Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)

60 Fantasia colorida, realidade cinzenta


Notas iniciais
Olá, Eu adoraria culpar o trabalho e a faculdade pela minha ausência como tantos autores daqui fazem, mas a verdade é que eu tenho muita dificuldade em organizar minha vida e em vencer a autossabotagem. Tempo é o menor dos meus problemas. Porém, vamos levando. Através de muita força consegui, finalmente, escrever o capítulo 60, e vou me esforçar para trazer o 61 o quanto antes. Comunico que esse não é um retorno triunfal. O capítulo 60 é bem fraquinho e chato, honestamente. E não é culpa dele, é culpa do planejamento. Leiam com baixas expectativas. Aliás, eu estou me programando para terminar a VMP antes ou no capítulo 65. Portanto, se tudo correr dentro do esperado, a fanfic vai acabar nos próximos 4 episódios ou menos (graças a Deus). Boa leitura!

Ir para a escola continuou sendo um dever o qual Leona gostaria de poder renunciar. Contudo, admitia, era ótimo não ser chamada de nariguda o tempo inteiro. Verônica, Simon e Zeke, os amigos que fez na Schoul, eram... bons. A facilidade com que os refugiados a acolheram, porém, a atormentava. Tudo que vem fácil, vai fácil. Leona, por suas "experiências" com órfãos e outros adolescentes, duvidava da amizade dos três colegas. Por conseguinte, por ora, ela se limitava a avaliar com muito cuidado e cautela (e sobretudo prevenção) o comportamento de seus "amigos".

— Você não devia chegar tão tarde em casa, Simon. — Verônica repreendia Simon certa vez durante uma aula de biologia parada. — E nem xingar os funcionários. A diretora reclamou comigo, sabe. — Verônica era um ano mais nova, mas agia como se fosse a irmã mais velha.

— Aquele orfanato não é a nossa casa, Nica. — Contrariou Simon, condescendente, sem olhar nos olhos dela. — E eu não devo satisfação a ninguém. Aquelas pessoas não são o papai e a mamãe.

Leona sabia o quão péssimo era morar num orfanato. Simon e Verônica, pelo tom das conversas, viviam em um há pelo menos três anos. No orfanato da rainha, Leona conviveu com crianças detestáveis e adultos negligentes, e por isso concebia o lado de Simon. No entanto, Leona se revoltava com o fato de as molecagens do rapaz sempre recaírem em Verônica, como se fosse ela a responsável do mau comportamento do irmão. Em adição, Simon não se esforçava nem um tiquinho para aliviar a barra da irmã.

Leona não se sentia inclinada a expressar sua opinião, mas, ao mesmo tempo, vê-lo ferrando Verônica a enfuriava, e já não estava de bom humor naquela manhã. Ela deixou-os debatendo e foi sentar junto a Zeke.

O liberiano se atrapalhava tentando copiar o texto de biologia escrito na lousa. Zeke era o que as pessoas chamam de "faísca atrasada". Na opinião de Leona, talvez não houvessem faíscas para se acender.

— Está tudo bem, Zeke?

— Tudo. Já estou lá no fim do quadro. — E estendeu o lápis parcialmente mastigado na direção da lousa.

Normalmente, Zeke demorava uma aula inteira para copiar dez linhas. Leona olhou de relance o caderno do colega. Zeke pulara alguns parágrafos durante a transcrita, por isso ele pensava estar terminando.

— Você esqueceu algumas partes do texto. — Avisou Leona, meio comiserada, meio constrangida.

— Esqueci? — Perplexo, Zeke encarou o quadro, e depois baixou a face para o caderno. — Puxa, Esqueci mesmo! Eu pensei que estava acabando! — Chateado, Zeke arrancou a folha do caderno, amassou-a e enfiou-a dentro do estojo. — Eu não consigo lembrar de onde parei, eu estou copiando, e quando vejo, me perdi!

— Calma. — Pediu Leona alarmada. Ela nunca sabia como reagir às pequenas explosões do liberiano. — Eu dito pra você, assim você não se perde. O que acha?

Zeke não respondeu, porém apanhou o lápis de escrever e se prontificou.

— Ok... — Começou Leona. — Divisão... espaço... celular... espaço... é.... espaço... o... espaço... processo... espaço... pelo... espaço... qual... espaço... uma célula hífen mãe... espaço... origina... espaço... células hífen filhas....

Aquela devia ser a segunda vez que Leona ditava para Zeke, e desde já percebia que esse favor a agoniava. Zeke escrevia em velocidade de tartaruga, e se Leona não o alertasse sobre os espaços, ele continuaria fazendo as letras grudadas umas nas outras, formando uma centopeia infinita.

Nesse momento, Verônica, aparentemente findando o papo com o seu irmão, passou para a cadeira de Leona e se esticou para conseguir alcançar a carteira de Zeke.

— Ei, Leona, você... ah, vocês estão copiando o quadro.

Numa rápida olhada no caderno de Zeke, Verônica percebeu o que Leona ignorava: ela esqueceu de falar "espaço" em "uma célula-mãe", de maneira que Zeke escreveu "umacélula-mãe". Verônica debruçou-se sobre o caderno e, sem nada dizer, tomou o lápis da mão do liberiano e corrigiu o erro. Leona interpretou aquela atitude como uma indireta a sua pessoa – "poxa, Leona, você deixou o Zeke escrever errado, sua malvada". Não era sua culpa o Zeke ser "faísca atrasada".

De repente, afigurou a Leona que Simon não era tão errado. Ele só estava vivendo a sua vida. Verônica era a tosca. Ela devia parar de ser uma chata de galocha que se preocupa com os problemas de todo mundo.

— Zeke, você precisa prestar mais atenção nos espaços. Olha só...

E Zeke, aquela anta, fazia cara de santo. Quando Leona se prontificou em ajuda-lo, ele fez cara de bunda. Leona não devia ter tentado ajudar esse liberiano ingrato. Verdade seja dita, nunca deveria ter dirigido a palavra àqueles dois imbecis.

Tomada pela cólera da cara de Verônica e da de Zeke, Leona levantou de supetão e atirou-se com raiva ao lado de Simon.

— Eita. — Riu Simon, fitando Leona de rabo de olho. — Alguém está histérica.

Leona não ia fingir que não viu o teor sexista na provocação.

— Olha quem fala. — Sua amargura acabara de encontrar um novo alvo. — Você é o mais esquentado de todos aqui. Seguindo essa sua lógica, presumo que você tenha uma perereca no lugar da torneira.

— Tá me chamando de mulherzinha? — Esquentou-se Simon.

— Ah, aí está você, Leona. — Verônica interrompeu a discussão. Ela sentou perto de Leona — achegara-se antes com a intenção de conversar com a eldiana, e não de ajudar Zeke. — Você quer ir no cinema com a gente no sábado?

Não era a primeira vez que Verônica convidava Leona para um programa fora da escola, e não era a primeira vez que Leona respondia:

— Não posso, estou trabalhando com o meu padrasto.

O sorriso de Verônica vacilou, mas ela o segurou, e com um tiquinho de esperança insistiu:

— E sexta? Eu posso pedir uma folga da Landgraab...

— Não dá. — Leona fingiu estar decepcionada. — Sexta eu também estou trabalhando.

— Caralho, você nunca pode! — Indignou-se Simon. Ele largou o lápis na mesa com um estrondo. — O seu padrasto já ouviu falar em folgas remuneradas?

