua mãe que jamais sairia sem avisar. Porém, a promessa foi feita a sua mãe, e não ao chato do senhor Levi. Puxa, o senhor Levi vai me matar. Bom, Leona já o enfrentara uma vez e nada lhe aconteceu.

— Eu estou indo.

Leona atirou a vassoura no chão, pisoteou o cabo e atravessou a rua. Conforme Leona se aproximava, os amigos andavam para trás. Medo puro estampava-se na carinha das doze crianças. Adam e Sandler engoliram em seco e saíram em disparada. Diana, lívida feito papel, gaguejou um pedido de desculpas e fugiu atrás dos garotos mais velhos. As crianças restantes se juntaram a eles. Sobraram apenas os três melhores amigos de Leona. Peter, Otto e Rebeca se encolheram uns nos outros, aglomerados feito filhotinhos amedrontados. Leona arqueou a sobrancelha.

— Huh? Que caras são essas?

A tosse grave atrás das costas de Leona serviu como resposta. O senhor Levi era um homem de baixa altura, no entanto, a sombra que se projetou sobre as quatro crianças era colossal e ameaçadora. Da face sisuda dava para ver apenas os olhos, pois a boca e o nariz estavam cobertos pelo lenço. Leona sentiu tanto medo quanto seus amigos. Entretanto, ela não ia abaixar a cabeça, não dessa vez.

— Ah, senhor Levi! Que ótimo o senhor aparecer. — Leona sorria com empolgação fingida. — Posso ir nadar? Eu ajudo a limpar a casa quando voltar.

— Você pensa que eu não te vi sair?

— Eu só vim falar com os meus amigos. Palavra. — Garantiu Leona. Ela voltou-se aos companheiros: — Não é, pessoal?

Peter sacudiu a cabeça suada para cima e para baixo bem rapidinho. Otto e Rebeca, entretanto, estavam apavorados demais para ajudar Leona a sustentar a mentira. Otto torcia as pernas como se estivesse segurando o xixi e Rebeca parecia a beira das lágrimas. É incrível o que as aparições do senhor Levi fazem com as pessoas. Leona gesticulou gestos de vamos-lá-pessoal-me-ajudem com a cabeça e com as mãos. Otto e Rebeca, contudo, não conseguiam falar.

Enfim, Leona percebeu que o melhor a fazer era entregar-se. Seus amigos não estavam em condições de auxilia-la, e de qualquer forma, o olhar hostil do senhor Levi não era nem um pouco promissor. A menina suspirou, coçou a nuca e tentou remediar a situação.

— Certo, senhor Levi. Vou voltar a varrer.

O senhor Levi respondeu antes de Leona terminar de falar:

— Você me desobedeceu. — A voz do senhor Levi era pesada feito rocha. — E o pior: você ia sair sem me avisar. A sua mãe vai saber disso. Você não vai escapar dessa, nem dela e nem de mim.

Levi fechou o punho. Os amigos de Leona fugiram aterrorizados — e se fossem os próximos? Leona endureceu, trancou a respiração e fechou os olhos, preparada para o golpe. O senhor Levi lhe deu um belo cascudo. Os cascudos do senhor Levi não eram tão dolorosos; as palavras "a sua mãe vai saber disso" machucaram-na muito mais. Leona rogou, desesperada:

— Senhor Levi, me desculpe. Não conta pra minha mãe. Eu ia voltar antes de

O senhor Levi levantou a mão aberta, sinalizando para Leona calar a boca. De cabeça baixa, Leona o seguiu de volta para casa. Ela parou em frente a vassoura e recomeçou a limpeza.

Leona varria devagar. Seu suor misturava-se à água e sua cabeça torrava de baixo do sol das onze e meia. Leona, porém, não limpava em ritmo lento por cansaço, e sim por não querer entrar em casa. Ela prometeu à Hange que faria sua parte para a convivência com o senhor Levi ser harmoniosa, e acabara de pôr tudo a perder. Sua mãe não ia gostar.

Além disso, Leona envergonhava-se por ter mentido para o senhor Levi, o homem que lhe deu uma bicicleta-avião e certa vez lhe confessou que também não conheceu o pai. Em sua solidão reflexiva, Leona lamentava o desentendimento. Se o dia não estivesse tão dolorosamente quente, e se o senhor Levi fosse menos mandão, Leona não o desobedeceria.

