Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
44 Quando o gato sai
Notas iniciais
Entre as férias escolares, a convivência conflituosa com o senhor Levi e o acompanhamento da gestação de Hange, Leona mal percebeu as folhas do calendário jazendo amassadas na lixeira da cozinha. Leona tampouco prestou atenção nos preparativos para viagem para Marley, ou nas constantes menções empolgadas de sua mãe sobre a jornada. Quando Leona menos esperou, as malas estavam postas na porta da frente. A menina reagiu com melancolia. Ela não queria passar um mês longe de sua mãe e de sua irmãzinha. Porém, Leona não perturbaria Hange com sua soledade, sobretudo após tê-la feito perder a viagem de Hizuru.
Fora Hange e Levi, também viajariam Armin, Mikasa, Eren, Jean, Sasha e Connie. Além desses oito, Kiyomi Azumabito e alguns membros de sua embaixada acompanhariam os peregrinos, para o caso de eventuais problemas em continente marleyano — um território hostil para os portadores do sangue de Eldia. Kiyomi possuía uma mansão em Marley, a qual foi oferecida como hotel aos paradisianos. Uma estadia de luxo gratuita.
Dessa vez, a jornada não aconteceria de avião, e sim de navio. Além da comodidade, o principal motivo para a mudança de transporte era o território aéreo de Marley. O exército marleyano monitorava o céu vinte e quatro horas. Marley submetia as naves intrusas a interrogatórios exaustivos, isso quando não enviava caças assassinos sem aviso prévio. A vigilância era menos rígida com navios, portanto iriam pelo mar. Os atestados de sangue falsificados e os passaportes de mentirinha já estavam de prontidão, bem como a documentação sobre a viagem a negócios fictícia.
No dia da viagem, Leona embarcou no trem com sua mãe e seus amigos soldados. Floch, a mãe de Jean, os pais de Sasha e os filhos adotivos deles, Louise, dentre outros familiares e camaradas queridos, também compareceram. A manhã nublada combinava com o humor deprimido dos que ficavam, mas pouco assemelhava-se ao ar radiante dos viajantes.
— Mal posso acreditar que vou cagar em solo marleyano.
Emocionou-se Jean, limpando a lágrima no canto do olho. A mãe do soldado, uma senhora com metade do tamanho dele, estapeou-o, e Jean encolheu-se gemendo ai ai mamãe assim machuca. Floch, gargalhando, incentivou Jean a cagar no máximo de banheiros possíveis. Eren entrou na conversa, e nisso deu abertura para Connie participar do debate fecal.
Mikasa, reclusa em seu canto, observava a paisagem paradisiana. A soldada suspirava; combalida, despedia-se de sua tão amada ilha. Armin, em contrapartida, estava entusiasmado em ver-se longe das muralhas. Sasha, por incrível que pareça vestindo uma versão plácida e educada de si mesma, conversava em volume ambiente com sua família de mais de seis pessoas, e recebia o amor dos pais sem constrangimentos.
Assim como Sasha, Leona queria aproveitar as últimas horas com sua família. Desse modo, Leona pouco interagiu com os outros passageiros, tanto que Mikasa e Armin estranharam a quietude da garotinha normalmente falante e participativa. Leona estagnou-se do lado de Hange, e embora estivesse sentada na janela, a menina só tinha olhos para sua mãe e o serzinho na barriga dela.
— Mãe, quando você voltar, minha irmãzinha vai estar grande?
— Sim. — Hange assentiu. — Eu não sei se vou estar barriguda, mas sua irmã vai ter crescido um bocado.
— Ela já vai estar chutando?
— Vai demorar um pouco pra isso, Bolinha.
Essa informação não abalou Leona. A alegrou, na verdade. Significava que ela não perderia etapas significativas do desenvolvimento de sua irmãzinha. Leona moveu-se e Hange entendeu na hora o que a filha queria. A comandante levantou a camisa e Leona encostou o ouvido na barriga nua. Os murmurinhos do ventre traziam paz ao coração da criança.
— A gente vai ficar um tempo longe, irmãzinha. Nossa mãe, você e o senhor Levi vão viajar. Eu não posso ir.
A algazarra dos adultos não atrapalhava a conversa entre as irmãs. Leona conseguia focalizar a audição naqueles burburinhos abafado. Ela aninhou-se na casinha da irmã e continuou:
— Sortuda, você vai ver Marley antes de mim. Só que... você não vai lembrar. A gente perde a memória depois que sai da barriga da mãe, sabe? Eu mesma não lembro de nada. Mas aí, você me conta tudo aí de dentro, tá? E aí, quando você nascer, eu posso te lembrar. Combinado?
Por alguma razão inescrutável, Hange achou a proposta de Leona digna de risadas. A barriga da comandante tremeu quando ela riu de lábios cerrados. Hange ainda tentou disfarçar colocando a mão sobre a boca. Leona não deu importância. Sua irmãzinha, a única cuja opinião valia, achava a ideia incrível. O brotinho expressou sua aprovação em sua linguagem de feto, legível apenas para irmãos mais velhos.