Os demais alunos fitaram-nos por cima do ombro. Lá na frente, a professora chamou a atenção de Simon. O rapaz acenou com a cabeça e retomou a conversa em voz menos exaltada:

— Se você não quer andar com a gente, Leona, é melhor assumir.

Leona crispou os lábios. Quase berrou na cara de Simon que ela não era nenhuma carente para precisar da amizade de três sem terra miseráveis. O que a fez segurar a língua foi a vergonha estampada no rosto de Verônica e o tapão que ela deu no ombro do irmão.

— Não fale desse jeito. Se a Leona não pode sair no sábado, tentamos outro dia. — Ela fitou Leona com expectação desesperada. — Domingo?

— Provavelmente não vai dar. — Desculpou-se Leona, meio que se vitimizando. — O meu padrasto quer que eu trabalhe todos os dias...

— Tá vendo, Nica? — Instigou Simon, fazendo um gesto de desdém. — A Leona não tá nem aí pra gente. Ela nem deve ter emprego. Com certeza é uma desculpinha.

— EU NÃO ESTOU MENTINDO.

E batendo as duas mãos na mesa, Leona ergueu-se e projetou a cabeça sobre Simon. Ela estava mesmo mentindo sobre a alma capitalista e antissindical do senhor Levi, contudo Simon não possuía o direito de acusá-la.

Simon não abaixava a cabeça para ninguém, seja homem, mulher, criança, adulto ou velho.

— Está sim, mentirosa. — Ele se engrandeceu para cima de Leona. — Vai fazer o quê? — E riu com malícia: — Me bater?

— Não, gente, não! Simon, senta. — Verônica se enfiou no meio dos dois, pondo uma mão no peito de cada um.

Por incrível que pareça, o pacifismo de Verônica atiçou o desejo de Leona por sangue.

— Bate você primeiro, histérico.

Os colegas viraram-se de vez, uns cheios de entusiasmo maldoso, e outros amedrontados. Zeke, que odiava tensão, desenhava círculos compulsivamente sobre o texto de biologia. Verônica, ainda entre os dois selvagens, largou Leona para focar-se em barrar o irmão. Até então, Simon nunca bateu em nenhuma mulher. Verônica, no entanto, não queria testar os limites do irmão agora.

A professora acabou com o problema. A mestre assertiva empurrou cada adolescente, separando-os de vez.

— Simon, se você ameaçar bater nas meninas outra vez, eu vou tirar você da sala. — Determinou a professora.

— EU!? — Simon indicou a si próprio com o polegar, completamente injustiçado. Tá certo que ele ameaçava todo mundo, mas dessa vez era inocente. — É culpa da Leona, professora! Nica, fala pra ela!

Leona encarou Verônica. Era o momento de Verônica assumir se gostava de Leona ou se estava inteiramente do lado do irmão.

— A culpa foi dos dois. — Concluiu Verônica, nervosa. — Vocês dois são descontrolados. Pô, cresçam! — E saiu para juntar-se a Zeke.

A professora isolou Simon lá no fundão da sala de aula. Leona foi posta na frente da classe, com a cara bem colada na lousa. Ela agradeceu por ter sido retirada de perto deles. Não eram seus amigos de verdade. Seja estrangeiro ou belavitense de nascença, ninguém naquela cidade presta.

XXX

Quando o sinal bateu comunicando o fim da aula, Leona não se encontrava nem um tantinho menos irritada. Jogou a mochila nas costas e saiu em disparada, sem ver se seus "amigos" queriam se despedir. Leona não precisava de ninguém. Ela era boa sozinha. Pra que amigos?

Na volta para casa, ela decidiu cometer a traquinagem de subir pela porta lateral, em vez de passar pela loja de chás. Só o prospecto de dar "olá" àqueles clientes nojentinhos, a gentinha padrão de Belavista, já irava Leona. Porém, ao chegar, encontrou a cortina de ferro da loja abaixada. Leona estranhou. O senhor Levi não fechava a loja sem avisos prévios, inclusive quando sua perna ruim resolvia perturbá-lo.

Foi como se uma corda de realidade resgatasse Leona do mundinho do ódio. Continuava surtada, mas, bisbilhoteira como era, estava interessada em descobrir por que o senhor Levi se recolhera. Ela subiu as escadas com curiosidade amedrontada; ansiosa de o fechamento ter sido por um bom motivo, e apreensiva de ter sido por um mau motivo.

Leona abriu a porta do apartamento e se defrontou com o senhor Levi fazendo sala para um casal e seus filhos gêmeos. Havia um prato de bolinhos sobre a mesinha de centro e cada adulto carregava sua respectiva xícara, a do senhor Levi contendo chá e a dos outros possuindo café. Os menininhos brigavam pelo único bolinho de cereja.

Deviam ser convidados muitíssimos especiais. Do contrário, o senhor Levi não teria fechado a loja — o capitão os receberia no saguão, como costumava fazer com qualquer visitante/cliente. Eram muito parecidos, aquele homem e aquela mulher; tão parecidos que poderiam passar por irmãos. Ambos tinham olhos azuis, eram loiros, pequenos, e de pele claríssima. O homem chamou mais a atenção de Leona, pois assim que ela surgiu, ele encarou-a como se tivesse acabado de ver um fantasma.

— Falando na diaba... — Disse o senhor Levi, virando-se para receber Leona.

— Olá. — Cumprimentou-os Leona, disfarçando a curiosidade. — Como vão vocês? Que lindinhos, os seus filhos. São seus amigos, senhor Levi?

E então, o homem, num aparente estado emotivo, saudou-a:

— Bolinha!

O apelido atravessou a espinha de Leona tal qual uma flecha de gelo. Sua estupefação foi tanta que Leona deu um passo para trás, totalmente assombrada por aquele estranho conhecer o seu apelido de infância abandonado por falta de uso. O homem se achegou de braços abertos. Ela permaneceu travada, sorrindo falsamente, do jeito que ficamos quando um individuo que não nos recordamos nos aborda na rua. Quem era aquele cara loiro, gorducho, baixinho, de pele manchada pelo sol e com indicativos de calvície?

Apesar dos trejeitos de sujeito inofensivo, o homem era bom em ler pessoas. O largo sorriso que ele esboçava foi se desmanchando conforme notava não haver vestígios de reconhecimento nos grandes olhos castanhos da adolescente.

— Ah, Bolinha, você não lembra de mim? — Perguntou o homem em tom tristonho. Ele olhou Leona de cima a baixo, mas não de uma maneira que a fez se sentir oprimida, e disse, arrebatado: — Você cresceu tanto. Está cada vez mais parecida com o seu pai.

— Huh!? O senhor conheceu o meu pai!? — Assustou-se Leona. Esse homem é paradisiano!

No sofá, a mulher deu um sorriso discreto. O senhor Levi, impacientando-se, ralhou:

— Você não lembra dele, Smith? Essa tua cabeça não serve só pra ter cabelo. Usa o cérebro.

— Eu estou tentando! — Leona aumentou a voz frustrada, vermelha de acanho por não conseguir se recordar daqueles olhos azuis e gentis. As pessoas me viram quando eu tinha cinco anos e querem que eu lembre delas com treze, aborreceu-se.

— Tá tudo bem, capitão. Deixa a menina. — A mulher defendeu Leona, por fim. A voz dela era direta e firme.

— Não está tudo bem. — O senhor Levi parecia zangado. — Porra, Leona, você não lembra do Armin!?

À menção desse nome, as fichas caíram. Ela encarou o homem de novo, e agora era ela a de olhos arregalados e de boca aberta. A afabilidade daqueles olhos azuis, enfim, fez todo o sentido. Leona deu-lhe um abraço tão caloroso que até o senhor Levi se sensibilizou.