Apesar da lentidão, Leona não ficou no sol por tanto tempo. O senhor Levi apareceu em minutos, de braços cruzados e com o lenço abaixado. O capitão apoiou o ombro na moldura da porta e pigarrou. Leona, constrangida, foi até ele cabisbaixa e subalterna. Entretanto, Leona não era a única arrependida. Essa verdade era perceptível na voz do senhor Levi. O timbre grave passava longe de ser doce, era a casualidade que denunciava o perdão:

— Vamos almoçar nos fundos. Está mais fresco lá.

Os dois sentaram na pequena varanda. O senhor Levi havia cortado o mato. O pátio ficava mais agradável sem os arbustos. O capitão entregou-lhe um copo de suco de laranja, e Leona bebeu com gula. Capitão e criança comiam em silêncio, lado a lado, a uma distância considerável. Leona entreolhava o senhor Levi de soslaio. Ela queria pedir desculpas de novo. Então, para a surpresa de Leona, quem pediu foi ele.

— Você ainda quer nadar? — Perguntou Levi. O capitão fitava um ponto invisível no outro lado do quintal.

Leona mirou a comida semiacabada. Qual resposta agradaria mais o senhor Levi? Leona não sabia. Por conseguinte, decidiu ser honesta.

— Quero.

— Pode ir.

— Huh? — Leona arregalou os olhos. — É sério?

— Sim. — O senhor Levi a encarou. — Me desculpe por ter sido cuzão. Não foi de propósito. Eu ainda sou meio... huh... — As palavras fugiram da boca do senhor Levi. Ele não era muito bom em se expressar. — Eu ainda estou aprendendo a lidar com esse negócio de ter uma casa. Preciso me lembrar o tempo todo de que não estou no quartel.

A resposta de Leona foi uma risada fraca. Ela tentou se colocar no lugar dele. Deve ser dureza para alguém casca-grossa como o senhor Levi aprender a cuidar de uma casa e de duas crianças, sobretudo porque ele passou a vida inteira comandando soldados e enfrentando titãs.

— Não tem problema. Obrigada, senhor Levi. — Disse Leona com sinceridade.

O senhor Levi ainda não havia acabado.

— Sabe, acho que não precisamos aborrecer a sua mãe.

Leona quase chorou de alívio. A menina disse obrigada obrigada senhor Levizinho. Porém, como já era de se esperar, o combinado exigia condições da parte beneficiada.

— Promete que não vai mais mentir para mim?

O sorriso de Leona minguou. Se até para a própria mãe ela tentava mentir, como poderia prometer que não aconteceria de novo com o senhor Levi? Leona mordeu o interior do lábio e desviou o olhar. Se respondesse SIM, já estaria mentindo logo aí. O senhor Levi reparou na sua hesitação.

— É uma promessa grande, eu entendo. — Ele deu de ombros. — Vamos mudar. Me promete que você não vai mais sair sem avisar?

Tudo bem, essa é uma promessa fácil de cumprir, e também é algo que Leona já faz com Hange. A menina aquiesceu, mostrando um sorriso cheio de janelinhas.

— É palavra de Smith? — Reforçou Levi.

Smith? O senhor Levi acabara de mencionar o sobrenome do pai de Leona? A menina alegre levantou num pulo e bateu a continência da Tropa de Exploração.

— Palavra de Smith!

— Então sua palavra não vale nada.

— O QUÊ!?

Leona perdeu o compasso. Como assim, a palavra dos Smith não vale nada? Leona abriu e fechou a boca em busca da resposta perfeita. Por fim, escolheu o desprezo. Ela se virou de braços cruzados e fez hunf. O senhor Levi abaixou a cabeça e recolheu os pratos largados na varanda. Leona pensou tê-lo visto rindo.

XXX

— Nós vamos para Marley em breve.

Eren diz à Historia. Os dois estão encostados na cerca que rodeia o extenso território da fazenda da rainha. Um mês atrás, antes de Eren viajar a Hizuru, eles estiveram nesse mesmo lugar, e Eren contou à Historia uma introdução do PLANO DO PARAÍSO. A história se repete. Eren viajaria mais uma vez, e de novo ele está aqui, relatando seus segredos obscuros.