— Ela gostou.
— Ah. — Hange sufocou o riso. — Que ótimo, filhotinho.
— Você acha que ela vai esquecer de mim?
— Claro que não. — Hange sorriu. — Como alguém esqueceria uma irmã mais velha tão legal como você?
As bochechas de Leona coraram. IRMÃ MAIS VELHA é um cargo mais honrado do que qualquer título monárquico. Leona rolou, deitando a nuca sobre as pernas de Hange. As duas se encararam, e então entraram num jogo de cócegas. Elas brincaram até o cenário de planícies ser substituído pelo mar imponente.
O senhor Levi apareceu. Ele esteve com os subordinados desde o momento em que entraram no vagão. Aos sete anos, Leona não compreendia que foi proposital para ela ter a atenção da mãe só para si e vice-e-versa.
— Hange, vai se preparando. Estamos quase chegando no porto.
— Puxa, até que enfim!
Hange descontou a felicidade em Leona, entupindo a filha de beijos molhados e abraços esmagadores. Hange só parou quando o apito do trem anunciou a chegada na estação praiana. Os soldados aprontaram as malas antes do início do desembarque. O senhor Levi ralhava "depressa, bando de bunda mole", e empurrava-os para as portas do vagão.
Os soldados desembarcaram com alegria impaciente, mas só depois da comandante, que usou seu privilégio de mulher grávida para passar na frente de todos. Leona não encontrava diferenças entre os soldados alvoraçados e seus colegas na hora do recreio da escola. Foram recebidos por Onyankopon. Leona se surpreendeu ao ver o inglês de chapéu na cabeça e mala na mão.
— Você também vai, senhor Onypon?
— Vou. Alguém precisa ser o guia turístico desses forasteiros.
Os paradisianos riram da denominação usada por Onyankopon, pois era o vocábulo que o povo da ilha utilizava para referir-se a qualquer pessoa de fora. Agora, os papéis invertiam-se. Ansiosos e orgulhosos, a turma seguiu na direção do navio hizurunês atracado no cais. Leona andava juntinho a sua mãe, acompanhando a passada larga e decidida de Hange. Leona contemplava os arredores do porto, achando-o triste e decadente de baixo daquele céu cinzento. Era como se a ilha lamentasse a ida de seus cidadãos. O barco ficava cada vez mais próximo, tal qual as lágrimas.
— Mãe, eu vou sentir sua falta.
Disse Leona em voz embargada ao pararem na frente do navio. Ela controlou o choro de pronto. O senhor Levi seguiu adiante, dando privacidade às duas garotas. O capitão foi o primeiro a entrar. Os demais despediam-se dos amigos e familiares. Hange abraçou Leona.
— Eu também vou sentir saudade de você. — Hange murmurou no abraço. — Estaremos juntas em breve.
— Eu quero ir... — Leona sussurrou a confissão.
— Eu sei, filhotinho. Eu vou levar você comigo na próxima, tudo bem? — Hange entrelaçou o dedo mindinho no dela. — É uma promessa.
Leona fitou seu próprio dedo enroscado no de sua mãe. Era tão pequeno perto do de Hange. Leona fantasiou o dia em que sua mão estaria do tamanho da de Hange ou maior. É tão incrível esse negócio de ser adulta. Sem escola, sem regras, sem horário para voltar, ir aonde quisesse e quando quisesse. Leona poderia viajar com sua mãe, se não fosse criança.
— Certo. — Leona sorriu, confiante. — Promessa.
É difícil manter-se sorridente quando se quer chorar. Os cantos da boca de Leona começaram a doer. Hange deu mais um abraço terno e quentinho na filha, cheio de familiaridade e amor.
— Seja uma boa menina para a Minnie. E faça as lições de casa direitinho, quando a escola voltar.
Sua mãe ficaria tanto tempo fora que nem compareceria no primeiro dia de aula. Lembrar dessa verdade aborreceu Leona. A menina controlou a indignação, segurando a pose de adulta que tanto tentava mostrar. Leona se empertigou e assentiu.
— Vou ser, mãe. Amo você.
— Eu também amo você. Vejo você mais tarde, Bolinha.
E assim Hange embarcou, saltando rampa a cima, incapaz de conter a empolgação em realizar seu sonho de ver o mundo. Leona assistiu Hange desaparecer na abertura do navio, como se a gigantesca máquina hizurunesa tivesse devorado sua mãe. Os afeiçoados, os funcionários do porto e os transeuntes tumultuavam atrás de Leona, gritando mensagens de boa-viagem. Leona, contudo, não escutava nada se não as batidas do próprio coração acelerado.
— Vem, Bolinha, eu vou te levar pra casa.
Floch, o dono da voz, colocou a mão no ombro da criança. Ele estava bem atrás dela. Leona, arrebatada, não sentiu a presença. Nem a buzina do navio a despertou. De boca aberta e olhar paralisado, Leona assistia o barco navegar no mar infinito. Ela ficou a ver navios; literalmente. Lá na popa, pessoas pequenininhas acenavam para os jacentes. Leona, agindo no automático, acenou de volta.