— Armin! Mano Armin! — Repetia Leona, quase às lágrimas, abraçada nele. Após a Revolta, Armin se tornou um Eu lírico que se comunicava de vez em nunca por meio de cartas que discorriam sobre Paradis. Há anos o nome "Armin" não possuía um rosto para Leona. — Eu nunca mais te vi. Como você mudou! Agora você está gordinho e com filhos!

— Há há! Chamaram o papai de gordo! — Um dos menininhos deu risada e apontou para o pai.

Armin deu dois tapinhas no estômago ("gordinho" era eufenismo) e riu.

— Depois dos dezesseis, a gente só pode crescer pros lados. — Ele deu de ombros. — Bolinha, essa é a Annie, minha esposa. — Armin levou Leona até Annie. A adolescente apertou a mão da mulher e sorriu. A seguir, Armin apresentou os meninos: — E esses são Ravi e Pierre.

— Que rapazinhos bonitos. — Leona elogiou-os. O garotinho da direita corou. — Mas... huh... quem é quem?

Annie deu uma risada nasal.

— Pierre é o de gravatinha azul. — Respondeu Annie. — O de gravatinha vermelha é o Ravi.

— Ah! — Exclamou Leona. — É assim que vocês fazem para diferenciá-los?

Armin e Annie acharam graça. O senhor Levi não.

— Já que você está cheia de piadinhas, Smith, por que não vai fazê-las na cozinha? — O senhor Levi pegou o bule vazio e entregou-o a Leona. — Prepare mais café para os convidados.

Leona, se sentindo a melhor comediante de Belavista, resolveu tirar uma com a cara do senhor Levi antes de se retirar. Ela uniu os pés, levantou a cabeça, bateu o punho no coração e entoou com energia:

— Entendido, capitão!

Armin e Annie riram novamente, Annie com elegância e Armin de lábios cerrados. Os gêmeos riram também, porque Leona estava com uma cara muito engraçada. O senhor Levi, em contrapartida, rangeu os dentes, pegou o que restou do chá em sua xícara e atirou-o em Leona.

— Vá logo, malcriada.

Na cozinha, Leona, de coração quentinho, sorria enquanto colocava a água para aquecer. Há muito tempo não pensava no mano Armin com o amor das recordações. Ela sonhou acordada lembrando da tarde em que ele a ensinou a cuidar de um pássaro doente. Lá na sala, um dos gêmeos começou a chorar, e em segundos o outro o acompanhou. Leona voltou com o café pronto e viu Ravi esperneando no colo de Annie, ao passo em que Pierre puxava o pai pela mão. Os pais pausavam a conversa para repreendê-los em voz mansa e compreensiva e pedir um pouco de paciência, pois mamãe e papai ainda não acabaram de conversar.

Leona, que havia sido criança até pouco tempo, compreendeu que os menininhos entediaram-se de estar há tanto tempo na casa daquele velho manco sem nenhum brinquedo. Leona costumava se sentir assim no laboratório do quartel-general.

— Eeei. — Disse Leona, simpática e convidativa, aos meninos, depois de largar o café na mesinha. — Vocês querem ver os meus brinquedos?

O convite de Leona atiçou a curiosidade de Pierre. Ele veio correndo perguntar o que Leona tinha. Ravi, o tímido, não se aproximou, mas parou de fazer escândalo e fitou Leona.

— Esperem aqui.

— Leona, — interpôs Armin, encabulado — não há necessidade.

Mas é claro que havia. Quando Leona era criancinha, o mano Armin cuidava dela na falta de Hange. Era um prazer retribuir todo o carinho. Fazendo um gesto de "não-se-preocupe-com-isso", Leona zarpou para o quarto, e em instantes retornou com três jogos de tabuleiro e quatro bichos de pelúcia. Infelizmente, os brinquedos apetitosos que Leona usara dos oito aos onze anos se perderam ou estragaram ao longo daquele período.

Os gêmeos, óbvio, não entendiam nada de jogos de tabuleiro (aqueles eram para crianças a partir dos nove anos, e os meninos possuíam apenas três), mas Ravi adorou observar os desenhos e mexer nas pecinhas. Já Pierre logo apaixonou-se pelo urso polar de pelúcia, e sentou-se com ele no colo.

— Uau! — Armin fez uma exagerada cara de surpresa. — Gostaram do que a Bolinha trouxe para vocês, meninos?

— Como é que se diz? — Perguntou Annie num tom não muito maternal.

— 'Bigado, Bolinha! — Os meninos agradeceram rapidinho.

— Smith, as peças desse tabuleiro são pequenas demais. — Intrometeu-se o insuportável senhor Levi. — Os meninos podem se engasgar.

— Não se preocupe. — Afirmou Leona, sentando-se junto aos meninos. — Eu vou tomar conta deles.

— Ah, você é um anjo, Bolinha. — Falou Armin, grato.

— Obrigada. — Agradeceu Annie com um sorriso bonito.

Leona desviou o olhar, vermelha e sorrindo de canto. A partir daí, Armin, Levi e Annie puderam conversar sem interrupções.

— Retomando... — Recomeçou Armin. — ...a pressão está bem grande para atacar o Médio Oriente. A rainha está cozinhando os comandantes, mas não vai durar. Ainda mais agora que o Médio Oriente expulsou os soldados paradisianos do continente de Marley.

— Os representantes do exército são da facção Yeager? — Questionou Levi.

— São. — Annie confirmou. — Para falar a verdade, toda a esfera governamental e militar de Paradis está composta por esses tiranos. São pouquíssimos os poderosos contrários a eles, mesmo contando com a Historia.

— Então Paradis virou uma caixa de ovos. — Concluiu o senhor Levi, se recostando na poltrona.

— Exato. — Concordou Armin. — A rainha Historia não consegue governar por causa dos Yeageristas, e os Yeageristas não conseguem agir por causa da rainha.

— Nós tememos pela vida dela. — Desabafou Annie. — Os aliados estão diminuindo a cada ano, e não temos certeza de que os restantes são totalmente fiéis.

— Entendo... — Refletiu Levi.

No chão, Leona rolava com Ravi e Pierre, levantava-os no ar, fazia cócegas neles, e os ensinava a mexer no tabuleiro. Porém, o senhor Levi bem sabia, Leona atentava-se à conversa dos adultos.

Após alguns segundos de silêncio contemplativo, Armin comentou, infeliz:

— Nos vemos obrigados a dar apoio aos Yeageristas. Já podemos considerar que Paradis e o Médio Oriente estão em guerra. Em questão de brigas, o Médio Oriente é ainda pior do que os Yeageristas. Ou eles vão nos atacar, ou nós vamos. Agora que expulsaram Paradis de Marley, vale tudo. Quem vai mandar as tropas primeiro que é o grande xis da questão.

— Independente de quem comece, você e Annie precisam tomar cuidado. — A voz direta e rude do senhor Levi parecia uma ordem, e uma manifestação de preocupação.

— Não se preocupe, capitão. — Armin sorriu, e pôs a mão sobre a de Annie. — Nosso trabalho é burocrático. Eu nem tenho mais condições físicas de guerrear em campo.

Mesmo ardendo de desgosto, Leona cumpriu sua palavra de ficar de olho para Ravi e Pierre não colocarem nenhum dado ou pecinha na boca, mas não percebeu Annie assistindo-os com discrição — não por achar que Leona cuidaria mal dos garotos, mas por pura preocupação de mãe (que todas logo aprendem nunca ser demais).