O soldado a encara. Historia retribui o olhar, séria e desconfiada. Ele e a rainha estão lado a lado. Eren cresceu quase quinze centímetros naqueles sete anos. Historia, pobrezinha, continua uma mulher dura presa num corpo frágil. Eren se pergunta, se o físico de Historia refletisse sua força, tentaria ela impedi-lo de realizar seu objetivo? Eren duvidava.

— Dessa vez eu não vou voltar, Historia. Não nos veremos novamente.

A surpresa no rosto da rainha não abala Eren, tampouco o estarrecimento que vem em seguida. Se existe nele qualquer possibilidade de desistência, a presença do LOUCO a destrói. O seu Eu do futuro observa a conversa a alguns metros de distância, na sombra de uma árvore. Historia abre a boca, mas é Eren quem fala primeiro, como sempre.

— Você não tem muito tempo. Assim que o Zeke chegar na ilha, a polícia militar vai transformar você em titã e forçar a herança. Lute ou esconda-se.

Eren declara direto e monocórdio. O soldado espera (quase implora) que Historia pergunte como ele descobriu essas informações confidenciais. Historia, no entanto, não levanta questionamentos. Pelo rabo do olho, Eren vê a rainha sorrir de canto.

— Nada disso é novidade. Eu estava na reunião, lembra? Eu aceitei o plano. — Historia suspira. — De qualquer forma, obrigada por me avisar, Eren, e por tentar me ajudar.

Historia parece grata. Eren sente vontade de vomitar. Por que todos ao seu redor são um bando de escravos? Escravos do sistema, escravos do destino, escravos de pessoas. Algumas gaiolas estão dentro da cabeça dos pássaros. Historia o decepciona. Eren esperava mais da rainha. Antes de descobrirem os malefícios da herança, Historia abriu mão do titã fundador para salvá-lo. Historia disse, com todas as letras: não me importo se sou a inimiga da humanidade, eu sou sua amiga. Aonde está a Historia que Eren conhece?

— Você não precisa se sacrificar. Lembra do que eu te falei na última vez?

— Lembro, eu acho. — Historia desmancha o sorriso. — Eu não entendi direito, para ser honesta.

Zero surpresas. Eren se desencosta da cerca. Quem vê pensa que Eren contempla a paisagem rural. Entretanto, Eren fita o LOUCO, aquela versão abominável de seu próprio Eu, uau, vou me tornar um homem imundo, e simultaneamente, o LOUCO é tudo que Eren sempre quis ser. Olhar o LOUCO é como encarar o próprio reflexo num espelho distorcido. Porém, quanto mais você olha a mesma imagem, mais o seu cérebro normaliza o que é visto. Quem sabe seu Eu do presente seja a verdadeira distorção.

— Nós vamos destruir o mundo, Historia. — O uso da palavra nós é proposital, embora não inclua a rainha. — É a nossa vez. O mundo será inteirinho nosso.

— NÃO! — Historia grita. — Nem todo mundo fora da ilha é nosso inimigo. Pessoas vão ser mortas do dia para a noite sem nem saber o porquê, Eren. — Historia reflete sobre as próximas palavras. Eren já sabe o que ela vai dizer. — Como a sua mãe.

Se Historia busca alguma reação por parte de Eren, não consegue. Ele viveu e reviveu a morte da mãe um milhão de vezes. Ah, se Historia soubesse... Eren não só matou a própria mãe como também matará a de tantos outros e outras por aí. Os efeitos colaterais estão bem claros em sua cabeça. Eren aceitou as condições há anos. Há um tesouro no fim do inferno, e ele irá conquistá-lo.

— Eu sei. — Eren responde, entediado. — Acha que eu não refleti, Historia? — Eren começa a perder a paciência. — Veja bem, se eu não destruir nossos inimigos, você e seus descendentes continuarão parindo com o único propósito de controlar titãs. Você acha justo? Eu não acho.

Enquanto Eren fala, Historia se encolhe. Eren continua. O LOUCO o incentiva. Eren sente a respiração quente do seu Eu do futuro sussurrando ao seu ouvido – convença a rainha, convença a rainha. A rainha precisa acatar, do contrário o PLANO DO PARAÍSO será posto em risco. Historia recua até bater as costas na cerca.