— Está vendo a sua mãe daqui? Veja, ela está te jogando beijos.
Sim, Leona a distinguia. Hange era a terceira figura mais baixinha... tão distante. O ar faltou, e seu braço balançante perdeu a força. Suas pernas, entretanto, estavam preparadas para o que der e vier. Leona usou-as. As lágrimas que ela segurara com tanta bravura enfim rolaram pelas bochechas vermelhas. A garganta esgoelava-se em súplicas. As gaivotas assustadas levantaram voo, e o barulho das asas reverberou junto com a cólera infantil.
— MÃAAAAAE! EU QUERO IR! VOLTA, ME LEVA JUNTO!
A pose de adulta foi-se com o navio, e então Leona não mais passava de uma criancinha de sete anos. Ela continuou correndo contra o vento e contra as ordens de Floch, e determinada a enfrentar o oceano também. Perseguiria o navio a nado até o continente marleyano. Leona alcançaria sua mãe e sua irmãzinha.
— LEONA! PARA, PORRA, PARA! VOCÊ VAI CAIR!
Floch alcançou-a. Malditos adultos e suas pernas longas. Leona debateu-se, berrou, chutou e chorou. A mãe de Jean exclamou "oh, pobrezinha!". O irmão adotivo de Sasha apontou para Leona e falou "olha, pai, eu não chorei igual a ela", sendo imediatamente censurado. Alguns parabenizaram Floch pela agilidade. A plateia estava convicta de que Leona teria saltado na água se não fosse pelo pensamento rápido de seu salvador.
A essa altura, as forças de Leona enfraqueceram. Ainda assim, Floch não sentia-se seguro em larga-la. Leona, ofegante pelo esforço e pela correria, observou o navio percorrer a água tranquila do mar paradisiano até sumir no horizonte cinzento.
XXX
A casa tornou-se vazia sem Hange. Era estranho não ver papéis espalhados aqui e acolá. Hange, uma pessoa estudiosa e dedicada, às vezes se perdia no horário e trabalhava até altas horas. Leona, ao passar pela porta do quarto dela durante a noite, sentia falta do barulhinho da caneta riscando o papel pólen, bem como o tuc-tuc-tuc na escrivaninha quando sua mãe martelava a caneta ou os nós dos dedos em momentos de ponderação. Anos atrás, quando Leona não precisava das duas mãos para mostrar sua idade, às vezes ela acordava no meio da noite e entrava no quarto da mãe em busca do colinho noturno. Leona gostaria de poder reviver o passado. Ela também sentia saudade do senhor Levi e da rotina pré-estabelecida baseada em você-só-vai-brincar-depois-que-terminar-suas-obrigações. Mas só sentia um tiquinho, do tamanho da pontinha de um fósforo.
Entretanto, o arrefecimento não pendurou. Leona adaptou-se ao absentismo. Em menos de dois dias, Leona voltou a ser a criança alegre, falante e brincalhona. Nesse ínterim, ela aproveitou a ausência do senhor Levi para resgatar cinco gatinhos órfãos. Os animais fraquinhos e desengonçados estavam cheios de vontade de viver. Leona ocupou-se alimentando-os e acompanhando sua recuperação, e como não havia ninguém em casa para impedi-la – Minnie tentou, mas Leona não lhe deu ouvidos – ela pôs os gatos para dormir em seu quarto. Três acabaram morrendo, mas os dois remanescentes erguiam-se fortes e saudáveis. Leona precisava achar adotantes antes que o senhor Levi descobrisse que gatos estiveram espalhando "toxoplasmose" na casa. Bom, Leona tem bastante tempo para encontrar alguém.
A estação ajudou Leona a superar a separação. Era o auge do verão. O sol escaldante exigia banhos de lago, acampamentos no quintal e conversas em grupo na sombra das árvores. E se for uma árvore frutífera, melhor ainda. Quando o assunto era pomares, não havia crianças mais sabidas do que Adam e Sandler. Os garotos conheciam as espécies de árvores como as palmas das mãos sujas, e sabiam direitinho quais frutas estavam maduras, bichadas ou estragadas. Por essas e outras, a dupla de maltrapilhos era a mais confiável quando se tratava de pomos. No entanto, a palavra dos garotos não era de todo confiável. Com frequência, as crianças mais inocentes (ou otárias) entravam pelo cano por causa dos dois, como aconteceu numa fatídica tarde de sol quente e vento gelado.
— As frutas daqui são boas mesmo, Adam e Sandler?
Perguntava Peter ao esgueirar-se pela cerca que delimitava o território daquela propriedade que até então só Adam e Sandler sabiam ser privada. Dava para ver o pomar desde o começo da rua, sendo aquela uma região conhecida por moradores que ganhavam a vida vendendo vegetais, frutas, adubos e outros produtos relativos a jardinagem.
— É claro que são, imbecil. A gente não come coisa ruim. — Respondeu Adam.
— Só comemos fruta boa, porra. — Completou Sandler.