Nesse momento, Armin conferiu o relógio de bolso. Annie entendeu a deixa. Ambos se levantaram.

— Nós vamos indo, capitão, se não vamos perder o voo. Obrigado pelo café.

— Meninos, vamos. — Annie chamou os gêmeos.

— Ahhh, mamãe! — Choramingaram os garotinhos. — Agora que ficou legal...

Embora desapontados, os gêmeos obedeceram Annie. Leona se pôs de pé, sorrindo educadamente, ocultando a queimação em seu interior. Ela assistiu cada adulto pegar um menino no colo. Receou que os garotos perdessem os pais no conflito que estava por vir, assim como ela perdeu a mãe em decorrência desses malditos países. Essas nações não podiam, simplesmente, parar de brigar? Quantas Hanges mais morreriam?

— Fiquei muito feliz em te ver, Bolinha. — Armin deu um beijo na bochecha de Leona.

— Também gostei de ver você, mano.

— Foi um prazer conhecer você, Leona. — E essa foi a despedida de Annie. Ela não era de tocar pessoas com quem não possuía intimidade.

Depois que o casal e os gêmeos foram embora, Leona pôde enfim desmanchar o sorriso que vinha forjando. Sua mãe morreu para os países seguirem guerreando? Que valor teve a morte de Hange, e qual tem a vida dos remanescentes? Aquela situação de merda quase fazia Leona concordar com o genocídio de Eren – e a única coisa que vetava é o fato de concordar com Eren se igualar a trair a memória de sua mãe. No entanto, não podia negar, se Hange não tivesse se intrometido nos planos de Eren, Leona estaria em Paradis sendo uma adolescente normal, com mãe e amigos honestos. Ela se ajoelhou e começou a socar as peças do tabuleiro de volta na caixa, enfiando-as com força o bastante para danificar o papelão.

— Muito bom. O único lugar legal para onde eu poderia ir vai entrar em guerra.

Leona imaginou que o senhor Levi fosse dizer alguma coisa, mas o capitão indiferente recolhia as xícaras e ignorava-a. Leona não estava a fim de ser deixada falando sozinha.

— Eu vou comprar uma passagem de avião para Paradis antes que a ilha seja destruída! — Vozeirou ela.

A intenção rebelde de Leona não causou efeitos em Levi, que já estava habituado aos dramas da filha de Hange atualmente intensificados pelas mudanças de humor da adolescência. O capitão respondeu com a voz simples de alguém que não dá importância para os terríveis problemas dos outros:

— Menores de dezesseis não podem comprar passagens de avião.

— Então eu vou falsificar a minha certidão de nascimento! — Devolveu ela, enfiando a última peça de tabuleiro com um soco.

— E você por acaso conhece algum falsificador de documentos, Leona? — Perguntou o monocórdio senhor Levi.

— NÃO! — Leona explodiu. — EU SÓ QUERO IR EMBORA! ODEIO A MINHA VIDA! ODEIO ESSA CIDADE!

Gritando de raiva, Leona arremessou a caixa na parede. As peças e o tabuleiro se espalharam. Os dados voaram longe. Ela jogou os ursos de pelúcia na parede também. Leona berrava seu ódio pela Schoul, por Belavista, pelo Médio Oriente, e por todo o resto.

O senhor Levi, parado em pé, carregando a bandeja de xícaras e bolinhos nas mãos, apenas seguiu Leona com os seus olhos cinzentos e julgadores sem nada dizer, como se observasse um cliente indeciso sobre qual chá levar.

Como ninguém alimentava o seu surto, Leona, pouco a pouco, e sozinha, se acalmou. A respiração ofegante normalizou, e logo sua vontade de arremessar objetos na parede diminuiu. Quando, por fim, a explosão desvaneceu, ela levantou a cabeça para o senhor Levi e mostrou que restara resquícios de rebeldia.

— E se eu pedir pro Armin me deixar participar da guerra, hein? — Provocou Leona em tom de você-não-manda-em-mim. — Você não pode me proibir. O país é meu.

— Peça, ué.

A resposta direta e despretensiosa desconjuntou Leona de uma tal maneira que ela quase perdeu o equilíbrio.

— Sério? — Sua vozeirona de menina guerreira sumiu.

— Claro. — O senhor Levi deu de ombros — Vá em frente.

Não podia estar certo. Aquilo devia ser algum truque do senhor Levi para enganar e/ou ferrar Leona. Com um gesto repetitivo de mão e um lento balançar de cabeça, ela recusou-se a aceitar a aquiescência do senhor Levi.

— O senhor está brincando comigo.

— Ai, Leona. — O senhor Levi revirou os olhos e deu as costas a Leona. — Em Paradis, adolescentes de treze anos se alistam no exército. Por que eu deveria impedir você, se essa é a sua vontade? Vá em frente, se quiser. Escreva uma carta para o Armin pedindo pra ele te levar para Paradis. — Leona começou a responder, mas o senhor Levi já andava para a cozinha. — Eu vou lavar a louça, tchau.

Ele se foi, deixando Leona com um elefante nos braços e nenhuma palavra na língua.

Entrou no quarto sem saber o que fazer com aquele elefante pesado, contundo sentindo um crescente entusiasmo com o prospecto de visitar Paradis, apesar de num contexto bélico.

Leona sentou em sua escrivaninha, apanhou o caderno da escola e se pôs a escrever a carta destinada a Armin.

Mano Armin,

Adorei receber você, sua esposa e seus dois filhos aqui em casa.

Por que essa informação era importante? Julgando a sua introdução deveras melosa, Leona apagou a primeira linha. Sem demora, escreveu:

Paradis é o meu lar. Sinto falta da minha casa, meus amigos, minha escola, e do quartel. Sinto muita saudade de Buck, o meu cavalo que ficou na fazenda da rainha. Ele está vivo? Cavalos podem viver mais de vinte anos, se bem cuidados. Nesse exato segundo, eu estou me perguntando se o Buck está bem. O Buck era da minha mãe, ela me deu antes de ir embora.

Eu odeio Belavista. Todo mundo aqui é preconceituoso com eldianos. Eu nunca sei se vou voltar para casa ilesa. Eu sinto que não há lugar e nem amigos para mim aqui. Ninguém me entende, nem o senhor Levi. Todo mundo em Belavista é ruim. É uma vergonha minha mãe ter se sacrificado para salvar pessoas tão horríveis.

Enquanto botava as palavras no papel, a garganta de Leona inchava-se com a vontade de chorar. Ela tentou engolir, mas as lágrimas caíram de igual modo.

Saber que Paradis está em guerra me deixa muito triste e brava. Eu gostaria de fazer alguma coisa para ajudar a enfrentar o Médio Oriente. Eu odeio viver em Belavista e faria qualquer coisa para ir embora daqui e ajudar o meu lar. Mano Armin, ̶v̶o̶c̶ê̶ o senhor poderia me tirar daqui e me levar de volta para o meu lugar? Eu vou me alistar na Tropa de Exploração (não sei se continua o mesmo nome) e ser uma soldada igual minha mãe e meu pai. Vou verdadeiramente dedicar o meu coração. Eu quero salvar Paradis.

Cordialmente,

Leona Zöe Smith

Leona continuou chorando ao assinar a carta cheia de boas intenções, e as lágrimas não pararam durante a releitura. Achou-se muito inteligente por ter escrito "vou verdadeiramente dedicar o meu coração", pois era uma clara referência ao lema da Tropa de Exploração. Entretanto, por alguma razão desconhecida, Leona não tinha tanta vontade assim de enviá-la a Armin. Não hoje, pelo menos. Talvez mais tarde, após alguns ajustes...