— Eren. — Historia começa, cautelosa. — Se eu não te impedir, jamais viverei em paz comigo mesma. — Conforme fala, Historia ganha coragem e desafia o animal a sua frente. — Como poderei ser cúmplice dessa matança?

Matança. O sinônimo da palavra que Hange usou para resumir o PLANO DO PARAÍSO. Qual era mesmo? Ah, genocídio – o termo técnico. Naquele dia, Eren ofendeu-se por Hange ver apenas o lado ruim do futuro utópico dos paradisianos. Entretanto, Hange estava certa. Vai ser um genocídio e tanto. Enfim, o inferno é pavimentado de boas intenções.

— Você pode guardar um segredo, Historia?

Eren pergunta já sabendo que Historia pode. Por bem ou por mal, Historia pode guardar qualquer segredo, assim como Hange o fez e continua fazendo (apesar de contra a vontade). A rainha, meio relutante, assente.

— Você lembra da cerimônia em homenagem a Shiganshina? Lembra de quando eu beijei sua mão? Historia, quando beijei você, eu tive uma visão.

Historia não compreende. Eren dá um tempo a ela. Em segundos Historia se recorda da solenidade aos soldados mortos em Shiganshina. Naquele dia, Eren e os oito militares sobreviventes beijaram sua mão. Historia revive a descarga elétrica que fisgou sua espinha ao ser beijada por Eren — rápida e inesquecível.

— Quer dizer que o sangue real de não-transformados...

Eren a interrompe. Não é bom iniciar debates sobre os experimentos com o sangue real.

— Eu vi tudo, Historia. Futuro e passado. O passado do meu pai, e do homem antes dele, e assim por diante. E eu vi meu futuro. Não, o nosso futuro.

Eren se aproxima. Historia mantém-se parada, enfrentando a presença dominante. O soldado põe as mãos nos ombros da rainha, por cima do vestido de camponesa. O toque de Eren é indolor, quase amigável. No entanto, suas mãos são firmes, e ele aperta os ossos da rainha. O lábio de Historia treme.

— Historia, acredite em mim. Eu viajei por inúmeras realidades em busca da solução perfeita, e essa é a mais benéfica para todos nós. Eu garanto a você, quando eu terminar, esse inferno acabará. A herança já era. Eu vi tudo. Meus últimos meses de vida serão tranquilos. O resto da sua vida e a dos nossos amigos também vai ser pacífica. — Eren faz uma pausa. Ele sorri um sorriso de dentes amarelos. — Mas não posso seguir o plano sem o Zeke, por isso preciso que você se esconda dos policiais. Lembra o que você disse naquele dia, Historia, quando você me salvou? Você não é minha amiga? Você não é a pior garota do mundo, a inimiga da humanidade?

Os olhos da rainha brilham. Historia perde o ar e mira Eren em busca de argumentos que contradigam a proposta do paraíso. Ela não encontra nenhum. A rainha funga embora seu estado passe longe do de alguém prestes a chorar.

— Você promete, Eren?

Eren balança a cabeça, honesto. Se a execução do PLANO DO PARAÍSO obtiver sucesso, Historia viverá uma vida longa e próspera, assim como Jean, Mikasa, Armin, Floch, Sasha, Connie, Hange e Levi – se cooperarem. A rainha abaixa a cabeça, e ao levantá-la, Eren reconhece a garota daquele dia — a inimiga da humanidade, sua parceira.

— Quando Zeke vai chegar?

— Ele e eu voltaremos de Marley em meados de setembro.

Historia abandona a conversa ao perder-se na própria cabeça. Ela concentra-se em uma ideia pessoal. Historia retorna de sua reflexão em poucos segundos. A rainha elabora um plano. De fato, não há motivos para viver como uma fugitiva e deixar o povo sem sua representante. Há uma solução inteligente e perspicaz, embora radical, fria, que segue quase a mesma estratégia do sistema de sacrificar pais e filhos, quando se analisa com olhares críticos. Se funcionar, Historia ganhará tempo e Eren poderá usar Zeke.

— O que você acha de eu ter um filho?