Pareciam gêmeos, aqueles dois. Viviam reforçando a frase do outro e nunca eram vistos separados. Eles iam para a escola juntos e reprovaram nas mesmas séries. Assemelhavam-se até na aparência, desde a cabeça raspada até as roupas imundas. Para quem não os conhecia, a forma mais fácil de diferenciá-los dava-se pela dinâmica de líder e seguidor. Adam, o chefe supremo; Sandler, o lacaio exemplar.
— E a gente pode pegar quantas frutas quisermos? — Perguntou Leona, saltando para o lado dos meninos. — Não é roubo? — Leona era um pouco traumatizada com essa coisa de pegar algo de alguém sem permissão.
— Não. — Adam e Sandler disseram em uníssono, com veemência. — O pomar é do velho senhor Nicolau, um amigo nosso — Aqui, a voz de Adam parou e a de Sandler continuou: — de longa data.
— Ah, que bom. — Aliviou-se Otto. — Vocês sabem, roubar é coisa do diabo.
— Puta merda. — Reclamou Sandler.
— Argh. — Adam revirou os olhos. — Quem deixou o coroinha vir junto?
As crianças sentaram de baixo de uma árvore pequena de folhas verdes e persistentes. Dos ramos sobressaiam-se bolotinhas. O vermelho vivo chamou a atenção das crianças menores. Leona e seus três melhores amigos arrancaram as bolotas sem demora. Rebeca enfiou duas na boca. Corações cartunescos substituíram as pupilas da menina.
— Puxa, que delícia. Que fruta é essa?
— São cerejas. — Leona deliciava-se. — A mana Mikasa adora.
— Gostosa feito o diabo.
Sandler esfregou a barriga, aprovando o sabor. Otto, ao ouvir a comparação, encarou sua cereja mordida e fez cara de nojo. Otto jogou a fruta fora com desdém e limpou as mãos na camisa. Com exceção do garoto religioso, as crianças lambuzaram-se com as cerejas recém colhidas. Leona lambia os beiços e gemia de satisfação. Ela deitou de barriga para cima, com as costas acomodadas na grama, e inspirou o cheiro de areia regada.
— O senhor Nicolau é muito gentil em deixar a gente vir aqui. — Suspirou Leona, grata.
Adam piscou para Sandler, e Sandler piscou para Adam.
De barriga cheia e boca suja, as crianças descansaram sob a sombra do pomar. Leona, esparramada, não pensava em nada, apenas sentia a textura gostosa da grama e absorvia os perfumes da natureza. Ao redor, os demais discutiam:
— Pronto, já estão de bucho cheio. — Otto impacientava-se. — Podemos sair daqui e brincar?
— Brincar de que, Otto? — Perguntou Rebeca, entediada. — Já brincamos a manhã inteira.
— Podemos brincar de igreja. Eu sou o pastor, vocês são os meus fiéis, e o Sandler é o possuído pelo diabo. O que acham?
Sandler fez uma careta vermelha de cereja. Os outros riram. Era só o que faltava, brincar de igreja. Otto protestou sobre o descaso de seus amigos, o que deu início a uma briga calorosa. Leona, contudo, não participou. Ela estava imersa em pensamentos lúdicos. Talvez, inventar uma brincadeira nova não fosse a melhor solução. Incrementar uma já existente parecia a alternativa mais divertida.
Dessa maneira, Leona sentou-se e chamou a atenção dos amigos. As crianças pararam de enforcar Otto e voltaram-se para Leona. A garotinha levantou o dedo como um bom aluno em sala de aula, e deu sua sugestão:
— Vamos brincar de Paradis e Marley.
— Huh? — Peter não entendeu. — Como se brinca disso?
— É como soldado e titã, só que com marleyanos junto. Adam e Sandler podem ser os marleyanos, e nós três somos os soldados da Tropa de Exploração. — Leona acabara de inventar as regras. — Bem, agora nos falta os titãs. — Ela martelou o espaço entre o nariz e o lábio, meditando.
— Sobre isso, Bolinha. — Adam deu uma risadinha. — Seu titã vem vindo aí.
A princípio, Leona não entendeu. Então, quando o dono da casa, um velho irado, apareceu, a ficha caiu. Aquele homem parecia mesmo um titã. Ele era enorme, feio e aterrorizante, sobretudo com aquele cinto que ele girava acima da cabeça como se fosse um chicote.
— De novo esses moleques comendo minhas frutas. Agora vocês vão ver com quantos paus se faz uma canoa.
As crianças não sabiam com quantos paus se faz uma canoa e nem pretendiam descobrir. Leona teve tempo de gritar um pedido de desculpas ao velho, antes de voar cerca a fora. Adam e Sandler já estavam lá na frente. E se os garotos mais velhos estavam avançados, Otto, então, havia sumido de vista. Rebeca veio logo atrás de Leona. Peter não teve a mesma sorte. O garotinho levou uma cintada feia de doer. Puxa vida, o senhor Nicolau decerto não gosta tanto de visitas.
— Ui. — Sandler solidarizou-se com a dor de Peter.
— Essa eu senti. — Adam cerrou os punhos perto do rosto.