Depois de guardar o papel, Leona puxou de baixo da cama o baú de mogno — o lar das lembranças de Paradis. Abriu o baú e pegou a medalha de ranking de Hange, que continuava brilhante e pesada. Ela deitou-se no chão ficou brincando com a medalha, observando a resplandecência que transpassava as asas do emblema da Tropa de Exploração quando Leona a girava para a esquerda. Aquela medalha ficava bonita pendurada no pescoço de sua mãe. A memória de Hange usando-a, porém, não mostrava o rosto da mulher – Leona visualizava apenas a medalha amarrada no pescoço da mãe, feito uma coleira que garantia o pertencimento de Hange ao governo de Paradis. Leona riu da associação.

A incapacidade de reproduzir o rosto de Hange não a desanimava. Já se familiarizava com essa adversidade a qual ela outrora tivera tanto medo de sofrer. Leona só conseguia traçar o rosto de Hange caso a imaginasse no formato de uma das três fotografias guardadas no baú. Espontaneamente, não. Passava pelo mesmo problema com a voz de Hange, embora conseguisse lembrar, com certa clareza (e com muito esforço), da gargalhada estridente dela.

Leona botou a medalha sobre o peito, sentindo o peso do metal que sua mãe sentiu tantas vezes. Recordou-se da época turbulenta que sucedeu a morte de sua irmãzinha e antecedeu a Revolta, período em que encontrava Hange deitada no chão do quarto, em meio a pilhas e pilhas de trabalho não terminado, ela completamente vestida com o uniforme de comandante, e aquela medalha plantada no peito. Leona perguntava "Você está triste, mãe?", e Hange respondia, "Não, estou cansada."

Como seria ser soldada? Leona ficou deitada por quase uma hora, inspirando e expirando, fitando o teto, fantasiando a si mesma voando no equipamento tridimensional, assassinando árabes e reconquistando territórios. Ela alcançaria metas militares, subiria de ranking, viraria tenente... e se seguisse os passos dos pais e chegasse ao posto mais alto?

Nesse ponto, Leona cansou-se das fantasias.

Depois desse momento de solidão e silêncio, o mau humor estava reduzido a nada. Guardou a medalha de volta no baú e, espreguiçando-se, saiu da caverna para socializar. Eram quase quatro horas da tarde, o tempo estava bom, a brisa era agradável, e Leona queria aproveitar o dia para treinar. Ela foi direto para a sacada do apartamento, pois já vira, através da porta de vidro canelado, que o senhor Levi se encontrava lá.

O senhor Levi descansava na poltrona trazida da sala, com a bengala encostada na porta. O capitão observava a rua. A adolescente apoiou os braços nas grades da sacada e o imitou. O senhor Levi a encarou pelo canto do olho.

— Você deixou os jogos de tabuleiro na sala.

— Eu sei. Vou arrumar daqui a pouco.

— Escreveu sua carta?

— Escrevi. — Leona bocejou.

— E aí? Quer que eu peça pro Onyankopon entregar?

— Depois. — Respondeu Leona, displicente.

Ela foi até o capitão e o abraçou pela cabeça como se fosse dar-lhe um mata leão.

— Vamos lutar, senhor Levi?

— Não. — Replicou o capitão, sem emoções.

— Ah, senhor Levi! — Teimou Leona, infantil e implorante. Apoiou boa parte de seu peso nos ombros do capitão. — Vamos lutar, ahhh, vamos lutar, por favorzinho!

— Caralho, que garota irritante. — O senhor Levi se contorceu tentando afastar Leona. — Eu prefiro você revoltada. Brava você é mais agradável.

— Como o senhor é cruel. — Ela voltou a ficar reta, mas puxou o pescoço do capitão junto, por pouco não o derrubando da cadeira. — Cruel, aleijado e fracote. Um verdadeiro cachorro velho. O meu cachorro velho.

— Cachorro velho é o arrombado do teu pai. — Ele a empurrou. — Doente.

Leona desistiu de importuná-lo. Percebendo que não teria um parceiro de luta, ela apoiou os braços no encosto da cadeira do capitão e ficou assistindo os passantes. O tédio dominava suas faculdades mentais. A vontade de fazer alguma coisa era tanta que Leona acabou falando, meio no desespero por emoção em sua vida fatídica:

— Senhor Levi, tem problema eu faltar ao trabalho no sábado?

O capitão respondeu com interesse curioso:

— Por quê?

Não havia motivos para Leona mentir.

— É que eu vou ao cinema com uns amigos da escola.

— Você não me contou que fez amigos na Schoul.

Novamente, não havia motivos para Leona mentir. Entretanto, não sentia vontade de expressar suas inseguranças.

— Não era tão importante.

— É claro que é importante. — Ele disse com certa indignação. — Quem são os seus amigos?

— Os nomes deles são Simon, Verônica e Zeke. — À pronúncia do último nome, o senhor Levi fez uma careta desgostosa. A menina deu continuidade: — O Simon e a Verônica são irmãos, e eles são ingleses, como o senhor Onyankopon. O Zeke é de Liberio.

— Para ter um nome desses, só podia ser de Liberio. — Resmungou o capitão.

— Bem... — Leona cruzou os braços sobre a cadeira e apoiou o queixo neles. — Zeke Yeager era um herói para os liberianos...

— Sei disso. — Suspirou o senhor Levi. — Fico contente que você tenha feito amigos, Smith, independentemente dos nomes. Pode ir ao cinema, conquanto que você volte antes de escurecer. Divirta-se.

— Sério? — Não havia nenhuma razão para o senhor Levi proibir Leona de passear. Entretanto, do mesmo modo, a facilidade com que ele disse "sim" surpreendeu Leona. — Obrigada.

— Disponha, Smith.

Um pequeno momento de silêncio se fez entre eles. Leona quebrou-o:

— E então, vamos lutar agora?

Chiando, o senhor Levi usou a bengala para afugentá-la.

XXX

Na manhã seguinte, Leona sentia uma pontinha de preocupação de que Simon e Verônica estivessem furiosos por causa do desentendimento de ontem. Zeke não era de ficar magoado (ele perdoava ofensas com uma facilidade absurda), mas Leona não se surpreenderia se até o liberiano estivesse contra ela.

Na Schoul, Leona encontrou seus três amigos – a Santa queira que não sejam ex-amigos! – sentados nos bancos externos. Verônica, a única em pé, narrava alguma história a Simon e Zeke. Concentrados, os dois não tiravam os olhos dela. Os rapazes deram risada quando Verônica contou, em voz alta e divertida, uma parte especialmente espetacular.

Leona aproximou-se com um sorriso humilde.

— Oi, gente. Tudo bem?

— E então a dona Elis disse- ah, oi, Leona!

Zeke acenou com animação. A recepção de Simon foi um balanço de cabeça distraído. Leona falou, remexendo as alças da mochila:

— Me desculpem por ontem. — E para Simon: — Desculpa, Simon?

Simon piscou.

— Huh? Pelo quê?

Leona fitou-o em silêncio, tão atônita quanto ele.

— Por ter chamado você de histérico, e por ter feito a professora brigar com você.

— Ah! — Simon recordou e fez careta de desleixo. — Nada a ver. — E, em seguida, incentivou Verônica: — Continua, Nica.

— Certo, mas vou ter que voltar ao começo, pra Leona ouvir também.