No fim, Peter conseguiu fugir. Chorando e com a bunda doendo, mas conseguiu. O senhor Nicolau praguejava maldições, sacudia o cinto e desafiava os garotos a voltar. As crianças escapuliram rapidinho. Ao estarem seguros, Leona socorreu Peter.
— Puxa, Peter, que cintada você levou. Está doendo?
— Ai. — Peter resmungou. — Doeu, mas não foi tanto assim.
Estava claro que foi tanto assim. Nesse instante, Otto, o fujão desaparecido, invadiu a rodinha empurrando Adam com violência. Ainda bem que os seres humanos não soltam raios pelos olhos, se não Otto teria assassinado a dupla de golpistas.
— VOCÊS ME FIZERAM ROUBAR! AGORA EU VOU PRO INFERNO POR CAUSA DE VOCÊS!
Otto e seu famigerado diabo. Às vezes, Leona se perguntava que tipo de pessoa Otto seria caso a Santa fosse a favor de tudo que o diabo defende.
— Ei, rapaz, calma aí. — Sandler dava risada. — São só frutas.
— ROUBO É ROUBO! E AGORA, COM QUE CARA EU ENTRO NA IGREJA? — Otto encheu a mão de pedrinhas e atirou-as na cara dos garotos mais velhos. — O DIABO VAI PUXAR O MEU PÉ POR CULPA DE VOCÊS!
Adam e Sandler, rindo feito hienas, nada fizeram além de se protegerem dos ataques enfadonhos. Leona viu um leque de possibilidades nos arremessos persistentes de Otto. Quando ela olhou ao redor e enxergou as casas de telhados baixos e muros altos, uma vela acendeu-se no topo de sua cabeça. Peter e Rebeca pararam de prestar atenção em Otto e observaram Leona encher os bolsos de pedras. Durante a coleta, Leona avistou um longo graveto — a espada perfeita. Após reunir o arsenal, Leona escalou o muro de uma das casas somente para alcançar o telhado. Lá de cima, ela juntou-se a Otto no fuzilamento.
— LUTEM OU REDAM-SE, MARLEYANOS. — Gritou Leona, levantando a espada.
Adam, Sandler, Otto, Rebeca e Peter encararam a criança no telhado, emudecidos. Leona tirou a camisa e amarrou as mangas no pescoço a fim de arremedar a capa que sua mãe tinha em casa, aquela que Hange usava quando a Tropa de Exploração ainda fazia expedições. Vê-la imitando o figurino militar incentivou não só os amigos, como as outras crianças da rua, que se aproximaram para conferir do que os seis brincavam.
— Entendi. — Adam apontou para si mesmo e aumentou a voz. — Eu sou o comandante de Marley. Huh... qual é o nome do cara que manda em Marley?
— Zeke! — Respondeu Leona do alto do telhado, apontando a espada para Adam. — Ele é o comandante Zeke, chefe de Marley, e aquele é o seu fiel companheiro, o titã carroça.
— Eu quero ser o titã encouraçado. — Sandler interrompeu-a.
— Certo. — Leona revirou os olhos. — Eles querem aniquilar nossa ilha e exterminar nosso povo. Quem quiser defender Paradis, venha para a Tropa de Exploração. — Leona bateu continência. — Ofereçam os seus corações.
Várias crianças caíram no discurso de Leona. Outras aceitaram entrar para o lado de Adam e Sandler, que corriam desesperados em busca de guerreiros para o seu time. Peter e Rebeca ajudaram Otto a subir no telhado. O melhor amigo de Leona se aproximou dela.
— Bolinha, você vai ser a dona comandante Hange ou o comandante Erwin?
Leona precisava escolher entre ser a mãe ou o pai? Ela era incapaz de decidir, portanto nem tentou. A menina bateu o punho no coração, levantou a cabeça e estabeleceu:
— Vou ser os dois. Sou a comandante Zöe Smith.
— Ótimo. — Peter manejou sua espada, um galho maior e mais grosso que o de Leona. — E eu vou ser o capitão Levi.
Leona não escondeu o tédio. Quem em sã consciência gostaria de atuar no papel do chato do senhor Levi? Leona não teve tempo para refletir essa questão, pois da porta da casa do telhado onde pisavam saiu mulher de bobes na cabeça. A mulher fitou as crianças e assustou-se:
— Ei, mas o que-
Leona não perdeu tempo. Ela usou a espada para indicar a mulher e berrou aos soldados:
— CUIDADO COM OS TITÃS, SOLDADOS. EM FRENTE!
— Titã? — A mulher franziu as sobrancelhas. — Ora, saia do meu telhado, sua pirralha malcri-
A mulher não conseguiu terminar a fala. As crianças correram perseguindo e atacando umas às outras. Arremessavam pedras, gravetos, cascalhos, qualquer coisa que suas mãos conseguissem agarrar, e nem todas atingiam os rivais. Os adultos/titãs atingidos xingavam e ameaçavam chamar a polícia. Entre os gritos de guerra, crianças escolhiam seus papéis a desempenhar, e vez ou outra ouvia-se "EU VOU SER O EREN", e de imediato alguém respondia "NÃO, EU VOU SER O EREN". Havia pelo menos sete Mikasas e quatro titãs colossais no time da Tropa de Exploração. Na equipe marleyana, ninguém podia ser titã encouraçado ou Zeke — Adam e Sandler não permitiam.
Eles pulavam de telhado em telhado. Mudaram de rua, de vilarejo, e nem repararam quando alcançaram a cidade. Pelo caminho recrutavam mais militares. A brincadeira tomava proporções grandiosas a cada novo integrante. Naquela tarde, pessoas viram as telhas de casa estremecerem e acharam que o mundo estava desabando, até irem para a rua e descobrirem que as pisadas retumbantes se tratavam não do fim do mundo, mas de crianças serelepes.
O time de Eldia ostentava capas tecidas nos mais diversos panos e cores. No outro lado, guerreiros marleyanos exibiam seus uniformes, que de uniforme não tinham nada. Uns portavam chapéus ou boinas, uns calçavam sapatos e outros sandálias, sem falar nas blusas e calças de cores e tamanhos diferentes. Que exército liberal, esse de Marley.
Leona gritava ordens a plenos pulmões. Avancem, meus soldados. Lutem, meus soldados. Estraçalhem-nos, meus soldados. Ofereçam o coração, meus soldados. Quem a via, poderosa em sua capa esvoaçante, brandindo o graveto tal qual um bravo soldado enfrenta um titã perigoso, e comandando seus atiradores com a eficiência harmoniosa de um maestro, não tinha dúvidas de seus laços consanguíneos. Bem podiam dizer que o fantasma de Erwin vivia nela, e Leona, que até poucos meses atrás preferia ser comparada com sua mãe, teria entrado em êxtase ante o glorificado elogio. No entanto, quando Leona irrompia numa gargalhada longa e aguda e desatava a correr a seu modo desgracioso, ela voltava a sua essência – não Leona Zöe Smith, mas Bolinha.
— PODEM VIR, TIRANOS! — Leona desafiou-os.
— SINTAM O PODER DE MARLEY, ELDIANOS FEDORENTOS! — Gritou uma garota do time marleyano.
A adversária derrubou um integrante da Tropa de Exploração com uma pedrada. Que boa mira. Leona desejou que a garota estivesse em seu time. A pedrada atingiu o militar direto na testa, e o moleque despencou no canil de três cães anojados. O coitado fugiu gritando ai ai ui ui, com a testa sangrando e os cães atacando seus calcanhares. Todos pararam de brincar para rir do soldado caído. Leona, meio rindo e meio no personagem de comandante, berrou:
— EU TE- — Leona interrompeu-se devido a uma risada espontânea. — EU TE VINGAREI, SOLDADO.
Leona jogou uma pedra mirando um menino distraído. Entretanto, Leona errou o alvo e atingiu uma vidraça. O barulho do vidro se partindo passou a mesma mensagem às crianças que o sinalizador preto da Tropa de Exploração transmitia aos soldados. As crianças retomaram os saltos e a correria. Leona, cujo estômago tremulava de pânico e de euforia, nem olhou para trás.
Sandler berrava e babava, simulando uma caricatura mal feita do tenebroso titã encouraçado. Quando alcançaram uma rua estreita, onde os telhados das casas dos dois lados aproximavam-se, Sandler invadiu o território da Tropa de Exploração. Os adultos/titãs no solo perguntaram se ele enlouqueceu, e os mais sensíveis puseram a mão no coração palpitante. Leona, embasbacada, não acreditou ao ver Sandler aterrissando em segurança. O menino, incorporando o papel de titã encouraçado de corpo e alma, atacou as crianças com unhas e dentes, levantando-os, chutando-os e empurrando-os aos adultos/titãs.
Leona tomou providências:
— CAPITÃO, ELIMINE O TITÃ ENCOURAÇADO!
— Entendido, comandante. — Respondeu Peter numa forçada voz grossa e monocórdia.
Peter voou no lombo do titã encouraçado. Sandler rodopiou, rugindo. Peter rasgou a nuca de Sandler com a espada – isto é, arranhou-o com o graveto – e assim o titã encouraçado foi enfim derrotado. Sandler caiu de frente, sofrendo espasmos e lamuriando-se "oh, morri, morri, morri". Os militares eldianos comemoraram. Contudo, a batalha não terminara.
— Eu vou acabar com essa guerra. — Berrou Adam/Zeke. — Comandante. — Ele fitou Leona. — Você é minha.
— EU PREFIRO MORRER DO QUE SER MORTA POR VOCÊ. — Bradou Leona.
— PEGUEM A BAIXINHA, GUERREIROS.
Agora, Leona era o alvo das pedradas. Leona teria que mudar sua estratégia ou acabaria derrotada. Era inviável descer do telhado pela frente, ou os titãs comuns a devorariam – na verdade, a levariam para a casa e fariam queixa para Minnie. Leona seria obrigada a entrar no quintal de alguém. E assim ela fez.