Tal como Simon, Verônica não parecia dar grandes valores para a discussão. Já Zeke agia como se nunca tivesse presenciado seus amigos brigando. A ansiedade de Leona não passava de uma tempestade em copo d'água.

Acabadas as diferenças, Leona sentou-se ao lado de Simon e ouviu Verônica.

— Tá correndo um boato na Landgraab de que tem um fantasma no banheiro feminino do terceiro andar. Ele está interditado há muitos anos porque uma menina supostamente morreu lá.

Leona sabia do banheiro interditado do terceiro andar. Aquele piso inteiro era proibido aos estudantes. Somente os adultos podiam subir. Lá ficava a administração, o arquivo do colégio e a sala dos professores. Leona sempre imaginou que a Landgraab tinha preguiça de consertar o banheiro.

— Umas engraçadinhas da oitava série convenceram três garotinhas do quinto a irem até lá em cima procurar a fantasma, em troca de ajuda para beijar uns meninos.

Leona já adivinhava aonde isso iria dar.

— As meninas foram. — Continuou Verônica. — Não sei o que aconteceu no banheiro, mas as garotas começaram a gritar, gritar de verdade, e aí, quando o monitor chegou, as três estavam desmaiadas. — Verônica pôs um ponto final dramático. Os olhos dela brilhavam. — A que eu atendi...

— Essa parte é engraçada. — Simon cutucou Leona.

— ...estava toda mijada!

Simon deu uma gargalhada grave. Zeke o imitou. Leona apenas deu uma risadinha enviesada – ela não achava graça em pessoas que, de tão tomadas pelo medo, se mijavam.

— E depois, Verônica? — Instigou Leona, interessada no fantasma.

— Eu não sei. — Assumiu Verônica, vibrando. — Nenhuma das meninas quer contar. A dona Elis disse que, na certa, elas estavam aprontando alguma no banheiro e não querem ser descobertas. Mas pelo estado delas, eu acredito, de verdade, que há um fantasma naquele banheiro! — Verônica concluiu com veemência.

— Ah, Nica. — Simon fez pufff.

— Pufff. — Zeke tinha uma tendência estranha a arremedar Simon.

— Vocês não acreditam!?

Verônica pôs as mãos na cintura e olhou os três com descrença. Ela procurou apoio em Leona, mas pela cara da eldiana, dava para ver que Leona, por sua extensa bagagem com os alunos da Landgraab e pouca com fantasmas, dava razão a teorias menos espirituais.

— Acho que as meninas da oitava armaram uma pegadinha pra as do quinto, e aí ameaçaram bater nelas caso contassem. — Supôs Leona, pondo a mão sobre o lábio.

— Eu concordo. — Comentou Simon.

— Vocês são uns céticos! — Exasperou-se Verônica.

— Eu acredito em você, Nica. — Disse Zeke com coragem tímida. Ele só estava tentando agradar Verônica.

— Obrigada, Zeke. — Respondeu Verônica com ironia magoada.

Nesse instante, o sinal da Schoul tocou. Enquanto andavam para o portão, Leona anunciou:

— Eu vou ao cinema com vocês. Meu padrasto deixou.

— Puxa, que milagre! — Simon expressou um espanto que não era de forma alguma negativo, embora fosse provocador.

— Eba! Você vai amar, Leona! — Animou-se Verônica.

Tudo o que Leona sabia sobre cinemas é que eram iguais ao teatro, só que os atores não estão lá de verdade. O cinema é uma GRAVAÇÃO, aqui chamadas de FILMES. Os filmes são iguais às fotos, só que as pessoas se mexem. Embora o conceito fosse maravilhoso, Leona nunca sentira vontade de ir. Na verdade, ela não pensava que "podia" ir. O senhor Levi nunca sequer mencionou o cinema, e nenhum dos outros adultos com quem convivia jamais a convidou.

— Qual filme vamos assistir? — Perguntou Zeke.

— O filme do Sherlock Holmes.

— Quem é Sherlock Holmes? — Questionou Leona, inocente.

— HEIN!? — Abismaram-se Simon, Zeke e Verônica. — VOCÊ NÃO SABE QUEM É SHERLOCK HOLMES?! Conan Doyle, Leona, Conan Doyle!

— Huh... não... — Leona franziu o cenho.

— Leona... Sherlock Holmes... — Explicava Verônica, devagar, ao chegarem na sala de aula. — O maior detetive do Reino Unido... Personagem dos livros do Conan Doyle... O meu autor favorito...

— Eu não conheço! — Chateava-se Leona, sentando na classe com a cabeça nos braços. — Parem de me olhar assim. Eu não sei quase nada sobre o país de vocês.

— Mas o Sherlock é famoso no planeta todo! — Insistia Simon.

— Eu nunca li os livros dele.

— Sua sem cultura! — Horripilou-se Simon.

— Ora, ele é parte da cultura de vocês ingleses, não da minha! — Leona se defendeu.

— Bom, pra tudo tem uma primeira vez. — Verônica empurrou Simon e passou o braço nos ombros de Leona. — Sábado você vai conhecer o Sherlock Holmes!

XXX

Conforme o sábado se aproximava, mais expectativas Leona reunia. Estava curiosa para ver como é um filme, e também para conhecer Sherlock Holmes, por quem Verônica era apaixonada. Até Zeke, um eldiano, conhecia Sherlock Holmes. Apenas Leona não fazia ideia da existência do detetive. Quer dizer, Leona e o senhor Levi, pois em casa ela comentou sobre Sherlock e o capitão respondeu "quem caralhos é esse homem?"

Quando o sábado chegou, Leona, que outrora recusava passear com os amigos da Schoul por medo de eles se mostrarem pessoas maldosas, acordou já inquieta. Assim que terminou de beliscar o almoço, ela correu para tomar banho. Na saída do banho rápido, esfregou a cabeça agitadamente, de forma que o seu cabelo ficou todo espetado. Vestiu a melhor roupa do seu armário: uma camisa azul claro e uma calça de cintura alta. Ela se olhou no espelho, avaliando a forma como as pessoas da rua iriam vê-la. Após a demorada análise, Leona botou a camisa para dentro das calças e dobrou as mangas até o antebraço. Aprovou as mudanças no visual. Estava até bonitinha.

Se pôs a procurar um sapato bacana, mas não achou nenhum novo e elegante o suficiente para se usar num passeio. Por isso, ela desceu até a loja de chás pelos fundos do apartamento e foi falar com o senhor Levi.

— Ei. — Ela chamou o capitão. Não havia ninguém na loja. — Posso pegar um sapato seu emprestado?

Leona percebeu o sutil espanto admirado que transpassou o olhar do capitão quando ele se virou para responde-la. Também, Leona nunca havia se empenhado tanto em escolher roupas quanto hoje. Não por falta de vontade, mas por de oportunidades.

— Claro, se servirem em você.

Ela vasculhou o armário do capitão. O senhor Levi lustrava e engraxava todos os seus sapatos. Ele cuidava bem de todas as suas roupas, na verdade. Dali em diante, Leona iria se espelhar nele e cuidar direitinho de seus próprios sapatos, para não precisar pegar os dele emprestado no futuro.

Leona escolheu um todo preto e sem cadarços. Como Leona já ia fazer quatorze anos, e como o senhor Levi não era alto, eles calçavam o mesmo número. O sapato ficou perfeito. Ela se olhou no espelho outra vez. Não tinha noção de moda para saber se o sapato combinava com a roupa, mas o importante é que gostou do resultado. Por fim, restou arrumar o cabelo – tarefa que Leona demorou meia hora para completar, pois sua franja nunca aceitava as ordens do pente.