Leona achou que ia aterrissar feito um gato, porém caiu como um filhote de pássaro tonto. Ela rolou aos pés de uma mulher que estendia roupa. A moça pasma mal teve reação. Leona pediu desculpas e chispou pelos fundos. Seu joelho ardia. Leona ignorou a dor. No telhado, tanto marleyanos quanto eldianos se perguntavam em qual casa Leona caíra.
Os passantes exclamaram "ei, olhe por onde anda" quando Leona esbarrou neles. A menina avistou uma larga lixeira, e aproveitou a oportunidade de descansar. Escondida atrás da lixeira, Leona pôde controlar a respiração ofegante. O suor misturava-se à sujeira do corpo e ao sangue do joelho machucado. Os pés descalços queimavam. Leona retirou as pedrinhas que se alojaram nas solas.
Nesse momento, algo estranho aconteceu. Como que surgindo do vento, dois homens brotaram ao lado da lixeira. Leona encarou-os alternadamente. A cara deles era meio estranha. Digo, os traços. Não pareciam eldianos. Ainda no clima da brincadeira, ela se levantou e manejou o graveto. Os homens ergueram as mãos em sinal de paz.
— Calma, soldada, não precisa ameaçar a gente. — Disse o primeiro homem, um jovem de aspecto simpático e boa higiene. — A gente só quer conversar. Você é Leona Zöe Smith?
— Huh? O senhor me conhece? — Leona abaixou a espada. — Quem são vocês?
— Somos amigos da sua mãe. — Respondeu o outro homem, um sorridente senhorzinho de barba grisalha. — Nos disseram que você sabe tudo sobre animais. É verdade?
— É sim, senhor. Eu tenho dois gatinhos lá em casa, quer adotar um?
— Puxa, menininha, é justamente sobre gatos que queremos falar. — O homem jovem apoiou as mãos nos joelhos. Ele parecia abatido. — Nossa gata teve três gatinhos. Tão bonitinhos, os bichinhos. Mas ela está doente, nem quer os filhotes. Você poderia dar uma olhada nela?
O outro homem assentia e fungava. Eram simpáticos, esses dois. Sorridentes, receptivos, amavam os bichinhos, e eram amigos de sua mãe. Leona gostou deles.
— Disseram que você é a melhor médica de bichos da cidade. — Disse o senhorzinho. — Além disso, ninguém quer atender a gente porque somos marleyanos.
— Ah, vocês são estrangeiros. — Agora Leona entendia porque estranhou-os a princípio. No entanto, ela não era de fazer julgamentos, como os outros eldianos. Além disso, sendo eles de Marley, fazia sentido conhecerem Hange. — Puxa, eu adoraria. É muito longe? Eu estou com os meus amigos e...
— Não é longe. — Disse o jovem, apressado. — Chegamos lá num pulo e você logo pode voltar para os seus amigos.
— Tudo bem. Vamos agora. Eu adoro gatinhos.
O senhorzinho esticou a mão para pegar a de Leona. Todavia, Leona não estava acostumada a andar de mãos dadas, então ela nem prestou atenção na mão estendida. Eles seguiram em passos rápidos. Deviam estar preocupados com os gatinhos, os pobres dono. Leona olhou para os telhados a fim de se despedir dos amigos, entretanto não encontrou vivalma.
A rua estava movimentada. As pessoas jogavam olhares assustadores aos marleyanos. Pobrezinhos, pensou Leona, imagina, receber encaradas assim o tempo inteiro, em todo lugar. Sua mãe já lhe contara uma vez sobre os preconceitos que os estrangeiros sofrem em Paradis. Até o senhor Onypon e Yelena sofreram no começo. Já aos marleyanos, os inimigos declarados de Paradis, destinavam-se os piores tratamentos. Bom, Leona ia fazer sua parte e ser legal com eles.
— Só vamos falar com um amigo antes, tudo bem?
Avisou o marleyano jovem, enquanto o senhorzinho se aproximava de um homem parrudo de mãos nos bolsos e cara mal-intencionada que aguardava no ponto de carruagem. Esse parecia ser o malvadão do grupo. O marleyano jovem aproximou a boca do ouvido de Leona e sussurrou:
— Nosso amigo é burrão, sabia? Ele não sabe falar eldiano. Nunca aprendeu.
Leona deu risadinhas. Não falar a língua de Eldia é, decerto, uma desvantagem e tanto em Paradis. Por sorte, Leona entendia marlês. Anos atrás, quando Leona era pequenininha, sua mãe ensinou marlês para ela e para Minnie. Hange era obrigada a saber o idioma, e ela cuidou para Leona aprender também. A babá esquecia as lições no dia seguinte, Leona, contudo, gostava de aprender. Para ela foi um prazer estudar com sua mãe, embora hoje em dia seu marlês estivesse ruim devido a falta de prática. Leona foi capaz de entender só um pouco da conversa entre os dois marleyanos que, achando que Leona não entendia a linguagem nativa de Marley, disseram sem cuidado:
— ... levar a menina... chefia... esperar as próximas ordens.