Finalmente, Leona desceu para a loja de chás e ficou lá aguardando o horário de sair. Os clientes fixos estranharam vê-la tão ajeitada, e a senhorita Marper elogiou-a quando a viu. Todo esse gabo elevou a autoestima de Leona. Ela se sentia feliz por estar bonita, principalmente porque aquela roupa não lhe causava desconforto igual ocorreu quando usou o batom da Ouro. Leona se sentia bonita e si mesma simultaneamente.

Quando, enfim, chegou a hora de ir, Leona se despediu do senhor Levi e dos clientes.

— Eu volto antes de escurecer.

— É melhor você levar um suéter, Smith. — Sugeriu o senhor Levi. — Vai esfriar.

Um suéter iria demolir o seu visual. Leona fingiu não escutar o conselho. Ela pegou o bonde e chegou na praça dez minutos adiantada.

Ao chegar na praça e não ver os colegas, a aflição de dias atrás voltou. Leona sentiu um angustiante aperto no peito muito semelhante à vergonha que sentira quando foi enganada por Jason. No entanto, uma enxurrada de alívio e gratificação tomou conta dela ao avistar, pendurados no bonde da linha contrária, os seus amigos da Schoul.

— Oi, Leona! — Verônica veio cumprimenta-la, sorridente. — Você esperou muito tempo?

— Não, acabei de chegar.

Os três refugiados estavam arrumados até os dentes. Zeke vestia uma camisa verde de listras verticais, ao passo que Verônica escolhera um vestido azul e sapatos femininos da mesma cor, e Simon trajava suspensório, gravata preta e boina.

— Vamos pegar o bondão! — Chamou-as Simon, já se dirigindo para o outro ponto, com Zeke em seu encalço.

— O bondão? Por que não me avisaram? — "Bondão" era o bonde vermelho e fechado que percorria distâncias longas. Era mais caro do que o bondinho comum. — Eu não trouxe dinheiro o bastante!

— Quem disse que vamos pagar? — Gritou Simon.

Leona não entendeu. Porém, como Verônica já corria ao encontro do irmão, não dava tempo de perguntar. Leona correu atrás de Verônica. Lá na frente, os dois garotos alcançaram o bondão, e, em vez de entrar no vagão feito pessoas normais, sentaram no para-choque traseiro. Nesse momento, fez-se um estalo na cabeça de Leona. Então é assim que se viaja de graça!

Rindo, ela se sentouno para-choque. Zeke era alto demais para sentar confortavelmente – ele precisava suspender as pernas no ar – mas Simon e Leona conseguiram se espremer no assento estreito. O bondão deu partida antes de Verônica subir. A inglesa deu um gritinho fino. Leona, Zeke e Simon prontamente a estimularam:

— VAMOS, VERÔNICA! VOCÊ CONSEGUE!

Verônica levantou a saia do vestido e aumentou a velocidade. Ela inflou as bochechas, tamanha era a sua determinação. Leona e Simon estenderam as mãos para ajuda-la a subir. Foi a mão de Simon que Verônica pegou.

— Puf... puf... — Ofegava Verônica encostada no vagão.

— Você foi ótima, Nica. — Simon deu um abraço nela. Em seguida, ele retirou um maço de cigarro do bolso. — Alguém quer cigarro?

— Eu não. — Verônica, ainda ofegando, torceu o nariz. — Isso aí fede, e tenho certeza que faz mal.

— Eu não estava perguntando pra você, dona certinha. Cruzes, você age igual a mamãe às vezes. — Depreciou Simon. — Eu perguntei aos que sabem se divertir. Zeke? Leona?

— Eu aceito! — Zeke levantou a mão.

Leona também aceitou. Ela nunca tinha experimentado cigarro.

Cheirou o pequeno cilindro. Como Leona desprovia de referências para comparação, o odor foi indescritível, mas lembrava uma refeição amarga. Simon pôs fogo na parte branca dos cigarros, e em segundos Zeke e ele saboreavam o tabaco com a maestria de quem fuma há pelo menos um ano.

Empolgada para experimentar as agradáveis emoções causadas pelo tabagismo, Leona colocou o cigarro na boca.

E não sentiu nada.

Ela deu mordidinhas e soprinhos no cilindro. A essa altura, Zeke e Simon já soltavam fumaça pelo nariz; era tão lindo... tão adulto. Leona, atrapalhada, tentou segurar o cigarro entre o dedo indicador e o médio como eles. Quase deixou o cigarro cair. Quem diria que era preciso ter faculdade pra fumar!

— Haha. — Simon deu uma risada pomposa. O cigarro dançou na boca dele. — Você tem que tragar com bastante força, Leona, assim. — Simon deu uma sugada. O peito dele inflou. Simon segurou o sabor do cigarro na boca e expirou. Dois jatos de fumaça saíram por suas narinas. — Viu? — Ele se pavoneou.

— Agora conta pra Leona quanto essa caixinha custa... — Verônica resmungou.

— Entendi. — O bondão deu um solavanco e o cigarro quase se foi, mas Leona segurou-o a tempo. — Minha vez! Vamos lá, cigarro.

Leona seguiu o ensinamento de Simon. A fumaça se infiltrou em seus pulmões. Foi como se Leona estivesse botando uma fogueira inteira na boca. Uma queimação dolorosa subiu em seu peito, e seus olhos encheram-se de lágrimas conforme o estômago embrulhava. Em vez de soltar a fumaça elegantemente como Simon, Leona soltou-a tossindo.

— Puxa! Você tá bem, Leona!? Consegue respirar? — Verônica bateu nas costas da eldiana. Leona choramingava com a mão sobre o peito.

— A minha primeira vez também foi assim. — Zeke tentou animá-la.

— C-credo! — Arfou Leona, enfim conseguindo falar. Ela bateu no próprio peito. Uma fumacinha capenga saiu de sua boca. — Como queima! Argh, que gosto ruim! — Ela cuspiu nos trilhos. Sua boca parecia estar cheia de fuligem.

— Depois você se acostuma. — Riu Simon.

— De jeito nenhum. Eu nunca mais quero provar isso na vida. — E jogou o cigarro fora.

— Rá! — Comemorou Verônica.

— É, o clubinho dos chatonildos ganhou um novo membro. — Simon revirou os olhos.

Após vinte minutos de viagem, os quatro saltaram do bonde em movimento. O bondão seguiu seu destino pelos trilhos, deixando os adolescentes em outra parte do centro de Belavista, que esticava mais a cada ano. Nessa área, localizavam-se os teatros, os cinemas, e um milhão de bares e locais para festas. O cinema que passava o filme do Sherlock alocava-se na esquina e se chamava "América". O enorme letreiro de letras vermelhas anunciava "O TRIUNFO DE SHERLOCK HOLMES".

A fila para ver o filme era minúscula, porém, devido ao horário do filme (daqui dois minutos), os adolescentes deduziram que, se não corressem, não entrariam na sessão. Eles apuraram o passo. Simon gritava "FALTA A GENTE, CARA, FALTA A GENTE".

Leona jogou-se no balcão, esbaforida e vermelha pela corrida, contudo feliz por terem chegado a tempo.

— Chegaram na hora. — Disse o funcionário antipático. Assistir pessoas perdendo o horário da sessão era a sua diversão diária. — Quatro ingressos para o filme do Sherlock?

— Isso. — Concordou Verônica. — Quatro assentos juntos, se for possível.

— E uma pipoca grande, cara.

Simon puxou a carteira do bolso e pagou o ingresso dele, o da irmã, e o saco de pipocas. Zeke entregou dois dólares amassados. Leona abriu seu porta-moedas e entregou uma nota dobrada de um dólar ao funcionário, que no momento devolvia um dólar a Zeke e catava o resto do troco. A eles foram designadas as cadeiras 40, 41, 42 e 43.

— Bom filme. — Desejou o funcionário ao entregar o troco de Leona.

— Muito obrigada.

Enquanto Leona agradecia, Verônica a puxava pelo braço para a porta dupla da sala do filme. Simon e Zeke já haviam desaparecido através dela. Leona trancou a respiração e arregalou os olhos. Seu estômago borbulhava de excitação.

Verônica empurrou a porta dupla. A inglesa passou primeiro, puxando a eldiana pelo braço. Leona boquiabriu-se ao vislumbrar aquela sala larga, comprida e escura. Seu braço amoleceu na mão de Verônica. Leona flutuava. Ela nem reparou na inglesa a guiando. A sala era tão escura quanto a noite. Inúmeras cadeiras distribuíam-se pelo espaço generoso, todas ocupadas, exceto por quatro. A única iluminação vinha de uma luz forte e branca proveniente de uma cabine no topo da sala. Por causa da luz, reparou que as cadeiras eram vermelhas-escuro.

A tela estampava diante dos espectadores a ilustração de um bicho orelhudo dono de um sorriso que quase transbordava do seu rosto perfeitamente redondo. Uma música contagiante e divertida preenchia o ambiente.

— Droga, já vão passar o curta de abertura! — Sussurrou Verônica.

— Curta de abertura?

Leona não sabia que era falta de educação falar alto no cinema, e por conseguinte levou uma enxurrada de "shhhhhs" das pessoas sentadas nas fileiras as quais as meninas atravessavam. Verônica ia sempre na frente, puxando Leona pelo braço para a eldiana não se perder. As meninas espremiam-se entre os joelhos encolhidos dos espectadores. Alguns as repreendiam, incomodados pela perturbação.

— Aqui, meninas. — Murmurou a voz de Zeke.

Verônica sentou-se ao lado do irmão. Simon atacava a pipoca. Leona ocupou a cadeira a direita de Verônica. O assento era acolchoado e se inclinava para trás confortavelmente. Diante de Leona, todo o seu campo de visão era ocupado por aquele desenho colorido e pelas cabecinhas das pessoas nos assentos adiante.

— Ué, um curta colorido? — Perguntou Simon, cheio de pipoca nos dentes.

— Parece que sim. — Verônica sussurrou de volta, e pegou pipoca.

O deslumbramento de Simon era compartilhado com os demais. As cores maravilharam a todos. As pessoas não paravam de sussurrar elogios e manifestações de surpresa. Para Leona, o fato de ser colorido era indiferente, pois a experiência como um todo já lhe causava uma sensação de júbilo, um sentimento misto de "incrível" com "como eu nunca vim aqui antes?"

O bicho sumiu. Na tela apareceu os dizeres "de Walt Disney, Mickey Mouse EM CORES". O anúncio logo desapareceu e deu lugar ao título do curta, "O concerto". O cinema foi preenchido com o som de aplausos e gritos eufóricos; Leona olhou para os lados em busca das pessoas que aplaudiam, e aí se deu conta de que o som era uma GRAVAÇÃO. Nossa, era tão real...

Os autores dos aplausos sugiram na tela: uma multidão de animais. Esses animais, contudo, só tinham de animalesco os rostos e as patas. De resto, se comportavam tal qual seres humanos. Eles usavam roupas, chapéus, e falavam a língua dos homens. Os animais aplaudiam uma bandinha no centro do cenário florestal, e essa banda, também composta por bichos-humanos, incluía o animal orelhudo e sorridente, que agora, por causa do rabo fino, Leona notava ser a representação de um rato.

A bandinha iniciou o concerto. Os animais regidos pelo rato eram proficientes em seus instrumentos. Era tão perfeito que Leona, inconscientemente, começou a acreditar que era de verdade. A disciplina da banda não durou. O flautista, um pato branco, se desentendeu com os demais integrantes e encabeçou uma série de trapalhadas pitorescas que arrancaram gargalhadas de Leona e dos outros espectadores. As risadas duraram até o maestro roedor retomar o controle da banda, apenas para perde-lo segundos depois, quando um ciclone invadiu o concerto e levou os animais pelos ares.

E mesmo no meio do temporal, a banda não parava de tocar.

Leona ria tanto das trapalhadas quanto dos absurdos. Primeiro: animais não tocam instrumentos; segundo: se esse ciclone fosse real, os animais seriam mortos pela força do vento. No entanto, nesse o curta, o que realmente importava era a fantasia e a diversão, e Leona permitiu que ambas entrassem em seu coração.

Enfim, o ciclone foi embora, e com ele a história da banda de animais-humanos. Leona se entristeceu.

— Poxa, já acabou? — Ela fez beicinho. — Eu gostei tanto...

— Shhhh. — Fez Verônica, empolgada. — O filme vai começar!

Então, Leona entendeu por que os espectadores estranharam as cores, afinal, as imagens que vieram a seguir estavam em preto-e-branco, feito as fotografias comuns. Uma música diferente, com teor adulto e fúnebre, substituiu a melodia contagiante do curta. O título de Sherlock Holmes apareceu.

— É agora! — Verônica tremia de excitação.

O filme, naturalmente, tinha um ritmo mais lento e menos infantil do que Mickey Mouse. Em vez de animais, ele era feito por pessoas de verdade — atores, como nos teatros.

— Aquele ali é o Sherlock! — Verônica apontou um homem esguio e garboso.

— Legal. — Reagiu Leona sem estar impressionada. Todo aquele alvoroço por causa de um homem comum?

— Eu só acho que esse filme devia ser feito por ingleses, já que o Sherlock é nosso. — Confessou Simon, entupido de ressentimento e de pipoca. Os cinéfilos, incluindo Zeke e Verônica, fizeram shhh.

O filme do Sherlock era bacana e tudo o mais, mas foi Mickey Mouse, o rato que abriu o espetáculo, quem conquistou Leona. Não conseguia parar de pensar naqueles desenhos que se movimentavam, falavam e dançavam. Será que, se ela se esforçasse bastante, os seus desenhos feios conseguiriam cantar e dançar ao lado da turma de Mickey? Poderiam eles hipnotizar as pessoas? Rapidinho, Leona tirou essa ideia da cabeça. Ela nem sabia desenhar direito.

Pelas próximas uma hora e vinte minutos, Leona permaneceu naquela confortável cadeira, assistindo o detetive Sherlock e seu parceiro, o doutor Watson, resolver o mistério por trás da carta misteriosa de um homem morto. Ela nunca tinha lido os livros de Sherlock, mas foi capaz de compreender o enredo e ansiar pelo seu desfecho, além de tentar, entrementes, resolver o mistério.

Entretempos, sobretudo nos momentos de tensão, Leona beliscava um pouco da pipoca de Simon, e o amigo concentrado nem reparava. Verônica, abestalhada, fitava Sherlock com olhares semelhantes aos que Leona dava para o cartaz de Evelyn Nesbit. E Zeke, na última cadeira, nem piscava, tamanho era o poder de hipnose que a tela exercia sobre ele.

Sem reparar, Leona se encolheu e abraçou a si mesma. Estava esfriando. Deveria ter trazido um suéter.