Leona não conseguiu traduzir as reticências, entretanto os fragmentos captados levantaram suas orelhas. Os homens não falavam de gato nenhum, e Leona sabia como se diz gato em marlês. Aquele relógio persistente e alarmante que temos dentro de nós, os quais alguns chamam de PRESSENTIMENTO, despertou os instintos de Leona. Ela endureceu. A primeira coisa que passou pela cabeça dela, um pensamento preconceituoso, porém convicto, e o qual lhe pareceu muito verdadeiro naquele instante: são marleyanos, marleyanos odeiam eldianos, marleyanos odeiam eldianos. E, em seguida, em letras grossas: eles não têm gato nenhum, Bolinha, querem te fazer mal, FUJA.
De repente, o marleyano jovem parecia muito colado nela. Colado demais. Talvez não fosse tão fácil escapulir. Por sorte, Leona era craque no esconde-esconde. Lá na frente, uma carruagem estacionou e três homens saíram com suas esposas. Leona torceu para eles virem na direção dela, e a Santa atendeu suas preces. Quando o grupo passou, Leona esgueirou-se para o meio dos transeuntes como quem não quer nada, e assim escapou de fininho. O carcereiro percebeu o desaparecimento na hora, mas Leona já se camuflava noutro grupo de pessoas e atravessava a rua.
Leona correu sem olhar para trás. O medo esvaia-se ao passo em que se afastava do local onde encontrou os marleyanos. E quando ela avistou seus três amigos adiante, o alívio foi instantâneo. A menina gritou:
— PESSOAL, PESSOAL, PESSO
Um grito agudo de dor interrompeu os chamados. Leona parou abruptamente, segurando a perna que não tinha o joelho ralado. Seu pé tremia e formigava. O prego em que ela pisara caiu no mesmo instante – por sorte, não perfurara fundo. Leona caiu sentada, imersa num choro doloroso. Os amigos se aproximaram, dando risada.
— Eu não falei, Bolinha, que você ia acabar pisando num prego?
Disse Peter, cheio de si. O garotinho colocou as mãos na cintura e fez tsc-tsc para a menina ferida. Leona balbuciava palavras desconexas, querendo falar e chorar ao mesmo tempo. Tudo o que Leona conseguiu dizer com transparência foi:
— Eu quero ir pra casa.
— Coitadinha.
A piedade de Peter não era falsa. Peter flexionou os joelhos e Leona, ainda chorando, subiu nas costas do amigo. Otto e Rebeca davam risada da desgraça alheia. As crianças pegaram a estrada para casa, com Peter repetindo que vivia alertando Leona sobre os pregos.
— Você sumiu. — Disse Rebeca. — Aonde você foi parar?
Meio recuperada da dor e da fadiga, Leona conseguiu falar sobre sua aventura com os marleyanos.
— Dois marleyanos me pararam. Disseram que tinham gatinhos, que conheciam a minha mãe...
— MARLEYANOS!? — Espantou-se Otto. — PELA SANTA, BOLINHA, SUA MÃE NUNCA TE DISSE PARA NÃO FALAR COM MARLEYANOS!? ELES SÃO PERIGOSOS! SÃO DO DIABO! O PASTOR DISSE...
Otto começou seu sermão. Dessa vez, ninguém o interrompeu, pois todos concordavam que Leona merecia o falatório. Peter e Rebeca deram apoio a Otto e repreenderam Leona. A menina ouviu as reprimendas de cabeça baixa.
As quatro crianças seguiram viagem. Paralelamente, três forasteiros pegaram o trem rumo ao porto. Os marleyanos deviam estar acompanhados por uma criancinha eldiana. No entanto, vieram de mãos vazias. A culpa, óbvio, caiu sobre o mais novo, pois coube a ele a tarefa de vigiar Leona. O marleyano idoso abandonou o disfarce de bom velhinho e puniu o subordinado com tabefes na nuca.
Como esperado, a líder não ficou contente com a falha do plano. Contudo, a líder conhecia Leona. Ela já esperava que o plano pudesse falhar, e até mesmo elaborou um álibi em caso de fracasso. A líder também sabia que se errassem uma vez, não mais conseguiriam pegar aquela criança – não sem chamar atenção.
— O que faremos agora, Yelena? — Perguntou o marleyano mais velho.
Yelena não respondeu. No cais, trabalhadores descarregavam um navio recém chegado. Das caixas vinha o tintilar de garrafas de vidro. Yelena assistiu o funcionário eldiano carregar a caixa sonhadoramente para o estrado. O eldiano viajava no mundo da lua, sequer pensava sobre a importante carga. E era bom que não pensasse.
Por fim, Yelena voltou-se aos cúmplices. Eles eram voluntários. Aqueles homens ajudaram a erguer o porto onde pisam e a estação em que desembarcaram. Eram boas pessoas, como ela. Em suas veias corria o sangue de Marley, do mesmo tipo do de Yelena. A marleyana indicou os caixotes com a cabeça e respondeu, com simplicidade:
— Nesse caso, vamos torcer para que a Hange caia no plano A.
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